quinta-feira, dezembro 13

Leitura sob chuva


Assim começa o livro...

1

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia dezasseis de Junho de mil novecentos e onze. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros – uns puxando os outros – através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda.

É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse ano esquecido de mil oitocentos e oitenta, aquando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.

Vamos pois começar desde o princípio.

2

Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes estão não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegada à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade.

Outros teve que acharam graça, aproveitaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se tinha transformado num pequeno clube de ideias.

Fisicamente, Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de «o nosso sapinho capenga»; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso metro e sessenta e o facto de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes.

- É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam – dissera Trony, para logo acrescentar -, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas. 

quarta-feira, dezembro 12

Leitor do Oriente

Dani Montero Galán

A turma

Eu também já tive turma, ou melhor, fiz parte de turma e sei como é importante em certa idade essa entidade, a turma.

A gente é um ser racional, menos quando em turma. Existe, por exemplo, alguma razão para um grupo de pessoas sentar todo dia numa escadaria ou meio-fio e passar horas conversando?

Esraa Hedary
Você pode falar a um filho, por exemplo, que refrigerantes engordam e chocolates dão mais espinhas em quem já tá na idade das espinhas. Ele nem ouvirá. Mas, se um dia a turma resolver, ele passará a tomar só água com limão e pegará nojo de chocolate.

Você pode falar que cabelo tão comprido é incômodo, calorento, atrapalha, mas que nada, ele te pedirá dinheiro para comprar mais xampu. Agora, se a turma resolver cortar careca, ele aparecerá de repente careca no café da manhã e nem quererá falar do assunto - qual problemas em cortar careca?

Você pode dizer que bossa nova é bom, e mostrar jornais e revistas, provar que só "Garota de Ipanema" já recebeu centenas de gravações em todo o mundo, mas ele aumentará o volume do rock pauleira ou da tecno-bost. Até o dia em que alguém da turma aparece com um CD de bossa nova e ele troca Axel Rose por Tom Jobim de um dia para o outro.

A turma tem modas, como quando resolvem todos arregaçar as barras das calças, que usavam arrastando pelo chão.

A turma tem traumas, como quando o namoradinho de uma se apaixona pela namoradinha de outro e...
A turma tem linguagem própria, uma variante local de um ramal regional da vertente adolescente da língua.

A turma adora sentar na calçada e na praça e falar sobre o que viram em casa na televisão.

A turma tem duplas de amigos e amigas mais chegados, e trios, e quartetos, que num grande minueto anarquista se misturam nas festas de aniversário.

Ninguém da turma dança até que alguém da turma começa a dançar, aí dançam todos trocando de par até acabarem dançando todos juntos como turma que são.

Um da turma se tatua, todos da turma querem se tatuar.

Um bota uma argola no nariz, os outros, para variar, botam no lábio, na sobrancelha e na orelha e...

A turma é isso aí, cara, uma reunião diária de espinhas e inquietações, habilidades e temperamentos, o barulho das personalidades se misturando, o jogo das informações e dos sentimentos rolando nas conversas sem fim, nas andanças sem cansaço, nas músicas compartilhadas, no refri com três canudos e uma empadinha pra quatro.

Na turma pouco dá pra todos, todo mundo divide, cada um contribui, a turma se une partilhando e repartindo.

A turma ri como só na turma se ri.

A turma julga quando erramos.

A turma castiga com silêncio e ironias.

A turma te chama, te reprime, te libera, te revela, te rebela, te maltrata, te orgulha, te ama e te envolve, te afasta e te atrai, mas a turma é assim porque a turma é a turma.

Até o dia em que - disse a todos os meus filhos - cansamos de ter turma e passamos a ser gente. E todos me disseram que sou um chato, mas o primogênito hoje já concorda: o tempo da turma passa.

Mas, aqui entre nós, como dá saudade!
Domingos Pellegrini. "Ladrão que rouba ladrão"

terça-feira, dezembro 11

Recolhimento


Assim começa o livro...

Tinha acordado ou continuava sonhando? Aquele calorzinho no peito do pé direito continuava lá, uma sensação estranha que arrepiava todo o seu corpo e lhe revelava que não estava sozinha naquela cama. As lembranças vinham à sua cabeça em tropel, mas iam se organizando como palavras cruzadas preenchidas lentamente. Depois do jantar elas tinham ficado alegres e um pouco altas com o vinho, passando do terrorismo aos filmes e às fofocas sociais, quando, de repente, Chabela olhou o relógio e imediatamente se levantou, pálida: “O toque de recolher! Meu Deus, não vai dar mais tempo de chegar a La Rinconada! Como passou o tempo!”. Marisa insistiu que ficasse e dormisse com ela. Não havia problema, Quique tinha ido a Arequipa para uma reunião da diretoria no dia seguinte cedo na cervejaria, elas eram donas do apartamento no Golfe. Chabela ligou para seu marido. Luciano, sempre tão compreensivo, disse que não se preocupasse, ele se encarregaria de que as duas meninas fossem pontualmente esperar o ônibus do colégio. Que Chabela ficasse mesmo na casa de Marisa, era bem melhor que ser parada na rua por uma patrulha, se infringisse o toque de recolher. Maldito toque de recolher. Mas, claro, o terrorismo era pior.

Chabela dormiu com ela e, agora, Marisa sentia a sola do pé da amiga no peito do seu pé direito: uma leve pressão, uma sensação suave, morna, delicada. Como foi que as duas acabaram tão perto uma da outra naquela cama de casal tão vasta que, quando a viu, Chabela brincou: “Escute aqui, Marisita, você pode me dizer quantas pessoas dormem nesta cama gigante?”. Lembrou que tinham se deitado cada uma em seu canto, separadas no mínimo por meio metro de distância. Qual delas tinha se mexido tanto no sono que agora o pé de Chabela estava pousado sobre o seu?

Não se atrevia a fazer nenhum movimento. Continha a respiração para não acordar a amiga, para que ela não tirasse o pé acabando com aquela sensação tão agradável que se expandia do peito do seu pé para o resto do corpo e a deixava tensa e concentrada. Devagarzinho foi divisando, nas trevas do quarto, umas réstias de luz nas persianas, a sombra da cômoda, a porta do closet, a do banheiro, os retângulos dos quadros nas paredes, o deserto com a serpente--mulher de Tilsa, a câmara com o totem de Szyszlo, o abajur de pé, a escultura de Berrocal. Fechou os olhos e escutou: muito fraca, mas compassada, aquilo era a respiração de Chabela. Estava dormindo, talvez sonhando, e então tinha sido ela mesma, sem dúvida, quem se aproximou do corpo da amiga durante o sono.

Surpresa, envergonhada, perguntando outra vez se estava acordada ou sonhando, Marisa afinal tomou consciência daquilo que seu corpo já sabia: estava excitada. Aquela sola delicada aquecendo o peito do seu pé lhe havia acendido a pele e os sentidos e agora, com certeza, se passasse a mão entre as pernas estaria molhadinha. “Você ficou doida?”, perguntou a si mesma. “Ficar excitada com mulher? Desde quando, Marisita?” Tinha se excitado sozinha muitas vezes, naturalmente, e também se masturbava uma vez ou outra roçando uma almofada entre as pernas, mas sempre pensando em homens. Pelo que se lembrava, em mulher nunca, jamais! No entanto, agora estava excitada, tremendo da cabeça aos pés e louca de vontade de que estivessem se tocando não apenas os pés, mas também as outras partes do corpo, e ela sentisse em toda a pele, tal como no peito do pé, a proximidade e a tepidez da sua amiga.

Mexendo-se suavissimamente, com o coração aos pulos, simulando uma respiração semelhante à do sono, Marisa virou-se um pouco, de tal modo que, embora sem tocá-la, sentiu que agora sim estava a poucos milímetros das costas, das nádegas e das pernas de Chabela. Ouvia melhor sua respiração e teve a impressão de sentir um alento recôndito que emanava daquele corpo tão próximo, chegava até ela e a envolvia. A despeito de si mesma, como se não se desse conta do que estava fazendo, moveu lentamente a mão direita e pousou-a na coxa da amiga. “Bendito toque de recolher”, pensou. Sentiu o coração acelerando: Chabela ia acordar, ia empurrar sua mão: “Tire, não me toque, você ficou maluca?, o que está havendo?”. Mas Chabela não se mexia e parecia continuar mergulhada num sono profundo. Sentiu-a inspirar, expirar, teve a impressão de que aquele ar vinha até ela, entrava por seu nariz e sua boca e aquecia suas vísceras. De vez em quando, no meio de sua excitação, que absurdo, pensava no toque de recolher, nos apagões, nos sequestros — principalmente o de Cachito — e nas bombas dos terroristas.

Que país, que país!

segunda-feira, dezembro 10

Siga a lâmpada


Das vantagens de ser bobo

Roxanne Strople Driedger
O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando."

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Clarice Lispector

domingo, dezembro 9

Tapete mágico

Tom Sarmo

A moça tecelã

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.
Marina Colassanti

sábado, dezembro 8

Mostre o que estás lendo...



'Filtro' versão livresca

Senhoras e senhores do ano de 2019: livros, nunca deixem de usar livros! Se eu pudesse dar uma dica sobre o futuro seria esta: usem os livros!

Os benefícios a longo prazo do uso de livros estão provados e comprovados pela ciência; já a única base confiável de meus conselhos são mesmo... os livros... Não vou compartilhar conselhos, garanto que os livros contém todos os conselhos de que você precisa.

Aproveite bem: nos livros habitam o poder, a beleza e a juventude. Pode crer, daqui a vinte anos você vai evocar os seus livros e perceber de um jeito que você nem desconfia, hoje em dia, quantas, tantas alternativas os livros escancararam a sua frente.

Pegue, pague, sinta o cheiro, o peso, a textura; compre, venda, aprecie a capa, a cor, a moldura. Não se preocupe com o futuro, ocupe-se dele, a chegar, página por página. Os livros são máquinas de viajar no tempo.

Todo dia, leia, conheça novos livros, recomende outros, troque, doe, dê ou... Empreste, se quiser, mas diga adeus aos livros emprestados. Nos livros, a gente conhece pessoas que só poderia conhecer nos livros, pessoas de verdade e de mentira, ambas reais. E através dos livros, você conhece melhor quem está a seu lado. Livros aproximam as pessoas. Livros aproximam os continentes.

Talvez você case... Talvez tenha filhos.. Talvez se divorcie... talvez bodas de diamante. Os livros são marcadores no livro de sua vida. Desfrute dos livros, use-os de toda maneira que puder, mesmo! Se precisa de distração, se busca instrução, se estuda, se descansa, tem livro pra tudo. Se quer saber de onde vem, tem; se quer saber para onde vai, uai! Se nem aí pra isso, também!

Leia os livros que seus pais leram, você vai encontrá-los por lá. Leia os livros de seus filhos, aproveite a desculpa! Os livros guardam todos nossos amores, mesmo os perdidos. Tudo vivo, nos livros, sempre. Eles são a melhor ponte com o passado e guardam o futuro.

Livros vão e vem; alguns não, os de cabeceira. Livros diminuem as distâncias geográficas e de estilos de vida. Livros fazem a gente mais velha quando jovem, e mais jovem quando velha. Em São Paulo, nos levam à praia. No Rio, à montanha. Livros, use e os abuse, como enfeite, por deleite, ao encalço, como calço, a metro ou aquilo outro, isto: estique-os... entregue-se, livre sua pele, filtre e infiltre livros ao brilho solar, livros à luz do luar.

Cuidado com os conselhos que comprar, com os bens que vão se lhe oferecer. Gaste seu dinheiro, em coisas fúteis, úteis, supérfluas ou essenciais, torre ou invista, seja pão duro ou manteiga derretida.

Adquira o que precisa, consuma o que não precisa. Mas guarde o troco para os livros. Livros costumam ter mais valor que preço. Use os livros, como quiser usar, agora, como nunca; agora, como sempre, Use os livros, a mais não poder usar.

Pedro Bial,  versão de "Filtro solar", que era uma tradução de "Wear Sunscreen", da jornalista americana Mary Schmich, publicado em 1997 no jornal "Chicago Tribune".

sexta-feira, dezembro 7

Estante infinita


Voo de Telmo Padilha

O romancista Jorge Amado nasceu em Ferradas, lugarejo que naquele tempo da conquista da terra era um distrito do município de Itabuna, no Sul da Bahia. Lá, naquele pedaço das terras do sem fim, também nasceu Telmo Padilha (1930-1977), poeta das questões profundas, que morreu em acidente automobilístico. O poeta compadre de Jorge Amado está presente em antologias no Brasil e no exterior. Tem livros de poesia publicados na Inglaterra, Japão, Itália, Suíça e Uruguai. Ganhou prêmios literários importantes.

De sua poesia, disse Manuel Bandeira que “é rica de símbolos e metáforas”, enquanto Carlos Drummond de Andrade observou que “se faz sentir e amar pela concentração e o poder de síntese.” Adonias Filho destaca que “os valores constantes são humanos e, em conseqüência, universais e eternos: a morte, o medo, o tempo, o nada, a memória. Circunscrita a esses valores, invulnerável a qualquer exterioridade, a poesia de Telmo Padilha pode converter-se em um marco que congregue toda a sua geração.”

Encontra-se nessa poesia a constituição de um discurso reflexivo, que informa proposições doloridas na clave das indagações existenciais. Perguntas sem resposta que se manifestam sobre essa difícil e enigmática travessia do viver, exposta aos olhos como difícil de aceitar, com sua problemática impregnada da vida, morte, solidão, incomunicabilidade e infância sem retorno. Essa poesia de aparência fácil resiste dentro de muros em que a criatura humana se vê cercada de angústia em função de circunstâncias matizadas pela fugacidade do tempo. Nessa travessia que aloja nos ouvidos cantos roucos ritmados de absurdos, o poeta procura sempre se mover dentro de atitudes críticas. Dessa atmosfera vertiginosa, na aventura que comporta abismos e enigmas, pobreza, sofrimento, insônia, apresenta-se com esse poder de tocar nos seres e coisas com profundidades e larguras. Retira sensibilidades e reflexões entre cortinas espessas da existência, densidade na insensatez do mundo, riqueza na metáfora dolorida sempre hóspede de assombro, que faz de Telmo Padilha um poeta com todas as essencialidades de que são dotados os bons poetas. Não preciso mais dizer que é um dos poetas de minha predileção.

Com a tristeza que molha meus olhos agora, tento quebrar a saudade, conversando e cantando com o poeta e amigo:
– Ah, Telmo Padilha/ Fale-me que sem a poesia/ o sol não pinta os desertos/ Com as cores da manhã./ O dia não entardece/ Nos braços do ocaso./ Com a razão e a emoção/ Não se estende a palavra/ Pelo vazio do vasto mundo./ A vida é mais pobre/ Sem esse canto agudo/ que em ti é feito exausto/ Como vamos perceber/ Teus passos de agonia, / que ao vento estremecem/ e te escutas nos desvãos?/ Ah, Telmo Padilha/ Fale-me de tua cidade, / A nossa querida Itabuna,/ De todos nós em teu grito,/ De Hélio, Valdelice,/ Firmino, Florisvaldo, / Cada um no seu canto/ Remoendo o seu tanto/ Fale-me dessas ruas,/ De fato não são ruas, /É uma mesma rua /Que começa solitária/ E termina solitária / Nas vestes de teu ódio,/ Medos e incertezas/ Conquanto seja abrigo,/ Música cortante da paixão./ No teu dia cor de sombras/ Só podemos amar com dor,/ na forma autêntica da dor/ Onde há setembros/ Que vêm e somem/ Sem saber para onde vão./ Fale-me de teu voo/ Nessa viagem duvidosa/ Que nos oprime de aflição.
Cyro de Mattos

Dica de viagem

Genebra (Suíça)

Notícia de jornal

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome.

Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

Morreu de fome. 
Fernando Sabino

quinta-feira, dezembro 6

Livro em perigo


Visão

Sally Strand
No centro do dia cinzento, no meio da banal viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos todos os motivos de agir e de cruzar os braços, de insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros, presos ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu. Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave domestica – eu vinha como um homem que vem e vai, e já teve noites de tormentas e madrugadas de seda, e dias vividos com todos os nervos e com toda a alma, e charnecas de tédio atravessadas com a longa paciência dos pobres – eu vinha como um homem que faz parte da sua cidade, e é menos um homem que um transeunte, e me sentia como aquele que se vê nos cartões-postais, de longe, dobrando uma esquina – eu vinha como um elemento altamente banal, de paletó e gravata, integrado no horário coletivo, acertando o relógio do meu pulso pelo grande relógio da estrada de ferro central do meu país, acertando a batida do meu pulso pelo ritmo da faina quotidiana – eu vinha, portanto, extremamente sem importância, mas tendo em mim a força da conformação, da resistência e da inércia que faz com que um minuto depois das grandes revoluções e catástrofes o sapateiro volte a sentar na sua banca e o linotipista na sua máquina, e a cidade apareça estranhamente normal – eu vinha como um homem de quarenta anos que dispõe de regular saúde, e está com suas letras nos bancos regularmente reformadas e seus negócios sentimentais aplacados de maneira cordial e se sente bem disposto para as tarefas da rotina, e com pequenas reservas para enfrentar eventualidades não muito excêntricas – e que cessou de fazer planos gratuitos para a vida, mas ainda não começou a levar em conta a faina da própria morte – assim eu vinha, como que ama as mulheres de seu país, as comidas de sua infância e as toalhas do seu lar – quando aconteceu. Não foi algo que tivesse qualquer conseqüência, ou implicasse novo programa de atividades; nem uma revelação do Alto nem uma demonstração súbita e cruel da miséria de nossa condição, como às vezes já tive.

Foi apenas um instante antes de se abrir um sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro, uma figura de mulher que nesse instante me fitou e sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um arranco do carro, na confusão do trafego da rua estreita e rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de luz. Com vento agitando árvores e derrubando flores, e o mar cantando ao sol.
Rubem Braga

quarta-feira, dezembro 5

Quando chega o verão...


Os transparentes

– ainda me diz qual é a cor desse fogo…

o Cego falou em direcção à mão do miúdo que lhe segurava o corpo pelo braço, os dois num medo de estarem quietos para não serem engolidos pelas enormes línguas de fogo que saíam do chão a perseguir o céu de Luanda

– se eu soubesse explicar a cor do fogo, mais-velho, eu era um poeta desses de falar poemas

com voz hipnotizada o VendedorDeConchas acompanhava as tendências da temperatura e guiava o Cego por entre caminhos mais ou menos seguros onde a água jorrante dos canos rebentados fazia corredor para quem se atrevia a circular por entre a selva de labaredas que o vento açoitava

– te peço, vê você que tens vistas abertas, eu estou sentir na pele, mas quero ainda imaginar na cor desse fogo

o Cego parecia implorar numa voz habituada a dar mais ordens que carícias, o VendedorDeConchas sentiu que era falta de respeito não responder àquela dúvida tão concreta que pedia, numa voz de carinho, uma simples informação cromática,

embora difícil e talvez impossível

o miúdo puxou de dentro de si umas lágrimas quentes que o levassem até à infância porque era aí, nesse reino desprevenido de pensamentos, que uma resposta florida poderia nascer, viva e fiel ao que via

– não me deixe morrer sem saber a cor dessa luz quente

as labaredas gritavam com força e mesmo quem fosse cego de ver devia sentir uma sensação amarela de invocar memórias, peixe grelhado com feijão de óleo de palma, um sol quente de praia ao meio-dia, ou o dia em que o ácido da bateria lhe roubou a animação de ver o mundo

– mais-velho, estou a esperar um voz de criança para lhe dar uma resposta

vista de perto ou de longe, a noite era uma trança em negrume e clausura, a pele de um bicho nocturno pingando lama pelo corpo, havia estrelas em brilho tímido no céu, torpor de certa maresia e as conchas na areia a estalar um calor excessivo, os corpos das pessoas em cremação involuntária e a cidade, sonâmbula, chorava sem que a lua a aconchegasse

o Cego tremeu os lábios num sorriso triste

– não demora, candengue, a nossa vida está quase grelhada

as nuvens longe, o sol ausente, as mães gritando pelos filhos e os filhos cegos não viram a luz fátua dessa cidade a transpirar sob o manto encarniçado, preparando-se para receber na pele uma profunda noite escura – como só o fogo pode ensinar

as línguas e as labaredas do inferno distendido numa caminhada visceral de animal cansado, redondo e resoluto, fugindo ao caçador na vontade renovada de ir mais longe, de queimar mais, de causar mais ardor e, exausto, buscar a queima de corpos em perda de ritmia humana, harmonia respirada, mãos que acariciavam cabelos e crânios alegres numa cidade onde, durante séculos, o amor tinha descoberto, entre brumas de brutalidade

um ou outro coração para habitar

– mais-velho, qual era mesmo a pergunta?

a cidade ensanguentada, desde as suas raízes ao alto dos prédios, era forçada a inclinar-se para a morte e as flechas anunciadoras do seu passamento não eram flechas secas mas dardos flamejantes que o seu corpo, em urros, acolhia em jeito de destino adivinhado

e o velho repetiu a sua fala desesperada

– me diz só a cor desse fogo..
.
Ondjaki, "Os transparentes"