quarta-feira, dezembro 22

Tempo de livros

 

"Tempo de livros" com Tintin, Hergé

Diante da lei

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde. -“É possível” – diz o guarda. -“Mas não agora!”. O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz. -“Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim”.

O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferenca, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: -“Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste”.

Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guada durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima.

Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. -“Que queres tu saber ainda?”, pergunta o guarda. -“És insaciável”.

-“Se todos aspiram a Lei”, disse o homem. -“Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?”. O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: -“Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a”.
Franz Kafka. " O processo"

terça-feira, dezembro 21

Leitura em manhã invernosa

 


O céu

Georgiana Chitac 
Não me lembro quando estive em Caxambu, acompanhando meu pai. E uma noite, com uma amiga, mas dessas que não enchem o ar com palavras, fomos para um descampado. E lá, meio inclinada para trás, olhei para o céu.

O céu, no campo, é de um azul-marinho profundo e veem-se como cristais milhares de estrelas. Olhando para o céu, fiquei tonta de mim mesma.
Como?! Como o ser humano é genial! Como é que foram inventar o planetário?

No dia 25 de julho de 1971 fui ver o céu no planetário. Era domingo. E nesse dia iam mostrar Júpiter em particular. O céu é coisa de louco ou de gênio. Fiquei muito contente de ver o Sol. E era dia do signo Sagitário, que é meu. Júpiter é o mais poderoso de todos os planetas. Tem uma série de satélites.

Depois de 15 de agosto vou ver o planeta Marte. Será que algum planeta, além da terra, é habitado? Somos uns privilegiados. Sobra tanta matéria-prima aqui conosco que até animais temos, animais puros como o tigre e um animal horrível cujo o nome não quero escrever.

Juro que nós devíamos ser mais unidos: porque o Universo é tão grande que ultrapassa qualquer linha de horizonte. Se nós não nos amarmos, estamos perdidos. É melhor nós nos encontrarmos em Deus.
Clarice Lispector

segunda-feira, dezembro 20

Pronto para o voo

 


Cinco coisas que Alice no País das Maravilhas revela sobre o cérebro

Lewis Carroll foi extremamente modesto sobre sua obra-prima. "A heroína passa uma hora embaixo da terra e encontra vários pássaros, feras, etc (nenhuma fada), que falam", escreveu ele na revista Punch. "A coisa toda é um sonho, mas que eu só quero ver revelado no fim."

Já se passou um século e meio desde que Alice fez esta jornada pela primeira vez — e o conto de Carroll inspirou inúmeros filmes, pinturas e até um balé.

Mas o que poucos sabem é como Alice no País das Maravilhas contribuiu para nossa compreensão do cérebro humano — não só para a psicanálise freudiana, mas para a neurociência moderna.

É que, muito antes de termos a tecnologia para mapear o "país das maravilhas" do cérebro, Carroll já estava traçando seus contornos com seus experimentos mentais.

"(A obra) explora muitas ideias sobre se existe um eu contínuo, como nos lembramos de coisas do passado e pensamos sobre o futuro — há muita riqueza ali sobre o que sabemos sobre cognição e ciência cognitiva", diz Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos EUA.

Todos nós podemos aprender algo sobre nós mesmos com Alice no País das Maravilhas — se olharmos da maneira certa.

A BBC Future acompanha a jornada dela aos limites do cérebro.

'Beba-me'

"Bem, eu vou comê-lo", pensou Alice, "e se isso me fizer crescer, posso pegar a chave; se me tornar muito pequena, eu passo por baixo da porta. Então, de qualquer maneira, eu vou para o jardim, e não me importa o que aconteça!"

Em uma de suas primeiras aventuras, Alice encontra uma poção com um rótulo que diz "beba-me" — e após tomá-la, ela encolhe a meros 25 centímetros de altura.

Um bolo mágico, então, tem o efeito oposto — ela cresce tanto que sua cabeça bate no teto.

Estas cenas estão entre as mais memoráveis ​​do livro e da adaptação cinematográfica da Disney — e foram as primeiras a chamar a atenção de cientistas.

Em 1955, um psiquiatra chamado John Todd descobriu que certos pacientes relatavam exatamente a mesma sensação de "estar se esticando como um telescópio".

Todos eles sofriam de um distúrbio neurológico que afeta a percepção visual e que hoje é conhecido como micropsia ou Síndrome de Alice no País das Maravilhas (AIWS, na sigla em inglês), um mal que afeta sobretudo crianças.

"Já ouvi pacientes dizendo que as coisas parecem de cabeça para baixo ou, inclusive que suas mães estão do seu lado, quando estão do outro lado da sala", contou Grant Liu, neurologista da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, nos EUA, que estudou o fenômeno.

Os diários de Carroll mostram que ele sofria de enxaquecas, episódios que costumam desencadear a síndrome — levando alguns a especular que ele estava usando suas próprias experiências como inspiração.

Liu suspeita, por sua vez, que a síndrome pode ser provocada por uma atividade anormal nos lobos parietais do cérebro, que são responsáveis ​​pela consciência espacial, distorcendo o senso de perspectiva e distância.

Mas apesar do fato de que podem ser perturbadoras, essas ilusões passageiras costumam ser geralmente inofensivas.

"A maioria não é afetada — e nós apenas garantimos que o paciente não está louco e que outras pessoas também vivenciam essas coisas", diz Liu.

Hoje em dia, os neurocientistas estão tentando provocar a ilusão em indivíduos saudáveis ​​— eles acreditam que isso pode lançar luz sobre a maneira como criamos nosso senso de identidade no aqui e agora.

A Duquesa e o Gato de Cheshire

"Desta vez, não podia haver nenhuma dúvida: ele não era nada mais nada menos que um porco, e ela percebeu o quão absurdo era carregá-lo para qualquer lugar."

O "país das maravilhas" está cheio de personagens que mudam de forma, incluindo a grotesca Duquesa e seu bebê chorão.

Enquanto Alice o pega nos braços, o nariz do bebê fica mais arrebitado; seus olhos ficam mais próximos e ele começa a grunhir. E assim, antes que ela perceba, o bebê se transforma em um porco.

Em outro momento da história, Alice joga croquet usando flamingos como tacos e encontra o sorridente gato de Cheshire, cujo sorriso permanece mesmo quando seu corpo desaparece.

Nos sonhos, objetos se transformam e adquirem com frequência novas identidades, e essa característica é uma das maneiras mais inteligentes pelas quais Carroll evocou a mente adormecida nas aventuras de Alice — e a estranha sensação de que o tempo está pregando uma peça nela.

Os neurocientistas acreditam que o fenômeno se deve à maneira como o cérebro consolida nossas memórias enquanto dormimos.

Ele cimenta as lembranças vinculando-as com outros eventos para construir a história de nossas vidas.

Ao cruzar as referências de uma recordação sobre um porco com um acontecimento com um bebê, por exemplo, ambos se fundem na paisagem onírica com um efeito surrealista.

Humpty Dumpty e o Jaguadarte

— Meu nome é Alice, mas...

— É um nome bem estúpido!, Humpty Dumpty interrompeu com impaciência.

— O que significa?

— Um nome precisa significar alguma coisa?, Alice perguntou incrédula.

— Claro que precisa!, Humpty Dumpty disse com uma breve risada.

— Meu nome significa a forma que eu tenho, e é uma forma bem bonita também. Com um nome como o seu, você poderia ter qualquer forma, quase.

Na sequência Alice Através do Espelho, Carroll continua com suas explorações — incluindo algumas incursões divertidas sobre a natureza do discurso.

Começa no primeiro capítulo, quando Alice lê um poema chamado Jaguadarte (na tradução para o português de Augusto de Campos).

Era briluz. As lesmolisas touvas
roldavam e reviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

"Parece muito bonito", disse Alice quando terminou, "mas é um pouco difícil de entender"!

Alice acertou na mosca: o poema de alguma forma apela para nosso senso de correção gramatical, embora as palavras em si não tenham nenhum sentido.

Os neurocientistas que exploram o maquinário da linguagem hoje usam "frases de Jaguadarte" durante exames de tomografia cerebral, para mostrar que o significado e a gramática são processados ​​de forma totalmente separada no cérebro.

Mas o experimento mais importante de Carroll neste sentido é quando Alice conhece Humpty Dumpty, e seu diálogo explora a natureza das palavras.

Um nome como Humpty Dumpty é a melhor maneira, como ele diz, de evocar a forma do personagem, um ovo antropomórfico, do que qualquer outro som aleatório?

Esta é uma questão filosófica antiga que remonta a Platão.

Anteriormente, os cientistas presumiam que isso seria impossível — que as palavras são arbitrárias e que os sons não podiam ter um significado inato.

Mas agora estão investigando a questão, e talvez Humpty Dumpty tivesse razão.

Considere as palavras "kiki" e "bouba". Se tiverem que rotular formas diferentes com estes nomes, a maioria das pessoas escolhe "kiki" para um objeto pontiagudo e "bouba" para um redondo.

Esse "simbolismo sonoro" é agora uma área popular de pesquisa, embora a razão não seja totalmente clara; uma teoria é que a associação vem da forma que os lábios fazem ao articular os sons.

Seja qual for a explicação para o fenômeno, isso significa que às vezes é possível adivinhar o significado de palavras em um idioma desconhecido com mais precisão do que o acaso.

Também pode influenciar os apelidos dados às pessoas, de modo que, como Humpty Dumpty, realmente reflitam sua aparência.

Há ainda quem suspeite que se tratam de "fósseis linguísticos", que refletem os primeiros enunciados da humanidade.

A Rainha Branca e a viagem mental no tempo

— É uma mísera memória, essa sua, que só funciona para trás, a Rainha observou.

— De que tipo de coisas você se lembra melhor?, Alice se atreveu a perguntar.

— Oh, das que aconteceram daqui a duas semanas, a Rainha respondeu num tom displicente.

Em sua jornada, Alice trava longas discussões com a Rainha Branca. Ela é uma das criações mais desconcertantes de Carroll, uma personagem que assegura ter uma estranha capacidade de vidência.

Na verdade, seus comentários sobre a memória são surpreendentemente visionários.

"Desde meados dos anos 2000, os neurocientistas começaram a perceber que a memória não tem só a ver com o passado, mas também ajuda a agir de forma apropriada no futuro", diz Eleanor Maguire, da University College London (UCL), no Reino Unido, que costuma citar a Rainha Branca para ilustrar o conceito.

Uma possibilidade é imaginarmos o futuro separando nossas lembranças e juntando-as em uma montagem que pode representar um novo cenário.

Deste modo, a memória e a previsão utilizam a mesma "viagem no tempo mental" nas mesmas áreas do cérebro.

Maguire, por exemplo, estudou pessoas com danos no hipocampo, o que significa que não conseguem se lembrar do passado. No entanto, a especialista descobriu que eles também têm dificuldade de pensar no futuro.

"Pedimos a eles que imaginassem encontrar um amigo no próximo fim de semana — e eles simplesmente não conseguiram", explica.

O mesmo aconteceu quando foram solicitados a imaginar uma futura visita ao litoral.

"Eles sabiam que haveria areia e mar, mas não conseguiam visualizar isso mentalmente."

Em outras palavras, diferentemente da Rainha Branca, seus pacientes estão presos para sempre em um eterno presente.

Você pode ter pensamentos impossíveis?

— Não adianta tentar, disse Alice.

— Não se pode acreditar em coisas impossíveis.

— Ousaria dizer que você não tem muita prática, respondeu a Rainha.

— Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Algumas vezes, cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã.


Continuando sua exploração da imaginação humana, a Rainha exalta as virtudes de pensar no impossível.

Esta passagem remete a Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia, que leu a obra de Carroll pela primeira vez quando tinha três anos e agora se dedica a estudar como construímos a imaginação.

A especialista descobriu, por exemplo, que crianças que brincam de faz de conta e praticam "acreditar no impossível" tendem a desenvolver uma cognição mais avançada.

Entre outras coisas, elas entendem melhor o pensamento hipotético e também as motivações e intenções dos outros.

"Muito do que elas fazem no jogo do faz de conta é pegar uma hipótese e levá-la à conclusão lógica", diz Gopnik.

"O que é interessante é que Carroll também era um mágico, e você pode ver a mesma habilidade de assumir uma premissa e levá-la a uma conclusão maluca."

As aventuras de Alice são repletas de encontros surrealistas que podem ajudar qualquer pessoa a exercitar essas habilidades.

Travis Proulx, da Universidade de Tilburg, na Holanda, analisou a maneira como a literatura surrealista e absurda, como a de Carroll, influencia nossa cognição.

E descobriu que, ao violar nossas expectativas em um mundo estranho e alienígena, as histórias fantásticas estimulam nosso cérebro a ser mais flexível, nos tornando mais criativos e fazendo com que aprendamos novas ideias mais rápido.

Portanto, se você se sente escravo da rotina e deseja expandir sua mente, talvez não encontre solução melhor do que passar uma tarde com Alice.

"Não tenho dúvidas de que estimula esses estados mentais que aprimoram o aprendizado e nos motivam a fazer novas conexões", diz Proulx.

Neste sentido, Gopnik destaca que algumas drogas alucinógenas também podem ajudar a alcançar um estado mental de livre associação, parecido com o das crianças, mas ler é certamente a maneira mais segura de voltar no tempo e ver o mundo de uma nova perspectiva.

Como Carroll escreveu: "tantas coisas fora do comum tinham acontecido ultimamente que Alice começara a pensar que muito poucas coisas eram na verdade realmente impossíveis".

Seus leitores certamente concordariam.

Provisão para as Festas

 

 Charlotte Gastaut

Vinicius por Maria Lucia Rangel

Lucia Rangel brindou os brasileiros com um generoso presente de Natal: um retrato de Vinicius de Moraes em 150 frases com suas respectivas fontes. Um refrigério para os assuntos chatos, repetitivos e trágico. Em respeito à pausa gregoriana – Natal e Réveillon – resolvi pegar leve: compartilhar com o leitor o regalo natalino.

Conselho da autora: “Curtam. E aprendam. Pois, além de ser sincero e moleque, Vinicius foi um sábio”. E, digo eu, quem não gosta/adora Vinicius bom sujeito não é.

Consagrada jornalista e escritora, Lucia Rangel oferece um generoso presente de Natal aos brasileiros: "Vinicius por Vinicius – um retrato em 150 frases", Companhia das Letras – São Paulo – 2021.

Um refrigério. Não falta assunto, chato, repetitivo e trágico. Em respeito à pausa gregoriana – Natal e Réveillon – resolvi pegar leve: compartilhar com o leitor o regalo natalino. Quem não gosta/adora Vinicius, bom sujeito não é.

A nossa quase aposentada Academia Pernambucana Da Boemia tinha Noel, Antonio Maria, Vinicius e Maisa como patronos. Na entronização dos patronos o ritual era o seguinte: 45 minutos de abstinência alcoólica; palestra sobre a biografia do novo “Boêmico”; depois, entornar. Fui sorteado para falar sobre Vinicius. Ponderei: – Pô, não tenho conhecimento literário/musical para saudar um cara genial.

– Você se vire! ordenou um amável ex-trotskista. A salvação foi a fascinante biografia de José Castello, O Poeta da Paixão. Expus roteiro bem-humorado da trilha matrimonial dos nove casamentos e das frases imortalizadas pelo senso de humor/amor do poeta.

Com autoridade de pesquisadora, Lucia Rangel oferece uma saborosa coletânea e aconselha: “Curtam. E aprendam. Pois, além de ser sincero e moleque Vinicius foi um sábio”.

Seleção por minha conta e risco.

“Eu sou um labirinto em busca de uma saída”. “Eu acho que sou um desses gatos boêmios e noturnos que ficam passeando pelos telhados das casas”. “O lirismo, para mim, faz parte do ar que respiro. Mas tem que ser real”. “O amor horizontal é melhor e não faz mal […] Beijos de amor constantes. As bocas mais beijadas são mais lubrificadas”. “Há uma grande crise de orgasmo na atualidade, uma grande deficiência orgástica no mundo”. “A mulher é um ser indispensável. Não posso viver sem mulher […]. “Difícil é separar. Casar é facílimo”. “O material do poeta é a vida com tudo o que ele tem de sórdido e sublime”. Liberdade é poder cagar de portas abertas”. “Nunca vi boa amizade nascer em leiteria”. “Pixinguinha é o melhor homem do mundo”. “Eu sou o branco mais preto do Brasil”. “Eu sou o Vinicius de todos os vícios”. “O uísque é o melhor amigo do homem. O cachorro é o uísque engarrafado”. “O defeito de São Paulo é que a gente anda, anda, e não chega em Ipanema”. “O carioca é um sujeito que por princípio acorda tarde e chateado”. “Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu (Antonio) Maria, pois, por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia”. “Creio mais na vida do que na arte. Para mim é muito mais importante viver plenamente do que ser artista mesmo um Shakespeare”. Banho de banheira, morno, é para mim uma volta ao útero materno”. “Fui salvo pela mulher”.

Gustavo Krause

domingo, dezembro 19

Vamos ao café

 


Páscoa branca

Começa a nevar. Silenciosamente a nevar. E a terra, endurecida como um cadáver, cobre-se de branco, os ramos começam a desenhar-se em branco sobre o céu de um cinzento agora mais claro, numa delicadeza impressionante, confundindo-se com ele. Contenho a respiração. Toda eu espanto. Os flocos balançam, bailam lá fora onde não há sopro de vento, dentro do quarto, dentro de mim, brancura imaculada, tranquila… e então; por entre os troncos negros das macieiras, mudo como a natureza, a cauda entre as pernas altas, flocos de neve a cobrir-lhe o pêlo, o cão. Seguiu- me, portanto. Como há pouco, no cimo da escada da gare, fico transida de emoção. Era-me dolorosamente familiar, conhecia-o desde sempre, amava-o desde sempre, ouvia-o uivar por mim nas horas de angústia. “Tu?”, perguntei. E a palavra implantou-se no silêncio como uma árvore no deserto.
(…)
Vasto e verde, tão verde, o planalto estende-se até à orla da floresta. Nunca antes o azul do céu fora tão transparente, o amarelo dos dentes-de-leão tão radiante, o ar tão macio. Lado a lado, o cão e eu detemo-nos para em seguida recomeçarmos o nosso jogo de agarra, correndo e saltando para a direita, para a esquerda e em ziguezague, até cairmos exaustos sobre a relva, eu a cara em fogo, ele ofegante, a língua de fora. “Pobre, pobre”, digo e enterro a cabeça no seu pêlo, de onde lhe tiro carinhosamente algumas pétalas de macieira. E falo-lhe. Conto-lhe coisas, muitas coisas, e ele ouve, silencioso, pacífico como o cair das pétalas na Primavera e o da neve no Inverno. Não há pressa, não há horas. Tínhamos abandonado o tempo para nos instalarmos na vasta planície verde, onde as flores em lume são eternas. Ali não se conhece nem fim nem princípio, nada foi, nada é, nada será. Uma criança fala, e as suas palavras vão de alma a alma, em linha recta, sem curvas, sem desvios. Palavras sem fechaduras, sem chaves, sem rótulos, mas livres como pássaros, nuas como adolescentes banhando-se em fontes de floresta, imensas como o mar onde navegam barcos que não buscam margens nem destinos. E não há idade encerrada num ciclo iniciado nas trevas e terminando nas trevas. Sonhamos como se tivéssemos chegado da luz, vivêssemos na luz, regressássemos à luz…

– Posso entrar?

É a dona do hotelzinho que me traz o café. Pousando o tabuleiro sobre a toalha cor de morango, diz:

– O café vai-lhe saber bem, num dia como este.

E olhando o nevão por detrás da janela:

– Coisa tão rara, uma Páscoa branca.

– A janela, dantes, era muito estreita – digo eu – mas acho-a bonita assim larga.
E ela, surpreendida:

– Conhecia a casa? – Conhecia. E as macieiras também.

Ilse Losa, “Caminhos Sem Destino"

Pensamento do dia


O mundo é tão raso, tão chão.
Se não fingirmos intimidade com as estrelas,
Quem nos prestará atenção?

Cada leitor em seu lugar

 

Alessandra De Cristofaro
P


Mr. Clay

Benjamim Parlagrecco
Na década de sessenta do século passado, vivia em Cantão um negociante de chá, imensamente rico, de nome Mr. Clay. Era um velho alto, seco e insociável. Tinha uma casa magnífica e uma esplêndida carruagem, e em ambas se sentava de costas direitas, silencioso e solitário. Entre os europeus de Cantão, Mr. Clay tinha fama de homem avaro e duro como ferro. As pessoas evitavam‑no. A sua reputação devia‑se mais ao seu aspecto, à sua voz e maneiras, do que a algo que ele tivesse feito. Em todo o caso, corriam sobre ele duas ou três histórias, muitas vezes repetidas, que pareciam confirmar a opinião geral. Uma dessas histórias era a seguinte: Quinze anos atrás, um comerciante francês, que em tempos fora sócio de Mr. Clay mas se estabelecera por conta própria depois duma desavença entre ambos, arruinara‑se com especulações mal‑asadas. Buscando uma última oportunidade, o francês tentou obter uma consignação de chá a bordo do veleiro Thermopylae, que se encontrava atracado no porto. Mas ele devia a Mr. Clay a soma de trezentos guinéus, e o seu credor apoderou‑se da mercadoria e expediu no navio o seu próprio carregamento de chá, com o que acabou de arruinar o seu rival. O francês perdeu tudo, a sua casa foi vendida e ele foi lançado na rua com a sua família. Quando percebeu que não havia remédio para os seus infortúnios, suicidou‑se O comerciante francês havia sido um homem talentoso e amável. Tinha uma mulher encantadora e uma família numerosa. Contrastado com o pétreo Mr. Clay, a sua figura começou então a brilhar numa aura de suaves e alegres raios aos olhos dos seus amigos, que fizeram uma coleta de dinheiro para entregar à viúva. Mas a rivalidade entre a comunidade francesa e inglesa de Cantão impediu que se tivesse juntado uma quantia significativa, e passado algum tempo a senhora francesa desapareceu, juntamente com os filhos, do horizonte dos seus antigos conhecidos. Mr. Clay ficou com a casa do morto, uma bela e ampla moradia com um grande jardim, em cujos relvados passeavam pavões. Era ele quem ali vivia agora. Com o tempo, esta história adquiriu um carácter mítico. Dizia‑se que Monsieur Dupont, no seu último dia de vida, chamara a sua bela e amável esposa e os seus jovens e brilhantes filhos. Como todas as suas desventuras, declarara, haviam começado no momento em que vira pela primeira vez Mr. Clay, ele fê‑los então jurar solenemente que nunca mais, fosse em que lugar ou circunstância fosse, voltariam a olhar para o rosto daquele homem. Dizia‑se também que antes de abandonar a sua casa, em que tinha tanto orgulho, o francês havia queimado ou partido todas as suas peças artísticas, afirmando que nenhum objecto criado para o embelezamento da vida admitiria viver com o novo senhor da casa. Mas deixara em todas as salas os altos espelhos de douradas molduras trazidos de França, que até então só haviam reflectido cenas alegres e afectuosas, declarando que o castigo do seu assassino seria deparar, para onde quer que se voltasse, com o retrato de um carrasco. Mr. Clay instalou‑se na casa e comia sozinho, de frente para o seu retrato. É duvidoso que alguma vez ele tenha tido consciência da ausência de amigos à sua volta, já que a ideia de amizade nunca entrara nos seus planos de vida. Se a ordem do mundo tivesse sido deixada inteiramente ao seu critério, Mr. Clay não a alteraria em nada; e era natural que acreditasse que as coisas eram como eram porque ele assim as desejara. Aos poucos, na sua carreira de nababo Mr. Clay acabara por se julgar omnipotente. Outros mercadores de Cantão tinham idêntica fé em si próprios e, tal como Mr. Clay, conservavam‑na desviando os olhos de tudo o que no mundo extravasasse a esfera do seu poder. Aos setenta anos, Mr. Clay caiu doente com um ataque de gota, e durante muito tempo ficou praticamente paralisado. As dores eram tão fortes que não conseguia dormir, e as noites pareciam‑lhe então infinitamente longas. Uma noite, já tarde, um dos jovens escrivães de Mr. Clay veio vê‑lo com uma pilha de livros de contabilidade que estivera a rever. Ouvindo‑o a falar com os criados, o velho, deitado na cama, fê‑lo entrar no quarto e rever com ele os ditos livros. Chegada a manhã, Mr. Clay concluiu que essa noite passara menos devagar do que as outras. Assim, na noite seguinte tornou a chamar o escrivão e de novo lhe ordenou que lesse em voz alta os registos. A partir de então, ficou acordado que o jovem apareceria no vasto e luxuoso quarto de dormir às nove horas, a fim de ler para o patrão, à luz duma vela, as contas, contratos e estimativas dos negócios de Mr. Clay. O jovem tinha uma voz sonora, mas ao fim da noite já começava a falhar. Isto irritava Mr. Clay, cujo ouvido já não era tão bom como nos seus tempos de juventude. Disse ao escrivão que lhe estava a pagar para fazer o seu trabalho, e que se ele não conseguia cumpri‑lo satisfatoriamente, despedi‑lo‑ia e contrataria outro para o seu lugar. Quando chegaram ao fim dos livros que estavam em uso no escritório, o velho suspirou e rodou a cabeça na almofada. Depois de reflectir sobre o assunto, o escrivão foi aos armários buscar livros de há cinco, dez e quinze anos, e leu‑ os igualmente em voz alta, palavra por palavra, durante as horas da noite. Mr. Clay ouvia‑o atentamente; a leitura trazia‑lhe à mente os esquemas e triunfos do passado. Mas as noites eram longas; com o tempo, até os livros mais antigos chegaram ao fim e ele teve de ler as mesmas coisas novamente. Uma manhã, depois de o jovem ter lido pela terceira vez os documentos relativos a um negócio de vinte anos antes, e quando se preparava para ir também dormir, Mr. Clay reteve‑o, parecendo ter algo em mente. As elucubrações do seu amo eram sempre da mais alta importância para o escrivão, e por isso esperou que ele encontrasse palavras para exprimir o que pretendia. Passado um instante, Mr. Clay perguntou‑lhe, relutantemente e com um ar embaraçado e dubitativo, se não tinha conhecimento de outro tipo de livros. O empregado respondeu que não, que nunca ouvira falar de outro tipo de livros, mas que trataria de os encontrar se Mr. Clay lhe explicasse o que pretendia. No mesmo jeito hesitante, Mr. Clay disse‑ lhe que tinha em mente livros e relatos, não de contas e de negócios, mas de outras coisas que as pessoas concebiam às vezes e punham por escrito, para que outras as lessem. O escrivão reflectiu por momentos e disse que não, que nunca tinha ouvido falar de tais livros. Aqui terminou a conversa, e o empregado pediu licença para sair. A caminho de casa, o jovem ia revolvendo mentalmente a pergunta de Mr. Clay. Concluiu que a pergunta emanara de uma necessidade profunda, meio contra a própria vontade do velho, que a fizera com uma espécie de timidez e mesmo vergonha. Se o empregado tivesse na sua natureza algum sentido do decoro, teria varrido da memória aquela momentânea falha de dignidade do seu patrão. Mas não tendo em si tal qualidade, ele começou a reflectir sobre o assunto. A pergunta constituía, sem dúvida, um sintoma de fraqueza por parte do velho; podia ser até um prenúncio de morte. Que consequências teria para si próprio, pensou ele, um tal desenlace?
Karen Blixen, "A História Imortal"

sábado, dezembro 18

Colhendo as flores

 


Leitora voraz

Cresci sem televisão, rádio, telefone e eletricidade. Tudo o que eu fazia era ler, escrever e desenhar. Leio até revista de companhia aérea, caixa de cereal, rótulo de vinho. Aliás, rótulos de vinho são muito poéticos (risos)! Ultimamente, ando interessada por livros sobre História e a crise climática. Tenho estantes só com livros sobre a peste negra, julgamentos de bruxaria, folclore, história militar e feminismo. Meus interesses são muito diversos. Só não me interesso por astrofísica. Não tenho vontade de ir para Marte
Margaret Atwood

Porta mágica

 


O suor e a lágrima

Fazia calor no Rio, quarenta graus e qualquer coisa, quase quarenta e um. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o dia mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o voo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.


Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meu sapato, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rossetti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo o instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho, à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar no resto dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano salgado como lágrimas.
Carlos Heitor Cony

quinta-feira, dezembro 16

Parque democrático

 


Chovendo pacas - não o bicho

Narrativa, até há pouco, era uma narração, uma história, um conto. "Os Lusíadas", de Camões, era uma narrativa poética; "Dom Casmurro", de Machado de Assis, uma narrativa de ficção; "Os Sertões", de Euclides da Cunha, uma narrativa histórica. Mas a palavra caiu para a 2ª divisão. Narrativa é agora uma história fabricada, que se tenta impor como verdade, e assim a tratam os políticos. Quando um deles é acusado de roubar ou mentir, diz que isso é uma "narrativa". Claro que essa resposta também é uma "narrativa".

Se elegante é falar simples e falar afetado é cafona, a cafonização da língua retumba. Ninguém mais diz que fulano faz isto ou aquilo. Diz que ele "entrega". Ninguém mais diz total, diz "somatório". Perto, agora, é "próximo". Rápido é "ligeiro". Depois é "após". Ninguém mais se coloca —"posiciona-se". E ninguém mais vive um problema —"vivencia".


De repente, expressões com séculos de bons serviços prestados à língua no singular viram-se multiplicadas por si mesmas e transformadas num plural sem sentido. Sem problema se tornou "sem problemas". Sem dúvida, "sem dúvidas". Com folga expandiu-se em "com folgas". Com sobra em "com sobras". Nadar de braçada em "nadar de braçadas". Paca, não o bicho, mas o chulo brasileiro inventado pelo "Pasquim", contração de pra caralho, há muito se tornou, comicamente, "pacas". E já ouvi até "manda-chuvas" e "guarda-chuvas" —este último deve ser o que se usa quando começa a chover pacas.

Ao mesmo tempo, todos os advérbios se converteram ao proparoxítono. Um deles, especificamente, exige uma cambalhota de lábios, língua e dentes —diz-se agora "espécificamente". E ninguém mais focaliza, enfoca ou se concentra em alguma coisa. Apenas "foca" nessa coisa. Eu foco, tu focas, ele foca. Nós focamos, vós focais, eles focam. Alguns, para melhor focar, pulam para o tamborete e batem palmas.

Hora do café

 

Pál Udvary