Foi o que fiz ainda agora, indo ao supermercado, com a cabeça latejando de preocupações variadas, insolúveis; como dizia Drummond: “nenhum problema resolvido, sequer colocado.” Já com o carrinho pela metade, parei diante do balcão de tangerinas. Não há nada melhor, para o calor do Rio, do que tangerina gelada. Peguei algumas, vi uma bem bonita, madura, e quando fui colocá-la no saquinho vi, do lado oposto ao que eu tinha olhado, uma mancha escura do tamanho de uma uva. Mancha de má aparência, meio afundada, se desmanchando. Um ponto focal de deterioração. Coloquei a tangerina de volta, mas nesse instante as outras (minha mente é assim, tipo desenho animado) começaram a se manifestar.
“Ele não te quis! Ele não te quis!” gargalhavam em uníssono para a desprestigiada, em tom escarninho. “Tu é feia!” Percebi que no mundo das tangerinas existe também aquela planilha de critérios que nos ajudam a distinguir entre Angela Merkel e Audrey Hepburn. E me insurgi contra aquele erro de avaliação. “Nada disso,” pensei na direção delas, “ela é bonita, só está com uma mancha esquisita na... bem, na circunferência.” “Rá rá rá rá!” explodiram as outras, e o bullying recrudesceu. A tangerina em questão nem me olhava. Rejeitada, humilhada, ficou ali exposta à galhofa alheia.
Quando me afastei, não estava gostando nem um pouco desse desfecho. E, já que minha mente é meio desenho animado, voltei atrás, reescrevi a cena. Ao colocar a tangerina de volta, as amigas rolaram a abraçá-la. “Escapaste, irmã! Ele não vai te despedaçar com os dedos nem estripar com os dentes!” “Obrigada,” dizia ela feliz, entre lágrimas de sumo. “Vocês torceram por mim!” E elas: “Terás mais umas horas de vida até que alguém te leve, irmã, e, como sabes muito bem, cada hora de uma tangerina equivale a 20 anos humanos! Uma vida longa e feliz te espera!” Esse impressionante resultado me acalentou o coração, e durante as horas seguintes fui (nada me custa imaginar) tão feliz quanto ela.

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