segunda-feira, agosto 22

Companheiros

Miki Hanyu

Os livros e os amigos são os companheiros espirituais da juventude
Yukio Mishima

Para viagens no campo

 


Fracasso de bilheteria

David Hettinger
Não tenho mais o que mostrar. Exibo minha tristeza há tanto tempo que hoje, quando a chamo para vir ao palco, o público resmunga: “Não, não, outra vez?” e forma-se a fila no guichê para pedir o dinheiro de volta.

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Se falo tanto do ato de escrever, é muito menos por conhecê-lo do que por amá-lo apaixonadamente. É, para mim, muito mais uma arte do que um ofício.

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Sofrer é uma das coisas que melhor sei fazer. Sofro por tudo, sofro por nada, pelo motivo certo, pela razão errada, sofro por sofrer.

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Na primeira vez em que exprimi o desejo de ser poeta, isso poderia ser considerado um ato de pura modéstia. Eu tinha menos de vinte anos, e alguns jovens como eu já haviam declarado intenções bem mais ambiciosas, como a de salvar ou destruir o mundo.

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Sobre minha relação com a poesia, o que de mais honesto posso dizer é que tenho sido perseverante.

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O poeta há de ser fiel à sua tristeza. Pode aumentá-la um tantinho; diminuí-la, jamais.

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Continuar escrevendo aos oitenta anos costuma ser um ato muito mais de desespero que de esperança.

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Para rasgar um coração, para dilacerar uma alma, não há melhor instrumento que a voz de Amy Winehouse.

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Quando, nos últimos anos de vida, o poeta foi aniquilado por doenças de todo tipo, comentou-se que era a recompensa mais do que merecida por sua juventude dedicada aos sonetos e a outros abomináveis vícios.
Raul Drewnick

Proibir livros? Não

Queixávamo-nos da censura e dos livros apreendidos no tempo do fascismo e de outras ditaduras, mas em democracia continua a saga dos livros «proibidos». Agora, tudo o que seja susceptível de ofender uma minoria é posto de lado e afastado dos programas de ensino em muitos países, e sem sequer se ter em conta o contexto ou a época em que foi escrito. Livros importantíssimos e autores de peso são subitamente banidos por razões verdadeiramente ridículas (o beijo do príncipe na Bela Adormecida, por exemplo, considerado por alguns «não autorizado» e portanto, no limite, uma violação), num acto que é tão estúpido como quando a nossa PIDE levava das suas buscas a livrarias biografias de Stravinsky ou Nijinsky só por serem nomes russos… Leio, porém (obrigada, Nelson Ferreira da Silva) que a salvação está talvez nos adolescentes: uma jovem norte-americana de catorze anos, fartinha de ver «livros que nos fazem pensar» serem proibidos na sua escola e em comunidades de leitores, criou um clube de leitura de livros banidos (e estes podem ser, por exemplo, A Quinta dos Animais ou O Deus das Moscas) em que os membros lêem livros censurados e depois se encontram para os discutir. Abençoada Jocelyn Diffenbaugh! Com direito a entrevista no Washington Post, é uma jovem a seguir, evidentemente! E há outros ainda mais novos, basta ver no primeiro link abaixo. Ouçam os mais novos e deixem-se de comportamentos ditatoriais, por favor. A entrevista com Jocelyn vai no segundo link.
Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, agosto 19

Sempre malabarista

 


A vida não está por ordem alfabética

A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.
António Tabucchi, "'Tristano Morre"

Sob o céu de Saigon

Para Regina Valladares

Ele era um desses rapazes que, aos sábados, com a barba por fazer, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado por baixo da barba crescida, quem olhasse para um deles mais detidamente, mas poucos o fazem, perceberia que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim. Costumam usar jeans desbotados, esses rapazes, tênis gastos, camisetas e, quando mais frio, alguma jaqueta ou suéter geralmente puídos nos cotovelos. Quase sempre levam as mãos nos bolsos, o que torna impossível a qualquer um que passa ver melhor suas unhas roídas, seus dedos indicador e médio da mão direita, ou da esquerda, se forem canhotos, amarelados pelo excesso de fumo. Eles olham para baixo, não como se tivessem medo de tropeçar nos solavancos frequentes das calçadas da Augusta, pois raramente usam sapatos, e as solas de borracha dos tênis amoldam-se com certa suavidade às irregularidades do cimento; olham para baixo, e isso seria visível se se pudesse localizar o brilho nos seus olhos de pupilas um tanto dilatadas por trás das lentes escuríssimas dos óculos, como se procurassem tesouros perdidos, bilhetes secretos, alguma joia ou objeto que, mais que valor, guardasse também uma história imaginária ou real, que importa? Mas às vezes olham também para cima, e quando o céu está claro, o que é raro na cidade, pode-se imaginar que suas peles brancas procuram desesperadas e quase automaticamente pela luz do sol. E quando o céu está escuro, o que é bem mais comum, sobretudo nesses sábados em que rapazes assim costumam subir ou descer a rua Augusta, pode-se imaginar que procurem balões juninos, objetos voadores não identificados, pára- quedistas, helicópteros camuflados, zepelins ou qualquer outra dessas coisas pouco prováveis de serem encontradas sobrevoando ruas como a Augusta num sábado à tarde.

Ou horizontes, talvez busquem horizontes entre o emaranhado de edifícios refletidos nas lentes negras dos óculos que escondem o brilho ou a intenção do fundo dos olhos no momento em que um desses rapazes para na esquina, como se tanto fizesse dobrar à esquerda ou à direita, seguir em frente ou voltar atrás. Por serem como são, seguem sempre em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. E por serem tão iguais, quem prestar atenção em algum deles, mas poucas vezes ou nunca alguém o faz, jamais saberá se se trata de muitos ou apenas um.

Um único rapaz: este, com a barba por fazer e mãos enfiadas no fundo dos bolsos, que agora, logo depois de cruzar o topo da avenida Paulista, começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde.

Ela era uma dessas moças que, aos sábados, com uma bolsa pendurada no ombro, sobem ou descem a rua Augusta. Aos sábados quase sempre à tarde, pois pelos óculos muito escuros e o rosto um tanto amassado que a ausência total de maquiagem nem pensou em disfarçar, quem olhar para uma delas mais detidamente, e alguns até o fazem, pedindo telefone ou dizendo gracinhas sem graça, às vezes grossas, porque elas caminham devagar, olhando as coisas, não as pessoas, mas quem olhar com atenção perceberá que dormiu mal ou demais, bebeu na noite anterior, acabou de chorar ou qualquer coisa assim, sem muita importância. Costumam, elas também, usar jeans desbotados, sapatos de salto baixo, às vezes tênis gastos, camisetas ou alguma blusa de musselina, seda, crepe ou outro tecido assim fino, que um rápido olhar mais arguto perceberia de imediato não se tratar de uma prostituta ou empregada doméstica. Pois têm certa nobreza, essas moças, não se sabe se pela maneira altiva como fingem não ouvir as gracinhas que alguns dizem, se pelo jeito firme de segurar a alça da bolsa com seus dedos de unhas sem pintura, conscientes de que são fêmeas e estão na selva. Num súbito encontrão, que não seria impossível, menos aos sábados, é verdade, do que nas sextas-feiras ao meio-dia ou de tardezinha, se alguém arrebatasse a bolsa a uma dessas moças para depois rasgá-la num terreno baldio, ficaria decepcionado com o dinheiro escasso, o talão de cheques sem saldo, uma agenda de poucos compromissos, tickets de metrô, algum livro de poesia, esoterismo ou psicologia, uma foto de criança, raramente de homem, quem sabe um cartão de crédito vencido e entradas para teatro ou show, já usadas. Essas moças não olham para baixo nem para cima: com passo decidido, olham direto para a frente, como se visualizassem além do horizonte um ponto escondido para esses outros que passam quase sempre sem vê-las, para onde se dirigem com seus jeans gastos, suas bolsas velhas, suas peles de nenhum artifício. Dessa nitidez no passo, dessa atrevida falta de artifícios no rosto é que brota quem sabe aquela impressão de nobreza transmitida tão fortemente quando passam, mesmo aos que não as olham nem mexem com elas. Podem parar para folhear revistas estrangeiras em alguma banca, sem jamais comprar nada, deter-se para conferir os preços estampados nas portas dos restaurantes, olhar maçãs ou morangos, tocar rosas ou antúrios, mas geralmente apenas seguem em frente, subindo ou descendo a rua Augusta. Talvez sejam tantas e, se realmente o são, tão parecidas que, se alguém do alto de uma janela no Conjunto Nacional olhasse para baixo e as visse agora, poderia pensar mesmo que são uma só. Uma única moça: esta, com a bolsa velha pendurada no ombro, que depois de cruzar o topo da avenida Paulista começa a descer a rua Augusta em direção aos Jardins no sábado à tarde.

E porque o mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas, encontraram-se esses dois, esses vários, em frente ao mesmo cinema e olham o mesmo cartaz. Love kills, love kills, ele repete baixinho, sem perceber a moça a seu lado. And this is my way, ela cantarola em pensamento, na versão de Frank Sinatra, não de Sid Vicious, sem perceber o rapaz a seu lado. Outros entram e saem, sem vê-los nem verse, remanescentes punks, pregos nas jaquetas, botas pretas, intelectuais de óculos, aros coloridos, paletós xadrez, adolescentes japonesas, casais apertadinhos, elas comendo pipocas, senhoras de saia justa, gente assim, de todo tipo.

E talvez porque rapazes e moças como ele e ela aos sábados à tarde raramente ou nunca se enfiam pelos cinemas, preferindo subir ou descer a rua Augusta olhando as coisas, não as pessoas, os dois se encaminham para as entradas em arco do cinema. Então param e olham para cima, suspirando em suave desespero, um céu tão cinza, como se fosse chover, oh céu tão triste de Sampa.

E então como se um anjo de asas de ouro filigranado rompesse de repente as nuvens chumbo e com seu saxofone de jade cravejado de ametistas anunciasse aos homens daquela rua e daquele sábado à tarde naquela cidade a irreversibilidade e a fatalidade da redondeza das esquinas do mundo ― ele olhou para ela e ela olhou para ele.

Ele sorriu para ela, sem ter o que dizer. Ela também sorriu para ele. Mas disse, a moça disse:

– Parece Saigon, não?

– O quê? ― ele perguntou sem entender. Ela apontou para cima:

– O céu. O céu parece Saigon. Surpreso, e meio bobo, ele perguntou:

– E você já esteve em Saigon?

– Nunca ― ela sorriu outra vez. ― Mas não é preciso. Deve ser bem assim,
você não acha?

– O quê? ― ele, que era meio lento, tornou a perguntar.

– O céu ― ela suspirou. ― Parece o céu de Saigon. Ele sorriu também outra vez. E concordou:

– Sim, é verdade. Parece o céu de Saigon.

Nesse momento ― dizem que cabe aos homens esse gesto, e eles eram mesmo meio antigos — talvez ele tenha pensado em oferecer um cigarro a ela, em perguntar se já tinha visto aquele filme, se queria tomar um café no Ritz, até mesmo como ela se chamava ou alguma outra dessas coisas meio bestas, meio inocentes ou terrivelmente urgentes que se costuma dizer quando um desses rapazes e uma dessas moças ou qualquer outro tipo de pessoa, e são tantos quantas pessoas existem no mundo, encontram-se de repente e por alguma razão, sexual ou não, pouco importa se por alguns minutos ou para sempre, tanto faz, por alguma razão essas pessoas não querem se separar. Mas como ele era mesmo sempre um tanto lento, não perguntou coisa alguma, não fez convite nenhum. Nem ela. Que lenta não era, mas apenas distraída. Ela então sorriu pela terceira vez, e já de costas abanou de leve a mão abrindo os dedos, como Sally Bowles em Cabaret, e continuou a descer a rua Augusta. Ele também sorriu pela terceira vez, meio sem jeito como era seu jeito, enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos, como Tony Perkins em vários filmes, coçou a barba por fazer e resolveu subir novamente a rua Augusta.

Uns cem metros além, ela pela alameda Tietê, ele pela Santos, esse rapaz e essa moça, ou talvez os dois, ou quem sabe até mesmo nenhum, mas de qualquer forma ao mesmo tempo, pensam vagos e sem rancor mas estes sábados sempre tão chatos, porra, nunca acontece nada. Por associação de idéias nem tão estranha assim, ele ou ela, ou nenhum dos dois, talvez olhem ou não para trás procurando quem sabe algum vestígio, um resto qualquer um do outro pela rua Augusta deserta do sábado à tarde.

Mas rapazes e moças assim não costumam deixar rastros, e ambos já tinham sumido em suas esquinas de ladeiras súbitas e calçadas maltratadas. Acima deles, nuvens cada vez mais densas escondem súbitas o anjo. O céu de chumbo, onde não seria surpresa se no próximo segundo explodisse um cogumelo atômico, caísse uma chuva radioativa ou desabasse uma rajada de napalm, parecia mesmo o céu de Saigon, quem sabe pensaram. Embora, de certa forma, eles nunca tivessem estado lá.
Caio Fernando Abreu

quinta-feira, agosto 18

Eis o fruto

 


A tartaruga tagarela

O futuro Buda nasceu na família de um sacerdote, quando Brahmadatta reinava em Benares. Ao crescer, tornou-se conselheiro do rei sobre assuntos temporais e espirituais.

Bem, o rei era muito falador; enquanto falava, ninguém mais tinha oportunidade de dizer uma palavra. O futuro Buda, desejando curar tamanha tagarelice, estava sempre buscando meios de fazê-lo.

Naquela época, em um lago do Himalaia, vivia uma tartaruga. Dois jovens hamsas, ou patos selvagens, que ali se alimentavam fizeram amizade com ela.

Um dia, quando já estavam bem íntimos, disseram à tartaruga:

– Amiga tartaruga! O lugar onde vivemos, na Caverna Dourada, do Monte Belo, na região do Himalaia, é encantador. Gostaria de ir até lá conosco?

– Mas como farei para chegar até lá?

– Podemos levá-la, se conseguir segurar a língua e não dizer nada a ninguém.

– Ah! Eu posso fazer isso. Levem-me com vocês.

– Muito bem – disseram. E, pedindo que a tartaruga mordesse um graveto, seguraram cada um em uma ponta e saíram voando.

Vendo a tartaruga sendo carregada pelos hamsas, alguns aldeãos gritaram:

– Dois patos selvagens estão carregando uma tartaruga em um graveto!

A tartaruga quis responder:

– Se meus amigos querem me carregar, o que lhes importa, seus miseráveis?!

Assim, tão logo o rápido voo dos patos a levou ao palácio do rei, na cidade de Benares, ela soltou o graveto que mordia e, caindo no pátio aberto, partiu-se em duas! Todos gritaram:

– Uma tartaruga caiu no pátio e se partiu em duas!

O rei, acompanhado do futuro Buda, foi até o local, cercado por cortesãos.

Olhando para a tartaruga, perguntou ao bodisatva:

– Mestre! Como ela foi cair aqui?

O futuro Buda pensou consigo mesmo: “Há muito espero por um modo de advertir o rei. Esta tartaruga deve ter feito amizade com os patos selvagens, e eles devem ter pedido para ela morder o graveto e depois levantaram voo para levá-la para as montanhas. Mas ela, incapaz de segurar a língua quando ouve outra pessoa falar, deve ter tentado falar algo e soltado o graveto. Assim, deve ter caído do céu e, portanto, perdido a vida”.

– Na verdade, majestade, aqueles considerados tagarelas, pessoas cujas palavras não têm fim, acabam lamentando-se dessa forma – disse ele.

Depois proferiu esses versos:


A tartaruga se matou, decerto
Por sua voz ter soltado;
Acabou passando aperto,
Devia ter se segurado.

Contemple-a bem de perto
Com as palavras, tenha cuidado.
Ela quis manter o bico aberto,
E triste foi o resultado!


O rei notou que o conselheiro estava se referindo a ele, e disse:

– Ó, mestre! Está falando de mim?

E o bodisatva respondeu abertamente:

– Ó, grande rei. Seja o senhor ou qualquer outro, quem fala além da conta acaba sofrendo algum infortúnio como esse.

E o rei, daquele momento em diante, conteve-se e tornou-se um homem de poucas palavras.

Joseph Jacobs, “Contos de fadas indianos”

Sois rei!

 


O arquivo

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. João era moço. Aquele era seu primeiro emprego.

Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Dessa vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento. Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora, joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. A pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

– Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

Sabemos de todos os seus esforços. é nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

– Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

– De hoje em diante, o senhor vai passar a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, João gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nessa noite, não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixou de jantar. O almoço era um sanduíche. Emagreceu, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminou certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência.

A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas.

Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho.

Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

– Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio comprimiu-se. Do olho amarelado escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

– Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas eu vou requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

– Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses já vai ter de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, tornou-se lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Ficou cinzento.

joão transformou-se num arquivo de metal.

Victor Giudice, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”

A importância da gentileza

A gentileza está em falta. É artigo de luxo. Está em falta porque não a compreendemos e, por não a compreendermos, não sabemos fabricá-la. É um produto escasso, raro. E nem custa tão caro. Para exercê-la basta apenas um coração limpo e olhos disponíveis para a atenção. Atenção ao outro. O maior pecado que alguém pode cometer – para quem gosta de falar em pecados – é estar desatento ao outro. Quem está atento valida a existência do próximo e a sua também. Valida a existência dos animais, das plantas, das pedras, de todas as coisas visíveis e invisíveis.

A gentileza possui uma dimensão moral, é a elegância da alma. Ser gentil é dizer a alguém: “Você existe tanto quanto eu”. Assim como as estrelas validam o céu, ou como a areia valida o chão. Não é uma tarefa fácil, somos cotidianamente doutrinados à distração. Mas basta tentar. Uma vez, numa dessas festinhas de Natal em que se confraterniza e se trocam presentes, eu e meu grupo de estudos literários presenteamos uma das funcionárias do espaço onde nos encontrávamos. Pois bem, convidamos aquela mulher ao centro da roda e lhe entregamos uma lembrancinha, algo simbólico como homenagem natalina. Agradecida, me abraçou e disse: “É o primeiro presente do meu aniversário” – ela estava fazendo cinquenta anos naquele dia e chorou como uma menina. Os dois olhos emocionados daquela mulher, maviosos olhos infantis, daqueles dois olhos eu jamais vou esquecer. Assustados, pegos de súbito, eles me diziam: “Vocês então perceberam que eu estou aqui e que preciso de carinho também?”

Aquele instante teve uma grande repercussão na minha alma. Aprendi que a vida do outro também depende de mim. É um crime se abster. Eu não sabia que dois olhos podiam conter tantas coisas, que dentro de dois olhos vive uma pessoa esperando ser convidada ao afeto. Há um ditado antigo, desses trazidos pelo tempo, pelo ar, que diz: “Eu vou chegar tão perto de você, mas tão perto que vou arrancar os seus olhos e colocá-los em mim e vou te ver como tu me vês a mim”. Ouvi esse ditado, certa vez, de uma xamã que nos ensinava a perceber a existência do outro e jamais esqueci. É difícil, mas basta exercitar. Olhe ao redor e escolha alguém para começar.
Taylane Cruz

quarta-feira, agosto 17

Tempo de colher

 


A hora do diabo

Saíram da estação, e, ao chegar à rua, ela viu com pasmo que estava na própria rua onde morava, a poucos passos de casa. Estacou. Depois voltou-se para trás, para exprimir esse pasmo ao companheiro; mas atrás dela não vinha ninguém. Estava a rua, lunar e deserta, nem havia nela edifício que pudesse ser ou parecer ser uma estação de comboios.

Tonta, sonolenta, mas interiormente desperta e alarmada, foi até casa. Entrou, subiu; no andar de cima encontrou, ainda desperto, o marido. Lia, no escritório, e, quando ela entrou, depôs o livro.

— Então? — perguntou ele.

E ela:

— Correu tudo muito bem. O baile foi muito interessante. — E acrescentou, antes que ele perguntasse — Umas pessoas que estavam lá no baile trouxeram-me de automóvel até ao princípio da rua. Não quis que eles viessem até à porta. Saí ali mesmo; insisti. Ah, que cansada que estou!

E, num gesto de grande cansaço e esquecendo-se de um beijo, foi-se deitar.

Os seus sonhos adquiriram uma feição estranha, pontuados com coisas inexplicáveis por qualquer experiência que se conheça. Pairou nela o desejo de grandes coisas, como de alguém que um dia foi separado, numa vida antes desta, por sobre todas as idades da terra. E viu-se a deslocar por uma ponte de uma grande altura, de onde se vê todo o mundo. Em baixo, a uma distância mais que impossível, estavam, como astros espalhados, grandes manchas de luz: cidades, sem dúvida, da terra. Uma figura de vermelho apareceu-lhe e apontou-lhas, dizendo:

— São as grandes cidades do mundo. Aquela é Londres — e apontou uma na distância descida — Aquela é Berlim — e apontou para outra. — E aquela, ali, é Paris. São manchas de luz na treva, e nós, nesta ponte, passamos alto sobre elas, incrédulos do mistério e do conhecimento.

— Que coisa tão pavorosa e tão bonita! Mas o que é aquilo tudo ali em baixo?

— Aquilo, minha senhora, é o mundo. Foi daqui que, por incumbência de Deus, tentei o seu Filho, Jesus. Mas não deu resultado, como eu já esperava, porque o Filho era mais iniciado que o Pai, e estava em contacto direto com os Superiores Incógnitos da Ordem. Foi uma provação, como se diz em linguagem iniciática, e o Candidato portou-se admiravelmente.

— Não percebo. Foi daqui, realmente, que tentou Cristo?

— Foi. Está claro que, onde agora está um vale imenso, estava então uma montanha. No abismo também há geologias. Aqui, onde estamos agora, era o cume. Que bem que me lembro! O Filho do Homem repudiou-me desde além de Deus. Segui, porque era o meu dever, o conselho e a ordem de Deus: tentei-o com tudo quanto havia. Se tivesse seguido o meu próprio conselho, tê-lo-ia tentado com o que não pode haver. Talvez a história do mundo em geral, e a da religião cristã em particular, tivessem sido diferentes. Mas que podem contra a força do Destino, supremo arquiteto de todos os mundos, o Deus que criou este, e eu que, porque o nega, o sustenta?

— Mas como é que se pode sustentar uma coisa por a negar?

— É a lei da vida, minha senhora. O corpo vive porque se desintegra, sem se desintegrar demais. Se não se desintegrasse segundo a segundo, seria um mineral. A alma vive porque é perpetuamente tentada, ainda que resista. Tudo vive porque se opõe a qualquer coisa. Eu sou aquilo a que tudo se opõe. Mas, se eu não existisse, nada existiria, porque não havia a que opor-se, como a pomba do meu discípulo Kant que, voando bem no ar leve, julga que poderia voar melhor no vácuo.

A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos.

— Mas, se o mundo é ação, como é que o sonho faz parte do mundo?

— É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho?

— Sim, mas é triste o acordar...

— O bom sonhador não acorda. Eu nunca acordei. Deus mesmo duvida que não durma. Já uma vez ele mo disse...

Ela olhou-o de sobressalto e teve subitamente medo, uma expressão do fundo de toda a alma que nunca sentira.

— Mas afinal quem é o senhor? Porque 
está assim mascarado?

— Respondo, numa só resposta, às suas duas perguntas: não estou mascarado.

— Como?

— Minha senhora, eu sou o Diabo. Sim, sou o Diabo. Mas não me tema nem se sobressalte.

E num relance de terror extremo, onde boiava um prazer novo, ela reconheceu, de repente, que era verdade.

— Eu sou de fato o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada. Na minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse da minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso.

“Dato do princípio do mundo, e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora, como deve saber, todos os ironistas são inofensivos, exceto se querem usar da ironia para insinuar qualquer verdade. Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém em parte porque de nada serve, e em parte porque a não conheço. O meu irmão mais velho, Deus todo poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família.”

“Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou atrair. Essas coisas sucedem na terra, entre os animais, que incluem os homens, e parece que dão prazer, creio, segundo me dizem de lá de baixo, até às vítimas.”

“De resto, não poderia. Essas coisas acontecem na terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós, os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode pois estar tranquila porque a não desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis, como os dos romancistas modernos e os da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o princípio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram pactos comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram pacto foi com a própria imaginação, que, em certo modo, sou eu.”

“Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. Antes assim, não é verdade?”
Fernando Pessoa, "A hora do diabo e outros contos"

A irreparável fuga do tempo

Justamente aquela noite iria começar para ele a irreparável fuga do tempo. Até então ele passara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que na meninice parece infinita, onde os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota a sua passagem. Caminha-se placidamente, olhando com curiosidade ao redor, não há necessidade de se apressar, ninguém empurra por trás e ninguém espera, também os companheiros procedem sem preocupações, detendo-se frequentemente para brincar.

Das casas, a porta, a gente grande cumprimenta-se benigna e aponta para o horizonte com sorrisos de cumplicidade; assim o coração começa a bater por heroicos e suaves desejos, saboreia-se a véspera das coisas maravilhosas que aguardam mais adiante; ainda não se veem, não, mas é certo, absolutamente certo, que um dia chegaremos a elas.

Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retoma-se despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.


Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar.

Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro.

Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.

Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.

Então já estará cansado, as casas, ao longo da rua, terão quase todas as janelas fechadas, e as raras pessoas visíveis lhe responderão com um gesto desconsolado: o que era bom ficou para trás, muito para trás, e ele passou adiante, sem dar por isso. Ah, é demasiado tarde para voltar, atrás dele aumenta o fragor da multidão que o segue, impelida pela mesma ilusão, mas ainda invisível, na branca estrada deserta.

Ai, se pudesse ver a si mesmo, como estará um dia, lá onde a estrada termina, parado na praia do mar de chumbo, sob um céu cinzento e uniforme, sem nenhuma casa ao redor, nenhum homem, nenhuma árvore, nem mesmo um fio de erva, tudo assim desde um tempo imemorável.
Dino Buzzati

terça-feira, agosto 16

Biblioteca na pele

 


A tocadora de realejo

A primeira vez que a viram na cidade, era ela criança, tími­da, rósea, de um perfume alpestre da alta Sabóia, e o seu olhar claro, de uma lucidez inocente, penetrava sem pejo e sem maldade todas as coisas que via.

Tinha um vestidinho de chita azul, muito pobre, e as curvas do seio arfavam-lhe o corpete justo, com uma frescura saudável.

Cabelos loiros rolavam-lhe pelas espáduas, em cintilas fulvas.

A manga um pouco curta deixava nu o seu braço robusto e bem feito, em que se revelava o sangue das grandes raças do cam­po, esquecidas e conservadas na agrura das solidões bravias.

Arrastava o seu carro de música, desmantelado, com o rea­lejo em cima, pelas grandes ruas em tumulto, sozinha, crente, pura nos seus quinze anos.

Às vezes erguia timidamente os olhos para as janelas- onde borboleteavam crianças, e, suplicante, apontava o realeio, pergun­tando se queriam que ela moesse, como num moinho de café, os coros de Mozart. Alguns riam-se. Ela caminhava na sua misé­ria laboriosa.

Escrevo-lhe do fim do mundo

 Jean-Claude Götting
Escrevo-lhe do fim do mundo. É preciso que o saiba. Amiúde as árvores tremem. Apanham-se as folhas. Têm uma imensa quantidade de nervuras.

Mas de que servem? Não há mais nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, incomodados.

Será que a vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou será preciso que tudo trema sempre, sempre?

Há também tumultos subterrâneos, e dentro de casa, como raivas que surgissem à nossa frente, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, como se importasse muito pouco ver. Nada, e todavia treme-se. Porquê?

Henri Michaux, "Escrevo-lhe de um país distante"

segunda-feira, agosto 15

Altar

 


Longe dali, em outro tempo

Durante toda a noite vapores pestilentos elevam-se do pântano verde. Um cheiro adocicado de podridão se espalha entre nossas cabanas. Tudo que é de ferro oxida da noite para o dia, ervas peçonhentas derrubam as cercas, o bolor devora as paredes, a umidade faz a palha e o feno enegrecerem como carvão, mosquitos enxameiam por toda parte, nossos quartos estão cheios de insetos voadores e rastejantes. A própria poeira borbulha, pustulenta. Carunchos, traças e pulgões roem móveis, parapeitos de madeira e até telhas podres. O verão inteiro, nossas crianças padecem de furúnculos, eczemas e gangrenas. Os velhos morrem com as vias respiratórias decompostas. O odor fétido da morte exala também dos vivos. Muitos aqui são desfigurados, apalermados, têm bócio, membros deformados, feições contorcidas, a baba escorre da boca, porque aqui todos procriam com todos: irmão com irmã, filho com mãe, pais com filhas.

Eu, que para cá fui enviado há vinte ou vinte e cinco anos pelo Departamento de Incentivo a Regiões Atrasadas, continuo a sair todos os dias, ao cair do crepúsculo, para borrifar as águas do pântano com desinfetante e para distribuir aos desconfiados habitantes quinino, ácido carbólico, pó de sulfa, unguentos para a pele e remédios contra parasitas. Faço-lhes preleções sobre abstinência e higiene, sobre água sanitária e ddt. Vou aguentando, até que finalmente chegue um substituto, talvez alguém mais jovem e de caráter mais forte do que o meu.

Enquanto isso, sou o farmacêutico, o professor, o tabelião, o árbitro, o sanitarista, o arquivista, o litigante, o apaziguador de querelas. Eles ainda tiram para mim seus chapéus amarfanhados, apertam-nos contra o peito, fazem uma reverência e me chamam de senhor. Eles ainda me bajulam, com seus sorrisos dissimulados e desdentados. Entretanto, mais agora do que antes, sou compelido a adulá-los, a fingir que nada vejo, a me amoldar a suas superstições, a ignorar suas gargalhadas insolentes, a suportar o fedor de seus corpos e o bafo de suas bocas, a aturar as invasões de propriedade que se espalham por toda a aldeia. Admito que já não me resta quase poder algum. Minha autoridade vai se esvanecendo. Restam apenas resquícios esfarrapados de influência, que procuro exercitar por meio de subterfúgios, adulação, mentiras necessárias, vagas advertências e pequenos subornos. O que me resta é aguentar por algum tempo, um pouco mais, até a chegada do substituto. Partirei então para sempre. Ou o contrário: pegarei uma cabana vazia, uma camponesa rechonchuda, e ficarei de vez.


Certa vez, antes da minha vinda, há um quarto de século ou mais, o governador fez uma visita, acompanhado de uma grande comitiva. Ficou uma ou duas horas, e mandou que o curso do rio fosse desviado imediatamente para drenar o pântano maligno. Com ele vieram dignitários e funcionários, topógrafos, clérigos, um jurista, um cantor, um historiador oficial, um ou dois intelectuais, um astrólogo e representantes de dezesseis serviços secretos. O governador fez registrar por escrito suas determinações: cavar. Desviar. Drenar. Erradicar. Desinfetar. Canalizar. Remover. Priorizar. Abrir uma nova página.

Nada aconteceu desde então.

Há quem diga que lá, do outro lado do rio, além das florestas e das montanhas, o governo mudou de mãos várias vezes. Um foi deposto, outro foi derrotado, um terceiro deu um passo em falso, um quarto foi assassinado, um quinto aprisionado, um sexto deu uma guinada, um sétimo fugiu, ou caiu no sono. Aqui, tudo é como sempre foi: os velhos e os bebês continuam a morrer, os jovens a envelhecer prematuramente. A população da aldeia, segundo meus cálculos conservadores, diminui cada vez mais. Pela tabela que preparei e pendurei sobre minha cama, até a metade do século não restará aqui uma alma viva. Exceto os insetos e répteis.

É verdade que aqui nascem crianças aos montes, mas a maioria morre ainda na infância, e quase não são lamentadas. Os jovens fogem para o norte. As moças cultivam beterrabas e batatas na lama espessa, engravidam aos dezesseis anos, e aos vinte murcham diante dos meus olhos. Às vezes, a paixão toma de assalto a aldeia, arrastando-a a uma noite de libertinagem à luz de fogueiras feitas com madeira úmida. Todos perdem a compostura, velhos com crianças, moças com aleijados, homens com animais. Não posso dar detalhes, pois nessas noites me tranco na minha cabana, que é também a farmácia, fecho as rebentadas venezianas de madeira, passo o ferrolho na porta e, por via das dúvidas, ponho uma pistola sob o travesseiro.

Mas noites como essas não são frequentes. No dia seguinte, eles acordam ao meio-dia, atordoados, os olhos vermelhos, e de novo, submissos, vão labutar do alvorecer ao anoitecer em suas glebas lamacentas. Os dias são de calor ardente. Pulgas exasperantes, do tamanho de uma moeda, nos atacam e, quando nos mordem, emitem uma espécie de silvo agudo e insuportável. O trabalho nos campos parece ser extenuante. As beterrabas e as batatas vão sendo tiradas da lama pastosa, quase todas apodrecidas, e mesmo assim são comidas cruas, ou cozidas numa papa pestilenta e infecta. Dois dos filhos do coveiro fugiram para as montanhas e entraram para uma gangue de contrabandistas. Suas mulheres foram morar, elas e os filhos, na cabana do caçula, que ainda é uma criança, não tendo completado catorze anos.

Quanto ao próprio coveiro, um homem de poucas palavras, corcunda e ossudo, ele decidiu não aceitar aquilo calado. Mas seguiram-se semanas e meses de total silêncio, e anos se passaram igual. Um dia, o coveiro açodou-se e se mudou, ele também, para a cabana do filho caçula. Mais e mais bebês foram nascendo, e ninguém sabe quais são os filhos dos irmãos fugitivos, que às vezes pernoitam uma ou duas noites na aldeia, e quais são do filho caçula, e quais do coveiro, e quais de seu velho pai. Seja como for, a maioria desses bebês morreu algumas semanas depois de nascer. À noite, outros homens lá entravam e saíam, assim como algumas moças, crescidas e desmioladas, em busca de um teto ou de um macho, de um abrigo, de um bebê ou de comida. O atual governador não respondeu a três memorandos urgentes, cada um mais alarmante que o outro, que lhe foram enviados a curtos intervalos para alertar quanto à degeneração dos padrões morais e para solicitar sua urgente intervenção. Fui eu o redator e o frustrado remetente desses memorandos.

Os anos transcorrem em silêncio. Meu substituto não chegou. Para o lugar do guarda veio seu cunhado, e há rumores de que o guarda demitido juntou-se aos contrabandistas das colinas. Ainda estou em meu posto, mas cada vez mais exausto. Eles já não me chamam de senhor nem se dão o trabalho de tirar seus bonés esfarrapados para me cumprimentar. Os desinfetantes já acabaram. As mulheres, sem me fazer qualquer pagamento, retiram pouco a pouco o resto de estoque da farmácia. Parece que minha mente e minha vontade se deterioram gradativamente. Ou talvez sejam apenas meus olhos a escurecer, a ponto de até mesmo a luz do meio-dia lhes parecer sombria, e a fila de mulheres à porta da farmácia se assemelhar a uma fileira de sacos abarrotados. Com o passar do tempo, quase me acostumei a seus dentes podres e à onda de fedor que emana de seus hálitos. Assim vou levando, da manhã à noite, dia após dia, do verão ao inverno. Há muito deixei de sentir as picadas dos insetos. Meu sono é profundo e tranquilo. O musgo cresce em meus lençóis, e manchas de fungo florescem em todas as paredes. De vez em quando, uma ou outra aldeã se apieda de mim e me alimenta com um líquido viscoso, provavelmente feito de cascas de batata. Todos os meus livros estão mofados, as encadernações se esfarelam e desmancham. Nada me restou, e eu não saberia distinguir um dia do outro, ou a primavera do outono, ou um ano de outro qualquer. Às vezes, à noite, tenho a impressão de ouvir o lamento distante de algum instrumento de sopro antigo, e não tenho a menor noção de qual seja ou de quem o está tocando, e se o estão tocando na floresta, ou talvez nas colinas, ou talvez dentro de meu crânio, debaixo de meus cabelos cada vez mais grisalhos e ralos. Vou assim, lentamente, voltando as costas a tudo que me circunda e a mim mesmo também.

Exceto por um acontecimento que testemunhei esta manhã, e que aqui devo relatar por escrito, sem expressar qualquer opinião:

Esta manhã o sol subiu e transformou os vapores do pântano numa espécie de chuva viscosa e gelatinosa. Uma chuva quente de verão, com cheiro de suor velho e azedo. Os aldeões começaram a sair das cabanas para descer até os canteiros de batata. Então, no cume da colina mais a leste, entre nós e o sol que se elevava no céu, apareceu um estranho, forte e bonito. Ele começou a agitar os braços, a desenhar no ar úmido todo tipo de círculos e curvas, a dar chutes e a fazer reverências, a pular no mesmo lugar, sem dizer palavra. Quem é ele?, os homens se perguntavam, e o que será que ele quer aqui? Ele não é daqui, nem da outra aldeia, nem das colinas, diziam os velhos uns aos outros. Talvez tenha vindo da nuvem.

E as mulheres diziam, É preciso ter cuidado com ele, é preciso pegá-lo em flagrante, é preciso matá-lo. Enquanto deliberavam e discutiam, o ar amarelado encheu-se com o rumor de diversos sons, pássaros que gritavam, cães, fala humana, berros, broncas, o zumbido de insetos do tamanho de canecas de cerveja. Os sapos do pântano também se deram conta e começaram a coaxar, as galinhas lhes fizeram coro, arreios tilintavam e tosses e gemidos e xingamentos. Vozes diversas.

Aquele homem, começou a dizer o filho caçula do coveiro, mas de repente mudou de ideia e calou-se. Aquele homem, disse o estalajadeiro, está tentando seduzir as moças. E as moças gritavam, vejam, ele está nu, vejam como é grande, vejam, ele está dançando, ele quer voar, vejam, parecem asas, vejam como ele é branco.

O velho coveiro disse, Qual a razão para tanto falatório? O sol já vai alto no céu, o homem branco que estava lá, ou que pensávamos estar lá, desapareceu do outro lado do pântano, ficar falando não adianta nada, um novo dia está começando, está muito quente e precisamos ir trabalhar. Quem pode trabalhar que trabalhe e sofra em silêncio. E quem não pode que vá em frente e morra. Isso é tudo.
Amós Oz, "Cenas da vida na aldeia"