domingo, agosto 8
Finais são só fantasia...
(…) Claro que eu, como leitor incansável, tinha as minhas ambições. Também queria escrever um livro. Sentava-me frequentemente em frente de uma máquina de escrever e escrevia coisas que deitava fora. Raramente ia além da segunda página. Cheguei mesmo a pensar escrever um livro só com inícios. Inícios de romances. Sempre gostei dos primeiros parágrafos dos livros e até achei que poderia ser uma boa ideia: um livro feito de inúmeros livros que não acabavam, um livro feito de começos. No fundo, um livro como a nossa vida. Sabemos mais ou menos como começou, mas não fazemos ideia de como acaba. Seria mais realista se escrevêssemos a vida só com primeiros parágrafos, pois os finais, no que respeita a nós mesmos, são uma fantasia.
Afonso Cruz, "Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner"
Afonso Cruz, "Enciclopédia da Estória Universal – Arquivos de Dresner"
A solidão proibida
Eu lia o jornal, na manhã abafada e cinzenta. O noticiário político não anda lá muito estimulante. Não demora e a editoria política pode se fundir com a editoria policial. No Rio, por exemplo. Seja a favor ou contra, é impossível a política ignorar o bicho e a droga. Um passo e é o narcotráfico. O esquadrão da morte. O extermínio de menores.
Então levantei os olhos do jornal e espiei lá fora o infinito céu azul. Não era azul, nem infinito. Mas lá estava, bem visível, uma personagem que nunca vi tão alto. Entre as nuvens baixas lá em cima, e o tumulto dos carros cá em baixo, leve, levíssima, uma garça. Na quina do último andar, o 12º. Altiva, elegante, via-se que resistia ao vento que soprava agora mais forte.
Nem sei se ainda há garças nesta época na Lagoa. Talvez haja. As cigarras, sei que sumiram. Ou pelo menos não têm vindo zinir na minha varanda, mal rompe a manhã. São a trilha sonora do verão carioca, as cigarras. Dão nos nervos de qualquer cristão, sobretudo quando começam a chirriar a sua zanguizarra no sono de um pobre insone. À tarde, ao cair do sol, são menos azucrinantes. Mas nem assim merecem a meu ver um único soneto. Quanto mais um poeta.
Mas lá estava a garça, hierática, serena, "au-dessus de la mêlée". Incorpórea, toda branca, alvíssima. Bico e pernas, finos cambitos de uma etérea arquitetura. No seu perfeito desenho, só penas, toda plumagem. Se olhasse, devia olhar para o alto. E veria o céu além das nuvens de chumbo que corriam, inquietas. Uma garça sozinha, acima da luta pela sobrevivência à beira da lagoa. Uma garça que apenas fruía o silêncio de sua solidão.
Nisto, um bando de andorinhas flecha o ar. Setas raivosas, atacam de baixo e de cima, com súbitas paradas a um palmo do alvo indiferente. Afinal assustada, bico aberto, a garça se defende contra as pequenas agressoras. Cauda e bico, as asas quais tesouras afiadas, se trissavam ou gazeavam, não sei. Não dava para ouvir. Dava para lhes perceber o ímpeto de batalha e ódio, cada vez mais numerosas e aguerridas. Até que venceram. A garça alçou voo. Mergulhou em direção á Lagoa, ou ao chão. Já não há lugar no mundo para as almas solitárias.
sábado, agosto 7
Banco de praça
O grande lugar onde o homem pode encontrar-se consigo mesmo, para um ajuste de contas, ainda é o banco da praça. Nunca seria possível num bar, um estado tão completo de autenticidade, porque seria preciso ajeitar o laço da gravata, enxugar o suor da testa, sorrir e cumprimentar. Aqui, não. É possível um máximo de espontaneidade e o momento, em si, já assume uma importância muito grande. Os ruídos se restringem ao vento ― alvoroçando a folhagem, de quando em quando ― aos automóveis que escorrem no asfalto e às poucas pessoas, que passam, em silêncio, ou que se sentam em outros bancos, tão preocupadas quanto nós em estar sozinhas. Ao homem torna-se, então, possível ver-se de uma maneira nítida, para louvar-se ou sofrer-se, perdoar-se, enfim, pelos erros que cometeu contra si e contra o próximo, levado, na grande maioria das vezes, por essa vontade irreprimível que cada um tem de experimentar-se. Fácil e rapidamente, chegaremos à conclusão de que a vida é, antes de tudo, uma coisa curta. Na maior parte dos casos, o que fizemos de mal foi feito a caminho do bem. O amor, o lucro, um pouco de paz foram coisas que perseguimos com intensa paixão e, quase sempre, o risco foi-nos indiferente. A alma se vitimou da sua própria coragem e o remorso é um castigo de foro íntimo que não precisa ser anunciado em voz alta. Da praia, vem um cheiro de maresia, e, nele, uma porção de vagas lembranças, todas elas insituáveis. Eu, por exemplo, por mais que ande, não me livro da minha meninice, que cheirava a sargaço do mar.
Seria necessária uma viagem mais longa: e ver Paris, Roma, Londres? Útil, talvez, necessário, certamente que não. A Torre Eiffel, o Coliseu e a catedral de Westminster talvez me irritassem. O homem reage muito diante da celebração do cimento e da alvenaria. A estátua e o túmulo me dão, por exemplo, uma certa preguiça e isto se justifica no que já disseram muitas vezes: o melhor espetáculo para o homem ainda é o próprio homem. Aqui, por exemplo, neste banco de jardim, procuro ao redor de mim mesmo e encontro uma cena que agrada ver e sentir. Um moço veste camisa de meia marrom e está em pé na ponta da calçada.
Lembro-me de que, amanhã tenho que escrever 14 laudas e pedir dois favores. Tudo isto é excessivo e injusto. Um cidadão como eu, já gordo e já careca, devia merecer, ao menos, uma véspera tranquila. Aqui no meu banco ― este começo de frase bem podia valer pela sua primeira e mais feliz significação ― estou entregue a uma porção de conjecturas inúteis, mas, até certo ponto, divertidas. Não custava nada que, amanhã, não houvesse hora para acordar, para entregar a tarefa, para vestir o terno completo: não existisse, enfim, relógio pra nada. Mas, não. Se eu fizer corpo mole, o telefone vai chamar. E tenho ― o que é degradante ― que aturar Tenório, em duas ou três primeiras páginas dos jornais, fazendo olhares, dizendo inutilidades e ― o que é pior ― vestindo aquele chambre de bolinhas, que merecia passar dois dias na lavanderia. Não é possível evitar os relógios, os telefones, as celebrações malfelizes. Se ao menos houvesse a esperança de evitar-me um pouco!
Seria necessária uma viagem mais longa: e ver Paris, Roma, Londres? Útil, talvez, necessário, certamente que não. A Torre Eiffel, o Coliseu e a catedral de Westminster talvez me irritassem. O homem reage muito diante da celebração do cimento e da alvenaria. A estátua e o túmulo me dão, por exemplo, uma certa preguiça e isto se justifica no que já disseram muitas vezes: o melhor espetáculo para o homem ainda é o próprio homem. Aqui, por exemplo, neste banco de jardim, procuro ao redor de mim mesmo e encontro uma cena que agrada ver e sentir. Um moço veste camisa de meia marrom e está em pé na ponta da calçada.
Uma moça veste azul e está sentada noutro banco, com um lenço cor-de-rosa na mão. Ele lhe dá um sorriso quase tão sórdido quanto o de Clark Gable e ela faz com os olhos que também está querendo. Imediatamente, sentam-se e se abraçam tanto que, de dois que foram, parecem um só. É-lhes indiferente a minha presença e os seus afetos são tantos que, descrevê-los, seria trair a cumplicidade que eles me ofereceram. Onde, diante do monumento erigido em memória de quem, podia eu ― um coitado ― encontrar espetáculo mais belo? As areias da Líbia, os Alpes, o Arco do Triunfo, a catedral de São Pedro, nada disso seria capaz de me tomar e me empolgar tanto. Nessa paz que se engalfinhou, a gente descobre que a humanidade não é tão covarde, tão desfibrada, quanto pretendem insinuar os governos através de suas secretarias de Segurança Pública e esta, por sua vez, através de seus tiras. Deixem o ser humano mais livre, não o ameacem, não lhe exibam tantos róis de deveres e ele será mais santo.
Lembro-me de que, amanhã tenho que escrever 14 laudas e pedir dois favores. Tudo isto é excessivo e injusto. Um cidadão como eu, já gordo e já careca, devia merecer, ao menos, uma véspera tranquila. Aqui no meu banco ― este começo de frase bem podia valer pela sua primeira e mais feliz significação ― estou entregue a uma porção de conjecturas inúteis, mas, até certo ponto, divertidas. Não custava nada que, amanhã, não houvesse hora para acordar, para entregar a tarefa, para vestir o terno completo: não existisse, enfim, relógio pra nada. Mas, não. Se eu fizer corpo mole, o telefone vai chamar. E tenho ― o que é degradante ― que aturar Tenório, em duas ou três primeiras páginas dos jornais, fazendo olhares, dizendo inutilidades e ― o que é pior ― vestindo aquele chambre de bolinhas, que merecia passar dois dias na lavanderia. Não é possível evitar os relógios, os telefones, as celebrações malfelizes. Se ao menos houvesse a esperança de evitar-me um pouco!
As folhas mortas caíram das árvores e o vento as arrasta pela calçada. (Gostaria de segurá-las). Um guarda noturno, que só tem de desumano a farda e o "casse-tête", vem andando devagar e, ao passar pela luz, mostra um rosto amargurado. Temo pelos dois namorados, que continuam em clinche, a dois bancos do meu. Mas, o guarda passa, sem dar a mínima importância. A miséria, quando transformada em ação permanente, vai, aos poucos, tornando os policiais menos arrogantes. Meu banco da praça, voltarei uma dessas noites, para conversar contigo.
Antônio Maria, "Pernoite"
Aventuras de Ngunga
Ngunga tinha um princípio: se havia algum problema, ele preferia resolvê-lo logo. Deveria esperar que o Comandante o chamasse. Mas não esperou. Foi ele mesmo falar ao Comandante. Para quê ter medo? O Comandante Mavinga estava divertido com a conversa. Falou:
— És um rapaz esperto e corajoso. Por isso deves estudar. Chegou agora um professor que vai montar uma escola aqui perto. Deves ir para lá, aprender a ler e a escrever. Não queres?
Ngunga ficou silencioso. Escola? Nunca vira. Ouvira falar, isso sim. Era um sítio onde tinha de se estar sempre sentado, a olhar para uns papéis escritos. Não devia ser bom.
— Prefiro ser guerrilheiro. Se não me querem aqui, então vou para outro sítio.
— Ngunga, tu és pequeno demais para ser guerrilheiro. Aqui já te disse que não podes ficar. Andar só, como fazes, não é bom. Um dia vai acontecer-te uma coisa má. E não estás a aprender nada.
— Como? Estou a ver novas terras, novos rios, novas pessoas. Oiço o que falam. Estou a aprender.
— Não é a mesma coisa. Numa escola aprendes mais. E assim vais conhecer o professor. Já viste um professor? Diz-me com que é que se parece um professor? Vais conhecer a escola. Eu parto amanhã e tu vais comigo.
Sem o saber, Mavinga encontrou o que podia convencer Ngunga. Com que é que se parecia um professor? Sim, precisava de conhecer o professor. Se não gostasse da esco-la, o seu saquito era fácil de arrumar. Vendo bem as coisas, não perdia nada em experimentar.
A escola era só uma cubata (1) de capim (2) para o professor e, numa sombra, alguns bancos de pau e uma mesa. Ngunga imaginara-a de outra maneira. Também o professor o surpreendeu. Julgava que ia encontrar um velho com cara séria. Afinal era um jovem, ainda mais novo que o Comandante, sorridente e falador. Esse aí sabia mesmo para ensinar aos outros?
Mavinga apresentou-o. Disse que ele não tinha família.
— Tem de ficar a viver aqui comigo! — disse o professor — Também já tenho o Chivuala, que veio comigo do Guando. Os outros alunos são externos, vivem nos quimbos( 3) e vêm só receber aulas. Para estes dois, vai haver o problema da alimentação.
— Não há problema! — respondeu o Comandante — Vou falar com o povo. Quando derem comida para o camarada professor, acrescentam um pouco para os dois pioneiros. O Ngunga precisa de estudar, para não ser como nós. Se se portar mal avise-me. Estás a ouvir, Ngunga? Se não trabalhares bem, eu vou saber. E, se fugires da escola, eu encontrar-te-ei.
— Eu nunca fujo! — respondeu Ngunga — Quando quiser, digo que vou embora e vou mesmo. Não preciso de fugir como um porco-de-mato.
O professor riu.
— Espero então que não queiras ir embora. Vais ver como gostarás da escola.
Pepetela, "As Aventuras de Ngunga"
(1) cubata — habitação tradicional africana;
(2) capim — planta gramínea que cresce espontaneamente nos campos;
(3) quimbo — aldeia (termo angolano).
(2) capim — planta gramínea que cresce espontaneamente nos campos;
(3) quimbo — aldeia (termo angolano).
quinta-feira, agosto 5
A grande literatura
Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, a nossa imaginação passa o tempo a navegar entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos. O romance nas nossas mãos pode-nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. Ou pode-nos levar até às profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece-se às pessoas que conhecemos melhor. Estou a chamar a atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento, de tempos a tempos, que abarca os dois extremos. Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados nas suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida quotidiana. E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles lêem, sonham os sonhos do autor, imaginam a existência dos seus heróis e vêem o seu mundo. E então, agora, esses leitores, como o próprio autor, acabam por tentar imaginar o outro; eles também se põem no lugar de outra pessoa. E são esses os momentos em que sentimos a presença da humanidade, da compaixão, da tolerância, da piedade e do amor no nosso coração: porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
Orhan Pamuk
Orhan Pamuk
Aporia
Um dia você aprende que deve obedecer. Um dia você aprende que não pode ter tudo o que quer, que gente que tem orgulho próprio é chato e que se deve ser solidário. Que você não deve confiar em ninguém, que deve 'fazer o bem sem olhar a quem', que, se for menino, não chora e que, se for menina, deve-se preservar.
Você vê que a vida é só uma e que deve aproveitá-la. Você aprende que deve-se pensar duas vezes antes de tomar qualquer atitude. Você aprende que deve aprender com seus erros e aprende que raramente aprende com seus erros. Você aprende a se contradizer, você aprende a mudar de idéia, você aprende a se calar, você aprende a aceitar. Aprende que deve lutar pelos seus ideais. Aprende que deve sonhar e que deve ter os pés no chão.
Você percebe que quem imita os outros não tem personalidade e que quem é autêntico é esquisito e excluído. Você aprende que as pessoas podem ser muito cruéis. Que as pessoas podem dar tudo de si mesmas para ajudar. Você aprende que sentir ciúmes é ruim. Você aprende que quem não sente ciúmes é desleixado.
Aprende que não deve se preocupar muito com as coisas. Aprende que não deve deixar a vida correr solta. Que o maior tesouro são os amigos e que você perde os amigos. E ao perder, ainda jogam na sua cara que não era uma amizade verdadeira. Que os outros te julgam e que você não deve julgar ninguém. Que deve-se olhar além das aparências. Que as pessoas te julgam pelo que você aparenta. Que dinheiro importa. Que amor acaba. Que amor verdadeiro não acaba. Que não existe amor verdadeiro. Que dinheiro não trás felicidade.
Aprende que quanto mais você se esforça, mais insuficiente parece ser. E que não se deve desistir dos sonhos. Também, que se deve desistir de coisas que não se consegue depois de tentar muito. Aprende que a vida é curta. Aprende que você ainda tem a vida toda pela frente. Aprende que há burrices como preconceito e discriminação. Aprende que sente preconceito. Aprende que julga os outros e aprende que se deve aprender a tratar as pessoas igualmente. Aprende que as pessoas não são iguais. Aprende que as pessoas somos iguais. E que alguns são mais iguais que os outros.
Aprende que não pode errar e que não se acerta sempre.
Aprende que cantar faz bem. Aprende que pode-se ser altamente repreendido por cantar. Aprende que dançar é bom e que as pessoas podem te repreender por dançar. Aprende que as pessoas te magoam sem nem precisarem de um motivo. E que podem fazer comentários como se você não se importasse com aquilo.
Aprende que quando a pessoa é fora dos padrões ela se sente ofendida quando lhe falam isso. Aprende que as pessoas são fora dos padrões e fingem não se importar. Que fazer piadas é legal e que é melhor fazê-las do que manter a amizade. E que quem não aceita as piadas são tolos. Que a sinceridade é utópica e desnecessária. Que sinceridade é tudo. Que confiança se perde fácil.
Aprende que por mais que tente o contrário, um dia vai magoar alguém. Aprende que com conversas tudo se resolve. Aprende que tem gente que não sabe conversar e que nessas conversas, as palavras podem funcionar como armas.
Aprende que de repente as palavras podem significar nada, algo muito importante ou várias coisas. Aprende que alguns momentos são inúteis... e que outros, que parecem ser tão simples, mudam tudo.
No fim, você aprende que tudo o que você aprende chega a um belo resultado: aporia.
Mario Quintana
Você vê que a vida é só uma e que deve aproveitá-la. Você aprende que deve-se pensar duas vezes antes de tomar qualquer atitude. Você aprende que deve aprender com seus erros e aprende que raramente aprende com seus erros. Você aprende a se contradizer, você aprende a mudar de idéia, você aprende a se calar, você aprende a aceitar. Aprende que deve lutar pelos seus ideais. Aprende que deve sonhar e que deve ter os pés no chão.
Você percebe que quem imita os outros não tem personalidade e que quem é autêntico é esquisito e excluído. Você aprende que as pessoas podem ser muito cruéis. Que as pessoas podem dar tudo de si mesmas para ajudar. Você aprende que sentir ciúmes é ruim. Você aprende que quem não sente ciúmes é desleixado.
Aprende que não deve se preocupar muito com as coisas. Aprende que não deve deixar a vida correr solta. Que o maior tesouro são os amigos e que você perde os amigos. E ao perder, ainda jogam na sua cara que não era uma amizade verdadeira. Que os outros te julgam e que você não deve julgar ninguém. Que deve-se olhar além das aparências. Que as pessoas te julgam pelo que você aparenta. Que dinheiro importa. Que amor acaba. Que amor verdadeiro não acaba. Que não existe amor verdadeiro. Que dinheiro não trás felicidade.
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| Pierre Poli |
Aprende que quanto mais você se esforça, mais insuficiente parece ser. E que não se deve desistir dos sonhos. Também, que se deve desistir de coisas que não se consegue depois de tentar muito. Aprende que a vida é curta. Aprende que você ainda tem a vida toda pela frente. Aprende que há burrices como preconceito e discriminação. Aprende que sente preconceito. Aprende que julga os outros e aprende que se deve aprender a tratar as pessoas igualmente. Aprende que as pessoas não são iguais. Aprende que as pessoas somos iguais. E que alguns são mais iguais que os outros.
Aprende que não pode errar e que não se acerta sempre.
Aprende que cantar faz bem. Aprende que pode-se ser altamente repreendido por cantar. Aprende que dançar é bom e que as pessoas podem te repreender por dançar. Aprende que as pessoas te magoam sem nem precisarem de um motivo. E que podem fazer comentários como se você não se importasse com aquilo.
Aprende que quando a pessoa é fora dos padrões ela se sente ofendida quando lhe falam isso. Aprende que as pessoas são fora dos padrões e fingem não se importar. Que fazer piadas é legal e que é melhor fazê-las do que manter a amizade. E que quem não aceita as piadas são tolos. Que a sinceridade é utópica e desnecessária. Que sinceridade é tudo. Que confiança se perde fácil.
Aprende que por mais que tente o contrário, um dia vai magoar alguém. Aprende que com conversas tudo se resolve. Aprende que tem gente que não sabe conversar e que nessas conversas, as palavras podem funcionar como armas.
Aprende que de repente as palavras podem significar nada, algo muito importante ou várias coisas. Aprende que alguns momentos são inúteis... e que outros, que parecem ser tão simples, mudam tudo.
No fim, você aprende que tudo o que você aprende chega a um belo resultado: aporia.
Mario Quintana
quarta-feira, agosto 4
O homem que calculava
Tenho uma casa a meio duma encosta de Petrópolis, perto de Araras. João Saldanha, dado a literaturas russas, diz que se trata duma dacha, o que nos romantiza, mas no fundo é mesmo um barraco bem bolado por Zanine.
Entre águas e tons vegetais que vão passando, passo os fins de semana. Numa esperança aquecida, a de inverter um dia a equação urbana: residir lá, dar o endereço de lá e ter um quarto-sala de campo no Leblon. Ainda não dá, mas chego lá.
Na minha idade só certas riquezas supérfluas são essenciais. Um supérfluo essencial ao coração brasileiro da minha idade é a venda, a venda de beira de estrada, cavalos à porta, sacos e mantimentos, lampiões e caçarolas pendurados, balcões de tábuas honestas, um aroma rico do nacionalismo do fubá e da cachaça. E o dono da venda, claro. Este tem de ter nascido para ser dono de venda, como o torresmo nasceu para o tutu; do contrário o nosso sonho se desarruma, o cenário é vazio, fica faltando a alma da venda.
Nos primeiros tempos da Grota do Jacob (é o lindo nome do lugar), não me apercebi que uma função humana me faltava ali, apesar de todos aqueles luxos da quietude rural. Fui apanhado uma tarde, sem mais nem menos, por volta das cinco horas, quando me espichara no capim. De repente, a água do arroio parou de cantar o que eu sabia de cor e começou a dizer com doçura que em alguma parte existia uma venda. Uma o quê, perguntei. Uma venda, aquela venda. Um sabiá-laranjeira desceu do galho da quaresma para o chão e queria saber o que eu andava a fazer ali, era a hora da venda. E aí foi logo aquela prosopopeia, as coisas inanimadas e os bichos começando a proclamar ao mesmo tempo que estava na hora de ir à venda, que eu não podia deixar de ir à venda, que eu era um insensível se não fosse à venda.
Cedi à unanimidade da natureza, comunicando à mulher que era a hora de ir à venda. Ela não entendeu, mas o filho veio comigo, e em poucos minutos estávamos lá a discutir com seu Ramiro qual a melhor maneira de ferrar um cavalo. Era a glória.
A venda aquela não podia ser mais igual à dos meus sonhos. Tudo que é preciso no seu lugar. As pessoas chegando na hora certa, com as caras que deviam ter, cuspindo na hora de cuspir, comprando, bem devagarzinho, o que deviam comprar, dizendo infalivelmente as coisas que eu esperava ouvir. E o nome também era lindo: Mercearia Rio da Cidade.
Como se vê, tudo certinho, tudo igualzinho às vendas que eu conheci em menino.
Mas não ficou nisso. Meses depois, quando cheguei às cinco horas, sempre a mando dos sabiás, seu Ramiro, com um ar premiado, me levou para trás do saco de milho: tinha comprado uma outra. Esta ainda é melhor, me disse, começando a operar as teclas com um ânimo de artista.
Nesse dia, saí da venda filosofando o seguinte: é isso mesmo, civilização é você construir uma central eletrônica sem esquecer as importâncias do bolinho de bacalhau. Ou de feijão, que ainda é melhor.
Entre águas e tons vegetais que vão passando, passo os fins de semana. Numa esperança aquecida, a de inverter um dia a equação urbana: residir lá, dar o endereço de lá e ter um quarto-sala de campo no Leblon. Ainda não dá, mas chego lá.
Na minha idade só certas riquezas supérfluas são essenciais. Um supérfluo essencial ao coração brasileiro da minha idade é a venda, a venda de beira de estrada, cavalos à porta, sacos e mantimentos, lampiões e caçarolas pendurados, balcões de tábuas honestas, um aroma rico do nacionalismo do fubá e da cachaça. E o dono da venda, claro. Este tem de ter nascido para ser dono de venda, como o torresmo nasceu para o tutu; do contrário o nosso sonho se desarruma, o cenário é vazio, fica faltando a alma da venda.
Nos primeiros tempos da Grota do Jacob (é o lindo nome do lugar), não me apercebi que uma função humana me faltava ali, apesar de todos aqueles luxos da quietude rural. Fui apanhado uma tarde, sem mais nem menos, por volta das cinco horas, quando me espichara no capim. De repente, a água do arroio parou de cantar o que eu sabia de cor e começou a dizer com doçura que em alguma parte existia uma venda. Uma o quê, perguntei. Uma venda, aquela venda. Um sabiá-laranjeira desceu do galho da quaresma para o chão e queria saber o que eu andava a fazer ali, era a hora da venda. E aí foi logo aquela prosopopeia, as coisas inanimadas e os bichos começando a proclamar ao mesmo tempo que estava na hora de ir à venda, que eu não podia deixar de ir à venda, que eu era um insensível se não fosse à venda.
Cedi à unanimidade da natureza, comunicando à mulher que era a hora de ir à venda. Ela não entendeu, mas o filho veio comigo, e em poucos minutos estávamos lá a discutir com seu Ramiro qual a melhor maneira de ferrar um cavalo. Era a glória.
A venda aquela não podia ser mais igual à dos meus sonhos. Tudo que é preciso no seu lugar. As pessoas chegando na hora certa, com as caras que deviam ter, cuspindo na hora de cuspir, comprando, bem devagarzinho, o que deviam comprar, dizendo infalivelmente as coisas que eu esperava ouvir. E o nome também era lindo: Mercearia Rio da Cidade.
Como se vê, tudo certinho, tudo igualzinho às vendas que eu conheci em menino.
Menos uma coisa que fazia tique-tique-tique... tleque-tleque... espiei atrás dum saco de milho e descobri seu Ramiro a fazer operações com uma máquina de calcular. Isto era novidade na venda que eu carregava comigo há duzentos anos. Que é isto, seu Ramiro? Máquina de calcular, respondeu o Ramiro com um orgulho tecnocrata. Duzentas de mortadela, tique-tique-tique... um quilo de feijão mulatinho, tique-tique-tique... um litro de querosene.... Depois, tleque-tleque-tleque, ele cortava o papel e estendia a fatura ao consumidor. Só não disfarçava bem aquele ar tecnológico.
Mas não ficou nisso. Meses depois, quando cheguei às cinco horas, sempre a mando dos sabiás, seu Ramiro, com um ar premiado, me levou para trás do saco de milho: tinha comprado uma outra. Esta ainda é melhor, me disse, começando a operar as teclas com um ânimo de artista.
Nesse dia, saí da venda filosofando o seguinte: é isso mesmo, civilização é você construir uma central eletrônica sem esquecer as importâncias do bolinho de bacalhau. Ou de feijão, que ainda é melhor.
Paulo Mendes Campos, "Os bares morrem numa quarta-feira"
Os pesadelos com o lançamento do primeiro livro
Assim que comecei a escrever o livro surgiu a primeira paranoia: e se não aparecer ninguém no lançamento? Toda noite sonhava com a cena: o constrangimento pairando sobre a mesa no fundo da livraria, o olhar de pena dos vendedores, a minha mãe mandando um tsk, tsk, tsk não muito discreto, minha mulher convocando conhecidos para diminuir a vergonha. Esse pesadelo demorou algumas semanas até ir embora. Substituído, como sempre, por outro pior: e se aparece alguém, mas eu esqueço o nome? A pessoa entra, me entrega o livro e eu fico ali com cara de paisagem, esperando — inutilmente — o HD pegar no tranco. Devo explicar ao leitor que tenho — mais — esse defeito: lembro das pessoas, mas não dos nomes. Se essa maldição já me atrapalha o dia a dia, em lançamentos de livros pode ser mortal. Tem gente que tem alma boa e anota o nome num post-it, para facilitar a vida do escritor. Outras, ruins, maléficas, nefastas — como eu — não só não anotam o próprio nome como ainda escrevem algo bizarro, para se divertir vendo o autor perder o rebolado. Aqui se faz, aqui se paga. No pesadelo tento uma dedicatória tão carinhosa quanto genérica, mas a pessoa percebe que eu não lembrei seu nome e sai da livraria indignada com a falta de consideração. Os vendedores trocam a pena pelo deboche, a minha mãe substitui o tsk, tsk, tsk pelo puxão de orelhas, minha mulher troca os telefonemas para conhecidos por um para o advogado.
Sou bem preciso nos meus pesadelos.
O livro está saindo agora, durante a pandemia, então não vai ter lançamento presencial. O leitor mais sensato vai pensar: foi resolvido o problema do colunista. Não tão fácil assim, leitor, as minhas paranoias são tinhosas e trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana. Nem em pandemias ou apocalipses elas tiram folga. E se eu não vender nenhum livro? A ideia do fracasso absoluto, o 7 x 1 literário, começou a me assombrar na semana passada. Já imaginava as pilhas encalhadas no depósito, a editora me cancelando, as traças esfregando as mãos com o futuro banquete. Diante da iminente tragédia, comecei a ligar para os meus amigos escritores, para saber se existe alguma taxa de constrangimento que fracassados devem pagar às editoras, como punição pelos livros encalhados. Disseram que nunca tinham ouvido falar, mas que fazia sentido. Quem sabe você vai ser o primeiro, disseram com um misto de sarcasmo e genuína inveja.
Sou bem preciso nos meus pesadelos.
O livro está saindo agora, durante a pandemia, então não vai ter lançamento presencial. O leitor mais sensato vai pensar: foi resolvido o problema do colunista. Não tão fácil assim, leitor, as minhas paranoias são tinhosas e trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana. Nem em pandemias ou apocalipses elas tiram folga. E se eu não vender nenhum livro? A ideia do fracasso absoluto, o 7 x 1 literário, começou a me assombrar na semana passada. Já imaginava as pilhas encalhadas no depósito, a editora me cancelando, as traças esfregando as mãos com o futuro banquete. Diante da iminente tragédia, comecei a ligar para os meus amigos escritores, para saber se existe alguma taxa de constrangimento que fracassados devem pagar às editoras, como punição pelos livros encalhados. Disseram que nunca tinham ouvido falar, mas que fazia sentido. Quem sabe você vai ser o primeiro, disseram com um misto de sarcasmo e genuína inveja.
Comecei a pensar se não era o caso de ter escrito crônicas sobre outro assunto, histórias de pais e filhos devem estar meio por fora. Vai ver ser pai — ou filho — virou um estorvo, um atraso de vida. Deveria ter escrito sobre os sentimentos da moda: raiva, ódio e ressentimento. Isso sim ia me garantir um sono tranquilo. Agora é tarde, mas ainda posso vender os livros como calço de mesa.
O celular cortou o meu surto: um amigo avisando que comprou o livro. Ufa! Ao menos um. Um alívio. Ou será que está falando só para que eu pare de perturbar? Ele diz que outro conhecido também comprou, para dar de presente ao pai. Opa! Já são dois. Peraí: e se eles detestarem? E se retornarem às livrarias para exigir o dinheiro de volta? Será que a editora vai me cobrar algum tipo multa por vergonha alheia?
O celular cortou o meu surto: um amigo avisando que comprou o livro. Ufa! Ao menos um. Um alívio. Ou será que está falando só para que eu pare de perturbar? Ele diz que outro conhecido também comprou, para dar de presente ao pai. Opa! Já são dois. Peraí: e se eles detestarem? E se retornarem às livrarias para exigir o dinheiro de volta? Será que a editora vai me cobrar algum tipo multa por vergonha alheia?
Já tenho pronto o pesadelo da semana.
terça-feira, agosto 3
O livro eterno
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| Silvia Stecher |
É que ler vai ficando cada vez mais raro. E cada vez mais caro! Aliás, bem a propósito, o meu amigo Luiz Zanin Oricchio, o impávido colosso editor do suplemento Cultura, do Estadão, me encomendou uma ampla reflexão sobre o último título de Alberto Manguel publicado no Brasil, A cidade das palavras. O conhecido autor argentino-canadense realiza ali nada mais, nada menos, do que um sacudido hino de amor ao livro e à sua eternidade.
Das primeiras tabuletas de argila onde, em caracteres cuneiformes, foi para sempre inscrita a fábula babilônica do rei Gilgamesh, ao mega-computador Hall, de 2001, Uma Odisséia no Espaço, a anunciar o futuro, presente hoje nos e-books e na internet, o livro só fez até aqui reafirmar sua perenidade. Talvez o mais mítico objeto já criado pelo homem, seja no papiro ou na tipografia. Mais que a roda e a pólvora! Por ser, sobretudo, o único e indestrutível guardião do imaginário humano. Nada neste mundo conseguiu e possivelmente nada conseguirá substituir a “função”, digamos, do livro. A tarefa quase misteriosa de seu destino – a de cifrar sabor e saberes; e de aprisionar nas páginas, feito imprevista armadilha, as histórias que o homem conta. E que, sem contá-las, pereceria.
Um quadro subsiste sem moldura, o teatro dispensa o palco, a música acontece mesmo quando soprada pelo vento, mas não haveria jamais onde guardar a fábula, a não ser na perecível memória humana e, mesmo esta, ao retransmiti-la, contaria nova fábula, nunca a original. O livro, não! Guarda a sílaba e a vírgula; o parágrafo e a reticência – inalteráveis.
E quando falo de livro, falo de “transmissão” escrita. Não importa o meio, a mídia, se as tabuletas mesopotâmicas ou as inscrições no papiro, se os caracteres góticos na oficina de Gutemberg ou os arremedos de jornais d’antanho. Tudo é o livro e a sua permanência de livro. O livro-livro, o livro-lauda, o livro-tiro, o livro-lume, o livro-sombra, o livro-ludo, o livro-tudo, o livro-nada.
Isso aí só para reverenciar um dos marcos da modernidade brasileira – o antológico Galáxias, de Haroldo de Campos, e ainda Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e Catatau, de Paulo Leminski, livros que na história recente do Brasil souberam honrar o livro que vestem.
Wilson Bueno (1949 - 2010)
segunda-feira, agosto 2
Notas do anoitecer da crise
Sem notícia e sem esperanças. O céu está castanho.
Estou chegando da rua, onde me disseram que tudo iria parar à meia-noite.
– Mas, São Paulo, também? –... perguntei, com algumas esperanças. Não me responderam. Um dia, ficará provado, que São Paulo pode parar, sim.
1 – Não sei se a situação nacional é tão grave, como dizem. Sei que a minha é gravíssima. O dinheiro acabou. Restava-me uma caderneta de cheques, que fui desfolhando, sem muito cuidado, nos botequins das cercanias. Claro, os cheques se acabaram. Terei crédito, para levantar dinheiro, na voz? Isto é que se irá saber.
2 – Cada pessoa devia fazer o seu dinheiro. Quem tivesse mais jeito para desenho, levaria vantagem. Nada mais justo. Poderia fazer uma nota de 5 mil cruzeiros, muito parecida com as que estão circulando por aí, valendo tanto quanto. Que tempo gastaria eu para desenhar uma nota de 5 mil cruzeiros? Caprichando, umas nove ou dez horas. Então, após trabalhar nove ou dez horas, qualquer homem tem direito a 5 mil cruzeiros.
Em meu caso, não me conteria e acabaria desenhando Vinicius de Morais, no lugar de Tiradentes. Seria preso, como falsificador.
3 – As notícias começam a rarear. E, quando rareiam as notícias, começam os boatos. Disseram-me, por exemplo... cala-te boca. O melhor é deixar de lado a crise e ir escrevendo algumas lembranças. Acho que já esgotei as minhas. Em todo caso... Uma vez, eu era tão pequeno, que as empregadas deixavam que eu tomasse banho no rio, com elas. Deixavam só, não: me convidavam. Naquele tempo, não havia roupas de banho. Então, minha mãe soube e perguntou se a iniciativa partira de mim ou das empregadas. Se era eu que tinha querido ou se foram elas. As empregadas disseram que o convite fora meu. Então, me fizeram aprender depressa o Padre-Nosso e a Ave-Maria, para rezar dez de cada, até o demônio sair de mim. E fui proibido de tomar banho no rio, mesmo sozinho. Nunca entendi por quê.
Só hoje descobri porque as empregadas disseram que fui eu que inventei o banho. Se elas confessassem, que me convidaram, seriam condenadas ao opróbrio nacional.
4 – Na usina, havia um lugar mal-assombrado: "A volta da jaqueira." Quem passasse por ali, de noite, veria sempre uma alma penada
Uma noite, eu e Tião resolvemos fazer um susto aos outros primos, que tinham saído a cavalo. Tião embrulhou-se num lençol e, quando os cavalos vinham chegando, atravessou-se na estrada. Ninguém teve medo. Ao contrário, cada um, com o seu chicote, bateu na alma, até não poder. O coitado do Tião gritava, mas, ninguém lhe ouvia os gritos. Saiu com o corpo todo lanhado.
5 – Quase todas as minhas lembranças são olfativas. Ou, em quase todas, há um cheiro qualquer, que se perenizou, em mim. Eu me lembro, por exemplo, do cheiro do rio Serinhaen. A usina derramava calda em suas águas e o rio tinha um cheiro azedo, insuportável. As piabas e os jundiaís (peixes) morriam em massa, com os olhos saltados e ficavam boiando, de barriga para cima. Antes de morrer, nadavam tontos, zanzando, na beira do rio, e nós os pegávamos com a mão.
Também, inesquecível o cheiro do leite ao pé da vaca. Não era o cheiro do estábulo. Do leite. O leite quente, ao sair da teta da vaca tinha um cheiro forte e bom, que hoje me recorda como nós éramos felizes, em nossa vidinha de menino de engenho. Nosso relógio era o trem. Quando ia, de manhã cedinho. Quando voltava, pelas sete da noite. Numa viagem e noutra, era hora de comer.
6 – Outro cheiro inesquecível, o do requeijão, que se fazia na cozinha. Não sei quantas latas de leite, para fazer uma travessa de requeijão. Mas, que delícia! Vinha molinho para a mesa, cheio de lagoas de manteiga. Ao mesmo tempo, na cozinha, se fazia um tacho de doce de goiaba. A casa toda cheirava a doce de goiaba durante três, quatro dias. E a gente, por qualquer motivo, comia doce com requeijão.
Lembro que o doce em calda, se caísse num dente mais avariado, era uma dor de tinir. Então, a gente escolhia o lado que mastigava. Arrumava o doce na boca, que era para não dar dor de dente.
7 – Naquele tempo só havia duas soluções, para casos de dor de dente – arrancar ou botar um remedinho, chamado Cêra do Dr. Lustosa. Ainda haverá a Cêra do Dr. Lustosa? Creio que não, porque se houvesse o rádio anunciaria. Quando não era dente de leite, o pai levava ao dentista, para "chumbar". Isto é, obturar, com chumbo. Doíííaaaaa! Mesmo depois de chumbado, o dente doía, a vida inteira.
Então, a vida inteira, em cada vez que o menino fosse comer qualquer espécie de doce, tinha que preparar a boca. Arrumar a comida do lado em que não houvesse dente chumbado.
Cocada, nem fala. Só em ouvir a palavra, quem tivesse dente furado, ou chumbado, sentia uma pontada violenta e tinha que bochechar água quente.
Hoje, minhas depressões, minhas angústias (não são muitas) eu atribuo, todas elas, às dores de dente da minha infância.
Passar, passar de todo, ainda não passaram.
8 – Meu pai era tenente-coronel da Guarda Nacional, e, disso, a família muito se orgulhava. Mas, eu tinha medo de guerra e perguntava à mamãe.
– Havendo guerra, papai tem que ir, não tem?
– É dos primeiros... – respondia ela.
– E se ele se ferir em combate?
– Ah, botam iodo.
Naquele tempo só tinha um remédio, para qualquer ferimento: iodo. Ardia. Como ardia! Mas, também, dois dias depois a pessoa estava boazinha.
Em Pernambuco havia, porém (e ainda há), um remédio, que servia para tudo. Inclusive, para beber, em certos casos, como por exemplo: se a gestante tomava um susto ou levava uma queda. Chamava-se e ainda se chama: Elixir Sanativo. A fórmula pertencia à família Guimarães que (ouvimos dizer) recebia propostas vantajosas para vendê-la até para a Europa. O gosto e o cheiro eram deliciosos (meio travoso, o gosto). E oferecia uma grande vantagem sobre o iodo: ardia menos.
Ainda hoje, quem voltar ao Recife, há de encontrar no armarinho do banheiro de qualquer família, um vidrinho de Elixir Sanativo. Em ferimentos leves, é superior a qualquer antibiótico.
9 – Houve muitos mortos, em nossa família. Os velórios eram dramáticos. O difícil era desgrudar a viúva, que queria sempre ir com o morto, abraçada a ele. E gritava, sem parar:
– Eu quero ir! Eu quero ir!
E o padre, que tinha vindo para a "encomendação do corpo", dizia três ou quatro palavras santas, como:
– Ele vai para junto de Deus, minha filha.
Depois:
– Ele ficará à sua espera, no céu.
Ao fim de tudo, uma pessoa da família, mulher, ajeitava o cabelo da viúva. Era um gesto, do mesmo tempo, de zelo e carinho, guardado até hoje, em minha lembrança. Um cuidado comovente e inútil.
10 – No Recife, até muito pouco tempo, vendiam-se cigarros em "porções". Por exemplo, as crianças e os pobres compravam sempre um tostão de cigarros. Duzentos réis, no máximo. Gente já de algum dinheiro comprava meio maço. Só rico é que comprava o maço inteiro.
No tempo em que comecei a fumar, havia cigarros de trezentos réis (os mais baratos), de quinhentos, de oitocentos, de 1.100, 1.500 e de 2 mil réis, os caros Colúmbia, que só tendo muito dinheiro, podia-se fumar. Os meus eram os de oitocentos réis. Regência, ovais, de fumo forte.
Pois bem, em 1940, quando cheguei ao Rio, passei no Ponto Elegante (por ali, onde, hoje, é o Top Club) e pedi:
– O senhor quer me dar um tostão de Regência?
– Só vendemos o maço inteiro... – respondeu-me o homem. E quase morri, de tanta vergonha. Mas, estava inocente. Não sabia que uma pessoa das minhas posses fosse obrigada a comprar um maço inteiro. Havia dois banhistas perto, um rapaz e uma moça, saíram rindo de mim, imitando meu sotaque e minha candura:
– O senhor quer me dar um tostão de Regência?
11 – E aqui vão estas lembranças, de quem se despurificou, com o tempo. De quem teve de aprender todas as coisas depressa, para ser lembrado e lembrar a vida, é preciso. São elas escritas num anoitecer de segunda-feira, quando nenhuma notícia é alegre. Vive-se um apreensivo começo de noite. Quanto a mim, estou por tudo. Ah, por que os homens não sabem viver em paz, uns com os outros? Bastaria que cada um fizesse direito sua parte. Eu sempre procurei fazer direito a minha parte... ou, ao menos, fazer tudo o que me pagam para fazer. E ainda faço uma porção de coisas de graça, para ajudar... ajudar... ajudar...
Que poderia escrever um cronista, em dia assim? Todas as ordens foram traídas. Todas as promessas foram desfeitas. Já começo a sentir algum desgosto de ser brasileiro... e ter que continuar sendo, por todos os séculos, por todos os remorsos, por todas as insônias, pela minha pobreza, pelo meu amor. Haverá outro dia esperança? Quando?
Então, leitor, contente-se, por hoje, com estas notas escritas, sob um céu castanho. Feitas de uma melancólica preguiça de ser. Sim. De ser. Partilhe comigo desse perdoável desgosto pelas coisas paradas, pelos homens parados, por um deus parado. Há um desânimo geral, que nem a poesia salvará. A poesia, apenas, nos ensinaria a morrer. Assim seja.
Antônio Maria, "O jornal de Antônio Maria"
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