quarta-feira, junho 3

Conversa com o devoto

Houve um tempo em que eu ia à igreja todos os dias, pois uma moça pela qual eu havia me apaixonado rezava por lá de joelhos durante meia hora ao anoitecer, e eu podia aproveitar para contemplá-la em silêncio.

Certa vez, quando a moça não veio e eu olhava, incomodado, para os que rezavam, chamou minha atenção um rapaz magro que havia se jogado ao chão. De tempos em tempos, ele movia o crânio com toda a força de seu corpo e o lançava, suspirando, às palmas de suas mãos, que jaziam sobre as pedras.

Na igreja, havia apenas algumas mulheres idosas, que viravam com frequência suas cabecinhas enroladas em panos e inclinadas para o lado para olhar para aquele que rezava. Essa atenção parecia deixá-lo feliz, pois, antes de cada uma de suas explosões devotas, ele olhava em volta para ver se o número de espectadores era grande. Eu achei isso inconveniente, e decidi lhe dirigir a palavra assim que ele saísse da igreja e lhe perguntar por que ele rezava desse modo. Sim, eu estava incomodado porque minha moça não viera.

Mas ele se levantou apenas depois de uma hora, fez um sinal da cruz deveras cuidadoso e andou aos trancos até a pia da água benta. Eu me coloquei no caminho entre a pia e a porta, e sabia que não o deixaria passar se ele não me desse uma explicação. Contorci minha boca, conforme sempre faço quando me preparo para falar com determinação. Avancei a perna direita e me apoiei sobre ela, enquanto mantinha a esquerda descontraidamente apoiada sobre a ponta do pé; também isso me concede segurança.


É até possível que aquele homem já olhasse de esguelha para mim ao borrifar a água benta em seu rosto; talvez também já tivesse me percebido anteriormente com alguma preocupação, pois então, de modo inesperado, ele saiu correndo pela porta afora. A porta de vidro bateu, se fechando. E, quando saí, logo em seguida, não o vi mais, pois lá fora havia algumas ruelas estreitas e o trânsito estava bem movimentado.

Nos dias seguintes, o rapaz não apareceu, mas minha moça veio. Ela usava o vestido negro que tinha tiras transparentes sobre os ombros – a meia-lua da borda do corpete ficava debaixo delas –, das quais a extremidade inferior acabava em uma gola bem- cortada e bem-delineada. E, uma vez que a moça veio, esqueci o rapaz, e não me preocupei com ele nem mesmo quando voltou a aparecer com regularidade mais tarde e, conforme seu costume, rezava. Mas ele sempre passava por mim a toda pressa, de rosto voltado para o outro lado. Talvez isso se devesse ao fato de eu sempre imaginá-lo apenas em movimento, de modo que ele, mesmo quando estava parado sem se mexer, parecia a mim que se esgueirava.

Certa vez, acabei me atrasando em meu quarto. Mesmo assim, ainda fui à igreja. Não encontrei mais a moça por lá e quis voltar para casa. E então eis que vi de novo o rapaz deitado no lugar de sempre. O que acontecera outrora voltou a me ocorrer, e me deixou curioso.

Deslizei até o corredor de entrada sobre a ponta dos pés, dei uma moeda ao mendigo cego que por lá se sentava e me recostei ao lado dele, atrás da asa da porta aberta; e lá fiquei sentado por uma hora, talvez até mesmo fazendo cara de esperto. Me sentia bem naquele lugar, e decidi ir até ele com mais frequência. Na segunda hora, achei absurdo continuar sentado ali por causa do devoto. E ainda assim permiti, já furioso, que uma terceira hora se passasse, com as aranhas já andando sobre as minhas roupas, enquanto as últimas pessoas, respirando alto, saíam do escuro da igreja.

E foi então que também ele veio. Andava com cautela, e seus pés tateavam o chão de leve antes de pisar com firmeza.

Eu me levantei, dei um passo largo e direto e agarrei o rapaz.

– Boa noite – disse eu e o empurrei, minha mão segurando seu colarinho, pelas escadarias abaixo até a praça iluminada.

Quando chegamos ali embaixo ele disse, com uma voz completamente insegura:

– Boa noite, meu senhor, meu caro senhor, não fique irritado comigo, seu mais dedicado servidor.

– Sim – disse eu –, quero lhe perguntar algumas coisas, meu senhor; na última vez conseguiu fugir de mim, mas isso hoje será bem difícil.
– O senhor é compassivo, e me deixará ir para casa, meu senhor. Sou digno de pena, esta é que é a verdade.

– Não – gritei em meio ao barulho do bonde que passava. – Não vou deixar o senhor ir. São justamente histórias assim que me agradam. O senhor é um peixão e tanto. Dou os parabéns a mim mesmo.

Então ele disse:

– Oh, Deus, o senhor tem um coração vivaz e uma cabeça feita de pedra. Chama a mim de peixão, e como deve ser feliz por causa disso! Pois minha infelicidade é uma infelicidade oscilante, uma infelicidade que oscila sobre uma ponta das mais estreitas e, quando é tocada, cai sobre aquele que pergunta. Boa noite, meu senhor.

– Pois bem – disse eu, e segurei sua mão direita com firmeza –, se o senhor não me responder, começarei a chamar todo mundo aqui na rua. E todas as moças das lojas, que agora estão saindo, após o final do expediente, e inclusive seus amantes, que se alegram com elas, vão se juntar aqui, pois irão acreditar que um cavalo de tílburi caiu ou algo do tipo aconteceu. E então eu vou mostrar o senhor para todas as pessoas.

Nesse instante, ele beijou ambas as minhas mãos, uma após a outra.

– Eu vou dizer ao senhor o que o senhor quer saber, mas, por favor, é melhor irmos para a ruela ali do lado. – Eu assenti, e nós fomos até lá.

Mas ele não se contentou com a escuridão da ruela, na qual havia postes de luz amarelada apenas a grande distância uns dos outros, mas me conduziu até a entrada baixa de uma casa antiga, sob um lampiãozinho pendurado, a pingar, diante de uma escada de madeira.

Lá, ele tirou, com ares de importância, seu lenço do bolso, e disse, estendendo-o sobre um dos degraus:

– É melhor que o senhor se sente, aí poderá perguntar melhor, meu caro senhor. Eu ficarei em pé, assim conseguirei responder melhor. Mas, por favor, não me torture.

Então eu me sentei e disse, levantando os olhos aguçados para ele:

– O senhor é um louco que deu certo, isso é o que o senhor é! Como o senhor se comporta na igreja! Como isso é incômodo e desagradável para os que lá estão! Como alguém pode se mostrar devoto, se precisa ficar olhando para o senhor?

Ele havia pressionado seu corpo contra a parede, apenas a cabeça se movia com liberdade no ar:

– Não se incomode… Por que o senhor deveria se incomodar com coisas que não lhe dizem respeito? Eu me incomodo quando me comporto de modo desastroso; mas se é um outro que se comporta mal, eu apenas me alegro. Não se incomode, portanto, se eu digo que o objetivo da minha vida é ser olhado pelas pessoas.

– O que o senhor está dizendo aí – eu exclamei em voz demasiado alta para o corredor estreito, mas em seguida temi baixar a voz e continuei no mesmo tom. – De fato, o que o senhor está dizendo aí? Sim, já imagino muito bem, exatamente, já o imaginava muito bem desde que o vi pela primeira vez, em que estado o senhor está. Tenho experiência e não quero parecer doloroso quando digo que é como se fosse um enjoo marítimo em terra firme. A essência de sua doença está no fato de o senhor ter esquecido o nome verdadeiro das coisas e agora, em sua imensa pressa, apenas derrama sobre elas nomes casuais. Importa apenas ser rápido, ser rápido! Mas, mal o senhor fugiu dessas coisas, já esqueceu seus nomes de novo. O choupo nos campos, que o senhor chamou de “Torre de Babel”, pois o senhor não sabia ou não queria saber que era um choupo, se embala outra vez, sem nome, e o senhor precisa chamá-lo então de “Noé, quando estava bêbado”.

Fiquei um pouco consternado quando ele disse:

– Fico feliz com o fato de não ter entendido aquilo que o senhor diz. Irritado e sem perder tempo, eu disse:

– Ao se mostrar feliz com isso, o senhor apenas deixa claro que entendeu tudo.

– Na verdade, eu posso tê-lo mostrado, honorável senhor, mas também o senhor falou de modo estranho.

Deitei minhas mãos sobre um degrau mais acima, recostei-me um pouco e, nessa postura quase intocável, que é a última salvação dos lutadores no ringue, perguntei:

– O senhor tem um jeito divertido de se salvar, ao pressupor seu próprio estado no outro.

A isso ele se mostrou encorajado. Juntou as mãos para dar unidade a seu corpo e disse, demostrando uma leve resistência:

– Não, não faço isso contra todos, nem mesmo contra o senhor, por exemplo, porque não o consigo. Mas eu ficaria feliz se o conseguisse, pois nesse caso a atenção das pessoas na igreja não seria mais necessária para mim. O senhor sabe por que tenho necessidade dela?

Essa pergunta me deixou desamparado. É claro que eu não sabia, e acreditava, inclusive, que não queria saber. Eu também não quisera ir até ali, conforme dissera comigo mesmo já antes, mas o homem me obrigara a ouvi-lo. De modo que eu agora precisava apenas sacudir minha cabeça para lhe mostrar que não sabia, mas eu não conseguia botar minha cabeça em movimento.

O homem que se encontrava parado diante de mim sorria. Em seguida, ele se encolheu, caindo de joelhos, e contou, mostrando uma careta sonolenta:

– Jamais houve um tempo no qual eu estivesse convencido de minha vida apenas comigo mesmo. É que eu me ocupo das coisas somente em noções tão precárias que sempre acredito que as coisas em algum momento estiveram vivas, e agora apenas naufragaram. Sempre, meu caro senhor, sinto uma vontade de ver as coisas conforme gostaria de mostrá-las antes de elas se mostrarem para mim. Elas por certo se mostram belas e tranquilas assim. Tem de ser assim, pois com frequência ouço pessoas falarem delas desse modo.

– Uma vez que eu permanecia em silêncio, e apenas nas contrações involuntárias do meu rosto mostrava como me sentia desconfortável, ele disse:

– O senhor não acredita que as pessoas falam assim? Eu achava que deveria assentir, mas não consegui.

– Realmente, o senhor não acredita nisso. Mas ouça só. Quando, ainda criança, abri os olhos certo dia, depois de uma breve sesta, ouvi, ainda completamente tomado pelo sono, minha mãe perguntar da sacada em tom bem natural: “O que está fazendo, minha querida? Está tão quente.” Uma mulher respondeu do jardim: “Estou merendando em meio ao verde.” Elas o diziam sem pensar e de modo não muito nítido, como se todos tivessem de esperar por isso.

Achei que ele aguardava minha resposta, por isso botei a mão no bolso traseiro da minha calça e fiz de conta que procurava alguma coisa por lá. Mas eu não procurava nada, queria apenas mudar meu aspecto para demonstrar que participava da conversa. E nisso eu disse que aquele incidente era tão estranho e que eu de modo algum o compreendia. Ainda acrescentei que não acreditava na verdade dele, e que o incidente devia ter sido inventado com algum objetivo que eu agora não conseguia perceber qual era. Em seguida fechei os olhos, pois eles me doíam.

– Oh, mas é muito bom que o senhor seja da minha opinião, e foi desinteressadamente que o senhor me reteve para dizer isso a mim. Não é verdade, porque eu deveria me envergonhar – ou então, porque nós deveríamos nos envergonhar – com o fato de eu não andar empertigado e pesadamente, não bater a bengala sobre o piso e não tocar as roupas das pessoas que passam fazendo barulho. Por acaso eu não deveria, com muito mais razão, me queixar teimosamente que eu, na condição de sombra de ombros angulosos, salto ao longo das casas, por vezes desaparecendo atrás do vidro das vitrines? Que dias são esses que eu passo! Por que tudo é construído tão mal a ponto de prédios altos desabarem de quando em quando sem que para tanto se pudesse encontrar um motivo externo? Eu subo então pelos montes de entulho e pergunto a todos que encontro: “Como foi que isso pôde acontecer? Em nossa cidade – um prédio novo – hoje já é o quinto, imagine só.” E ninguém sabe o que me responder. Muitas vezes pessoas caem no meio da rua e ficam deitadas, mortas. Então todos os homens de negócios abrem suas portas cobertas de mercadorias, se aproximam, ágeis, arrastam o morto para dentro de casa, em seguida, voltam a sair, um sorriso nos lábios e nos olhos, e falam: “Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra.” Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. “Caro senhor”, digo amistosamente, “um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostrá-lo a mim?

Eu lhe imploro.” E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: “Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez.” “Um morto?”, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. “Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente.” Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: “Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vento volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo.”

Maltratado como eu estava, disse:

– Essa história que o senhor contou anteriormente, da senhora sua mãe e da senhora no jardim, eu nem sequer acho estranha. Não apenas porque já ouvi e vivenciei muitas histórias semelhantes, mas inclusive por ter participado de algumas delas. Isso, aliás, é uma coisa completamente natural. O senhor acha que, se eu estivesse na sacada, não poderia dizer a mesma coisa e poderia responder também a mesma coisa se estivesse no jardim? Uma coisa das mais simples.

Quando terminei de dizer isso, ele pareceu muito feliz. Disse que eu estava bem- vestido, e que minha gravata lhe agradava muito. Que pele delicada que eu teria, aliás… E confissões se tornavam tanto mais claras, segundo ele, quando eram negadas em seguida.
Franz Kafka

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