Não sei quem é, o que faz, desconheço-lhe o nome. Vejo-o sempre. Vizinho talvez. Deve morar perto, circula apressado pelas ladeiras do bairro, o rosto contraído, carregando invariável preocupação nos olhos. Inspira-me inquietação. Atravesso a via ao cruzar com aquela figura nervosa. Reconheço ter medo. Transpira loucura. Passa, pela outra calçada, atarantado, como se fugisse de um perseguidor invisível, espreitando o mundo de esguelha, movendo a cabeça desordenadamente, instável, conversando com alguém ao lado. Invisível! Deve ouvir vozes imperativas. Precisa obedecer, inconformado, às ordens transmitidas. Vez ou outra, me faz lembrar o coelho branco de Alice, segue ligeiro como se dissesse o tempo todo:
— Estou atrasado! Estou atrasado!
Parece indiferente à estação. Verão, inverno, calça e camisa de manga curta combinando, tons sóbrios, nunca um agasalho. Não faz má figura. Frio, calor, sobe e desce os caminhos no ritmo costumeiro. Discutindo apreensivo com o nada. Alucinado, esquizofrênico.
Outro dia, quando desenvolvia no parque minha rotina de exercícios, transitando distraído, o fone de ouvido trazendo as calamidades cotidianas das notícias, percebi o infeliz junto de mim. Apenas um átimo, e não estava mais lá. Arrepiei-me com o susto até a raiz dos cabelos. Devo até ter inchado, pois o auricular foi expelido para fora da orelha; tive que buscar o objeto no chão.
Qual a razão do pavor se nada me fez o indigitado? Nunca! Simplesmente conversa sozinho, em tão ele apa voz sussurrada. Mandos, ordens incômodas, obediente criatura. O pescoço feito periscópio girando Leste-Oeste, todo arregalado, esbugalhado, passos afobados, afogados, paralelo ao meu destino.
Não sei quem é o homem desesperado da minha rua. Quando dou por mim, engasgo com sua presença indesejada. Nos vãos da minha percepção alheada. No abismo do meu desconforto com doidos. Por quê? Se dou por mim absorto, volto e deixo a percepção tomar ciência, noto aquele sujeito vagando na vizinhança do meu antes disperso discernimento. Então, ele aparece inquieto, perturbado, invariavelmente repetindo:
— Estou atrasado! Estou atrasado!
Coelho homem branco. Ali, parado, quando abro a porta do elevador. Eu terrificado! Apenas um átimo e não mais o falso ascensorista presente. Espaço vazio, luz branca, apenas a placa limitando o lugar a oito pessoas.
Hoje, acordei mais tarde do que costumo. Abri os olhos e ele estava no quarto, em pé, feito sombra na penumbra da manhã enclausurada. O coelho nos braços. Branco.
— Estou atrasado! Estou atrasado!
Não sei do homem da minha rua.

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