Se o cego Marujo não enxergava, os olhos esbranquiçados nas órbitas graúdas, submersos nas sombras, cobertos por uns óculos de lente escura, como é que conseguia contar aquelas histórias adquiridas com os trovadores da cidade? Comentava-se que o seu guia, um menino de cor, apelidado de Zoinho por causa dos olhos pequenos sumidos na cara, era quem lia as histórias de cordel para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição.
Ele fazia a música que se encaixava perfeita na letra do cordel cujo conteúdo mais marcava a alma cantante acostumada nas visões alegres e sentimentos tristes. Sua memória prodigiosa gravava a história do cordel lida pelo menino, sem perder um detalhe, mas também gostava de improvisar com cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.
Além de guia, o menino Zoinho chamava o povo para escutar mais uma cantoria do cego Marujo. Aquele menino esperto não tinha pai nem mãe, vivia sem rumo, fazendo biscates na feira aos sábados e no terminal das marinetes na semana. Pedia comida na porta da família rica. Dormia embaixo da ponte numa cama improvisada com papelão grosso. Se cobria com uma coberta de lã velha, tinha vários furos no pano puído.
Até que um dia pediu ao cego Marujo para ser seu guia e fazer a limpeza no barraco. Não só fazia isso, preparava o café pela manhã e a comida à noite. Fazia a feirinha de mercado no armazém do português. De tal sorte um pegou afeição pelo outro, que o cego Marujo dizia que o menino era o filho que não teve, este dizia que ele era o pai que sempre quis ter. Antes de dormir e depois de acordar no outro dia, o menino Zoinho não esquecia de dizer:
– Benção, pai Marujo.
Chamava o povo para assistir mais uma cantoria do cego Marujo, que de repente gostava de tirar do sério o público, escutando-o em silêncio o que cantava em tom lamentoso. Terminava a cantoria com um gracejo que fazia a plateia cair na gargalhada. Não deixava de ressaltar alguma façanha que fazia no tempo de pescador. Certa vez, ouvi o cego Marujo falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, e o que mais gostava, o mar como uma piscina sem fim alagado de azul. Era pescador que saía cedo para pegar o peixe nos longes mares bravios de Ilhéus.
O barco feito brinquedo
Indo pra lá e pra cá
Em cada onda gigante
Assombrando a tripulação,
Só Marujo não tinha medo
Quanto maior fosse o perigo
Causando enorme aflição.
Cyro de Mattos
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