segunda-feira, junho 15

Júpiter

Nunca me esquecerei da sua imagem à beira do canal, contemplando a obra que ele – aquele criminoso, aquele monstro! – realizara. Só Deus sabe que, naquele momento, nenhum de nós era capaz de raciocinar. Ainda assim, lembro de saber muito bem o que se passava em seu pequeno cérebro vingativo e extraordinário.

Tentarei agora contar desde o início a história toda, quem sabe só para mim mesmo.

Quando me retirei dos negócios, há cerca de oito anos, minha mulher e eu resolvemos procurar um recanto tranquilo no interior. Encontramos o que procurávamos próximo do vilarejo de Dover, no norte do estado de Nova York. A região era permeada por um velho canal que cem anos antes costumava ficar repleto de barcos. Mas então chegou a ferrovia e o tráfego no canal diminuiu, os guardadores das eclusas foram demitidos e hoje essa atmosfera especial de solidão torna a região romântica e misteriosa.

Ali, num morro perto do canal, ficava a casa que compráramos, a poucas milhas da cidade. Sentados no nosso terraço ao ar livre, víamos a casa, as árvores, o jardim e a relva refletidos na suave superfície da água. Não estávamos completamente isolados, pois a algumas centenas de jardas de distância havia outra casa, bastante parecida com a nossa.

Certa manhã, pouco tempo depois de nos mudarmos para a casa, apareceu uma jovem esguia e bonita, de seus vinte e oito ou vinte e nove anos, que se apresentou como mrs. Surgis. Tinha olhos inteligentes e gentis, era simpática, e em pouco tempo já estávamos conversando como velhos conhecidos. Mr. Surgis trabalhava em Buffalo, e embora precisasse viajar uma hora e meia de trem de manhã e à noite, fazia-o de bom grado por causa da beleza da paisagem.

Achei estranha a maneira como a jovem se referia ao marido e tive a impressão de que ela não sentia sua falta, embora, de alguma maneira, gostasse dele.

Quando, alguns dias depois, passeávamos à margem do canal, escutamos passos atrás de nós. Um homem grande e forte veio ao nosso encontro e apertou nossas mãos. Era Roger Surgis. Disse que sua mulher lhe falara a nosso respeito e que, ao nos ver passando, quis nos cumprimentar. E não era uma linda manhã? Também não achávamos que aquele era o melhor lugar do mundo? E não era inimaginável querer viver na cidade, se existia um lugar como aquele?

Ele falava com tanto entusiasmo que era difícil interrompê-lo, mas assim pelo menos pude observá-lo minuciosamente. Devia ter uns trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura, um verdadeiro gigante de ombros largos e quadrados. E que homem bondoso! Falava e ria sem parar. Ao mesmo tempo, irradiava tal sentimento de felicidade e profundo contentamento que, querendo ou não, nos contagiava. Ambos fomos arrebatados pelo seu bom humor e ficamos encantados em ter um vizinho tão jovial.

Mas nosso entusiasmo não durou muito tempo. Na realidade, não havia a menor objeção a fazer a Roger Surgis. Era cortês, simpático e solícito – um homem gentil e confiável. E no entanto…

Para dizer a verdade: com o passar do tempo, foi ficando difícil suportar a sua presença, por ser tão ruidoso e ininterruptamente alegre. Para ele, tudo sempre estava ótimo, no melhor dos mundos. Sua casa era perfeita, a mulher era o ideal e o seu cachimbo o melhor jamais fabricado. Antes de conhecer Roger Surgis, nem em sonhos eu imaginara como virtudes honradas podem ser cansativas e capazes de nos levar ao desespero.

Aos poucos, comecei a compreender a estranha ambiguidade com que sua mulher falava dele. Ele a amava apaixonadamente, assim como amava qualquer coisa que fosse sua. Mimava-a com um carinho exagerado e chegava a ser constrangedor o orgulho que sentia dela. Ela tinha plena consciência desse constrangimento, mas o que podia fazer? Era simplesmente impossível aborrecer-se com pessoa tão devotada.


Minha mulher e eu conversamos sobre os dois e chegamos à conclusão de que lhes fazia falta um filho. Ela me contou que mrs. Surgis desejava engravidar, e que aquela era a grande decepção do casamento. Haviam contado com um filho no primeiro, no segundo e no terceiro ano da união, mas depois de oito anos já haviam perdido as esperanças.

Naquela altura, Betty, minha mulher, foi visitar velhos amigos em Rochester e, ao voltar, acreditava ter uma ideia brilhante. Seus conhecidos tinham uma cadela bull terrier que acabara de dar cria. Betty recusara um dos filhotes que a amiga quis lhe oferecer por achar que não poderíamos cuidar adequadamente dele, mas disse que um cachorrinho seria a melhor coisa para mrs. Surgis. Concordei, e na mesma noite perguntei o que achariam de ter um filhote de cachorro. Mrs. Surgis ficou calada, como sempre quando o marido estava por perto, mas ele imediatamente aceitou nossa oferta. Maravilhoso! E por que não haviam pensado nisso antes? Que ideia maravilhosa! Ele não parava de nos agradecer.

Dois dias depois chegou o cachorrinho. Era uma criatura engraçada, amável e pequena, de pelo branco, muitas dobras e patas imensas, um exemplar típico da raça. E aconteceu o exato contrário daquilo que pensáramos.

Havíamos imaginado o cachorro como companheiro para a mulher. Todavia, Surgis apoderou-se dele. Pouco depois ele me contava, a qualquer oportunidade, que no mundo inteiro não havia cão mais inteligente e belo, e que era especial, um rei de sua raça.

Parece quase inacreditável o que essa nova paixão fez com Roger Surgis. À vezes, escutávamos latidos altos na casa vizinha, mas não era Júpiter que latia. Era Surgis que, deitado no chão, brincava como uma criança com seu xodó. Eu seria capaz de jurar que ele se preocupava mais com a dieta do animal do que com a sua própria e lembro que, quando certa vez o jornal informou sobre um caso de tifo na vizinhança, Júpiter passou a ganhar apenas água mineral para beber.

Havia uma única vantagem para nós: com Surgis concentrado no cão, sua impetuosidade afetava menos a sua mulher e a nós. Passava horas brincando com o cachorro sem se entediar e fazia longos passeios com ele. E Deus sabe que mrs. Surgis não era ciumenta. Seu marido encontrara um novo ídolo para adorar, o que foi um imenso alívio para ela.

Júpiter cresceu e se desenvolveu. Preencheu as dobras de seu pelo com carne rija e firme, seu peito se alargou, as ancas tornaram-se fortes e as patas, imensas. Admito que, com seu pelo sedoso e cuidadosamente escovado, era um belo animal. De início, ainda tinha boa índole. Mas isso logo mudou – primeiro sem que percebêssemos, e depois de forma cada vez mais visível. Era inteligente e logo descobriu que seu senhor – ou melhor, seu escravo – idolatrava-o e fazia vista grossa para todas as suas travessuras. O resultado foi inevitável.

Ele parou de obedecer – não só isso: tornou-se tirânico. Tudo na casa precisava girar em torno dele. Quando chegava visita e ele era deixado do lado de fora, na esperança de que Surgis viesse correndo atirava-se com tal ímpeto contra a porta que ela rangia. Então aparecia na sala, sem se dignar sequer a olhar para as visitas, e saltava no sofá, o móvel mais valioso, onde se esparramava, distraído e entediado. Sempre demorava para atender os chamados de Surgis. Somente dava o ar de sua graça se o dono o pressionasse e suplicasse. E, embora durante o dia se comportasse como um cão normal, cruzando campos e relvas em grande velocidade, caçando galinhas, cavando buracos e explorando a área, seu comportamento se alterava radicalmente quando Surgis voltava da cidade à noite.

Preguiçoso, ficava deitado no sofá, sem tomar o menor conhecimento do dono, que se precipitava sobre ele com um afetivo “Olá, velho Júpiter”, e nem sequer abanar o rabo em resposta à saudação.

Ele era um tirano cada vez mais consciente de seu poder. Foi quando descobriu uma nova brincadeira. Algumas mulheres pobres de uma vila nas vizinhanças costumavam levar cestos de roupa para lavar no canal. Júpiter sabia muito bem os dias em que vinham. Esgueirava-se para perto delas, apoderava-se de seus cestos num momento propício e com um golpe de sua cabeça poderosa lançava-os n’água. Em seguida, desaparecia com a boca entreaberta, como se estivesse rindo. Seus pequenos olhos cor-de-rosa brilhavam, parecendo zombar das lavadeiras que corriam atrás dele e tentavam pegá-lo. E mesmo quando conseguiam não adiantava nada, pois ele tinha a força de um cavalo. Elas acabaram indo lavar sua roupa em outro ponto do canal, e Júpiter perdeu um pouco de seu poder.

Assim se passou um ano. Júpiter estava totalmente desenvolvido. Era agora um animal crescido, insolente e arrogante que só dominava bem uma arte: a de espezinhar seu senhor, que a ele se submetia como um escravo.

Então chegou o dia em que tudo mudaria.

Havia algum tempo tínhamos a impressão de que mrs. Surgis evitava qualquer conversa conosco. Essa estranha relutância chamou nossa atenção, e um belo dia Betty decidiu tentar descobrir o motivo.

– Judith – disse ela –, sou bem mais velha que você e não tenho razão alguma para acanhamento. Por isso, resolvi quebrar o gelo. Se fizemos algo que a ofendeu, peço que diga o que foi.

Mrs. Surgis gaguejou um pouco, hesitou um momento e em seguida nos confidenciou a grande novidade. Depois de nove anos de casada, já não acreditava mais que poderia ser mãe, mas agora estava grávida. Estivera no médico e ele confirmara suas suspeitas. Sua alegria era imensa, mas de alguma maneira não conseguia falar com o marido a esse respeito. Ela temia um pouco a virulência da sua reação. Nós sabíamos como ele era. Por isso, pensara em nos pedir que falássemos com ele para preparar o seu espírito. Naturalmente, ficamos encantados. Deixei uma mensagem para Surgis, pedindo que nos procurasse tão logo voltasse da cidade. Às seis e meia em ponto ele chegou, com toda a sua vitalidade.

– Roger – eu lhe disse –, posso lhe fazer uma pergunta, de brincadeira? O que você pediria se tivesse direito a um desejo?

Meio sério, meio rindo, Surgis balançou a cabeça.

– Quer saber o que eu pediria? Por quê?

– Certamente deve ter algum sonho!

– Mas o que é isso?

– É sério. Qual seria seu maior desejo? Ele sorriu.

– Ai de mim se eu soubesse o que quero… Tenho tudo de que necessito: minha mulher, minha casa, minha profissão e meu…

Ele queria dizer “meu cachorro”, mas no último momento mudou de ideia, pois sabia bem o que achávamos daquele animal diabólico.

– Bem, e o que será que mrs. Surgis mais gostaria de ter? Estupefato, ele me olhou.

– O que ela poderia querer?

– Talvez algo mais que um cachorro.

Por fim, ele compreendeu. Arregalou os olhos de tal maneira que se via apenas a parte branca. Ergueu-se de um salto e atravessou o gramado correndo, pulou a cerca e só escutamos a porta batendo.

Rimos. Sua reação não nos surpreendeu.

Mas houve quem ficasse surpreso: alguém que estava deitado no sofá, de olhos fechados, esperando a reverência cotidiana que, na sua opinião, o seu dono lhe devia. Alguém que esperava que o homem entrasse na sala, se ajoelhasse a seu lado e o acariciasse – e que esperava poder ignorar totalmente essa veneração.

Mas o que era aquilo? Sem uma palavra sequer, o homem passou correndo por ele até o quarto, e ele escutou um falatório interminável, risadas e choro. Ninguém deu atenção a ele, Júpiter, o tirano, o maravilhoso e orgulhoso Júpiter.

Passou-se uma hora. A empregada lhe trouxe a tigela com a ração. Ele a desprezou. Chegou até a rosnar para a mulher. Que todos vissem que ele não admitia ser tratado daquela maneira! Mas naquela noite ninguém parecia notar que ele desprezara sua comida. Surgis falava incessantemente com a esposa, inundando-a com seus conselhos preocupados e com seu carinho. Júpiter estava orgulhoso demais para forçar a atenção do dono para si. Enroscado em seu canto, ficou esperando.

Mas esperou em vão.

Na manhã seguinte, Surgis voltou a passar correndo por ele, sem sequer lhe lançar um olhar. A mesma sensação amarga ele teria à noite, e na manhã e na noite seguintes – dia após dia.



O animal era inteligente, mas aquilo superava sua capacidade de compreender. Ficou nervoso e irritadiço. Não correria atrás do dono, jamais! Surgis que voltasse ao normal e desse o primeiro passo para aproximar-se dele.

Na terceira semana, começou a mancar. Em circunstâncias normais, Surgis teria chamado um veterinário, mas dessa vez nem ele nem qualquer outra pessoa da casa reparou naquele comportamento, e assim ele desistiu, cheio de amargura. Alguns dias mais tarde, tentou uma greve de fome. Era suficientemente inteligente para lançar mão também desses expedientes sutis. Mas ninguém ligou. Durante dois dias, ele recusou qualquer alimento. Se ninguém se preocupasse, morreria de inanição. Mas no final sua fome foi maior do que a força de vontade. Sim, eu disse força de vontade, pois eu conhecia aquele cachorro – e ele voltou a comer, mas certamente sem a menor alegria.

Emagreceu. E começou a se mover de maneira diferente. Em vez de correr por aí, indômito e insolente, agora se esgueirava pelos cantos. Seu pelo, antes cuidadosamente escovado, perdeu o brilho sedoso. Seus olhinhos cor-de-rosa tinham um ar desorientado. Quando o encontrávamos, baixava a cabeça e passava direto por nós, para que não pudéssemos ver seus olhos.

Sua greve de fome, mancar, todos os seus truques haviam sido inúteis. Algo mudara naquela casa que ele dominara. O que diferencia a mente animal da humana é que a primeira se limita ao passado e ao presente; o futuro, para ela, é uma dimensão desconhecida. E assim Júpiter estava condenado a sentir, com medo e desespero, que algo invisível crescia na casa e se preparava, algo que era contra ele: um ladrão vil e diabólico.

Meses depois, ele estava no fim de suas forças – pelo menos parecia o fim. Se fosse uma pessoa, com certeza teria cometido suicídio. Sumiu durante três dias inteiros. Na noite do terceiro dia, voltou, sujo, faminto e estropiado, parecendo que saíra de uma luta. Em sua fúria irada e cega deve ter atacado todo e qualquer cachorro que tinha cruzado o seu caminho. Mas voltou como um homem que atravessara as piores profundezas. Quem sabe algo havia mudado… Porém novas humilhações o esperavam. Ninguém o recebeu, ninguém se alegrou com o seu retorno. A empregada sequer o deixou entrar.

Foi uma decisão acertada, pois o parto de mrs. Surgis estava por acontecer e a casa estava repleta de gente ocupadíssima. Surgis quis que o bebê nascesse em casa, e como o hospital mais próximo estava superlotado, o médico concordara. Assim, todos estávamos reunidos: o médico, uma enfermeira, a mãe de mrs. Surgis, minha mulher e eu.

E naturalmente Roger Surgis. Trêmulo de nervosismo e com as faces ardentes, ele ficava atravancando o caminho de todos.

E diante da porta havia mais alguém à espera: Júpiter!

O que acontecia ali dentro? Ele escutava vozes, o ruído de água, o tilintar de vidro e barulho de metal. Alguma coisa se passava ali que ele não entendia, mas instintivamente ele sabia que o responsável era aquele ser misterioso que causara sua derrota e sua humilhação – aquele inimigo invisível, infame, covarde.

No momento em que a porta se abrisse, aquele ser apareceria – e não haveria de lhe escapar.

Seus poderosos músculos se retesaram. Ele se agachou e esperou.

Dentro de casa, nem imaginávamos nada daquilo. Betty e eu havíamos sido incumbidos de reter Surgis na sala. Dada a sua excitação, foi uma missão torturante para nós. Mas finalmente veio a boa-nova: era uma menina. E logo a porta do quarto se abriu e a enfermeira apareceu com uma pequena trouxa. O médico a seguiu, sorridente.

– Bem, mr. Surgis – disse –, venha e segure sua filha um momento, e nos conte como se sente como pai.

Trêmulo, o homem imenso estendeu os braços e a enfermeira lhe entregou o bebê, que ele admirou com os olhos marejados.

O médico calçou as luvas para sair.

– Tudo em ordem – disse. – Não precisa se preocupar. Eu me vou, pois. Depois de se despedir de todos, abriu a porta de entrada.

Naquele instante algo passou voando por entre suas pernas, e eis que Júpiter estava no meio da sala.

Encarou Surgis. Seus pequenos olhinhos cor-de-rosa estavam fixados na trouxa que seu dono segurava, e finalmente ele compreendeu – tenho certeza disso! – que aquele pacotinho branco era o ser misterioso.

Atacou, latindo furioso.

E o ataque foi tão súbito e violento que o homem pesado e largo cambaleou sob o impacto e caiu contra a parede. No último instante, ainda tentou instintivamente salvar a criança, erguendo o travesseiro com o bebê. Betty estava a seu lado. Agarrou a trouxinha e passou-a para a enfermeira, que estava na porta do quarto. Em seguida, empurrou a enfermeira para o quarto e bateu a porta com toda a força.

Enquanto isso, Surgis recuperara o equilíbrio. Acometido pela mesma fúria do cachorro, atirou-se sobre Júpiter. Cadeiras e mesas voaram. Finalmente, o médico e eu voltamos à razão. Batemos em Júpiter com tudo o que nos caía nas mãos, até o animal ficar inconsciente. Então, amarramos as suas patas e o arrastamos para o gramado. Surgis cambaleava como um bêbado. Seu sobretudo estava rasgado e só então vimos – ele próprio ainda não notara – que seu braço direito estava bastante ensanguentado. O doutor o levou para o outro quarto, tirou a sua roupa e tratou das feridas causadas pelos dentes de Júpiter. Só então Surgis caiu no sono, exausto física e psiquicamente.

E o que devia acontecer com Júpiter?

– Vamos dar-lhe um tiro de misericórdia – sugeri ao médico, que foi contra, dizendo que seria melhor observá-lo por algum tempo, a fim de verificar se era hidrófobo, pois nesse caso Surgis teria que ser submetido a um tratamento especial.

Assim, Júpiter foi levado embora no carro do médico, meio inconsciente, com as patas amarradas.

Mais tarde soubemos que os exames de Pasteur tinham sido negativos e que Júpiter se comportava dentro da absoluta normalidade. Surgis, seu dono, que antes o idolatrara, naturalmente nunca mais quis vê-lo. Por um acaso, o médico soube que um comerciante de ferro procurava um cão de guarda. Ofereceu-lhe Júpiter, e ele aceitou.

Assim, o cachorro desapareceu por algum tempo do nosso horizonte. Não pensamos mais nele, nem mesmo Surgis. Pois ele agora tinha um novo ídolo, infinitamente mais precioso. E com ele esbanjava toda a sua paixão e o seu carinho. A cada dia, cada hora, cada minuto ele descobria novos deleites no seu lindo bebezinho. Mal aguentava despedir-se dele de manhã e ir para o escritório. De lá, ligava durante o dia para ouvir como estava o bebê. E toda noite quando voltava trazia um chocalho, um mordedor ou outros brinquedos. Sua idolatria era total.

Todos esquecemos de Júpiter – ele não passava de um pesadelo –, até, certa noite, eu ser lembrado dele por um acaso.

Por algum motivo, eu não conseguia dormir. Finalmente, levantei-me, vesti o roupão e fui à cozinha para esquentar um pouco de leite. Quando voltei e passei pela sala, olhei pela janela e vi como estava bonita a noite. A lua estava escondida atrás de um tênue véu de nuvens prateadas, e toda vez que aparecia, pura e clara, o jardim inteiro brilhava como se estivesse coberto de neve. Tudo estava em silêncio; acho que escutaria se uma única folha se movesse.

Assustei-me ao notar de repente uma sombra se mexendo sem ruído algum naquele silêncio absoluto na cerca entre os nossos dois jardins.

Era Júpiter.

Rastejando, a barriga quase tocando o chão, avançava devagar. Parecia que viera para investigar e espionar o terreno, mas dessa vez sem aquela segurança arrogante e rápida que o caracterizavam antes. Instintivamente, me inclinei na janela para observá-lo melhor. Meu cotovelo bateu num vaso de plantas, que caiu no chão com grande ruído. Com um salto silencioso, o imenso cão desapareceu no escuro. O jardim voltou a ficar à luz do luar, brilhante e solitário.

Fechei a janela, trancando-a.

No dia seguinte, tudo me pareceu inacreditável. Afinal, não passava de um cachorro, não era um ser pensante, nem mesmo um lobo, um tigre ou uma fera. Assim, não mencionei nada para Surgis. No entanto, alguns dias mais tarde, enquanto trabalhava no jardim, vi a empregada deles pendurando a roupinha do neném no varal e perguntei se ela vira Júpiter nos últimos tempos.

Ela respondeu que não quisera contar nada para mrs. Surgis para não deixá-la preocupada, mas que há cerca de uma semana ela vira algo inusitado. Quando estava passeando com o bebê, um carro passara por eles. No momento em que o carro emparelhou com elas, ouvira um latido nervoso. Olhando para cima viu um grande cachorro branco sentado ao lado do motorista. Era um carro de entregas com a inscrição “Artigos de ferro”.

Devia ser Júpiter. E havia apenas uma explicação: ele vira e reconhecera a babá, o carrinho e o bebê e latira exprimindo todo o seu ódio. Então fiquei preocupado. O cachorro não esquecera nada. Eu o vira casualmente uma noite, mas quantas noites antes ou depois ele ainda se esgueirara por perto da casa?

– Se voltar a vê-lo, conte logo para mr. Surgis ou para mim, se ele não estiver em casa – disse eu para a babá. – Na próxima vez em que eu estiver na cidade, direi ao ferragista que não deixe o cachorro solto.

Mas me fiz a seguinte pergunta: era possível que um cachorro se lembrasse de maneira tão vívida e dolorosa? Entre humanos, rivalidade é um sentimento natural, mas aquele era um animal normal, sem capacidades intelectuais, que há meses já tinha um dono novo e vivia em outro ambiente. Seria possível um cão ter tal memória?

Isso não aconteceria com qualquer cachorro doméstico normal – o bom e velho Rover, Jack ou Sport. Mas Júpiter não era um cachorro comum. Em primeiro lugar, tinha sido mimado ao extremo. Havia sido coberto de atenção e veneração, e de um só golpe fora privado de tudo. Aquele cachorro era inteligente, de uma inteligência insidiosa, amarga. Eu o odiava, mas só o fato de ter tais sentimentos por ele, como jamais imaginaria ter por um animal, revelava que eu acreditava em sua inteligência.

O que eu deveria fazer? Informar a polícia sobre meus temores e pedir que impedissem a circulação do cachorro? Talvez devesse ter feito isso. Mas a ideia me pareceu demasiado absurda e até imaginei os policiais rindo de mim.

– O que? Quem é o criminoso? Um cachorro? Ou o seu dono? E pensava também no comerciante de artigos de ferro:

– Por quê? O que aconteceu? É um cachorro maravilhoso, um excelente cão de guarda, além disso tem pedigree. Eu o ganhei de presente e quero ficar com ele.

Assim, nada fiz. Mas continuei preocupado, dando tratos à bola, sem fazer nada. E assim se passaram os dias até aquele domingo fatídico e inesquecível.

Era uma belíssima tarde e nós tínhamos ido visitar os Surgis. Estávamos sentados conversando no terraço inferior, de onde descia um gramado num declive suave até o canal. Perto de nós e no mesmo plano estava o carrinho de bebê, e não preciso mencionar que Surgis interrompia sempre a nossa conversa para ir até o bebê e falar com ele, rir e brincar.

Depois de algum tempo, mrs. Surgis nos chamou para a casa, que ficava uns cem pés acima do terraço interior:

– Venham tomar o chá logo, senão as torradas esfriam!

Nós subimos e Surgis nos seguiu alguns instantes depois. Já estávamos sentados à mesa quando ele entrou. Mrs. Surgis serviu a todos e nós conversamos sobre o tempo, as rosas e outras coisas, até Surgis, como sempre, falar do seu assunto preferido.

– A bebê está dormindo. Sabem, acho maravilhoso, ela mal nos dá trabalho.

Jamais nos acorda à noite, nunca chora…

– Ela está no sol? – perguntou mrs. Surgis.

– Um pouco, mas é bom para ela. Pensei em trazê-la, mas achei que poderia despertar com o movimento.

– Você a deixou no terraço? – perguntei, na suposição de que ele teria empurrado o carrinho para cima.

– Sim. Ela estava dormindo, e eu pensei…

Tive um pressentimento ruim. Ele percebeu, fez menção de se erguer e olhou para mim. Era como se o seu amor incomensurável e devotado pela filha o tivesse habilitado a ler o pensamento que nem terminara de pensar.

– Oh, Roger, agora sente e tome o seu chá – disse mrs. Surgis. – Você realmente é mais preocupado do que uma avó!

Ela sorriu. Ele, não. Olhei para ele, ele para mim, e embora eu tentasse espantar o pensamento, não consegui. Ele não se sentou mais. Alguma coisa, talvez um leve ruído bem ao longe, o fez ir até a porta. Então escutamos o seu grito terrível e desesperado.

Ele não gritou alto, mas acho que foi o pior ruído que jamais escutei – abafado, lamurioso, como o último som de um moribundo.

– Pelo amor de Deus, o que aconteceu? – berrei.

Era como se Surgis tivesse ficado totalmente petrificado com a cena terrível que vira. Empurramos nossas cadeiras e corremos em sua direção. Esse movimento o tirou de seu imobilismo. Ele abriu a porta e saiu correndo pela varanda.

O carrinho de bebê não estava mais no terraço.

Foi quando o vi flutuando no canal. Rolara morro abaixo até a água. Como por milagre, ainda estava em pé, mas enquanto olhávamos e ainda tentávamos compreender o inacreditável, ele tombou e afundou em poucos segundos.

E Júpiter estava ali.

Júpiter, o imenso animal branco que, quando ainda dominava a casa, divertia- se descendo até o canal e jogando os cestos de roupa dentro d’água, empurrando- os com seus poderosos músculos.

Ali estava ele, assistindo como o carrinho afundava lentamente, um vencedor que, no final, triunfava sobre todos.

O carrinho virou para o lado. Vimos panos brancos, bracinhos e perninhas se agitando e a criança caindo n’água.

Então eu vi como os poderosos músculos do animal se retesaram. Vi como ele se lançou no canal. Só precisou nadar um pouco. Seus poderosos maxilares se abriram e ele agarrou a criança. Mas foi uma mordida suave. Júpiter voltou nadando e deitou o bebê na margem. E Surgis já chegara. Ele abraçou a criança e a apertou contra si. Viu que respirava e estava incólume. O cachorro estava lá, olhando para ambos: o senhor que o venerara e o inimigo que lhe roubara a veneração, e que agora era amorosamente abraçado pelo seu senhor – o inimigo que ele, Júpiter, voltara a entregar ao seu senhor.

Surgis se ajoelhou. Os músculos de seu rosto se contraíram. De joelhos, abraçava a criança, mas olhava para o cão. E eu o escutei dizendo:

– Júpiter.

A mão estava estendida para acariciar o cão. O cachorro ficou imóvel.

– Vem, meu velho!

Júpiter se virou e saiu andando, e Surgis ficou para trás com o bebê. Eu sei quem foi o vencedor.

Stefan Zweig

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