Quem me conhece sabe: defino-me como ateu. Talvez o mais correto seria afirmar minha condição de agnóstico, pois acho mais ou menos possível a presença de Deus, embora não costume aceitar existências não comprovadas. Sou batizado, fiz primeira comunhão, frequentei aulas de catecismo na escola. Embora meus pais não fossem religiosos, até por razões políticas, havia uma questão de tradição familiar presente. Para minha avó materna, meu bisavô, minhas tias-avós, por exemplo, era importante que fôssemos consagrados ao catolicismo. Como, para os velhos, era indiferente, não viram empecilhos em satisfazer os desejos de seus parentes carolas. Assim, cresci sabendo rezar algumas orações, apesar de poucas — duas ou três —, mas nunca me preocupei demasiadamente em comportar-me de forma a garantir um quinhão de terras no céu. Quando criança, eventualmente, ao cometer algum pecado — e cheguei a ler sobre o que era desobedecer às leis do Divino —, chegava a ficar levemente preocupado. Nunca, contudo, cheguei a perder o sono com isso. Basicamente não fui educado para acreditar. Desenvolvi-me como autêntico pagão.
Mas a gente cresce, envelhece, ganha algumas cismas. Em situações desesperadas, quando a coisa aperta e fico absolutamente sem saída, sou capaz de apelar. Torno-me então um ser completamente desprovido de caráter. Quando vejo, estou metido em alguma igreja, ajoelhado, pedindo coisas ao Senhor. Ainda bem, tenho sorte, que a bondade de Deus, aprendi e não me esqueci, é frequentemente descrita como infinita, imutável e incondicional. Representa a inclinação constante que Ele tem para fazer o bem, cuidar de Sua criação, agir com benevolência. Caso contrário, tenho certeza, seria punido pela canalhice. Já O vejo pensando:
— Como um sujeito que nega invariavelmente a Minha existência, estufa o peito para se declarar descrente, tem a coragem de entrar em um templo dedicado a Mim para vir solicitar alguma graça?
No fundo considero que, caso exista, e a dúvida jamais me abandonou, o Criador é do bem. Está acostumado a lidar com as torpezas próprias do ser humano. Invenção, convenhamos, bastante mal-acabada. Tenho certeza, e não sou lá de ter grandes convicções, da consciência que o Homem — seria mesmo uma Entidade masculina? — tem de nos ter arranjado de forma porca sobre o planeta. Com a competência sempre atribuída a Ele, poderia ter realizado um trabalho mais caprichado. Teria havido, provavelmente, grande preguiça no dia da criação. Escapamos mal-acabados, violentos; parecemos ter sido feitos com as coxas:
— Deus me perdoe!
E assim vou vivendo. Ora declarando minha incredulidade, marcando território como indivíduo totalmente desprovido de fé, ora disfarçando certa devoção, principalmente quando as coisas desandam e preciso de uma ajudinha celeste. Corro então e busco na memória a Ave-Maria ou o Pai-Nosso e os recito ajoelhado, sentindo-me culpado, velhaco, tropeçando nas palavras muitas vezes fugidias.
Acho bacana a plenitude dos evangélicos. Existem envolvidos pelos seus: “Deus é fiel!”; “Deus é bom!”; “Deus provê”.
Quando se despedem, invocam, humildes:
— Fica com Deus!
Ou:
— Deus abençoe!
Só desconfio quando pedem:
— Deus lhe acrescente!
Não desejo que me adicionem nada. Prefiro seguir vazio.
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