A solidão vem acompanhando os seres humanos como a sombra o próprio corpo. Um rosto que vê o céu sente como esmaga o brilho das estrelas perdidas nas vastidões desoladas. Quem é que nos deixa vislumbrar distâncias inconcebíveis nos vácuos da desesperação? A visão de nossa condição como um grão na poeira dos ventos causa espanto, projeta sombras e abismos. Apesar de tudo, o reino humano prossegue de janeiro a janeiro, sustentando nos seus ermos todo o peso terrestre.
A existência deixou-se ficar como um vício nessa coisa que chamamos solidão. Construiu-se muitas vezes na ausência de cada noite. Na multidão vive-se só, cheirando nesse galope do medo o suor dos que lutam, por entre rostos velozes e anônimos. Em contato com esse mundo, a vida possui uma capacidade incrível de urdir dramas dolorosos e pungentes. Na cidade pequena, a mesmice da vidinha apura-se em tudo. A calma pende invariável no sumidouro da alma. Entoa uma música triste, antiga, de uma nota só, que faz e refaz o existir aqui sem invocar desejos ou até mesmo curiosidade. Mumificam-se os sentimentos sem que haja sinal de alento. A solidão não tem pressa, converte-se nos cerrados de estreitas fixações provincianas. É então que a tua voz torna-se desfalecente, pois no início era o abismo, que era eu e não distinguia.
Solidão em família. Ausência de afeto nos gestos. O pai comparece no desamor da fala. O irmão dá as costas. Os cunhados permanecem neutros enquanto os dias passam. O sogro, no ápice da crise, coloca genro e filha porta afora. Ai, essas rosas, com o seu hálito de mágoa, como dói lembrá-las.
Haverá remédio para banir para sempre a solidão que, traiçoeira, alojou-se de repente na alma? A receita que tenho agora chega pelo canto do curió. Quando alguém estiver só, é só ouvi-lo, que não paga nada. Vai ver que a solidão desaparece logo, derrotada no seu tom maior em dó.
Recomenda-se a crença em Deus, o criador do mundo, como âncora salvadora na travessia do coração em águas misteriosas da vida e da morte. Diante da paisagem soberba, ouvi gente grande dizer que melhor do que nascer, sofrer neste mundo e cair depois no nada, é não ter nascido.
A solidão do homem que foi deixado pela mulher amada faz a existência ficar sem sentido. O amor perdido não se encontra no confronto com o vazio rolando na cama. Tudo que era reconhecido pelos impulsos do amor no outro esvai e implica no germe que destrói o amante, até mesmo o ser amado, em muitos casos.
Uma das coisas que mais tem colaborado para que a solidão afaste de mim esse cálice é a literatura. Sem os livros não sei como conseguiria ficar no Rio de Janeiro num período de minha vida. À noite retornava do trabalho no jornal e, horas depois, via-me sozinho no apartamento pequeno da Correia Dutra, no Flamengo. Longe da noiva e de minha cidade no interior baiano, sentia as horas do mundo escoarem no silêncio do apartamento, derramarem-se pelas paredes, cadeiras, mesa, cama e objetos. Não adiantava ligar a televisão, gente que aparecia na telinha apresentava-se, como sempre, distante. O ruído da geladeira agravava mais os vagares da solidão no apartamento, infiltrando-se escorregadia nas camadas espessas da noite com o seu caldo oleoso.
Desde adolescente sempre houve entre mim e os livros uma relação como que sagrada. A princípio foi entretenimento, com o tempo passou a ser uma forma de conhecimento da vida. A leitura justificava-se como forma de conhecer na escrita uma experiência de vida. Na visibilidade dos sinais da escrita sentia o invisível sendo transformado por sofredores do ver em nova realidade. E assim me dava a certeza de que eu não estava sozinho no mundo não mundo. A leitura de romances, contos e poemas desarmava aquela solidão de que falei no apartamento, tentando fazer-me prisioneiro da insônia enquanto a noite durasse.
Sem tremor, resistia à solidão quanto mais viajava através de leituras, tendo como companhia gente criada por aqueles autores que tocavam em verdades essenciais dos seres humanos. Depois que passei a escrever livros, fiquei sabedor também duma solidão inquietante, que tem como marca comum sua presença enriquecedora. Essa solidão do escritor frequentemente me socorre da vida cansativa diária, habitada por gente que se amesquinha em sua pobre dimensão humana. Gente que por inveja gosta de fazer estragos no caráter do escritor para tirar os outros no foco de seu valor literário. É na leitura de bons livros e nas minhas criações solitárias que busco minhas saídas, respostas para fugir das armadilhas dos que datam esse mundo como o reino exclusivo das coisas materiais, colocando o dinheiro como a chave única para abrir portas. Inclusive a da inocência, usurpada pelo mal, sem deixar no logro pelo vilão qualquer vestígio de remorso.
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