sábado, junho 6

Os leitores


Em maio, durante 20 dias, atravessei um pedacinho do Brasil, participando em eventos literários em São Paulo, Araxá, Paracatu, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Encontrei auditórios quase sempre cheios, longas filas para autógrafos, jovens discutindo livros com uma seriedade comovente.

Tudo isso me pareceu uma espécie de miraculoso anacronismo, num mundo cada vez mais rápido, dividido, insano e brutal — num mundo cada vez mais necessitado de leitores.

Em São Paulo, uma senhora confessou ter-se reconhecido no personagem do meu último romance, “Tudo sobre Deus”:

— Aquele poeta sou eu — disse-me. — Sou eu morrendo, e descobrindo que a morte não existe.

Em Belo Horizonte, uma professora aposentada aproximou-se muito séria:

— O senhor destruiu meu casamento…

Assustei-me. Ela contou que, após ler um dos meus livros, decidira viajar sozinha pelo sul de África. Nunca mais voltou para o marido. Descobriu que prefere a vertigem à segurança:

— Foi assim que o senhor destruiu meu casamento — concluiu, com um largo sorriso. — Muito obrigada…

Na Livraria da Travessa, em Ipanema, uma moça segurou minhas mãos enquanto me contava como, durante a pandemia, lendo meus romances, e de outros autores, conseguira romper o isolamento e viajar para paisagens remotas.

Leitores. O que são, afinal, leitores?

Aquelas pessoas que praticam a grande arte de ser outros.

Aqueles que caminham devagar. Os desaceleradores do mundo.

Seres capazes de chorar a morte de pessoas inventadas.

Os que duvidam. Os que se inquietam.

Os que se espantam com um verso, uma metáfora, o adjetivo justo.

Enquanto existirem leitores, a empatia resistirá. São os leitores, afinal, quem segura os frágeis fios que sustentam todo o edifício civilizacional.

Talvez por isso os regimes autoritários desconfiem tanto dos livros. Um leitor nunca pertence completamente a uma tribo, a uma pátria, a uma ideologia. Quem aprendeu a habitar outras vidas torna-se mais difícil de capturar, catalogar e guardar numa caixa.

Um romance é uma tecnologia extraordinária, única, capaz de transportar uma pessoa para o coração de outra. Durante algumas horas, o leitor abandona o próprio corpo, a própria biografia, as próprias certezas, para entrar na pele de desconhecidos. Aprende a observar o mundo através dos olhos de um jagunço erudito que talvez tenha, ou não, feito um pacto com o diabo; de um professor de literatura francesa pedófilo, ou de um aristocrata português que se apaixona pela própria irmã.

É a isto que eu chamo exercícios de alteridade. Uma prática cada vez mais urgente.

Vivemos cercados de gente que opina sobre tudo e imagina pouco. Gente incapaz de reconhecer humanidade em quem pensa diferente, vota diferente, reza diferente ou sofre diferente. A brutalidade começa quase sempre na falência da imaginação.

Os leitores resistem a este colapso.

São uma espécie de conspiração silenciosa contra a velocidade, contra a estupidez e contra o medo. Enquanto houver leitores, haverá pessoas dispostas a escutar. E enquanto existirem pessoas capazes de escutar, o mundo talvez ainda tenha salvação.
José Eduardo Agualusa

Nenhum comentário:

Postar um comentário