Ele gosta muito do pai. Mas gosta muito mais da mãe. Está com 12 anos e, desde quando se lembra, sempre foi assim. Nas suas memórias mais antigas, é com a mãe que ele se vê. E sorri quando mergulha nessas recordações.
Ah, que saudade daquelas primeiras tardes passadas no jardim de infância, daqueles sanduíches saborosos que a mãe punha na lancheira dele e os coleguinhas invejavam. Daqueles divinos churros vendidos na frente da escola, que espalhavam seu aroma por todo o quarteirão e que a mãe nunca se recusava a comprar para ele. Das outras delícias oferecidas num carrinho que ficava na esquina do jardim de infância. Dos amendoins, das pipocas quentinhas — salgadas e doces — que a mãe também nunca negava a ele, porque ela mesma gostava tanto daquilo tudo que ele precisava comer depressa, senão ficava sem nenhum.
Também nas fotos, é mais com a mãe que ele aparece. De vez em quando, os dois dão uma repassada nos álbuns e, enquanto ela vai repetindo que ele sempre foi uma coisinha fofa, ele olha menos para o garoto gorducho que foi, desde os tempos de bebê, e fixa os olhos na mãe, sempre sorrindo para ele como se estivesse diante do mais precioso dos bens.
São, na maioria, fotos que parecem ter sido tiradas na hora do almoço ou do jantar. Numa delas, ele está com cara de fome e com a mão estendida para uma bolacha que a mãe lhe oferece. Em outra, ele olha preocupado para a mãe, que finge querer dar uma dentada num enorme pirulito que ele segura e tenta tirar do alcance dela.
Mas a fotografia mais apreciada pelos dois é aquela em que, sentado no seu cadeirão de bebê, ele espera ansiosamente a mãe aproximar da boca dele uma colher de sopa. Sempre que chegam a essa foto, a mãe pergunta:
— Lembra como você gostava dessa brincadeira? Eu dizia que a colher era um avião e que a sua boca era um aeroporto. Você ficava tão feliz! Tomava até sopa de ervilha — você, que nunca foi muito fã de sopa de ervilha! Lembra?
Ele lembra, sim, e olha para a mãe com muita ternura. Sempre se deu melhor com ela do que com o pai. É um ranzinza o pai, sempre foi. Sempre resmungando pela casa, sempre procurando alguma coisa para pôr defeito:
— Você vai estragar esse menino, Mafalda. Olhe só como ele é desmazelado. Todas as coisas dele estão sempre fora do lugar: as roupas, os brinquedos, o material escolar. E você não vê que, comendo desse jeito, daqui a pouco ele não vai mais conseguir passar pelas portas? Será que você e ele não pensam em nada além de comer?
Depois de cada uma dessas descomposturas, ele fica muito triste com o pai e se tranca no quarto. Ali, ressentido com sua fama de guloso, promete a si mesmo que vai ficar um dia, talvez dois, sem comer.
Dali a meia hora, já faminto, abre a porta sorrindo para a mãe, que chega furtivamente com um sanduíche e um suco para ele.
Sempre foi assim sua mãe: amorosa e compreensiva. Por isso, ele está um pouco aborrecido hoje e tem vontade de se estapear quando lembra o que aconteceu. Na saída da escola, a mãe estava comprando dois saquinhos de pipoca — um para ele, outro para ela –, quando um menino da classe dele gritou para ele:
— Tchau, baleia!
Ele, no reflexo, respondeu:
— Baleia é a mãe!
No mesmo instante, arrependido como nunca tinha se sentido antes, ele ficou imaginando o que poderia dizer para se desculpar com a mãe. Mas, quando voltou os olhos para ela e a viu empenhada em jogar para dentro da boca um punhadão de pipocas, com grande alívio ele soube que a mãe não tinha percebido nada. Passou então o braço livre em torno do ombro dela e a beijou no rosto. Andando lado a lado, os dois ocupavam toda a calçada.

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