quarta-feira, outubro 28

Exausto

Não por percorrer distâncias, mas de tanta discussão e canelada. Não pela ansiedade dos prazos, mas pelas amizades desfeitas por política. Menos por subir oito lances de escada, mais por conta da luz que falta a qualquer ameaça de chuva. Não pelo peso de halteres e aparelhos, e sim pela ignorância que se orgulha de sua condição. Nem tanto pela tontura que antes fosse só pela idade, mais por aquela sensação de não pertencimento de três semanas atrás.

Não pelo noticiário na TV e sim por não ter mais criança em casa. Não pelas sete pílulas diárias (mais uma para proteger o estômago), mas pelas evidências escancaradas do aquecimento global. Muito menos pelo pernilongo que atazanou minha noite, senão pelos pesadelos que o sono trazia.


Um peso sobre os ombros que não sei de onde. Um espectro ao fechar os olhos (não fechemos os olhos, jamais). Uma aflição nas praças, bares e trens do metrô, comum a todos.

Menos pela saudade que não se resolve, mais por saber que ninguém do outro lado vai atender o telefone. Não pela feiúra absurda dos fios enrolados nos postes, mas pelas derrotas da delicadeza. Nem pelos fracassos do nosso futebol, mas por tanta gente normalizando o que não se deve. Não só pela glorificação da vulgaridade, mas pelo genocídio em Gaza. Menos pelas ruas vazias de medo às nove da noite, mais pela tentativa de infiltração das milícias em todos os setores.

Mais grave que a exaustão é o cansaço de falar sobre ela. E os algoritmos, sempre tão contra.

Não só pela indiferença dos privilegiados, mas também pela arrogância do sujeito que abriu o vidro do carro para jogar o lixo na rua. Não pelo sumiço dos amigos, mas por vê-los desorientados. Menos pelas relações desencontradas, mais pelas balas perdidas. Não pela demolição das casas simpáticas do bairro, mas pela impossibilidade de hoje abraçar minha filha.

Exausto pela prepotência dos que comandam a tecnologia e lucram com as nossas desavenças. Pela criança comemorando no capô do carro com uma arma na mão. Pelas ofensas naturalizadas. Pelas queimadas provocadas pelo homem. Pelas chicotadas no chão em tom de ameaça. O homem negro desfilando na avenida, acorrentado por um homem branco. Não pelo sim, muito mais pelo não.

Exausto. Mas aliviado.

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