sábado, julho 13

Diário

Nasci num tempo em que a maioria dos jovens tinham perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a tinham tido — sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem veem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com os seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.

Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia. A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como aos meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstração do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.

Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito às leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entretimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida. Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objetividade ao prazer subjetivo da leitura.

Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde. Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

Começar do princípio

Rever a minha infância? Já lá se vão mais de dez lustros, mas minha vista cansada talvez pudesse ver a luz que dela ainda dimana, não fosse a interposição de obstáculos de toda espécie, verdadeiras montanhas: todos esses anos e algumas horas de minha vida.

O doutor recomendou-me que não me obstinasse em perscrutar longe demais. Os fatos recentes são igualmente preciosos, sobretudo as imagens e os sonhos da noite anterior. Mas é preciso estabelecer uma certa ordem para poder começar ab ovo. Mal deixei o consultório do médico, que deverá estar ausente de Trieste por algum tempo, corri a comprar um compêndio de psicanálise e li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. Não o achei difícil de entender, embora bastante enfadonho.

Depois do almoço, comodamente esparramado numa poltrona de braços, eis-me de lápis e papel na mão. Tenho a fronte completamente descontraída, pois eliminei da mente todo e qualquer esforço. Meu pensamento parece dissociado de mim. Chego a vê-lo. Ergue-se, torna a baixar... e esta é sua única atividade. Para recordar-lhe que é meu pensamento e que tem por obrigação manifestar-se, empunho o lápis. Eis que minha fronte se enruga ao pensar nas palavras que são compostas de tantas letras. O presente imperioso ressurge e ofusca o passado.

Ontem tentei um abandono total. A experiência terminou no sono mais profundo e não obtive outro resultado senão um grande descanso e a curiosa sensação de haver visto alguma coisa importante durante o sono. Mas esqueci-me do que era, perdendo-a para sempre.

Italo Svevo, "A consciência de Zeno"

Reflita

Evite proferir as frases que todo mundo usa. Reflita sobre sua maneira de falar, mesmo que apenas para transmitir aquilo que você acha que todos estão dizendo. Faça um esforço para afastar-se da internet. Leia livros
Timothy Snyder, "Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente"

Livros incomodam

 Ano passado li Fahrenheit 451, do escritor norte-americano Ray Bradbury. O tema principal do romance publicado em 1953 é um melancólico mundo sem o objeto que tem sido o inseparável companheiro da evolução humana e um dos mais fascinantes objetos de desejo da humanidade, o livro. Um outro aspecto do romance é o acerto com que fala de fatos do futuro que não são de todo impossíveis e, pior, sessenta e sete anos depois de ter sido publicado o livro, já podem ter começado a acontecer.

Fahrenheit é a escala de medida de temperatura usada pelos norte-americanos, daí sua adoção por Ray Bradbury. Se o livro fosse escrito no Brasil, teria no título a escala Celsius, utilizada pela maioria dos países.

O título faz referência a uma altíssima temperatura, 451 graus Fahrenheit. Para se ter uma ideia, fazendo-se a conversão para Celsius, 451 graus Fahrenheit correspondem a pouco mais de 232 graus Celsius. Bem quente, aliás, extremamente quente. Quando nosso corpo atinge 39 ºC, nós sofremos bastante. Para se ter uma ideia dessa temperatura, a água e o leite, por exemplo, entram em estado de ebulição a 100 ºC, o que é menos da metade da temperatura indicada no título do romance. A 232 graus Celsius, derrete-se o estanho, se acrescentarmos pouco mais de 100 °C e chegarmos a 327 °C, veremos o chumbo ficar líquido. Quem já sofreu queimaduras com água ou leite sabe muito bem o que essa temperatura pode significar. Mas o que indicaria essa quentíssima temperatura de 451 graus Fahrenheit? Por que Ray Bradbury a adotou como título de seu romance. Simples. 451 graus Fahrenheit é a temperatura alcançada por um livro quando em combustão. A incineração de livros, cuja leitura no mundo criado por Bradbury é crime gravíssimo, é exatamente o assunto central desse romance.

Por que se queimam livros na sociedade criada por Ray Bradbury? Porque nela os livros, reveladores de verdades incômodas e instigadores da consciência crítica, são um antídoto contra a felicidade. É necessário destruir sem demora essa fonte nociva às aspirações humanas, pois as pessoas têm urgência de ser felizes mesmo ao preço de se tornar tapadas e manipuláveis. No mundo descrito em Fahrenheit 451  tudo é feito para que todos tenham acesso ao máximo de felicidade possível, sendo o livro eleito como o grande obstáculo, o grande inimigo da humanidade em sua busca de alegria plena. Então o mundo vai sendo libertado deles, até o ponto de a maioria das pessoas considerar criminosos aqueles que têm livros sob sua guarda. Uma vez descobertas, essas pessoas são sumariamente denunciadas. Há uma polícia secreta especializada em investigar a manutenção de bibliotecas. Quando descobertos, os livros são incinerados por um corpo policial especialmente preparado para a tarefa, e seus proprietários vão para a cadeia. Ironicamente, esse organismo policial age de forma muito semelhante aos bombeiros, só que, em vez de apagar incêndios, eles ateiam fogo a livros até sua completa destruição.

Há milênios os livros e seus antecessores têm causado desconforto. As causas são as mais diversas: ignorância, medo, ódio, intolerância e sede de poder, por exemplo. Desde séculos antes de Cristo eles vêm sendo objeto de perseguições e destruições em massa, muitas vezes ardendo em fogueiras sob as mais variadas justificativas. São tantos os exemplos que não dá para falar de todos, mas apenas para informar um pouco mais sobre isso, destaco as destruições feitas pelos russos, na década de 1920, quando queimaram livros de literatura considerada decadente do Ocidente, os inúmeros episódios que aconteceram na Alemanha de Hitler a partir do início da década de 1930 e, recentemente, as ocorridas no mundo árabe. Aqui perto, no Chile, em 1973, os livros também arderam nas fogueiras.

No Espírito Santo alguns livros sofreram desaprovações públicas. O romance A oferta e o altar, do escritor capixaba Renato Pacheco, teria ardido numa versão caseira de auto de fé em Conceição da Barra. Embora esse fato não seja totalmente confirmado, é sabido que ele causou incômodos na sociedade barrense da época. Aracelli, meu amor, livro de José Louzeiro com reportagem sobre o crime ocorrido em Vitória nos anos 1970 teve exemplares rasgados em praça pública, mais precisamente na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória, onde se realizava uma feira de livros. Mais recentemente, alguns leitores descontentes também atacaram o livro Kitty aos 22: divertimento, do escritor Reinaldo Santos Neves.

Às vezes a ficção pode ter paralelos assustadores com a realidade, e Fahrenheit 451 é recheado deles. Vou citar apenas um, bem significativo, em que nos encontramos numa fase ligeiramente anterior à abolição do livro: “A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?” A força dessas previsões não nos parecem familiares? Olhando bem, não parecem um pouco com eventos recentes bem comuns dos nossos dias?

Vem-me à lembrança o que, aliás com bastante convicção, me disse certa feita uma jovem na Biblioteca Pública. Ela havia ido para uma visita com sua turma e não parecia muito feliz ali. Acabou revelando o motivo: não gostava de ler. E arrematou: “Não gosto de ler porque tenho de pensar”. Pensar não é privilégio de quem lê, claro. Quem não gosta de ler está no seu direito. As pessoas podem passar muito bem sem o livro e não são melhores nem piores que ninguém porque leem ou não leem. Mas em certos casos – e o foi no meu – a leitura pode ser uma ferramenta extraordinária para a vida. Quem se interessa pelos livros logo percebe a nítida diferença. Ninguém pode ignorar o poder que o livro dá. Mas essa menina não queria saber. Ela se defendia, ainda: “Ah, esse negócio de ficar pensando é muito chato.”

É certo que Ray Bradbury, falecido em 2012, tenha vislumbrado alguns aspectos de seu livro já no tempo em que o escreveu, pois nos anos 1950, livre de uma guerra de grandes proporções, o mundo estava disposto a consumir tudo o que prometia uma vida mais prática e feliz, mas, tendo vivido ainda um bom tempo depois de publicar seu livro, fico imaginando o quanto ele computou ainda de acerto em sua previsão quanto a um mundo que se tornava tão menos humanizado diante de seus olhos.

Por que estou insistindo nesses fatos pavorosos? Simples. Porque numa coisa universal tem razão Ray Bradbury em Fahrenheit 451: o livro incomoda, o livro perturba, o livro muda as coisas do lugar e pode revolucionar a vida de quem o lê. O livro é esse doce, virulento e necessário manjar das consciências. Leon Tolstoi deixa bem claro: “Eu escrevo livros, por isso sei todo o mal que eles fazem.” Sempre que leio essa frase do grande escritor russo, torno-me mais consciente de que o bem que o livro faz é inversamente proporcional à inquietação que causa. Por isso a leitura de Fahrenheit 451 é tão necessária. E também porque nos dá o conhecimento prévio de uma possível tragédia que podemos evitar: um mundo sem livros, o que seria a derrocada final da humanidade, que tanto se beneficiou deles ao longo dos últimos milênios da sua evolução.

 Pedro J. Nunes 

sexta-feira, julho 12

Boa manhã


 

Preâmbulo

— O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva...

— Ora, se conheci!... Como está ele?

— Está bem: está enterrado há seis meses.

— Morreu?!

— Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feito. Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. “Ovídio cadáver”, pergunta o sábio, “onde é que pára?” Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão, como Noé, como Rômulo, como nossos pais, como nós, como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas, misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores, recendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos vulcões, etc.” Isto, a meu ver, é exato e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface; pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões da América, alguma vez, transfigurado em cobra cascavel, disposto a comer-te, meu Faustino.

O que te eu assevero é que ele deixou de ser Silvestre da silva, há seis meses, posto que os parentes teimam em lhe ter uma lousa sobre o chão, onde o estiraram, com esta mentira: ‘Aqui jaz Silvestre da Silva.’

Pois é verdade.

O nosso amigo começou a queixar-se, há de haver um ano, de falta de apetite, e frialdade de estômago, efeito das indigestões. Foi de mal a pior. Desconfiou que passava a outra metamorfose, e deu ordem aos seus negócios da alma com a eternidade. Dos bens terrenos não fez deixação, porque lá estavam os credores, seus presuntivos herdeiros, ainda que alguns deles declinaram a herança a benefício de inventário, lamentando que em Portugal não fosse lei a prisão por dívidas: parece que os irritou a certeza de que o cadáver insolvente não podia ser preso. Em outro ponto te darei mais detida notícia desta catástrofe.

Eu fui o herdeiro dos seus papéis. Alguns credores quiseram disputarmos, cuidando que eram papéis de crédito. Fiz-lhes entender que eram pedaços dum romance; e eles, renunciando a posse, disseram que tais pataratices deviam chamar-se papelada, e não papéis.

Aceitei a distinção como necessária e retirei com a papelada, resolvido a dá-la à estampa, e com o produto dela ir resgatando a palavra do nosso defunto amigo, embolsando os credores os credores. Fiz um cálculo aproximado, que me anima a asseverar aos credores de Silvestre da Silva que hão de ser plenamente pagos, feita a 10.ª edição deste romance.

Aqui tens tu uma ação que deve ser extremamente agradável às moléculas circunfusas do nosso amigo. Espero que Silvestre ainda venha a agradecer-me o culto que assim dou à memória dele, convertido em aroma de flor, em linha de cristalina fonte, ou em Ambrósia de vinho do Porto, metamorfose mais que muito honrosa, mas pouco admirativa nele, que foi deste mundo já saturado em bom vinho. É opinião minha que o nosso amigo, a esta hora, é uma folhuda parreira.
Vamos à papelada, como dizem os outros.

Tenho debaixo dos olhos, mal enxutos da saudade, três volumes escritos da mão de Silvestre.

O primeiro, na lauda, que serve de capa, tem a seguinte inscrição em letras maiúsculas: Coração.

O segundo, menos volumoso, diz: Cabeça.

O título do terceiro, e maior volume, é: Estômago.

Nenhum deles designa época; mas quem tiver, como eu, particular conhecimento do indivíduo, pode, sem grande erro cronológico, datar os três manuscritos.

O Coração reina desde 1844 até 1854. São aqueles dez anos em que nós vimos Silvestre fazer tolice brava.

Em 1855 notamos a transfiguração do nosso amigo, que durou até 1860, época em que tu já tinhas trocado o Patrimônio da estima dos teus conterrâneos pelas lentilhas do Novo Mundo. Não viste, pois, a transição que o homem fez para o estômago, sepultura indigna das santas quimeras, que aconteceram na mocidade, e consequência funesta da má direção que ele deu aos Projetos, raciocínios e sistemas da cabeça. Podemos assinar tempo ao terceiro volume, desde 1860 até fim de 61, em que o autobiógrafo se desmanchou do que era para se arranjar doutro feitio.

Silvestre, como sabes, tinha muita lição de maus livros. Olha se te lembras que os seus folhetins eram um viveiro de imoralidades vestidas, ou nuas, à francesa. Jornal em que ele escrevesse morria ao fim do primeiro trimestre, depois de ter matado muitas ilusões. Quem hoje desembrulha um queijo flamengo, e lê no invólucro um folhetim de silvestre, mal pensará que tem entre as mãos o passaporte de muita gente para o inferno. Não há muito que eu, despejando uma quarta de mostarda num banho de pés, li o papel, que a contivera, e achei o seguinte período de um folhetim do meu saudoso amigo:

“Diz Petrônio que fora o medo que inventara as divindades.

Deus é o que é. O homem é o pequeníssimo bicho da terra, de que fala o Camões.

Entre Deus e o homem, só a soberba estúpida do homem podia inventar convenções, concordatas, obrigações e alianças.

O sagui é muito menos estúpido e mais modesto. Come, bebe, dá cabriolas, faz caretas ao mau tempo, coça-se ao sol, retouça-se à sombra, vive, e acaba feliz, porque se não receia de vir a ser homem.

A estolidez do homem! Diz ele empapado de vaidade tola: ‘Deus tem os olhos em mim!’ Que importância! Deus tem os olhos nele! Se assim fosse, havia de ver bonitas coisas o criador do homem que mata seu irmão!

Os olhos nele, para quê? Para envergonhar-se a cada hora da sua obra!...
É a blasfêmia em todo o seu asco!

Rebalsa-te em sangue, miserável vampiro! Emperla os teus cabelos, meretriz, que deixas morrer tua mãe de fome! Mãe infame, come aí em toalhas de Flandres o preço da desonra de tua filha! Ostentai-vos, vermes, aos olhos de Deus, que estão pasmos em vós!...”

Ainda bem que o fragmento findava nisto, senão eu teria a imprudência de to dar inteiro nesta cópia, em que senti as repugnâncias do pulso. Vê tu que missionário era aquele Silvestre! Que ceifa de almas fez o empreiteiro das trevas inferiores naqueles anos!

Eu de mim pude salvar-me, estudando, como sabes, a teologia a fundo. Tu também te salvaste, penso eu, justamente porque não sabias coisa nenhuma de teologia e acreditavas na religião de teus pais, visto que a base fundamental da tua crença era a caridade. Acertou de ser isto num tempo em que tu pedias esmola para as freiras de Lorvão e eu, também contigo, pedia esmola no Teatro de S. João, para o poeta Bingre.

Recorda-te, Novais; mas não chores. Faz como eu: ergue o peito de sobre a banca do trabalho e sacode a lájea que te está pesando nas costas... Olha a vaidade! Teremos nós sepultura com lájea!? Conta com um comarozinho de terra, e umas papoulas na Primavera, e uma tábua preta com um número branco. A aritmética há de perseguir-me além da morte!

Atemos o fio.

Os manuscritos de Silvestre careciam de ser adulterados para merecerem a qualificação de romance. É coisa que eu não faria, se pudesse. Acho aqui em páginas correntemente numeradas sucessos sem ligação nem contingência. Umas histórias em princípio, outras que começam pelo fim e outras que não tem fim nem princípio. Pode ser que eu, alguma vez, em notas, elucide as escuridades do texto, ou ajunte às histórias incompletas a catástrofe, que sucedeu em tempo que o meu amigo se retirara da sociedade, onde deixara a víscera dos afetos.

No volume denominado Coração encontro algumas poesias, que não traslado, por desmerecerem publicidade, sobre serem imprestáveis ao contexto da obra. Não designam as pessoas a quem foram dedicadas, nem me parecem coisa de grande inspiração. Silvestre, em poesia, era vulgar; e a poesia vulgar, mormente na pátria dos Junqueiros, dos Álvares de Azevedo, dos Casimiros de Abreu e dos Gonçalves Dias, é um pecado publicá-la. Sonego, pois, as poesias, em abono da reputação literária do nosso amigo.

Basta de preâmbulo.
Camilo Castelo Branco, "Coração, cabeça e estômago"

O largo:

Visto da janela onde me encontro, é um terreno nu, todo valas e pó. Grande de mais para a aldeia - é facto, grande de mais. E inútil, dir-se-á. Pois, também isso. Inútil, sem sentido, porque raramente alguém o procura apesar de estar onde está, à beira da estrada e em pleno coração da comunidade. Tal como um prado de cardos, mostra-se agressivo, só domável ao tempo; e se não pica repele, servindo-se das covas, dos regos das chuvas ou da poeirada dos estios. Um largo, aquilo a que verdadeiramente se chama largo, terra batida, tem de ser calcado por alguma coisa, pés humanos, trânsito, o que for, ao passo que este aqui, salvo nas horas da missa, é percorrido unicamente pelo espectro do enorme paredão de granito que se levanta nas traseiras da sacristia. Diariamente, ano após ano, século após século, essa muralha, mal o sol se firma, envia a sua sombra para o terreiro, arrastrando uma outra, a da igreja. Leva-a envolvida, viaja com ela pelo deserto de buracos e de pó, cobre o chão, arrefece-o, e ao meio-dia recolhe-se, expulsa pelo sol a pino. Mas a tarde é dela. A tarde a sombra recomeça a invasão, crescendo à medida que a luz enfraquece. Tão escura, observe-se, tão carregada de hora para hora, que parece uma mensagem antecipada da noite; ou, se preferirem, uma insinuação de trevas posta a circular pela muralha em pleno dia para tornar o largo mais só, deixando-o entregue aos vermes que o minam.

José Cardoso Pires, "O Delfim"

O 'chapéu'

Uma vez, quando tinha seis anos, vi um desenho magnífico num livro chamado Histórias Vividas, sobre a floresta primitiva. Era um desenho que mostrava uma jiboia prestes a engolir um animal. Aqui vai uma cópia dele.

No livro era dito: “As jiboias engolem suas presas por inteiro, sem nem mastigar. Depois disso elas ficam incapazes de se mover, e dormem pelos seis meses que necessitam para a digestão.”

Eu então refleti profundamente acerca das aventuras da selva, e após algum trabalho com um lápis de cor, consegui fazer o meu primeiro desenho, meu Desenho Número Um. Ele era mais ou menos assim:


Eu mostrei minha obra-prima às pessoas grandes, e perguntei se meu desenho as assustava. Mas elas me responderam: “Assustar? Por que alguém se assustaria com um chapéu?”

Meu desenho não era um chapéu. Era o desenho de uma jiboia digerindo um elefante. Mas como as pessoas grandes não conseguiam entendê-lo, eu fiz um novo desenho: desenhei o interior de uma jiboia, assim as pessoas grandes poderiam ver claramente o elefante. Elas sempre precisam de explicações para as coisas. Meu Desenho Número Dois era assim:

Desta vez as pessoas grandes me aconselharam a deixar de lado meus desenhos de jiboias, fossem elas abertas ou fechadas, e me dedicar a coisas como geografia, história, aritmética e gramática. Foi por isso que, aos meus seis anos, desisti do que poderia vir a ser uma carreira magnífica na pintura.

Eu fui desencorajado pelos fracassos do meu Desenho Número Um e do meu Desenho Número Dois. As pessoas grandes nunca entendem nada por elas mesmas, e é muito cansativo para as crianças ficarem sempre explicando as coisas para elas.

Então eu escolhi outra profissão, e aprendi a pilotar aviões. Eu voei por todas as partes do mundo; e é verdade que a geografia acabou me sendo muito útil. De relance, posso distinguir a China do Arizona. Se alguém fica perdido no céu noturno, este conhecimento é bem valioso.

No curso desta vida eu tive muitos grandes encontros com muitas pessoas que se preocupavam com assuntos muito sérios. Eu vivi por um bom tempo entre as pessoas grandes. Eu fui muito próximo e íntimo a elas, mas tudo isso não melhorou muito a opinião que tenho delas.

Sempre que eu me encontrava com uma delas que me parecia mais lúcida à primeira vista, eu fazia um experimento: mostrava a elas o meu Desenho Número Um, que sempre carreguei comigo. Eu buscava saber se aquela era uma pessoa de compreensão verdadeira. Mas, quem quer que ela fosse, um adulto ou uma adulta, sempre me respondia:

“Isto é um chapéu.”

Então eu jamais falaria com aquela pessoa sobre jiboias, ou florestas primitivas, ou estrelas. Eu precisava descer ao seu nível de compreensão. Eu conversaria com ela sobre jogos de cartas, e golfe, e política, e gravatas. E a pessoa grande ficava encantada em conhecer um homem tão refinado.

Antoine de Saint-Exupéry, "O Pequeno Príncipe"

Vou te receitar um livro

Você já reparou? As livrarias estão cheias de livros sobre livrarias. E sobre bibliotecas, e cafés, e lojinhas de conveniência. Todos com capas fofas, às vezes com letras douradas, mais vezes ainda enfeitadas com um ou dois gatos; escritos sobretudo por autores japoneses e coreanos. Eles começaram a aparecer durante a pandemia, e acabaram se consolidando como um novo gênero, healing literature, literatura de cura. São livros para quem não aguenta mais o clima de fim de mundo que estamos vivendo e quer uma pausa na loucura.

Eles não são Grande Literatura, não serão lembrados daqui a cem anos e nem se propõem a isso. A sua intenção é oferecer aos leitores um ambiente aconchegante onde possam se refugiar da crise climática, do aumento do custo de vida, dos horrores do noticiário. São quase sempre bem-sucedidos: ganham muitas estrelas na Amazon e no Goodreads, e uma enorme quantidade de resenhas positivas.

Nem todos são bons, é claro, mas a maioria é no mínimo agradável de ler e, em geral, têm ótimas traduções. Isso se explica. Os livros passaram no teste de mercados extremamente concorridos, e seus tradutores costumam ser acadêmicos especializados não só na língua, mas na cultura dos países que trazem até nós.

O meu favorito entre todos que li é “A biblioteca dos sonhos secretos”, de Michiko Aoyama, traduzido por Jefferson José Teixeira para a Sextante. A capa é linda e, sim, tem um gato. Dividido em cinco partes, conta a história de cinco diferentes pessoas que, por motivos diversos, vão à biblioteca de um pequeno centro comunitário em Tóquio. Lá a bibliotecária lhes recomenda livros aparentemente aleatórios que, no entanto, mudam as suas vidas. Os cinco, entre 21 e 65 anos, homens e mulheres, são pessoas comuns, com problemas bastante triviais. Precisam apenas de empurrões na direção certa, e a senhora Komachi é mestra em acertar essa direção.

A escrita é simples e direta, o tom é baixo: o exato oposto de um filme de ação. As suas 230 páginas são um ambiente calmo, acolhedor e gentil.

“Vou te receitar um gato”, de Ishida Syou, traduzido por Eunice Suenaga para a Intrínseca, chegou ontem às livrarias e tem uma estrutura muito semelhante. A capa é irresistível, e de novo encontramos cinco personagens em cinco histórias que não precisam necessariamente ser lidas em sequência; elas também estão às voltas com problemas que não conseguem resolver.

O estilo dos dois romances, porém, é muito diferente. “A biblioteca dos sonhos secretos” é sólido e tem os pés no chão; os livros indicados pela senhora Komachi existem na vida real e são relacionados na última página. “Vou te receitar um gato”, por sua vez, é um exercício de realismo mágico, uma fábula deliciosa que não deve ser interpretada ao pé da letra. Suas personagens buscam uma certa clínica em Quioto, e são surpreendidas pelo tratamento prescrito: gatos com bula e modo de usar.

“Meus dias na livraria Morisaki” e “Uma noite na livraria Morisaki”, de Satoshi Yagisawa, traduzidos respectivamente por Andrei Cunha e Tomoko Gaudioso para a Bertrand Brasil, são dois outros livros terapêuticos que me fizeram muito bem. Ambos têm gatinhos estrategicamente posicionados na capa, mas as histórias nem precisam deles para exercer o seu poder curativo.
Cora Rónai

quinta-feira, julho 11

Todo mundo lê...

 


O projetor

No fim de semana chuvoso, o azar de descobrir um defeito no aparelho de som. Comprara alguns DVDs, inclusive a "Missa de Angelis" gravada na Abadia de Solésmes, raridade que procurava há anos. O jeito foi arquivar o desejo de ouvir música.

Fui mexer nuns velhos guardados e descobri o antigo projetor de slides, que julgara desativado. Bastou apertar a lâmpada e ele funcionou. Troquei de brinquedo e arrumei a cangalha num quarto vazio, onde a parede branca esperava as imagens descoloridas de um outro tempo, que vieram mansamente, trazendo farrapos do passado, subitamente iluminados –e tão verdadeiros, tão cruéis em sua verdade, em seu momento que não volta mais.


Aquele sujeito não me é estranho, mas, honestamente, não me lembrava dele. Está um pouco mais magro, o bigode é menos grosso, os cabelos mais fartos e escuros, mas o cachimbo é o mesmo, deve estar no meio dos outros lá na sala. Sim, sou eu mesmo, sentado na amurada de um rio, o tempo descoloriu a paisagem em volta, pode ser o Tibre ou o Vistula, o Sena ou o Tamisa, talvez seja mesmo o Danúbio, numa Viena que me deslumbrou.


Recordações de viagens, escombros de matérias para uma revista, e, no meio de tudo, os instantes de uma casa –a minha casa– no sofá de couro está deitada a mulher, o ângulo da foto mostra-lhe as pernas, grande parte das coxas. Por milagre –ou talvez castigo–, as cores ainda estão vivas e fortes. Devia ficar olhando para sempre aquela foto, tão real e minha –e já fantasma e alheia.

Não devia estar fuçando o passado, perdi a vontade de continuar. Guardei os slides, pensei em jogá-los fora, mas tive pena de mim mesmo e resolvi conservá-los no mais obscuro de mim mesmo. Lúcido e só, amaldiçoei o projetor, cúmplice da memória que ainda dói.
Carlos Heitor Cony

... E as macieiras

– Posso entrar?

É a dona do hotelzinho que me traz o café. Pousando o tabuleiro sobre a toalha cor de morango, diz:

– O café vai-lhe saber bem, num dia como este.

E olhando o nevão por detrás da janela:

– Coisa tão rara, uma Páscoa branca.

– A janela, dantes, era muito estreita – digo eu – mas acho-a bonita assim larga.

E ela, surpreendida:

– Conhecia a casa? – Conhecia. E as macieiras também.

Ilse Losa, “Páscoa Branca”

Longe dali, em outro tempo

Durante toda a noite vapores pestilentos elevam-se do pântano verde. Um cheiro adocicado de podridão se espalha entre nossas cabanas. Tudo que é de ferro oxida da noite para o dia, ervas peçonhentas derrubam as cercas, o bolor devora as paredes, a umidade faz a palha e o feno enegrecerem como carvão, mosquitos enxameiam por toda parte, nossos quartos estão cheios de insetos voadores e rastejantes. A própria poeira borbulha, pustulenta. Carunchos, traças e pulgões roem móveis, parapeitos de madeira e até telhas podres. O verão inteiro, nossas crianças padecem de furúnculos, eczemas e gangrenas. Os velhos morrem com as vias respiratórias decompostas. O odor fétido da morte exala também dos vivos. Muitos aqui são desfigurados, apalermados, têm bócio, membros deformados, feições contorcidas, a baba escorre da boca, porque aqui todos procriam com todos: irmão com irmã, filho com mãe, pais com filhas.

Eu, que para cá fui enviado há vinte ou vinte e cinco anos pelo Departamento de Incentivo a Regiões Atrasadas, continuo a sair todos os dias, ao cair do crepúsculo, para borrifar as águas do pântano com desinfetante e para distribuir aos desconfiados habitantes quinino, ácido carbólico, pó de sulfa, unguentos para a pele e remédios contra parasitas. Faço-lhes preleções sobre abstinência e higiene, sobre água sanitária e ddt. Vou aguentando, até que finalmente chegue um substituto, talvez alguém mais jovem e de caráter mais forte do que o meu.

Enquanto isso, sou o farmacêutico, o professor, o tabelião, o árbitro, o sanitarista, o arquivista, o litigante, o apaziguador de querelas. Eles ainda tiram para mim seus chapéus amarfanhados, apertam-nos contra o peito, fazem uma reverência e me chamam de senhor. Eles ainda me bajulam, com seus sorrisos dissimulados e desdentados. Entretanto, mais agora do que antes, sou compelido a adulá-los, a fingir que nada vejo, a me amoldar a suas superstições, a ignorar suas gargalhadas insolentes, a suportar o fedor de seus corpos e o bafo de suas bocas, a aturar as invasões de propriedade que se espalham por toda a aldeia. Admito que já não me resta quase poder algum. Minha autoridade vai se esvanecendo. Restam apenas resquícios esfarrapados de influência, que procuro exercitar por meio de subterfúgios, adulação, mentiras necessárias, vagas advertências e pequenos subornos. O que me resta é aguentar por algum tempo, um pouco mais, até a chegada do substituto. Partirei então para sempre. Ou o contrário: pegarei uma cabana vazia, uma camponesa rechonchuda, e ficarei de vez.

Certa vez, antes da minha vinda, há um quarto de século ou mais, o governador fez uma visita, acompanhado de uma grande comitiva. Ficou uma ou duas horas, e mandou que o curso do rio fosse desviado imediatamente para drenar o pântano maligno. Com ele vieram dignitários e funcionários, topógrafos, clérigos, um jurista, um cantor, um historiador oficial, um ou dois intelectuais, um astrólogo e representantes de dezesseis serviços secretos. O governador fez registrar por escrito suas determinações: cavar. Desviar. Drenar. Erradicar. Desinfetar. Canalizar. Remover. Priorizar. Abrir uma nova página.

Nada aconteceu desde então.

Há quem diga que lá, do outro lado do rio, além das florestas e das montanhas, o governo mudou de mãos várias vezes. Um foi deposto, outro foi derrotado, um terceiro deu um passo em falso, um quarto foi assassinado, um quinto aprisionado, um sexto deu uma guinada, um sétimo fugiu, ou caiu no sono. Aqui, tudo é como sempre foi: os velhos e os bebês continuam a morrer, os jovens a envelhecer prematuramente. A população da aldeia, segundo meus cálculos conservadores, diminui cada vez mais. Pela tabela que preparei e pendurei sobre minha cama, até a metade do século não restará aqui uma alma viva. Exceto os insetos e répteis.

É verdade que aqui nascem crianças aos montes, mas a maioria morre ainda na infância, e quase não são lamentadas. Os jovens fogem para o norte. As moças cultivam beterrabas e batatas na lama espessa, engravidam aos dezesseis anos, e aos vinte murcham diante dos meus olhos. Às vezes, a paixão toma de assalto a aldeia, arrastando-a a uma noite de libertinagem à luz de fogueiras feitas com madeira úmida. Todos perdem a compostura, velhos com crianças, moças com aleijados, homens com animais. Não posso dar detalhes, pois nessas noites me tranco na minha cabana, que é também a farmácia, fecho as rebentadas venezianas de madeira, passo o ferrolho na porta e, por via das dúvidas, ponho uma pistola sob o travesseiro.

Mas noites como essas não são frequentes. No dia seguinte, eles acordam ao meio-dia, atordoados, os olhos vermelhos, e de novo, submissos, vão labutar do alvorecer ao anoitecer em suas glebas lamacentas. Os dias são de calor ardente. Pulgas exasperantes, do tamanho de uma moeda, nos atacam e, quando nos mordem, emitem uma espécie de silvo agudo e insuportável. O trabalho nos campos parece ser extenuante. As beterrabas e as batatas vão sendo tiradas da lama pastosa, quase todas apodrecidas, e mesmo assim são comidas cruas, ou cozidas numa papa pestilenta e infecta. Dois dos filhos do coveiro fugiram para as montanhas e entraram para uma gangue de contrabandistas. Suas mulheres foram morar, elas e os filhos, na cabana do caçula, que ainda é uma criança, não tendo completado catorze anos.

Quanto ao próprio coveiro, um homem de poucas palavras, corcunda e ossudo, ele decidiu não aceitar aquilo calado. Mas seguiram-se semanas e meses de total silêncio, e anos se passaram igual. Um dia, o coveiro açodou-se e se mudou, ele também, para a cabana do filho caçula. Mais e mais bebês foram nascendo, e ninguém sabe quais são os filhos dos irmãos fugitivos, que às vezes pernoitam uma ou duas noites na aldeia, e quais são do filho caçula, e quais do coveiro, e quais de seu velho pai. Seja como for, a maioria desses bebês morreu algumas semanas depois de nascer. À noite, outros homens lá entravam e saíam, assim como algumas moças, crescidas e desmioladas, em busca de um teto ou de um macho, de um abrigo, de um bebê ou de comida. O atual governador não respondeu a três memorandos urgentes, cada um mais alarmante que o outro, que lhe foram enviados a curtos intervalos para alertar quanto à degeneração dos padrões morais e para solicitar sua urgente intervenção. Fui eu o redator e o frustrado remetente desses memorandos.

Os anos transcorrem em silêncio. Meu substituto não chegou. Para o lugar do guarda veio seu cunhado, e há rumores de que o guarda demitido juntou-se aos contrabandistas das colinas. Ainda estou em meu posto, mas cada vez mais exausto. Eles já não me chamam de senhor nem se dão o trabalho de tirar seus bonés esfarrapados para me cumprimentar. Os desinfetantes já acabaram. As mulheres, sem me fazer qualquer pagamento, retiram pouco a pouco o resto de estoque da farmácia. Parece que minha mente e minha vontade se deterioram gradativamente. Ou talvez sejam apenas meus olhos a escurecer, a ponto de até mesmo a luz do meio-dia lhes parecer sombria, e a fila de mulheres à porta da farmácia se assemelhar a uma fileira de sacos abarrotados. Com o passar do tempo, quase me acostumei a seus dentes podres e à onda de fedor que emana de seus hálitos. Assim vou levando, da manhã à noite, dia após dia, do verão ao inverno. Há muito deixei de sentir as picadas dos insetos. Meu sono é profundo e tranquilo. O musgo cresce em meus lençóis, e manchas de fungo florescem em todas as paredes. De vez em quando, uma ou outra aldeã se apieda de mim e me alimenta com um líquido viscoso, provavelmente feito de cascas de batata. Todos os meus livros estão mofados, as encadernações se esfarelam e desmancham.

Nada me restou, e eu não saberia distinguir um dia do outro, ou a primavera do outono, ou um ano de outro qualquer. Às vezes, à noite, tenho a impressão de ouvir o lamento distante de algum instrumento de sopro antigo, e não tenho a menor noção de qual seja ou de quem o está tocando, e se o estão tocando na floresta, ou talvez nas colinas, ou talvez dentro de meu crânio, debaixo de meus cabelos cada vez mais grisalhos e ralos. Vou assim, lentamente, voltando as costas a tudo que me circunda e a mim mesmo também.

Exceto por um acontecimento que testemunhei esta manhã, e que aqui devo relatar por escrito, sem expressar qualquer opinião:

Esta manhã o sol subiu e transformou os vapores do pântano numa espécie de chuva viscosa e gelatinosa. Uma chuva quente de verão, com cheiro de suor velho e azedo. Os aldeões começaram a sair das cabanas para descer até os canteiros de batata. Então, no cume da colina mais a leste, entre nós e o sol que se elevava no céu, apareceu um estranho, forte e bonito. Ele começou a agitar os braços, a desenhar no ar úmido todo tipo de círculos e curvas, a dar chutes e a fazer reverências, a pular no mesmo lugar, sem dizer palavra. Quem é ele?, os homens se perguntavam, e o que será que ele quer aqui? Ele não é daqui, nem da outra aldeia, nem das colinas, diziam os velhos uns aos outros. Talvez tenha vindo da nuvem.

E as mulheres diziam, É preciso ter cuidado com ele, é preciso pegá-lo em flagrante, é preciso matá-lo. Enquanto deliberavam e discutiam, o ar amarelado encheu-se com o rumor de diversos sons, pássaros que gritavam, cães, fala humana, berros, broncas, o zumbido de insetos do tamanho de canecas de cerveja. Os sapos do pântano também se deram conta e começaram a coaxar, as galinhas lhes fizeram coro, arreios tilintavam e tosses e gemidos e xingamentos. Vozes diversas.

Aquele homem, começou a dizer o filho caçula do coveiro, mas de repente mudou de ideia e calou-se. Aquele homem, disse o estalajadeiro, está tentando seduzir as moças. E as moças gritavam, vejam, ele está nu, vejam como é grande, vejam, ele está dançando, ele quer voar, vejam, parecem asas, vejam como ele é branco.

O velho coveiro disse, Qual a razão para tanto falatório? O sol já vai alto no céu, o homem branco que estava lá, ou que pensávamos estar lá, desapareceu do outro lado do pântano, ficar falando não adianta nada, um novo dia está começando, está muito quente e precisamos ir trabalhar. Quem pode trabalhar que trabalhe e sofra em silêncio. E quem não pode que vá em frente e morra. Isso é tudo.
Amós Oz, "Cenas da vida na aldeia"

Goiaba

Não se ouvia ruído dos motores do avião. Não se ouvia nada. Exceto, talvez, o choro surdo das comissárias a alguns assentos de distância mais para trás. Pela janela elíptica, Shkedi olhava a nuvem que pairava bem abaixo dele. Imaginou o avião caindo por ela como uma pedra, fazendo um buraco enorme que seria rapidamente fechado com o primeiro vento, sem deixar sequer uma cicatriz. “Só não caia”, Shkedi pensou, “só não caia.”

Quarenta segundos antes de Shkedi expirar, surgiu um anjo vestido totalmente de branco e lhe contou que ele fora premiado com um último desejo. Shkedi tentou descobrir o que “premiado” sugeria. Será que se tratava de um prêmio como em uma loteria, ou algo um pouquinho mais lisonjeiro: “premiado” por uma conquista, em reconhecimento por seus bons atos? O anjo deu de asas. “Não sei”, confessou com pura sinceridade angelical. “Disseram-me para vir e realizar, não disseram por quê.” “Pena”, disse Shkedi, “porque é absolutamente fascinante. Especialmente agora, quando estou para partir deste mundo, é muito importante para mim saber se eu o deixo simplesmente como qualquer sujeito de sorte ou com um tapinha nas costas.” “Quarenta segundos e você cai fora”, disse o anjo com indiferença. “Se quer passar este tempo tagarelando, por mim, tudo bem. Não tem problema. Leve apenas em consideração que a sua vitrine de oportunidades está se fechando.” Shkedi entendeu e fez logo seu pedido. Mas não antes de fazer ao anjo uma observação em relação ao seu jeito estranho de falar. Quer dizer, estranho para um anjo. O anjo se ofendeu. “O que quer dizer ‘para um anjo’? Alguma vez já ouviu um anjo falando para estar despejando isso em mim?” “Não”, confessou Shkedi. O anjo pareceu de repente muito menos angelical e agradável, mas aquilo não era nada comparado à sua aparência quando ouviu o desejo.

“Paz mundial?”, ele berrou irado. “Paz mundial? Você está zombando de mim?”

E então Shkedi morreu.

Shkedi morreu e o anjo ficou. Ficou com o desejo mais maçante e complicado que alguma vez foi solicitado a realizar. Na maioria dos casos, as pessoas pediam um carro novo para a esposa, um apartamento para o filho. Coisas razoáveis. Coisas específicas. Mas paz mundial é um trabalhão. Primeiro, o sujeito o perturba com perguntas, como se ele fosse do setor de informações da companhia telefônica, depois o ofende por falar esquisito, e ainda por cima lhe pede paz mundial. Se ele não tivesse batido as botas, o anjo grudaria nele como herpes e não o largaria até que substituísse o desejo. Mas a alma do fulano já tinha sido despachada para o sétimo céu, e como seria procurá-la por lá agora?

O anjo respirou fundo. “Paz mundial, isto é tudo”, balbuciou, “paz mundial, é tudo.”

E enquanto tudo isso acontecia, a alma de Shkedi já esquecera completamente que havia pertencido a alguém chamado Shkedi, e reencarnou, pura e imaculada, de segunda mão, mas como nova, dentro de uma fruta. Sim, uma fruta. Uma goiaba.

A nova alma não tinha pensamentos. Goiabas não têm pensamentos. Mas tinha sentimentos. Sentia um medo terrível. Tinha medo de cair da árvore. Não tinha palavras para descrever este medo. Mas se tivesse, certamente seria algo no estilo, “Mãezinha, não quero cair”. E enquanto estava pendurada na árvore, apavorada, a paz começou a reinar no mundo. As pessoas transformaram suas espadas em pás, e usinas atômicas foram rápida e sabiamente transformadas para propósitos pacíficos. Mas nada disto tranquilizou a goiaba. Porque a árvore era alta e o solo parecia distante e doloroso. Só não me deixe cair, a goiaba tremia sem palavras, só não caia.

Etgar Keret, "De repente, uma batida na porta"

terça-feira, julho 9

Pois, voe!

 


Não esquentemos a cabeça

Meu saudoso amigo Luiz Cuiúba, quando provocado a falar sobre mim, citava sempre d. Madalena, nossa professora. “Ele é boa pessoa, não se vai negar”, afirmava Cuiúba. “Mas d. Madalena cansava de dizer que ele tem um problema na ideia, e quem conhece ele sabe que é verdade.” E, claro, amigo e professora de infância sempre têm razão quando opinam sobre a gente. Eu, lamentavelmente, padeço de um problema na ideia desde pequeno. Já desisti de consertá-lo, até porque ele é difícil de caracterizar, se disfarça muito.

Bem verdade que quem sai aos seus não degenera e meu avô materno, o combativo quão poderoso coronel Ubaldo, da mesma forma já mencionado aqui em outras ocasiões, também tinha, vamos admitir com franqueza, um problema na ideia. Tanto assim que, de vez em quando, a cabeça dele esquentava a tal ponto que ele intimava o primeiro infeliz que passasse por perto para abanar-lhe a careca enquanto durasse o surto de esquentamento. Ventilador, nem pensar, pois ele abominava toda e qualquer coisa que tivesse a ver com eletricidade e jamais tocou em nada elétrico na vida, nem interruptor de luz — ordenava a alguém que acendesse a luz.

E certamente devo chamar a atenção para a circunstância de que os leitores também já devem ter observado esse meu problema, embora só muito poucos tenham tido a oportunidade de testemunhar as fofas (pronuncia-se “fó-fa”, com o “o” aberto e, já que estamos perto de mudanças ortográficas, tomarei a liberdade de doravante grafar “fófa”) que, quando o esquentamento na cabeça não era superado, acometiam tanto meu avô quanto hoje a mim. A fófa consiste em cair prostrado na cama em decúbito ventral, revirar os olhos e bufar freneticamente com os lábios e o queixo tremendo. Para tratar meu avô, bastava um vidrinho de leite de magnésia de Phillips, a última novidade da medicina que aceitou, até morrer de velho. Mas não tomava o remédio nunca, apenas se acalmava aos poucos, olhando para o vidrinho azul. Minhas fófas, receio eu, já se globalizaram, mas a metodologia permanece a mesma. Me receitam bolinhas, eu leio as bulas, não tomo nada e acabo me desfofando.

É difícil, pelo menos para os fofistas que creio também haver entre vocês, ler um jornal ou assistir a um noticiário de televisão sem pelo menos esquentar a cabeça. Infelizmente, não conto com um pelotão de abanadores de careca como meu avô, mas, em compensação, não tenho medo de objetos movidos a eletricidade e sou homem de, em momentos mais sérios, quase enfiar a cabeça por um condicionador de ar adentro. Estou sem fófas desde o início do ano. Não sei se é porque o governo não começou ainda, e é possível que o presidente não tenha terminado de achar todos os que o desancaram para dar-lhes ministérios e assim desmascará-los, mas o fato é que, apesar de certos eventos, ainda não deu para uma fófa.

Mas para esquentar a cabeça, sim. Não é possível que as cabeças de vocês também não esquentem, com as notícias que a gente ouve e lê. Por exemplo, a economia vai mal ou bem? As notas, reportagens e até releases disfarçados por vezes se contradizem na mesma página de jornal, ou no mesmo noticiário de tevê. Estamos ameaçados de apagão ou não? Temos a infraestrutura para crescer economicamente ou não? Vai ser minorado o problema da violência ou não?

Pelo que se lê ou escuta, não dá para saber. Por exemplo, liguei a televisão e assisti a um senhor muito sério falar em aumento da oferta de empregos no Brasil. Sei que a estatística, como já se disse, é frequentemente a arte de mentir com precisão, mas, pelo que ele asseverou, estamos bem, estamos muito bem, estamos até atraindo mão-de-obra do exterior, vejam que beleza. E a cabeça pára de esquentar, mas, insensatamente, mudo de canal e pego mais gente falando sobre emprego. Nada disso, afirma logo outro noticiarista, desta feita um repórter conversando com desempregados em todo o Brasil, gente que procura trabalho há anos sem achar nada e ocupações que não existem em outras partes do mundo, como guardadores de lugar em filas, donatários de ruas, praças e calçadas para estacionamento e membros profissionais de partidos que deem emprego. A necessidade é a mãe da porcaria e por causa dela ficamos nesta situação, digamos, geradora de fófas.

Temeroso, decido desligar a tevê e vou olhar minha fornida e-mailspondência (desculpem, desculpem, não escrevo mais esta barbaridade), para esquecer realidade tão dura. Vejo logo a mensagem de um amigo americano com quem há muito tempo não falo. Vai tudo bem e Larry, o filho dele, está quase para se formar numa universidade. Nos períodos de folga, já encontrou diversos empregos temporários, dos muitos que uma pessoa empreendedora pode arrumar por lá. Vocês vão achar que estou mentindo e por isso, pelo menos num dos casos, mato a cobra e mostro o pau. Não sei o nome do professor que dirigiu o estudo de que Larry foi “freguês”, mas o fato é que, há dois verões, ele foi pago para dormir, numa pesquisa sobre o sono. No verão passado, sério mesmo, ele foi, digamos, piloto de provas de camisinhas e, a julgar pelo que me dizem do Larry, deve ter feito algum sucesso nessa condição. E, finalmente, este ano, vai trabalhar rindo profissionalmente, numa tal de Laughter Therapy Enterprises, ou seja, Empresas de Terapia pelo Riso, no Colorado. Quem sabe se, no futuro, ele não ganhará a vida na folgança, rindo durante o expediente e testando camisinhas nas horas vagas? Aqui, penso eu rancorosamente, só quem faz isso é o governo — e em cima da gente, às nossas custas. Alguém aí pode ceder um frasco de magnésia para eu espiar?
João Ubaldo Ribeiro, "O rei da noite"

Canto do assassino

No dia em que o delegado trouxe Goodwin para a cidade, havia na cadeia um assassino, um negro, que matara sua mulher. Cortara-lhe o pescoço com uma navalha, de modo que, a cabeça destacando-se cada vez mais para trás, toda ensanguentada ela correra para fora da cabina, dando seis ou sete passos na senda enluarada. À tarde, o assassino apoiava-se às grades da prisão e cantava.

A flor caíra da árvore-do-paraíso, a um canto do pátio da cadeia. Jaziam no chão, grossas, pegajosas, adocicadas, de uma doçura excessiva e moribunda. À noite, a sombra irregular de galhos que agora só tinham folhas estremecia fracamente nas grades de ferro. A janela ficava na sala comum. As paredes caiadas de branco estavam manchadas, com a marca de mãos, rabiscos de nomes e datas, inscrições obscenas, feitas a lápis, com a unha ou com lâmina de faca. Todas as noites, o negro assassino ali se apoiava, o rosto manchado pela sombra das grades nos irrequietos interstícios das folhas. E cantava, em coro, com aqueles que se achavam na cerca lá embaixo.
William Faulkner, "Santuário"

Bibliotecas

A biblioteca não é um local de passagem, é um destino. Tem a beleza do silêncio, da contemplação, da interrupção da pressa e da voragem da miríade de afazeres e apelos quotidianos, está fora do tempo, ou melhor, tem o seu próprio tempo e o seu próprio espaço: quando entramos numa biblioteca e vemos estantes e cadeiras e mesas, é porque ainda não estamos verdadeiramente na biblioteca, assim como quando olhamos para um livro e vemos letras e papel é porque ainda não o estamos a ler. Foi numa biblioteca que visitei pela primeira vez a China, pela mão de Hergé, foi numa biblioteca que cavalguei pelas estepes com Tarass Bulba e os cossacos de Zaporígia, junto às margens do Dnieper, foi também numa biblioteca que conheci o padre Brown.


Essa dimensão extraordinária de uma biblioteca, ao criar um espaço-tempo próprio onde é possível penetrar em diversos universos paralelos, ao interromper o frenesim da vida e — mais importante ainda —, ao quebrar a rotina e os comportamentos mecânicos, encarna e reclama para si uma dimensão sagrada, sem no entanto deixar de ser secular: “Para lá da educação artística cultural dos mais jovens, a biblioteca ou a mediateca podia ser o centro dessa transmissão cultural que hoje faz falta a muitas pessoas que levam uma vida conturbada (e por transmissão entendo aqui, como terão compreendido, não só uma transmissão ‘vertical’, intergeracional, mas múltiplas formas de intercâmbio ‘horizontal’). Ser um lugar onde se pode pensar de maneira transversal, nesta época em que os saberes, as funções, os espaços, a gerações, os tempos da vida estão compartimentados, fragmentados, e em que as artes, pelo contrário, transpõem cada vez mais as fronteiras. Onde nos podemos apropriar das tecnologias de ponta e das lendas antigas, dos escritos, das imagens ou das músicas da regiões próximas como de terras distantes. Onde tanto se dá importância à luz como à sombra, às experiências mais íntimas como a momentos compartilhados” (Michèle Petit, Ler o mundo, 2020).

A biblioteca é também um lar ou, pelo menos, um refúgio: “De modo explícito ou intuitivo, bibliotecários, professores, psicólogos estão bem cientes disto, usando-o com crianças, adolescentes ou adultos exilados, desalojados, ou cujo quadro de vida foi destruído ou alterado, como sucedeu por exemplo na Colômbia, na periferia de Medellín, onde alguns bibliotecários desenvolveram um programa chamado O refúgio dos contos, quando uma parte da população se viu obrigada a deixar as suas casas devido aos combates entre grupos armados.

"De colete à prova de bala, Consuelo Marín ia assim ler em voz alta àqueles que estavam agrupados num liceu do bairro. Uma manhã, ouviu tiros a aproximar-se e quis interromper a leitura, mas o jovens ouvintes exigiram ouvir o fim da história: ‘Estes meninos e meninas que passaram as noites a chorar pelos corredores do liceu como medo do escuro da noite, como uma segunda pele, pele da alma que não podiam tirar, não queriam perder o fim de um conto“
 


A beleza deste trecho evidencia o poder encantatório de uma história, mostrando que a necessidade de as terminar é tão poderosa que não teme a morte, pois a vida que desejamos viver é a vida com sentido, que preenche todo o potencial possível e sugerido. Isto encerra também aquilo a que chamo “efeito Xerazade”, o adiar da morte até que haja uma consumação e uma plenitude, o necessário final que dá sentido à história, que dá sentido à vida.

A morte também parece ser sensível à narrativa, também ela interrompe os seus afazeres, como qualquer leitor, fascinada por um bom conto ou ideia. Por esse motivo, os leitores vivem, literalmente, mais do que quem não lê (vale a pena conferir o estudo A chapter a day: Association of book reading with longevity, onde se lê: “Book readers experienced a 20% reduction in risk of mortality over the 12 years of follow up compared to non-book readers”.

Na Colômbia, durante o período mais conturbado do narcotráfico, em especial nas últimas décadas do século passado, as bibliotecas eram mais seguras do que qualquer outro lugar. Disse-me um bibliotecário de Medellín: “Lembro-me de terem atacado igrejas para matar quem se refugiou nelas, mas nunca atacaram bibliotecas.”

segunda-feira, julho 8

Pra começar o dia

 


O delírio

O dia está alto e forte quando se levanta. Procura os chinelos embaixo da cama, tateando com os pés, enquanto se aconchega no pijama de flanela. O sol começa a cobrir o guarda-roupa, refletindo no chão o largo quadrado da janela.

Sente a cabeça endurecida na nuca, os movimentos tão difíceis. Os dedos dos pés são qualquer coisa gelada, impessoal. E os maxilares presos, cerrados. Vai até a pia, enche as mãos de água, bebe avidamente e ela se balança dentro dele como num frasco vazio. Molha a testa e respira desafogado.

Da janela enxerga a rua clara e movimentada. Guris brincam de botão à porta da Confeitaria Mascote, um carro buzina junto ao botequim. As mulheres, de sacola na mão, suadas, vêm da feira. Pedaços de nabos e alfaces se misturam à poeira da rua estreita. E o sol, puro e cruel, espalhado por cima de tudo.

Afasta-se com desgosto. Volta para dentro, olha a cama desfeita, tão familiar após a noite insone... A Virgem-Mãe agora se destaca, nítida e dominadora, sob a luz do dia. Com as sombras, ela também um vulto, é mais fácil descrer. Vai andando devagar, arrastando as pernas moles, levanta os lençóis, bate no travesseiro e mete-se lá dentro, com um suspiro. Torna-se tão humilde diante da rua viva e do sol indiferente... Na sua cama, no seu quarto, os olhos fechados, ele é rei.

Encolhe-se profundamente, como se lá fora chovesse, chovesse, e aqui uns braços silenciosos e mornos atraíssem-no e o transformassem num menino pequeno, pequeno e morto. Morto. Ah, é o delírio... É o delírio. Uma luz muito doce se espalha sobre a Terra como um perfume. A lua dilui-se lentamente e um sol-menino espreguiça os braços translúcidos... Frescos murmúrios de águas puras que se abandonam aos declives. Um par de asas dança na atmosfera rosada. Silêncio, meus amigos. O dia vai nascer.

Um queixume longínquo vem subindo do corpo da Terra... Há um pássaro que foge, como sempre. E ela, arquejante, rompe-se de súbito com estrondo, numa ferida larga... Larga como o Oceano Atlântico e não como um rio louco! Vomita borbotões de barro a cada grito.

Então o sol apruma o tronco e surge inteiro, poderoso, sangrento. Silêncio, amigos. Meus grandes e nobres amigos, ides assistir a uma luta milenar. Silêncio.

 S-s-s-s...

Da Terra rasgada e negra, surgem um a um, leves como o sopro de uma criança adormecida, pequenos seres de luz pura, mal pousando no solo os pés transparentes... Cores lilases flutuam no espaço como borboletas. Delgadas flautas erguem-se para o céu e melodias frágeis rebentam no ar como bolhas. As róseas formas continuam a brotar da terra ferida.

De repente, novo rugido. A Terra está tendo filhos? As formas dissolvem-se no ar, assustadas. Corolas murcham e as cores escurecem. E a Terra, os braços contraídos de dor, abre-se em novas fendas negras. Um forte cheiro de barro machucado arrasta-se em densa fumaça.

Um século de silêncio. E as luzes reaparecem tímidas, ainda trêmulas. Das grutas resfolegantes e sangrentas nascem outros seres, ininterruptamente. O sol esgarça as nuvens e respinga morno brilho. As flautas desfiam cantos agudos como suaves gargalhadas e as criaturas ensaiam uma dança levíssima... Sobre as feridas escuras pululam flores miúdas e cheirosas...

A Terra continuamente exaurida murcha, murcha em dobras e rugas de carne morta. A alegria dos nascidos está no auge e o ar é puro som. E a Terra envelhece rápida... Novas cores emergem dos rasgões profundos. O globo gira agora lentamente, lentamente, cansado. Morrendo. Um pequeno ser de luz nasce ainda, como um suspiro. E a Terra se some.

Seus filhos se assustam... interrompem as melodias e as danças ligeiras... Esbatem no ar as asas finas num zumbido confuso.

Um momento ainda brilham. Depois desfalecem exaustos e em cega linha reta afundam vertiginosamente no Espaço...

A vitória de quem foi? Ergue-se um homem pequenino, da última fila. Diz, a voz em eco, estranhamente perdida:

– Eu posso informar quem ganhou.

Todos gritam, subitamente furiosos.

– A galeria não se manifesta! A galeria não se manifesta!

O homenzinho intimida-se, porém continua:

– Mas eu sei! Eu sei: a vitória foi da Terra. Foi a sua vingança, foi a vingança...
Todos choram. “Foi a vingança” aproxima-se, aproxima-se, agiganta-se perto de todos os ouvidos até que, enorme, rebenta em raivoso fragor. E no silêncio brusco, o espaço é subitamente cinzento e morto.

***
Abre os olhos. A primeira coisa que vê é um pedaço de madeira branca. Olhando para adiante enxerga novas tábuas, todas iguais. E no meio de tudo, pendente, um esquisito animal que brilha, brilha e enfia as unhas compridas e cintilantes pelas suas pupilas, até atingir a nuca. É verdade que se abaixar as pálpebras, a aranha recolhe as unhas e reduz-se a uma nódoa vermelha e móvel. Mas é uma questão de honra. Quem deve se retirar é o monstro. Grita e aponta:

– Saia! Você é de ouro, mas saia!

A moça morena, de vestido claro, levanta-se e diz:

– Coitadinho. A luz está incomodando.

Torce o comutador. Ele se sente humilhado, profundamente humilhado. Então? Seria tão fácil explicar que era uma lâmpada... Só para feri-lo. Volta a cabeça para a parede e começa a chorar. A moça morena dá um gritinho:

– Mas não faça isso, meu bem!

Passa a mão pela sua testa, alisa-a devagar. Mão fresca, pequena, que vai deixando atrás de si um pedaço onde não fica mais pensamento. Tudo seria bom se as portas não batessem tanto. Ele diz:

– A Terra murchou, moça, murchou. Eu nem sabia que dentro dela tinha tanta luz...

– Mas eu já apaguei... Veja se dorme.

– Você apagou? – procura enxergá-la através do escuro. – Não, ela apagou-se por si mesma. Agora eu só queria saber isto: se ela pudesse ter escolhido, negar-se-ia a criar, somente para não morrer?

– Coitado... Você está mas é com muita febre. Se dormisse na certa melhorava.

– Depois ela se vingou. Porque os seres criados sentiam-se tão superiores, tão livres que imaginaram poder passar sem ela. Ela sempre se vinga.

A moça morena agora mistura seus dedos com os seus cabelos úmidos, revolve-lhe as ideias com movimentos suaves. Ele pega-lhe no braço, desfia seus dedos por aqueles dedos finos. A palma é macia. Junto da unha um pouco áspero.

Encosta a boca no seu dorso e vai passando-a por todos os caminhos, minuciosamente, os olhos muitos abertos na escuridão. A mão procura fugir. Ele a retém. Ela fica. O pulso. Fino e tenro, faz tic-tic-tic. É uma pombinha que ele aprisionou. A pombinha está assustada e seu coração faz tic-tic-tic.

– Este é um momento? Pergunta em voz bem alta. Não, já não é mais. E este? Já agora também não. Só se tem o momento que vem. O presente já é passado.

Estire os cadáveres dos momentos mortos em cima da cama. Cubra-os com um lençol alvo, ponha-os num caixão de menino. Eles morreram crianças ainda, sem pecado. Eu quero momentos adultos!... Moça, aproxime-se, eu quero lhe confiar um segredo: moça, que é que eu faço? Me ajude, que minha terra está murchando... Depois o que vai ser de minha luz?

O quarto está tão escuro. Onde a Virgem-Mãe que a tia meteu-lhe na mala, antes da partida? Onde está? Sente a princípio alguma coisa movendo-se junto dele. Então na sua boca enxuta dois lábios frescos pousam de leve, depois com mais firmeza. Agora seus olhos já não queimam. Agora suas têmporas deixam de latejar porque duas borboletas úmidas pairam sobre elas. Voam em seguida.
Ele se sente bem, com muito, muito sono...

– Moça...

Adormece.

Está agora no terraço do quarto de D. Marta, o que dá para o grande quintal. Levaram-no para lá, sentaram-no sobre uma espreguiçadeira de vime, um cobertor enrolado nos pés. Apesar de ter sido carregado como um bebê, cansou-se. Pensa que mesmo um incêndio não o faria levantar-se agora. D. Marta enxuga as mãos no avental.

– Então, seu moço, como vai de pernas? A pensão é minha, faço gosto em que o senhor more aqui. Mas, negócio de lado, eu lhe aconselharia a voltar para o Norte. Só a família mesmo pregaria o senhor do descanso, com hora certa de dormir e de comer... O doutor não gostou quando eu contei que o senhor ficava de luz acesa até de madrugada, lendo, escrevendo... Não é só por causa da eletricidade, mas, Deus nos valha, isso não é vida de gente...

Ele mal presta atenção. Não pode pensar muito, a cabeça fica oca de repente. Os olhos se afundam, cansados.

D. Marta pisca um olho.

– Minha afilhada veio fazer outra visitinha...

A moça entra. Ele olha-a. Ela se confunde, cora. Que houve, então? Ele sente nas mãos o toque de uma pele meio áspera. Na testa... Nos lábios... Olha-a com fixidez. Que aconteceu? Seu coração se acelera, pulsa com força. A moça sorri. Ficam calados e sentem-se bem.

Sua presença foi como uma suave sacudidela. Já agora a melancolia o abandona e, mais leve, tem prazer em se estirar sobre a cadeira. Estende as pernas, afasta o cobertor. Não faz mais frio e a cabeça não está tão vazia. É verdade que há também a fadiga que o prende ao assento, molemente, na mesma posição. Mas a ela abandona-se volutuosamente, observando com benevolência aquele seu desejo confuso de respirar muito, bem forte, de se descobrir ao sol, de pegar na mão da moça.

Há tanto tempo não se enxerga, nada se concede... É jovem, afinal, é jovem... Sorri, de pura alegria, quase infantil. Qualquer coisa suave brota do peito em ondas concêntricas e espalha-se por todo o corpo como vagas musicais. E o bom cansaço... Sorri para a moça, olha-a reconhecido, deseja-a levemente. Por que não? Uma aventura, sim... D. Marta tem razão. E seu corpo também reclama direitos...

– Você me fez antes alguma visita? – arrisca.

Ela diz que sim. Compreendem-se. Sorriem.

Ele respira mais profundamente, contente consigo mesmo. Pergunta animado:
– Você se lembra quando o homenzinho da última fila ergueu-se e disse: “Eu sei... e...”

Para assustado. O que está dizendo? Frases loucas que lhe escaparam, sem raízes... Então? Os dois ficam sérios. Ela, agora retraída, diz polidamente, com frieza:

– Não se assuste. O senhor teve muita febre, delirou... É natural que não se lembre do delírio... nem de nada mais.

Ele a encara desapontado.

– Ah, o delírio. Você desculpe, no fim a gente não sabe o que aconteceu mesmo e o que foi mentira...

Ela agora é uma estranha. Fracasso. Olha-a de trás, observa seu perfil vulgar, delicado.

Mas aquela moleza no corpo... O calor.

– Pois eu me lembro de tudo – diz de repente, resolvido a tentar a aventura de qualquer modo.

Ela se perturba, enrubesce de novo.

– Como...?

– Sim – diz mais calmo e subitamente quase com indiferença. – Lembro-me de tudo.

Ela sorri. Mal sabe, pensa ele, quanto significa-lhe este sorriso: uma ajuda para que ele entre por um caminho mais cômodo, em que se permita mais... D. Marta talvez tenha razão e, com a suavidade da convalescença, concorda com ela. Sim, pensa um pouco relutante, ser mais humano, despreocupar-se, viver. Corresponde ao olhar da moça.

No entanto, não experimenta alívio especial após a resolução de seguir uma vida mais fácil. Sente pelo contrário uma ligeira impaciência, uma vontade de se esgueirar como se o estivessem empurrando. Invoca um pensamento poderoso que o faça pousar sossegado sobre a ideia de se modificar: mais uma doença dessas e talvez fique inutilizado.

Continua porém inquieto, numa fadiga prévia pelo que se seguirá. Procura a paisagem, insatisfeito subitamente, sem saber por quê. O terraço sombreia-se. Onde está o sol? Tudo escureceu, faz frio. Há um momento em que sente a escuridão mesmo dentro de si, um vago desejo de se diluir, de desaparecer. Não deseja pensar, não pode pensar. Sobretudo, nada resolver por enquanto – adia, covarde. Ainda está doente.

O terraço dá para o arvoredo compacto. Na meia-luz, as árvores se balançam e gemem como velhinhas conformadas. Ah, ele se aprofundará na cadeira infinitamente, suas pernas se desmancharão, nada restará dele...

O sol reaparece. Sai de trás da nuvem vagarosamente e surge inteiro, poderoso, sangrento... Respinga brilho sobre o bosquezinho. E agora seu sussurro é o canto suavíssimo de uma flauta transparente, erguida para o céu...

Endireita-se sobre a cadeira, um pouco surpreendido, deslumbrado. Pensamentos alvoroçados se entrecruzam de repente em sua cabeça... Sim, por que não? Mesmo o fato de a moça morena... Todo o delírio surge-lhe ante os olhos? Como um quadro... Sim, sim... Anima-se. Mas que material poético encerra... “A Terra está tendo filhos.” E a dança dos seres sobre as feridas abertas? O calor volta-lhe ao corpo em leves ondas.

– Faça-me um favor – diz avidamente –, chame D. Marta...

Ela vem.

– Quer-me trazer um caderno que está em cima de minha mesa? E um lápis também...

– Mas... O senhor agora não pode trabalhar... Mal se levantou da cama... Está magro, pálido, parece que chuparam todo o sangue de dentro...

Ele para, de súbito pensativo. E principalmente se ela soubesse que esforço lhe custava escrever... Quando começava, todas as suas fibras eriçavam-se, irritadas e magníficas. E enquanto não cobria o papel com suas letras nervosas, enquanto não sentia que elas eram o seu prolongamento, não cessava, esgotando-se até o fim... “A Terra, os braços contraídos de dor...” Sim, sua cabeça já está dolorida, pesada. Mas poderia conter sua luz, para poupar-se?

Sorri um sorriso triste, um nada orgulhoso talvez, pedindo desculpas a D. Marta. À moça, pela aventura frustrada. A si mesmo, sobretudo.

– Não, a Terra não pode escolher – conclui ambiguamente. Mas depois se vinga.

D. Marta balança a cabeça. Vai buscar lápis e papel.
Clarice Lispector, "Todos os contos"