quinta-feira, julho 22

Reforço para a tecnologia

 

Mikail Çiftçi (Turquia)

O poeta e seus olhos

Outro dia a Rachel, sobrinha do Rubem Braga, tinha de fazer um retrato do Carlos Drummond de Andrade. Desenhista, lhe pediram que retratasse o poeta quando jovem. O trabalho ia indo quando ela empacou numa dúvida. De que cor eram os olhos de Carlos? Imediatamente telefonou à sua tia Yeda. Yeda pensou, pensou e mergulhou em profunda perplexidade. Como a resposta era urgente, ela telefonou para o Moacir.

Ouvida a pergunta, o Moacir por sua vez entrou numa dúvida hamletiana. Conheceu o Carlos Drummond de Andrade anos a fio. Conviveu com ele. E essa agora? Pediu um tempinho para se lembrar, como se cor dos olhos fosse coisa de se lembrar com o tempo. Habituado à pesquisa enciclopédica, o Moacir foi às fontes, isto é, aos livros. Nenhum texto compulsado fazia referência aos olhos do poeta. Como é falha a nossa bibliografia!

Lembrou-se do João e de seus arquivos implacáveis. Ele na certa devia ter arquivada a cor dos olhos do poeta, com as irisações e os revérberos segundo a hora e a luz do dia. Mas o João não estava. Ligou então para o Antônio. Vago, mergulhado na história que está escrevendo, o Antônio só faltou perguntar quem era esse tal de Carlos Drummond de Andrade. Em matéria de olhos, tinha lido recentemente um estudo sobre a visão de Joyce. A Yeda esperando e a Rachel aflita, os telefonemas andaram ceca e meca.

Até que a chamada deu aqui em casa. Azuis. Claro que eram azuis. Respondi na bucha. Me lembro muito bem. Várias vezes brinquei com o Carlos sobre a cor dos seus olhos. Dizia-lhe que, velho, fazia sucesso com as meninas por causa dos seus olhinhos. Aliás, sua filha Maria Julieta também tinha olhos azuis. Celestialmente azuis. O Moacir foi procurar e achou o retrato do poeta feito pelo Portinari, em 1936. Podia ser defeito da reprodução, mas não pareciam azuis. Gateados, talvez, com um pálido fio amarelo. Quem sabe verdes. Claros, em suma.

Azuis, insisti. Dias antes, na fila do banco, alguém me mostrou o retrato do poeta na nota de 50 cruzeiros e me perguntou se eu o achava fiel. Primeiro, a nota não vale nada. Não compra nem um pãozinho. Um escárnio. Mas o retrato é bem feito. E me intriga. O poeta aparece ali muito triste. Ele tinha, sim, os olhos azulmente tristes. Mas há no retrato um ríctus que me desagrada. A cédula traz um verso que se refere ao "secreto semblante da verdade". Secreto? Secretíssimo, a começar pelos olhos.

Leitura não tem idade

 


De poetas e mulheres

Que falta fazem aqueles poetas apaixonadamente românticos que não receavam declarar amor a uma mulher, a duas, a todas, sem se preocuparem com o que alguém pudesse vir a pensar deles ou delas.


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Tão inovador lhe saiu o poema, que o concretista o registrou no livro de patentes.

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O tempora, o mores, depois dos maus dias sempre vêm dias piores.

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Foram tempos insanos, letais. Morria-se de veneno colhido em lábios deliciosamente fatais.

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No tempo das rimas ricas as pobres rimas em ão andavam de pires na mão.

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Um poeta, se não puder ser tímido, há de ser discreto. Mas, quando disser palavras como rosa ou mulher, deverá parecer a todos que ninguém poderia dizê-las melhor.

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Como todo vício, a poesia, pelo menos no início, foi boa para mim.

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Nos desvarios em que me meto, sou governado por um triunvirato, eu, eu mesmo e eu de fato.

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Chega um momento em que só se pode esperar que você morra, e mesmo isso parece uma tarefa difícil demais para você.

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Se é famoso quem morreu, não se preocupe, meu amigo. Pode crer: não fui eu.

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Depois que se tornou um, ele agora só diz bom dia a outros poetas de antologia.

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Exemplo de coerência estética: na casa do poeta concreto, um jardim de grama sintética.

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Eu esperar grandes coisas da literatura não é estranho. Estranho seria ela esperar alguma coisa de mim.

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É um poeta modesto. Se precisa de uma estrela, só a pede ao almoxarifado poético se não puder reaproveitar uma antiga.

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Nas árvores do poema concreto, um comunicado drástico: passarinhos, só de plástico.

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Na ventania, o bem-te-vi se segura nos hífens para não cair.

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Venturosamente acabou a era dos poetas declamadores, que faziam trovejar palavras sobre o público antes de respingá-lo com perdigotos.
Raul Drewnick

quarta-feira, julho 21

Assim se limpa a biblioteca

 


Heróis da TV

Na minha infância havia uma série de TV de grande sucesso baseada nos livros de Maurice Leblanc. Chamava-s Arsène Lupin, e o protagonista era um cavalheiro-ladrão inesquecível dos anos 1930. Hoje a Netflix desenterrou o herói, pondo-o na sua série Lupin, cujo protagonista lê os livros de Leblanc e se inspira neles para surripiar umas quantas coisas e vingar a memória do pai injustiçado... Pois bem, a figura do ladrão de casaca está em alta e acaba de sair "O Último Amor de Arsène Lupin". Embora escrito em 1936, este livro só foi publicado nos anos noventa, quando uma neta do autor encontrou uma pasta com o original em cima de um armário e, vendo do que se tratava, o entregou à editora. Nesta história, o ladrão de casaca guarda religiosamente um livro que foi de um ilustre antepassado – um general que serviu Napoleão – e que os Serviços Secretos britânicos procuram; e, simultaneamente, salva um tesouro incalculável que pertence ao seu último e único amor. É num cenário de intriga, pistas falsas, traições e paixão ardente que a história que fecha a saga de Arsène Lupin se desenrola. Todos os ingredientes dos romances anteriores do herói estão reunidos neste livro de despedida, cheio de reviravoltas inesperadas e até, quem sabe, com um final feliz. Para quem goste do género.

Missão de salvamento

 

Miguel Morales Madrigal (Cuba)

Quem semeia ventos ...

Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.

Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro. Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.

― O que queres, rapariga?

― Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?
A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.

― Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr. Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!

A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabridamente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.
Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.

― Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.

Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.
Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.

Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.

― Ivan ― disse o velho ― não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.

Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:

― Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.

Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava-se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.

Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspecionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.

― Devo ter-me enganado ― disse Ivan ― mas vou ver.

Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.

“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”
De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direção à casa.

Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.

Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:

― Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?

― Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.

― Ivan ― perguntou de novo o pai ― de quem é realmente a culpa?

Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.

― A culpa foi minha, pai ― disse. E calou-se.

Em seguida, o velho disse-lhe:

― Ivan.
― Sim, pai.

― O que deves fazer agora?

― Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.

― Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.

Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.

Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.

Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele.
Leon Tolstói

terça-feira, julho 20

Lá no Polo Norte...

Fjaerland, uma das Cidades do Livro da Noruega, fica perto de Jostedalsbreen, a maior geleira da Europa. Velhos galpões, casas e até um hotel foram convertidos em livrarias. Durante o inverno, os donos da livraria precisam transportar os livros de um lugar para outro, pela neve, em trenós.

Livros por todo lado

Gostavam de livros, todos os livros, mas em especial dos antigos, e eles transbordavam pela casa. Havia livros por todos os lados, empilhados em estantes e amontoados no chão, nas cadeiras, nos degraus da escada, mas nem Ruth nem Oliver ligavam. Ruth era romancista, e romancistas, Oliver afirmava, tinham que ter gatos e livros. E realmente, comprar livros era era o consolo que ela encontrava por ter mudado para uma ilha remota no meio de Desolation Sound, onde a biblioteca pública era uma salinha úmida em cima de um centro comunitário infestado de crianças. Além da seção vasta e cheia de dobras de literatura juvenil e alguns títulos adultos populares, a coleção da biblioteca parecia consistir primordialmente de livros sobre jardinagem, enlatamento,segurança alimentícia, energia alternativa e escolarização alternativa. Ruth sentia falta da abundância e diversidade das bibliotecas urbanas, de suas amplidões silenciosas, e quando ela e Oliver se mudaram para a ilhota, concordaram que ela poderia encomendar qualquer livro que quisesse, e Ruth o fazia…
Ruth Ozeki,, "A terra inteira e o céu infinito" 

Dá um tempo!

 


A antiga dama

 Ben Benn 
Morava numa pensão da rua São Clemente. Era volumosa, e cheirava a quando a galinha vem meio crua para a mesa. Tinha cinco dentes e a boca seca, árida.
Sua reputação passada não fora inventada: ainda falava francês com quem tivesse oportunidade, mesmo que a pessoa também falasse português e preferisse não corar com a própria pronúncia. A ausência de saliva tirava-lhe qualquer volubilidade da voz, dava-lhe uma contenção. Havia majestade e soberania naquele grande volume sustentado por pés minúsculos, na potência dos cinco dentes, nos cabelos ralos que, escapando do coque magro, esvoaçavam à menor brisa.

Mas houve a segunda-feira de manhã em que ela, em vez de sair de seu minúsculo quarto, veio da rua. Estava lisa e com o pescoço claro, sem nenhum cheiro de galinha. Disse que passara o domingo na casa do filho, onde pernoitara. Estava de vestido preto de um cetim já fosco. Em vez de ir para o quarto mudar de roupa, vestir um de seus vestidos de algodão barato, e ser apenas uma pessoa sozinha que mora numa pensão, sentou-se na sala de visitas, prolongando o domingo, e disse que a família era a base da sociedade. A propósito de qualquer coisa, referiu-se de passagem a um banho de imersão que tomara na confortável banheira da nora – o que explicava a sua falta de cheiro e o pescoço não encardido. Deixando sem jeito os pensionistas ainda de pijama e robe, ficou sentada horas junto ao jarro da sala, só tendo conversas adequadas a um suposto salão invisível.

De tarde, via-se que os sapatos abotinados já lhe apertavam demais os pés. Continuou, porém, de dama na sala de visitas, levantada a grande cabeça de profeta.

Mas, na hora em que elogiou o jantar magnífico da casa do filho, seus olhos se fecharam de náusea. Depressa foi para o banheiro, ouviram-na vomitar, recusou ajuda quando lhe bateram à porta do quartinho.

Na hora do jantar, apareceu e pediu apenas uma xícara de chá: estava de olheiras marrons, com o largo vestido de estampadinho de ramagem, e de novo sem cinta e sutiã. O que ainda restara de estranho era a pele mais clara. Alguns pensionistas evitaram olhá-la e à sua derrota. Não falou com ninguém. O rei Lear. Estava quieta, grande, despenteada, limpa. Fora feliz inutilmente.
Clarice Lispector, 'Todas as crônicas"

segunda-feira, julho 19

De manhã

 

Frederick Serger 

O vassoureiro

Em um piano distante alguém estuda uma lição bem lenta, em notas graves. De muito longe, de outra esquina, vem também o som de um realejo. Conheço o velho que o toca, ele anda sempre pelo meu bairro; já fez o periquito tirar para mim um papelucho em que me são garantidos 93 anos de vida, muita riqueza, poder e felicidade.

Ora, não preciso de tanto. Nem de tanta vida, nem de tanta coisa mais. Dinheiro apenas para não ter as aflições da pobreza; poder somente para mandar um pouco, pelo menos, em meu nariz; e da felicidade um salário mínimo: tristezas que possa aguentar, remorsos que não doam demais, renúncias que não façam de mim um velho amargo.

Joguei uma prata da janela, e o periquito do realejo me fez um ancião poderoso, feliz e rico. De rebarba me concedeu catorze filhos, tarefa e honra que me assustam um pouco. Mas os periquitos são muito exagerados, e o costume de ouvir o dia inteiro trechos de óperas não deve lhes fazer bem à cabeça. Os papagaios são mais objetivos e prudentes, e só se animam a afirmar uma coisa depois que a ouvem repetidas vezes.

Chiquita, a pequenina jabota, passeia a casa inteira, erguendo com certa graça o casco pesado sobre as quatro patinhas tortas, e espichando e encolhendo o pescoço curioso, túmido e feio. Nunca diz nada, o que é pena, pois deve ter uma visão muito particular das coisas.

Agora não se ouve mais o realejo; o piano recomeça a tocar. Esses sons soltos e indecisos, teimosos e tristes, de uma lição elementar qualquer, tem uma grave monotonia. Deus sabe por que acordei hoje com tendência a filosofia de bairro; mas agora me ocorre que a vida de muita gente parece um pouco essa lição de piano. Nunca chega a formar a linha de uma certa melodia; começa a esboçar, com os pontos soltos de alguns sons, a curva de uma frase musical; mas logo se detém, e volta, e se perde numa incoerência monótona. Para quem a vive, essa vida deve ser penosa e triste como o esforço dessa jovem pianista de bairro, que talvez preferisse ir à praia, mas tem de ficar no piano. Na verdade eu é que estou pensando em ir à praia, eu é que estou preso a um teclado de máquina. Espero que esta crônica tão cansativa e enjoada para mim possa parecer ao leitor de longe como essa lição de piano me parece no meio da manhã clara: alguma coisa monótona e sem sentido, ou às vezes meio desentoada, mas suave.

Passa o vassoureiro. É grande, grosso e tem bigodes grossos como todos os de seu ofício. Aos cinquenta anos darei um bom vassoureiro de bairro. De todos os pregões, o seu é o mais fácil: “vassoura… vassoureiro…” e convém fazer a voz um tanto cava. Ele me parece digno, levando entrecruzadas sobre os ombros, numa composição equilibrada e sábia, tantas vassouras, espanadores e cestos. Seu andar é lento, sua voz é grave, sua presença torna a rua mais solene. É um homem útil.

Não ousaria dizer o mesmo de mim; mas, enfim, já cumpri meu dever, como o velho realejo e a mocinha do piano; vagamente acho que mereço ir à praia.
 Rubem Braga

Leitor 'escondido'

 


A ilha

Ao dissipar-se a noite, o filho, depois de ter passado pelo sono sentado no maple, assistiu da janela ao espetáculo do alvorecer. O espelho preguiçoso do mar começou a fremir, libertando-se da névoa; as casas da vila alcandorada sobre o porto cambaleavam ainda, meio adormecidas no lusco-fusco, quando de repente foram sacudidas por um rio de luz quente que se despejou sobre elas: o Sol erguera-se de chofre. O filho fechou os olhos e sentiu correr-lhe por todo o corpo um lento calafrio. Teve a sensação de ser ele a criatura abandonada e moribunda que sofria no outro quarto.

Encontrou o pai soerguido nas almofadas, de cigarro entre os dedos. Ainda tinha vontade e força para fumar. A noite deixara-lhe no rosto as marcas de um cansaço já expiado até ao extremo-limite; nos olhos opacos e na boca quase irônica , a expressão de uma vontade decidida.

- Não imaginas sequer que me mandas transportar até ao vapor. Vou pelo meu pé.

Levantou-se para fazer a barba . Aguentou o primeiro cambaleio apoiando-se à cabeceira da cama.

- Estás a ver?, para ir até ao vapor dás-me o braço tu, "a bengala da minha velhice".

Assim conhecera o filho sempre o pai, e assim, superada a última insídia da degradação, o pai morria, ficando ele, conservando a sua altivez de homem superior às vicissitudes , mais forte do que o próprio destino. Era esta a realidade, o seu verdadeiro primeiro plano; tudo o resto, incluindo a mentira daqueles últimos meses, passava para plano de fundo.

No piróscafo, o pai quis ficar no convés para se despedir da sua ilha; depois desceu para o camarote.

O filho viu a ilha diminuir e desaparecer no horizonte, no imenso fulgor do mar. Foi esse o primeiro instante em que teve consciência exata e pura daquilo que perdia ao perder o pai.
Giani Stuparich, "A ilha"

domingo, julho 18

Pronto pra largada

 

Moro (Cuba)

De madrugada

I
Top, um lindo perdigueiro malhado, era o cão de um meu vizinho; e o meu vizinho um esquisito, desses homens que fazem não se sabe o que, e vivem não se sabe como, isto é, cosendo o manto das aparências ricas, com as misérias íntimas. Via-se-lhe a família a rir nas soirées, enfaixadas nas sedas, e não se via se chorava, quando a chitinha doméstica substituía os tecidos faustosos. O meu vizinho Ricardo, por seu lado, era alegre, de uma alegria frenética, nervosa; isto em sociedade. Concentrado em seu gabinete, era um abstrato meditador e um meditador triste.

II
Top não o abandonava nessas horas de melancolia; o generoso cão entrava no quarto do dono e, pé ante pé, ia enrodilhar-se junto da poltrona de Ricardo. Punha-se a fitá-lo, imóvel e interrogador. A melancolia do dono parecia influir na existência do pobre animal.

Top ia perdendo visivelmente o curvilineado elegante das formas e começavam a emergir-lhe na pele umas saliências ósseas de mau desenho.

Era uma pena ver-se aquele homem e aquele cão, cruzando às vezes um olhar morno e cheio de tristeza, isolados na meia sombra do quarto. Felizmente ninguém surpreendia tais cenas.

III
Esta noite, um rumor despertou-me. Era a minha pêndula que dava horas. Não me foi possível contar as pancadas. Saltei do leito e com um fósforo iluminei o mostrador do relógio. Eram quatro horas. Boa hora de levantar-se para quem gosta de o fazer bem cedo. Contrariei com esforço a preguiça da madrugada, que me entorpecia, e preparei-me para um passeio. Devia ser agradável. Ao menos divertido. À hora em que o Rio de Janeiro salta n'água da Guanabara, para os seus mergulhos higiênicos, sempre se tem o que ver...

IV
Saí.

V
Uma hora mais tarde, a minha curiosidade de passeante foi atraída por uma coisa extraordinária.

Eu costeava o cais da praia d... Num ponto em que o pequeno muro de cimento faz uma entrada, recolhendo o mar num remanso onde as algas apodrecem e dormem as ondas, vi uma sombra saltar do chão para o muro e do muro para o chão, de um modo aflitivo, soltando como que gemidos, espiando para o mar, tentando pular e com medo. A luz do dia que chegava e as estrelas que fugiam deixaram-me ver. A sombra era um cão: o perdigueiro malhado do meu vizinho. Uma pancada forte senti no peito.

VI
Encaminhei-me com pressa para o lugar. Antes de lá chegar, vi o cão atirar-se para o lado do mar e sumir-se.

Corri. No ponto em que estivera Top eu inclinei-me. Descansei os antebraços no cimento do cais e examinei o mar. Fazê-lo e recuar foi coisa de um segundo. Lá embaixo boiava um cadáver de costa para cima, com os braços abertos. Perto dele, o perdigueiro debatia-se tentando puxá-lo.

VII
Entretanto, brilhava a aurora vermelha como uma chaga, derramando nas ondas as cores da tragédia.

Eu vi sobre o parapeito do cais um objeto branco. Era um envelope.

Fugi.
Raul Pompeia

sábado, julho 17

Sob ataque virtual

 


Só um mundo de amor pode durar a vida inteira

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.


O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não.

Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.
Miguel Esteves Cardoso