terça-feira, fevereiro 25

Uma velha gramática e um bando de memórias

Meu pai me apresentou às delícias de explorar um sebo. Lembrei-me disso, hoje, quando organizando novas prateleiras colocadas neste fim de semana, me encontrei com um livro muito antigo que ele comprou para mim, quando comecei a estudar francês aos dez anos de idade. Num final de tarde, vindo do trabalho, papai me entregou um pacotinho, não muito grande, bem embrulhado em papel pardo, com barbante de algodão de dois fios, verde e branco que se enroscavam um no outro. Muito bem feito, com as rebarbas de papel dobradas em ângulos nas laterais e depois viradas para reforçar as aberturas, o pacote, embalado sem luxo, tinha um pequeno laço no centro, revelando o cuidado do vendedor com a compra. Era um livro. Um livro muito diferente de todos que eu conhecera até então. Antigo. A capa dura, com dorso em tecido vermelho, tinha ao centro a gravura de uma mulher sentada, tal qual deusa da antiguidade, talvez Minerva, ladeada por duas crianças: um menino e uma menina. Em típica estética do início do século XX, a capa também descreve, de uma só vez, em palavras, todo o conteúdo do livro: Curso seguido pela Escola de Paris, inscrito nas listas dos departamentos (estados na França), adotado em todos os países de língua francesa. 800 exercícios 380 ditados e redações, 240 gravuras, publicado pela Librairie Larousse, Paris [1911]. Há outra frase descritiva, mas o tempo já apagou muitos dos caracteres. Era a Grammaire de Claude Augé, volume relativo ao curso mediano. Em seu interior havia, pontuando os exercícios de leitura, gramática e demais pontos de ensino, deliciosas gravuras, quadradinhas, não passando de dois centímetros e meio cada, que ilustravam a lição e me deram muitas vezes asas para imaginação. Fui uma criança e adolescente sonhadora e, sentada à mesa da sala de jantar, fazia os meus exercícios, vagarosamente, sempre com auxílio de um de meus pais. Mas era comum eles, de repente, pararem as explicações, chamando minha atenção para o texto, para o presente, para o que fazíamos, porque aquelas gravurinhas nos cantos, nas bordas das páginas me levavam a outros mundos. Provavelmente, frustrados com meu progresso em casa, aos doze anos entrei para a Aliança Francesa, e por anos seguidos estudei lá, até mesmo depois de casada, quando morei em São Paulo. Porque comecei muito cedo no aprendizado do francês acredito que a familiaridade com a língua tenha me ajudado bastante, de maneira totalmente inesperada, em ocasiões que ficam para serem contadas de outra vez.


Na minha família, naquela época, a língua francesa era a língua estrangeira a se conhecer. Não é que não dessem valor ao inglês. Fui aluna, por poucos anos, da Cultura Inglesa, porque meus pais achavam importante eu ter um mínimo de conhecimento de inglês. Mas eu já era adolescente cheia de rebeldia, largando o inglês assim que pude. A ironia do destino foi que justamente na Cultura Inglesa, do Jardim Botânico, vim a conversar pela primeira vez com o adolescente, que eu já conhecia de vista, porque voltávamos da escola no mesmo transporte público, que mais tarde, poucos anos depois, se tornou meu marido. Nessa época eu ainda não sabia que o destino iria me trazer a obrigação do inglês. O francês continuou como a língua estrangeira mais importante. Quem poderia imaginar que casada, eu iria morar nos Estados Unidos e voltar de lá mais de três décadas depois? Esses certamente não eram os planos quando comecei a aprender francês com minha mãe, em casa. Meu avô materno havia passado algum longo tempo, na Suíça, a trabalho, voltando algumas vezes mais tarde na década de 1950. Sua primeira e longa estadia foi após a Segunda Guerra Mundial. Vovô era um intelectual, advogado, professor e mais tarde, na década de cinquenta tornou-se escritor com uma coluna sindicalizada nos jornais, que aparecia em diversas publicações por todo Brasil. Ele era fluente em francês. Seu diário, de que sou a guardiã, tem observações interessantes sobre diversas épocas de sua vida. Alguma coisa que ele preferia deixar velada, escrevia em francês. Francês era sua língua de escape, ainda que eu não saiba exatamente quando a aprendeu. Por causa de sua estadia na Suíça, tínhamos lá em casa muitos livros com belas fotos daquele país, e eu, uma coleção de bonecas dos diversos cantões suíços.

Esse não foi o único livro de sebo que papai me trouxe de presente. Muitos outros fizeram parte da minha vida de estudante e certamente da minha vida de leitora. A Grammaire de Augé, foi o início de um relacionamento feliz com livros antigos. Um de meus primos, que era afilhado de papai, uma vez me disse que papai sempre lhe dava presentes de aniversário para crianças um pouquinho mais velhas. Ele gostava, mas tinha que se esforçar para apreciá-los. O mesmo acontecia comigo. Tenho certeza de que meu francês aos dez anos não deveria ser do nível para essa gramática, segundo volume de uma série de quatro, do ensino para nativos da França. Mas nem papai, nem mamãe se preocuparam com isso. Aulas particulares de mamãe começaram quase imediatamente após o livro de Claude Augé chegar lá em casa. Foram aulas pequenas, sem grandes exigências, mas hoje, abrindo aqui e ali, vendo minhas anotações, em pedacinhos de papel marcando lugares específicos no livro, me surpreendi com o material que cobrimos.

Procurei por essa gramática na Estante Virtual, site de venda de livros de segunda mão. A gramática ainda existe à venda e há também outros livros novos e antigos esperando por compradores. Depois de uma hora vagando virtualmente pelos sebos do país, comprei alguns livros que irão alegrar minhas leituras este ano. Mesmo assim, ainda prefiro entrar nas poucas lojas de livros usados que conheço aqui na cidade, respirar o ar dos livros antigos, um misto de tabaco, mofo, papel velho e poeira que certamente não são bons para alergias, mas a gente dá um jeito. E gosto de desfrutar do silêncio. Adoro o silêncio que livros trazem a qualquer lugar. Gosto também de sair, depois de ter manuseado uma centena de volumes, com uma sacola com dois, três, cinco livros que eu não sabia, ao entrar, que precisava ler; que só de abri-los se tornam indispensáveis para mim. Hoje, eles vêm para casa em sacos plásticos, quando não em sacola do supermercado reutilizada. Perdemos o encanto de um pacote bem feito, de papel pardo, provavelmente puxado de um rolo grosso preso no tampo do balcão. Papel milimetricamente dobrado e redobrado; pacote finalizado com barbante de algodão, cujo fio desce de um rolo colocado no teto. Aqueles eram livros garbosamente vestidos e respeitados pela importância que poderiam ter em nossas vidas.
Ladyce West

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