— O povo aqui de São Paulo soa!
Sigo com passadas rápidas e cuidadosas, apressado, mas com medo de cair, estatelar-me no chão ameaçador, como se desejasse me livrar do espaço livre o mais rapidamente possível. Cabeça baixa, encolhido, varando o curto caminho entre o apartamento em que venho tentando viver — semelhante a um freezer ultimamente — e o empório da minha infância, perdido no passado insistente. Exigências do cotidiano, inconveniência do dia a dia, algumas coisas faltam e nos exigem movimento. Atiram-nos em direção ao comércio.
Enxugo o nariz úmido com um lenço de pano ancestral. Nele, gravada, com carinho e cuidado, minha inicial em azul. Presente de minha tia-avó Helena. Todo ano, por ocasião do Natal, oferecia-me caixa com três peças de tecido ricamente trabalhadas: brancas, azuis, rosas. Restou-me apenas uma, o erre bordado. Motivo de chacota familiar. Consideram o hábito falta de higiene. Guardar no bolso um objeto emporcalhado com ranho é nojento.
— Você tem que usar lenço de papel!
Algumas implicâncias são intoleráveis. Por que devo abandonar um afeto que me é útil?
Finalmente, chego ao meu destino. Vou direto às gôndolas necessárias. Conheço bem o local, sei onde expõem quase tudo. Coloco na cestinha as raras urgências solicitadas em casa: detergente — não pode ser da marca Ypê —, salsinha, desodorante, jaboticabas — é época, estão lindas. Pronto!
Um menino mal agasalhado se aproxima. Shortinho, camiseta puída, sandália de dedo. Embaraçado, visivelmente cumprindo ordens superiores ao seu desejo, mostra-me uma lata de leite em pó e um pacote de fraldas.
— Podia me ajudar, é para o meu irmãozinho.
A melancolia então se avoluma em nível quase insuportável. Cedo mortificado. Pago as coisinhas do garoto. Aflito, desejaria seguir com ele para uma loja e comprar-lhe agasalhos.
Na volta ao lar, meu sentimento continua glacial. Carrego a catástrofe no estômago.
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