quinta-feira, outubro 26

Cinco passos para adquirir o hábito de leitura

Não é todo mundo que tem o hábito de ler um pouco todos os dias, seja um livro impresso ou digital, jornal ou revista, tirar um tempo todos os dias para ler, só traz benefícios. Mas os brasileiros ainda precisam melhorar muito seus hábitos de leitura.

Segundo matéria do Estadão realizada em maio de 2016, cerca de 44% da população brasileira não lê e mesmo com o crescimento no percentual de leitores de 50% em 2011, para 56% em 2015 (pesquisa do Instituto Pró-Livro divulgada em maio de 2016), ainda é baixo o número de leitores no Brasil, comparado a outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, a Associated Press revelou em 2006, que o número de não leitores era de apenas 27%. Já na França, uma pesquisa de 2005 realizada pelo Instituto Francês de Opinião Pública (IFOP), revelou que somente 19% da população não tinha o hábito de ler.

Mesmo com dados de 10 anos atrás, podemos perceber que países como Estados Unidos e França, leem muito mais que nós brasileiros. Então o que fazer para mudar essa realidade?

1 – Descubra sobre o que você gosta: Descobrir sobre o que você gosta de ler sem ter esse hábito, pode soar meio estranho, mas não se você analisar o que você gosta na vida, em geral. Por exemplo, se você é daqueles que gosta de assistir um bom filme, escolha um livro que tenha sido adaptado para o cinema, existem diversos livros como ‘O Hobbit’, ‘O Regresso’, ‘O iluminado’ entre outros.

2 – Reserve um tempo para a leitura: É certo que é cada vez mais difícil arrumar tempo para novas tarefas, pois já temos os estudos, trabalho, família e ainda o merecido descanso. Então como fazer isso? Procure ler ao menos 15 minutos todos os dias, nos fins de semana, um pouco antes de dormir mas leia, tente conciliar as suas atividades diárias com aqueles minutinhos para o seu livro.

3 – Tenha sempre um livro com você: Mas se você é daqueles que não tem tempo para nada, que o dia precisaria ter mais de 24 horas pra conseguir fazer tudo, calma, você também pode ter um tempo para ler. Sabe àquela hora em que você está no transporte público indo para casa ou para o trabalho, ou chegou mais cedo em um compromisso, pois é, aí está o seu tempo! O bom de carregar um livro com você é que enquanto você espera por alguma coisa, você pode ler. Garanto que a sua espera ou a sua viagem, vai ser bem mais rápida se você estiver na companhia de um livro.

4 – Visite feiras de livros ou bibliotecas: Visitar locais como feiras e bibliotecas, além de te apresentar a diversas obras e gêneros literários, te conecta a pessoas que também gostam de livros ou que estão buscando essa paixão ou hábito.

5 – Não desista e tenha paciência: No início vai parecer chato, difícil mas logo você verá como é maravilhoso ler. Seja paciente com a sua leitura independente do tamanho do livro ou daquela matéria no jornal ou revista que te chamou a atenção, leia com calma. Todo começo é difícil eu sei, mas não desista!

Viu só como é possível começar a ler. Além de dar asas a imaginação, saber sobre o passado, imaginar outros universos e ficar antenado com o que está acontecendo no mundo, a leitura só traz benefícios! Então leia, você verá como é bom!

E você, já leu um pouquinho hoje? Escolha um livro, jornal ou revista e divirta-se!

Bruna Lopes Valente

quarta-feira, outubro 25

Biblioteca à noite

Qué pasa en la biblioteca por la noche? (ilustración de Anna-Maria Jung)
Anna-Maria Jung

A palmeira de Nguézi

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No lugar de Nguézi há uma palmeira sagrada, dizem que nascida antes do mundo. Do colmo pende um único fruto, de aparência estranha e que nunca pode ser olhado. Porque, segundo a lenda, os olhos que ali apontem se enchem de estrelas mais que as que poeiram a própria noite.

A razão dessa palmeira, vertida sobre as águas do rio, se transcreve aqui. Nem tudo se explica, para que se compreenda melhor. Para ver a gente necessita transparência, mas se tudo fosse transparente todos seríamos cegos. Ficará a saber-se: em tempos de apocalipse o histórico se converte em religioso. E vice-versa. A crença da palmeira sagrada nasceu de um facto tropeçando num acontecimento.

Estava o mundo numa tarde, dessas de lamber o tempo. Na varanda se dispunha Tonico Canhoto. Quem o visse parecia ele estava na simples disposição de estar, sereno e demorado em existir. Para o Canhoto era sempre o mesmo: o tempo, nestes dias, está muito depressa. Convém a gente se resguardar.

Mas, por dentro, o nosso varandeante se abatia a abismos. Talvez era a monotonia do campo, esse morre-morre de esperar e ficar à espera. Talvez era esse o motivo de seu esmorecimento.
- “Pai, há-de haver acontecimento, o senhor vai ver.

- “Vocês não entendem, filhos. Eu não careço de acontecimentos, não. Eu pretendo é uma revelação”.
Uma revelação? A outra filha se aproximou e tentou um consolo. E lhe perguntou: já ele olhara quanta árvore, quanta extensão pelos aís foras?

- “Se não vejo? Vejo o mato todo, em volta. Está tudo morto, tudo seco.

- “Engano seu: o mato não está seco. Apenas vazou o verde, apenas engordou o amarelo.

- “Conversa afiada”.

Os filhos desistiram. A Canhoto lhe custava simplesmente existir. Morrer é fácil, difícil é existir-se morto, simplesmente havido, quieto e inestudável. E mais, aliás, menos nada. Tonico ficara assim desde que sua mulher Razia desaparecera, ida sabe-se com quem, desconhece-se para onde. Fora há uns anos, mas a ferida era ainda maior que a cicatriz. Quando sucedeu, nesse tempo em que tudo era tudo, Canhoto anunciou aos numerosos filhos:

- “Vossa mãe, meus filhos. Vossa mãe, ela faleceu”.

Todos sabiam que era mentira. Ela tinha desistido de constar, tentada em mulherar-se em outros lugares. Deixado o marido em órfã viuvez, desconsolado.

Tinha-se passado tempo, os miúdos cresceram, se graúdaram e se graduaram em pais e mães. O que sobrava agora eram netos. Naquela tarde, fazia anos que a avó saíra. Falecera, como dizia o avô Canhoto. A família se juntava, como era costume.

A netaria espalhava algazarras e a alegria barulhava pela varanda. Mas, o velho Tonico Canhoto se debruçava triste sobre a paliçada. Em seu magro corpo já não cabia mais angústia. Os filhos tentaram distrair a tentação dessa tristeza. Em vão. O homem já havia se decidido que a sua vida era sem depois. Nada enfeitava a sua esperança. Todos calaram quando ele anunciou:

- “Vou daqui ao rio”.

Todos lhe adivinharam o intento: ele se iria deixar tombar, encher-se de líquido até se ensopar como se o dele corpo fosse roupa, ido na corrente, nem corpo nem alma.

Ainda o tentaram desvanecer. Mas o velho tinha dado de testa naquela decisão.

E assim se ergueu, perante a numerosa família, todos assistindo o ancião se afastar' converso em bruma. Chegado à margem, levantou os braços e assim, imóvel como pau de vela, as roupas lhe começaram a cair, desabadas por forças nenhumas, só por via de seu magro peso. A sua gente o viu nu, completamente. Constaram, no momento, que seu corpo se mantinha de músculo e lustro, a idade se concentrara apenas em sua cabeça. Ficou um tempo nessa espécie de despedida, Cristo sem crucifixo. Ou simples esquecido talvez do passo próximo?

Nesse entretempo, o lugar se apoclipsou. A terra, em desfecho de estrondos, se estremeceu. Em basaltos e baixos, esguichos de água fervente e fogos de martifício, estrelas rebentavam como borbulhas na superfície do rio. A casa, junto com seu tecto, insubstanciou-se e ruiu, chão no chão. Os familiares todos se sepultaram, sem espirro nem respiro, apagados, apaguados.

Sobrou quem? O velho Canhoto, próprio. Ele vira a terra se rachar por baixo dos pés, as duas metadas se abrirem como lábios. Nessa greta ele se afundou, pronto a ser engolido, trevoso e súbito. Mas no momento em que seu corpo perdia o pé, a terra se volveu a fechar, ajustada ao corpo. Ficou-lhe só a cabeça de fora. Tudo o resto estava encravado em pedra, rocha, raiz, sobra do mundo. Mexer um dedo, dedículo que fosse, lhe era impossível. O velho rodou a cabeça para avistar em volta. Nada, nem rio nem árvore, nem gente. Só chão, poeira, remoinhos de folhas mortas.

- “Deus me proíbe?”

Chorou. Sem tristeza, só para arrefecer o rosto, deixar a carícia da água lhe premiar a boca. O sol nasceu, esmoreceu, se ocasionou. E dia. E noite. E fome. E sede. Já nem lágrima lhe sobrava. O velho Canhoto que sempre fora acusado de não ter essa parte de si vivia agora exclusivamente de sua cabeça. O resto, já nem lhe restava. Todo ele aprendera a ciência de ser raiz, o orgânico sem organismo. De noite, um cacimbito. De dia, as grainhas de uma ventania. Assim ele se mantinha, feito único receptáculo onda a vida ainda se entesourava.

Foi quando, no fundo do sem-fim, uma andorinha riscou o céu. Feita de conta um desenho torto, um rabisco tonto de um menino, no brevíssimo instante do arrependimento e da borracha. A avezinha, transmeteórica, como uma foice negra ceifou os ares. Voava mais rápido que vivia? Estranhamente, a andorinha pousou na cabeça do velho. Fincou as patas, unhando-lhe a testa, sujando-lhe o cabelo.

O passarito piou, rodopiou e, por fim, meteu o bico nos lábios secos do velho. Lhe dava, se imagine, uma naco de água, qualquerzita migalha. O bico beijou o lábio, o lábio bicou o pássaro: dúzias de vezes, repetidas. O velho perguntou, lábios rasos de silêncio:

- “É você, Razia?”

A ave toda a noite debicou o pescoço de Canhoto. Dizem que, desse mesmo pescoço, ascendeu a matéria do colmo, dos cabelos brotou a folhagem, dos olhos nasceu a florescência. Tudo em jeito de árvore, palmeira e sagrada.

segunda-feira, outubro 23

Depois da sesta

Brigit Stern

Assim começa o livro...

Guanabara, pelo que eu sei, é um tipo de embarcação de um mastro só e vela grande, a tal da bujarrona. Mas dizem que os índios antigos chamavam assim isto tudo aqui, toda esta lagoa enorme de água salgada. Guaná-pará, eles diziam.

Guaná é “seio”, “colo”; e pará é “mar”. Então, eles achavam que esse mundão de água era o “seio do mar”, veja você! Ou o seio, a mama, de onde brotava a água do mar.

Mas guaná era uma raça de índio. Devia ser daquelas raças de mulheres de peitos grandes, fartos, capitosos…

Resultado de imagem para Nas águas desta baía há muito tempo: contos da Guanabara/
Pois é, freguês… A Bíblia diz que, assim que acabou de criar o mundo e descansar um sábado inteiro, Deus — que naquele tempo era conhecido como Criador — reuniu seus nove filhos.

Depois de explicar direitinho pra eles como tudo funcionava, mandou cada um numa direção, pra inspecionar e ver se tudo tinha dado certo.

Vindo aqui pra estes lados, freguês, a expedição, depois de atravessar todos aqueles mares, oceanos, rios e montanhas, chegou lá na América do Norte.

Naquele tempo essa travessia era mais fácil, não era como hoje: o Criador tinha feito os continentes bem juntinhos um do outro, exatamente pra isto: pra poder, de vez em quando, mandar alguém ir a cada um deles pra ver se faltava alguma coisa, água, alimento; se alguém precisava de uma ajuda.

Então, da América do Norte, a expedição veio descendo e chegou até aqui. Aliás: aqui, não! Chegou lá! Está vendo? Subiu lá naquela serra mais alta; lá no alto daquela pedra esquisita. E, de lá, eles se embasbacaram com a vista divina, maravilhosa disto tudo aqui.

São mais de cem ilhas, meu senhor, quer ver só? Olha lá!

A da Laje… a de Vilaganhão… a Fiscal… a das Cobras… das Enxadas… de Santa Bárbara… Pombeba… dos Ferreiros… Bem lá em baixo; dá pra enxergar?

Agora, aquelas outras, aqui à esquerda: Bom Jardim… Sapucaia… Bom Jesus… Pinheiro… Pindaí de baixo… Pindaí de cima, também chamada de Ilha do França… Catalão… das Cabras… Baiacu…Fundão… Cambembe Grande e Cambembe Pequeno… Santa Rosa… do Raimundo… Anel… Saravatá…

Lá no fundo, agora: Ilha Seca… Ilha d’Água… Mãe Maria… Palma… Rijo… Boqueirão… Aroeiras…

Vamos agora mais pro meio: Manguinho… Redonda… Braço Forte… as Tapuamas, de fora e de dentro… Jurubaíbas, duas também…

Olha lá: Paquetá… E em volta, a da Pedra Rachada, a do Trinta Réis, as lajes do Machado, do Silva, a do Cabaceiro… É muita ilha, meu senhor!

Tem ainda a do Gonçalo, a de São Roque, a do Brocoió, a das Folhas. A dos Lobos, a do Mestre Rodrigues, a de Pancaraíba… Tem aquelas já quase na barra… E tem também aquelas lá do outro lado, já na Praia Grande… É ilha que não acaba mais, meu amigo! Baía é isto aqui; o resto é onversa.

De forma que o pessoal da expedição ficou de queixo caído. Aí, um deles lá, que era na verdade um espírito de porco, não se conteve e falou:

— Caramba! O Criador começou o mundo foi por aqui.

Só pode ter sido… Depois é que foi fazendo o resto, em volta. Aqui é que é o centro de tudo. Mas a viagem tinha sido longa, muito longa. E no caminho a expedição foi aumentando, claro! Tanto que o chefe, já com muitos mil anos nas costas, tinha netos, bisnetos, tataranetos. E aí começou tudo de novo, a partir do centro destas águas maravilhosas: o neto chamado Irajá seguiu pro leste com seu grupo; o irmão dele, Iguaçu, foi pro norte; uma neta, chamada Magé, foi pra noroeste; a irmã dela, Icaraí, foi pra oeste; todos seguindo os pontos cardeais.

Bem… Eu estou vendendo o peixe conforme aprendi neste mar, nestas areias, nestes portos; o que, aliás, não serviu pra muita coisa. Senão eu — Genésio da Anunciação, seu criado — não estava aqui até hoje, escamando, cortando e limpando corvina, tainha, xerelete, pra vender pro senhor… Eu estava era falando françuá, como falam, aqui, os ricos, as madamas, os doutores, os estudados, não é mesmo?

Como os livros, onde puder

Che Guevara, um leitor compulsivo em plena selva

Ernesto Che Guevara lê enquanto se recupera dos ferimentos na Sierra Maestra, em 1957; lê em seu gabinete no ministério da Indústria cubano e em sua casa de Havana, no início dos anos 1960; com sua segunda mulher, Aleida March, em 1966 na Tanzânia depois do fracasso da ofensiva guerrilheira no Congo; na copa de uma árvore na Bolívia, meses antes de ser capturado e assassinado, em outubro de 1967. As fotografias que integram a mostra Che Leitor na Biblioteca Nacional argentina refletem uma faceta do revolucionário argentino que, apesar de ofuscada pelo homem de ação, esteve presente ao longo de toda sua experiência de vida, desde a infância até os últimos dias.

Nascido em uma família de boa situação financeira, Che aprendeu a ler em casa, graças a sua mãe, já que a asma o impedia de ir à escola. Desde criança foi um leitor voraz, conforme lembra seu irmão Roberto, que conta que passava horas trancado no banheiro para não ser interrompido. Seus primeiros escritores favoritos foram Júlio Verne e Emilio Salgari, autores de romances de aventuras que “já mostravam certo espírito de sair explorando”, diz Emiliano Ruiz Díaz, um dos pesquisadores que organizaram a exposição, inaugurada na terça-feira.

Ernesto ‘Che’ Guevara lendo no Congo em 1965.
A esses romances iniciais logo se somou tudo o que encontrava a seu redor, como os 23 volumes da enciclopédia de História universal que estavam na biblioteca da família, biografias de pensadores e escritores e livros de filosofia e psicanálise citados no Caderno filosófico que começou a escrever na adolescência. A partir de suas viagens pela América Latina incluiu livros sobre os países que conhecia e começou a aproximar-se do marxismo e da teoria econômica. Três das vitrines da mostra são dedicadas a livros fundamentais para Che, entre os quais figuram O Capital, de Karl Marx; o Manual de Economia Política, da Academia de Ciências da URSS; e o Tratado de Economia Marxista, de Ernest Mandel.

“Em Havana, toda quintas-feira, lá pelas 2, 3 da madrugada, ele se reunia com um professor espanhol formado na URSS para ler e discutir esses livros”, conta Santiago Allende, outro dos pesquisadores por trás da exposição. “Às vezes Fidel (Castro) também participava e aconteciam discussões muito fortes. Mais tarde, Che teve suas divergências com o modelo soviético, divergências que o levavam a continuar lendo, a se aprofundar em sua busca”, acrescenta.
Charutos e livros

“Minhas duas fraquezas fundamentais: o tabaco e a leitura”, confessou Che em seu diário do Congo. A figura habitual do leitor sedentário e solitário contrasta com a do guerrilheiro em constante marcha e rodeado de companheiros. Mas nem nos momentos mais difíceis conseguiu abandonar o vício. “A leitura persiste como um resto do passado, em meio à experiência de ação pura, de despojamento e violência, na guerrilha, no campo. Guevara lê no interior da experiência, faz uma pausa”, deixou escrito Ricardo Piglia em sua descrição de Che como O Último Leitor.

Era um leitor compulsivo e metódico. Desde os 17 anos costumava anotar em cadernos os títulos das obras que consultava. Em seu plano de leituras da Bolívia, entre novembro de 1966 e setembro de 1967, anotou 60 títulos, entre eles O Jovem Hegel e os Problemas da Sociedade Capitalista, de Georg Lukács e História da Revolução Russa I, de Leon Trotski.

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domingo, outubro 22

Quando se acorda...

Companheiros, mesmo fechados

O livro foi minha grande obsessão, e isso desde a infância, como se pudesse adivinhar que só ele poderia minorar minha ignorância, ou quebrar minha solidão.
 seria tão bom se semeassemos livros e deles brotassem frondosas árvores que nos proporcionassem mais livros…
A muita gente parecia excentricidade ou mesmo maluquice, o fato de trazer comigo meus livros, fosse eu para onde fosse. Até mesmo quando ia passar um fim de semana numa fazenda, e sabendo que não poderia ler nem parte de um livro, levava dois ou três... Queria-os comigo, mesmo que fechados.
Eduardo Canabra Barreiros, "Semicírculo"

Biblioteca animal

cheshirelibrary:
“Hope you find a comfy reading spot today.
”

Assim começa o livro...

Aos 15 anos eu tive hepatite. A doença começou no outono e terminou na primavera. Quanto mais frio e escuro o velho ano se tornava, mais fraco eu ficava. Só com o novo ano houve uma melhora. Janeiro foi quente, e minha mãe instalou minha cama na varanda. Eu via o céu, o sol, as nuvens e ouvia as crianças brincando no pátio. Numa tarde de fevereiro ouvi um melro cantando.

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Em meu primeiro passeio andei da Blumenstrasse, na qual morávamos no segundo andar de um prédio imponente construído na virada do século, até a Bahnhofstrasse. Foi ali que eu tinha vomitado, numa segunda-feira de outubro, no caminho da escola para casa. Já havia alguns dias que eu estava fraco, mais fraco do que nunca em minha vida. Cada passo me exigia um grande esforço. Quando subia escadas em casa ou na escola, minhas pernas quase não me aguentavam. Também não queria comer. Mesmo quando me sentava à mesa com fome, logo sentia náuseas. De manhã acordava com a boca seca e com a sensação de que os meus órgãos estavam pesados e fora de lugar. 


Envergonhava-me estar tão fraco. Envergonhei-me especialmente quando vomitei. Isso também nunca havia acontecido comigo. Minha boca se encheu, eu tentei segurar, apertando os lábios, a mão diante da boca, mas tudo saiu por entre os dedos. Então me apoiei no muro de uma casa, olhando o que tinha vomitado a meus pés, e cuspi um líquido claro e pegajoso. 

A mulher que cuidou de mim o fez de um jeito quase bruto. Ela pegou meu braço e me levou pela porta escura da casa até o pátio. Havia varais esticados de janela a janela e roupas penduradas. No pátio armazenava-se madeira; numa oficina aberta, a serra rangia e as farpas voavam. Ao lado da porta para o pátio havia uma torneira. A mulher abriu a torneira, lavou primeiro a minha mão e então jogou no meu rosto a água que tinha mantido nas mãos em concha. Enxuguei o rosto com o lenço.

– Pegue o outro! – Ao lado da torneira estavam dois baldes, ela apanhou um deles e o encheu. Eu apanhei e enchi o outro e a segui pela porta. Ela levantou o braço, a água jorrou na calçada levando o vômito para o ralo. Tirou o balde da minha mão e lançou mais água sobre a calçada.

Ela se endireitou e viu que eu estava chorando.

– Menino – disse admirada –, menino.

Ela me envolveu nos braços. Eu era pouco mais alto do que ela, senti seus seios no meu peito, cheirei na estreiteza do abraço meu hálito ruim e seu suor fresco e não sabia o que devia fazer com os braços. Parei de chorar.

Perguntou-me onde eu morava, pôs os baldes na entrada e me levou para casa. Andou ao meu lado, uma das mãos segurando a minha pasta e a outra sobre o meu braço. A distância da Bahnhofstrasse até a Blumenstrasse não é grande. Ela andava depressa e com uma decisão que me ajudava a manter o passo. À frente de nossa casa despediu-se.

No mesmo dia minha mãe trouxe o médico, que diagnosticou a hepatite. Em algum momento contei à minha mãe sobre a mulher. Não acredito que a teria visitado se não fosse isso. Mas para minha mãe era evidente que eu, logo que pudesse, iria comprar com meu dinheiro um buquê de flores,
apresentar-me e agradecer. Desse modo, fui no fim de fevereiro à Bahnhofstrasse.

sexta-feira, outubro 20

Perfeito para começar o dia

No se puede pedir más: un baño caliente, un café, buena compañía y lectura. Plan perfecto (ilustración de Evdokia Gasumyan)
 Evdokia Gasumyan

Como criar o hábito de ler livros nas crianças

O interesse pela leitura pode ser sugerido à criança de uma forma simples, espontânea e duradoura. Todos sabemos que é extremamente importante que as crianças adquiram o hábito da leitura, mas a grande dificuldade reside na falta de conhecimento de muitos pais em como inserir seu filho neste caminho.

O ato de ler ou simplesmente de folhear um livro tornará crianças mais inteligentes, imaginativas e criativas. E se isso é o que você quer para o seu filho, não perca mais tempo. Comece hoje mesmo a construir esse hábito diário tão enriquecedor para ele e para todos. Comece já a fazer de sua casa uma grande biblioteca.

Me aislo del mundo con la lectura para conectar con otros mundos (ilustración de Maria Espluga Solé)
Maria Espluga Solé

1 – Para começar, é necessário que seu filho te veja, sempre que possível, com um livro na mão. As crianças sentirão mais interesse por ler um livro se vêem que este hábito está presente a sua volta. Lembre-se que as crianças gostam de copiar. Que é sua forma de aprender. Se eles notam que você gosta de ler e que tratam os livros com cuidado e respeito, elas provavelmente, farão o mesmo.

2 – É necessário estar convencido de que a leitura deve ser empregada como uma forma mais de diversão e não como uma obrigação. Os livros não devem introduzidos no cotidiano da criança só quando ela está aprendendo a ler ou somente quando entre na escola. O contato com os livros deve começar bem antes. Eu diria que antes mesmo de começar a gatinhar.

3 – Quanto o bebê consegue se sentar firme no chão ou no berço, ofereça-lhe livros para que os maneje. Existem no mercado, pequenos e curiosos livros feitos com pano e inclusive com material plástico indicados para brincarem durante o banho. Existem também pequenos dicionários para que seu bebê se vá familiarizando com as palavras, as letras, relacionando-as pouco a pouco com a imagem. O segredo nesta idade, é fazer com que o bebê veja o livro como mais um brinquedo, com o qual poderá aprender, crescer, descobrir, criar fantasias, e ouvir muitas histórias interessantes e encantadoras. No princípio, trate de dar preferência aos livros ilustrados, com poucas palavras, e faça com que seu filho o toque, o acaricie, cheire, e tenha todo tipo de contato com ele. Existem livros que contem sons incluídos e também pedaços de lã, e de outros materiais para que os bebês desfrutem também com o tato. Existem livros com cheiros também!

4 – Quando ficam um pouquinho maiores, o ideal é ler em voz alta, seguindo sempre as estórias do livro. Dê importância especial ao tempo que dedica para tomar seus filhos nos braços e compartilhar com eles o prazer de ler um conto, longe das distrações da televisão. Comece com os contos tradicionais, clássicos, mas fundamentalmente escolha livros que agradem a todo mundo. Se um livro é cansativo, esqueça-o e busque outro que seja interessante.

5 – Quando seu filho já está numa idade em que consiga estar mais quieto nos lugares fechados, leve-o para visitar uma biblioteca. A criança, quando se familiariza com os livros, aprende a manuseá-los, está construindo uma amizade, um laço com a leitura. Se sentirá mais próxima ao lugar e desejará voltar muitas vezes para escolher o livro que quiser.

6 – Outra forma de estimular o interesse da criança pelos livros, é converter um livro em um prêmio. Cada vez que tiver que premiar seu filho por algo importante, presenteie um livro sobre o seu assunto favorito.

7 – Quando seu filho já está desfrutando dos livros, participe da leitura. Quando terminar de ler o conto, peça-lhe que lhe conte algo que aconteceu com algum personagem, ou inclusive faça com que seu filho adivinhe o que passará no final. Aproveite para fazer comentários sobre as situações boas e más, e fazer comparações de um pedaço da estória com suas experiências, como “o que você faria no lugar dele?” “Será que isso vai acontecer com a gente algum dia?”.

8 – Assim que sentir que seu filho já se interessa pelas estórias, que se envolve com a trama, e se identifica com os personagens, comece a participar e a imaginar finais diferentes, e a viver várias sensações rindo, emocionando-se, e não deixe de surpreendê-los com novos contos. Dê continuidade a esse costume abastecendo sempre sua casa com livros e revistas.
(Fonte:Guia Infantil)

Onde está aquela frase?

Das aventuras e fascinações

Uma das fascinações que herdei como leitor é daquelas que somente um livro de aventuras poderia trazer. Lembro com clareza dos primeiros contatos com Os meninos da Ilha Perdida, da Coleção Vagalume, lá nos idos de 1980, e alguns anos depois com O Príncipe Invencível, de Virgínia Lefèbvre, o qual não me recordo da editora mas não consigo esquecer da impressionante capa com Alexandre, o Grande sobre um cavalo lutando com um soldado árabe montado num elefante – a ilustração que tomava conta da capa dura era um indisfarçável convite à aventura do texto.

Stop al aburrimiento! Se os ocurre mejor lema para este cartel lector? (ilustración de Jacques Goldstyn)
Jacques Goldstyn
Acreditava, com os anos, que esse gosto se esgotaria com a vida adulta, afinal de aventura bastaria o nosso dia a dia com filhos e compromissos financeiros, ou seja, a cada mês comemorávamos uma vitória na selva do sistema e isso seria mais do que o suficiente. Porém estava absolutamente errado. O gosto por livros de aventura nunca se esgotou, e agora não mais na mente de um menino, mas na de um homem que precisava da criatividade para sobreviver e fazer melhor para sua vida e a da família.

Tenho amigos que dizem que a literatura de ficção não tem função alguma, e isso tem lá sua verdade, mas, a mim, e acredito que para muitos que como eu leram a Coleção Vagalume nos seus tempos de guri, aquela ficção produziu e ainda produz seus bons resultados.

E assim vi que eu poderia ir além, e das páginas de ficção migrei para as de não ficção, que depois aprendi serem fontes de inspiração para muitas outras ficções. Nessa nova rodada de leituras surgiu Joshua Slocum, Ernest Shackleton, John Krakauer, Airton Ortiz, Amyr Klink, Família Schurmann e por aí vai. E, neles, na Família Schurmann, por exemplo, é que aprendi que o clássico Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, veio de Alexander Selkirk, que ficou por quatro anos solitário numa ilha chilena em pleno Pacífico, e que depois veio a receber justamente o nome de Ilha Robinson Crusoé. Não poderia ser mais maravilhosa a descoberta, a ficção e a não ficção se encostando e se confundindo, assim, tão pertinhas.

Sim, o leitor infantojuvenil se transformou no leitor adulto e nele se recriou o desejo de aventuras sem sair das páginas. Ah, claro, fiz das minhas na juventude, e muitas vezes inspirado pelas confusões dos livros.

O que mais motiva, no entanto, é saber que as leituras de aventura também motivaram outros leitores para outros mundos, como o de literatura fantástica e o de ficção científica. Também os quadrinhos dos super-heróis formaram, além de novos e bons leitores adultos, profissionais de criação gráfica e roteiristas de grande qualidade.

E aqui puxo o fecho do valor dessas nossas fascinações, dessas nossas paixões que nos arrebatam ainda na idade tenra, e de como isso é delicado, incrivelmente delicado. Não restrinjamos, gente, em nenhuma hipótese os sonhos das crianças. Se ela sonha em ser astronauta, deixemos com que vá à lua quantas vezes quiser, se ela quer ser médica, deixamos com que faça quantas cirurgias e exames achar necessário, e se ela insiste em ser escritora ou ilustradora de livros, ora, apesar de tudo, ainda há muito para ser feito e todo novo escritor e bom ilustrador será sempre bem-vindo.

quinta-feira, outubro 19

Amanhecer com livro

Coffee Art Coffee Cards and Art for by RoseHillDesignStudio

Dois velhinhos

Ekwall, Knut (1843-1912) Story time
Knut Ekwall,(1843-1912)
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.
 Dalton Trevisan

quarta-feira, outubro 18

Primeiros passos

Steve McCurry
Steve McCurry

Uma voz e um canal

@gizemkazancigil| Be Inspirational ❥|Mz. Manerz: Being well dressed is a beautiful form of confidence, happiness & politeness
Editores podem voltar a ser importantes e reassumir seu mais-que-nunca-nunca necessário papel curatorial (o de pinçar e aprimorar, na barafunda catártica da web, o que tiver potencial) quando conseguirmos compor o aparentemente inconciliável e soubermos publicar, com a virulência dos escândalos, o que tiver de fato informação e reflexão originais; quando superarmos fake news com new takes: novas formas de engajar e agarrar os leitores; quando dermos ao público, de forma fácil e inteligente, o que eles conseguem de forma fácil e burra na internet: uma voz e um canal
Julio Silveira, Da utopia caímos na distopia

Começou o dia!

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