sábado, fevereiro 24

O que temos para ler hoje?

Assim começa o livro...

Minha vida


Para Donizete Galvão

Agora tem um ano que mudamos para a nossa casa no Paraíso. Ela não está pronta ainda. Falta emboçar as paredes de fora e pintar as de dentro, mas, orgulhoso, meu pai fala que pelo menos não precisamos mais ter medo de ficar sem dinheiro no fim do mês para pagar o aluguel.

Uma correria danada durante a construção. Todos ajudaram. No dia de bater a laje, os colegas do meu irmão da Manufatora organizaram um mutirão. Parecia um caminho de formiga: lá embaixo, os que misturavam areia, cimento, pedra‑brita e água; lá em cima, os que espalhavam a massa sobre o madeirame; e, entre uns e outros, os baldes, transbordando, passavam de mão em mão até alcançar a escada. Eu mesmo, nesse dia, fiquei numa lufa‑lufa sem fim: montado na bicicleta Philips, freio contrapedal, pneu‑balão, que meu pai tinha comprado de segunda mão para mim, emendei várias viagens entre a Vila Teresa e o Paraíso, carregando sacos de pão com molho de tomate e garra
fões de quissuco que minha mãe e minha irmã faziam.

Aquilo lembrava mesmo um caminho de formigas, que, depois que o sol morre, eu e meu pai combatemos nos altos dos pastos. São cabeçudas, que arrancam sangue da gente, as enfezadas. Nosso bairro ainda não tem luz. A água tiramos de uma cisterna de vinte metros de fundura, com uma bomba Marumby. Todos nós revezamos para garantir o banho e para minha mãe cozinhar e lavar roupa para fora. Hoje são dez trouxas, mas já foram umas quinze por semana.

Eu sinto falta da Vila Teresa. Quando no ano passado o caminhão encostou para levar a mudança, corri para o quintalzinho, onde vivia em camaradagem com lesmas, grilos, paquinhas, minhocas e até um sapo‑boi, na estação das águas, e abri o berreiro. Ali passei os melhores anos da minha vida, brincando de bola no campinho, de pique, indo à escola… Eu tinha um gato, branquinho branquinho, de rabo assustado, chamado Ronrom. Ele veio preso dentro de um saco de estopa, porque falaram que não podia ver o caminho, senão voltava para a casa antiga. Durante o trajeto, preocupado se ele estava sentindo falta de ar deixei que pusesse a cabeça para fora. Bastou a gente chegar no Paraíso e ele sumiu. Passei vários dias andando de um lado para o outro, especulando sobre ele, mas nunca mais ouvimos o miado do Ronrom. Ainda hoje penso que, se não tivesse deixado ele olhar a paisagem…

Mas minha mãe disse que os gatos são assim mesmo, mal-agradecidos, e prometeu me dar um cachorro de presente de aniversário. Ele vai chamar Joli, um nome bonito que ouvi na praça Santa Rita, onde meu pai vende pipoca. Ele tem um carrinho verde e, de vez em quando, me deixa tomando conta para eu poder aprender a não ter medo de trabalho. Apareceu lá certa vez um adestrador com um pastor‑alemão e o bitelo só faltava falar, porque entender, ele entendia tudo. O homem mandava ele deitar, rolar, sentar, ficar paradinho feito estátua, buscar um pedaço de pau lá‑longe, e todos batiam palmas, encantados. Só quando pediu para tirar o chapéu do meu pai é que não gostei, porque ele levou um susto e quase caiu de costas e o povo morreu de rir (eu também, mas disfarcei). Esse pastor‑alemão é que chamava Joli.

Está sendo difícil adaptar aqui, porque antes a gente vivia num cortiço, mas com água encanada e luz elétrica, e a rua, calçada de paralelepípedo, era perto do Centro. Atravessávamos a ponte nova e já estávamos na praça Rui Barbosa, onde meu irmão e minha irmã rodavam no sábado à noite. Lá estão os dois cinemas da cidade, a padaria mais bonita, a maior lanchonete, os bancos e, para tristeza do meu pai, coitado, o melhor ponto para vender pipoca, ocupado pelo xará dele, seu Sebastião Lopes. A praça Santa Rita não oferece nada, só a missa da igreja Matriz e a fonte‑luminosa. Mas o lugar, escuro, por causa das árvores que escondem a iluminação dos postes, só acolhe quem não presta, como diz a minha mãe. Imagina então a freguesia do meu pai… Mas na Vila Teresa também havia inconvenientes. O correio de casas, muito perto do rio Pomba, ficava coberto pelas águas quando vinha a enchente.

A minha irmã detesta o Paraíso, porque é longe e feio. Na hora de trabalhar, ela tem que ir a pé até o Beira‑Rio para pegar um ônibus. Ela acorda antes do sol e desce a morraria xingando e lamentando o dia em que nasceu. Ela reclama da poeirama, na estiagem, e do barro, na época das chuvas. E vive ameaçando que um dia casa com alguém só para ir embora. Aí minha mãe fica brava, porque ela fala que quis sair da Vila Teresa para dar uma vida mais digna para os filhos, mas principalmente para minha irmã, onde já se viu criar uma menina no meio de marginais e mulheres‑da‑vida? Meu irmão entra na discussão e acusa minha irmã de ser metida, que ela tem um rei na barriga e que, em vez de louvar a família, cospe no prato que come. E meu pai, que não gosta de confusão, começa a assobiar, a cantar, sai de fininho, e só volta quando colocaram uma pedra sobre o assunto.

Agora, que estou terminando o primário, meu pai avisou que vai me inscrever no Senai, para eu poder aprender uma profissão.Ele quer que eu seja torneiro‑mecânico que nem meu irmão, e sonha em um dia a gente ir para São Paulo trabalhar nas fábricas de carro, que é onde está o futuro, ele diz. A minha mãe chora só de pensar nisso, porque por ela nós nunca vamos nos separar. Mas meu irmão já recebeu até proposta de emprego em Diadema, que, dizem, é longe. E minha irmã está namorando firme e deve casar mesmo, não demora muito. Eu fico triste, porque só vai restar eu e devo seguir também para fora. Mas eu não queria ser torneiro‑mecânico, queria mesmo era ser bancário do Banco do Brasil, que nem o marido da minha professora, dona Aurora.

sexta-feira, fevereiro 23

Tempo de ler

Onde há uma biblioteca...

The Community doesn't have books, only the giver and Jonas do. In our world we can have as many as we want.
Abre las puertas y entra. Entra en este espacio que aguarda por ti, en este ámbito donde cada palabra es un don que recibimos como regalo. Recorre todos los rincones de esta casa de la libertad, respira este aire que no sabe de fronteras, déjate llevar por la corriente de aromas que anuncia los tesoros de la biblioteca. Estamos en un lugar especial, sería imposible confundirlo. Desde el cielo debe de verse como un punto de luz brillando con la intensidad mayor, como un aleph que contiene la memoria y los sueños de la humanidad. Una luz, sí. Una luz que ilumina como un faro entre las tinieblas, con el rítmico latido de un corazón inmenso que expande ondas de libertad y de esperanza por el territorio que la circunda.Quizá podríamos seguir viviendo si nos faltara este aire que hace vibrar todas las células de nuestro cuerpo, quizá las personas continuaríamos con nuestra existencia rutinaria si no existiese la biblioteca, pero algún lugar decisivo quedaría vacío en nuestro corazón. Nos faltaría la energía que nos hace desear una vida mejor, una ciudadanía más libre, una sociedad más justa. Nos dolería no escuchar la voz de las personas que sufrieron la historia y la de las que la sufren ahora mismo; sería insoportable oír solo las palabras de los que pretenden dirigir y controlar nuestras vidas. Para que esto no suceda, abre las puertas y entra. Ábrelas siempre, todas las puertas, pues cada vez que lo haces te incorporas al río subterráneo que alimenta a la biblioteca, al torrente de libertad que la hace vivir y le da ánimos renovados. 

Abre los libros y sumérgete en el agua de la vida que brota irreprimible desde sus páginas. Déjate arrastrar por el torbellino de voces, de lenguas, de olores, de paisajes. No olvides nunca la fascinación que experimentamos en los años de infancia, cuando se nos revela la dimensión mágica que tienen las palabras y descubrimos que las páginas de los libros pueden contener el mundo entero. Como las campesinas que se afanan en la rebusca de espigas entre los surcos después de la siega, también los escritores recogen las palabras una a una y elaboran con ellas el pan humilde de sus textos. De este modo hacen que lleguen hasta nosotros, siempre nuevas y siempre sorprendentes, pues los libros poseen la insólita capacidad de revivir y reinventarse en cada nueva lectura. Todas las personas necesitamos las historias, los sueños, las palabras, tal vez sea una característica inscrita en el ADN de la humanidad. Las necesitamos como el comer, como beber agua, claro que sí. Para entender el mundo y para entendernos a nosotros mismos, para soñar otros destinos, para celebrar los dones que la vida nos da. Sabemos que no podríamos vivir sin el aliento de la imaginación y de la creatividad, sin las palabras que expresan la variedad y la belleza de nuestros deseos y de nuestros sentimientos. Por todo eso, abramos los libros. Ellos contienen los sueños, las pasiones, los miedos, los amores, las risas. En sus páginas habita la inmensa variedad de sentimientos y experiencias de la humanidad, de las personas que viven ahora en cualquier lugar del mundo y de las que desaparecieron hace muchos años. Los libros: ríos de palabras que se nos ofrecen con generosidad para ayudarnos a aprender el o?cio de vivir, para cambiarnos la vida e implicarnos en la transformació n del mundo.

Donde háy una biblioteca hay una luz que atraviesa todos los muros, una luz que se hace más intensa cuando crecen las personas que la incorporan a sus vidas. Las mismas personas que, más tarde, al caminar por calles y plazas, llevarán con ellas el reaejo de esa luz, la semilla de ese mundo nuevo que algún día haremos crecer. Un mundo más solidario, más plural, más culto, más justo. Un mundo donde no se escuche la voz adormecedora de los poderosos, sino las palabras múltiples y diversas de todas las personas que habitamos esta casa común que es nuestro planeta.
Agustín Fernández Paz 

Prato nosso de cada dia

Y de postres, cada día, una buena y rica ración de lectura (ilustración de Silvia Baroncelli)
 Silvia Baroncelli

Antes e depois do Estado Islâmico: Voluntários reinauguram biblioteca da Universidade de Mossul

Antes em meio à poeira, à penumbra e aos destroços de guerra, os livros da Biblioteca Central da Universidade de Mossul que sobreviveram à ocupação de mais de dois anos do Estado Islâmico na cidade iraquiana voltaram a estar disponíveis para empréstimos. Nesta terça-feira (6), o historiador iraquiano Omar Muhammed, que criou o blog Mosul Eye e coordena um grupo de voluntários no projeto de recuperação da biblioteca, anunciou sua reabertura.

Antes e depois: mais de 32 mil livros foram resgatados dos escombros do prédio original da biblioteca da Universidade de Mossul em 2017, após a saída do Estado Islâmico, e levados para outro prédio no campus, onde em fevereiro de 2018 a biblioteca foi reaberta (Foto: Divulgação/Saad Hadi/Mosul Eye)

No perfil oficial do blog no Twitter, ele publicou fotos de algumas salas da nova biblioteca. A original, em um imponente prédio no campus da universidade, foi invadida pelo Estado Islâmico em junho de 2014 e virou o quartel-general do “ministério da educação” dos jihadistas até janeiro de 2017, quando eles deixaram o local danificado.

Foto publicada em fevereiro de 2018 pelo historiador iraquiano Omar Muhammed, responsável pelo blog Mosul Eye, comemora a reabertura da biblioteca da Universidade de Mossul, em um novo edifício no campus (Foto: Divulgação/Mosul Eye)

Em entrevista ao G1, Muhammed explicou que a biblioteca foi reaberta fora do prédio original, que sofreu danos estruturais graves após a batalha pela retomada de Mossul. Durante meses, voluntários se arriscaram dentro do prédio para resgatar parte dos mais de 800 mil livros, manuscritos, periódicos e outras obras, incluindo raridades, dos escombros do edifício.

“A partir de agora ela está aberta todo dia, as pessoas podem entrar e especialmente pedir livros. É incrível. É um prédio pequeno, mas muito bom”, explicou ele.

O historiador diz que, por enquanto, podem emprestar obras para fora do prédio apenas os professores, pós-graduandos e pesquisadores da Universidade de Mossul.

O esforços de reabertura da biblioteca fazem parte do trabalho de reconstrução da universidade. Mas o historiador afirma que o trabalho principal de resgate, limpeza e reorganização dos livros se deve ao trabalho dos voluntários.

Muhammed coordena esse e outros projetos de longe: no fim de 2015, ele precisou fugir de Mossul, com medo de ser morto por causa do blog. Ele só revelou sua identidade em dezembro de 2017, seis meses depois de o exército do Iraque expulsar o Estado Islâmico da cidade, em uma dura batalha que durou nove meses e deixou a maior parte do lado oeste de Mossul completamente destruída.

Ao G1, o historiador, que atualmente vive na Europa, mas não divulga em que cidade por motivos de segurança, afirmou que o grupo de voluntários conseguiu cumprir o prazo, estabelecido por eles mesmos, de reabrir a biblioteca em fevereiro deste ano, pouco mais de um ano após a saída do EI.

Além de limpar a biblioteca e resgatar os livros que sobreviveram à batalha, o grupo também recebe doações de livros ao redor do mundo, em qualquer língua. Além dos cerca de 32 mil livros resgatados do prédio original, outros cerca de 50 mil chegaram de vários países.

“Durante a batalha pela retomada da cidade, o Estado Islâmico queimou e destruiu a biblioteca. Mas, felizmente, depois que a batalha acabou, conseguimos achar e resgatar livros”, afirmou ele.

A campanha internacional mobilizou pessoas de todas as partes do mundo, principalmente no Ocidente, explicou Muhammed. “Já recebemos mais ou menos 50 mil livros de muitos países, e estamos esperando por mais. Gostaria de agradecer a todos que fizeram isso acontecer, que pensaram na biblioteca, que nos apoiaram mesmo sem poder doar um livro.”

Depois de meses de trabalho de limpeza e remoção de milhares de livros para um novo prédio, iraquianos de Mossul comemoraram nesta terça-feira (6) a reinauguração da biblioteca.
Fonte:G1

quinta-feira, fevereiro 22

Leitura com café

Francine Van Hove

Catástrofe alemã


Nessa época do ano, com notícias de tiroteios em escolas norte-americanas, chuvas torrenciais no Sudeste e sobre o prosseguimento do golpe de estado brasileiro, fatos importantes e que muito dizem dos rumos das coisas infelizmente passam eclipsadas nos noticiários. Aqui no PublishNews, no entanto, a nota não passou despercebida: na Alemanha, país referência em mercado editorial, foram perdidos 600 mil compradores de livros só no primeiro semestre de 2017.

A notícia segue com as motivações e os números, e termina com a conclusão de que tudo se deu por conta de novos tipos de entretenimento, que por sua vez se somaram à redução no número de livrarias no país, algo que também vem ocorrendo em nações mundo afora.

Pergunto-me se as políticas alemãs à leitura são eficazes e obviamente fico muito curioso para conhecer as políticas públicas para o mercado editorial. Tirando isso, porém, se acende o sinal de alerta, e esta é a hora para se especular: 600 mil leitores num semestre? Quer dizer que o livro, o produto livro, perdeu leitores? Que está definhando a essa velocidade?

Não dá para ser catastrofista e abraçar o apocalipse sobre a leitura do livro e que estamos a assistir seu réquiem. Isso já ocorreu com o surgimento do e-book, porém passados alguns anos nada aconteceu, e até o livro reagiu, apesar das crises econômicas sempre tão presentes.

Penso que o melhor é entendermos as dinâmicas em torno da leitura, e nessa altura falo da leitura em qualquer ambiente, não mais em digital ou papel. Se as redes sociais roubaram nosso olhar para leituras cada vez mais curtas e convidativas à interação – numa espécie de frenesi publicacional em que todos viraram jornalistas e repórteres, as crianças inclusive –, a leitura tradicional, longa e medidativa, que nos convida a reflexões e aprofundamentos, ao que parece, caminha para um gueto de elite pensante.

Será isso, então? Será que a leitura qualificada ficará restrita às masmorras intelectuais e cultas? Será que a queima dos livros de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, estava predizendo o que ocorre? E que nos restará somente a memória de párias sociais por esperança?

Mas vamos por outro lado. Lado que entende que por trás da comunicação e da leitura há nada mais do que seres humanos, e seres humanos que, embora se rendam temporariamente à pura necessidade da sobrevivência, sabem que ler bem é essencial para enfrentar e mudar o mundo com o que de melhor o homem já produziu: a tecnologia e o conhecimento.

Não tenho receita, mas se a Alemanha tem algo tão escabroso, é pacífico que um esforço consciente precisa ser empreendido para qualificar esses leitores perdidos, ou entender para onde estão indo e tentar alcança-los, por mais que o mercado, como o dos games, não goste.

Posto está é que a leitura ganhou múltiplas e inúmeras possibilidades, e que o mercado mais apressado e agressivo, como daqueles que vivem dos minutos digitais alheios, está ganhando a batalha. É preciso, portanto, reagir, e reagir como editores, como livreiros, bibliotecários, escritores, professores e como líderes pensantes.

Dica de passeio

Os últimos anos de Machado de Assis

Em 2016, Silviano Santiago, romancista, contista, ensaísta literário e Doutor em Letras pela Sorbone, escreveu um belo livro, Machado pela Cia. das Letras, sobre os cinco últimos anos de Machado de Assis, nosso escritor maior e fundador da Academia Brasileira de Letras. Uma prosa poética como também uma cuidadosa pesquisa sobre o quinto volume da correspondência de Machado.

O que chama atenção em seu escrito, além de outros aspectos biográficos do Bruxo do Cosme Velho, é a relação já escrita por outros autores europeus (Maxime du Camp, Jean-Paul Sartre, Thomas Mann e Carlos de Laet) que existe entre enfermidade, doença, angústia e criação literária e artística. Como exemplo, aqui no Brasil, encontramos na pessoa do Aleijadinho, Machado de Assis e Mário de Alencar, filho do nosso José de Alencar.

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Não se escreve uma obra artística e literária sem conviver profundamente com dores da existência humana, onde cada autor, movido por essas angustiantes perspectivas de morte e consciência da sua finitude, sublima de maneira criativa, e fala não só de si mesmo, através dos seus personagens mas dos aspectos íntimos da alma humana.

A criatividade parece surgir desde a infância, da condição precária do ser humano, sua angústia frente a possibilidade de abandono além do destino inexorável de ser mortal, finito, limitado. Os escritores em sua maioria extraem da percepção mais aguda dessas dores humanas e são capazes de descrever estados psíquicos de uma maneira muito profunda.

A melancolia, a tristeza da condição patológica, a vivência concreta de mortalidade, todos esses fatores ficam muito claro na escrita de Silviano Santiago: “A vivência da alma em recolhimento, leitura e reflexão se reproduz— para ele – numa perfeita cena de família, em tudo por tudo igual à que se encontra representada à exaustão e realisticamente na pintura pequeno-burguesa europeia e nacional do século XIX.”

Já no começo de seu livro, Santiago lembra o impacto que causou ao escritor católico Paul Claudel o ditado popular que diz: “Deus escreve direito por linhas tortas”. Logo escreve Silviano: “O escritor francês se regala com o achado carioca que vira chave mestra na sua visão teológica do mundo. Deus escreve direito por linhas tortas, humanas demasiadamente humanas. Claudel acreditaria que Deus escreve as vidas tortas de Aleijadinho, Gustave Flaubert, Machado de Assis e Mario de Alencar?”

Fica a pergunta, prezado leitor: as dores humanas são a base da criação literária, concorrendo desse modo para o ato civilizatório? Penso que sim. Convido-o a ler o livro de Silviano Santiago!

Carlos Fino 

quarta-feira, fevereiro 21

Leitor de aventuras

Le jeune Albert lit  Yves Chaland
Yves Chaland

Açores

Meditarei nos teus preceitos, e terei respeito aos teus caminhos.
À tarde, pelas sete horas, temos outra ilha à vista, sob grossas nuvens amontoadas, tudo da mesma cor, nuvens e ilha. Ao largo um pôr do sol dramático enche o horizonte, doira os bordos dos cirros e irrompe pelos interstícios caindo em feixes sobre as águas. Assisto ao desenlace deste drama mudo e extraordinário, quando ao mesmo tempo o ar se incendeia cor de cobre e na vasta solidão de estanho correm jorros de oiro fundido imitaria na pele . Já no horizonte outra ilha se estende em biombo, baixa e enorme, toda da mesma cor . Mas o que me interessa, é a luz que mudou, é o céu que mudou, - a luz delicada dos Açores, o céu dos Açores carregado de humidade e forrado de nuvens que um pintor imitaria na tela com pequenos toques horizontais cor de chumbo, carregando-os e amontoando-os cada vez mais até à linha do horizonte. E é esta luz que me acompanha e nunca mais me larga, a mim que vivo de luz límpida, e que acordo todas as manhãs com o pensamento na luz...Ilumina S.Miguel (13 de Junho), coada pelo céu pardo, e Ponta Delgado estendia à beira da doca, com um grande monte violeta ao lado. Ilumina na madrugada de 15 a Terceira, ao pé dum pinheiral e duma fortaleza, e atabafa-me quase até ao fim da viagem -céu inalterável, névoa que se chama alforra, luz discreta em que as coisas perdem a importância e o relevo. 
Raul Brandão, "As Ilhas desconhecidas"

Viver em sonhos


Todos os livros vêm dos sonhos, e todos os sonhos vêm dos livros
Maxence Fermine, "O apicultor"

O dicionário

Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou de um pau, concitou os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.

— Em mim, bradou ele, podeis ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.

Falling by eruven
O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria, indenizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; — nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.

Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos do pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, senão por uma oftalmia que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano do reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um dos seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, — comparação que o lisonjeou muito, — o segundo ministro, Ômega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.

Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais suntuosas e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenasse com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.

Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com quem lhe fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiado em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.

Concorreram ao certâmen, que foi anônimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos; era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.

Não venceu ainda assim porque o poeta amado leu à pressa o que pôde, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas davam singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitória do poeta amado.

Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:

— Nós, Alfa e Ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa idéia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.

Bernardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findos os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.

— Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por um decreto, e está tudo feito.

Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pela novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: Bom dia, como passou? — Pflerrgpxx, rouph, aa? A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.

Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:
O raro Apeles,
Rubens e Rafael, inimitáveis
Não se fizeram pela cor das tintas;
A mistura elegante os fez eternos.
Machado de Assis 

terça-feira, fevereiro 20

Renovando o estoque

Libros de ocasión: variados, interesantes, baratos. Buscando en la librería (ilustración de Evdokiya)
Evdokiya

O jegue cego

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Na Serra de Ibiapaba, numa das encostas mais altas, encontrei um jegue. Estava voltado para o lado leste e me pareceu que descortinava o panorama. Mas quando me aproximei, percebi que era cego!

Perguntei-lhe o que fazia nas encostas daquela serra. Ele me respondeu que sempre tivera vontade de ficar ali, parado, descortinando o panorama árido. Mas o homem não permitia que ele abandonasse o trabalho e se dirigisse àquele sítio. Só houve um meio de o homem deixá-lo ir: era tornando-se inútil. E ele se tornou cego e ali estava.

— Mas você não pode ver o panorama— eu lhe disse.

— Não tem importância— ele respondeu—, eu posso imaginá-lo.
Oswaldo França Jr.

Sábia Mafalda

Metade das escolas não possui bibliotecas

No dia 31 de janeiro, o Ministério da Educação (MEC) lançou o Censo Escolar 2017, que apontou as principais deficiências de infraestrutura das escolas brasileiras. O dado com relação às bibliotecas preocupa. Pouco mais de metade das instituições de ensino (54,3%) possui biblioteca ou sala de leitura voltada para os alunos.

Outros problemas também são visíveis ao se analisar a pesquisa. Apenas 41,6% das escolas possuem sistema de esgoto e outras 52,3% utilizam fossa como sua principal fonte de descarte de resíduos. Em 10% das instituições não há sequer água, energia ou rede de esgoto. Também faltam parques, berçários e banheiros adequados às faixas etárias atendidas.

Com relação ao acesso à tecnologia, menos da metade das escolas (46,8%) possui laboratório ou sala de informática. Apesar disso, 65,6% possuem conexão com a internet, sendo 53,5% dos acessos via banda larga.

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Garantir padrões mínimos de qualidade de ensino é, segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, dever do Estado. Em entrevista à Agência Brasil, a ministra substituta da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, disse que 23% do orçamento da União são destinados à educação, porém ainda há problemas a serem contornados. “A infraestrutura das escolas é muito desigual, isso já está revelado por todos os estudos do Inep, e não obrigatoriamente está relacionada a recursos. Há municípios que recebem o mesmo montante de recursos pelo Fundeb que outro município vizinho, e um funciona melhor e o outro não funciona tão bem do ponto de vista da infraestrutura das suas escolas.”

Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, tem um ponto de vista divergente da ministra. Para ele, os governos não têm dado prioridade ao financiamento do setor. “É claro que bibliotecas, acesso à internet e laboratórios de ciências são imprescindíveis à educação hoje, isso para não falar no básico do básico, que é a garantia de água e esgoto.”

segunda-feira, fevereiro 19

Surpresa!

Derek Nobbs
Derek Nobbs

Assim começa o livro...

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Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ?car irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido ?at, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, en? ou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certi? cação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo ?exível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ?cou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artí?ce que só lhe ?cava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.

Set, o ?lho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver su? ciente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o ?at foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro caim edepois abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na ?oresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão ?rme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um ?lho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconheça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham bene?ciado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraísos existentes no espaço celeste. De facto, só viria a aparecer muito mais tarde, em data de que não ?cou registo, para expulsar o infeliz casal do jardim do éden pelo crime nefando de terem comido do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Este episódio, que deu origem à primeira de?nição de um até aí ignorado pecado original, nunca ?cou bem explicado. Em primeiro lugar, mesmo a inteligência mais rudimentar não teria qualquer di? culdade em compreender que estar informado sempre será preferívela desconhecer, mormente em matérias tão delicadas como são estas do bem e do mal, nas quais qualquer um se arrisca, sem dar por isso, a uma condenação eterna num inferno que então ainda estava por inventar. Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado. E, em terceiro lugar, não foi por terem desobedecido à ordem de deus que adão e eva descobriram que estavam nus. Nuzinhos, em pelota estreme, já eles andavam quando iam para a cama, e se o senhor nunca havia reparado em tão evidente falta de pudor, a culpa era da sua cegueira de progenitor, a tal, pelos vistos incurável, que nos impede de ver que os nossos ?lhos, no ?m de contas, são tão bons ou tão maus como os demais.

Ponto de ordem à mesa. Antes de prosseguirmos com esta instrutiva e de? nitiva história de caim a que, com nunca visto atrevimento, metemos ombros, talvez seja aconselhável, para que o leitor não se veja confundido por segunda vez com anacrónicos pesos e medidas, introduzir algum critério na cronologia dos acontecimentos. Assim faremos, pois, começando por esclarecer alguma maliciosa dúvida por aí levantada sobre se adão ainda seria competente para fazer um ?lho aos cento e trinta anos de idade. À primeira vista, não, se nos ativermos apenas aos índices de fertilidade dos tempos modernos, mas esses cento e trinta anos, naquela infância do mundo, pouco mais teriam representado que uma simples e vigorosa adolescência que até o mais precoce dos casanovas desejaria para si. Além disso, convém lembrar que adão viveu até aos novecentos e trinta anos, pouco lhe faltando, portanto, para morrer afogado no dilúvio universal, pois ?nou-se em dias da vida de lamec, o pai de noé, futuro construtor da arca. Logo, teve tempo e vagar para fazer os ?lhos que fez e muitos mais se estivesse para aí virado. Como já dissemos, o segundo, o que viria depois de caim, foi abel, um moço aloirado, de boa ?gura, que, depois de ter sido objecto das melhores provas de estima do senhor, acabou da pior forma. Ao terceiro, como também ?cou dito, chamaram-lhe set, mas esse não entrará na narrativa que vamos compondo passo a passo com melindres de historiador, por isso aqui o deixamos, só um nome e nada mais. Há quem a?rme que foi na cabeça dele que nasceu a ideia de criar uma religião, mas desses delicados assuntos já nos ocupámos avonde no passado, com recriminável ligeireza na opinião de alguns peritos, e em termos que muito provavelmente só virão a prejudicar-nos nas alegações do juízo ?nal quando, quer por excesso quer por defeito, todas as almas forem condenadas. Agora somente nos interessa a família de que o papá adão é cabeça, e que má cabeça foi ela, pois não vemos como chamar-lhe doutra maneira, já que bastou trazer-lhe a mulher o proibido fruto do conhecimento do bem e do mal para que o inconsequente primeiro dos patriarcas, depois de se fazer rogado, em verdade mais por comprazer consigo mesmo que por real convicção, se tivesse engasgado com ele, deixando-nos a nós, homens, para sempre marcados por esse irritante pedaço de maçã que não sobe nem desce. Também não falta quem diga que se adão não chegou a engolir de todo o fruto fatal foi porque o senhor lhes apareceu de repente a querer saber o que se tinha passado ali. Já agora, e antes que se nos esqueça de vez ou o prosseguimento do relato venha a tornar inadequada, por tardia, a referência, revelaremos a visita sigilosa, meio clandestina, que o senhor fez ao jardim do éden numa cálida noite de verão. Como de costume, adão e eva dormiam nus, um ao lado do outro, sem tocar-se, imagem edi?cante mas enganadora da mais perfeita das inocências. Não despertaram eles e o senhor não os despertou. O que ali o tinha levado fora o propósito de emendar uma imperfeição de fabrico que, ?nalmente o percebera, desfeava seriamente as suas criaturas, e que era, imagine-se, a falta de um umbigo. A superfície esbranquiçada da pele dos seus bebés, que o suave sol do paraíso não conseguira tostar, mostrava-se demasiado nua, demasiado oferecida, de certo modo obscena, se a palavra já existisse então. Sem detença, não fossem eles acordar, deus estendeu o braço e, levemente, premiu com a ponta do dedo indicador o ventre de adão, logo fez um rápido movimento de rotação e o umbigo apareceu. A mesma operação, praticada a seguir em eva, deu resultados similares, ainda que com a importante diferença de o umbigo dela ter saído bastante melhorado no que toca a desenho, contornos e delicadeza de pregas. Foi esta a última vez que o senhor olhou uma obra sua e achou que estava bem.

Cinquenta anos e um dia depois desta afortunada intervenção cirúrgica com a qual se iniciaria uma nova era na estética do corpo humano sob o lema consensual de que tudo nele é melhorável, deu-se a catástrofe. Anunciado por um estrondo de trovão, o senhor fez-se presente. Vinha trajado de maneira diferente da habitual, segundo aquilo que seria, talvez, a nova moda imperial do céu, com uma coroa tripla na cabeça e empunhando o ceptro como um cacete. Eu sou o senhor, gritou, eu sou aquele que é. O jardim do éden caiu em silêncio mortal, não se ouvia nem o zumbido de uma vespa, nem o ladrar de um cão, nem um pio de ave, nem um bramido de elefante. Apenas uma bandada de estorninhos que se havia acomodado numa oliveira frondosa que vinha dos tempos da fundação do jardim levantou voo num só impulso, e eram centenas, para não dizer milhares, que quase obscureceram o céu. Quem desobedeceu às minhas ordens, quem foi pelo fruto da minha árvore, perguntou deus, dirigindo directamente a adão um olhar coruscante, palavra desusada mas expressiva como as que mais o forem. Desesperado, o pobre homem tentou, sem resultado, tragar o bocado de maçã que o delatava, mas a voz não lhe saiu, nem para trás nem para diante. Responde, tornou a voz colérica do senhor, ao mesmo tempo que brandia ameaçadoramente o ceptro. Fazendo das tripas coração, consciente do feio que era pôr as culpas em outrem, adão disse, A mulher que tu me deste paraviver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi. Revolveu-se o senhor contra a mulher e perguntou, Que ?zeste tu, desgraçada, e ela respondeu, A serpente enganou-me e eu comi, Falsa, mentirosa, não há serpentes no paraíso, Senhor, eu não disse que haja serpentes no paraíso, mas digo sim que tive um sonho em que me apareceu uma serpente, e ela disse-me, Com que então o senhor proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim, e eu respondi que não era verdade, que só não podíamos comer do fruto da árvore que está no meio do paraíso e que morreríamos se tocássemos nele, As serpentes não falam, quando muito silvam, disse o senhor, A do meu sonho falou, E que mais disse ela, pode-se saber, perguntou o senhor, esforçando-se por imprimir às palavras um tom escarninho nada de acordo com a dignidade celestial da indumentária, A serpente disse que não teríamos que morrer, Ah, sim, a ironia do senhor era cada vez mais evidente, pelos vistos, essa serpente julga saber mais do que eu, Foi o que eu sonhei, senhor, que não querias que comêssemos do fruto porque abriríamos os olhos e ? caríamos a conhecer o mal e o bem como tu os conheces, senhor, E que ?zeste, mulher perdida, mulher leviana, quando despertaste de tão bonito sonho, Fui à árvore, comi do fruto e levei-o a adão, que comeu também, Ficou-me aqui, disse adão, tocando na garganta, Muito bem, disse o senhor, já que assim o quiseram, assim o vão ter, a partir de agora acabou-se-lhes a boa vida, tu, eva, não só sofrerás todos os incómodos da gravidez, incluindo os enjoos, como pariráscom dores, e não obstante sentirás atracção pelo teu homem, e ele mandará em ti, Pobre eva, começas mal, triste destino vai ser o teu, disse eva, Devias tê-lo pensado antes, e quanto à tua pessoa, adão, a terra ?cou amaldiçoada por tua causa, e será com grande sacrifício que dela conseguirás tirar alimento durante toda a tua vida, só produzirá espinhos e cardos, e tu terás de comer a erva que cresce no campo, só à custa de muitas bagas de suor conseguirás arranjar o necessário para comer, até que um dia te venhas a transformar de novo em terra, pois dela foste formado, na verdade, mísero adão, tu és pó e ao pó um dia tornarás. Dito isto, o senhor fez aparecer umas quantas peles de animais para tapar a nudez de adão e eva, os quais piscaram os olhos um ao outro em sinal de cumplicidade, pois desde o primeiro dia souberam que estavam nus e disso bem se haviam aproveitado. Disse então o senhor, Tendo conhecido o bem e o mal, o homem tornou-se semelhante a um deus, agora só me faltaria que fosses colher também do fruto da árvore da vida para dele comeres e viveres para sempre, não faltaria mais, dois deuses num universo, por isso te expulso a ti e a tua mulher deste jardim do éden, a cuja porta colocarei de guarda um querubim armado com uma espada de fogo, o qual não deixará entrar ninguém, e agora vão-se embora, saiam daqui, não vos quero ver nunca mais na minha frente. Carregando sobre os ombros as fedorentas peles, bamboleando-se sobre as pernas trôpegas, adão e eva pareciam dois orangotangos que pela primeira vez se tivessem posto de pé. Fora do jardim do éden a terra era árida, inóspita, o senhor não tinha exagerado quando ameaçou adão com espinhos e cardos. Tal como também havia dito, acabara-se a boa vida.