terça-feira, abril 28
Um gentil ladrão
Abro a porta. É um homem mascarado. Ao notar a minha presença, ele grita – Três metros, fique a três metros!
Se é um assaltante, está com medo. Esse temor inquieta-me. Ladrões medrosos são os mais perigosos. Retira da bolsa uma pistola. Aponta-a na minha direção. É estranha aquela arma: de plástico branco, emitindo um raio de luz verde. Aponta a pistola para o meu rosto e eu fecho os olhos, obediente. É quase uma carícia aquele raio de luz sobre o meu rosto. Morrer assim é um sinal que Deus respondeu às minhas preces.
![]() |
| Susa Monteiro |
O mascarado tem uma voz doce, um olhar delicado. Não me deixo enganar: os mais cruéis soldados surgiram-me com modos de anjo. Há tanto, porém, que ninguém me faz companhia, que acabo entrando no jogo.
Peço ao visitante que baixe a pistola e tome lugar na única cadeira que me resta. Só então reparo que traz uns sacos de plástico envolvendo os sapatos. É óbvia a intenção: não quer deixar pegadas. Peço-lhe para baixar a máscara, asseguro-lhe que pode ter toda a confiança em mim. O homem sorri com tristeza e murmura – Nestes dias não se pode confiar, as pessoas não sabem o que trazem dentro delas. – Entendo a enigmática mensagem, o homem pensa que, sob a minha aparência desvalida, se esconde um valioso tesouro.
Olha em redor e, como não encontra nada para roubar, o homem acaba por se explicar. Diz que vem dos serviços de saúde. E eu sorrio. É um jovem ladrão, não sabe mentir. Diz que os seus chefes estão preocupados com uma doença grave que se espalha rapidamente. Faço de conta que acredito.
Há sessenta anos atrás quase morri de varíola. Alguém me veio visitar? A minha esposa morreu de tuberculose, alguém nos veio ver? A malária roubou-me o meu único filho, fui eu que o enterrei sozinho. Os meus vizinhos morreram de sida, nunca ninguém quis saber. A minha falecida mulher dizia que a culpa era nossa porque escolhemos viver longe dos lugares onde há hospitais. Ela, coitada, não sabia que era o inverso: os hospitais é que se instalam longe dos pobres. É uma mania deles, dos hospitais. Não os culpo. Sou parecido com eles, os hospitais, sou eu que albergo e trato as minhas enfermidades.
O mentiroso assaltante não desiste. Apura os métodos, sempre de modo tosco. Quer justificar-se: a pistola que me apontou era para medir a febre. Diz que estou bem, anuncia com um sorriso tonto. E eu finjo respirar de alívio. Quer saber se tenho tosse. Sorrio, condescendente. Tosse foi coisa que me quase levou à cova, depois de ter vindo das minas há vinte anos. Desde então, as minhas costelas quase não se movem, o meu peito é feito apenas de poeira e pedra. No dia que voltar a tossir, será para pedir licença nas portas de São Pedro.
– Não me parece estar doente – declara o impostor. – Contudo, o senhor pode ser um portador assintomático.
– Portador? – pergunto. – Portador de quê? Por amor de Deus, pode-me revistar a casa, sou um homem sério, quase nunca saio de casa.
O visitante sorri e pergunta se sei ler. Encolho os ombros. E ele coloca sobre a mesa um documento com instruções de higiene e uma caixa com barras de sabão, um frasco com aquilo a que ele chama de “uma solução alcoólica”. Coitado, deve imaginar que, como todos os velhos solitários, ando metido na bebida. À despedida, o intruso diz – Daqui a uma semana passo por aqui a visitá-lo.
Então, me vem à cabeça o nome da doença de que fala o visitante. Conheço bem essa doença. Chama-se indiferença. Era preciso um hospital do tamanho do mundo para tratar essa epidemia.
Contrariando as suas instruções, avanço sobre ele e abraço-o. O homem resiste com vigor e escapa-me dos braços. No carro, despe-se apressadamente. Livra-se da roupa como se despisse as vestes da própria peste. Dessa peste chamada miséria.
Aceno-lhe sorridente. Depois de anos de tormento, reconcilio-me com a humanidade: um ladrão tão desajeitado só pode ser um homem bom. Para a semana, quando ele voltar, vou deixar que roube a velha televisão que tenho no quarto.
Peço ao visitante que baixe a pistola e tome lugar na única cadeira que me resta. Só então reparo que traz uns sacos de plástico envolvendo os sapatos. É óbvia a intenção: não quer deixar pegadas. Peço-lhe para baixar a máscara, asseguro-lhe que pode ter toda a confiança em mim. O homem sorri com tristeza e murmura – Nestes dias não se pode confiar, as pessoas não sabem o que trazem dentro delas. – Entendo a enigmática mensagem, o homem pensa que, sob a minha aparência desvalida, se esconde um valioso tesouro.
Olha em redor e, como não encontra nada para roubar, o homem acaba por se explicar. Diz que vem dos serviços de saúde. E eu sorrio. É um jovem ladrão, não sabe mentir. Diz que os seus chefes estão preocupados com uma doença grave que se espalha rapidamente. Faço de conta que acredito.
Há sessenta anos atrás quase morri de varíola. Alguém me veio visitar? A minha esposa morreu de tuberculose, alguém nos veio ver? A malária roubou-me o meu único filho, fui eu que o enterrei sozinho. Os meus vizinhos morreram de sida, nunca ninguém quis saber. A minha falecida mulher dizia que a culpa era nossa porque escolhemos viver longe dos lugares onde há hospitais. Ela, coitada, não sabia que era o inverso: os hospitais é que se instalam longe dos pobres. É uma mania deles, dos hospitais. Não os culpo. Sou parecido com eles, os hospitais, sou eu que albergo e trato as minhas enfermidades.
O mentiroso assaltante não desiste. Apura os métodos, sempre de modo tosco. Quer justificar-se: a pistola que me apontou era para medir a febre. Diz que estou bem, anuncia com um sorriso tonto. E eu finjo respirar de alívio. Quer saber se tenho tosse. Sorrio, condescendente. Tosse foi coisa que me quase levou à cova, depois de ter vindo das minas há vinte anos. Desde então, as minhas costelas quase não se movem, o meu peito é feito apenas de poeira e pedra. No dia que voltar a tossir, será para pedir licença nas portas de São Pedro.
– Não me parece estar doente – declara o impostor. – Contudo, o senhor pode ser um portador assintomático.
– Portador? – pergunto. – Portador de quê? Por amor de Deus, pode-me revistar a casa, sou um homem sério, quase nunca saio de casa.
O visitante sorri e pergunta se sei ler. Encolho os ombros. E ele coloca sobre a mesa um documento com instruções de higiene e uma caixa com barras de sabão, um frasco com aquilo a que ele chama de “uma solução alcoólica”. Coitado, deve imaginar que, como todos os velhos solitários, ando metido na bebida. À despedida, o intruso diz – Daqui a uma semana passo por aqui a visitá-lo.
Então, me vem à cabeça o nome da doença de que fala o visitante. Conheço bem essa doença. Chama-se indiferença. Era preciso um hospital do tamanho do mundo para tratar essa epidemia.
Contrariando as suas instruções, avanço sobre ele e abraço-o. O homem resiste com vigor e escapa-me dos braços. No carro, despe-se apressadamente. Livra-se da roupa como se despisse as vestes da própria peste. Dessa peste chamada miséria.
Aceno-lhe sorridente. Depois de anos de tormento, reconcilio-me com a humanidade: um ladrão tão desajeitado só pode ser um homem bom. Para a semana, quando ele voltar, vou deixar que roube a velha televisão que tenho no quarto.
O que podemos aprender com as pandemias da ficção?
Defoe começa sua história em setembro de 1664, quando circulam rumores sobre o retorno da 'pestilência' à Holanda. Em seguida, vem a primeira morte suspeita em Londres, em dezembro, e depois, na primavera, Defoe descreve como os avisos de morte publicados nas paróquias locais tiveram um aumento sinistro. Em julho, a cidade de Londres impõe novas regras - regras que estão se tornando rotineiras em 2020, como "que todas as festas públicas, jantares em tabernas, cervejarias e outros locais de entretenimento comum sejam suspensos até novas ordens".
Em agosto, Defoe escreve, a peste estava "muito violenta e terrível"; no início de setembro, atingiu o seu pior, com "famílias inteiras, ruas inteiras de famílias... desaparecendo juntas". Em dezembro, "o contágio estava esgotado, e também o clima do inverno acelerava, e o ar estava limpo e frio, com geadas fortes... a maioria dos que haviam adoecido se recuperou e a saúde da cidade começou a voltar". Quando finalmente as ruas foram retomadas, "as pessoas andavam dando graças a Deus por sua libertação".
O que poderia ser mais dramático do que um retrato de uma peste em andamento, quando as tensões e emoções são intensificadas e os instintos de sobrevivência surgem? A narrativa pandêmica é natural para romancistas realistas como Defoe e, mais tarde, Albert Camus.
A Peste, de Camus, em que a cidade de Oran, na Argélia, fica fechada por meses enquanto uma doença dizima seu povo (como de fato aconteceu em Oran no século 19), é um livro também repleto de paralelos com a crise de hoje. Os líderes locais relutam a princípio em reconhecer os sinais precoces que vêm dos ratos morrendo pela doença. "Os pais de nossa cidade estão cientes de que os corpos em decomposição desses roedores constituem um grave perigo para a população?", pergunta um colunista no jornal local. O narrador do livro, Dr. Bernard Rieux, reflete o heroísmo silencioso dos trabalhadores médicos. "Não faço ideia de o que me espera ou do que acontecerá quando tudo acabar. No momento eu sei disso: há pessoas doentes e elas precisam de cura", diz ele. No final, há a lição aprendida pelos sobreviventes da peste: "Eles sabiam agora que, se há uma coisa que sempre se pode desejar e, às vezes, alcançar, é o amor humano".
A gripe espanhola de 1918 reformulou o mundo, levando à morte de 50 milhões de pessoas, após 10 milhões de mortos na Primeira Guerra Mundial. Ironicamente, o dramático impacto global da gripe foi ofuscado pelos eventos ainda mais dramáticos da guerra, que inspiraram inúmeros romances. Enquanto as pessoas praticam agora o 'distanciamento social' e as comunidades ao redor do mundo se retêm, a descrição de Katherine Anne Porter da devastação criada pela gripe espanhola em seu romance Cavalo Pálido, Pálido Cavaleiro, de 1939, soa familiar: "É terrível... Todos os teatros e quase todas as lojas e restaurantes estão fechados, e as ruas estão cheias de funerais o dia todo e ambulâncias soam a noite toda", diz o amigo da heroína Miranda, Adam, logo após ela ser diagnosticada com a influenza.
Porter retrata a febre e os tratamentos de Miranda, e semanas de doença e recuperação, até o despertar para um novo mundo remodelado pelas perdas da gripe e da guerra.
Porter quase morreu da gripe. "Eu mudei de uma forma estranha", ela disse à revista literária The Paris Review em uma entrevista de 1963. "Levei muito tempo para sair e viver no mundo novamente. Eu estava realmente 'alienada' no sentido puro.
As epidemias do século 21 - a síndrome respiratória aguda grave (Sars, na sigla em inglês), em 2002, a síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers, em inglês), em 2012 e o ebola, em 2014 - inspiraram romances sobre desolação e colapso pós-peste, cidades desertas e paisagens devastadas.
O Ano do Dilúvio (2009), de Margaret Atwood, mostra-nos um mundo pós-pandêmico com humanos quase extintos, após a maioria da população ter sido exterminada 25 anos antes pelo 'Dilúvio sem Água', uma peste virulenta que "viajava pelo ar como se tivesse asas, queimando cidades como fogo".
Atwood captura o extremo isolamento sentido pelos poucos sobreviventes. Toby, uma jardineira, olha o horizonte do jardim da cobertura de um spa deserto. "Deve haver mais alguém ... ela não pode ser a única no planeta. Deve haver outros. Mas amigos ou inimigos? Se ela vir um, como vai saber?". Ren, que foi dançarina de trapézio e "uma das mais limpas entre as sujas da cidade" está viva porque estava em quarentena por uma possível doença transmitida por um cliente. Ela escreve seu nome repetidamente. "Você pode esquecer quem você é se estiver sozinho demais", diz.
Por meio de flashbacks, Atwood explica como o equilíbrio entre os mundos natural e humano foi destruído pela bioengenharia patrocinada por grandes empresas e como ativistas como Toby reagiram. Sempre atenta aos problemas que tecnologia pode trazer, Atwood baseia seu trabalho em premissas plausíveis, tornando o Ano do Dilúvio terrivelmente presciente.
O que torna a ficção pandêmica tão envolvente é que os humanos se unem na luta contra um inimigo que não é um inimigo humano. Não existem 'mocinhos' ou 'bandidos'; a situação é mais sutil. Cada personagem tem uma chance igual de sobreviver ou não. A variedade de respostas de cada personagem às circunstâncias terríveis torna a história interessante para quem escreve - e para quem lê.
Severance (A Separação, em tradução livre - livro indisponível no Brasil), de Ling Ma (2018), que o autor descreveu como um "romance apocalíptico de escritório" com uma história de imigração, é narrada por Candace Chen, uma moça que trabalha em uma empresa de publicação da Bíblia e tem seu próprio blog. Ela é uma das nove sobreviventes que fogem da cidade de Nova York durante a pandemia fictícia da febre de Shen em 2011. Ma descreve a cidade depois que "a infraestrutura ... entrou em colapso, a internet caiu em um buraco, a rede elétrica foi fechada".
Candace se junta a um grupo numa viagem em direção a um shopping em um subúrbio de Chicago, onde o grupo planeja se estabelecer. Eles viajam por uma paisagem habitada pelos "febris", que são "criaturas de hábitos, imitando velhas rotinas e gestos" até morrerem. Os sobreviventes são imunes aleatoriamente? Ou "selecionados" pela orientação divina? Candace logo descobre que em troca da segurança de estar em grupo precisa demonstrar uma estrita lealdade às regras religiosas estabelecidas pelo líder do grupo Bob, um ex-técnico de TI autoritário. É apenas uma questão de tempo até que ela se rebele.
Nossa própria situação atual é, obviamente, nem de longe tão extrema quanto a prevista em Severance. Ling Ma explora o pior cenário que, felizmente, não estamos enfrentando. Em seu romance, ela analisa o que acontece em seu mundo imaginário após a pandemia desaparecer. Depois do pior, quem está encarregado de reconstruir uma comunidade, uma cultura? Entre um grupo aleatório de sobreviventes, o romance pergunta: quem decide quem tem poder? Quem define as diretrizes para a prática religiosa? Como os indivíduos retêm poder de agência?
As vertentes narrativas do romance Estação Onze, de Emily St John Mandel, de 2014, ocorrem antes, durante e depois de uma gripe ferozmente contagiosa originária da República da Geórgia "explodir como uma bomba de nêutrons na superfície da terra", destruindo 99% da população da população global. A pandemia começa na noite em que um ator que interpreta o rei Lear, personagem de Shakespeare, sofre um ataque cardíaco no palco. Sua esposa é autora de histórias em quadrinhos de ficção científica ambientadas em um planeta chamado Estação Onze. O livro tem ecos dos Contos de Canterbury, clássico da literatura inglesa, escrito por Chaucer, o prototípico e irreverente ciclo de histórias do século 14, que tem como pano de fundo a peste negra.
Quem e o que determina a arte, pergunta Mandel? A cultura de celebridades importa? Como vamos reconstruir as coisas depois que o vírus invisível nos sitiar? Como a arte e a cultura mudarão? Sem dúvida, existem romances sobre nossas circunstâncias atuais em andamento. Como os contadores de histórias nos próximos anos retratarão essa pandemia? Como eles irão narrar a onda de espírito solidário, os inúmeros heróis entre nós? Essas são questões a serem ponderadas à medida que aumentamos o tempo de leitura e preparamos o surgimento do novo mundo.
Jane Ciabattari
O Ano do Dilúvio (2009), de Margaret Atwood, mostra-nos um mundo pós-pandêmico com humanos quase extintos, após a maioria da população ter sido exterminada 25 anos antes pelo 'Dilúvio sem Água', uma peste virulenta que "viajava pelo ar como se tivesse asas, queimando cidades como fogo".
Atwood captura o extremo isolamento sentido pelos poucos sobreviventes. Toby, uma jardineira, olha o horizonte do jardim da cobertura de um spa deserto. "Deve haver mais alguém ... ela não pode ser a única no planeta. Deve haver outros. Mas amigos ou inimigos? Se ela vir um, como vai saber?". Ren, que foi dançarina de trapézio e "uma das mais limpas entre as sujas da cidade" está viva porque estava em quarentena por uma possível doença transmitida por um cliente. Ela escreve seu nome repetidamente. "Você pode esquecer quem você é se estiver sozinho demais", diz.
Por meio de flashbacks, Atwood explica como o equilíbrio entre os mundos natural e humano foi destruído pela bioengenharia patrocinada por grandes empresas e como ativistas como Toby reagiram. Sempre atenta aos problemas que tecnologia pode trazer, Atwood baseia seu trabalho em premissas plausíveis, tornando o Ano do Dilúvio terrivelmente presciente.
O que torna a ficção pandêmica tão envolvente é que os humanos se unem na luta contra um inimigo que não é um inimigo humano. Não existem 'mocinhos' ou 'bandidos'; a situação é mais sutil. Cada personagem tem uma chance igual de sobreviver ou não. A variedade de respostas de cada personagem às circunstâncias terríveis torna a história interessante para quem escreve - e para quem lê.
Severance (A Separação, em tradução livre - livro indisponível no Brasil), de Ling Ma (2018), que o autor descreveu como um "romance apocalíptico de escritório" com uma história de imigração, é narrada por Candace Chen, uma moça que trabalha em uma empresa de publicação da Bíblia e tem seu próprio blog. Ela é uma das nove sobreviventes que fogem da cidade de Nova York durante a pandemia fictícia da febre de Shen em 2011. Ma descreve a cidade depois que "a infraestrutura ... entrou em colapso, a internet caiu em um buraco, a rede elétrica foi fechada".
Candace se junta a um grupo numa viagem em direção a um shopping em um subúrbio de Chicago, onde o grupo planeja se estabelecer. Eles viajam por uma paisagem habitada pelos "febris", que são "criaturas de hábitos, imitando velhas rotinas e gestos" até morrerem. Os sobreviventes são imunes aleatoriamente? Ou "selecionados" pela orientação divina? Candace logo descobre que em troca da segurança de estar em grupo precisa demonstrar uma estrita lealdade às regras religiosas estabelecidas pelo líder do grupo Bob, um ex-técnico de TI autoritário. É apenas uma questão de tempo até que ela se rebele.
Nossa própria situação atual é, obviamente, nem de longe tão extrema quanto a prevista em Severance. Ling Ma explora o pior cenário que, felizmente, não estamos enfrentando. Em seu romance, ela analisa o que acontece em seu mundo imaginário após a pandemia desaparecer. Depois do pior, quem está encarregado de reconstruir uma comunidade, uma cultura? Entre um grupo aleatório de sobreviventes, o romance pergunta: quem decide quem tem poder? Quem define as diretrizes para a prática religiosa? Como os indivíduos retêm poder de agência?
As vertentes narrativas do romance Estação Onze, de Emily St John Mandel, de 2014, ocorrem antes, durante e depois de uma gripe ferozmente contagiosa originária da República da Geórgia "explodir como uma bomba de nêutrons na superfície da terra", destruindo 99% da população da população global. A pandemia começa na noite em que um ator que interpreta o rei Lear, personagem de Shakespeare, sofre um ataque cardíaco no palco. Sua esposa é autora de histórias em quadrinhos de ficção científica ambientadas em um planeta chamado Estação Onze. O livro tem ecos dos Contos de Canterbury, clássico da literatura inglesa, escrito por Chaucer, o prototípico e irreverente ciclo de histórias do século 14, que tem como pano de fundo a peste negra.
Quem e o que determina a arte, pergunta Mandel? A cultura de celebridades importa? Como vamos reconstruir as coisas depois que o vírus invisível nos sitiar? Como a arte e a cultura mudarão? Sem dúvida, existem romances sobre nossas circunstâncias atuais em andamento. Como os contadores de histórias nos próximos anos retratarão essa pandemia? Como eles irão narrar a onda de espírito solidário, os inúmeros heróis entre nós? Essas são questões a serem ponderadas à medida que aumentamos o tempo de leitura e preparamos o surgimento do novo mundo.
Jane Ciabattari
segunda-feira, abril 27
Vida
![]() |
| Nuri Ann |
E assim, portanto, não adianta ambição. Você trabalhando por um lado, a morte trabalhando pelo outro, são como duas cobras que se mordem pela cauda. Você se agitando, cuidando que está construindo, enquanto ela, silenciosa, rói sem parar, a estrutura interna, deixando apenas a ilusão da superestrutura: mas é oca, já não tem nada dentro. Você compra, vende, aprende alemão, constrói casa própria e faz ginástica. Tudo isso a serviço de quem se supõe vivo – pelo menos por um prazo; como se o relógio parasse para você gozar um momento a paisagem e o ar bom! Porém, na verdade, você desde o começo é um meio-morto, que aos poucos vai se entregando – todo dia um pedacinho, até a entrega definitiva.
E depois não adianta orgulho. Você ergue a voz, mas sabe por acaso com o que conta para apoiar a sua arrogância? Talvez na sua caixa do peito só reste um fole vazio. Seu passo é firme, agora, mas pode estar cambaleando dentro de dez minutos. Sabe, talvez você há anos esteja se mantendo de pé apenas por autossugestão.
E escute mais: nem o pudor adianta. Esse ciúme de si mesmo que muitos pensam que é virtude, essa valorização da carne viva, esse mistério, que nem aos olhos amantes se desvenda total, essa fração de corpo secreta e triste que todos escondemos até de nossa própria vista, talvez hoje, talvez daqui a pouco, seja tirada ao seu controle, entregue às mãos dos outros, exposta, manipulada, retratada. E aí, de que serviram tantos anos de recato? Para chegar a tal exibição?
E então para que todo o esforço? Para que glorificar o que é um simples processo de desgaste e enfeitá-lo com paixões, conquistas e esperanças? Se viver é a própria negação da vida, ou a sua destruição, para que sofrer e lutar, enfrentando esse duro caminho que não leva a lugar nenhum? É como nadar de terra para o mar alto. Adiante não há mais nada, só água funda, oceano. Terra não há, nem ilha, nem nova praia; só a água funda, comedeira. Então que loucura é essa de oferecer o peito à vaga, furar a rebentação, cortar a água com os braços? Por mais que se esforce o nadador, mais hora menos hora terá que parar, exausto, mergulhando de vez na onda amarga. Digam, digam para que deixar a praia, se há a certeza de que nada espera o nadador, nada, senão a asfixia final?
Revanche dos clássicos: livros que eram deixados para depois viram meta durante a pandemia
— O fechamento das lojas mudou completamente o perfil das vendas — diz Rafaella Machado, editora do Grupo Record. — O público que tem comprado livros via e-commerce é mais velho, e livros pop e juvenis, que dependem de grandes redes ou de eventos para vender, tendem a ficar em segundo plano. O que está sustentando o mercado agora é a força do catálogo, os livros já consagrados e os clássicos.
Publisher do grupo Companhia das Letras, Otávio Marques da Costa resume o cenário:
— Editoras com um catálogo amplo e diverso têm a chave para sobreviver a esta crise. Como é natural que as empresas reduzam a produção, quem possui uma variedade maior de publicações consegue reagir ao presente e encontrar, no catálogo, títulos que tenham ressonância com o presente. Assim, navegam melhor na crise.
A migração para o e-commerce afeta hábitos de consumo e, por consequência, o produto final que acaba no nosso carrinho virtual. O consumidor tende a sentir-se mais atraído pelo conteúdo do livro do que pelo apelo de sua capa, aposta o conselheiro editorial Eduardo Vilela.
A migração para o e-commerce afeta hábitos de consumo e, por consequência, o produto final que acaba no nosso carrinho virtual. O consumidor tende a sentir-se mais atraído pelo conteúdo do livro do que pelo apelo de sua capa, aposta o conselheiro editorial Eduardo Vilela.
— Em uma loja, quando estou pegando o livro nas mãos, a compra por impulso é muito mais forte — ele diz. — Na internet o foco muda, o comprador tem mais tempo para refletir se realmente precisa do produto.
Novos hábitos de consumo, porém, não são suficientes para explicar a “vingança” do fundo de catálogo. O cenário geral do mercado editorial, que se encontra num momento dramático, mudou as regras do jogo. Com as incertezas econômicas, as pessoas passaram a poupar dinheiro. E os livros nem sempre aparecem no topo das prioridades, lembra Bruno Mendes, CEO e fundador do #coisadelivreiro, além de sócio do PublishNews. Um clássico, porém, é um clássico.
— As pessoas estão se programando para ler na quarentena o que sempre esteve na fila mas era constantemente adiado — conta Daniel Louzada, proprietário da Livraria Leonardo Da Vinci, citando o que nota nas vendas da empresa via site, WhatsApp e redes sociais, onde obras de Gabriel García Márquez, Fiódor Dostoiévski e José Saramago estão entre as mais buscadas hoje.
Às vezes, porém, os “veteranos” são mais recentes. A Intrínseca detectou o interesse de seus leitores voltando-se para obras lançadas há cerca de um ano, como “Um lugar bem longe daqui”, “O labirinto do fauno” e “Pequenos incêndios por toda parte”.
— Percebemos também uma volta dos “livros do coração”, ou seja, aqueles pelos quais as pessoas têm afeto. É o caso dos livros do Rick Riordan e da série “Crepúsculo”. Mas também de clássicos da Intrínseca, como “Precisamos falar sobre o Kevin” e “A menina que roubava livros”. As pessoas estão voltando a histórias confortáveis — avalia Heloisa Daou, diretora de marketing da editora
. — Esse movimento foi tão forte que mudamos nossa estratégia digital e estamos resgatando obras assim nas nossas redes sociais e em parcerias com blogueiros. Deu certo e as pessoas estão comprando.
Bruno Mendes lembra que, antes, para ficar no primeiro lugar geral no ranking brasileiro, um livro precisava vender entre 5 mil e 10 mil exemplares. Agora, como as vendas estão muito menores e mais pulverizadas, as primeiras posições variam muito facilmente.
— Livros que vendiam 4 mil exemplares estão vendendo 200 — compara a agente literária Lucia Riff. — A venda se espalhou entre e-book e catálogo, não tem mais a livraria, está completamente on-line. Mudou a maneira de comprar livros, há muitas promoções e campanhas das livrarias, há um outro perfil de venda, de comprador, mudou tudo.
Ou seja, há menos consumo, e quem está comprando tem escolhido livros que noutros tempos não ocupariam a lista geral. Sem a pressão das novidades, é a vez dos consagrados. Ou você não anda de olho na lista de “leituras imperdíveis para a quarentena”?
Ou seja, há menos consumo, e quem está comprando tem escolhido livros que noutros tempos não ocupariam a lista geral. Sem a pressão das novidades, é a vez dos consagrados. Ou você não anda de olho na lista de “leituras imperdíveis para a quarentena”?
domingo, abril 26
Reaprendendo a vida
![]() |
| Afrooz Gholizadeh |
Na véspera, Gérson, Arrascaeta, Éverton Ribeiro, Bruno Henrique e Gabigol tinham esmagado mais um. Na tarde seguinte, fomos a uma roda de choro numa praça, e, à noite, à inauguração de uma pequena livraria de rua, em que as pessoas riam e se abraçavam ao se rever. E, então, voltamos para casa. Onde estamos desde então —há exatamente um mês.
Por algum motivo, houve um alerta naquele fim de semana. Ninguém de nossas relações caiu doente, mas foi como se, de repente, os tambores tivessem ficado próximos, o Brasil perdesse a inocência e despertássemos para o inimigo do qual os outros países já estavam tentando se proteger. Nunca mais saímos.
Os saraus de música em casa, o futebol pela TV do botequim, na calçada, entre pessoas que nunca vimos, e as tardes e noites na rua, tudo isso parece agora pertencer a outra era, uma era mágica. E, no entanto, era tão natural quanto respirar e, por ser assim, nunca tínhamos pensado a respeito. Nem poderíamos —não existia uma possibilidade contrária. Como imaginar que, subitamente, olhando para trás, aquilo nos pareceria tão remoto? E foi outro dia mesmo.
Surgem pensamentos sombrios. E se naqueles últimos dias já houvesse risco de contágio? E se estivéssemos nos passando mutuamente o inimigo? Claro que nada aconteceu. Mas a cabeça é espírito de porco e vive de pensar.
Inclusive sobre o futuro, que não lhe compete. Passada a pandemia, quando nos sentiremos de novo confiantes para receber amigos? Quando voltaremos às ruas onde se assiste ao futebol, ouvem-se choros e se inauguram livrarias? Vamos ter de reaprender a vida —e seus mais inocentes prazeres.Ruy Castro
Despedimos-nos uns dos outros muitas vezes
![]() |
| Antoine Vincent SerneelsFrench |
Mesmo quando achamos que não nos despedimos, a verdade é que no fundo despedimos-nos muitas vezes. E isso é maravilhoso. A vida deu-nos isso. Termo-nos visto uns aos outros partir e regressar, dizer adeus e olá com a certeza de que nada se interrompe, voltar a ouvir mil vezes a voz dos que amamos, prolongando assim o extraordinário, o interminável encontro.
Precisamos também do socorro de outras palavras, e elas chegam se as quisermos ouvir. Vêm em nosso socorro essas palavras maiores, que não são para compreender talvez, mas que nos seguram enquanto certas despedidas (sobretudo as mais dolorosas) desprendem o seu vazio lentíssimo. Há um poema de Li Bai, um poeta chinês do século VIII, sobre dois amigos que se separam, que tenho entre os textos mais consoladores que li. "A verde montanha estende-se para lá da Muralha do Norte./ Brancas águas cercam a Muralha do Leste./ Quando aqui nos separarmos,/ seremos a erva aquática vogando por grandes distâncias. // As nuvens errantes me farão pensar em quem viaja./ O sol poente me recordará o meu amigo./ Já nos afastamos e agora acenamos com a mão./ E os nossos cavalos, um para o outro, relincham". Há palavras assim (todos temos as nossas) que são o frágil corrimão de corda que nos ampara quando a terra parece que toda se desprende.
Acredito muito naquilo que Raul Brandão deixou escrito: "Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em flor houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho desmedido que há de realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé".
Porventura o mais fecundo não está na pergunta: "porque é que eles partiram?", mas nessa outra que levaremos a vida a responder, e sempre em total gratidão: "porque é que eles vieram?".
José Tolentino Mendonça
sábado, abril 25
A um jovem
Prezado Alípio:
Ontem à noite, ao sair você de nosso apartamento, aonde fora em busca de sabedoria grega e só encontrou um conhaque e um gato por nome Crispim, assentei de reduzir a escrito o que lhe dissera. Aula de ceticismo? Não. Ele se aprende sozinho.
A única coisa que se pode remotamente concluir do que conversamos é: não vale a pena praticar a literatura, se ela contribuir para agravar a falta de caridade que trazemos do berço.
Por isso, e porque não adiantaria, não lhe dou conselhos. Dou-lhe anticonselhos, meu filho. E se o chamo de filho, perdoe: é balda de gente madura. Poderia chamar-lhe irmão, de tal maneira somos semelhantes, sem embargo do tempo e do pormenor físico: cultivamos ambos o real ilusório, que é um bem e um mal para a alma.
Pouco resta fazer quando não nascemos para os negócios nem para a política nem para o mister guerreiro. Nosso negócio é a contemplação da nuvem. Que pelo menos ele não nos torne demasiado antipáticos aos olhos dos coetâneos absorvidos por ocupações mais seculares.
Recolha pois estes apontamentos, Alípio, e saiba que eu o estimo:
I – Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
II – Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.
III – Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.
IV – Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
V – Leia muito e esqueça o mais que puder.
VI – Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro.
VII – Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.
VIII – Mas se disserem que seu novo livro é pior do que o anterior, pode ser que falem a verdade.
IX – Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.
X – Acha que sua infância foi maravilhosa e merece [ser] lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.
XI – Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.
XII – O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional. Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.
XIII – Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.
[Parte 2]
Mando-lhe aqui jovem Alípio, outras drágeas de suposta sabedoria, completando assim a instrução que lhe ministrei.
XIV – Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito a presunção de genialidade exclusiva.
XV – Faça fichas de leitura. As papelarias apreciam esse hábito. As fichas absorverão o seu excesso de vitalidade e, não usadas, são inofensivas.
XVI – Se sentir propensão para o “gang” literário, instale-se no seio de sua geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
XVII – Não se julgue mais honesto que o seu amigo porque soube identificar um elogio falso, e ele não. Talvez você seja apenas mais duro de coração.
XVIII – Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
XIX – Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.
XX – Seja mais tolerante com o cabotinismo de seu amigo; quase sempre esconde uma deficiência, e só impressiona a outros cabotinos.
XXI – Quanto ao seu próprio cabotinismo, ele esfriará se você observar que, na hipótese mais cristã, é objeto de tolerância alheia.
XXII – Antes de reproduzir na orelha de seu livro a opinião do confrade, pense, primeiro, que ele não autorizou a divulgação; segundo, que a opinião pode ser mera cortesia; terceiro, que você não admira tanto assim o confrade.
XXIII – Procure ser justo com os outros; se for muito difícil, bondoso; na pior eventualidade, omisso.
XXIV – Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto. E proceda à revisão periódica de suas admirações
XXV – Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos se ficar famoso; e se não ficar não terá valido a pena.
XXVI – Deixe-se fotografar à vontade, sem chamar os fotógrafos; não recuse autógrafos, mas não se mortifique se não os pedirem. Homero não deixou cartas nem retratos, mas Baudelaire deixou uns e outros. O essencial se passa com outros papéis.
XXVII – Você tem um diário para explicar-se; é assim tão emaranhado? Para justificar-se: sua consciência anda meio turva? Para projetar-se no futuro: julga-se tão extraordinário?
XXVIII – Trate as corporações com cortesia, pois poderá vir a ingressar numa; com indiferença, pois o mais provável é não ingressar nunca.
XXIX – Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
XXX – Boa composição oral é a de orgulho e humildade; esta nos absolve de nossas fraquezas; aquele nos impede de cair em outras. Quanto aos santos-escritores, é de supor que foram canonizados apesar da condição literária.
XXXI – Seja discreto. É tão mais cômodo!
Ontem à noite, ao sair você de nosso apartamento, aonde fora em busca de sabedoria grega e só encontrou um conhaque e um gato por nome Crispim, assentei de reduzir a escrito o que lhe dissera. Aula de ceticismo? Não. Ele se aprende sozinho.
A única coisa que se pode remotamente concluir do que conversamos é: não vale a pena praticar a literatura, se ela contribuir para agravar a falta de caridade que trazemos do berço.
![]() |
| Dani Torrent |
Pouco resta fazer quando não nascemos para os negócios nem para a política nem para o mister guerreiro. Nosso negócio é a contemplação da nuvem. Que pelo menos ele não nos torne demasiado antipáticos aos olhos dos coetâneos absorvidos por ocupações mais seculares.
Recolha pois estes apontamentos, Alípio, e saiba que eu o estimo:
I – Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
II – Ao escrever, não pense que vai arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.
III – Se ficar indeciso entre dois adjetivos, jogue fora ambos, e use o substantivo.
IV – Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
V – Leia muito e esqueça o mais que puder.
VI – Anote as idéias que lhe vierem na rua, para evitar desenvolvê-las. O acaso é mau conselheiro.
VII – Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom.
VIII – Mas se disserem que seu novo livro é pior do que o anterior, pode ser que falem a verdade.
IX – Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais que fazer.
X – Acha que sua infância foi maravilhosa e merece [ser] lembrada a todo momento em seus escritos? Seus companheiros de infância aí estão, e têm opinião diversa.
XI – Não cumprimente com humildade o escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que se trate de um escritor.
XII – O porteiro do seu edifício provavelmente ignora a existência, no imóvel, de um escritor excepcional. Não julgue por isso que todos os assalariados modestos sejam insensíveis à literatura, nem que haja obrigatoriamente escritores excepcionais em todos os andares.
XIII – Não tire cópias de suas cartas, pensando no futuro. O fogo, a umidade e as traças podem inutilizar sua cautela. É mais simples confiar na falta de método desses três críticos literários.
[Parte 2]
Mando-lhe aqui jovem Alípio, outras drágeas de suposta sabedoria, completando assim a instrução que lhe ministrei.
XIV – Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito a presunção de genialidade exclusiva.
XV – Faça fichas de leitura. As papelarias apreciam esse hábito. As fichas absorverão o seu excesso de vitalidade e, não usadas, são inofensivas.
XVI – Se sentir propensão para o “gang” literário, instale-se no seio de sua geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
XVII – Não se julgue mais honesto que o seu amigo porque soube identificar um elogio falso, e ele não. Talvez você seja apenas mais duro de coração.
XVIII – Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
XIX – Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.
XX – Seja mais tolerante com o cabotinismo de seu amigo; quase sempre esconde uma deficiência, e só impressiona a outros cabotinos.
XXI – Quanto ao seu próprio cabotinismo, ele esfriará se você observar que, na hipótese mais cristã, é objeto de tolerância alheia.
XXII – Antes de reproduzir na orelha de seu livro a opinião do confrade, pense, primeiro, que ele não autorizou a divulgação; segundo, que a opinião pode ser mera cortesia; terceiro, que você não admira tanto assim o confrade.
XXIII – Procure ser justo com os outros; se for muito difícil, bondoso; na pior eventualidade, omisso.
XXIV – Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto. E proceda à revisão periódica de suas admirações
XXV – Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos se ficar famoso; e se não ficar não terá valido a pena.
XXVI – Deixe-se fotografar à vontade, sem chamar os fotógrafos; não recuse autógrafos, mas não se mortifique se não os pedirem. Homero não deixou cartas nem retratos, mas Baudelaire deixou uns e outros. O essencial se passa com outros papéis.
XXVII – Você tem um diário para explicar-se; é assim tão emaranhado? Para justificar-se: sua consciência anda meio turva? Para projetar-se no futuro: julga-se tão extraordinário?
XXVIII – Trate as corporações com cortesia, pois poderá vir a ingressar numa; com indiferença, pois o mais provável é não ingressar nunca.
XXIX – Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
XXX – Boa composição oral é a de orgulho e humildade; esta nos absolve de nossas fraquezas; aquele nos impede de cair em outras. Quanto aos santos-escritores, é de supor que foram canonizados apesar da condição literária.
XXXI – Seja discreto. É tão mais cômodo!
Carlos Drummond de Andrade, "A bolsa & a vida"
sexta-feira, abril 24
Os nossos livros
Essa pequenina biblioteca itinerante foi crescendo e, de casa em casa, fez-se a já pesada biblioteca que hoje é. De todo o modo, contrasta enormemente – é formiga perante elefante – com a mais impressionante biblioteca particular que já vi e sobre a qual, com a devida autorização do proprietário e curador, aqui deixarei algumas linhas.
Há uns anos, o escritor Valter Hugo Mãe disse-me: tens de ver. E eu alinhei, movido pela vontade de ver para crer. A casa era a do cineasta e crítico de cinema Lauro António, em Lisboa, e o adjetivo que melhor lhe serve é: inesquecível. Não era uma casa onde morasse gente; era antes uma casa onde moravam livros e na qual estes permitiam que também morassem pessoas. Por usucapião, os livros tinham tomado conta da casa, ela era deles e eles estavam em contínua multiplicação há décadas. Tudo ali eram livros. Talvez para se lerem uns aos outros, alguns até se tinham barricado numa divisão, que ocupavam por completo. Estavam em pilhas, do chão ao teto, do fundo até à entrada, e decidiram jogar-se contra a porta, que, tendo sobre ela o peso de tanta literatura, não se conseguia abrir. Acaso um dia tenham decidido arrancá-la, uma avalancha de histórias terá rolado pelo corredor afora. Inolvidáveis, também, as estantes desse corredor, nas quais moravam, organizadas com cuidados de joalheiro, as obras completas dos grandes autores portugueses. E o sofá? Belíssimo, apesar de não lhe ter visto um centímetro – apenas o pude adivinhar. Também ele estava tomado pelos livros – era assento deles e não dos humanos por eles autorizados a viverem naquela casa de nove assoalhadas – e só se identificava por ser um volume retangular de grandes dimensões revestido de livros algures naquilo que se imagina ter sido o centro do que fora uma sala. Havia livros por todo o lado, circular era fazer gincanas sucessivas entre pilhas que precariamente equilibravam saberes e mundos em cima de outras pilhas. Como estalactites e estalagmites, umas pareciam vir do teto e outras nascer do soalho aquecido por tanto papel. Eram mais de – pasmemo-nos – oitenta mil os volumes que por amor e dedicação extremos aos livros Lauro António guardava naquele apartamento – sim, leram bem, num apartamento. Recentemente, cerca de metade desta biblioteca foi oferecida à Câmara de Setúbal, que inaugurará em breve um espaço com o nome do crítico e cineasta.
Poderia estender esta crónica durante linhas infindas, dando conta de imagens e pormenores daquele espaço mirífico que se me agarraram à lembrança. Não o farei, porque embora o fascínio desta biblioteca venha da sua dimensão e da forma como, qual árvore que extravasa o recipiente em que a procuraram conter, tomou toda a casa e não parou de crescer (inclusivamente dentro da memória e da imaginação de quem a visitou), as bibliotecas não precisam de ser gigantescas para nos comoverem. E comove-me tanto a escassez da minha pequena estante de estudante como a fascinante casa-livro que aqui apresentei. Numa e noutra, nestas duas como em quaisquer outras bibliotecas, pequenas ou grandes, lá estão o primeiro livro que nos apaixonou, o livro que nos foi oferecido por alguém especial, o livro que fez de nós leitores, o livro que nos pôs a escrever, o livro que nos fez entender determinada realidade, o livro que nos demonstrou que não percebemos nada de realidade nenhuma, o livro que nunca lemos mas que haveremos de ler, o livro que tem aquela dedicatória do autor, o livro que tem aquela dedicatória de um amor antigo, etc.
Poucos ou muitos, e mesmo partilhando o que neles está escrito com milhares ou milhões de outras pessoas, aqueles são os nossos livros, os objetos através dos quais chegaram até nós as palavras que, não duvidemos, alguém escreveu para nós. A biblioteca de cada um é um conjunto de lugares simbólicos, insubstituíveis; é um espaço sagrado que nos alicerça e conforta, ao qual queremos sentir que podemos voltar sempre que quisermos ou entendermos necessário; cheia de portas por e para abrir, a biblioteca de cada um é uma casa dentro de outra casa e, voltemos a não duvidar, porque no que toca a valorizar os livros não há que ter senão certezas, o lugar mais valioso na casa de cada um, mesmo que confinada a uma estantezeca com ar caduco.
'Eu era uma traça gorda...'
Sou uma traça.
Há tempos tive a felicidade de instalar-me numa imensa estante de livros e por isso eu era uma traça gorda, muito bem alimentada. E eu não admitia que viessem me falar em fazer regime porque minha despensa estava muito longe de se esgotar. Além do mais, o dono da estante deveria ser muito ocupado, pois raramente aparecia para perturbar as minhas refeições.
Mas agora tenho uma queixa dolorosa: dizem que um animalzinho minúsculo, muito menor do que eu, voraz, guloso, resolveu habitar nos humanos e até matá-los!
Com medo disso, o dono da estante e dos livros está preso em casa para se esconder desse anãozinho. E vejam que infelicidade! Eu estava justamente jantando um volume dos “Irmãos Karamazov”, uma refeição para quatrocentos talheres, não tinha ainda devorado nem a página de rosto, quando meu jantar foi retirado da estante! Espanado do pó e do bolor, o livrão foi sacudido e eu tive de me esconder debaixo da lombada.
O meu jantar e eu fomos levados para o colo do dono da estante e eu tive de me virar para não ser descoberta a cada página virada.
Bem encolhida, fiquei a pensar no que irá acontecer com a minha espécie... Lembro-me de ficar sabendo, ao devorar um capítulo de “Biologia para Principiantes”, que toda a vida na Terra tinha sido exterminada há milhões de anos pela colisão de um imenso rochedo que viera dos ares. Quer dizer que agora a minha espécie vai ser exterminada não por um gigante, mas por um minúsculo verme? Bem, verme sou eu, esse invasor não passa de um cocozinho de verme!
Com o rabo do olho, vejo um jornal dobrado na mesa ao lado de onde se senta o dono da estante e dos livros. E ali está escrito que o governo do Uruguai, por causa de todo mundo de seu país estar preso em casa para fugir do anãozinho, está distribuindo cestas básicas com comida para as famílias e, junto com latas e pacotes, na tal cesta vão... livros!
Livros para ocupar essa gente toda que não tem o que fazer fechados em casa! Não são livros para alimentar a minha espécie, não! São verdadeiros atentados a minha espécie! Será... será que eu vou ter de emagrecer? Ai, ai, ai, “Os Irmãos Karamazov” eram tão gostosinhos...
Pedro Bandeira
Há tempos tive a felicidade de instalar-me numa imensa estante de livros e por isso eu era uma traça gorda, muito bem alimentada. E eu não admitia que viessem me falar em fazer regime porque minha despensa estava muito longe de se esgotar. Além do mais, o dono da estante deveria ser muito ocupado, pois raramente aparecia para perturbar as minhas refeições.
Mas agora tenho uma queixa dolorosa: dizem que um animalzinho minúsculo, muito menor do que eu, voraz, guloso, resolveu habitar nos humanos e até matá-los!
Com medo disso, o dono da estante e dos livros está preso em casa para se esconder desse anãozinho. E vejam que infelicidade! Eu estava justamente jantando um volume dos “Irmãos Karamazov”, uma refeição para quatrocentos talheres, não tinha ainda devorado nem a página de rosto, quando meu jantar foi retirado da estante! Espanado do pó e do bolor, o livrão foi sacudido e eu tive de me esconder debaixo da lombada.
O meu jantar e eu fomos levados para o colo do dono da estante e eu tive de me virar para não ser descoberta a cada página virada.
Bem encolhida, fiquei a pensar no que irá acontecer com a minha espécie... Lembro-me de ficar sabendo, ao devorar um capítulo de “Biologia para Principiantes”, que toda a vida na Terra tinha sido exterminada há milhões de anos pela colisão de um imenso rochedo que viera dos ares. Quer dizer que agora a minha espécie vai ser exterminada não por um gigante, mas por um minúsculo verme? Bem, verme sou eu, esse invasor não passa de um cocozinho de verme!
Com o rabo do olho, vejo um jornal dobrado na mesa ao lado de onde se senta o dono da estante e dos livros. E ali está escrito que o governo do Uruguai, por causa de todo mundo de seu país estar preso em casa para fugir do anãozinho, está distribuindo cestas básicas com comida para as famílias e, junto com latas e pacotes, na tal cesta vão... livros!
Livros para ocupar essa gente toda que não tem o que fazer fechados em casa! Não são livros para alimentar a minha espécie, não! São verdadeiros atentados a minha espécie! Será... será que eu vou ter de emagrecer? Ai, ai, ai, “Os Irmãos Karamazov” eram tão gostosinhos...
Pedro Bandeira
quinta-feira, abril 23
Poemas aos homens do nosso tempo
![]() |
| Hans van der Leeuw |
I
Senhoras e senhores, olhai-nos.
Repensamos a tarefa de pensar o mundo.
E quando a noite vem
Vem a contrafacção dos nossos rostos
Rosto perigoso, rosto-pensamento
Sobre os vossos atos.
A muitos os poetas lembrariam
Que o homem não é para ser engolido
Por vossas gargantas mentirosas.
E sempre um ou dois dos vossos engolidos
Deixarão suas heranças, suas memórias
A IDEIA, meus senhores
E essa é mais brilhosa
Do que o brilho fugaz de vossas botas.
Cantando amor, os poetas na noite
Repensam a tarefa de pensar o mundo.
E podeis crer que há muito mais vigor
No lirismo aparente
No amante Fazedor da palavra
Do que na mão que esmaga.
A ideia é ambiciosa e santa.
E o amor dos poetas pelos homens
É mais vasto
Do que a voracidade que vos move.
E mais forte há de ser
Quanto mais parco
Aos vossos olhos possa parecer.
Hilda Hilst
Assinar:
Postagens (Atom)




















