segunda-feira, julho 25

O amor e suas palavras

As palavras do amor eram pura melodia. Elas nos embriagavam, nos inebriavam, nos enfeitiçavam tão completamente que nos censurávamos sempre, por nos julgarmos indignos de ouvi-las. Quando descobriu nossa pequenez, ele se foi e levou suas palavras a ouvidos que nosso despeito e nossa maldade diariamente amaldiçoam.

***

Chego à idade da razão sem método, sem mérito e sem empolgação.

***

Dourada foi a época em que os artistas do mundo todo passavam ao menos um ano em Paris. No regresso traziam sempre alguma novidade, mesmo que fosse um bigode ou um cavanhaque.

***

Morramos nós do que for, se for preciso mintamos e ao mundo todo digamos que morremos de amor.

***

Se o assunto for alegria, não me chamem. Se for tristeza, vou e tomo partido.

***

Embora até possam dizer que não, os leitores, apesar de todos os modernismos, ainda esperam que os poetas, falem do que falarem, falem principalmente de amor.

***

A tristeza não tem fim, só recomeços.

***

O que tínhamos fomos dando ao amor. Depois que se apossou de tudo, nunca mais vimos seu rosto de anjo e seus olhos pedinchões.

***

Todos sabiam de que venturoso mal padecíamos no tempo em que nos subjugava o amor. Nossos olhos encovados e nosso agradecido rosto de mártir nos denunciavam.

***

Seria inadequado eu dizer que a poesia me deve alguma coisa. Pode alguém considerar sério um pacto que um velho bisonho, na época ainda com vinte anos incompletos, diz ter firmado com uma senhora brilhante e respeitabilíssima?

***

Habituado a lidar com as flores, os passarinhos e as mulheres, o desiludido poeta romântico hoje convertido às causas sociais procura rimas para povo, cidadãos, liberdade e luta e a cada poema que faz imagina que com ele se deflagrará uma revolução.
Raul Drewnick

Não se pode existir sem ler

Só aprendi a escrever muito tempo depois, aos sete anos de idade. Talvez pudesse viver sem escrever, mas não creio que pudesse viver sem ler. Ler - descobri - vem antes de escrever. Uma sociedade pode existir - existem muitas, de fato - sem escrever, mas nenhuma sociedade pode existir sem ler. De acordo com o etnólogo Philippe Descola, as sociedades sem escrita têm sentido linear do tempo, enquanto nas sociedades ditas letradas o sentido do tempo é cumulativo; ambas sociedades movem-se dentro desses tempos diferentes mas igualmente complexos, lendo uma infinidade de sinais que o mundo tem a oferecer. Mesmo em sociedades que deixaram registros de sua passagem, a leitura precede a escrita; o futuro escritor deve ser capaz de reconhecer e decifrar o sistema social de signos antes de colocá-los no papel. Para a maioria das sociedades letradas - para o Islã, para sociedades judaicas e cristãs como a minha, para os antigos maias, para as vastas culturas budistas -, ler está no princípio do contrato social; aprender a ler foi meu rito de passagem.

Depois que aprendi a ler minhas letras, li de tudo: livros, mas também notícias, anúncios, os tipos de pequenos no verso da passagem do bonde, letras jogadas no lixo, jornais velhos apanhados sob o banco do parque, grafites, a contracapa das revistas de outros passageiros no ônibus. Quando fiquei sabendo que Cervantes, em seu apego à leitura, lia até os pedaços de papel rasgado na rua, entendi exatamente que impulso o levava a isso.
Alberto Manguel, "História da leitura"

domingo, julho 24

Marcador eletrônico

 


Carta ao meu cão

Sei que não sabes ler. Sei que não conheces as letras. Mas sei que sabes tudo sem elas. Por isso te escrevo para te dizer aquilo que não lês. Que te espero incessantemente nesta casa que é tua. Tudo está tão só sem ti. Aqueles latidos que nos dirigias , quando chegávamos sem te ter levado connosco, como lhes sinto a falta. Detestavas ficar em casa sozinho. E nem sempre era possível levar-te. Tu sabia-lo , mas também sabias que estarmos juntos era muito melhor. Somos uma família. E és um elemento importante que de todos necessita. São os mimos que recebes e que retribuis com essa mansa solicitude que nos enche o coração. Estás para todos em constante bonomia.

Nem sei se sabes quanto me delicias, quando te aninhas aos meus pés, sempre que me sento para escrever . O tempo tem outra dimensão. E a leveza do teu respirar dá às palavras a fluidez certa. E, sem ti , tudo se torna pesado. As palavras engasgam-se para se soltarem em redondo movimento, quase estranha e errática litania.

Tudo aqui reflecte a tua ausência. Não há um único espaço da casa que não fale de ti. De tudo sabes, de tudo relatas, de tudo te ocupas. Nunca deixaste de guardar este nosso território. É o nosso lar. E como o conheces bem.
E agora, meu amigo, como estar aqui sem ti?! Há tantos dias que estás a lutar pela vida, nessa casa com tantos tubos na pele. Não é esse o teu espaço. Todos nós o sabemos. Ver-te assim é uma dor que magoa. E magoa mais ainda ter de te deixar aí , sem nós, para regressar aqui , sem ti.

Que Deus te ajude, meu querido Ziggy. Esperamos por ti.
Eugénio Lisboa

Fogos cruzados

“Um dia nós seremos atacados?”, foi o que minha filha perguntou outro dia, porque o assunto ambiente devia estar rondando alguma das cotidianas tragédias de uma população armada. E como é que às vezes desatamos a comentar barbaridades como se uma criança, por ter seu halo de mundo próprio, não nos ouvisse nem levasse para dentro o que dizemos? Está certo que não é para já destampar o poço do hediondo nem interessa ensaiar em casa as bofetadas do mundo, mas a prática de pequenos assombros talvez não seja de todo desaconselhável, uma vez que sempre há aqueles inopinados, inevitáveis, que não poupam nem aos menores de idade. Por exemplo, de tanto ter visto gente morando ou andarilhando na rua, minha filha merece saber que muitos desses que hoje vagam por aí já tiveram casa, família, talvez até outro nome, e que qualquer um, minha filha, qualquer um pode parar na rua, um dia. E antes que o ar fique muito grave ou o chão excessivamente frágil, cai na roda outro assunto, não menos real nem tão longínquo para uma criança quanto parece ser para nós, também notícia desses dias, aquele incêndio esplendoroso no céu pelo telescópio James Webb, todo aquele espetáculo, enquanto aqui embaixo a gente se engalfinha, luzes que nem parecem velhas, tão resplandecentes que parecem fogo fresco, para acabar de uma vez só com todas as nossas armas e praxes de truculência. Mas, afinal, chega de fogo. Me conte você, minha filha, como era mesmo aquela história que você inventou, também outro dia? Era uma vez um menino que vivia num mundo onde tudo e todos faziam sentido, só ele não.

Mariana Ianelli

Leitura aventureira

 


A tempestade é você

Nick Botting
Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.

(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.

E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami, "Kafka à beira-mar"

sexta-feira, julho 22

Companhia no café

 


Os poderes da Literatura

Há livros escritos para evitar espaços vazios nas estantes
Carlos Drummond de Andrade

A literatura tem grandes poderes e grandes fastios. Não vou enumerar aqui todos os seus poderes nem todos os seus fastios. Estaríamos aqui até chegarem aí os chineses.

Um dos seus mais admiráveis, estimáveis e quase nunca alardeados poderes é o de, mais do que tornar o leitor um admirador do escritor, ser capaz de fazer dele um amigo. Há escritores de quem ficamos gratos amigos, depois de os lermos, mesmo sem os termos pessoalmente conhecido, mesmo não tendo vivido no mesmo século que eles. Para dar só alguns exemplos, repito: só alguns exemplos, Camões, o Padre António Vieira, Garrett, Camilo, Eça, Pessoa, Régio (há meninos que, para efeito curricular académico, gostam de definir a presença, suprimindo Régio e dando como suas balizas Nemésio e Torga, o que, além de ser estúpida afronta, é, eruditamente falando, um ciclópico disparate, porque Nemésio e Torga pouco tiveram que ver com a presença. Mas, ocultar Régio afaga o ego de certos docentes que, fazendo também versos, desconhecem a mais elementar arte poética, e os candidatos a docentes sabem bem para que lado o vento sopra), Domingos Monteiro, Rodrigues Miguéis, Jorge de Sena, Sophia (a sua poesia, não ela), Montaigne, Voltaire, Vauvenargues, Stendhal, Baudelaire, Gide, Roger Martin du Gard, Edgar Poe, Mark Twain, Dickens, Charlotte Brontë, Tolstoi, Tcheckov, Turguenev e outros. Repito que falo de amizades e não de admirações: há escritores que admiramos mas que não consideramos necessariamente nossos amigos. Seja como for, quer haja só admiração, quer haja também amizade, a literatura ajuda-nos a viver, protege-nos e torna-nos a vida viável, mais rica e aprazível.

Dizia o ficcionista americano Charles Bukowski que, sem a literatura, a vida seria um inferno. Isto é bem verdade, mas a literatura que impede que a nossa vida se torne num inferno é só uma certa literatura. Há, julgo eu, mais duas espécies de literatura: aquela que nos deixa completamente indiferentes e que, quando a lemos, não altera nada dentro de nós, e aquela que torna a nossa vida num inferno. A primeira, a que nos deixa exactamente como éramos antes de a lermos, é aquela que Carlos Drummond de Andrade dizia só servir “para evitar espaços vazios na estante”. É uma literatura constituída por livros que não nos incomodam, mas também nos não exaltam, que não nos arreliam mas também não nos modificam. Digamos que são livros neutros, assexuados, desnecessários, mas não necessariamente malignos.

Porém, há outra categoria de literatura, a dos livros que fazem da nossa vida um inferno, que nos fazem mau sangue e nos produzem enxaquecas intratáveis. Livros que interferem com o normal funcionamento do nosso organismo e com a nossa saúde mental. Infelizmente, a nossa literatura portuguesa contemporânea, com a bênção de tantas das nossas vestais universitárias & outras, abunda nesta espécie de literatura infernal. Ainda há pouco, tive ocasião de identificar uma dessas espécies – para o caso, um romance – cujo contacto me abalou a saúde para sempre. Para estes malfeitores devia congeminar-se legislação adequada. Que diabo, um crime é um crime!

A única vantagem destes livros sulfurosos é esta: se duas pessoas que se encontram pela primeira vez verificam que ambos acham infernal um mesmo livro, há grande probabilidade de essas duas pessoas se tornarem grandes amigas para o resto dos seus dias. Inversamente, como observava o maravilhoso P. G. Wodehouse, “não há base mais segura para uma bonita amizade do que um gosto mútuo na literatura.” Por outras palavras, o inferno une mas o céu também.
Seja como for, a literatura tem admiráveis poderes: abre-nos mundos novos, é, como dizia Kafka, “uma expedição em direcção à verdade”, consola-nos, desafia-nos, provoca-nos, ensina-nos, obriga-nos a desaprendermos conceitos falsos mas muito enraizados, ilumina as dificuldades com que, na vida, deparamos, e enriquece-nos das maneiras mais diversas.

Talvez possamos resumir os poderes benévolos da literatura, por estas palavras singelas e sábias do filósofo, linguista e ensaísta literário búlgaro, radicado em Paris, Tzvetan Todorov: “Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é porque ela me ajuda a viver”.

quinta-feira, julho 21

Leitura auto-sustentável

 


A destruição do conhecimento

Com o avanço de nossa tecnologia, conseguimos vislumbrar o futuro e o espaço sideral com um olhar diferente do que tinham os cientistas e pensadores do início do século XX. Do mesmo modo, hoje podemos analisar o passado com maior percepção e conhecimento tecnológico, pois assim como pudemos imaginar um futuro diferente daquele que nossos avós conseguiram idealizar, nós também podemos olhar o passado de forma distinta daquela imaginada pelos cientistas e especialistas de um século atrás.

Assim como nosso escopo do universo foi forçado a recuar até os mais distantes pontos do espaço, temos hoje condição de recuar até os pontos mais remotos da história. E muitos pesquisadores estão fazendo exatamente isso.

A Atlântida, com sua cultura avançada, é mencionada em textos antigos. Para começar, é citada nos Diálogos de Platão (extraídos, segundo o texto, de antigos registros egípcios), e quase todas as antigas culturas do planeta têm mitos e lendas sobre um mundo anterior e sobre o cataclismo que o destruiu. Maias, astecas e hopis acreditavam na destruição de quatro mundos (ou mais) antes do nosso. Pode ser que a destruição da Atlântida não seja sequer o mais recente cataclismo a afligir a Terra.

Os livros mais conhecidos do mundo, como a Bíblia, o Mahabharata, o Corão e até o Tao Te Ching mencionam cataclismos e antigas civilizações destruídas. Antigas civilizações e histórias a respeito delas preencheram milhares, até centenas de milhares de volumes de livros que eram guardados em bibliotecas espalhadas pelo mundo na Antiguidade. Muitas das bibliotecas antigas eram tão vastas que ficaram famosas entre os historiadores locais. A Biblioteca de Alexandria é um exemplo conhecido.


Infelizmente, é fato que, ao longo da história, bibliotecas e arquivos imensos foram deliberadamente destruídos. Segundo o famoso astrônomo Carl Sagan, existiu um livro intitulado A verdadeira história da humanidade nos últimos 100 mil anos, e encontrava-se no acervo de Alexandria. Infelizmente, este livro, como milhares de outros, foi queimado por cristãos fanáticos no século III. Os exemplares que se salvaram foram queimados alguns séculos depois pelos muçulmanos para aquecer a água do banho.

Todos os textos chineses antigos foram destruídos em 212 a.C. por ordem do imperador Chin Shih Huang Ti, construtor da famosa Muralha da China. Enormes lotes de textos antigos - praticamente tudo que dizia respeito à história, à filosofia e à ciência - foram apreendidos e queimados. Bibliotecas inteiras foram destruídas, inclusive a biblioteca real, e algumas das obras de Confúcio e de Mêncio também desapareceram nessa devastação do conhecimento. Felizmente, alguns livros sobreviveram porque algumas pessoas os ocultaram em cavernas subterrâneas, e muitas obras foram escondidas em templos taoístas, onde até hoje são religiosamente mantidas e preservadas.

Os conquistadores espanhóis destruíram todos os códices maias que encontraram. Dos muitos milhares de livros encontrados, tem-se conhecimento de apenas três ou quatro ainda existentes. Tal como as seitas cristãs fanáticas do século III e o imperador Chin Shih Huang Ti no século III a.C., os conquistadores espanhóis quiseram apagar todo e qualquer conhecimento do passado e os registros que o preservavam.

A Europa e o Mediterrâneo mergulharam na infame Idade das Trevas, quando a igreja cristã sofreu seu primeiro Cisma após uma série de concílios, a começar pelo de Nicéia, em 325. O último patriarca da igreja cristã primitiva, Nestório, foi deposto pelo Concílio de Éfeso em 431, sendo banido para a Líbia e provocando o deslocamento da igreja nestoriana para o Oriente. O conflito dizia respeito à antiga doutrina cristã da reencarnação, e à ideia de que Cristo teria natureza dupla: Jesus seria um Mestre, enquanto Cristo seria o arcanjo Melquisedeque.

No ímpeto desse conflito, todos os livros do império bizantino foram destruídos, exceto a nova versão da Bíblia, autorizada pela Igreja Católica. A Biblioteca de Alexandria foi destruída nessa época, quando a grande matemática e filósofa Hypatia foi arrastada de sua carruagem e dilacerada por uma multidão, que depois se dirigiu à biblioteca e incendiou-a. Assim teve início a supressão da ciência e do conhecimento, particularmente de nosso passado mais remoto. O conhecimento tem sido suprimido ao longo dos últimos dois mil anos. Às vezes, diz-se que a história é escrita pelos vencedores das guerras, e não pelos perdedores; e tendo em vista a quantidade de propaganda política reconhecidamente bélica que ainda é tida como “história” popular no século XX, deveríamos realmente examinar boa parte da história antiga sob esse prisma. Sabendo dessa supressão, é espantoso que os poucos textos antigos que sobreviveram abordem, com efeito, civilizações avançadas e os cataclismos que as destruíram. Do mesmo modo, falam de sábios que viviam em harmonia com a Terra e com o funcionamento natural de todas as coisas. Em algum momento do passado remoto, porém, o homem perdeu a harmonia com a natureza, e uma catástrofe atingiu todo o planeta.

Vemos aqui um notável paralelo entre o antigo “mito” da Atlântida e a situação em que o homem moderno se encontra hoje. Será que o homem moderno irá sobreviver à sua própria tecnologia e tribalismo? Ou será que irá se destruir nos mecanismos naturais de suas práticas nocivas e em desarmonia com a Terra?
David Hatcher Childress, "A incrível tecnologia dos antigos"

Assim começa a esperança

 


História de Kessi

Henry van de Velde
O pai havia morrido. Kessi vivia com sua mãe, e era o melhor caçador. Cada dia recolhia peças de caça abatida para a mesa materna e alimentava os deuses com suas oferendas. Kessi enamorou-se de Shintalimeni, a mais jovem de sete irmãs. Esqueceu a caça, e entregou-se ao ócio e ao amor. A mãe repreendeu-o: O melhor caçador, caçado! O filho tomou a lança, chamou sua matilha e partiu. Porém o homem que esquece os deuses, pelos deuses é esquecido.

As feras se haviam escondido e ele vagou durante três meses.

Exausto, dormiu ao pé de uma árvore. Ali habitavam os duendes do bosque, e eles decidiram devorar o jovem. Mas esta era também a terra onde viviam os espíritos dos mortos, e o pai de Kessi imaginou um estratagema. “Gnomos! Por que vão matá-lo? Roubem sua capa para que sinta frio e se vá”. Os gnomos são gatunos e Kessi acordou com o vento que lhe assoviava nos ouvidos e lhe flagelava as costas. Dirigiu-se encosta abaixo, até uma luz que bruxoleava solitária no meio do vale.

Teve sete sonhos: Viu-se diante de uma enorme porta, que em vão tentou abrir. Viu-se nos fundos de uma casa onde trabalhavam as criadas, e uma enorme ave arrebatou uma delas. Viu-se em uma vasta pradaria que um grupo de homens percorria placidamente; brilhou um relâmpago, e um raio caiu sobre eles. Mudou a cena, e os antepassados de Kessi estavam reunidos em redor do fogo, e o avivavam. Viu-se com as mãos atadas e os pés presos com correntes, como colares de mulher.

Estava pronto para sair a caçar, e viu de um lado da porta um dragão, e do outro horrendas harpias.

Contou à sua mãe o ocorrido. A mãe o animou (“O junco se inclina sob a chuva e o vento, porém torna a erguer-se”) e lhe entregou uma meada de lã azul, cor que protege de feitiços e danos.

Kessi partiu em direção da montanha.

Os deuses continuavam ofendidos: não havia feras para caçar.

Kessi vagou sem rumo até cansar-se. Achou-se em frente a uma grande porta que era guardada por um dragão e horrendas harpias. Não conseguiu abrir a porta, ninguém respondeu aos seus chamados e decidiu esperar. O sono apoderou-se dele. Quando despertou, anoitecia e ele viu uma luz intermitente que se aproximava, se agigantava e terminou por cegá-lo: dela surgiu um homem alto e luminoso. Disse que aquela era a porta do ocaso, e que por trás dela se achava o reino dos mortos. O mortal que a transpusesse não poderia voltar. “Como podes tu, então, passar por ela?” “Eu sou o sol”, respondeu o deus, e entrou.

Do outro lado, os espíritos dos mortos esperavam para dar as boas vindas ao deus sol em sua visita noturna. Encontrava-se aí Udipsharri, pai de Shintalimeni. Ao ouvir a voz de seu genro, regozijou-se de que fosse ele o primeiro mortal a vir visitar os mortos. Suplicou ao sol que permitisse sua entrada.

— Muito bem, que passe a porta e me siga pelo caminho escuro; não regressará ao reino dos vivos. Atem suas mãos e seus pés para que não possa escapar.

Quando tenha visto tudo, eu o matarei.

Kessi encontrou-se diante de um túnel comprido e estreito. O deus sol se distanciava e se reduzia a um ponto. Udipsharri atou as mãos e os pés de Kessi e convidou-o a seguir a luz mortiça. Kessi viu os espíritos dos mortos, que avivavam o fogo: eram os ferreiros do deus, que forjam os raios que ele arroja à terra.

Sentiu que milhares de pássaros revoavam em torno. “Estas, disse Udipsharri, são as aves da morte, que levam ao mundo subterrâneo as almas dos mortos”. Kessi reconheceu a ave gigantesca de seus sonhos. Finalmente chegaram à porta do amanhecer. Kessi devia morrer, porém pediu perdão. O deus sol lembrou como Kessi se levantava na alvorada, caçava e fazia oferendas aos deuses. “Bem, determinou, irás junto com tua esposa e suas seis irmãs ao céu, de onde juntos contemplarão as estrelas eternas”.

Nas noites claras se vê, nas pradarias do céu, o Caçador, que tem as mãos atadas e os pés ligados com cadeias como colares de mulher. Junto do caçador resplandecem sete estrelas.

Conto hitita do segundo milênio a.C.
Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"

Dias perfeitos

Dias perfeitos são esses em que Meteorologia afirma, vai chover e chove mesmo: não os outros, quando se anda de capa e guarda-chuva para cá e para lá, até se perder um dos dois ou os dois juntos.

Dias perfeitos são esses em que todos os relógios amanhecem certos: o do pulso, o da cozinha, o da igreja, o da Glória, o da Carioca, excetuando-se apenas os das relojoarias, pois a graça, destes, é marcarem todos horas diferentes.

Dias perfeitos são esses em que os pneus não amanhecem vazios: as ruas acordam com dois ou três buracos consertados, pelo menos; o ônibus não vem em cima de nós, buzinando e na contramão; e os sinais de cruzamento não estão enguiçados e os guardas estão no seu posto, sem conversa para as morenas nem para os colegas.

Dias perfeitos são esses em que não cai botão nenhum da nossa roupa ou, se cair, uma pessoa amável aparecerá correndo, gastando o coração, para no-lo oferecer como quem oferece uma rosa, deplorando não dispor de linha e agulha para voltar a pô-lo no lugar.

Dias perfeitos são esses em que ninguém pisa nos nossos sapatos, nem esbarra com uma cesta nas nossas meias, ou, se isso acontecer, pede milhões de desculpas, hábito que se vai perdendo com uma velocidade supervostokiana.

Dias perfeitos são esses em que os guichês do Correio dispõem de gentis senhoritas e respeitáveis senhores que não estão fazendo crochê nem jogando xadrez sozinhos e não se aborrecem com o mísero pretendente à expedição de uma carta aérea, e até sabem quanto pesa a missiva e qual o seu destino, no mapa, e têm troco certo na gaveta, e não atiram os selos pelo ar como quem solta pombos da cartola. (Ah, esses são dias perfeitíssimos! ...)

Dias perfeitos são esses em que o motorista do carro de trás não buzina como um doido, os da direita e da esquerda não dançam quadrilha na nossa frente, e os velhotes não leem jornal no meio da rua, e as mocinhas que carregam à cabeça seus tabuleiros de penteados não resolvem atravessar, com suas perninhas trepadas em metro e meio de saltos, justamente por lugares por onde nem a bola de futebol doméstico se arrisca.

Dias perfeitos são esses em que se vai ao teatro, como mandam os amigos, e os atores sabem o que estão fazendo, e a vizinha de trás não conversa do prólogo ao epílogo sobre assuntos particulares, e a menina da frente não chupa, não mastiga e não assovia caramelos e o cavalheiro da esquerda não pega no sono, resvalando insensivelmente para cima de nós o seu mavioso ronco.

Dias perfeitos, esses em que voltamos para a casa e a encontramos intacta, no mesmo lugar, e intactos estão os nossos tristes ossos, e podemos dormir em paz, tranquilos e felizes como se voltássemos apenas de um passeio pelos anéis de Saturno.
Cecília Meireles, "Crônicas para jovens"

terça-feira, julho 19

Divã

 


Reler e reler

Há poucos exercícios tão interessantes e introspectivos como reler um livro que nos marcou há 10 ou 20 anos. O livro é o mesmo, mas nós somos outros e vamo-nos apercebendo da diferença com susto e espanto. Há tanto que não sabíamos e passámos a saber e há outro tanto que já esquecemos. Há coisas que achámos geniais e que agora parecem banais e outras a que não ligámos e a que agora damos relevância. O texto é o mesmo, mas nós mudámos e o mundo mudou também. "Não nos podemos banhar duas vezes nas mesmas águas", dizia Heráclito, e também não podemos ler duas vezes o mesmo livro
Nuno Camarneiro

O macaco que quis ser escritor satírico

Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.

Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.


Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.

Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.

E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.

Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.

Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.

Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.

Depois lhe ocorreu escrever sobre a promiscuidade sexual e desenvolveu sua sátira contra as galinhas adúlteras que andavam o dia inteiro inquietas procurando Frangotes; porém tantas dessas o tinham recebidos que teve medo de ofendê-las, e desistiu de fazê-lo.

Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.

Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.
Augusto Monterroso, "A ovelha negra e outras fábulas" 

segunda-feira, julho 18

A cada um seu planeta

 


Para viver...

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é porque ela me ajuda a viver
Tzvetan Todorov

A terra, a mesma

A terra sempre será a mesma – só as cidades e a história vão mudar, mesmo nações vão mudar, governos e governantes vão acabar, as coisas feitas pelas mãos do homem vão acabar, os prédios sempre vão cair – só a terra vai permanecer a mesma, sempre haverá homens na terra pela manhã, sempre haverá coisas feitas pela mão de Deus – e toda essa história de cidades e congressos agora vai embora, toda a história moderna é apenas uma Babilônia reluzente soltando fumaça ao sol, atrasando o dia em que os homens outra vez terão de voltar à terra, para a terra da vida e de Deus.

– Pergunte ao índio americano que mora na terra verde que cresceu nos telhados maias – James Joyce disse – “A História é um pesadelo do qual ainda não acordei.” 10 Mas ela está acordada, agora, isso é tão certo quanto a luz do sol.
Vivemos no mundo que vemos, mas só acreditamos no mundo que não vemos. Quem já acreditou no mundo e morreu com seu nome nos lábios? Quem já disse, no momento de morrer, “Acredito no futuro desta tolice, que a banalidade, esta irrelevância – vai viver para sempre!” Quem morreu sem pensar nas primeiras e últimas coisas, no alfa e ômega da vida na terra?


Viemos a esta terra e não sabemos o que devemos fazer, e em grande desordem e confusão, gritamos no fundo de nossas almas – “Deve ser verdade, pois eu mesmo sou verdade! Verdade! Mas tudo é falso e tolo à nossa volta, e nós mesmos somos os mais falsos e mais tolos, e, oh, o que devemos fazer? Que enorme desordem surge, e onde nós estamos nela? – Finalmente não sentimos que somos verdadeiros. Sentimos que somos completamente falsos. Mas em breve vou escrever um trabalho intitulado “Razões estranhas para o fim da pena capital e por que os homens não devem mais cometer suicídio”, no qual vou mostrar que não importa o que tenha sido feito ao homem, ele não deve ser destruído ou destruir a si mesmo, porque em toda a desordem e ruína horripilante do mundo e da imaginação humana, ainda há vida e a possibilidade de redenção através do mero vislumbre da terra, através da admiração, o mais abjeto tipo de admiração se arrastando por uma rua, e nisso a coisa inteira pode ser redimida, e, FINALMENTE, verdade! Isso é tão execrável. Um assassino merece a chance de se arrepender – o suicida deve dar a si mesmo a oportunidade de maravilhar-se outra vez, de se ver outra vez. Está tudo aqui – porque aqui está o mais importante: se um morto pudesse voltar à terra para viver outra vez entre os homens, por um dia – o que quer que essa alma visse e pensasse, agora é para nós, os vivos, a única verdade, o sentimento mais central possível para um homem, o mais profundo. (E eu sempre me pergunto: – esse homem ressuscitado perderia algum tempo contemplando o bem e o mal deste mundo? Ou ele apenas banquetearia os olhos de sua alma em um olhar faminto para a vida, para a realidade da vida na terra, a coisa em si: criancinhas, homens, mulheres, aldeias, cidades, estações e mares! Um enigma! Um enigma!).

Maldito aquele que pensa e pensa mas nunca está feliz em seus pensamentos, que nunca pode dizer – “Aqui estou eu, pensando”. Não é divertido, não é brincadeira, esse meu pensar eterno, que dura boas doze horas por dia. Por que eu faço isso? É uma forma de meditação, eu na verdade pareço um maluco o dia inteiro. E como minha mãe se acostumou a isso! Acho que se eu não ficasse em casa meditando, ela teria certeza de que as engrenagens do universo tinham parado de girar. E em que penso? Que pensamentos tenho? – Que pensamentos! Uma grande hoste, multidão e mundo de pensamentos, continuo arquitetando outros e trabalhando outra vez nos velhos, alguns dos antigos estão concluídos e só são pensados como conclusões, mundos inteiros de novos chegam arrebentando meus sentimentos, e isso nunca termina. Por que penso? É minha vida, bem aí. É por isso que preciso ficar sozinho e pensando seis dias da semana, porque é minha vida. O que esses pensamentos vão me dar? – Eles não são deste mundo. Eu mesmo não sei o que eles são.

Jack Keourac, "Diários de Jack Keourac"