quarta-feira, abril 12

Uma rua inteira mal-assombrada

Da chamada avenida Malaquias, que liga as estradas de Dois Irmãos e do Arraial, e é hoje uma rua banal, já se disse que teve fama de ser ela inteira mal-assombrada. Ainda a conheci com suas velhas e grandes jaqueiras e mangueiras e quase sem uma casa por trás dos muros altos, onde de dia os moleques se divertiam traçando calungas e sinais obscenos. Os mais doutos, escrevendo palavrões de arrepiar a própria gente grande. Parecia a chamada avenida um resto de mata, fantasiado de rua; e a rua, uma caricatura de avenida.

Mais de um homem incauto foi assassinado à sombra daquelas jaqueiras tristonhas e gordas. Ficou célebre o assassinato do chefe da estação de Ponte d’Uchoa. Uma cruz de pau recorda ainda hoje esse crime.

No tempo da iluminação a gás, a chamada avenida Malaquias era o pavor dos acendedores de lampião. Mais de um acendedor correu gritando como um menino com medo, apavorado com assombração na avenida. Vultos brancos debaixo das jaqueiras ou espojando-se na lama: talvez lobisomens cumprindo o fado. Bichos estranhos às carreiras: talvez mulas-sem-cabeça. Mulas-de-padre, vindas do lado Capunga. E vozes. Vozes estranhas. Vozes do outro mundo. Uma, certo acendedor de lampião ouviu-a bem ao pé do ouvido. Obrigou-o a fala fanhosa de duende a correr como um doido para a padaria do Castor, sem mais querer saber de apagar lampiões naquele ermo.

Dizia a voz: “Não me deixes no escuro!” O que contraria quase tudo que se sabe a respeito de fantasmas. Os ortodoxos são amigos do escuro e inimigos das luzes de lampião e até de lamparina.
Gilberto Freyre, "Assombrações do Recife velho "

terça-feira, abril 11

Manhã de leitura

 


Leituras para Borges

Uma tarde, Jorge Luis Borges veio à livraria acompanhado de sua mãe, de 88 anos de idade. Era famoso, mas eu lera apenas alguns de seus poemas e contos e não me sentia arrebatado por sua literatura. Estava quase completamente cego, mas recusava-se a usar bengala e passava a mão sobre as estantes como se seus dedos pudessem ler os títulos.

Estava procurando livros que o ajudassem a estudar o anglo-saxão, que se tornara sua última paixão, e tínhamos encomendado para ele o dicionário de Skeat e uma versão comentada de Battle of Maldon [A batalha de Maldon]. A mãe de Borges impacientou-se: “Oh, Georgie, não sei por que você perde tempo com o anglo-saxão, em vez de estudar algo útil como latim ou grego!”. No final, ele se virou e pediu-me vários livros. Achei alguns e anotei os outros, e então, quando estava para sair, perguntou-me se eu estava ocupado no período da noite, porque precisava (disse isso pedindo muitas desculpas) de alguém que lesse para ele, pois sua mãe agora se cansava com muita facilidade. Eu respondi que leria para ele.

Nos dois anos seguintes, li para Borges, tal como o fizeram muitos outros conhecidos afortunados e casuais, à noite ou, quando a escola permitia, pela manhã. O ritual era quase sempre o mesmo. Ignorando o elevador, eu subia pelas escadas até o apartamento (escadas semelhantes àquelas que uma vez Borges subira levando um exemplar recém-adquirido das Mil e uma noites; ele não viu uma janela aberta e fez um corte profundo que infeccionou, levando-o ao delírio e à crença de que estava ficando louco); tocava a campainha; era conduzido por uma criada, através de uma entrada acortinada, até uma pequena sala de estar onde Borges vinha ao meu encontro, a mão macia estendida. Não havia preliminares: enquanto eu me acomodava na poltrona, ele se sentava ansioso no sofá e, com uma voz levemente asmática, sugeria a leitura daquela noite. “Deveríamos escolher Kipling hoje? Hein?” E é claro que não esperava realmente uma resposta.

Naquela sala de estar, sob uma gravura de Piranesi representando ruínas romanas circulares, li Kipling, Stevenson, Henry James, vários verbetes da enciclopédia alemã Brockhaus, versos de Marino, Enrique Banchs, Heine (mas esses últimos ele sabia de cor, de forma que eu mal começava a ler e sua voz hesitante passava a recitá-los de memória; a hesitação estava apenas na cadência, não nas palavras, que lembrava corretamente). Eu não lera muitos desses autores antes, e assim o ritual era curioso. Eu descobria um texto lendo-o em voz alta, enquanto Borges usava seus ouvidos como outros leitores usam os olhos, para esquadrinhar a página em busca de uma palavra, de uma frase, de um parágrafo que confirme alguma lembrança. Enquanto eu lia, ele interrompia, fazendo comentários sobre o texto a fim de (suponho) tomar notas em sua mente. Detendo-me depois de uma linha que achou hilariante em New Arabian nights [Novas noites árabes], de Stevenson (“vestido e pintado para representar uma pessoa na penúria ligada à Imprensa” “Como pode alguém se vestir assim, hein? No que você acha que Stevenson estava pensando? Em ser impossivelmente preciso? Hein?”), passou a analisar o procedimento estilístico de definir alguém ou algo por meio de uma imagem ou categoria que, ao mesmo tempo em que parece ser exata, força o leitor a criar uma definição pessoal. Ele e seu amigo Adolfo Bioy Casares tinham brincado com essa ideia em um conto de dez palavras: "O estranho subiu as escadas no escuro: tic-toc, tic-toc, tic-toc".

Ouvindo-me ler uma história de Kipling, “Beyond the pale” [Fora dos limites], Borges interrompeu-me após uma cena em que uma viúva hindu manda uma mensagem a seu amante, feita de diferentes objetos reunidos numa trouxa. Chamou a atenção para a adequação poética disso e perguntou-se em voz alta se Kipling teria inventado aquela linguagem concreta e, não obstante, simbólica. Depois, como que consultando uma biblioteca mental, comparou-a com a “linguagem filosófica” de John Wilkins, na qual cada palavra é uma definição de si mesma. Por exemplo, Borges observou que a palavra salmão não nos diz nada sobre o objeto que representa; zana, a palavra correspondente na língua de Wilkins, baseada em categorias preestabelecidas, significa “um peixe de rio escamoso e de carne vermelha”: z para peixe, za para peixe de rio, zan para peixe de rio escamoso e zana para peixe de rio escamoso e de carne vermelha. Ler para Borges resultava sempre em um novo embaralhamento mental dos meus próprios livros; naquela noite, Kipling e Wilkins ficaram lado a lado na mesma estante imaginária.

Em outra ocasião (não lembro do que me pedira para ler), começou a compilar uma antologia improvisada de versos ruins de autores famosos, incluindo “A coruja, apesar de todas as suas penas, estava com frio”, de Keats, “Oh, minha alma profética! Meu tio!”, de Shakespeare (Borges achava a palavra “tio” não-poética, inadequada para Hamlet pronunciar — teria preferido “Irmão de meu pai!” ou “Parente de minha mãe!””), “Somos apenas as bolas de tênis das estrelas”, de Webster, em The duchess of Malfi [A duquesa de Malfi], e as últimas linhas de Milton em Paraíso reconquistado, “ele, sem ser observado,! para o lar de sua Mãe solitário voltou” — o que, pensava Borges, fazia de Cristo um cavalheiro inglês de chapéu-coco retornando para casa a fim de tomar chá com a mamãe.

Às vezes, fazia uso das leituras para seus escritos. Descobrir um tigre fantasma em “The guns of fore and aft” [Os canhões de popa a proa], de Kipling, que lemos pouco antes do Natal, levou-o a compor uma de suas últimas histórias, “Tigres azuis”; “Duas imagens em um lago”, de Giovanni Papini, inspirou o seu 24 de agosto de 1982, uma data que ainda estava no futuro; sua irritação com Lovecraft (cujas histórias me fez começar e abandonar meia dúzia de vezes) levou-a criar uma versão corrigida" de um conto de Lovecraft e a publicá-la em O informe de Brodie. Pedia-me amiúde para escrever algo na guarda do livro que estávamos lendo — uma referência a algum capítulo ou um pensamento. Não sei como fazia uso dessas anotações, mas o hábito de falar de um livro nas costas de sua capa tornou-se meu também.
Alberto Manguel, "História da leitura"

Silas

Quando desembarcamos em Silas, no gelado Atlântico Sul, sabemos agora pelos registros de bordo, corria o ano da graça de 1546. E foi um raro acontecimento descobrir esta ilha de rocha basáltica e gelo e neve, povoada, às dezenas de milhares, por inenarráveis pinguins albinos.

Tão alvos, confundiam-se, os pinguins, ruidosos, à paisagem desesperadamente branca, que, ao sabor das ventanias, indicava ainda uma paisagem em contínuo movimento. Como se toda Silas andasse feito andam as areias do deserto nem que uma superfície móvel e delicada.

Muito poucos fomos os navegadores de Hérida que, vencido o ímpeto de desafiar Silas, e possivelmente o de sobrevivê-la, retornamos às embarcações fundeadas ao largo da ilha, remando, extenuados, frágeis batéis. E a vencer, com eles, as altas ondas e o grosso mar que se lança contra rochas de açúcar e gelo, a alvoroçar os pinguins sob a ofuscante claridade que fazia, às vezes, de Silas, uma espécie assim de massa luminosa – mais fria que o vento a eriçar a neve eterna que, asseguravam os marinheiros, nascera com ela, com Silas, desde o começo, desde a primeira vez.

Muito antes de nós, não foram poucos os navegantes que pereceram à neblina de sua alvura, enredados pelo frio e pelas pesadas nevascas que a tudo sepultavam, em Silas, tornando-a alguma vez a miragem de perigoso iceberg a derivar no atlântico azul. Silas, entanto, prosseguia fixa, como fixas são todas as ilhas e não sabemos até hoje de nenhuma que pelo mar deslize como deslizam nele as caravelas, os afogados ou as montanhas de gelo. Embora existam cartas marinhas dando como certas as ilhas nômades do Cáspio e do Báltico. O que, claro, soa um grosseiro disparate.

O fantástico em Silas existe, sim, e é toda a razão desta crônica ilhéu, trêmula de frio: Silas conserva em seu solo, feito de incontáveis camadas de neve e gelo – as que existem agora e também as que existiram um dia e que ao calor dos séculos foram se dissolvendo – conserva os seus mortos, todos os seus mortos, assustadoramente não corrompidos face às baixíssimas temperaturas, numa vertiginosa integridade de vivos.

Em nossas explorações descobrimos, surpresos, entre outros assombros, espalhados pela ilha, aqui um mercador egípcio, impossível de datar senão pelo barrete e os finíssimos bigodes; ali, o que nos pareceu o curioso e preciso cadáver de um rei aventureiro; mais adiante, as curvas imutáveis do corpo de uma mulher; ou, completa, uma cena, cuja beleza de gelo a expedição inteira celebrou com imprevisto fervor: a glabra nudez de um efebo negro, de encaracolados cabelos, intimamente acolhido ao rijo tórax de um veterano soldado de Tebas, os olhos de ácido azul.

Para além do Tempo, o íntegro gesto de amor – inteiros como estátuas de pedra, os olhos deles, abertos, se entreolham, bem próximos, sem piscar nunca, ungidos por obsessivo enlevo, como se nada houvesse acontecido, desde então, sobre a Terra. Distante dali, em outro tempo e lugar, para além dos pinguins albinos, só a música longínqua, de um baile talvez, pelo que soa e torna a silenciar, na branca amplidão, uma orquestra de violinos.

Quem viu Silas assim, renascida da neve, garante que nunca mais foi o mesmo.

Wilson Bueno

segunda-feira, abril 10

Pó

Sendo uma bola de pó feita de restos humanos, não deixa de ser irónico que o que varremos é a nossa própria morte, a morte que nos vai acontecendo todos os dias, que se deposita nos livros, nos móveis, debaixo da cama, no soalho, pois é, como escreveu Yuri Al’Hanati, em A volta ao quarto em 180 dias, “um amontoado de pedaços de pele, caspa, pelos que caíram do corpo, poeira dos móveis e das paredes e chumaços de tecido”, que se agrupa seguindo as mesmas leis das galáxias ou das moléculas.

A questão é que essa bola se forma porque somos um processo e não um fim, ou melhor, a vida é um adiar do fim, e um dos processos de procrastinar é mudar de pele. Não somos um objeto estático, mas um caminho, por isso deixamos cair coisas, como a pele – como a serpente de Nietzsche, que morre se não a mudar, ou como as ideias e as almas, que definham até ao apagamento se recusarem qualquer alteração. A bola de pó é o corpo a mudar de opinião, a transformar-se, a caminhar. A morte mais terrível seria mantermo-nos iguais, na mesmice mineral, por isso uma possível definição de vida poderá ser esta: a vida é um deixar de ser para continuar a ser.


Existem então dois tipos de morte: a da estabilidade absoluta e a da dissolução. A primeira é essa mesmice mineral e a segunda é o preço a pagar por um processo que culmina numa transformação mais radical, em que o pó retorna ao pó, e a alma se distribui pelos objetos do seu amor, coisas camonianas, seres vivos e pessoas, especialmente familiares e amigos, mas também inimigos, porque a alma entrega igualmente a sua essência ao ódio, uma vez que este é uma forma avessa de amar. Também sobrevivemos naquilo que odiamos.

Ouvi num documentário que não damos nada à terra, que tiramos, tiramos, tiramos, e não damos. Enfim, somos muitos, e para contrariar isso, de que tiramos, e somente tiramos, somos todos terra e no final havemos de lhe entregar todo o barro que nos foi emprestado. Como cantou Adriano Correia de Oliveira: “Eu sou devedor à terra,/ a terra me está devendo,/ a terra paga-me em vida,/ eu pago à terra morrendo”. Um pedaço de barro ergue-se, sustido pela terra, para depois voltar a ser barro, sustendo a terra, mas ao erguer-se, ou quando se ergueu, produziu algo único: relações, afetos, leituras, foi às compras, foi à ópera.

A vida produz, da matéria-prima mais rude – o barro –, versos, cantigas, ódio, abraços, medos, certezas, enfim, algo que viaja de barro em barro, resistente à vulgaridade da ameaça física: não se pode esfaquear uma canção, não se pode atirar pedras a uma ideia (metaforicamente, sim, mas denotativamente não). A única maneira de matar a arte ou qualquer produção imaterial é disparando esquecimento, sendo essa também a única forma de uma alma morrer, tão diferente da outra, a do corpo que se transforma em pó. E é importante lembrar o epitáfio de Mário Quintana, que é um manual de filosofia escrito numa frase e que deveria estar presente em todas as tumbas: “Eu não estou aqui”.

Esta ideia, “eu não estou aqui”, mostra bem essa transição e a certeza de que o corpo é o resto de algo, um pó que se varre para que a alma, já transformada nas coisas amadas, subsista inefável, como uma canção que se vai trauteando, até ser esquecida – porque o esquecimento é o pó da alma. A origem das espécies é uma teoria incompleta, que se finda na biologia, que não contempla uma outra evolução, a da imaterialidade. E aqui não me refiro a uma abordagem mística, mas à evolução da informação e como ela resiste à morte do seu veículo, pois a informação é interoperável: um poema vive tanto na voz, como escrito num papel, ou em zeros e uns.

O barro, a matéria que sustém um poema (ou qualquer tipo de informação) é irrelevante. Pode ser silicone, plástico, voz, papel e tinta. Quando silenciamos uma pessoa, quando rasgamos uma letra de uma canção, podemos imediatamente aplicar a fórmula de Quintana ao olhar para a mudez ou para os pedaços de papel: a canção não está ali, continua algures, noutra voz. Num sentido absoluto, a morte não é morrer, é esquecer a canção. E a eternidade é continuar a cantar, ainda que o pó pareça ser o grande vencedor: “O homem é o lobo do homem, e pede desculpas pela poeira. Não sabe que um dia, quando não houver mais homens, a poeira reinará sobre o sistema solar e não se ouvirá ninguém pedir desculpas por nada. A poeira nos sobreviverá” (Yuri Al’Hanati).

Entretanto, e antes de o pó se impor derradeiramente, talvez faça sentido varrer, não o pó, mas aquilo que a morte não pode silenciar, tal como se lê nos versos de Minês Castanheira: “No poema ficou o mais secreto./ Como se eu varresse para dentro de mim/ silenciosamente/ todas as coisas da casa”.

Mergulho no aquário

 


O ruço

A saudade é, para mim, um sentimento estranho.

Sempre ouvi dizer que diminui com o tempo, que nos vamos habituando, que nos vamos esquecendo mas, no meu caso, aumenta, surge quando menos espero, instala-se ao meu lado, dói. É estranha a dor da saudade porque, para mim, é física. Sinto-a na cabeça, nos músculos, no corpo todo. Por exemplo saudades da tia Madalena a chamar-me

- Filho

da tia Bia a chamar-me

- Antoninho Cravo Roxo

da Gija enquanto me coçava as costas à noite, antes de deitar-me

- menino, menino

e eu tão pequeno quando a saudade dela chega e, quando os seus dedos me tocam, tão contente. Saudades da casa grande de Benfica, saudades do lago. Até saudades do Marciano a regar os canteiros. Saudades dos rebanhos a passarem à tarde num tinir de badalos. Saudades da chuva de abril, tão leve. Saudades do avô, de casaco de linho branco, a sorrir. Não consigo lembrar-me da voz dele, por mais que tente não consigo lembrar-me da voz dele, lembro-me que dizia

- O meu morgado, o meu morgado

porque o Brasil continuava nele. Isto em Belém do Pará, lá em cima. Porque não voltámos nunca, porque ficámos aqui? Saudades de canções

Mamãe
diz ao Papai
que eu quero ir para a guerra
do Paraguai

Não vás meu filho
que podes morrer
tão pequenino
que irá acontecer?

de poemas que escandalizavam a minha avó

Um brasileiro mui rico
querendo espantar o mundo
mandou fazer um penico
com uma paisagem no fundo.

Diz-lhe um amigo que louco
para que queres isso tu?
É para alegrar um pouco
o triste olho do cu.

E a minha avó a abanar a cabeça, consternada.

A minha bisavó que não conheci, morreu nova, chamavase Leopoldina como tantas raparigas da sua geração: era o nome da Imperatriz. O meu pai tinha em cima de uma mesa a fotografia dela. A avó Leopoldina

(saudades)

e o bisavô João, de cabelos brancos e corrente de relógio no colete. Saudades dos doces do Brasil da minha tia avó Isabel, cocada, rebuçados de ovos e o tempo, nessa época, compridíssimo. Tia Biluca, tia Mimi, tia Marocas, avó Chuta, senhoras de peitos imensos, com buço. O trisavó Bruno Álvares Lobo cuja família saiu de Portugal para a Holanda e da Holanda para o Brasil, séculos antes, por serem judeus. Isto explicou-me, no dia da entrega do Prémio Jerusalém, em Israel, um velhote especialista em genealogia, que estivera nos campos de concentração nazis e se foi informar da história da família. A minha pequena costela judia era um orgulho para ele. O meu avô, aliás

(tantas saudades de si, avô)

possuía uma cara chapada de judeu, igualzinha à da sua mãe, que morreu de pneumonia. Lembro-me do meu pai, muitas vezes

- Vou morrer de pneumonia como a minha avó

e assim foi. Tio Joaquim, médico, que vinha às vezes de barco e falava com sotaque carioca, carregado de doces e de livros, magro, ao contrário do meu avô que pesava mais de cem quilos. Mostrava-me o anel ao lado da aliança

- É o anel do morgado, é para ti

e a minha avó entregou-mo no dia em que ele morreu.

Essa vinha de alemães: tantos sangues no meu. Cartas em alemão do tio Rudolf mandadas aos pais da Guerra da Crimeia. Herdei isso tudo, cartas, documentos, papelada vária, fotografias de sujeitos de bigodes loiros e olhos azuis. Quando estive num hospital em Londres o director para mim

- Você não parece português mas também não parece inglês

e logo a seguir, com uma expressão zangada

- Parece um alemão

numa espécie de ódio que me confundiu. Na escola os meus colegas chamavam-me Ruço. Há séculos que não me chamam Ruço. Saudades disso, também. Não só os colegas, pessoas crescidas que não conhecia

- Sacana do miúdo é ruço

e não pareciam especialmente alegres por isso. Esta crónica é escrita por um ruço. Os ruços e os ruivos, a quem chamavam Estás A Arder, eram olhados com uma curiosidade desgostosa. Até disso sinto saudades, olha, que me observem com uma curiosidade desgostosa.

- São manhosos, os russos

dizia-me o senhor da carvoaria

- São manhosos

se calhar com medo que eu lhe pinasse uns briquetes, embora o meu pai fosse doutor.

- Não é verdade que o teu pai é doutor ó ruço?

e uma olhadela curiosa, entre a desconfiança e o respeito.

Quando fui treinar para o Futebol Benfica um dos rapazes anunciou ao grupo

- O pai do ruço é doutor

e levei menos encostos por isso. O treinador, da idade do meu pai, que jogara contra ele

- O pai do ruço foi aos campeonatos da Europa e tudo porque o pai do ruço fez parte do Time Maravilha,

no Benfica, e lá estava ele, com os colegas, numa parede, emoldurados. Isto já no Benfica, que era outra loiça.

O meu pai todo penteadinho, com a águia na camisola.

Havia uma caixa de lata cheia de medalhas, que os meus irmãos e eu às vezes púnhamos ao peito.

 Medalhas de campeão nacional e tudo. Às vezes ia jantar com os antigos colegas e davam imensas palmadas uns aos outros.

Os colegas também me chamavam ruço. Depois, com o tempo, o ruço desapareceu. Continua apenas, meio apagado, no meu rol de saudades.

António Lobo Antunes

Um caso de burro

Quinta-feira à tarde, pouco mais de três horas, vi uma coisa tão interessante, que determinei logo de começar por ela esta crônica. Agora, porém, no momento de pegar na pena, receio achar no leitor menor gosto que eu para um espetáculo, que lhe parecerá vulgar, e porventura torpe. Releve a impor- tância; os gostos não são iguais.

Entre a grade do jardim da Praça Quinze de Novembro e o lugar onde era o antigo passadiço, ao pé dos trilhos de bondes, estava um burro deitado. O lugar não era próprio para remanso de burros, donde concluí que não estaria deitado, mas caído. Instantes depois, vimos (eu ia com um amigo), vimos o burro levantar a cabeça e meio corpo. Os ossos furavam-lhe a pele, os olhos meio mortos fechavam-se de quando em quando. O infeliz cabeceava, mais tão frouxa- mente, que parecia estar próximo do fim.

Diante do animal havia algum capim espalhado e uma lata com água. Logo, não foi abandonado inteira- mente; alguma piedade houve no dono ou quem quer que seja que o deixou na praça, com essa última refeição à vista. Não foi pequena ação. Se o autor dela é homem que leia crônicas, e acaso ler esta, receba daqui um aperto de mão. O burro não comeu do capim, nem bebeu da água; estava já para outros capins e outras águas, em campos mais largos e eternos.

Meia dúzia de curiosos tinha parado ao pé do animal. Um deles, menino de dez anos, empunhava uma vara, e se não sentia o desejo de dar com ela na anca do burro para espertá-lo, então eu não sei conhecer meninos, porque ele não estava do lado do pescoço, mas justamente do lado da anca. Diga-se a verdade; não o fez — ao menos enquanto ali estive, que foram poucos minutos. Esses poucos minutos, porém, valeram por uma hora ou duas. Se há justiça na Terra valerão por um século, tal foi a descoberta que me pareceu fazer, e aqui deixo recomendada aos estudiosos.

O que me pareceu, é que o burro fazia exame de consciência. Indiferente aos curiosos, como ao capim e à água, tinha no olhar a expressão dos meditativos. Era um trabalho interior e profundo. Este remoque popular: por pensar morreu um burro mostra que o fenômeno foi mal entendido dos que a princípio o viram; o pensamento não é a causa da morte, a morte é que o torna necessário. Quanto à matéria do pensamento, não há dúvidas que é o exame da consciência. Agora, qual foi o exame da consciência daquele burro, é o que presumo ter lido no escasso tempo que ali gastei. Sou outro Champollion, porventura maior; não decifrei palavras escritas, mas ideias íntimas de criatura que não podia exprimi-las verbalmente.

E diria o burro consigo:

“Por mais que vasculhe a consciência, não acho pecado que mereça remorso. Não furtei, não menti, não matei, não caluniei, não ofendi nenhuma pessoa. Em toda a minha vida, se dei três coices, foi o mais, isso mesmo antes haver aprendido maneiras de cidade e de saber o destino do verdadeiro burro, que é apanhar e calar. Quando ao zurro, usei dele como linguagem. Ultimamente é que percebi que me não entendiam, e continuei a zurrar por ser costume velho, não com ideia de agravar ninguém. Nunca dei com homem no chão. Quando passei do tílburi ao bonde, houve algumas vezes homem morto ou pisado na rua, mas a prova de que a culpa não era minha, é que nunca segui o cocheiro na fuga; deixava-me estar aguardando autoridade”.

“Passando à ordem mais elevada de ações, não acho em mim a menor lembrança de haver pensado sequer na perturbação da paz pública. Além de ser a minha índole contrária a arruaças, a própria reflexão me diz que, não havendo nenhuma revolução decla- rado os direitos do burro, tais direitos não existem. Nenhum golpe de estado foi dado em favor dele; nenhuma coroa os obrigou. Monarquia, democracia, oligarquia, nenhuma forma de governo, teve em conta os interesses da minha espécie. Qualquer que seja o regime, ronca o pau. O pau é a minha institui- ção um pouco temperada pela teima que é, em resumo, o meu único defeito. Quando não teimava, mordia o freio dando assim um bonito exemplo de submissão e conformidade. Nunca perguntei por sóis nem chuvas; bastava sentir o freguês no tílburi ou o apito do bonde, para sair logo. Até aqui os males que não fiz; vejamos os bens que pratiquei.”

“A mais de uma aventura amorosa terei servido, levando depressa o tílburi e o namorado à casa da namorada — ou simplesmente empacando em lugar onde o moço que ia ao bonde podia mirar a moça que estava na janela. Não poucos devedores terei conduzido para longe de um credor importuno.

Ensinei filosofia a muita gente, esta filosofia que con- siste na gravidade do porte e na quietação dos senti- dos. Quando algum homem, desses que chamam patuscos, queria fazer rir os amigos, fui sempre em auxílio deles, deixando que me dessem tapas e punhadas na cara. Em fim…”

Não percebi o resto, e fui andando, não menos alvoroçado que pesaroso. Contente da descoberta, não podia furtar-me à tristeza de ver que um burro tão bom pensador ia morrer. A consideração, porém, de que todos os burros devem ter os mesmos dotes principais, fez-me ver que os que ficavam não seriam menos exemplares do que esse. Por que se não inves- tigará mais profundamente o moral do burro? Da abelha já se escreveu que é superior ao homem, e da formiga também, coletivamente falando, isto é, que as suas instituições políticas são superiores às nossas, mais racionais. Por que não sucederá o mesmo ao burro, que é maior?

Sexta-feira, passando pela Praça Quinze de Novembro, achei o animal já morto.

Dois meninos, parados, contemplavam o cadáver, espetáculo repugnante; mas a infância, como a ciência, é curiosa sem asco. De tarde já não havia cadáver nem nada. Assim passam os trabalhos deste mundo. Sem exagerar o mérito do finado, força é dizer que, se ele não inventou a pólvora, também não inventou a dinamite. Já é alguma coisa neste final de século. Requiescat in pace.
Machado de Assis

domingo, abril 9

Eternos Quixotes

 


Felicidade de estrangeiro

Sempre que estou em outro país me pergunto se seria mais feliz nele. Quando percorro as ruas e vejo numa esquina um grupo de pessoas conversando e rindo, penso que, se eu vivesse ali, agora também estaria feliz num grupo em uma dessas esquinas. Quando passo por um café com mesas ao ar livre e um homem se aproxima de uma mesa onde há uma mulher sentada e os dois se cumprimentam alegremente, penso que ali eu também, um dia, encontraria uma mulher que se alegraria ao me ver, e que eu me alegraria em vê-la. E quando à noite se acendem as luzes nas janelas! Cada janela promete ao mesmo tempo liberdade e aconchego, libertação da vida antiga e aconchego numa nova.

Bernhard Schlink, "A mulher na escada"

O passado que hoje é presente

Às vezes, herdo ou sou agraciado com um objeto a que me referi em algum livro. Em "Chega de Saudade", sobre a bossa nova, falei da caixa de fósforos Beija-Flor que, em 1956, Vinicius de Moraes botava de pé ao lado do copo, no bar Villarino, como generosa medida para sua dose de uísque. Pouco depois, o jornalista Edmilson Siqueira, de Campinas, surpreendeu-me com uma igualzinha. Até hoje, sempre que a vejo, imagino Vinicius pondo sua Beija-Flor junto ao copo para que o garçom o servisse à altura da caixa.

Numa entrevista sobre "O Anjo Pornográfico", minha biografia de Nelson Rodrigues, contei como custei a descobrir a marca de um objeto onipresente nas Redações de jornal em 1929: a escarradeira. Até que descobri: Hygéa. Pois não é que o produtor cultural Marcio Debelian me presenteou com um anúncio de uma linda Hygéa que encontrou numa revista antiga?


E, há dias, contei sobre um regalo inestimável que recebi: um lápis e uma pena que pertenceram a J. Carlos, o gênio do desenho no Rio moderno dos anos 20 e personagem de "Metrópole à Beira-Mar". Tal gentileza só podia partir de seu neto José Carlos de Britto e Cunha.

Agora, outro presente vem me desmontar: um ingresso do jogo Flamengo x Botafogo, no dia 9 de novembro de 1958, de que falei em "Estrela Solitária", sobre Garrincha. Chegou-me de Lages (SC), enviado pelo diretor de arte Mauricio Neves, colecionador de raridades referentes ao Flamengo.

Foi um jogo importante para Garrincha e falo dele no livro. Mas a razão de minha emoção diante desse ingresso é outra. Naquela tarde de 1958, eu estava lá, com meu pai, na arquibancada, em meio à torcida do Flamengo. Foi a minha primeira vez no Maracanã. Ao manuseá-lo, volto a ter 10 anos e, aterrorizado, vejo Garrincha driblar de novo toda a nossa defesa e cruzar mais uma bola que resultará em gol. Incrível, esse passado existiu e hoje é presente.

sábado, abril 8

Cão enganado

 


Mendigo

Eu estava diante de uma banca de jornais na Avenida, quando a mão do mendigo se estendeu. Dei-lhe uma nota tão suja e tão amassada quanto ele. Guardou-a no bolso, agradeceu com um seco obrigado e começou a ler as manchetes dos vespertinos. Depois me disse:

– Não acredito um pingo em jornalistas. São muito mentirosos. Mas tá certo: mentem para ganhar a vida. O importante é o homem ganhar a vida, o resto é besteira.

Calou-se e continuou a ler as notícias eleitorais:

– O Brasil ainda não teve um governo que prestasse. Nem rei, nem presidente. Tudo uma cambada só.

Reconheceu algumas qualidades nessa ou naquela figura (aliás, com invulgar pertinência para um mendigo), mas isso, a seu ver, não queria dizer nada:

– O problema é o fundo da coisa: o caso é que o homem não presta. Ora, se o homem não presta, todos os futuros presidentes serão ruínas. A natureza humana é que é de barro ordinário. Meu pai, por exemplo, foi um homem bastante bom. Mas não deu certo ser bom durante muito tempo: então ele virou ruim.


Suspeitando de que eu não estivesse convencido da sua teoria, passou a demonstrar para mim que também ele era um sujeito ordinário como os outros:

– O senhor não vê? Estou aqui pedindo esmola, quando poderia estar trabalhando. Eu não tenho defeito físico nenhum e até que não posso me queixar da saúde.

Tirei do bolso uma nota de cinquenta e lhe ofereci pela sua franqueza.

– Muito obrigado, moço, mas não vá pensar que eu vou tirar o senhor da minha teoria. Vai me desculpar, mas o senhor também no fundo é igualzinho aos outros. Aliás, quer saber de uma coisa? Houve um homem de fato bom. Chamava-se Jesus Cristo. Mas o senhor viu o que fizeram com ele?
Paulo Mendes Campos

O riso das mães

As mães não nos deixam ficar mal: não nos deixam. Por muito bem que estejamos elas voltam.


A minha mãe está sempre a voltar. Aparece-me mais vezes do que quando estava viva. Sinto-a a rir-se dentro de mim, a desafiar-me a lembrar-me dela: "Diz lá então o que é que diz esta mãe tão chata que não te deixa em paz?"

Antes de morrer ela confidenciou-me "as mães, por muito boas que sejam, acabam sempre por deixar mal os filhos". Em inglês: they always let you down. Senti-me imediatamente culpado: não estaria ela a falar nos filhos? Não somos nós que as desiludimos, num instantinho?

As mães não nos deixam ficar mal: não nos deixam. Por muito bem que estejamos elas voltam. Até voltam mais quando estamos bem e esquecemos as saudades que temos delas. Voltam para nos fazer rir, voltam para nos mostrar como, voltam para ver as coisas com os olhos delas.

Há um grande amor que se solta quando a presença física desaparece. Há um grande amor que espera por esse vazio para se mostrar. É como a voz dela dentro de mim: só comecei a ouvi-la no silêncio que caiu à minha volta quando ela se foi embora. Durante uns tempos — que nunca mais acabavam — doía-me que eu não pudesse falar com ela. Mas doía-me ainda mais ela não poder falar comigo.

Sim, não posso telefonar-lhe. Mas já não preciso. Ela fala comigo várias vezes por dia. Eu conto à Maria João, tal e qual tivesse acabado de falar com ela. Ela ajuda-me a rir, a perceber, a entregar-me.

As mães só fingem que nos deixam ficar mal. A verdade — que também é triste — é que não nos largam. Porque nós não as deixamos. Nem podemos.
Miguel Esteves Cardoso

sexta-feira, abril 7

Spa de feriadão

 


O pouso do pássaro

Consta que o mundo tem muitos anos. Porém raramente ele dura mais de um século. Somos nós que envelhecemos.

Enquanto vierem pessoas ao mundo, ele terá o mesmo viço e frescor do sétimo dia, no qual Deus descansou.

Neste momento, somos testemunhas de uma criação. Ela desponta diante de nossos olhos, em plena luz do dia: um mundo surge do nada...

E ainda assim existem pessoas que ficam entediadas!

A maior parte do tempo o mundo desperdiça dormindo. A maior parte do espaço também.

Apenas de vez em quando, ele esfrega os olhos e desperta para a consciência de si mesmo.

— Quem sou eu? — indaga o mundo.

— De onde venho?

Por alguns segundos, o pássaro raro pousou em nosso ombro.

Jostein Gaarder, "O pássaro raro"

O inesgotável encanto de 'O pequeno príncipe" faz 80 anos

Ainda me lembro perfeitamente de quando, uma noite, minha mãe apareceu com O pequeno príncipe no meu quarto. "Nossa, deve ser um livro incrível", pensei, ao vê-la folheando o volume com tanto cuidado e solenidade.

Os desenhos daquele garotinho de cabelos louros espetados e calça e blusa verde me encantaram. Mas a história... me deixou perturbada! Que horror, um planeta tão pequeno assim, é como uma prisão! E essa rosa esquisita, maldosa: por que ele gosta tanto dela? E por que fica amigo da raposa, para depois abandoná-la?

Enquanto minha mãe lia para mim os breves capítulos, em ritmo cadenciado, eu não tinha coragem de dizer como achava a história desagradável. Enquanto a cultura pop celebrava aquele que é provavelmente o mais famoso herói infantil moderno, com xícaras, quebra-cabeças, camisetas e filmes, eu mantinha distância desse bizarro menino extraterrestre.

O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, conta a história de um garoto que vive num planeta minúsculo, com uma rosa exigente, dois vulcões ativos e um extinto, além dos pés de baobá, que ele vive combatendo. A flor e o principezinho não se dão bem, ela é rabugenta e exigente. Então ele decide partir, numa viagem em que pesquisa sete planetas. A última estação é a Terra, onde ele encontra um aviador que fez um pouso forçado no deserto.

Agora, 80 anos após o lançamento da primeira edição, em 6 de abril de 1943, eu quis dar mais uma chance a esse conto da carochinha moderno. Li os 27 capítulos de uma vez só. E dessa vez eles me tocaram: a linguagem simples, os desenhos singelos – eles enganavam.

Não é uma história infantil, mas, antes, uma lembrança do nosso lado infantil. O livrinho trata das questões realmente grandes, que só os adultos se colocam, como amor, solidão, morte. Então, não é de espantar que eu, menina da escola primária, houvesse sentido nitidamente: aqui está se falando de algo importante, algo que eu (ainda) não posso entender. A leitura por um adulto, em tom sério, me espantou.

Último livro de um apaixonado aviador francês, O pequeno príncipe foi primeiro lançado em Nova York. Quando, três anos mais tarde, saiu a edição francesa, o hoje celebrado autor não estava mais lá para vê-la: em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, ele saíra num voo de reconhecimento e nunca mais retornara.

A carreira de piloto de Antoine de Saint-Exupéry, nascido numa família nobre de Lyon em 29 de junho de 1900, começou com voos sobre Paris, para turistas. Na década de 1920, ele trabalhou sucessivamente em Toulouse, Casablanca e Dacar, e assumiu a chefia do aeroporto do então Protetorado Espanhol em Marrocos, onde salvou diversos colegas forçados a pousar no deserto.

Mais tarde transferiu-se para a Argentina, onde atuou como correio aéreo noturno. Em suas repetidas tentativas de estabelecer recordes de voo, sobreviveu a duas quedas: entre Paris e Saigon, e entre Nova York e a Terra do Fogo. Quando a Segunda Guerra começou, em 1939, foi recrutado e presenciou a blitz aérea das Forças Aéreas alemãs no nordeste da França.

Paralelamente à aventurosa carreira de aviação, durante certas etapas de sua vida Saint-Exupéry escreveu romances muito apreciados. Porém, mesmo sendo laureado com prêmios literários, ele se considerava, em primeiro lugar, um piloto de carreira, e escritor amador.

De início, O pequeno príncipe decepcionou seus leitores: em vez de um romance de aventuras, um conto agridoce, ilustrado pelo próprio autor. No entanto, ali também estão eternizados episódios da biografia de Saint-Ex, como o chamavam os amigos: assim como seu narrador, ele teve uma pane, caiu num deserto e sobreviveu durante vários dias sem água, até que uma caravana o resgatasse.

Certo é que ninguém poderia ter sonhado que esse livrinho se tornaria não apenas o mais conhecido, mas também o mais vendido da França: mais de 200 milhões de exemplares, em traduções em 340 dialetos e idiomas, inclusive o dos inuit, dos tuaregue e dos maia, além da língua fictícia klingonês, da série de TV Jornada nas estrelas (Star Trek).

"Desenha-me um carneiro", é a primeira coisa que o pequeno príncipe diz ao aviador que caíra no deserto. "Quando o mistério é muito impressionante, a gente não ousa desobeder. Por mais absurdo que aquilo me parecesse, a mil milhas de todos os lugares habitados e em perigo de morte, tirei do bolso uma folha de papel e uma caneta."

O piloto desenha três carneiros, todos são rejeitados. Perdendo a paciência e ansioso por consertar o motor de seu avião, ele acaba por desenhar uma caixa e diz: "O carneiro que tu queres está dentro." Para sua grande surpresa, o excêntrico garoto fica maravilhado.

Eu, em criança, não fiquei. Não percebia a genialidade dessas falas. Minha fantasia infantil era bem desenvolvida, mas se estão me lendo um livro, então, por favor, direito e até o menor detalhe. Hoje, essa passagem me convence plenamente: é uma ode à fantasia, à lucidez infantil sem ideias preconcebidas.

"As pessoas grandes nunca entendem nada sozinhas. E é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando", escreveu Saint-Exupéry no primeiro capítulo.

O livro transborda de sabedorias de vida: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos" é possivelmente a mais conhecida, e vive reaparecendo nos álbuns de poesia e nas tatuagens de parede dos estúdios de ioga. Mas, ao lado das considerações sobre amor, amizade e morte, o livro também contém crítica social.

Assim, antes de chegar à Terra o pequeno príncipe viaja por seis asteroides, e em cada um tem um encontro fora do comum: um monarca que busca súditos; um vaidoso que quer ser admirado; um bebedor que bebe para esquecer a vergonha de beber; um acendedor de lampiões que obedece cegamente os regulamentos; um geógrafo que explica o mundo, mas nunca o viu; um homem de negócios que pensa ser dono das estrelas.

O negociante parecia tocar meu professor de francês (claro, na aula a gente leu Le petit prince no original). Eu não me dava com ele: era um homem desagradável, soturno, que obviamente não gostava de crianças. Mas ao ler sobre o homem de negócios obcecado por números, incapaz de pensar em qualquer outra coisa, de tanto contar as estrelas, até esse professor de repente ficou suave e cuidadoso. Como se quisesse nos transmitir algo importante. Uma lição de vida? Ou talvez um arrependimento: o que foi feito dos meus sonhos infantis?

"As pessoas grandes já foram crianças, mas só poucos se lembram", escreveu Saint-Exupéry logo no início de sua obra-prima. Como poucos outros livros, O pequeno príncipe lembra como é ser criança. E talvez por isso permaneça eternamente jovem, mesmo 80 anos depois da primeira edição.

Páscoa

Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
“põe o agasalho”
“tens coragem?”
“por que não vais de óculos?”
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.
Adélia Prado

quinta-feira, abril 6

O guardião da floresta

Sempre que penso em escrever sobre meu clássico preferido, entro num labirinto, ou num bosque, como diria Umberto Eco. São tantas as árvores seculares, tantas as trilhas, que acabo andando em círculos.

Diante de qual delas devo me deter e investigar com mais atenção? Os fungos, os líquens e as trepadeiras que se agarram a seus troncos sólidos e bem enraizados até que as enobrecem, reforçam seu caráter de eternidade.

Também em relação aos livros basilares, os epígonos, com suas afiadas gavinhas, antes de prejudicá-los colaboram na criação dos sistemas literários.

Sei que estou girando em torno da árvore, sem coragem ainda de escolher uma no meio da mata e abraçá-la. Poderia aproximar-me mais desta aqui, um Flaubert legítimo, ou desta outra, um Tolstoi embaraçado em longas barbas-de-pau.
A copa alta e digna daquela tem o porte de Madame Bovary; este galho — Ivan Ilitch — parece apoiar-se no ombro de um empregado.

Sigo adiante e encontro algumas sequoias gigantescas, pura hybris. Suas folhas despencam no chão e se transformam no húmus de que as outras se alimentarão.
Sófocles, Eurípedes e Ésquio, indiferentes ao bulício da floresta, apenas farfalham.
Descanso um pouco à sua generosa sombra, no vento escuto o dorido lamento de Édipo, o ranger de dentes de Medeia, o brado de insubmissão de Antígona.

Continuo a caminhada. Sei que devo escolher uma, apenas uma, talvez este Shakespeare, de frutos amargos e variados; quem sabe este Proust silencioso, coberto de cortiça? Ou esta, reunião de muitos livros e destinos, Bíblia chamada?

Do outro lado, densos cipoais enlaçam Crane, Poe e Tchecov. Dou mais um passo e deparo-me com esta, estranha, de espinhos no tronco. Ainda lívida e trêmula, tem o aspecto de quem, nesta manhã invernosa, houvesse sido transformada num asqueroso inseto. Adiante, retorcida, tensa, fera na selva, Henry James me espreita.

No meio da neblina do labiríntico bosque da ficção clássica, percebo uma sombra e me recordo de Virgílio a conduzir Dante num outro inferno. Tem o passo claudicante, bate nas árvores com uma bengala, parece reconhecê-las pelo som que emitem. Não se assuste, ele me diz, sou o guardião da floresta. A um passo de distância, percebo que meu futuro guia, Jorge Luis Borges, é cego.
Charles Kiefer, "Para ser escritor"

Leitura matinal

 

Iliya Mirochnik