sexta-feira, dezembro 6

Belos por instantes

Da minha janela hoje de manhã, pouco antes do sol nascer, dava para ver um cervo parado numa neblina tão densa e brilhante que o segundo cervo, não muito longe, parecia uma sombra inacabada do primeiro.

Você pode colorir isso. Pode chamar de “A História da Memória”.


A migração pode ter como gatilho o ângulo do sol, indicando uma mudança de estação, temperatura, vida da flora e quantidade de alimentos disponível. As borboletas-monarcas fêmeas botam ovos pelo caminho. Toda história tem mais de um fio, todo fio é uma história de divisão. A viagem leva sete mil setecentos e setenta quilômetros, mais do que a extensão deste país. As monarcas que voam para o sul não voltarão para o norte. Toda partida, portanto, é definitiva. Só seus filhos voltarão; só o futuro revisita o passado.


O que é um país senão uma sentença sem fronteiras, uma vida?

Aquele dia no açougueiro chinês, você apontou para o porco assado pendurado no gancho. “Depois de queimar, as costelas são iguaizinhas às de uma pessoa.” Você deixou escapar uma risadinha entrecortada, pegou a carteira, o rosto tenso, e contou de novo nosso dinheiro.
Ocean Vuong, "Sobre a terra somos belos por um instante"

A idade da derrota

Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo.

A minha margem de hesitação já não se alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado helénico ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu não me afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão. Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte.

Certas frações da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo.

Marguerite Yourcenar, "Memórias de Adriano"


Duas flautas

Uma noite em que eu respirava o perfume das flores
À beira do rio,
O vento trouxe-me a canção de uma flauta distante.
Para responder-lhe, cortei um ramo de salgueiro
E a canção da minha flauta embalou a noite encantada.

Desde então, todos os dias,
À hora em que o campo adormece,
Os pássaros ouvem a conversa
De dois pássaros desconhecidos,
Cuja linguagem, no entanto, compreendem.
Li Po

Um pouco de ternura

Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?

— Bom…bom — Não sabia o que responder.

— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.
Baptista-Bastos

Aconteceu na Suécia

O sorriso é, geralmente, muito bem aceito em sociedade. A menos quando não há razão para estar alegre e a pessoa abre um meio sorriso, sardônico, voltairiano. Esse sorriso da inteligência, marca dos espíritos privilegiados, às vezes ofende; quase sempre inquieta.

Já o riso é a explosão do sorriso. O sistema nervoso central se descontrola e o corpo inteiro se sacode, os pulmões expelem todo o ar de que dispõem, as lágrimas se aproximam das pálpebras. Certas situações, ou às vezes uma simples frase, ou então uma lembrança antiga que aflora de repente à consciência, são capazes de provocar um riso de tal forma demente que sua manifestação é a gargalhada.

Aqui, entramos no terreno da repressão. Não se pode rir às gargalhadas em todas as ocasiões. Num velório, por exemplo, por mais engraçado que esteja o defunto, convém mostrar à viúva uma cara fúnebre, sinal de que lamentamos profundamente o falecimento do cidadão. Na igreja também é melhor não rir; idem diante do juiz ou do delegado de polícia; no ônibus, se você lembra um episódio hilariante de algum filme ou livro, cuidado com a gargalhada solitária, vão pensar que há um passageiro lunático.

Riso e repressão, todos sabem, vivem brigando, pois o riso é uma arma. Os humoristas derrubam tabus, preconceitos, desnudam injustiças; mostrando que o rei está nu, privam o tirano de sua majestade. Por isso, os ditadores só podem encarar o riso de duas maneiras: 1) o humorista é pago pelos cofres do Estado, para prestigiá-lo; esse merece todos os favores; 2) o humorista denuncia o que há de ridículo na situação; esse há de ser suprimido.

Assim, o riso e a vida humana são uma só coisa. Acrescente-se que o riso é a única arma eficaz no combate à morte, ao nada. Dispenso-me de comprovar o que estou dizendo, por já estar cansado de discorrer sobre o óbvio.

Perguntará o leitor: “E por quê”? Respondo que essa digressão me pareceu necessária à compreensão do caso que se segue — o caso do soldador Bosse Gustafsson.

Aconteceu na Suécia. Há na Suécia uma cidade, Eksjo, que em 1968 foi eleita a cidade mais desagradável do mundo. Do recorte que me entregaram, tirado de um jornal sueco e com a respectiva tradução datilografada, consta apenas que essa eleição foi patrocinada por uma revista semanal. Mas, no outono de 1970, o soldador Bosse Gustafsson atravessava a praça Grande de Eksjo.

Gustafsson tem 23 anos de idade. Atravessando a praça Grande da cidade mais desagradável do mundo, riu-se às gargalhadas. Era o chamado riso insopitável, provocado por uma especulação qualquer de seus humores, sem relação com a paisagem e a população notoriamente chatas de Eksjo.

Na primavera de 1971, que é agora, o soldador foi julgado e condenado a pagar uma multa de 50 coroas ao governo sueco. A rubrica da condenação foi: “Conduta capaz de despertar aborrecimento, irritação”.

— Foi uma gargalhada tensa e espremida — declararam os queixosos, que se encontravam todos na praça Grande, na célebre manhã em que o soldador por lá passou. — Enquanto se abria naquela gargalhada, o sr. Gustafsson levantava os braços acima da cabeça e batia as palmas das mãos nos joelhos, várias vezes. A risada incomodou terrivelmente os moradores em volta da praça. Todos os que se achavam na praça olharam para o sr. Gustafsson.

Portanto, na cidade mais desagradável do mundo, é proibido rir. O que não deixa de ser engraçado, quá-quá-quá!
José Carlos Oliveira

quinta-feira, dezembro 5

'Banquinho" na biblioteca

 


As cidades e a memória

1
Partindo dali e caminhando por três dias em direção ao levante, encontra-se Diomira, cidade com sessenta cúpulas de prata, estátuas de bronze de todos os deuses, ruas lajeadas de estanho, um teatro de cristal, um galo de ouro que canta todas as manhãs no alto de uma torre. Todas essas belezas o viajante já conhece por tê-las visto em outras cidades. Mas a peculiaridade desta é que quem chega numa noite de setembro, quando os dias se tornam mais curtos e as lâmpadas multicoloridas se acendem juntas nas portas das tabernas, e de um terraço ouve-se a voz de uma mulher que grita: uh!, é levado a invejar aqueles que imaginam ter vivido uma noite igual a esta e que na ocasião se sentiram felizes.


2
O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações.
Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis"

Que nem cambucá: Casca grossa, miolo doce

A D. Maria Luísa da Cunha Jaguaribe tinha dupla personalidade. Tanto era áspera e desagradável para os que não lhe calhavam, como charmosa e delicada para os que lhe caíam no goto. Duas consistências, que nem cambucá: casca grossa, miolo doce. É por isto que a casa vivia cheia dos eleitos do segundo grupo. Começava à hora do café, com a presença da tia Regina que chegava de rosário em punho e tinha a peculiaridade de desfiá-lo conta por conta, mistério por mistério, comendo ou conversando. Ia entremeando uma mastigadela de pão cheia de graça, o Senhor é convosco, do bolo de fubá Santa Maria Mãe de Deus, um gole de xícara agora e na hora de nossa morte, com as novidades do dia, horrorizada de saber que a Siá Beta tinha se mudado para a Rua do Sapo que estais no céu, santificado seja Vosso Nome e indignada com o mutismo do Paleta durante visita que lhe fizera e em que o grosseirão, Inhazinha, nem entrara em conversação, enfim... seja feita Vossa vontade porque cada um dá o que tem, assim como nós perdoamos os nossos devedores, não nos deixeis cair em tentação, que homem insuportável! coitada de Berta! e livrai-nos Senhor de todo mal, amém... Outro, pontual, era o Dr. Bernardo Aroeira com D. Manuelita, sua mulher. Eram compadres de meus avós e vinham sempre com um dos filhos — o Mário, o Biscuit, o Manuelito ou uma das filhas — a Alice, a Mariquinhas, a Simini. Elas arvoravam, invariavelmente, penteado idêntico e esquisito em que figurava fita larga como barrigueira, passada na testa feito curativo de cabeça quebrada. Ultimamente a D. Manuelita tornara-se notória por doença que lhe dera de crescer a barriga e com a qual não tinham atinado nem o Dr. Lindolfo nem o Dr. Vilaça. A Senhorinha, parteira, dizia que era menino. Os médicos, que absolutamente! Não pode ser gravidez, não, Dona Senhorinha... Pois não vê que D. Manuelita é pessoa de cinquenta e tantos, que teve um filho depois do outro e que o mais moço está agora com vinte anos? ora esta! Pois a razão estava com a Senhorinha e o casal Aroeira à hora dos netos, ganhou mais um filho — o Carlinhos — que a mãe de cabeça branca amamentava muito à vontade, rindo tanto, tanto, tanto... e mostrando o rebento de casa em casa, em companhia do marido que depois dessa paternidade tardia adotara ar a um tempo sonso, modesto e capaz. Tratavam-no com admiração no Clube, na Rua Halfeld, no Foltran e na redação de O Farol. Sim senhor, Seu Aroeira, muito bem...
Pedro Nava, "Balão Cativo" 

Clara

A dama de branco voltou-se lentamente. Os seus lábios esboçaram um sorriso tímido e trémulo. Os seus olhos apalpavam o vazio, pupilas brancas como o mármore. Engoli em seco. Era cega.

― Não conheces a minha sobrinha Clara, pois não? ― perguntou Barceló.

Limitei-me a dizer com a cabeça que não, incapaz de despregar os olhos daquela criatura com tez de boneca de porcelana e olhos brancos, os olhos mais tristes que alguma vez vi.

― Na realidade, a especialista em Julián Carax é a Clara, foi por isso que a trouxe ― disse Barceló. ― Mais ainda, pensando bem, acho que com vossa licença me vou retirar para outra sala a fim de inspeccionar este volume enquanto vocês falam das vossas coisas. Acham bem?

Olhei para ela, atónito. O livreiro, pirata até à sepultura e alheio às minhas reservas, limitou-se a dar-me uma palmadinha nas costas e partiu com o meu livro debaixo do braço.

― Impressionaste-o, sabes? ― disse a voz atrás de mim.

Voltei-me para descobrir o sorriso leve da sobrinha do livreiro, tenteando no vazio. Tinha uma voz de cristal, transparente e tão frágil que me pareceu que as suas palavras se quebrariam se a interrompesse a meio da frase.

― O meu tio disse-me que te ofereceu uma boa quantia pelo livro de Carax, mas que tu a recusaste ― acrescentou Clara. ― Conquistaste o seu respeito.

― Qualquer um o diria ― suspirei.

Observei que Clara inclinava a cabeça ao sorrir e que os seus dedos brincavam com um anel que parecia uma grinalda de safiras.

― Que idade tens? ― perguntou.

― Quase onze anos ― respondi. ― E a menina?

Clara riu perante a minha insolente inocência.

― Quase o dobro, mas também não é caso para me tratares por você.

― Parece mais nova ― assinalei, pressentindo que aquilo podia ser uma boa saída para a minha indiscrição.

― Então vou confiar em ti, porque não sei que aspecto tenho retorquiu, sem abandonar o seu sorriso a meia haste. ― Mas, se te pareço mais nova, tanto mais razão para me tratares por tu.

― Como queira, menina Clara.

Observei detidamente as suas mãos abertas como asas sobre o regaço, a cintura frágil a insinuar-se sob as pregas de alpaca, o desenho dos ombros, a extrema palidez da garganta e o desenho dos lábios, que teria querido acariciar com as pontas dos dedos. Nunca até aí tinha tido a oportunidade de examinar uma mulher tão de perto e com tanta precisão sem receio de me encontrar com o seu olhar.

― Para onde é que estás a olhar? ― perguntou Clara, não sem uma certa malícia.

― O seu tio diz que a menina é uma especialista em Julián Carax ― improvisei, com a boca seca.

― O meu tio seria capaz de dizer o que quer que fosse para passar um bocado a sós com um livro que o fascine ― aduziu Clara. ― Mas tu deves perguntar a ti mesmo como alguém que é cego pode ser especialista em livros se não os pode ler.

― Não me tinha ocorrido, para dizer a verdade.

― Para quem tem quase onze anos não mentes mal. Tem cuidado, senão ainda acabas como o meu tio.

Receando meter água pela enésima vez, limitei-me a permanecer sentado em silêncio, contemplando-a aparvalhado.

― Anda, aproxima-te ― disse ela.

― Desculpe?

― Aproxima-te sem medo. Não te vou comer.

Levantei-me da cadeira e aproximei-me até onde Clara estava sentada.
A sobrinha do livreiro levantou a mão direita, procurando-me às apalpadelas.
Sem saber bem como devia proceder, fiz outro tanto e ofereci-lhe a minha mão. Tomou-a na sua mão esquerda, e Clara ofereceu me em silêncio a sua direita. Compreendi instintivamente o que me pedia, e guiei-a até ao meu rosto. O seu tacto era ao mesmo tempo firme e delicado. Os dedos dela percorreram-me as faces e as maçãs do rosto.

Permaneci imóvel, quase sem me atrever a respirar enquanto Clara lia as minhas feições com as mãos. Enquanto o fazia, sorria para si e pude reparar que os seus lábios se semicerravam, como que murmurando em silêncio. Senti o roçar das suas mãos na testa, no cabelo e nas pálpebras. Deteve-se sobre os meus lábios, desenhando-os em silêncio com o indicador e o anular. Os dedos cheiravam a canela. Engoli em seco, notando que a pulsação me disparava à doida e agradecendo à divina providência que não houvesse testemunhas oculares para presenciar o meu rubor, que teria bastado para acender um charuto a um palmo de distância.
Carlos Ruiz Zafón, "A Sombra do Vento" 

O que fica por ler

Incluo-me num grupo de pessoas (penso que bastante alargado) que vai deixando para a reforma alguns livros que pedem tempo, disponibilidade mental, atenção redobrada, leitura sem interrupções. No meu caso, há, entre outras, uma obra magna que não li na juventude e que, sei lá porquê, resolvi eleger para a idade madura. Falo de O Homem sem Qualidades, de Musil, que vergonhosamente continua à minha espera na estante. Tenho, mesmo assim, a consciência pesada desde que li na revista Máxima há vários anos uma crónica do escritor António Alçada Baptista, na qual ele confessava ter guardado muitas obras longas e densas para quando fosse mais velho e, tendo chegado a essa idade, sentia tristemente não ter já as suas faculdades a 100% nem a paciência e a dedicação necessárias à leitura dessas obras de maior densidade. Pois não é que eu mesma já vou sentindo o mesmo?, que me disperso com muito mais facilidade do que antes e que frequentemente dou por mim a contar quantas páginas ainda me faltam para chegar ao fim, fugindo-me a paciência para livros que, mais cedo na vida, teria lido decerto com outro entusiasmo? Pois é, o cineasta António-Pedro Vasconcelos, com quem eu falava muitas vezes de livros, dizia que o pior da morte era o que deixávamos por ler... Tinha toda a razão, claro, e o pior é que alguns livros já não os leremos por manifesta impossibilidade...

quarta-feira, dezembro 4

Veja melhor!

 


As cocadas

Eu devia ter nesse tempo dez anos. Era menina prestimosa e trabalhadeira à moda do tempo.

Tinha ajudado a fazer aquela cocada. Tinha areado o tacho de cobre e ralado o coco. Acompanhei rente à fornalha todo o serviço, desde a escumação da calda até a apuração do ponto. Vi quando foi batida e estendida na tábua, vi quando cortada em losangos. Saiu uma cocada morena, de ponto brando, atravessada de paus de canela cheirosa. O coco era gordo, carnudo e leitoso, o doce ficou excelente. Minha prima me deu duas cocadas e guardou tudo mais numa terrina grande, funda e de tampa pesada. Botou no alto da prateleira.

Duas cocadas só... Eu esperava quatro e comeria de uma assentada oito, dez mesmo. Dias seguidos namorei aquela terrina, inacessível de noite, sonhava com as cocadas. De dia, as cocadas dançavam pequenas piruetas na minha frente. Sempre eu estava por ali perto, ajudando nas quitandas, esperando, aguardando e de olho na terrina.

Batia os ovos, segurava a gamela, untava as formas, arrumava nas assadeiras, entregava na boca do forno e socava cascas no pesado almofariz de bronze.

Estávamos nessa lida e minha prima precisou de uma vasilha para bater um pão-de-ló. Tudo ocupado. Entrou na copa e desceu a terrina, botou em cima da mesa, deslembrada do seu conteúdo. Levantou a tampa e só fez: Hiii... Apanhou um papel pardo sujo, estendeu no chão, no canto da varanda e despejou de uma vez a terrina.

As cocadas moreninhas, de ponto brando, atravessadas aqui e ali de paus de canela e feitas de coco leitoso e carnudo guardadas ainda mornas e esquecidas, tinham se recoberto de uma penugem cinzenta, macia e aveludada de bolor.

Aí minha prima chamou o cachorro: Trovador... Trovador... e veio o Trovador, um perdigueiro de meu tio, lerdo, preguiçoso, nutrido e abanando a cauda. Farejou os doces sem interesse e passou a lamber, assim de lado, com o maior pouco caso.

Eu olhando com uma vontade louca de avançar nas cocadas.

Até hoje, quando me lembro disso, sinto dentro de mim uma revolta – má e dolorida – de não ter enfrentado decidida, resoluta, malcriada e cínica, aqueles adultos negligentes e partilhado das cocadas bolorentas com o cachorro.

Cora Coralina, "O Tesouro da Casa Velha"

O fim do mundo

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.


Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...

Cecília Meireles, "Quatro vozes"

Maturação

Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que a borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair. Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa.

Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com meu hálito. Eu o esquentava, impaciente e o milagre começou a acontecer diante de mim, a um ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu, a borboleta saiu se arrastando e nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas e com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las.

Curvando por cima dela, eu a ajudava com o meu hálito, em vão. Era necessária uma paciente maturação,o desenrolar das asas devia ser feito lentamente ao sol; agora era tarde demais. Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada antes do tempo. Ela se agitou desesperada e alguns segundos depois, morreu na palma da minha mão.

Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Pois, hoje, entendo bem isto: é um pecado mortal forçar as grandes leis. Temos que não nos apressar, não ficarmos impacientes, seguir com confiança e ritmo eterno.
Nikos Kazantzaki

Pedaço de Pau

Domingo, manhã de sol, na beira do Sena. Faço um passeio vagabundo e olho com preguiça as gravuras de um bouquiniste. Há um homem pescando, um casal a remar em uma canoa, o menino sentado no do barco. Há muita luz no céu, nas grandes árvores de pequenas folhas trêmulas, na água do rio. Junto de mim passa um casal de mãos dadas. O rapaz e a moça se parecem, ambos têm os olhos claros, o jeito simples a cara mansa. Vão calados, distraídos, devem ter vindo de alguma província; dão uma idéia de sossego e felicidade tão grande. Parece que a vida será sempre essa manhã de domingo; eles terão sempre essas roupas humildes e limpas, essas mãos dadas sem desejo nem fastio, doçura vaga. Ficarão sempre assim, tranqüilos e sem história, bem-comportados; a calçada em que andam parece estimá-los e eles estimam as árvores, a ponte, a água. São tão singelos como dizer 'bon jour'.

À sombra de uma árvore, junto ao Pont Royal, vejo um velho gordo, em mangas de camisa; pôs uma cadeira na calçada e olha o rio, o palácio do outro lado, a mancha branca do Sacré-Coeur lá no fundo. Deve ser um burguês, um comerciante, que se dispõe a gozar da maneira simples o seu domingo. Passo perto dele e tenho uma surpresa: sob os cabelos despenteados a cara gorda é revolta e amarga, como a de um general mexicano que perdeu a revolução e o cavalo, ficou a pé e desacreditado. Reparo melhor: ele é cego. Está com uma camisa limpa, goza o vento leve na sombra e não vê nada dessa festa de luz que vibra em tudo. Imagino que essa luz é tanta que ele deve sentir sua vibração de algum modo, e não apenas pelo calor, alguma vaga sensação na pele, na ouvidos, nas mãos. Talvez seja isso que ele exprima, mexendo vagamente os lábios.

Como tive vontade de dizer 'bon jour' ao casal, tenho vontade de me sentar ao lado do cego, fazer com ele uma longa conversa preguiçosa. Falar de quê? Talvez de cavalos; cavalos de general, cavalos de carroça, cavalos de meu tio; casos simples de cavalos.

Ou quem sabe ele prefira conversar sobre frutas; provavelmente diria como eram grandes os morangos antigamente, numa chácara da infância. Também sei algumas histórias de baleias; mesmo já vi uma baleia. Todo mundo gosta de conversar sobre baleias. Hesito um segundo, e subitamente penso que se parar ou diminuir o passo, agora que estou a um metro de distância, ele voltará para mim os olhos cegos e inquietos.

— Um cego tem bem direito ao seu sossego no domingo.

Formulo esse pensamento, e uma vez que ele está mentalmente arrumado em palavras, eu o acho sólido, simples e gratuito como um pedaço de pau. Sim, há um pedaço de pau sobre o muro. Jogo-o lá embaixo, na água quase parada. Parece que joguei dentro d'água meu pensamento; fico vagamente vendo os círculos de água, com a alma tão simples e tão feliz como... como, não sei. Como um pedaço de pau. Um pedaço de pau repousando na manhã de domingo.
Rubem Braga, "Crónicas Escolhidas!

segunda-feira, dezembro 2

Leitura espacial

 


O dicionário

Era uma vez um tanoeiro, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou um pau, concitou os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no paço, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.

– Em mim, bradou ele, poderia ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.
O primeiro ato do novo rei foi abolir a tanoaria, indemnizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; - nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.

Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato numa razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos de pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súbditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, sendo por uma oftalmia a que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano de reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um de seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a Aníbal, - comparação que o lisonjeou muito, - o segundo ministro, Ômega, deu um passo adiante, e achou-o superior a Homero, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.

Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais sumptuosas e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenava com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém, resistia à sedução.

Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com que fizesse o melhor madrigal, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiando em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.

Concorreram ao certame. Que foi anónimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos: era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.

Não venceu ainda assim, porque o poeta amado leu à pressa o que pode, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas deram singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, a terceira vitória do poeta amado.

Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:

- Nós, Alfa e ômega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa ideia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.

Barnardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findo os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado; as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.

- Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por decreto, e tudo está feito.

Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os farsolas cumprimentavam-se na rua pelas novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: 'Bom dia, como passou?' - 'Pflerrgpxx, rouph, aa?' A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa.

Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros, e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.

Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta Garção, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:

O raro Apeles,
Rubens e Rafael, inimitáveis,
Não se fizeram pela cor das tintas;
A mistura elegante os fez eternos.

Machado de Assis, "Páginas recolhidas"

Quando a gritaria ganha, a liberdade perde

Em diferentes momentos da história, a queima de livros foi usada para censurar e oprimir. Nos Estados Unidos, nos anos de 1940 e 1950, em vários locais propôs-se a destruição dos que eram considerados “subversivos” ou “corruptores da moral” por grupos de cidadãos e autoridades locais públicas. A Associação Americana de Bibliotecas e o Conselho Americano de Editores de Livros chegaram em 1953 a implorar que fosse respeitada “a liberdade de ler”, como conta a revista Time num artigo já com alguns anos onde se lembra, entre outros infames episódios, o que se passou em 1933: dezenas de milhares de livros queimados em Berlim e noutros locais pelos nazis em nome da “purificação” da cultura alemã.

Quando hoje, num contexto radicalmente diferente — Estados de direito, democracias consolidadas, liberdade de expressão consagrada constitucionalmente, proibição de qualquer discriminação com base na nacionalidade, origem étnica ou expressão de género —, vemos pessoas de megafone em riste a invadir apresentações de livros em centros culturais e bibliotecas, constatamos que há quem não aceite “a liberdade de ler”. E de pensar. E de ser. De ser outro que não eles.


Há grupos extremistas, como o Habeas Corpus, com uma agenda clara: impedir eventos que, nas suas palavras, promovam a “cooptação de crianças e jovens para a homossexualidade pelo movimento terrorista LGBTQIA+”.

Os seus elementos conseguem destruir sessões pensadas para serem de debate livre — mas que terminam silenciadas pela gritaria. Chegam a anunciar previamente o boicote. E mesmo assim, por vezes, são os autores e os leitores que acabam, em nome da sua própria segurança, por ter de sair da sala.

Nas redes sociais destes grupos destila-se ódio contra quem escreve (uma das escritoras recebeu imagens do seu livro a arder, as fogueiras persistem). E contra ativistas, políticos e quem trabalha em jornais. Telefones de jornalistas são partilhados em grupos públicos para que sejam abalroados por insultos estejam onde estiverem, na sua casa ou na redacção. Quem o faz deseja que também eles tenham de sair da sala.

Estas pessoas não acreditam só que não deve haver “liberdade de ler”. Acreditam que não deve haver liberdade. Ponto.

Nos muitos episódios que protagonizaram, sempre que a apresentação de um livro não chegou ao fim, saíram vitoriosos.

Quem legisla, quem garante a segurança, quem investiga as queixas tem de tomar medidas. Não pode continuar a passar esta sensação de passividade.

A liberdade deve ganhar sempre.

A seca

Sobreveio a seca de 1898. Só se vendo. Como que o céu se conflagrara e pegara fogo no sertão funesto.


Os raios de sol pareciam labaredas soltas ateando a combustão total. Um painel infernal. Um incêndio estranho que ardia de cima para baixo. Nuvens vermelhas como chamas que voassem. Uma ironia de ouro sobre azul.

O sol que era para dar o beijo de fecundidade dava um beijo da morte longo, cáustico, como um cautério monstruoso.

A poeira levantava e parecia ouro em pó.

Os ocasos congestos entravam pelas trevas em nódoas sanguíneas. Sobras fervidas. Como um cinzeiro em brasas. Noites tostadas.

Um derrame de luz exaltava que parecia o sol fulminante derretido nos seus ardores.

Ventava. Não era o vento pontual da boca da noite todo sujo de pó como uma criança traquina. Era um sopro do inferno que, alteando-se, parecia querer rasgar as nuvens para acender a fogueira.

A flor desfalecia.

Durante um ano a fio, uma gota d’água que fosse não refrescara a queimadura dos campos.

Depois, não se via um pássaro: só voavam muito alto as folhas secas.

Bem. Um passarinho estava sob a última folha da umburana, como debaixo de um guarda-sol. Caiu a folha e o passarinho abriu o bico e também caiu, com as asas abertas.

O panasco pulverizava-se; girava com a poeira chamejante.

Até onde dava a vista se achatava a paisagem cinérea. A desolação da mesma cor.

A capoeira esquelética levantava os garranchos, como dedos crispados. E dançava, à força, nessa tragédia, como o bochorno fogoso.

A caatinga formava um aranhol.

Como era feia a natureza resseca na sua nudez de pau e pedra!

Os rebanhos aflitos prostravam-se no chão esbraseado.
José Américo de Almeida, "A bagaceira"

A partir da leitura...

Somos sub-educados, atrasados e analfabetos; e neste particular confesso que não faço grande distinção entre a ignorância do meu concidadão que não sabe absolutamente ler nada, e a ignorância do que apenas aprendeu a ler o que se destina a crianças e inteligências medíocres. Deveríamos estar à altura dos grandes da Antiguidade, mas em parte por saber primacialmente quão grandes eles foram. Somos uma raça de homens-passarinhos; nos nossos voos intelectuais mal nos alçamos um pouco acima das colunas do jornal.


Nem todos os livros são tão insípidos como os seus leitores. É provável que haja palavras endereçadas exatamente à nossa condição, as quais, se de facto pudéssemos ouvi-las e entendê-las, seriam mais salutares às nossas vidas que a própria manhã ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face inédita das coisas.

Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.

As mesmas questões que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens sábios; nenhuma foi omitida, e cada um deles respondeu de acordo com a sua capacidade, por meio de palavras ou da própria vida. De mais a mais, juntamente com a sabedoria aprendemos a liberalidade.
Henry David Thoreau, "Walden"