segunda-feira, julho 18

Brasil perdeu quase 800 bibliotecas públicas em 5 anos

Entre 2015 e 2020, o Brasil perdeu ao menos 764 bibliotecas públicas, segundo dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), mantido pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo.

Em 2015, a base de dados contava 6.057 bibliotecas públicas no Brasil, número que caiu para 5.293 em 2020, dado mais recente disponível no site do SNBP.

Para especialistas em biblioteconomia, a queda no número de bibliotecas revela um descaso do poder público com a população mais vulnerável, que não tem acesso a livrarias.

Eles também alertam que o número de bibliotecas fechadas pode ser ainda maior, devido à atual fragilidade do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, após a extinção do Ministério da Cultura, e da falta de controle efetivo pelos sistemas estaduais, cujos dados alimentam o sistema nacional.

Bibliotecas públicas são aquelas mantidas pelos municípios, Estados, Distrito Federal ou governo federal, que atendem a todos os públicos. São consideradas equipamentos culturais e, portanto, estão no âmbito das políticas públicas do governo federal — antes, sob o Ministério da Cultura e atualmente, com a extinção da pasta, sob a Secretaria Especial da Cultura.

Não entram nessa conta as bibliotecas escolares e universitárias, que têm como público-alvo alunos, professores e funcionários das instituições de ensino.

Procurada pela BBC News Brasil, a Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo não respondeu a questionamento sobre o que explica o fechamento de centenas de bibliotecas públicas nos últimos anos, nem qual a política do governo Jair Bolsonaro (PL) para bibliotecas.

O Plano Nacional de Cultura, conjunto de objetivos para o setor em vigência desde 2010 cuja validade foi prorrogada por Bolsonaro até 2024, tem como uma das metas "garantir a implantação e manutenção de bibliotecas em todos os municípios brasileiros".

A perda de mais de 700 bibliotecas nos últimos anos deixa o país cada vez mais distante desta meta.

Das 764 bibliotecas públicas fechadas em cinco anos, 698 (ou 91% do total) estavam localizadas nos Estados de São Paulo e Minas Gerais, sendo em sua maioria bibliotecas municipais.

São Paulo tinha 842 bibliotecas públicas em 2015, segundo o SNBP, número que caiu para 304 em 2020, com a perda de 538 unidades em cinco anos. O montante representa 70% de todas as bibliotecas fechadas no país no período.

A SP Leituras, organização social atualmente responsável pela gestão do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo (SisEB), confirmou que os números registrados no sistema nacional estão corretos e foram fornecidos pelo SisEB, ponderando, porém, que podem tratar-se de dados intermediários e não do recadastramento oficial feito ao final de cada ano.

Segundo a organização, parte da queda no número de bibliotecas é explicada pela pandemia, que levou ao fechamento provisório ou permanente de diversas unidades.

Questionada sobre os motivos dos fechamentos desde 2015, antes da pandemia, a SP Leituras remeteu o questionamento à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

"É difícil concluir o motivo da variação (ou queda) de número de instituições. Sabemos que, infelizmente, muitas bibliotecas foram sendo fechadas ano após ano, mas não podemos afirmar, com certeza absoluta que estes são os números finais", respondeu a pasta, por e-mail.

São Paulo tinha 842 bibliotecas públicas em 2015, número que caiu para 304 em 2020, segundo o SNBP

Minas Gerais, por sua vez, somava 888 bibliotecas públicas em 2015, número que caiu para 728 em 2020, uma perda de 160 bibliotecas em cinco anos, conforme os dados do SNBP.

Procurada para comentar a queda no número de bibliotecas, a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais respondeu que "o Governo de Minas se responsabiliza pelos dados do cadastro estadual, sendo que em Minas Gerais, o número de bibliotecas públicas cadastradas no Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, no dia de hoje [12/7] é de 752 equipamentos".

Ainda conforme a pasta, a atualização é realizada a cada quatro anos e o novo recadastramento será feito em dezembro de 2022. "Outros cadastros são de responsabilidade dos entes pelos quais são gerados e, cabe aos municípios participarem ou não dos mesmos", completou a secretaria.

O fechamento de bibliotecas entre 2015 e 2020 no país reverte tendência de anos anteriores.

De 2004 a 2011, período em que durou o Programa Livro Aberto do governo federal em parceria com municípios, 1.705 novas bibliotecas foram criadas no Brasil e 682 modernizadas, segundo informações do próprio site do SNBP.

A BBC News Brasil solicitou ao SNBP a série histórica do cadastro de bibliotecas públicas em funcionamento no Brasil ano a ano, mas não obteve resposta.

O levantamento foi feito então comparando os dados referentes a 2015 disponíveis no antigo site do SNBP arquivado pelo projeto Internet Archive e os dados referentes a 2020, disponíveis atualmente no site do Ministério do Turismo.

Fábio Cordeiro, presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia (CFB), avalia que o fechamento de bibliotecas no Brasil nos últimos anos é explicado por uma série de fatores.

"Bibliotecas são equipamentos culturais e, durante esse último período, tivemos a eliminação do Ministério da Cultura e uma falta de valorização desses equipamentos", afirma Cordeiro. "O fechamento das bibliotecas públicas revela a falta de investimento e de interesse do governo."

Ele cita ainda um descaso com a população de baixa renda, que depende mais das bibliotecas.

"Há uma falta de políticas voltadas para a parte mais vulnerável da população, que não tem acesso a livrarias, não tem renda para poder comprar livros. Justamente quem mais precisa de bibliotecas são as pessoas mais vulneráveis, que não tem o acesso tão fácil ao livro."

As vendas de livros no Brasil caem ano após ano. Em 2013, ano de melhor desempenho do mercado livreiro nacional na última década, as vendas das editoras para livrarias somaram 279,7 milhões de exemplares, segundo levantamento realizado pela Nielsen BookData para a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

No ano passado, foram 191 milhões de livros vendidos, uma queda de 1% em relação aos 193 milhões de livros vendidos em 2020 e recuo de 32% em relação ao pico de 2013.

Também em 2021, o rendimento médio mensal dos brasileiros caiu ao menor patamar desde 2012, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), para R$ 1.353.

Ainda conforme o IBGE, o percentual de municípios brasileiros com bibliotecas públicas caiu de 97,7% em 2014, para 87,7% em 2018, segundo a edição mais recente da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) que incluiu este tema. O percentual subia ano a ano até 2014, quando passou a cair.

Cordeiro cita ainda o avanço das novas tecnologias como um fator que tem reduzido o público das bibliotecas.

Segundo a pesquisa Retratos da Leitura do Instituto Pró-Livro, em 2019, 68% dos brasileiros diziam nunca frequentar bibliotecas.

Mas o fechamento de unidades parece também influenciar nisso, já que, naquele ano, 45% dos entrevistados diziam não existir biblioteca pública em sua cidade ou bairro, acima dos 20% que davam essa mesma resposta em 2007.

Adriana Ferrari, diretora técnica da Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e vice-presidente da Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários (Febab), avalia que há uma fragilidade nos dados disponibilizados pelo SNBP, porque não há uma coleta efetiva de informações.

Atualmente, segundo o SNBP, a coleta é feita em parceria com os Sistemas Estaduais e Distrital de Bibliotecas Públicas.


"Alguns Estados têm um controle mais eficaz sobre seus sistemas estaduais, outros têm um controle mais frágil. Então essa queda maior na região Sudeste pode ser um resultado da qualidade da coleta de dados", afirma.

"Não me sinto segura em assumir que foram só essas [764] bibliotecas que fecharam. Acredito que esse número pode ser ainda maior, porque vemos um sucateamento há anos de todo o sistema de acesso à informação, à leitura, à cultura e das bibliotecas em si", diz Ferrari.

'Não me sinto segura em assumir que foram só essas bibliotecas que fecharam. Acredito que esse número pode ser ainda maior', diz Adriana Ferrari, vice-presidente da Febab

A bibliotecária observa que o Plano Nacional de Cultura nunca foi cumprido. E, mesmo após a aprovação da Política Nacional de Leitura e Escrita (PNLE), conhecida como Lei Castilho (Lei 13.696/18), sancionada por Michel Temer (MDB), o objetivo de "universalização do direito ao acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas" em nada avançou.

"Não temos nenhuma política pública em pé, não temos o Ministério da Cultura, que é a pasta que gerencia o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. Então, o sistema existe, mas com uma estrutura extremamente fragilizada. Por isso, não avançamos. Pelo contrário, a gente vem retrocedendo", afirma.

"A biblioteca não é só um espaço do livro e da leitura, ela é uma porta de infinitas possibilidades, de abertura de repertórios culturais. São espaços de encontros, de pertencimento, então elas vão além das coleções", diz Ferrari, que defende o fortalecimento das políticas públicas para reverter esse cenário de retrocessos.

Durante a Bienal do Livro, realizada neste mês de julho em São Paulo, a CFB lançou a campanha #SouBibliotecaEscolar, que busca o cumprimento da Lei nº 12.244/2010 (Lei da Universalização das Bibliotecas Escolares), que determinou que todas as instituições públicas e privadas de ensino do país passem a contar com bibliotecas, com acervo mínimo de um título por aluno matriculado.

O prazo de cumprimento da lei se esgotou em 2020, sem que a meta fosse atingida.

Já a Febab lança em breve uma plataforma com o objetivo de mapear todas as bibliotecas, de todos os tipos (públicas, escolares, universitárias e comunitárias) do país. A ideia é poder monitorar e ajudar os sistemas estaduais a ter dados mais consistentes sobre esses equipamentos públicos.

Thais Carrança

domingo, julho 17

Protegida no sono

 


Apresentalção solene

Alguns meses depois de meu ingresso na escola, aconteceu algo solene e excitante que determinou toda a minha vida futura. Meu pai me trouxe um livro. Levou-me para um quarto dos fundos, onde as crianças costumavam dormir, e o explicou para mim. Tratava-se de “The Arabian Nights” (“As Mil e Uma Noites”), numa edição para crianças. Na capa havia uma ilustração colorida, creio que de Aladim com a lâmpada maravilhosa. Falou-me, de forma animadora e séria, de como era lindo ler. Leu-me uma das histórias: tão bela como esta seriam também as outras do livro. Agora eu deveria tentar lê-las, e à noite eu lhe contaria o que havia lido. Quando eu acabasse de ler este livro, ele me traria outro. Não precisou dizê-lo duas vezes, e, embora na escola começasse a aprender a ler, logo me atirei sobre o maravilhoso livro, e todas as noites tinha algo para contar. Ele cumpriu sua promessa, sempre havia um novo livro e não tive que interromper minha leitura um dia sequer.

Era uma série para crianças e todos os livros tinham o mesmo formato; se diferenciavam pela ilustração colorida na capa. As letras tinham o mesmo tamanho em todos os volumes e era como se continuasse a ler sempre o mesmo livro. Como série, nunca houve outra igual. Lembro-me de todos os títulos. Depois da Mil e uma noites vieram os Contos Grimm, Robinson Crusoé, As viagens de Gulliver, Contos de Shakespeare, Dom Quixote, Dante, Guilherme Tell.

Elias Canetti. "A língua absolvida"

Um cão, apenas

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim — plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito —, eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. E um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com um grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem...
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens.

Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.

Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.

Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.

Cecília Meireles, "Inéditos – crônicas"

sábado, julho 16

A pernalta

 


Universidade


A verdadeira universidade de hoje é uma coleção de livros
André Maurois

Preferências

Prefiro o cinema. Prefiro os gatos. Prefiro os carvalhos sobre o Warta. Prefiro Dickens a Dostoiévski. Prefiro-me gostando das pessoas do que amando a humanidade. Prefiro ter agulha e linha à mão. Prefiro a cor verde. Prefiro não achar que a razão é culpada de tudo. Prefiro as exceções. Prefiro sair mais cedo. Prefiro conversar sobre outra coisa com os médicos. Prefiro as velhas ilustrações ilustradas, Prefiro o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não escrevê-los. Prefiro, no amor, os aniversários não marcados, para celebrá-los todos os dias. Prefiro os moralistas que nada me prometem. Prefiro a bondade astuta à confiante demais. Prefiro a terra à paisana. Prefiro os países conquistados aos conquistadores. Prefiro guardar certa reserva. Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem. Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais. Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas. Prefiro os cães sem a cauda cortada. Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros. Prefiro as gavetas. Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui e muitas coisas também não mencionadas. Prefiro os zeros soltos do que postos em fila para formar cifras. Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas. Prefiro bater na madeira. Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando. Prefiro ponderar a própria possibilidade do ser ter a sua razão.

Wislawa Szymborska, "Poemas"

O morador distante

Sempre me deu vontade de morar numa dessas antigas ruazinhas pintadas numa tela. Se, porém, me mostrassem o original, ficaria indiferente, creio eu. Dizeres que no mundo da tela não há poluição sonora etc. seria um motivo demasiadamente óbvio. Que há lá tranquilidade, há. Mas tranquilidade eu consigo em certas horas aqui mesmo, em certas casas à prova de crianças. Verdade que é uma tranquilidade intermitente — por isso mesmo ótima. Não é como essa tranquilidade dos campos — contínua, anestesiante. E, depois, vocês nem imaginam como o gado é contagioso! A gente chega a ter medo de ficar mugindo...

Bem, no que estava eu ruminando? A ruazinha aquela! Me lembro especialmente de uma tela de Sisley. Por que Sisley? Porque, na minha provinciana adolescência — época em que a gente devorava a vida através dos livros —, eu me deliciava na Biblioteca Pública do Estado com as revistas de arte à disposição do público: Art et Décoration, Die Kunst, L’Art Vivant, Le Crapouillot — são as que me lembram agora. De modo que, se não cito nenhum pintor nacional, como alguns reclamariam, a culpa não é minha. Aquele recolhimento fervoroso entre os livros — menos os de estudo — foi a época mais viva que eu tive, antes que a vida propriamente dita me pegasse, me rolasse, me não sei o quê. Daí se explica certo europeísmo encontradiço em meus poemas: aqui uma referência à Condessa de Noialles, ali a Gertrude Stein (uma europeia, sim!), mais além à pintora Marie Laurencin. Não houve, pois, esnobismo. Nem me estou desculpando de coisa alguma. Estou apenas dando o depoimento de alguém da minha geração.
Mário Quintana, "A vaca e o hipogrifo"

sexta-feira, julho 15

Assim era

 


Pintura e escrita

Andrey Vasnetsov 
Aconteceu muitas vezes a pintura vir solicitar a minha escrita. Se numa tarde longínqua de 1965 eu não tivesse entrado no Prado e não tivesse ficado cativo perante Las Meninas de Velázquez, incapaz de abandonar a sala até ao fecho do museu, nunca teria escrito O Jogo do Reverso. A mesma coisa vale para a forte sensação que experimentei em criança diante dos frescos do convento de S. Marcos em Florença, revisitados frequentemente em adulto, e que um belo dia regressou com prepotência, desembocando nas páginas de Os Voláteis de Fra Angelico. Mas também algumas páginas de Tristano Morre não existiriam sem O Cão Sepultado na Areia, de Goya. Da imagem para a voz o caminho pode ser breve, se os sentidos responderem. A retina comunica com o tímpano e «fala» ao ouvido de quem olha; e, para quem escreve, a palavra escrita é sonora: ouve‑a primeiro na cabeça. Vista, ouvido, voz, palavra. Mas neste percurso o fluxo não é em sentido único, a corrente é alternada, volta a partir de onde chegou, regressa ao ponto de partida. E a palavra, ao regressar, traz consigo outras imagens que antes não existiam: inventou‑as ela. Assim acontece em muitos destes contos. Se a imagem veio desencadear a escrita, a escrita por sua vez conduziu essa imagem para outro lugar, para aquele algures hipotético que o pintor não pintou. A estória desencadeada pelo visível agarrou o «Aquilo‑que‑se‑vê» para vaguear à sua vontade no território que o artista nos omitiu, o que teria podido pintar ou fotografar mas que suprimiu. «A alma imagina aquilo que não vê», diz Leopardi. O território da escrita é a imaginação que vai além da imagem; é a estória das figuras mas também o seu reverso e a sua multiplicação, a narração do desconhecido que as envolve.

Antonio Tabucchi, "Estórias com Figuras"

Escolha então o melhor lugar

 


O segredo da propaganda é a propaganda do segredo

Depois de tantos anos vendo televisão diariamente, chego a uma conclusão definitiva: é muito mais divertido e mais prático ver os anúncios. Enquanto as outras pessoas ficam aflitas tentando decorar os horários das novelas, das paradas de sucesso e dos chamados programas humorísticos, eu não tenho problema: ligo a televisão em qualquer canal e vejo os anúncios sem preocupação de horário. Vocês talvez achem que é loucura ver os mesmos anúncios diversas vezes, mas posso garantir que os anúncios variam muito mais que as piadas e as músicas que são servidas todos os dias. Pelo menos os anúncios são bem bolados, alguns até inteligentes. A técnica é chatear tanto até ficarem em nosso subconsciente — se é que alguém consegue ter subconsciente assistindo televisão.

Os refrigerantes, por exemplo: quase todos fazem as garrafas dançar na nossa frente e tocam uma musiquinha que chega a dar sede. Aí a gente não resiste: vai à geladeira e bebe um copo de água.

Mas bom mesmo é anúncio de sabonete: aparece cada moça bonita que vou te contar. E com uma grande vantagem, as moças não falam, só aparecem, ligam o chuveiro e ficam noivas dentro da espuma. Por mais que a gente saiba que aquilo é anúncio de sabonete, fica sempre aquela dúvida se um dia eles não vão resolver dar o nome daquele chuveiro ou, quem sabe, o telefone da moça.

Geniais mesmo são as geladeiras que duram toda a vida. Mas muito mais geniais são os textos garantindo que cabe tudinho dentro delas, mas acho que não têm tanta certeza, pois fazem questão de botar uma moça bem bonita pra mostrar a geladeira — e a gente tem é vontade de comprar a moça, mesmo sem o "certificado de garantia".

E as televisões, baratíssimas, cada vez mais vendidas, dentro dos novos planos de venda. Ao invés de bolarem uma televisão mais perfeita, ficam é bolando planos de venda. No dia em que inventarem uma televisão que focalize a cara de um sujeito com menos de três orelhas, não precisam nem fazer anúncio: é só exibir, que esgota no mesmo dia.

Existe anúncio de todo tipo: tecidos que não amarrotam, tecidos que dão prêmios, tecidos que dão desconto, tecidos coloridos que são apresentados em preto-e-branco, tecidos brancos que ficam cada vez mais brancos à medida que vai surgindo um novo sabão em pó. Mas é o que eles pensam: o branco deles, lá em casa, todo mundo tá vendo que é cinza.

O mais engraçado são os anúncios de inseticidas que matam todos os insetos, menos as moscas do estúdio.

Anuncia-se também muita banha, muito pneu, muito perfume, muito sapato, muito automóvel, muita calça, muita bebida e muita pílula pra dor de cabeça. Parece até que um anúncio depende do outro — é como se fosse uma novela, com a vantagem de a gente sempre saber qual o final de cada anúncio. E não pensem que sou o único a achar os anúncios mais interessantes que os programas: os donos das emissoras também acham — senão não ocupavam a maior parte do tempo com anúncios. Nos intervalos é que colocam alguns programinhas — por absoluta falta de mais anúncios.

Reparem só: os programas de humor mostram o lado negativo das pessoas, os personagens são quase todos fossilizados, gagos, surdos, cegos, velhos borocochôs ou sem sexo definido. As novelas exploram seres anormais dentro de um mundo de misérias e lágrimas. Já os anúncios apresentam um mundo de otimismo, onde tudo é bom e saudável, não quebra, dura toda a vida e qualquer um pode adquirir quase de graça, pagando como puder, no endereço mais próximo da sua casa. O único detalhe que nos deixa um pouco frustrados é que a moça que dá os endereços fala tão preocupada em não errar que a gente não consegue decorar nenhum endereço. Em compensação, sabe de cor a moça todinha.
Leon Eliachar, "O Homem ao Zero"

quinta-feira, julho 14

Leitor feliz

 


Um encontro

Foi Joe Dillon quem nos apresentou ao Velho Oeste. Ele tinha uma pequena biblioteca formada por edições antigas de The Union Jack, Pluck e The Halfpenny Marvel. Todo entardecer depois da escola a gente se encontrava no quintal da casa dele e promovia batalhas contra os índios. Ele e Leo, o preguiçoso e gorducho irmão mais novo, resistiam no celeiro da estrebaria enquanto tentávamos tomá-lo de assalto; ou então travávamos uma batalha campal no gramado. Mas, por melhor que lutássemos, nunca ganhávamos os cercos nem as batalhas, e todas as nossas investidas terminavam com a dança da vitória de Joe Dillon. Os pais dele iam à missa das oito toda manhã na Gardiner Street e o perfume tranquilo da sra. Dillon dominava o corredor da casa. Mas ele brincava de um jeito intenso demais para nós, que éramos mais jovens e mais tímidos. Parecia um índio quando zanzava pelo quintal com um velho pano de chá na cabeça, batendo numa lata com o punho e gritando:

– Ya! Yaka, yaka, yaka!

Ninguém acreditou quando disseram na escola que tinha vocação para a vida eclesiástica. Mesmo assim era verdade.

Um espírito de desobediência se espalhou entre nós e, sob essa influência, diferenças de cultura e de constituição foram deixadas de lado. Nos reunimos em um grupo, uns por orgulho, uns pela brincadeira e outros pelo que mais parecia um temor; e entre esses últimos índios relutantes que tinham medo de parecer diligentes ou pouco robustos estava eu. As aventuras narradas na literatura do Velho Oeste eram distantes da minha natureza, mas pelo menos me revelaram uma rota de fuga. Eu preferia certas histórias americanas de detetive em que às vezes apareciam garotas desleixadas, corajosas e bonitas. Mesmo que não houvesse nada de errado com essas histórias e que por vezes tivessem uma pretensão literária, circulavam em segredo na escola. Um dia quando o padre Butler estava ouvindo as quatro páginas de História Romana o desastrado do Leo Dillon foi descoberto com um exemplar de The Halfpenny Marvel.

– Essa página ou essa? Essa aqui? Dillon, de pé, agora! Mal o dia havia... Prossiga! Que dia? Mal o dia havia raiado... Você estudou em casa? O que é que você tem no bolso?

O coração de todos palpitou quando Leo Dillon entregou a revista e todos adotaram uma expressão inocente. O padre Butler folheou as páginas com a testa franzida.

– Que porcaria é esta?, perguntou. O cacique apache! É isso o que você está lendo em vez de estudar História Romana? Não quero mais saber dessas bobagens aqui no colégio. O autor dessa história deve ser um borra-tintas que escreve em troca de bebida. Fico surpreso ao ver que garotos que tiveram uma educação como a de vocês leiam esse tipo de coisa. Eu até entenderia se vocês fossem... alunos da National School. E agora, Dillon, eu o aconselho sinceramente a trabalhar direito, senão...

Essa reprimenda durante as nossas sóbrias horas de estudo acabou com boa parte da glória do Velho Oeste para mim e o rosto confuso e inchado de Leo Dillon despertou uma das minhas consciências. Mas quando a influência restritiva da escola ficou para trás eu comecei a sentir sede de emoções fortes, da fuga que somente aquelas crônicas da desordem pareciam me oferecer. As guerras de faz de conta ao entardecer no fim tornaram-se tão enfadonhas para mim quanto a rotina da escola pela manhã porque eu queria que aventuras de verdade acontecessem comigo. Mas aventuras de verdade, refleti, não acontecem com pessoas que ficam em casa: precisam ser buscadas em lugares distantes.
James Joyce, "Dublinenses'

Como papel de parede, mas mais verdadeiro

Reconheço este cheiro, vem de um lugar onde aprendi a avaliar o mundo, onde me dei conta de que existia alguém a falar no interior dos meus pensamentos, alguém que dizia “eu” e se referia a mim. Reconheço este cheiro desde que o senti pela primeira vez, na casa dos meus pais que, por sua vez, era uma decantação do cheiro da casa dos meus avós. Neste cheiro, há uma mistura de madeira e vinho, de comida cozida, sopa, também um cheiro de pele das pessoas, provavelmente o sol deixa um aroma na pele, reação físico-química, mistura de terra e tempo. Reconheço este cheiro, cheira a Portugal.

Na sala, a televisão está a passar um canal português com uma apresentadora que conheço desde pequeno e que conta, com pronúncia de Lisboa, uma piada qualquer que não pode ser traduzida para nenhuma outra língua. Estou sentado no sofá, entre almofadas. A mesa, diante de mim, chega-me aos joelhos e está coberta por uma toalha de renda, feita durante serões enormes por uma mulher com muita paciência. Às vezes, essa mulher chega para insistir que coma qualquer coisa. Recuso como a minha mãe me ensinou há muitos anos. Recusaria exactamente da mesma maneira se estivesse com fome, o que já aconteceu noutras ocasiões. De certeza que não quer comer nada? A dona da casa admira-se com a minha recusa, como se a minha resposta fosse bizarra, fora da lógica do mundo. Esse tom também faz parte do protocolo desta circunstância. Ela ainda insistirá mais algumas vezes e eu ainda recusarei mais algumas vezes. Entretanto, debaixo de tudo isso, a respiração das alcatifas, o fiozinho de fumo que se levanta de uma chaminé na paisagem daquele quadro estampado, o castiçal de cobre com velas novas, que nunca arderam.


E, quando saio à rua, estou em Newark, nos arredores de Paris, em Toronto, no Luxemburgo, em Joanesburgo, em Lausane. A espessura do ar mudou de repente. Afinal, há mais fronteiras do que aquelas em que se tem de preencher pequenos papéis com o nome, o número do passaporte e cruzes numa coluna de quadradinhos a que se tem de responder sempre NÃO. Traz plantas? Não. Tem pacemaker? Não. Traz mais de 10 mil dólares em dinheiro. Não.

Sair dessa casa, onde há loiças com o emblema do Benfica e molduras com fotografias tiradas no largo da aldeia, e, logo de seguida, pisar o passeio de qualquer uma dessas cidades é muito semelhante ao teletransporte do Star Trek. Estamos num lugar e, de repente, materializamo-nos noutro. Com uma ligeira tontura, sigo um casal que me fala de quando chegaram a esta cidade, eram tão novos, tudo isto era tão diferente. Chegou a hora de jantar. Entramos num restaurante e, de novo, sou teletransportado. O empregado tem bigode, chama-se Armando e recomenda-nos o bacalhau à lagareiro. Na televisão, a apresentadora continua com o mesmo sorriso e o mesmo vestido brilhante. Peço um Sumol de laranja. Será que tem? Claro que tem. O fundo da garrafa desenha um círculo na toalha de papel.

Em agosto, a casa de onde saí há minutos, terá os estores fechados. A cada dois dias, escutar-se-á a chave na fechadura. Será uma vizinha que virá regar as flores: a torneira aberta de encontro ao fundo do regador de plástico. E também o restaurante estará fechado, terá um letreiro em português a dizer: encerrado para descanso do pessoal, reabre em setembro. E, aos sábados, quem quiser cozido, terá de fazê-lo em casa. Isso, claro, se conseguir encontrar chouriços, morcelas e farinheiras, se tiver enchidos no congelador ou se o senhor do talho não tiver ido passar férias à terra.
José Luís Peixoto

terça-feira, julho 12

Cadeira de balanço ideal

 


O susto do taxista

No último fim de semana, um passageiro de um táxi, indo para o aeroporto, inclinou-se para a frente para perguntar algo ao motorista, gentilmente tocando-o no ombro, para chamar a sua atenção.


O taxista deu um berro, perdeu o controle do carro, quase bateu num ônibus, subiu na calçada e só parou a poucos centímetros de uma grande porta de vidro. Por alguns momentos, fez-se silêncio no carro. Então, o motorista, tremendo, falou: – O senhor está OK? Sinto muito, mas o senhor me deu um grande susto. O também trêmulo passageiro pediu desculpas ao taxista, dizendo: – Eu não sabia que um simples toque no ombro assustaria tanto alguém. O taxista respondeu:

– Não, não, eu é que peço desculpas. É que hoje é o meu primeiro dia dirigindo um táxi. Eu fui motorista de carro fúnebre por 25 anos.
Luiz Antonio Solda

Enterro do ator

Ontem houve um enterro aqui no hotel. Não foi dos mais belos, mas sempre alegrou a vista.

Morreu exatamente o ator Papanatas, que desta vez se atirou à parede como se fora uma bola de futebol e não de pingue-pongue, e morreu imediatamente. Depois de muito insistir deixaram-me ver o corpo, todo vestido de azul como uma papoula. Trazia as narinas abertas, e não fechadas como eu supunha, a aspirar o ar ambiente, trescalando a vela. A cabeça estava envolta numa faixa muito bem apertada, certamente para que os miolos não saíssem pela abertura feita pela parede, já que não puderam sair pela boca, nem pelo nariz, nem mesmo pelos ouvidos. Mas era o mesmo Papanatas de sempre, ou antes, a Dama das Camélias, como ele gostava que o chamassem.

Houve muito pranto, graças a Deus; e eu temia que não houvesse, não sei bem por quê. Eu mesmo arrisquei uma furtiva lágrima, que caiu bem no nariz de Papanatas e depois rolou pela sua boca, só não entrando porque o lenço estava muito bem amarrado e ali não passava nem um palito. Mas quem chorou de fato foi uma mulher de nádegas enormes — um pouco calva, me pareceu — e que, quando deixava de chorar, era pra fitar-me com um olhar suspeitoso, como se houvera sido eu o assassino de Papanatas e não ele mesmo. Também chorou uma mocinha de seus quinze belos anos, muito linda para um funeral tão pobre, e com quem eu flertei entre um pranto e outro, para não deixar escapar tão bela oportunidade.

Não houve biscoitos, como é de praxe, nem sequer uma xícara de café fumegante e aromático, como nos bons tempos em que havia um morto dentro da nossa casa ou em casa dos vizinhos mais afortunados. Em verdade tudo se limitou a um espetáculo muito banal e em parte ridículo, do qual me aborreci logo e tratei de esquecer-me assim que me vi no corredor, ao lado de um dos criados que gentilmente se prontificou a acompanhar-me.

Gosto de morte, realmente, e sobretudo de mortos, mas me parece que Papanatas poderia ter arranjado uma morte mais digna e menos vulgar, com bimbalhar de sinos por exemplo e alguns foguetes de chuva de prata, que são os mais belos para ocasiões semelhantes. Vou falar mesmo com a mulher do subgerente nesse sentido, assim que ela venha aplicar-me a injeção de soro da juventude que o Governo manda aplicar gratuitamente em todos os hóspedes do hotel.

E, aproveitando, tentarei passar-lhe as mãos pelos joelhos, e se possível pelas coxas, embora não o permita o novo regulamento.
Campos de Carvalho, "A lua vem da Ásia"

segunda-feira, julho 11