sábado, junho 15

Equilibrismo

As épocas de transição nunca foram idades de ouro, séculos de ouro. São apenas épocas de arame. Que a gente tem de atravessar como o bamboleante fio estendido de um lado a outro do circo. E isto, note-se bem, sem rede de segurança.

(Lá embaixo, na arena, estão rugindo as feras.)

Mario Quintana, "Caderno H"

Esperem um pouco!

Sou um homem doente… Sou um homem raivoso. Sou um homem sem graça nenhuma. Acho que sofro do fígado. Na verdade, não tenho a menor ideia da minha doença nem sei direito o que dói. Não me trato e nunca me tratei, apesar de respeitar a medicina e os médicos. Além do mais, sou supersticioso ao extremo; bem, pelo menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou instruído o suficiente para não ser supersticioso e, mesmo assim, sou supersticioso.) Não, meus senhores, eu não quero me curar da raiva. E isso, não há dúvida, é uma coisa que os senhores não vão se dar ao trabalho de compreender. Mas, muito bem, eu compreendo os senhores. Claro, neste caso, não sou capaz de explicar quem é que estou infernizando com a minha raiva; sei muito bem que não posso, nem de longe, causar dano aos médicos, por não me tratar com eles; e sei, melhor do que qualquer um, que, com isso, só prejudico a mim mesmo e mais ninguém. Porém, apesar de tudo, se eu não me trato, é de raiva. O fígado
está doendo; pois que doa ainda mais!

Já faz tempo que vivo assim — uns vinte anos. Agora, tenho quarenta. Antes, eu trabalhava no serviço público e agora não trabalho mais. Fui um funcionário cruel. Era bruto e nisso encontrava prazer. Sabe, eu não aceitava suborno, portanto, tinha de me recompensar pelo menos dessa forma. (Que piadinha ruim; mas não vou riscar. Escrevi isso achando que ia ficar muito espirituoso; agora, como eu mesmo percebi que, desse modo, eu só queria me exibir, e da maneira mais detestável, não vou riscar, e não vou riscar de propósito!) Antigamente, quando as pessoas chegavam à minha mesa de trabalho para pedir alguma coisa, eu rangia os dentes para elas e sentia um prazer insaciável quando conseguia fazer mal a alguém. E quase sempre conseguia. Na maioria, era gente tímida: todo mundo sabe como é essa gente que procura as repartições. Porém, entre as pessoas mais presunçosas, havia em particular um oficial que eu não conseguia suportar. Ele não queria de jeito nenhum se sujeitar à minha superioridade e fazia tinir o sabre de modo abominável. E, por causa daquele sabre, durante um ano e meio, eu e ele travamos uma guerra. No fim, levei a melhor. Ele parou de tinir o sabre. Aliás, isso aconteceu na minha mocidade. Mas os senhores querem saber qual era o motivo principal da minha raiva? A questão toda, e nisso é que estava a maior sordidez, a questão toda se resumia ao fato de que eu, a todo momento, e até nos momentos do rancor mais brutal, reconhecia com vergonha que eu não só não era raivoso como não era nem mesmo uma pessoa de maus bofes, eu apenas ficava espantando pardais à toa, e com isso me divertia. A minha boca espumava, mas bastava me trazerem um bonequinho qualquer, me darem um chazinho com açúcar, que eu podia logo me acalmar. Eu ficava até sinceramente comovido, se bem que depois, com certeza, ia ranger os dentes para mim mesmo e, de vergonha, teria insônia durante meses. É meu jeito de ser.

Eu menti antes, quando disse que era um funcionário cruel. E menti de raiva. Eu apenas ficava de brincadeira com as pessoas comuns, e também com o oficial, mas, no fundo, nunca consegui me tornar maldoso. A todo momento, eu percebia em mim mesmo uma porção de elementos completamente contrários a isso. Eu sentia que eles fervilhavam dentro de mim, aqueles elementos contrários. Eu sabia que tinham fervilhado dentro de mim a vida toda e imploravam para vir à tona, mas eu não os deixava sair, não deixava de propósito, eu não deixava sair nada. Eles me atormentavam até a vergonha; me levavam até a convulsão e, por fim, acabaram me deixando aborrecido, muito aborrecido mesmo! Afinal de contas, não parece aos senhores que, agora, estou mostrando meu arrependimento, que eu estou pedindo perdão aos senhores?… Estou convencido de que, para os senhores, é isso que parece… Aliás, eu lhes garanto que, para mim, tanto faz como tanto fez, se parece ou não parece…

Não só não consegui me tornar maldoso como fui incapaz de me tornar qualquer coisa: nem mau nem bom, nem crápula nem puro, nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo no meu canto e atiço a mim mesmo com um consolo pérfido, que não serve para nada, e que vem da ideia de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se coisa nenhuma e que só um imbecil se torna alguma coisa. Sim, meus senhores, o homem inteligente do século XIX deve, é sua obrigação moral, ser uma criatura, por excelência, sem caráter; afinal, o homem com caráter, o
homem de ação, é uma criatura por excelência limitada. É a minha convicção, aos quarenta anos de idade. Tenho agora quarenta anos e, afinal, quarenta anos é toda uma vida; a rigor, é a velhice mais acabada. Viver mais de quarenta anos é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive mais de quarenta anos? Respondam com sinceridade, com honestidade. Vou lhes dizer quem é que vive: os imbecis e os canalhas. Eu digo isso na cara de todos os mais velhos, todos esses velhos respeitáveis, todos esses velhos perfumados e de cabelos cor de prata! Vou dizer isso na cara de todo mundo! Tenho o direito de falar assim, porque eu mesmo vou viver até os sessenta. Vou viver até os setenta! Vou viver até os oitenta!…

Esperem um pouco!

Deixem-me tomar fôlego…
Fiódor Dostoievsky, "Memórias do subsolo"

A verdade

Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a ver­dade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não. Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta con­fessei a verdade:

Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de­-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
Almada Negreiros, "A Invenção do Dia Claro"

sexta-feira, junho 14

Salve-se nas enchentes

 


Crianças na Rua Principal

Eu ouvia as carroças passarem diante da grade do jardim, às vezes também as via pelas frestas da folhagem que se movia de leve. Como estalava no verão quente a madeira dos raios das rodas e dos varais dos carros! Os trabalhadores chegavam dos campos e riam que era uma vergonha.

Estava sentado no nosso pequeno balanço, acabava de descansar entre as árvores no jardim dos meus pais.

Diante da grade o movimento não parava. Crianças em passo acelerado surgiam e sumiam no mesmo instante; carros de trigo com homens e mulheres sobre os feixes e em toda a volta os canteiros de flores ensombrecidos; perto do anoitecer vi um senhor ir passear lentamente com uma bengala e algumas jovens que vinham de braços dados em direção contrária se desviaram para a grama do lado, cumprimentando.

Depois os pássaros ergueram voo como se fossem um chuvisco, eu os acompanhei com o olhar, vi como subiram num fôlego até não acreditar mais que eles subiam, mas sim que eu estava caindo e, segurando firme nas cordas, comecei a balançar um pouco, de fraqueza. Em breve balançava mais forte quando o sopro de ar ficou mais fresco e em lugar dos pássaros em voo apareceram as estrelas trêmulas.

Serviram-me o jantar à luz da vela. Muitas vezes estive com os dois braços sobre o tampo de madeira e já cansado mordi meu pão com manteiga. As cortinas fortemente vazadas inflavam ao vento morno e às vezes alguém que passava fora as prendia nas mãos quando queria falar comigo. Em geral a vela se apagava logo e na escura fumaça ainda circulavam algum tempo os enxames de moscas. Se da janela alguém me fazia uma pergunta, eu olhava como se fosse para as montanhas ou simplesmente para o ar e ele também não se mostrava muito interessado numa resposta.

Se depois um deles saltava sobre o parapeito da janela e anunciava que os outros já estavam em frente à casa, eu naturalmente me levantava suspirando.

— Por que está suspirando tanto? O que foi que aconteceu? Uma infelicidade especial, para sempre irreparável? Não podemos nunca nos recuperar dela? Está tudo realmente perdido?

Nada estava perdido. Corremos em frente à casa. “Graças a Deus, finalmente vocês estão aqui!” — “Você sempre chega atrasado!” — “Atrasado, eu?” — “Você mesmo, fique em casa, se é o que está querendo.” — “Não quero concessões.” — “O quê? Concessões? Que maneira de falar é essa?”

Trespassamos o anoitecer com a cabeça. Não havia hora do dia e da noite. Ora os botões dos nossos coletes esfregavam uns nos outros como dentes, ora corríamos numa distância estável, o fogo na boca, como animais nos trópicos. Como soldados de couraça nas guerras antigas, batendo os pés e saltando alto, impelimos uns aos outros pela curta ruela abaixo e com esse embalo nas pernas continuamos subindo a rua principal. Alguns entraram na valeta da rua, mal desapareceram diante do talude escuro já estavam em cima, no caminho do campo, como pessoas estranhas olhando para baixo. “Desçam!” — “Subam primeiro!” — “Para nos atirarem aqui embaixo? Estão pensando que nós somos tão bobos assim?” — “Tão covardes assim, é o que estão querendo dizer. Venham, venham!”

— “É mesmo? Vocês, logo vocês, vão nos atirar para baixo? Não se enxergam?”
Atacamos, levamos golpes no peito, caímos voluntariamente na grama da valeta. Estava tudo igualmente aquecido, não sentíamos nem calor nem frio na grama, ficávamos apenas cansados.

Virando-se para o lado direito, a mão sob a orelha, dava vontade de dormir. Mas o que na verdade se queria era erguer-se de novo, o queixo levantado, para no entanto se cair outra vez numa valeta mais funda. Depois, o braço projetado de través, as pernas oblíquas, queríamos nos lançar contra o vento e com certeza cair novamente num fosso mais fundo ainda. E não se queria de modo algum parar com isso.

Como na última valeta seria possível estirar-se ao máximo, sobretudo os joelhos — nisso ainda mal se pensava e ficava-se deitado de costas, como um doente, propenso a chorar. Piscava-se quando um jovem, as mãos nos quadris, pulava do talude para a rua, sobre nós, com as solas escuras.

Já se via a lua a uma certa altura, um carro do correio passava na sua luz. Por toda parte erguia-se um vento fraco, nós o sentíamos até na valeta, e nas proximidades a floresta começava a rumorejar.

“Onde vocês estão?” — “Venham para cá!” — “Todos juntos!” — "Por que você está se escondendo, deixe de bobagem!” — “Não sabem que o correio já passou?” — “Não é possível, já passou?” — “Naturalmente, passou enquanto você dormia.” — “Dormia, eu? Ora essa!” — “Fique quieto, ainda se vê que você estava dormindo.” — “Faça o favor de parar com isso.” -— “Venham!”Corremos juntos, mais perto uns dos outros, alguns estenderam as mãos aos demais, não se podia manter a cabeça suficientemente alta porque o caminho era uma descida. Alguém deu um brado de guerra de índio, sentimos nas pernas um galope forte como nunca, nos saltos o vento nos suspendia pelos quadris. Nada poderia nos deter; estávamos numa corrida tal que mesmo na hora de ultrapassar éramos capazes de cruzar os braços e olhar calmamente em volta.

Estacamos na ponte da torrente; os que tinham corrido à frente voltaram. Embaixo a água batia nas pedras e raízes como se já não fosse tarde da noite. Não havia motivo para que alguém não se atirasse por cima do parapeito.
Detrás da mata, à distância, saiu um trem de ferro, todos os vagões iluminados, as janelas de vidro sem dúvida descidas.

Um de nós começou a cantar uma cantiga de rua, mas todos nós queríamos cantar. Cantamos muito mais rápido do que o trem corria, balançávamos os braços porque a voz não bastava, formamos com as nossas vozes uma confusão na qual nos sentíamos bem. Quando se mistura a própria voz com outras fica-se preso como que por um anzol.

Assim cantamos, a floresta às nossas costas, nos ouvidos dos longínquos viajantes. Na aldeia os adultos ainda estavam acordados, as mães preparando as camas para a noite.

Já era hora. Beijei quem estava a meu lado, aos três próximos apenas estendi as mãos, comecei a fazer o caminho de volta correndo, ninguém me chamou. No primeiro cruzamento, onde eles não podiam mais me ver, dobrei a esquina e corri outra vez pelas trilhas do campo para a floresta. Eu queria ir para a cidade do sul da qual se diz em nossa aldeia:

“Lá existem pessoas — imaginem! — que não dormem!” “E por que não?”

“Porque não ficam cansadas.”

“E por que não?”

“Porque são loucas.”

“Então os loucos não ficam cansados?"

“Como é que os loucos poderiam ficar cansados?”

Franz Kafka, "Contemplação"

Sonho do sol

Foi no ano passado, sim, salvo erro.

Estava um dia tão bonito! Pus-me à janela. Vê-se um bocadinho de rio da minha janela... Que vontade que eu tinha, como tantas vezes, de andar de barco para cima e para baixo naquela nesga de água! Dava-lhe o sol, parecia mesmo um espelho.

Mas não saí de casa em todo o dia. Não foi no ano passado, foi há menos tempo, agora é que me estou a lembrar. Naquele dia aborreci-me muito, sentia-me presa, feita freira. Estive que tempos à janela, ao sol. E de noite sonhei...

Sonhei que ainda estava ao sol, mas na soleira de uma porta de aldeia, e que uma mulherzinha me catava. As unhas dela arranhavam-me e eu queria livrar-me daquele castigo, mas não podia. A menina apanhou muito sol, nasceram-lhe muitos piolhos! — dizia-me ela. Deixei-me ficar. Por fim achei-me no campo. E a minha cabeça era a de um pinheiro redondinho. Redondinho, redondinho, redondinho. Mas senti-me presa ao chão e fui crescendo. Tornei-me tão alta como todos os outros pinheiros. Não podia andar, já se sabe... e por isso o meu divertimento era bater com a cabeça na dos pinheiros que me rodeavam.

Não sei como vejo-me a caminhar de novo e venho ter a casa, ao meu próprio quarto. Peço à Joana a escova para me escovar das carumas; estava cheiinha delas; mas qual Joana nem qual escova? Começo a brincar aos cinco cantinhos, e com quem? Com uns soizinhos muito engraçados, muito corados e alegres — cada um do seu canto. Eram rapazes, mas por fim desapareceram também.

E eu, ainda tonta de sono, tenho uma grande vontade de ir buscar o sol, de o puxar para cima da minha cama e de lhe perguntar porque é que me tinha feito piolhosa e me tinha depois transformado em pinheiro e me mandara aqueles garotos com cara de sol, que se tinham ido embora tão depressa!
Irene Lisboa, "Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma"

Entre os cupins e os clássicos

Não acreditem no Instagram; as pequenas alegrias da vida são, quase sempre, pequenas mesmo, quase invisíveis. Semana passada, por exemplo. Descobri que uma linda boneca russa que trouxe de Moscou há anos estava sendo destruída por cupins — uma luta inglória, essa; já troquei estantes, já perdi livros e objetos, já saí de casa com os gatos por quatro dias para que tudo fosse devidamente descupinizado, e ainda assim continuo encontrando cupins. Atrás da minha casa há uma pedra enorme com uma florestinha e pronto, é isso. Mas eu estava falando da matryoshka: toda devorada. Eu sacudia e ela chacoalhava com a poeira solta. Lá dentro, dezenas deles, roliços, brancos, vivos e nojentos, muito nojentos.

A boneca não teve salvação. Antes de jogá-la no lixo, porém, tive a ideia de separar os cupins e servi-los ao aquário. Seus habitantes são insignificantes, coitados, só uns camarõezinhos miúdos e meia dúzia de pequenos guppies que nasceram aqui mesmo e que vivem de ração mas, numa fração de segundo, todos eles, que jamais viram um cupim na vida, entenderam que aquilo era alimento e se refestelaram.

Este episódio banal foi singularmente satisfatório. A minha boneca russa foi vingada e, de quebra, eu me senti muito feliz em proporcionar aos peixes e aos camarõezinhos uma refeição tão nutritiva.

Um jantar de cupins para os peixes: às vezes, é o que temos.

Outra alegria sutil foi constatar que nenhum dos livros que estavam debaixo da finada matryoshka havia sido atacado.

Aliás: tive várias alegrias com livros ao longo da semana dos cupins. Gastei todo o meu dinheiro em meia dúzia de volumes da Folio, de Londres, e eles finalmente chegaram. A Folio faz os livros que a Gisele Bündchen seria se fosse de papel.

Também mandei vir “The Little Prince”, de Saint-Exupéry, numa edição deliciosa da Penguin UK, porque nunca havia lido ele em inglês, e uma outra edição igualmente irresistível de “The Great Gatsby”, de Scott Fitzgerald, que já li muitas vezes, mas justifiquei com a curiosidade de ver o que a Penguin dos Estados Unidos entenderia por “Deluxe Edition”.

Só posso dizer uma coisa: eles sabem do que estão falando.

Uma capa magnífica. Orelhas generosas. Tipos grandes. Nova introdução bastante pessoal (mas apenas razoável) de Min Jin Lee, a autora de “Pachinko”, que situa o romance para os jovens leitores de hoje. E, surpresa, um corte irregular que dá às páginas o ar antiguinho dos tempos em que as abríamos com espátulas. Ao contrário dos tesouros da Folio, ele é quase uma pechincha: custa exatos R$ 56,58 na Amazon.

É curioso ver como essas editoras queridas, que são a mesma mas não são (ambas pertencem ao grupo Penguin Random House, mas têm times editoriais, catálogos e estratégias de marketing distintos), entenderam o mundo das booktokers caprichosas, que amam expor as suas estantes bem arrumadas e os seus livros bonitos. Cada qual à sua maneira, as duas oferecem belos objetos, feitos não só para boas leituras, mas também para chamar a atenção na internet.

quarta-feira, junho 12

Manhã na cama

 


Artimanhas do destino

Ela viria num trem, viria num navio, viria a pé talvez. Era possível que, sem ele saber, ela fosse vizinha sua e o destino a estivesse reservando para um dia especial, o dia dos dias, em que a primavera fosse mais primavera. Ela viria, se ele pudesse crer nos livros que lera e naquela doce aflição no peito que, desde menino, lhe tinham dito que era poesia.

***

Depois do vão desatino, do som sem nexo e da fúria, dos ímpetos de altivez, impõe-se nosso destino: o desencanto, a penúria, miséria atroz, pequenez.

***

Talvez por mera ironia, foi este o destino meu: vivi o que eu não queria e o que eu queria morreu.

***

Se é verdade que cada um de nós faz o seu destino, tenho uma queixa: não sou importante, longe disso, mas bem que poderiam ter me designado um administrador melhor.

***

Eu já devia ter compreendido. Se fosse meu destino ser poeta, há muito eu já teria sido.

***

Ele começa sempre fingindo que se perdeu no corpo dela e depois desse pânico simulado é que se põe a movimentar-se, inseguro, estupidamente para o fundo, para dentro, como um náufrago a quem não se há de censurar que tudo faça para salvar-se, embora seu destino já esteja escrito.

Outro tempo

Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio da parede! Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo.
Mário Quintana, "Caderno H"

Investir nos livros e na leitura

É notável o trabalho de Miguel Carvalho, na edição de hoje da Visão, sobretudo por nos colocar diante dos olhos exemplos como o de uma mulher de 57 anos, de Canelas, Penafiel, que não só começou a ler por influência dos filhos, como também, a dado momento, explica ao repórter: “os livros ajudam muito a compreender os outros e a olhar para dentro de nós”. Magistralmente, Conceição acrescenta ao cariz didático que, de forma mais ou menos tácita, todos reconhecem à leitura uma dimensão que só os leitores sabem que ela tem. Essa dupla importância servirá de postulado em relação ao que a seguir direi.




Segundo a consultora GFK, que audita o mercado livreiro em Portugal, a quebra das vendas de livros nos primeiros nove meses de 2020 (juntando as fases de confinamento e de pós-confinamento, portanto) foi de 15,8%. Já sob o jugo da chamada segunda vaga da pandemia da Covid-19, os profissionais do setor temem um final de ano que, ao invés de oferecer uma recuperação, os oprima ainda mais. A crise está aí e a memória nunca se mostra curta no que toca aos problemas próprios – todos se lembram do que aconteceu depois da crise de 2008, todos sabem que, na última década, as vendas de livros em Portugal caíram quase 30%.

Os economistas conseguirão explicá-lo melhor, especialistas em psicologia e em sociologia do consumo também, mas o que a crise anterior demonstrou foi que uma quebra abrupta dos hábitos de consumo de livros (e, digo eu, dos hábitos de leitura) pode tornar-se, pelo menos em parte, perene, uma vez que nunca recuperámos os números de vendas anteriores a essa crise. Vem agravar esta realidade o facto de, nos tempos que correm, esses hábitos tenderem a ser rapidamente substituídos por outros de cariz mais imediato e fácil (como os ligados às redes sociais, ou às plataformas de streaming). Em suma, a crise económica origina também empobrecimento cultural. E os números aí estão, demonstrando que as letras se encontram em apuros: os dados já conhecidos do novo estudo do Plano Nacional de Leitura (PNL) e do ISCTE sobre os hábitos de leitura dos portugueses revelam, como se esperava, que os alunos do 3.º ciclo e do ensino secundário leem cada vez menos. E, tal como o anterior, este estudo aponta ainda para a influência da família nos hábitos de leitura. Ou seja, um sexto do mercado livreiro desapareceu e os portugueses leem cada vez menos. O livro e a leitura, enquanto constituintes de um alicerce fundamental de uma sociedade que se pretende desenvolvida, perdem importância. O que fazer?

A reportagem da Visão dá a conhecer o Bibliomóvel, um excelente exemplo de políticas públicas para a leitura criado há quase vinte anos pela Câmara Municipal de Penafiel (que também organiza o muito original e meritório Escritaria) e inspirado nas Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Conceição, utente do Bibliomóvel, do qual os filhos já eram frequentadores, é exemplo perfeito de que o acesso aos livros e a influência familiar (neste caso, em sentido deliciosamente inverso face ao habitual) criam leitores. Penso nisto e atento também no que fez a Câmara Municipal de Lisboa, ao dar abrigo em estantes à biblioteca do escritor Alberto Manguel, encaixotada há cinco anos em França, ou a Câmara Municipal de Bragança, ao apostar num Museu da Língua Portuguesa, ou até um privado, como a empresa que detém a livraria Lello, no Porto, a partir de um espaço que, em Portugal, dignifica os livros como nenhum outro, atento nisto tudo e não consigo senão pensar em tantas outras possibilidades de valorização do livro e da leitura. Não me refiro à chamada festivalização da cultura, que desde os tempos de Jack Lang tem alimentado debates, mas considero que dignificar o objeto livro, dando-lhe visibilidade, resulta inevitavelmente numa proclamação – que, por não ser ostensiva, é mais eficaz – do quão gratificante e benéfica é a leitura.

Não sei quanto vai gastar a autarquia lisboeta, no contexto da guarida dada à biblioteca de Manguel e da criação do Centro de Estudos da Leitura, mas trata-se de uma medida que contribui muito para o referido propósito; sei que, na construção do Museu da Língua Portuguesa, a sua homóloga de Bragança vai investir dez milhões de euros e até estou certo de que o projeto prevê retorno económico para a cidade; desconheço os lucros da Lello, mas conheço as filas à porta da livraria (é claro que ali se vai pela arquitetura do espaço – a propósito, tal como acontece no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro –, mas ainda bem que nele estão expostos livros e não copos e garrafas, como poderia ter acontecido) e sei que os proprietários adquiriram recentemente outro espaço icónico da cidade, o Teatro Sá da Bandeira, prova de que o investimento está a valer a pena. Estes são exemplos de apostas públicas e privadas que, possuindo propósitos distintos, resultam na valorização do livro e da leitura. Exemplos daquilo a que o estado deve dedicar-se e do que os privados podem fazer. Atividade económica com livros? Com certeza que sim. Poucas serão, aliás, as áreas em que o potencial económico será tão capaz de se constituir também gerador de valor cultural e civilizacional.

Em abril, já aqui escrevi sobre o acolhimento que a Câmara Municipal de Setúbal deu a parte da biblioteca de 80 mil volumes de Lauro António; sei também que 70 dos 80 mil livros da igualmente impressionante biblioteca de Mário Sottomayor Cardia estão hoje à disposição dos estudantes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. São boas e profícuas ideias, tais como muitas outras, nas quais quem tem funções e responsabilidades públicas pode inspirar-se. Porque são positivas e urgentes todas as medidas que, de algum modo, possam contribuir para a familiarização dos portugueses – de todas as idades, como na realidade apresentada por Miguel Carvalho – com o objeto livro. E não duvidem os empresários de que há oportunidades neste meio. Venham daí esses investimentos, se forem capazes de contribuir para aproximar os cidadãos dos livros. Ver livros, lidar com livros, percepcionar valor nos livros – raros e felizes aqueles que se fazem leitores sem o incentivo calado que constitui crescer com livros em casa ou a ver os pais a lerem – produz resultados. Porque um país que não lê não pode aspirar a muita coisa, investir no livro e na leitura é um dos caminhos para o Portugal que temos de ambicionar ser.

Há viagens e viagens


Heureux qui comme Ulysse,
a fait un bon voyage.

Du Bellay


Quase ninguém é indiferente ao apelo à viagem. E quase toda a gente inveja Ulisses, que, se não fez, exactamente, uma boa viagem, como canta Du Bellay, perpetrou, pelo menos, uma longuíssima e acidentada odisseia de retorno.
Há gostos para tudo. Du Bellay invejava Ulisses. Gide torcia o nariz à odisseia do grego, porque, no fim da viagem, esperava-o Penépole, que, para sempre, o iria amarrar ao lar. Exaltava, em contrapartida, Sindbad, o das Mil e Uma Noites, por ser livre como um passarinho: no fim da viagem, esperava-o, não uma amarra, mas uma nova viagem. Para Gide, também, uma viagem era apenas o prefácio à viagem seguinte, em contraste com a de Ulisses, que não passou de uma obrigatória navegação de regresso. Gide tinha igualmente um lar à espera, em Cuverville, mas fazia de conta que não dava por isso, e traiu, tanto quanto pôde – e sem complacências – a sua fiel Penélope que, para o caso, se chamava Madeleine. O que ele queria, está-se a ver, era copiar, com “gusto” e mesmo frenesi, o fluir libérrimo do marinheiro Sindbad.

Viajar tem boa e tem má imprensa. Há quem elogie, há quem diga mal e há quem, simplesmente, se aborreça. O actor e escritor Al Boliska propôs uma definição célebre que hoje anda citada por todo o lado: “Viajar de avião”, disse ele, “são horas de tédio interrompidas por puro terror.” Ainda assim, Boliska só critica o viajar de avião, não todo o viajar. Mas há quem demita qualquer espécie de viagem. O conhecido romancista Paul Theroux, com obra assinalável transposta para o cinema, observava que “viajar só é glamoroso em retrospecto”, isto é, só funciona depois de terminada a viagem, ao contá-la, ao serão, aos amigos. William Trevor dizia o mesmo, de outra maneira: “Ele só viajava para poder voltar para casa”, isto é, o melhor da viagem era o regresso. Nem Ulisses foi tão longe: suspeito que gostou mais da ida do que da volta.

De entre os demolidores do mito da viagem, citarei o talvez mais antigo (será?): Sócrates, que disse, imaginem, esta barbaridade: “Vê um promontório, uma montanha, um mar, um rio e viste tudo.” Como se não houvesse rios e rios, promontórios e promontórios, cidades e cidades! Quem pode ser de opinião que o Amazonas é o mesmo que qualquer pífio afluente de um rio de trazer por casa… Quem pode afirmar que ver Leiria é o mesmo que ver Paris ou Veneza! Ou como se Florença fosse o mesmo que Alguidares de Baixo! Ou como se o Iguaçu não diferisse grande coisa das pindéricas “cascatas” da Namaacha, da minha saudosa infância africana!

Claro que é preciso saber viajar, saber ver e, sobretudo, gostar de ver. Viajar por viajar é inútil e fica caro. Como dizia o outro, não vale a pena dar a volta ao mundo só para contar o número de gatos que há em Zanzibar.(…)

Viajar – o convite à viagem! Há quem proteste em termos paradoxais: “É pena”, dizia Chesterton, “as pessoas viajarem por países estrangeiros; estreita-lhes de tal maneira o espírito.” Sterne, no seu imenso Tristram Shandy, não vai tão longe, mas faz uma recomendação: “Um homem deve também conhecer alguma coisa do seu próprio país, antes de ir para o estrangeiro.”(...)

“Viajar é quase como falar com homens de outros séculos”, dizia Descartes. 

Eugénio Lisboa

sábado, junho 8

O 'poço'

 


Internação, corrente ou aposentadoria

No momento em que lhes escrevo, me encontro num estado emocional e psicológico deplorável, quiçá calamitoso. Sei que vocês (nem o governo, aleluia!) não têm nada com isso e minha revelação equivale mais ou menos à que, por exemplo, faria um ator de quinta categoria ou em surto psicótico, explicando à platéia, antes do espetáculo, que sua performance, naquele dia, será inferior à do elenco de um circo falido homiziado num arraial de Cabrobó. As vaias que recebesse seriam mais que merecidas e acredito que também farei jus a vaias (linchamento eu acho um pouco de exagero, embora, na conjuntura em que vivemos, até compreensível, todos andam muito tensos) e penso seriamente em não botar os pés fora de casa neste domingo, nem que seja no interesse de preservar minha mãe de referências desairosas, pela desdita de ter parido um filho como eu.


Estou escrevendo num laptop mesozoico, movido a corda, com uma fonte de energia adicional acionada a querosene e já sob a proteção do Estatuto do Idoso. Tive um pouco de dificuldade em arrumar querosene, mas descolei dois litros numa loja que vendia geladeiras fabricadas no início do século passado. E, ecologicamente consciente quanto ao uso de combustíveis produtores de poluição, também mandei montar um filtro para conter as emanações nocivas exaladas do meu instrumento de trabalho. Havia até escolhido um assunto para ocupar este espaço que hoje envergonhadamente avacalho, mas não consigo abordá-lo, porque, refletindo melhor (sic), devo estar também em surto e não tenho condição de falar sobre coisa nenhuma que não minha patética situação.

Os poucos heróis que persistem em ler-me há anos devem lembrar-se de minhas queixas quanto a computadores. De fato, todo mundo sabe que esses aparelhos frequentemente se entregam a comportamentos exasperantes e que é prudente não ter martelos, marretas ou machados à mão, quando se usa um deles. Mas, na minha profissão, como agora em quase todas, com a possível exceção da de gari, não dá para escapar. E, na verdade, sempre exagerei um pouco, para ironizar os — perdão — computadólatras. Fui dos primeiros escritores brasileiros a usar computador para escrever e posso mesmo dizer que, não por inteligência ou aptidão, mas porque minha burrice alcança o grau dois numa escala que vai crescentemente a dez, a experiência acabou me conferindo uma certa habilidade em seu manejo.

Há algum tempo, meu computador principal funcionava bem, embora obsoleto, o que não quer dizer muito em informática, porque qualquer um deles já é obsoleto ao ser retirado da caixa da embalagem. Quebrava meu galho satisfatoriamente, tanto assim que passei longo tempo sem xingá-lo, nem privadamente nem em público, e somente uma vez quis jogá-lo pela janela, não o tendo feito por receio de machucar ou matar algum passante. Mas, recentemente, ele passou a insistir em apresentar umas falhazinhas levemente aporrinhantes e aí dei o mau passo: resolvi encomendar um novo e atravessei o Rubicão, só que, ao contrário de Júlio César (o imperador, não o jogador, apesar de mais famoso), comecei a tomar uma sova que estou tomando até agora e tudo indica que devo continuar tomando por ainda não sei quanto tempo, quem sabe o resto da vida.

Ele veio com tudo em cima, últimas novidades, dos programas aos componentes. Celebrei sua chegada e, em processo que redundou em humilhação, cometi a imprudência de gabar-me exuberantemente aos amigos. “Agora estou com um Rolls-Royce” era o mínimo que eu dizia, sem saber que o que tinha caído nas minhas mãos equivalia a um Rolex de cinqüenta reais, em camelô que não dá desconto. Desde o dia em que ele foi entregue, minha ocupação mudou. Deixei de ser escritor, o que, se pode representar um alívio para a literatura nacional, acarreta a desvantagem de eu não poder mais ganhar a vida e cogitar em pleitear uma vaga na Casa dos Artistas, com base na minha experiência pregressa de cantor de banheiro. Entre muitos outros cretinismos que me afligem, está o cronográfico, de maneira que não sei há quanto tempo dedico uma média de pelo menos dez horas diárias a tentar fazer o diabólico aparelho funcionar, mas deve ser coisa de pelo menos um mês. E com a agravante de que não fomos feitos um para o outro: ele é sádico e eu não sou masoquista. Tentei discutir o relacionamento, mas, como sabemos, isso não dá certo, pois algumas incompatibilidades não podem mesmo ser superadas. Volta e meia me vem a tentação de presenteá-lo a algum desafeto, mas me contenho a tempo, porque ninguém merece vingança tão cruel.

Não farei, Deus me guarde, seus olhos de penico e não vou pormenorizar o que tenho enfrentado, mas o sofrimento já me deve ter rendido alguns séculos, talvez milênios, de redução de estada no Purgatório. Consolo parco agora, mas deverei mudar de opinião assim que transpuser a catraca a que se refere meu amigo Toinho Sabacu, de quem lhes falei na semana passada. Todo dia ouço de alguém que isso vai passar e tudo será resolvido. Sim, com certeza, eis que tudo passa neste mundo, mas acho que eu passo antes. O último diagnóstico técnico que obtive foi que se trata de interferências sobrenaturais. Altamente científico, mas, como não disponho de ninguém do ramo, aceito indicações de rezadeiras, exorcistas, pais-de-santo e similares. Aceito também (vejam como é a vida, nunca pensei que usaria estas palavras) correntes de energia positiva das almas caridosas que se apiedarem. O que não impede a internação numa clínica psiquiátrica que já ocorre a meu alarmado médico, e/ou a aposentadoria definitiva. Ou mesmo adeus, mundo cruel.
João Ubaldo Ribeiro, "O rei da noite"

Decadência e esplendor da espécie

Não sei o que terá acontecido com a espécie humana.

Esta ausência de pelos... Para os outros mamíferos a nossa nudez pode parecer repugnante como, para nós, a nudez dos vermes.

E, depois, a nossa verticalidade é antinatural. Estas mãos pendendo, inúteis, são ridículas como as dos cangurus sentados.

Se fôssemos peludos e quadrúpedes, ganharíamos muito em beleza e, sem a atual tendência à adiposidade, poderíamos ser quase tão belos como cavalos.

Felizmente, inventou-se a tempo o vestuário, que, pela variedade e beleza (a par de sua utilidade em vista do fatal desabrigo em que ficamos), redime um pouco esta degenerescência.

E acontece que inventamos também o mobiliário, os utensílios: no caso vigente, esta cadeira em que escrevo sentado a esta mesa, à luz artificial desta lâmpada.

E ainda este ato de escrever, isto é, de expressar-me por meio de sinais gráficos, é mais uma prova da nossa artificialidade.

Mas quem foi que disse que eu estou amesquinhando a espécie? Quero apenas significar que, em face das suas miseráveis contingências, o homem criou, além do mundo natural, um mundo artificial, um mundo todo seu, uma segunda natureza, enfim.

O homem, esse mascarado…
Mario Quintana, "Caderno H"

Pequena fábula

“Ah”, disse o rato, “o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” — “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

Franz Kafka 

A luva de beisebol do Allie

O jantar aos sábados era sempre o mesmo lá no Pencey. Devia ser considerado algo de fabuloso, pois era o único dia em que serviam bife. Aposto que só faziam isso porque uma porção de pais de alunos visitavam o colégio aos domingos, e o velho Thurmer com certeza imaginava que a mãe de todo mundo ia perguntar ao filhinho querido o que é que ele tinha comido no jantar – e ele responderia: “Bife”. Eram uns safados. Valia a pena ver os tais bifes: umas porcariazinhas duras, sem caldo, que a gente mal conseguia partir. Vinham sempre acompanhados de um purê de batata todo encalombado, e a sobremesa era um pudim nojentérrimo que ninguém comia, a não ser talvez os meninos do primário, por inexperiência, ou sujeitos como o Ackley, que comiam qualquer droga.

Mas até que estava bonito quando saímos do refeitório. Já havia uns dez centímetros de neve no chão e continuava a nevar pra cachorro. Estava um bocado bonito, e nós todos começamos a jogar bolas de neve e fazer uma porção de maluquices. Pensando bem, era um bocado infantil, mas todo mundo estava se divertindo pra valer.

Eu não tinha namorada nem nada, por isso combinei com um amigo meu que era do time de luta-livre, o Mal Brossard, da gente tomar um ônibus para Agerstown, comer qualquer coisa por lá e talvez assistir a uma droga dum filme. Nenhum de nós dois estava com vontade de passar a noite inteira sentado em cima do rabo. Perguntei ao Mal se ele se importava que o Ackley fosse conosco, porque o chato nunca fazia nada nas noites de sábado, a não ser ficar trancado no quarto espremendo as espinhas ou coisa que o valha. Mal respondeu que não se importava, mas que também não se entusiasmava muito com a ideia. Ele não gostava muito do Ackley. De qualquer modo, cada um foi para seu quarto se arrumar e tudo, e enquanto eu calçava minhas galochas gritei na direção do quarto do Ackley, perguntando se ele queria ir ao cinema. Bem que ele podia me escutar através das cortinas do banheiro, mas não respondeu logo. Era o tipo do sujeito que odeia responder imediatamente. Afinal veio até meu quarto, atravessando as cortinas, parou na borda do chuveiro e perguntou quem ia, além de mim. Tinha sempre que saber quem ia sair com ele. Juro que se um dia ele sofresse, um naufrágio e alguém fosse socorrê-lo numa porcaria dum bote, o Ackley não saía da água antes de saber quem estava remando. Eu disse que o Mal Brossard também ia, e ele respondeu:

– Aquele cretino... Tá bem, me espera um minuto.

Parecia que estava nos fazendo um grande favor. Demorou umas cinco horas para se aprontar. Enquanto esperava, fui até a janela, abri uma banda e comecei a fazer uma bola de neve, sem luva nem nada. A neve estava um bocado boa pra isso, mas não joguei a bola em coisa nenhuma. Cheguei a começar a jogar, num carro que estava estacionado do outro lado da rua. Mas mudei de ideia, porque o carro estava bonito pra chuchu, todo coberto de branco. Aí fiz pontaria num hidrante, mas o hidrante também estava com um jeitão simpático, todo de branco. Afinal resolvi não jogar em lugar nenhum. Fechei a janela e fiquei andando pelo quarto, endurecendo ainda mais a bola de neve. Algum tempo depois, quando o Brossard, o Ackley e eu tomamos o ônibus, ainda estava com ela na mão. O motorista abriu uma janela e me disse para jogá-la fora. Expliquei a ele que não ia atirar a bola em ninguém, mas não houve jeito dele me acreditar. Ninguém nunca acredita na gente.

O Brossard e o Ackley já tinham visto o filme que estava passando, por isso a única coisa que fizemos foi comer uns sanduíches, dar uma voltinha pelas ruas e tomar o ônibus de volta para o Pencey. De qualquer maneira, pouco me importava de não ver o filme. Parece que era uma comédia, com o Cary Grant e essa droga toda, e, além disso, já tinha ido uma vez ao cinema na companhia daqueles dois. Ambos costumavam rir como hienas por causa de qualquer besteira, mesmo que não tivesse a mínima graça. Não dava nem prazer sentar ao lado deles no cinema.

Quando voltamos para o dormitório deviam ser umas quinze para as nove. O Brossard era maníaco por bridge e começou a procurar parceiros para uma partida. O chato do Ackley, pra variar, plantou-se no meu quarto. Só que, em vez de se sentar no braço da poltrona do Stradlater, deitou na minha cama, com a cara bem em cima do meu travesseiro e tudo. Começou a falar, com aquela voz monótona, ao mesmo tempo que espremia as espinhas. Dei-lhe mil indiretas, mas não consegui me livrar dele. Ficou lá falando, naquela voz monótona, sobre uma garota com quem ele dizia ter tido relações sexuais no verão passado. Já tinha me contado essa estória umas cem vezes, mas cada vez que contava era diferente. Numa hora, a coisa tinha acontecido no Buick do primo dele, na hora seguinte já era na praia. Naturalmente, era tudo mentira. Se alguma vez vi alguém virgem, esse alguém era ele. Duvido mesmo que tivesse alguma vez chegado a bolinar uma garota. Fosse como fosse, afinal tive que chegar para ele e dizer que tinha de escrever uma redação para o Stradlater e que por isso ele tinha de dar o fora porque senão eu não conseguia me concentrar. Acabou indo, mas demorou um bocado, como sempre. Depois que saiu, vesti meu pijama e meu roupão, pus o chapéu de caça na cabeça e comecei a escrever a redação.

O problema é que não consegui imaginar uma sala ou uma casa para descrever, tal como o Stradlater tinha me dito que devia ser. De qualquer maneira, não sou lá muito chegado a esse negócio de descrever salas ou casas. Então resolvi escrever sobre a luva de beisebol do meu irmão Allie. Era um assunto um bocado descritivo, no duro. Meu irmão Allie era canhoto, e por isso tinha uma luva de beisebol para a mão esquerda. Mas o que havia de descritivo nela é que tinha uma porção de poemas escritos em todos os dedos, na cova da luva, por todo canto. Em tinta verde. Ele copiava os poemas na luva porque só assim tinha alguma coisa para ler durante o jogo, quando não havia ninguém arremessando. Ele agora está morto. Teve leucemia e morreu quando nós estávamos em Maine, no dia 18 de julho de 1946. Qualquer um teria que gostar dele. Era dois anos mais moço do que eu, mas umas cinquenta vezes mais inteligente. Os professores dele estavam sempre escrevendo cartas para minha mãe, dizendo que era um grande prazer ter um menino como o Allie na turma. E não era simples conversa mole, era mesmo pra valer. O caso é que ele não era só o mais inteligente da família. Era também o melhor de todos, em muitos sentidos. Nunca ficava aborrecido com ninguém. Dizem que as pessoas de cabelo vermelho estão sempre se irritando com a maior facilidade, mas o Allie nunca brigava, e tinha o cabelo um bocado vermelho. Para mostrar como o cabelo dele era vermelho, eu me lembro que uma vez, nas férias de verão, quando eu tinha uns doze anos, estava jogando golfe (comecei a jogar golfe quando tinha dez anos) e, assim sem mais nem menos, tive a impressão de que se me virasse de repente veria o Allie. Olhei para trás e, batata, lá estava ele sentado na bicicleta, do outro lado da cerca – havia uma cerca que corria em volta de todo o campo – a mais de cem metros, me olhando dar a tacada. Isso mostra como o cabelo dele era vermelho. Mas ele era mesmo um menino bom. Às vezes, na mesa de jantar, lembrava de um troço qualquer e ria tanto que quase caía da cadeira. Eu só tinha uns treze anos, e meus pais resolveram que eu precisava ser psicanalisado e tudo, porque quebrei todas as janelas da garagem. Mas realmente acho que eles tinham razão. Dormi na garagem na noite em que ele morreu e quebrei a droga dos vidros todos com a mão, sei lá porquê. Tentei até arrebentar os vidros da camioneta que nós tínhamos naquele verão, mas a essa altura minha mão já estava quebrada e tudo, e não consegui. Reconheço que foi o tipo da coisa estúpida de se fazer, mas eu nem sabia direito o que estava fazendo, e vocês não conheciam o Allie. Minha mão ainda dói de vez em quando, nos dias de chuva e tudo, e nunca mais consegui fechar direito a mão – assim bem apertada – mas, fora isso, não me importo muito. De qualquer jeito, sei que não vou mesmo ser um cirurgião ou um violinista, ou droga nenhuma.

Foi sobre isto que escrevi a redação do Stradlater – a luva de beisebol do Allie. Por acaso, a luva estava na minha mala, por isso fui apanhá-la e copiei os poemas que estavam escritos nela. Tudo que precisei fazer foi mudar o nome do Allie, para ninguém saber que era meu irmão, e não o do Stradlater. Não fiquei lá muito satisfeito com a redação, mas não conseguia pensar em nenhum outro assunto descritivo. Além disso, eu gostava mesmo de escrever sobre a luva do Allie. A coisa me tomou uma hora, porque tive de usar a máquina de escrever do Stradlater, que enguiçava de dois em dois minutos. Só não usei a minha porque estava emprestada a um sujeito que também morava na minha ala.

Acho que deviam ser umas dez e meia quando acabei. Mas não estava cansado, por isso fui até a janela e fiquei algum tempo olhando para fora. Tinha parado de nevar, mas de vez em quando a gente escutava um carro que não conseguia pegar. Também dava para escutar o Ackley roncando, mesmo através da porcaria das cortinas do chuveiro. Ele tinha sinusite, e não podia respirar lá muito bem quando estava dormindo. Aquele sujeito tinha quase tudo que é possível alguém ter: sinusite, espinhas, dentes podres, mau hálito, unhas esculhambadas. A gente tinha de acabar sentindo um pouco de pena do filho da puta.
J. D. Salinger, "O apanhador no campo de centeio"

quinta-feira, junho 6

Navegante da floresta

 


A turma

Eu também já tive turma, ou melhor, fiz parte de turma e sei como é importante em certa idade essa entidade, a turma. A gente é um ser racional, menos quando em turma. Existe, por exemplo, alguma razão para um grupo de pessoas sentar todo dia numa escadaria ou meio-fio e passar horas conversando? Você pode falar a um filho, por exemplo, que refrigerantes engordam e chocolates dão mais espinhas em quem já está na idade das espinhas. Ele nem ouvirá. Mas, se um dia a turma resolver, ele passará a tomar só água com limão e pegará nojo de chocolate. Você pode falar que cabelo tão comprido é incômodo, calorento, atrapalha, mas que nada, ele te pedirá dinheiro para comprar mais xampu. Agora, se a turma resolver cortar careca, ele aparecerá de repente careca no café da manhã e nem quererá falar no assunto – qual o problema em cortar careca? Você pode dizer que bossa nova é bom, e mostrar jornais e revistas, provar que só “Garota de Ipanema” já recebeu centenas de gravações em todo o mundo, mas ele aumentará o volume do rock pauleira ou da tecno-bost. Até o dia em que alguém da turma aparece com um CD de bossa nova e ele troca Axel Rose por Tom Jobim de um dia para o outro. A turma tem modas, como quando resolvem todos arregaçar as barras das calças, que usavam arrastando pelo chão. A turma tem traumas, como quando o namoradinho de uma se apaixona pela namoradinha de outro e ... A turma tem linguagem própria, uma variante local de um ramal regional da vertente adolescente da língua. A turma adora sentar na calçada e na praça e falar sobre o que viram em casa na televisão. A turma tem duplas de amigos e amigas mais chegados, e trios, e quartetos, que num grande minueto anarquista se misturam nas festas de aniversário. Ninguém da turma dança até que alguém da turma começa a dançar, aí dançam todos trocando de par até acabarem dançando todos juntos como turma que são. Um da turma se tatua, todos da turma querem se tatuar. Um bota uma argola no nariz, os outros, para variar, botam no lábio, na sobrancelha e na orelha e... A turma é isso aí, cara, uma reunião diária de espinhas e inquietações, habilidades e temperamentos, o baralho das personalidades se misturando, o jogo das informações e dos sentimentos rolando nas conversas sem fim, nas andanças sem cansaço, nas músicas compartilhadas, no refri com três canudos e uma empadinha pra quatro. Na turma pouco dá pra todos, todo mundo divide, cada um contribui, a turma se une partilhando e repartindo. A turma ri como só na turma se ri. A turma julga quando erramos. A turma castiga com silêncios e ironias.

A turma te chama, te reprime, te liberta, te revela, te rebela, te maltrata, te orgulha, te ama e te envolve, te afasta e te atrai, mas a turma é assim porque a turma é a turma. Até o dia em que – disse a todos meus filhos – cansamos de ter turma e passamos a ser gente. E todos me disseram que sou um chato, mas o primogênito hoje já concorda: o tempo da turma passa. Mas, aqui entre nós, como dá saudade!

Domingos Pelegrini,."Ladrão que rouba ladrão e outras crônicas"

Casa na chuva


A chuva, outra vez sobre as oliveiras.

Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.
Eugénio de Andrade