sábado, setembro 17

'Sidarta' completa 100 anos

"Sidarta" narra a jornada espiritual de um jovem que tem o mesmo nome de Buda (Siddhartha Gautama). O romance ficcional de Hermann Hesse se passa em Kapilavastu (atual Nepal) no século 6º.

O protagonista Sidarta é filho de um rico sacerdote hindu, um brâmane, a casta mais prestigiosa da Índia. Embora as Escrituras Sagradas possam lhe dizer muito sobre a alma e a imortalidade, ele quer descobrir se existem humanos que realmente vivem esses ensinamentos.

Inspirado por Buda, que abriu mão de um reino inteiro, Sidarta também se despede de sua vida de luxo e embarca numa jornada com seu melhor amigo, Govinda, com a meta de descobrir o sentido da vida.

O romance de Hesse foi nutrido pelo que era então uma percepção ocidental altamente idealizada e romantizada da Índia como um centro espiritual, apesar das inúmeras invasões coloniais no país. No presente, esse fenômeno se expressa, por exemplo, no entusiasmo contínuo pelo ioga ou best-sellers como Comer, rezar, amar, filmado com Julia Roberts no papel principal.

Na época de Hesse, a Índia era explorada e percorrida pelos chamados "indólogos", que promoveram ainda mais essa idealização. "Isso estava enraizado no Romantismo alemão, na Índia clássica das Vedas e no hinduísmo romântico", explica Jyoti Sabharwal, professor de alemão da Universidade de Nova Déli.

Hermann Hesse viajou para a Índia em 1911. Da mesma forma que seu personagem principal, Sidarta, essa foi para o escritor alemão uma jornada espiritual. Apesar de ter sido criado como protestante em Calw, no estado alemão de Baden-Württemberg, a Índia lhe pareceu o país mais adequado para essa busca do sentido da vida, conta o germanista Martin Kämpchen, que atualmente pesquisa em Santiniketan, Índia, e publicou diversos livros sobre Hesse e os indólogos europeus.

Para Hesse, o amor pela Índia não era modismo, mas um tema determinante da vida. Sua mãe nasceu em Kerala, no sul da Índia, onde o pai dela trabalhava como missionário luterano. Durante esse tempo, Hermann aprendeu malaiala, uma língua falada por mais de 37 milhões, principalmente no sudoeste da Índia, e escreveu um livro de vocabulário e gramática.

Quando Hesse partiu, planejava visitar Java, Bali, Sri Lanka e o sul da Índia. De lá, queria voltar para a Europa de navio. No entanto uma grave doença estomacal o impediu de seguir da Indonésia para a Índia.

A viagem foi tão fascinante quanto decepcionante, explica Kämpchen, porque ele não encontrou a versão idealizada da Índia que esperava (para Hesse, Indonésia e Sri Lanka faziam parte da Índia).

Segundo o pesquisador, Hesse estava convencido de que "a verdadeira Índia pode ser encontrada em sua filosofia, seu ascetismo, suas profundas reflexões sobre a vida". Como muitos pensadores românticos alemães, ele acreditava que a filosofia oriental salvaria as sociedades ocidentais de sua morte espiritual.

E é precisamente essa noção que tentou capturar em seu romance. Por isso, Sidarta idealiza uma forma de ascetismo baseada no hinduísmo e no budismo, e trata da busca por uma verdade absoluta ou eterna, que o próprio Hesse também procurava.

Quando Sidarta foi lançado em 1922, não se tornou imediatamente um grande sucesso. Alguns críticos até o consideraram kitsch sentimental. De acordo com Sabharwal, que fez uma extensa pesquisa sobre Hesse, o autor só alcançou fama mundial muitos anos mais tarde, após ser publicado na tradução para o inglês de Hilda Rosenau. E ficou particularmente popular após os movimentos de 1968 na Europa, América do Norte e Ásia.

Sidarta tornou-se um livro cult para a geração Woodstock, que se manifestava contra a Guerra do Vietnã e as concepções conservadoras de seus pais sobre valores e sexo. "Tornou-se um romance de contracultura dos anos 60 e 70 em todo o mundo", conta Sabharwal.

A obra foi incluída no currículo dos institutos de Germanística das universidades indianas logo após sua publicação em 1922. O primeiro Instituto de Germanística foi estabelecido em 1914 nas Índias Ocidentais na Universidade de Pune.

As vendas também aumentaram na Índia quando se publicou a versão em inglês. Em 1972, foi lançada uma adaptação cinematográfica do diretor americano Conrad Brooks, cujos principais atores eram indianos, como Shashi Kapoor, Simi Garewal e Romesh Kapoor.

Desde a fundação, em 2005, da Hermann Hesse Society of India, em Thalassery, cidade onde nasceu sua mãe, o livro experimentou uma nova explosão de vendas: Sidarta foi traduzido para várias línguas indianas, incluindo malaiala, punjabi, gujarate, urdu, bengali e marati.

Sidarta é um romance com o qual cada geração pode se identificar, diz Sabharwal, uma jornada "do indivíduo para o eu, sobre a busca do seu lugar no mundo". Tratando da história do filho pródigo, embora se situe na Índia antiga, muitos jovens que se sentem confinados pela sociedade se encontram nele.

As décadas de 1960 e 1970 também foram tempos turbulentos na Índia, particularmente por causa do movimento Naxal, antiautoritário e de esquerda. Essa foi uma das razões por que o livro de Hesse se tornou popular entre os estudantes indianos. Mas, mesmo passados 100 anos, Sabharwal está convencido de que ele ainda mostra a seus leitores maneiras de entender o significado da vida.

"Ele sempre será relevante. O romance levanta questões de relevância atemporal, porque o protagonista, Sidarta, é um outsider que busca na sociedade o sentido da vida."

Enfim, Sidarta representa a busca humana por respostas para os grandes mistérios da vida: por que estamos aqui? De onde viemos e para onde vamos? Martin Kämpchen concorda: "As questões espirituais são sempre relevantes e nunca perdem sua atualidade, porque não estão vinculadas a um ponto específico da história humana. Nesse sentido, elas são atemporais, e por isso também Sidarta."

sexta-feira, setembro 16

Levite!


 

Herbarium

Todas as manhãs eu pegava o cesto e me embrenhava no bosque, tremendo inteira de paixão quando descobria alguma folha rara. Era medrosa mas arriscava pés e mãos por entre espinhos, formigueiros e buracos de bichos (tatu? cobra?) procurando a folha mais difícil, aquela que ele examinaria demoradamente: a escolhida ia para o álbum de capa preta. Mais tarde, faria parte do herbário, tinha em casa um herbário com quase duas mil espécies de plantas. "Você já viu um herbário" - ele quis saber.


Herbarium, ensinou-me logo no primeiro dia em que chegou ao sítio. Fiquei repetindo a palavra, herbarium. Herbarium. Disse ainda que gostar de botânica era gostar de latim, quase todo o reino vegetal tinha denominação latina. Eu detestava latim mas fui correndo desencavar a gramática cor de tijolo escondida na última prateleira da estante, decorei a frase que achei mais fácil e na primeira oportunidade apontei para a formiga saúva subindo na parede: formica bestiola est. Ele ficou me olhando. A formiga é um inseto, apressei-me em traduzir. Então ele riu a risada mais gostosa de toda a temporada. Fiquei rindo também, confundida mas contente: ao menos achava alguma graça em mim.

Um vago primo botânico convalescendo de uma vaga doença. Que doença era essa que o fazia cambalear, esverdeado e úmido quando subia rapidamente a escada ou quando andava mais tempo pela casa?

Deixei de roer as unhas, para espanto da minha mãe que já tinha feito ameaças de cortes de mesada ou proibição de festinhas no grêmio da cidade. Sem resultado. "Seu eu contar, ninguém acredita" - disse ela quando viu que eu esfregava para valer a pimenta vermelha nas pontas dos dedos. Fiz minha cara inocente: na véspera, ele me advertira que eu podia ser uma moça de mãos feias, "ainda não pensou nisso?" Nunca tinha pensado antes, nunca me importei com as mãos mas no instante em que ele fez a pergunta comecei a me importar. E se um dia elas fossem rejeitadas como as folhas defeituosas? Ou banais. Deixei de roer unhas e deixei de mentir. Ou mentir menos, mais de uma vez me falou no horror que tinha por tudo quanto cheirava falsidade, escamoteação. Estávamos sentados na varanda. Ele selecionava as folhas ainda pesadas de orvalho quando me perguntou se já tinha ouvido falar em folha persistente. Não? Alisava o tenro veludo de uma malva-maçã. A fisionomia ficou branda quando amassou a folha nos dedos e sentiu seu perfume. As folhas persistentes duravam até mesmo três anos mas as cadentes amareleciam e se despregavam ao sopro do primeiro vento. Assim a mentira, folha cadente que podia parecer tão brilhante mas de vida breve. Quando o mentiroso olhasse para trás, veria no final de tudo uma árvore nua. Seca. Mas os verdadeiros, esses teriam uma árvore farfalhante, cheia de passarinhos - e abriu as mãos para imitar o bater das folhas e asas. Fechei as minhas. Fechei a boca em brasa agora que os tocos das unhas (já crescidas) eram tentação e punição maior. Podia dizer-lhe que justamente por me achar assim apagada é que precisava de me cobrir de mentira como se cobre com um manto fulgurante. Dizer-lhe que diante dele, mais do que diante dos outros, tinha de inventar e fantasiar para obrigá-lo a se demorar em mim como se demorava agora na verbena - será que não percebia essa coisa tão simples?

Chegou ao sítio com suas largas calças de flanela cinza e grosso suéter de lã tecida em trança, era inverno. E era noite. Minha mãe tinha queimado incenso (era sexta-feira) e preparou o Quarto do Corcunda, corria na família a história de um corcunda que se perdeu no bosque e minha bisavó instalou-o naquele quarto que era o mais quente da casa, não podia haver melhor lugar para um corcunda perdido ou para um primo convalescente.

Convalescente do quê? Qual doença tinha ele? Tia Marita, que era alegrinha e gostava de se pintar, respondeu rindo (falava rindo) que nossos chazinhos e bons ares faziam milagres. Tia Clotilde, embutida, reticente, deu aquela sua resposta que servia a qualquer tipo de pergunta: tudo na vida podia se alterar menos o destino traçado na mão, ela sabia ler as mãos. "Vai dormir feito uma pedra" - cochichou tia Marita quando me pediu que lhe levasse o chá de tília. Encontrei-o recostado na poltrona, a manta de xadrez cobrindo-lhe as pernas. Aspirou o chá. E me olhou: "Quer ser minha assistente? perguntou soprando a fumaça. - A insônia me pegou pelo pé, ando tão fora de forma, preciso que me ajude. A tarefa é colher folhas para minha coleção, vai juntando o que bem entender que depois seleciono. Por enquanto, não posso mexer muito, terá que ir sozinha" - disse e desviou o olhar úmido para a folha que boiava na xícara. Suas mãos tremiam tanto que a xícara transbordou no pires. É o frio, pensei. Mas continuaram tremendo no dia seguinte que fez sol, amareladas como os esqueletos de ervas que eu catava no bosque e queimava na chama da vela. Mas o que ele tem? perguntei e minha mãe respondeu que mesmo que soubesse, não diria, fazia parte de um tempo em que doença era assunto íntimo.

Eu mentia sempre, com ou sem motivo. Mentia principalmente à tia Marita que era bastante tonta. Menos à minha mãe porque tinha medo de Deus e menos ainda à tia Clotilde que era meio feiticeira e sabia ver o avesso das pessoas. Aparecendo a ocasião, eu enveredava por caminhos os mais imprevistos, sem o menor cálculo de volta. Tudo ao acaso. Mas aos poucos, diante dele, minha mentira começou a ser dirigida, com um objetivo certo. Seria mais simples, por exemplo, dizer que colhi a bétula perto do córrego, onde estava o espinheiro. Mas era preciso fazer render o instante em que se detinha em mim, ocupá-lo antes de ser posta de lado como as folha sem interesse, amontoadas no cesto. Então ramificava perigos; exagerava dificuldades, inventava histórias que encompridavam a mentira. Até ser decepada com um rápido golpe de olhar, não com palavras, mas com o olhar ele fazia a hidra verde rolar emudecida enquanto minha cara se tingia de vermelho o sangue da hidra.

"Agora você vai me contar direito como foi: - ele pedia tranqüilamente, tocando na minha cabeça. Seu olhar transparente. Reto. Queria a verdade. E a verdade era tão sem atrativos como a folha da roseira, expliquei-lhe isso mesmo, acho a verdade tão banal como esta folha. Ele me deu a lupa e abriu a folha na palma da mão: "Veja então de perto." Não olhei a folha, que me importava a folha? mas sua pele ligeiramente úmida, branca como papel com seu misterioso emaranhado de linhas, estourando aqui e ali em estrelas. Fui percorrendo as cristas e depressões, onde era o começo? Ou o fim? Demorei a lupa num terreno de linhas tão disciplinadas que por elas devia passar o arado, ih! vontade de deitar minha cabeça nesse chão. Afastei a folha, queria ver apenas os caminhos. O que significa este cruzamento, perguntei e ele me puxou o cabelo: "Também você, menina?!"

Nas cartas do baralho, tia Clotilde já lhe desvendara o passado e o presente. "E mais desvendaria" - acrescentou ele guardando a lupa no bolso do avental banco, às vezes vestia o avental. O que ela previu? Ora, tanta coisa. De mais importante, só isso, que no fim da semana viria uma amiga buscá-lo, uma moça muito bonita, podia ver até a cor do seu vestido de corte antiquado, verde-musgo. Os cabelos eram compridos, com reflexos de cobre, tão forte o reflexo na palma da mão!

Uma formiga vermelha entrou na greta do lajedo e lá se foi com seu pedaço de folha, veleiro desarvorado soprado pelo vento. Soprei eu também, a formiga é um inseto! gritei, as pernas flexionadas, pendentes os braços para diante e para trás no movimento do macaco, hi hi ! hu hu! é um inseto! um inseto! repeti rolando no chão. Ele ria e procurava me levantar, você se machuca, menina, cuidado! Fugi para o campo, os olhos desvairados de pimenta e sal, sal na boca, não, não vinha ninguém, tudo loucura, uma louca varrida essa tia, invenção dela, invenção pura, como podia? Até a cor do vestido, verde-musgo? E os cabelos, uma louca, tão louca como a irmã de cara pintada feito uma palhaça, rindo e tecendo seus tapetinhos, centenas de tapetinhos pela casa, na cozinha, na privada, duas loucas! Lavei os olhos cegos de dor, lavei a boca pesada de lágrimas, os últimos fiapos de unha me queimando a língua, não! Não. Não existia ninguém de cabelo de cobre que no fim da semana ia aparecer para buscá-lo, ele não ia embora nunca mais, NUNCA MAIS! repeti e minha mãe que viera me chamar para o almoço acabou se divertindo com a cara de demônio que fiz, disfarçava o medo fazendo caras de medo. E as pessoas se distraíam com essas caras e não pensavam mais em mim.

Quando lhe entreguei a folha de hera com formato de coração (um coração de nervuras trementes se abrindo em leque até as bordas verde-azuladas) ele beijou a folha e levou-a ao peito. Espetou-a na malha do suéter: "Esta vai ser guardada aqui." Mas não me olhou nem mesmo quando eu saí tropeçando no cesto. Corri até a figueira, posto de observação onde podia ver sem ser vista. Através do rendilhada de ferro do corrimão da escada, ele me pareceu menos pálido. A pele mais seca e mais firme a mão que segurava a lupa sobre a lâmina do espinho-do-brejo. Estava se recuperando, não estava? Abracei o tronco da figueira e pela primeira vez senti que abraçava Deus.

No sábado, levantei mais cedo. O sol forcejava a névoa, o dia seria azul quando ele conseguisse rompê-la. "Aonde você vai com esse vestido de maria-mijona? - perguntou minha mãe me dando a xícara de café com leite. Por que desmanchou a barra?" Desviei sua atenção para a cobra que disse ter visto no terreiro, toda preta com listras vermelhas, seria um coral? Quando ela correu com a tia para ver, peguei o cesto e entrei no bosque, como explicar-lhe? Que descera todas as barras das saias para esconder minhas pernas finas, cheias de marcas de picadas de mosquitos. Numa alegria desatinada fui colhendo as folhas, mordi goiabas verdes, atirei pedras nas árvores, espantando os passarinhos que cochichavam seus sonhos, me machucando de contente por entre a galharia. Corria até o córrego. Alcancei uma borboleta e, prendendo-a pelas pontas das asas, deixei-a na corola de uma flor, te solto no meio do mel! gritei-lhe. O que vou receber em troca? Quando perdi o fôlego, tombei de costas nas ervas do chão. Fiquei rindo para o céu de névoa atrás da malha apertada dos ramos. Virei de bruços e esmigalhei nos dedos os cogumelos tão macios que minha boca começou a se encher d’água. Fui avançando de rastros até o pequeno vale de sombra debaixo da pedra. Ali era mais frio e maiores os cogumelos pingando um líquido viscoso dos seus chapéus inchados. Salvei uma abelinha das mandíbulas de uma aranha, permiti que saúva-gigante arrebatasse a aranha e a levasse na cabeça como uma trouxa de roupa esperneando mas recuei quando apareceu o besouro de lábio leporino. Por um instante me vi refletida em seus olhos facetados. Fez meia-volta e se escondeu no fundo da fresta. Levantei a pedra: o besouro tinha desaparecido mas no tufo raso vi uma folha que nunca encontrara antes, única. Solitária. Mas que folha era aquela? Tinha a forma aguda de uma foice, o verde do dorso com pintas vermelhas irregulares como pingos de sangue. Uma pequena foice ensangüentada foi no que se transformou o besouro? Escondi a folha no bolso, peça principal de um jogo confuso. Essa eu não juntaria às outras folhas, essa tinha que ficar comigo, segredo que não podia ser visto. Nem tocado. Tia Clotilde previa os destinos mas eu podia modificá-los, assim, assim! e desfiz na sola do sapato o cupim que se armava debaixo da amendoeira. Fui andando solene porque no bolso onde levara o amor levava agora a morte.

Tia Marita veio ao meu encontro, mais aflita e gaguejante do que de costume. Antes de falar começou a rir: "Acho que vamos perder nosso botânico, sabe quem chegou? A amiga, a mesma moça que Clotilde viu na mão dele, lembra? Os dois vão embora no trem da tarde, ela e linda como os amores, bem que Clotilde viu uma moça igualzinha, estou toda arrepiada, olha aí, me perguntou como a mana adivinha uma coisa dessas!"

Deixei na escada os sapatos pesados de barro. Larguei o cesto. Tia Marita me enlaçou pela cintura enquanto se esforçava para lembrar o nome da recém-chegada, um nome de flor, como era mesmo? Fez uma pausa para estranhar minha cara branca, e esse branco de repente? Respondi que voltara correndo, a boca estava seca e o coração fazia um tuntum tão alto, ela não estava ouvindo? Encostou o ouvido no meu peito e riu sacudindo inteira, quando tinha minha idade pensa que também não vivia assim aos pulos?

Fui me aproximando da janela. Através do vidro (poderoso como a lupa) vi os dois. Ela sentada com o álbum provisório de folhas no colo. Ele, de pé e um pouco atrás da cadeira, acariciando-lhe o pescoço e seu olhar era o mesmo que tinha para as folhas escolhidas, a mesma leveza de dedos indo e vindo no veludo da malva-maçã. O vestido não era verde mas os cabelos soltos tinham o reflexo de cobre que transparecera na mão. Quando me viu, veio até a varanda no seu andar calmo. Mas vacilou quando disse que esse era nosso último cesto, por acaso não tinham me avisado? O chamado era urgente, teriam que voltar nessa tarde. Sentia perder tão devotada ajudadora mas um dia, quem sabe?... Precisaria perguntar à tia Clotilde em que linha do destino aconteciam os reencontros.

Estendi-lhe o cesto mas ao invés de segurar o cesto, segurou meu pulso: eu estava escondendo alguma coisa, não estava? O que estava escondendo, o quê? Tentei me livrar fugindo para os lados, aos arrancos, não estou escondendo nada, me larga! Ele me soltou mas continuou ali, de pé, sem tirar os olhos de mim. Encolhi quando me tocou no braço: "E o nosso trato de só dizer a verdade? Hem? Esqueceu nosso trato?" - perguntou baixinho.

Enfiei a mão no bolso e apertei a folha, intacta a umidade pegajosa da ponta aguda, onde se concentravam as nódoas. Ele esperava. Eu quis então arrancar a toalha de crochê da mesinha, cobrir com ela a cabeça e fazer micagens, hi hi! hu hu! até vê-lo rir pelos buracos da malha, quis pular da escada e sair correndo em ziguezague até o córrego, me vi atirando a foice na água, que sumisse na correnteza! Fui levantando a cabeça. Ele continuava esperando, e então? No fundo da sala, a moça também esperava numa névoa de ouro, tinha rompido o sol. Encarei-o pela última vez, sem remorso, quer mesmo? Entreguei-lhe a folha.
Lygia Fagundes Telles, "Os melhores contos"

O 'monstro' da caverna

 


O cidadão

“Os seres marinhos, quando não tocam o fundo do mar, se adaptam a uma vida flutuante ou pelágica”, estudou Perseu na tarde de 15 de maio de 192...

Heroico e vazio o cidadão continuou de pé junto da janela aberta. Mas na verdade jamais poderia transmitir a alguém o modo pelo qual ele era harmonioso, e mesmo que falasse não diria uma palavra que cedesse a polidez de sua aparência: sua extrema harmonia era apenas evidente.

Hans Purrmann
“Os animais pelágicos se reproduzem com profusão”, disse com oca luminosidade. Cego e glorioso – era isso apenas o que se podia saber dele vendo-o à janela de um segundo andar. Mas se ninguém conseguiria sondar sua harmonia – também ele parecia não sentir mais do que ela. Porque este era o seu grau de luz. “Os animais e vegetais marinhos com profusão”, disse sem ímpeto mas sem freio porque este era o seu grau de luz. Não importa que na luz ele fosse tão cego como os outros na escuridão. A diferença é que ele estava na luz. “Flutuantes”, falou. Despercebido à janela porque ele era apenas um dos modos de ser S. Geraldo. E também um de seus alicerçadores somente por ter nascido quando o subúrbio também se erguia, apenas por ter um apelido que só se tornaria estranho quando um dia S. Geraldo mudasse de nome; de pé diante da janela aberta. Era essa a natureza de uma raça de homem.

E assim ele ficou, observando com aplicação Efigênia que na rua carregava uma cesta. A mulher parou e enquanto repousava passeou o olhar com ócio e certo desespero pelos arredores ensolarados: eram quase três horas e todas as portas começaram a se abrir ao mesmo tempo. Efigênia retomou a cesta. Para mais adiante interromper-se de novo e arrastar penosamente o fardo. Afinal ela estacou outra vez – mas Perseu era paciente. “Os animais”, disse ele. A mulher retomou a cesta. “Se reproduzem com extraordinária profusão”, disse Perseu. Decorar era bonito. Enquanto se decorava não se refletia, o vasto pensamento era o corpo existindo – sua concretização era luminosa: ele estava imóvel diante de uma janela. “Se alimentam de microvegetais fundamentais, de inusórios etc.”

“Etc.!” repetiu brilhante, indomável.

E agora se calava, moroso e cheio de sol. “Os seres marinhos”, disse num murmúrio; a inconsciência do rapaz dominava largamente a cidade. “Se reproduzem”, acrescentou sombrio. Suas asas eram grandes asas imóveis.

Inclinou-se então pela janela e gritou:

– Fruteiro! suba!

Ah! voou uma gralha espantada.

Grande, revelado nos braços nus, comprou tangerinas no corredor escuro.

Voltou e empoleirou-se no parapeito da janela. Em breve comia e jogava os caroços no beco sujo. Olhava piscando: o caroço dava dois pulos antes de imobilizar-se ao sol. Perseu não o perdia de vista apesar da distância e das pessoas que já se entrecruzavam apressadas: ele era paciente. E em pouco a rua se achava plena de pontos concretos: inúmeros caroços espalhados numa disposição que tinha um sentido flagrante – apenas que incompreensível. Assim como os sobrados dispostos na rua. Estava na sua natureza poder possuir uma ideia e não saber pensá-la: assim ele a expunha, ofuscado, persistente, jogando os caroços. Havia mesmo algumas anedotas sobre a lentidão de inteligência dos homens de S. Geraldo, enquanto as mulheres eram tão espirituosas! “Se reproduzem com extraordinária profusão!” disse o rapaz de repente fustigado.

Em breve estava novamente absorvido pela espécie de perfeição que existia em jogar caroços; tudo o que se parecesse com mecanismos já começava a interessar aos novos cidadãos. Absorvido porém remoto. Pois seu tempo parecia impossível de ser preenchido por uma ação: ele jogava no vazio. Somente algum sinal fazia com que dentro dessa largueza houvesse particularmente a sua vida. “Os seres marinhos pelágicos”, disse bastante alto com a boca cheia.

O que salvava da angústia esta criatura perdida é que ela era perdida como Deus quer que se seja inocente: ele comia e jogava os caroços. O mundo podia passar sem este pedreiro cego. Mas uma vez que ele vivia, ninguém mais poderia executar o seu trabalho, tão intransmissível este já se tornara: assim jogou mais três caroços, recuando a cabeça e mirando com um olho fechado... “Vida flutuante ou pelágica”, exclamou refazendo-se. Atrás do rosto belo e resignado havia um outro que, repetindo os traços externos, tinha uma expressão um pouco horrível, a expressão de um pensamento profundo. E uma intolerância moral – a dos são-geraldenses – ao mesmo tempo maior e mais amorfa do que a do rosto exterior que buscava certa unidade que fosse imediatamente compreendida por um espelho: atrás do rosto dourado e cortês um cheiro quase desagradável de estábulo porque ele era muito moço ainda.

Assim se haviam passado vários momentos proporcionais e amadurecidos enquanto o rapaz jogava os caroços como se tivesse afiado ouro numa oficina – a primeira badalada do relógio fê-lo erguer um rosto sonolento pela aplicação. Por um instante uma cara fora de alcance esperava sem interesse o que lhe iam dizer: o relógio da praça batia três horas largas acima de S. Geraldo e sob as badaladas vibrantes o subúrbio foi submergindo. Quando reapareceu escorrendo às últimas ressonâncias, o subúrbio estava claro e tudo podia ser mais visto: sobre a mesa da janela jazia o livro aberto, e na página revelada pela súbita nitidez da hora estava inscrito:

– Este animal discoidal é formado de acordo com a simetria baseada no número 4.

Assim estava escrito! E o sol batia em cheio sobre a página empoeirada: pela casa defronte subia mesmo uma barata... Então o rapaz disse aquilo que era lustroso como um escaravelho:

– Os seres pelágicos se reproduzem com extraordinária profusão, exclamou afinal de cor.

O relógio atrasado da igreja bateu três horas. Ah! espavoriu-se a gralha de novo perseguida. Perseu balançou os dois últimos caroços na concha da mão e lançou-os em dados. O jogo estava feito! Era de tarde. O rapaz parou maravilhado e vazio. Inesperadamente abriu as grandes asas num bocejo de juventude.
Clarice Lispector, "A cidade sitiada"

quinta-feira, setembro 15

'Caçador' em dúvida


 

Um sonho de simplicidade

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão?

Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?

Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.

A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada?

Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.

Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite.

Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom.

Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e vozes distantes de animais noturnos.

Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento.

Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?

Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
Rubem Braga, "A traição das elegantes"

Os prelos

Há a frase feia: gemem os prelos. Mas por que, afinal, gemem eles? - me pergunto. Gemem, acredito, porque já não aguentam mais tanto trabalho. Gemem porque não lhes dão folga poetas e escritores, abundantes e fecundos neste país subdesenvolvido - não os bons poetas e escritores, mas os vagos e os eventuais, os que se dão ao luxo de gastar palavras e papel, os que fazem da literatura um hobby como outro qualquer, para matar o tempo. É natural que, exaustos, e impacientes, gemam os prelos com tanta lida.

Valdemar Cavalcanti , "Jornal Literário"

Amor à leitura

 

Beatrice Offor

'Obrigada pelo fogo'

Aos 40 anos, a sra. Hanson era uma mulher bonita, mas um tanto apagada, que vendia espartilhos e cintas em viagens de negócios fora de Chicago. Por muitos anos seu território havia oscilado entre Toledo, Lima, Springfield, Columbus, Indianápolis e Fort Wayne, portanto a transferência para a região de Iowa"Kansas"Missouri fora uma promoção, já que a empresa estava mais fortemente estabelecida a oeste de Ohio.

No leste, ela conhecia pessoalmente a clientela e sempre tomava um drinque ou fumava um cigarro no escritório dos compradores, depois de concluídos os negócios. Mas logo descobriu que, na nova área, as coisas eram diferentes. Não só deixavam de lhe perguntar se ela desejava fumar como, em várias ocasiões, quando ela mesma indagou se alguém se importaria caso acendesse um cigarro, a resposta veio compungida: "Não é que eu me importe, mas seria um péssimo exemplo para os empregados".

"Ah, claro, eu entendo."

Às vezes, fumar era importante para a sra. Hanson. Ela trabalhava muito e era um jeito de fazê-la descansar e relaxar psicologicamente. Era viúva e não tinha nenhum parente próximo para quem escrever à noite, e assistir a mais de um filme por semana prejudicava seus olhos, de modo que fumar tornou-se um importante sinal de pontuação na comprida sentença de um dia na estrada.
Na última semana de sua primeira viagem pelo novo território, ela foi parar em Kansas City. Era meados de agosto e estava se sentindo sozinha entre seus novos contatos, portanto foi com alegria que encontrou, na recepção de uma das empresas, uma mulher que havia conhecido em Chicago. A Sra. Hanson sentou-se enquanto aguardava ser anunciada e, conversando, descobriu um pouco sobre o homem com quem iria se encontrar.

"Ele se importaria se eu fumasse?"

"O quê? Meu Deus, sim!", a amiga afirmou. "Ele deu dinheiro para financiar a lei contra o fumo."

"Ah. Bem, obrigada pelo conselho "" obrigada mesmo."

"É bom você tomar cuidado por aqui", a amiga acrescentou. "Principalmente com os maiores de 50 anos. Os que não estiveram na guerra. Um homem me disse que quem participou da guerra nunca faria objeção a um fumante."

Porém, em sua parada seguinte, a sra. Hanson topou com uma exceção. Ele parecia um jovem muito agradável, mas tinha os olhos fixos no cigarro que ela segurava entre os dedos, tanto que ela se viu obrigada a apagá-lo. Foi recompensada quando ele a convidou para almoçar e, ao longo do período, efetuou uma compra de valor substancial.

Depois disso, ele insistiu em lhe dar carona até o compromisso seguinte, embora ela tivesse a intenção de procurar um hotel nas redondezas e dar umas tragadas no banheiro.

Foi um desses dias repletos de espera - todos estavam ocupados ou atrasados e, quando os clientes chegavam a aparecer, eram homens de rosto duro que não toleravam a autocomplacência alheia, ou então mulheres consciente ou inconscientemente comprometidas com as ideias desses homens.

A sra. Hanson não acendia um cigarro desde o café da manhã e de repente percebeu que era por isso que sentia uma vaga insatisfação ao fim de cada reunião, não importando o quanto havia sido bem-sucedida financeiramente.

Ela dizia: "Acho que cobrimos um mercado diferente. É tudo entretela e látex, claro, mas nós realmente conseguimos juntá-los de um modo diferente. O aumento de 30 por cento nas vendas deste ano fala por si só".

Mas pensava consigo mesma: Se ao menos eu pudesse dar três tragadas, conseguiria vender até aqueles corpetes antiquados com barbatanas.

Só havia mais uma loja para visitar, porém o compromisso estava marcado para dali a meia hora. Daria tempo de passar no hotel, mas, sem nenhum táxi à vista, ela caminhou pela rua, pensando: "Talvez eu deva parar de fumar. Estou ficando viciada".

À sua frente havia uma catedral católica. Parecia muito alta, e de repente ela teve uma ideia: se tantas nuvens de incenso haviam subido em espirais até chegar a Deus, um pouco de fumaça no vestíbulo não faria a menor diferença. Por que é que o Altíssimo iria se importar com uma mulher exausta dando umas baforadas no vestíbulo?

Contudo, ainda que não fosse católica, o pensamento a incomodou. Fumar era tão importante assim, mesmo correndo o risco de ofender tanta gente?

E ainda assim. Ele não se importaria, pensou com persistência. Na época Dele, ainda não haviam descoberto o tabaco...

A Sra. Hanson entrou na igreja; o vestíbulo estava escuro e ela procurou um fósforo na bolsa, mas não encontrou nenhum.

Vou apanhar o fogo de uma das velas, pensou.

A escuridão da nave era cortada apenas por um facho de luz num dos cantos. Ela caminhou pelo corredor lateral em direção ao borrão esbranquiçado, então reparou que não era causado por velas e, em todo caso, estava quase sumindo - um homem parecia prestes a apagar a última lamparina a óleo.

"São oferendas votivas", ele disse. "Nós apagamos à noite. Acho que é mais importante para quem ofereceu se as economizarmos para o dia seguinte, em vez de mantê-las acesas a noite toda."

"Entendo."

Ele apagou a última chama. Não havia mais luz na catedral, salvos um candelabro elétrico no teto e a lâmpada sempre acesa diante do sacrário.

"Boa noite", disse o sacristão.

"Boa noite."

"Suponho que você tenha vindo para rezar."

"Isso mesmo."

Ele entrou na sacristia. A Sra. Hanson ajoelhou-se e rezou.

Fazia muito tempo que ela não rezava. Mal sabia para quê, então rezou para seu empregador e para os clientes em Des Moines e Kansas City. Quando terminou, olhou para cima. Uma imagem de Nossa Senhora a encarava de um nicho a menos de dois metros de sua cabeça.

A Sra. Hanson contemplou vagamente a imagem. Então ficou de pé e caiu, exausta, na beira do assento. Em sua imaginação, a Virgem desceu, como na peça "O Milagre", tomou seu lugar e vendeu espartilhos e cintas, ficando tão cansada quanto ela. Então a Sra. Hanson deve ter cochilado por uns minutos.

Acordou com a sensação de que algo havia mudado, sentiu aos poucos um aroma familiar no ar, que não era de incenso, e sentiu que seus dedos doíam. Então percebeu que o cigarro que trazia entre os dedos estava aceso - e queimando.
Ainda sonolenta demais para pensar, ela deu uma tragada para manter a chama viva. Então olhou para cima e viu o nicho vago de Nossa Senhora, à meia-luz.
"Obrigada pelo fogo", ela disse.

Mas não lhe pareceu o suficiente, de modo que ela se ajoelhou, com a fumaça subindo em espirais do cigarro entre seus dedos.

"Muitíssimo obrigada pelo fogo", ela disse.
F. Scott Fitzgerald (conto recusado em 1936 pela "New Yorker", que o considerou muito fantástico e diferente do estilo do escritor, mas publicado posteriormente)

quarta-feira, setembro 14

Leitor no divã

 

Paco Roca.

O endereço

Ao selecionar as roupas do velho poeta morto, para doação, a viúva teve um momento de indignação. Num paletó encontrou um papel. Era um endereço. Já havia começado a maldizer o finado, supondo-o traidor, quando atinou com o que era aquilo: indicações de como chegar ao monte Parnaso.

Raul Drewnick

Escritor, acenda a sua luz!

Min Yoo
Às vezes, tarde da noite, homens batiam à porta da farmácia ou da nossa residência, trazendo nos braços, ferido e sangrando, algumas vítimas da brutalidade dos capangas do chefe político local ou alguém que fora "lastimado" numa briga na Capoeira ou no Barro Preto. Lembro-me que certa noite - eu teria uns quatorze anos, quando muito - encarregaram-me de segurar uma lâmpada elétrica à cabeceira da mesa de operações, enquanto um médico fazia os primeiros curativos num pobre-diabo que soldados da Polícia Municipal haviam "carneado". Eu terminara de jantar e o que vi no relance inicial me deixou de estômago embrulhado. A primeira coisa que me chamou atenção foi o polegar decepado, que se mantinha pendurado à mão esquerda da vítima apenas por um tendão. O ferimento mais horrível de todos era o talho, provavelmente de navalha, que rasgara uma das faces do caboclo duma comissura dos lábios até a orelha. Tinha-se a impressão de que o homem estava sorrindo de tudo aquilo. Seus olhos conservaram-se abertos e de sua boca não saía o menor gemido. Um golpe, provavelmente de adaga, lhe havia descolado parte do couro cabeludo. Pelo talho do ventre escapava-se a madrepérola viscosa dos intestinos. Foi essa a primeira vez na vida que senti de perto o cheiro de sangue e de carne humana dilacerada. Apesar do horror e da náusea, continuei firme onde estava, talvez pensando assim: se esse caboclo pode aguentar tudo isso sem gemer, por que não hei de poder ficar segurando esta lâmpada para ajudar o doutor a costurar esses talhos e salvar essa vida? Por incrível que pareça, o homem sobreviveu.

Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, trazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiramos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.
Érico Veríssimo, "Solo de clarineta: memórias"

terça-feira, setembro 13

Tesouro protegido

 


Covarde e escravo

Naturalmente, eu odiava todos os funcionários do departamento, do primeiro ao último; desprezava-os, mas, ao mesmo tempo, de certa forma eu os temia. Vez por outra até os colocava acima de mim. Essas alternâncias em mim eram súbitas: ora os desprezava, ora os colocava acima de mim. Um homem honrado e evoluído não pode ser vaidoso sem possuir uma exigência infinita para consigo mesmo e sem, em certos momentos, se desprezar até o ponto de se odiar. Mas, seja desprezando o outro, seja julgando-me inferior, eu baixava os olhos diante de quase todas as pessoas com quem cruzava. Cheguei a fazer experiências para ver se aguentaria o olhar de alguém sobre mim. Sempre era eu o primeiro a baixar os olhos. Isso me torturava a ponto de me deixar furioso. Era doentio também o meu temor de parecer ridículo; por isso, adorava servilmente a rotina em relação a tudo o que era exterior. Entregava-me com amor à medianidade geral e com toda a alma temia qualquer sinal de excentricidade em mim. Mas como eu poderia ter resistido? Eu era evoluído de uma maneira doentia, como deve ser o homem evoluído do nosso tempo. Já eles, eram todos obtusos e parecidos uns com os outros, como um rebanho de carneiros. Talvez somente eu, em toda a repartição, tivesse permanentemente aquela impressão de que era covarde e servil, e isso se dava justamente porque eu tinha cultura. Mas não era apenas questão de parecer: de fato, eu era um covarde e um escravo. Digo isso sem nenhum constrangimento. Todo homem honesto neste nosso tempo é e deve ser um covarde e um escravo. Essa é a sua condição normal. Estou profundamente convencido disso. Ele foi feito assim e para isso foi construído. E não é só no tempo presente, por causa de algumas circunstâncias eventuais, mas, em geral, em todos os tempos o homem honesto deve ser covarde e escravo. É uma lei natural para todos os homens honestos na Terra. E se acontece de algum deles se mostrar valente perante alguma coisa, isso não deve ser motivo de consolo ou de entusiasmo: fatalmente ele irá se acovardar diante de outras circunstâncias. Essa é a única e eterna conclusão. Bancam os valentes apenas os asnos e suas aberrações, e mesmo estes só até um determinado obstáculo. Nem vale a pena prestar atenção neles, pois nada significam.

Fiodor Dostoiévski, "Notas do Subsolo"

O arquipélago dos picapaus

Noctium phantasmata ne polluantur corpora.

Estou casado há meses, na Ilha (conta John Derosa, súbdito norte-americano), com um corpo feminino que se compõe da maré cheia, das nuvens algodoadas, dos bicos dos penedos, e desta aragem carregada de sal que me visita no torreão da Ponta Negra e faz tremer as folhinhas amargas e verdoengas dos salgueiros. É Minha Mulher a Solidão.

Procuro em vão, no fundo do meu saco de aventuras, farrapos de experiência que se assemelhem a isto. Nem Kate, cujos ombros olímpicos me levantavam meia jarda inglesa acima da dobra do lençol. Este ser de nada é mais bravo. Vera, a italiana, dava-me beijos preparados com uma pastilha de fruta que me deixavam sem forças e de meninges a latejar. Mas de manhã, quando abro a porta para o caminho, o mar envia-me um pique mais doce e bravio. E desisto de comparações simplesmente idiotas.


Isto deve ser uma pontinha de febre enxertada num certo esgotamento dos meus trinta anos excessivos, e já me lembrei que, tomando brometos, talvez esta espécie de mulher marinha se safe, como se eu fosse um corpo aberto. O Prof. Sousa Júnior, aqui retirado há anos, e que além de médico eminente é um coração de ouro e grande cavaqueador, falou-me de sífilis hereditária e deu-me calomelanos. Melhorei um pouco, mas não... Isto não vai com drogas. Asseguro que estou casado com uma mulher de sal e que vai dar-se aqui uma coisa tremenda que fará gemer os prelos!

Trata-se, pelo menos, de uma ilusão singular. Esta noite sonhei que a Solidão deixava de ter aquele corpo quimérico e feito de linhas de limite, para tomar as formas aproximadas de Nanette. E acordei a chorar como uma criança:

– Minha Mulher a Solidão é Nanette!

E, ainda, por uma pegaça de ritmo:

– Nanette é Minha Mulher a Solidão!

Como foi? Não sei bem. Parece que eu deixara Nanette num país esquisito e inabordável: o Arquipélago dos Picapaus. O nome era devido à configuração dos habitantes dessas ilhas: tipos ferozes, gargaludos, providos de narigueiras que farejam tudo de alto a baixo.

Nanette, que eu levara ali à falsa fé, sob um pretexto de regata, não queria desembarcar no único ancoradoiro da Picapau Grande, cortado entre falésias mosqueadas de líquenes cor de fogo. Eu, verde de perfídia, disse-lhe:

– É só por um dia, meu amor! E ficas muitíssimo bem entregue... Vá, minha filha! Ponha aqui o seu pezinho no primeiro degrau do cais...

O chefe dos Picapaus dissera-me ao ouvido que no arquipélago se desenhava uma tendência evolutiva nos caracteres antropológicos da escassa população. Os narizes pencudos, de alto faro, tinham provocado afinal uma epidemia terrível que dizimava em massa as tabas: a rinite picapaual.

Além disso, um vento misterioso, soprado dos seios do Pacifico (o Arquipélago dos Picapaus está mais ou menos na latitude do Golfo da Califórnia, entre 25° e 30° de latitude Norte), apanhara a população de surpresa nas suas tarefas habituais – a picagem do pau de rolo – e cortara cerce os pescoços de mil e quinhentos cidadãos. Se eu quisesse, mediante um cheque de cem mil dólares, ele, führer natural do Arquipélago, receberia Nanette em depósito durante dois ou três anos e fá-la-ia conceber de um ou dois picapaus mais decentes.

Animado pelo secreto desejo de enriquecer e encobrindo a própria vileza com reservas mentais de eugenésia, fechei a transacção. Fomos ao Banco de meu primo James Derosa e recebi metade do estipulado. Preferi o esterlino.

A outra metade ser-me-ia entregue quando me restituissem Nanette com um quinto dos picapauzinhos humanizados que ela houvesse, a bordo de um navio do contrabando do álcool tripulado por marujos da confiança de Al Capone.

Consegui enfim vencer as últimas resistências de Nanette. Ela era romanesca, de uma docilidade de cadelinha, e confiava em mim como as pombas palonças que, na Praça de S. Marcos, em Veneza e antes de Tito estar às portas de Trieste, vinham comer milho americano disposto grão a grão nos meus ombros enchumaçados, sob a forma patriótica por que se agrupam as estrelas na bandeira dos Estados Unidos.

Comecei por dizer-lhe que precisava estudar os costumes dos Picapaus para esclarecer um ponto controvertido da história do Canadá, minha especialidade.

E creio que lhe falei vagamente em hibridismo e nas ervilhas lisas e crespas das experiências de Mendel.

Ela, que copiava com tanto amor todos os meus verbetes, desembarcou carregada de tiras de papel de costaneira e com uma grande caneta de uma marca que oculto enquanto me não derem mil dólares para a revelar aqui. Eu ia dar um bordejo a outra ilha e dali a seis horas voltava. Escusado é dizer que não voltei...

Não posso precisar todos os pormenores do sonho, mas foi horrível! Os Picapaus hospedaram Nanette numa casa abjecta, onde mulheres de baixa esfera a cobriram de chufas horrendas e a untaram de um creme afrodisíaco.

Nanette ainda tentou resistir às megeras a pulso – aquele seu pulso fino e endurecido a transportar os nossos móveis, a pegar nos filhos alheios e a – encerar o meu escritório. Não pôde. De cabeça baixa, a testa afogada na mecha de cabelo que às vezes desfazia e descompunha para me dar a impressão da Mãe no Manicómio (filme que me aterrou), chorava em fio e tinha o queixo marcado pelas unhadas dos picapaus. Algumas lágrimas me caíam também, feitas pedras de gelo; outras iluminavam o chão do cais do regresso, como carvões espalhados de uma braseira honesta. Quando acudia à pobre Nanette, acordei. Eram cinco horas da madrugada. Agora, na Ponta Negra, amanhece mais cedo; entra na minha alcova uma luz mortiça e creme e o coro dos melros pretos de bico amarelo dos faiais.

Como a casa onde moro é escaiolada a vermelho, parecia-me estar numa das falésias do ancoradoiro da Picapau Grande, toda mosqueada a fogo e tinida dos dólares do resgate.

Esfreguei os olhos e atirei com a dobra do lençol. Cá fora o mar desenrolava-se azul, sem uma ruga. A luz do farolim da Ponta do Cavalo ainda pulsava a distância. Cantava um galo: respondia outro – e mais nenhum.

Eu sei que há uma ligação secreta entre a fauna torpe e absurda que nos povoa os sonhos e o fundo inconfessável que levamos connosco até à cova. Talvez eu deixasse Nanette nalguma casa suspeita! Talvez eu esteja casado com Minha Mulher a Solidão...

Vitorino Nemésio, "O mistério do Paço do Milhafre"

segunda-feira, setembro 12

Café da manhã


 

O visitante noturno

Comprei de um mexicano vinte hectares de terra desocupada, dominada por densa vegetação tropical. Adiantei-lhe vinte e cinco pesos, e o resto seria pago na entrega dos títulos.

Construí uma cabana no estilo indígena e comecei a cultivar a terra. Não era uma tarefa fácil, ali no meio da mata, mas de todo modo pus mãos à obra.
Logo descobri que não era o único homem branco da região; uma hora em meu cavalo me levou à casa do vizinho mais próximo, um certo doutor Cranwell. A aldeia, povoada por camponeses índios, ficava a vinte quilômetros, e o armazém, a vinte e nove. Próximo ao armazém, duas famílias americanas tentavam a sorte; além de se dedicarem à agricultura e à compra e o embarque de carvão e lenha produzidos pelos índios locais, cada uma delas mantinha um bazar de aspecto miserável.

O ranchito do doutor Cranwell situava-se numa colina no meio do mato, assim como o meu. Ele vivia sozinho em um bangalô de três aposentos, construído da forma mais rudimentar. Eu não sabia por que ele fora se enterrar naquela mata e nunca procurei saber. Não tinha nada com isso.

Ele se dedicava à criação de animais, ou ao que ele chamava de criação. Tinha duas vacas, dois cavalos, três mulas e algumas colmeias. Os pássaros silvestres comiam as abelhas o tempo todo, pegando-as ao entrar ou sair da colônia. Isso limitava sua produção a um volume suficiente apenas para o doutor saborear um pouco de mel no café da manhã de vez em quando.

Seus vizinhos mais próximos eram duas famílias de índios, que viviam a pouco menos de um quilômetro de seu ranchito. Ele contratara os homens para o trabalho agrícola e as mulheres para o parco serviço doméstico.

O doutor Cranwell passava a maior parte do tempo lendo. Quando não se dedicava à leitura, deixava-se ficar sentado à varanda do bangalô, contemplando os milhares de quilômetros quadrados de selva que se estendiam à sua frente a perder de vista. Aquela mata era de um verde triste e poeirento, que só se iluminava durante quatro meses do ano, depois do fim da estação das chuvas.
Alguns agrupamentos indígenas, nenhum deles com mais de três famílias, espalhavam-se pela vasta região, e a única maneira de saber onde se encontravam era pela fumaça que podia ser vista, em determinadas horas do dia, pairando acima dos jacalitos ocultos.

Uma pessoa comum poderia ficar esgotada, quem sabe até perder o juízo, se não pudesse contemplar nada além daquela vasta extensão de floresta sombria. O médico, porém, gostava daquela paisagem.

E eu também. Podia passar horas contemplando aquela selva sem nunca me cansar dela. Na verdade, o que me interessava não era o que eu conseguia ver. Era poder imaginar os grandes e pequenos episódios que se desenrolavam naqueles matagais espinhosos lá embaixo. Não havia um minuto de descanso na eterna batalha pela sobrevivência, pelo amor. Criação e destruição... Eu não tinha bem certeza, mas imaginava que o médico sentia a mesma coisa. Só que ele nunca disse isso.

Minha casa ficava na mesma elevação que a sua, embora um pouco mais abaixo. Eu estava bem mais longe dos vizinhos que ele. Só muito raramente a solidão me incomodava. Quando isso acontecia, eu selava meu pônei e ia visitar o médico, só para ver um rosto humano e ouvir a voz de alguém.

Uma floresta tropical é tão cheia de vida que é simplesmente impossível entregar-se à tristeza quando se é capaz de sentir todo o universo em cada pequeno inseto, em cada lagarto, em cada trinado de pássaro, em cada farfalhar de folhas, em cada cor e forma de flor. De vez em quando, porém, eu sentia um arrepio de medo e meu coração fraquejava. Era como estar sozinho num avião, rodeado de nuvens, com o motor rateando e sem instrumentos de orientação. Ou como estar sozinho num pequeno barco, longe da costa, sem nenhum pássaro à vista, num mar silencioso, com o Sol começando a declinar.

O médico não era de falar muito. Viver sozinho na mata tropical faz você ficar silencioso, embora rico em pensamentos. Não se passa um minuto do dia ou da noite sem que a selva lhe fale, seja com sua voz contínua, incessante, seja por seu eterno crescimento e decomposição. Fatalmente você chega à conclusão de que a vida só pode ter um sentido: “Aproveite-a enquanto ela durar e desfrute dela o máximo que puder, porque a morte está dentro de você desde o momento em que nasceu”.

Em minhas visitas, o médico e eu nos deixávamos ficar em nossas cadeiras de balanço por duas ou três horas sem que nenhum de nós dissesse uma palavra. Não sei por que, porém, isso nos contentava.
B. Traven, "O visitante noturno"

Pequena tragédia

A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta.


— Não — disse ele —, só terás um pedacinho. Porque noventa por cento pertence aos Editores.
Mário Quintana, "Caderno H"

Leitura antes de dormir