terça-feira, junho 20

O padeiro

Levanto cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no fogo para fazer café e abro a porta do apartamento — mas não encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a “greve do pão dormido”. De resto não é bem uma greve, é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café da manhã com pão dormido conseguirão não sei bem o que do governo.

Está bem. Tomo o meu café com pão dormido, que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:

— Não é ninguém, é o padeiro!


Interroguei-o uma vez: como tivera a ideia de gritar aquilo?

“Então você não é ninguém?”

Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: “não é ninguém, não, senhora, é o padeiro”. Assim ficara sabendo que não era ninguém…

Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina — e muitas vezes saía já levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.

Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi a lição de humildade daquele homem entre todos útil e entre todos alegre; “não é ninguém, é o padeiro!”

E assobiava pelas escadas.
Rubem Braga

domingo, junho 18

Barraco do tesouro


 

Mulher que diz tchau

Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem.

Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da minha boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas.

Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão.

E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.

Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, dizíamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)

Não levo nem uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca).

E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
Eduardo Galeano, “Vagamundo”.

O Alentejo

No Alentejo, em fins de Julho ou princípios de Agosto, o olhar atinge o seu zénite. No horizonte raso e limpo tudo parece pegado à terra: muros, árvores, medas de palha, montes, quando se avistam distantes. Um delírio de luz sobe à cabeça, como a música das cigarras, e faz doer. As coisas todas estalam como romãs maduras, e ficam cheias de brilhos. Mesmo dentro de casa, com portas e janelas trancadas, a luz entra pelas frestas, entorna-se pelas tijoleiras e reflecte-se, tenuamente rosada, na brancura das paredes. No pátio, uma oculta água ergue-se num repuxo exíguo – e é pura delícia. Cheira a barro e a cal, cheira a coentros e a queijo seco. Cheira ao que é da terra e regressa à terra. Um som de guizos, o trote miúdo das mulas, o grito de uma criança, custam a distinguir, de tão longe vêm. Neste longo, ardente Verão do Sul, apenas as cigarras têm modulações amplas. À roda tudo é silêncio e secura. Os próprios homens quase não têm fala, mas os seus olhos queimam como duas pedras expostas ao sol durante milhares de dias. Só eles afirmam que nem tudo no Alentejo nasce e morre acachapado à terra. Eles, e uns pombos bravos que subitamente rasgam o céu, como quem foge ao áspero, ardido, amargo coração do meu país.


Falei da luz do Alentejo, mas não é ela que verdadeiramente me liga e religa a esta terra: é demasiado ácida, falta-lhe uma doçura última, mediterrânea, que só encontraremos mais a sul. O que me fascina aqui é uma conquista do espírito sem paralelo no resto do país, numa palavra: um estilo. O melhor do Alentejo é uma liberdade que escolheu a ordem, o equilíbrio. Estas formas puras, sóbrias de linha e de cor, que vão da paisagem à arquitectura, da arquitectura ao vestuário, do vestuário ao cante, são a expressão de um espírito terreno cioso de limpidez, capaz da suprema elegância de ser simples. Povertà é talvez a palavra ajustada a uma estética alheia ao excesso, ao desmedido, ao espectacular. Ao luxo prefere-se a modéstia; à anarquia, o rigor; à paixão, um concentrado amor. O Alentejo é inimigo do barroco em nome da claridade. Mundo cerrado (quase apetecia escrever: encarcerado), sem dúvida; mas dos seus limites tira o alentejano a força. O seu olhar, na impossibilidade de ir mais longe, irá cada vez mais fundo, e o que lhe sai das mãos é fruto de uma paisagem enxuta, quase hirta, de uma magreza reduzida ao osso. Uma paisagem essencial, de que pode orgulhar-se um homem, quando lhe reflecte o rosto ou a alma.
Eugénio de Andrade

sábado, junho 17

Tsunami de leitura

 


Das palavras

Não mordas assim as palavras para que não te surpreendas, não as decepes. Não deixes a espada vil da mentira roubar-lhes a alegria. Quando as disseres aperta-as contra o peito. Faz um esforço por senti-las. Nas palavras cabem sempre o que para isso for preciso. Entra dentro delas como um milagre, como se uma pedra, de repente, se tornasse numa cigarra, como se o mar inteiro não te afogasse. Não as fites para as afastar. Não as rejeites. Pensa-as muitas vezes. As palavras não podem acordar com essa intenção de magoar. Distingue-as, toca nelas lentamente. Deixa que sejam limpas, que tenham chão, que façam vento. Dá-lhes a frescura de um limão, o êxtase que nelas se pode demorar. Não as digas, beija-as. As palavras povoam o que tu não podes povoar.

Ama as palavras, a possibilidade que são de poderes sonhar. Diz: Lua, grave, animal, gravura, diz verbo, teia, largura, diz pedra, luz água, jardim, planeta, unha, diz as palavras límpidas e transparentes, como amarelo, tremor, invenção, como clarão, erva, ou pão e verás como as palavras são fábulas, enredos, e as forças da língua em que vives e do chão de onde as dizes.

Eduardo White

Uma casa na escuridão

Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois, o tempo. Sempre o tempo como uma brisa. Uma aragem suave, mas definitiva, a empurrar-me os sentimentos, a deixá-los lá ao fundo e a mostrar-me na distância que eram pequenos, muito pequenos e sem valor. E sempre só a solidão. Sempre. Eu sozinho, a viver. Sozinho, a ver coisas que não iriam repetir-se; sozinho, a ver a vida gastar-se na erosão da minha memória. Sozinho, com pena de mim próprio, ridículo, mas a sofrer mesmo. Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. Muitas vezes disse amo-te, mas arrependi-me sempre. Arrependi-me sempre das palavras.

José Luís Peixoto, "Uma Casa na Escuridão"

sexta-feira, junho 16

Recriação de Sísifo

 


Tempo de geada

Meio encolhido no seu pijama de pelúcia, com uma manta de lã enrolada no pescoço, era com um certo gosto de tropeiro que oferecia a cara à mordida gelada e úmida do ar do alvorecer. Era bom sentir no côncavo da mão e nos dedos o calor da cuia de chimarrão e mais saboroso ainda chupar a velha bomba que herdara do velho Xisto, reter na boca, meio queimando a língua, o mate escaldante e depois deixar o amargo descer devagarinho, faringe e esôfago abaixo, e ir aquecer-lhe o peito, como um poncho para uso interno. A geada branqueava os telhados. Galos cantavam em quintais próximos e distantes e, como sempre acontecia nessa hora, Tibério pensou nas incontáveis alvoradas de sua vida, na cidade e no campo, e por alguns instantes lhe passaram pela mente as imagens de seu pai, de seus irmãos e de outros amigos mortos que estavam sepultados lá em cima da coxilha e que não podiam mais ver a luz do dia. Essa era a única hora em que às vezes ele pensava na sua própria morte, principalmente agora que tinha entrado na casa dos sessenta.

Erico Verissimo, "Incidente em Antares" 

O trator e a fome

Inquietavam-se as terras do oeste sob os efeitos da metamorfose incipiente. Os estados ocidentais estavam intranquilos como cavalos antes de temporal. Os grandes proprietários inquietavam-se, pressentindo a metamorfose e sem atinar com a sua natureza. Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que tudo isto era efeito, e não causa. As causas escondiam-se bem no fundo e eram simples — as causas eram a fome, a barriga vazia, multiplicada por milhões; fome na alma, fome de um pouco de prazer e de um pouco de tranquilidade, multiplicada por milhões; músculos e cérebros que queriam crescer, trabalhar, criar, multiplicados por milhões. A última função clara e definida do homem — músculos que querem trabalhar, cérebros que querem criar algo além da mera necessidade — isto é o homem. Construir um muro, construir uma casa, um dique, e pôr nesse muro, nessa casa, nesse dique algo do próprio homem, é retirar para o homem algo desse muro, dessa casa, desse dique; obter músculos fortes à força de movê-los, obter linhas e formas elegantes pela concepção. Porque o homem, ao contrário de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do universo, cresce para além de seu trabalho, galga os degraus de suas próprias ideias, emerge acima de suas próprias realizações. É isto o que se pode dizer a respeito do homem. Quando teorias mudam e caem por terra, quando escolas filosóficas, quando caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, econômicas alargam-se e se desintegram, o homem se arrasta para diante, sempre para a frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado. Tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás, mas não mais que meio passo, nunca o passo todo que já deu. Isto se pode dizer do homem, dizer-se e saber-se. Isto se constata quando as bombas caem dos aviões negros sobre a praça do mercado, quando prisioneiros são tratados como porcos imundos, e os corpos esmagados se consomem imundos na poeira. Pode ser constatado desta forma. Não tivesse sido dado esse passo, não estivesse vivo no pensamento o desejo de avançar sempre, essas bombas jamais cairiam e nenhum pescoço seria jamais cortado. Tenha-se medo de quando as bombas não mais caem, enquanto os bombardeiros ainda existam, pois que cada bomba é uma demonstração de que o espírito não morreu ainda. E tenha-se medo de quando as greves cessam, enquanto os grandes proprietários estão vivos, pois cada greve vencida é uma prova de que um passo está sendo dado. E isto se pode saber — tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da humanidade, é a que a distingue entre tudo no universo.


Os estados ocidentais inquietavam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente. Texas e Oklahoma, Kansas e Arkansas, Novo México, Arizona. Califórnia. Uma família isolada mudava-se de suas terras. O pai pedira dinheiro emprestado ao banco e agora o banco queria as terras. A companhia das terras — que é o banco, quando ocupa essas terras — quer tratores, em vez de pequenas famílias, nas terras. Um trator é mau? A força que produz os profundos sulcos na terra não presta? Se esse trator fosse nosso, não meu, nosso, prestaria. Se esse trator produzisse os sulcos em nossa própria terra, prestaria na certa. Não nas minhas terras, nas nossas. Então, sim, a gente gostaria do trator, gostaria dele como gostava das terras quando ainda eram nossas. Mas esse trator faz duas coisas diferentes: traça sulcos nas terras e expulsa-nos delas. Não há quase diferença entre esse trator e um tanque. Ambos expulsam os homens que lhes barram o caminho, intimidando-os, ferindo-os. Há que pensar sobre isto.

Um homem, uma família, expulsos de suas terras, esse veículo enferrujado arrastando-se e rangendo pela estrada rumo ao Oeste. Perdi as minhas terras; um trator, um só, arrebatou-as. Estou sozinho e apavorado. E uma família pernoita numa vala e outra família chega e as tendas surgem. Os dois homens acocoram-se no chão e as mulheres e as crianças escutam em silêncio. Aqui está o nó, ó tu que odeias as mudanças e temes as revoluções. Mantém esses dois homens apartados; faze com que eles se odeiem, receiem-se, desconfiem um do outro. Porque aí começa aquilo que tu temes. Aí é que está o germe do que te apavora. É o zigoto. Porque aí transforma-se o “Eu perdi minhas terras”; uma célula se rompe e dessa célula rompida brota aquilo que tu tanto odeias, o “Nós perdemos nossas terras”. Aí é que está o perigo, pois que dois homens nunca se sentem tão sozinhos e abatidos como um só. E desse primeiro “nós” nasce algo muito mais perigoso: “Eu tenho um pouco de comida” mais “Eu não tenho nenhuma”. Quando a solução desta soma é “Nós temos um pouco de comida”, aí a coisa toma um rumo, o movimento passa a ter um objetivo. Apenas uma pequena multiplicação, e esse trator, essas terras são nossas. Os dois homens acocorados numa vala, a pequena fogueira, a carne que se cozinha numa frigideira comum, as mulheres caladas, de olhos vidrados; atrás delas as crianças, escutando com o coração palavras que seu cérebro não abrange. A noite desce. A criança sente frio. Aqui, tome esse cobertor. É de lã. Pertenceu à minha mãe — tome, fique com ele para a criança. Sim, é aí que tu deves lançar a tua bomba. É este o começo da passagem do “Eu” para o “Nós”.

Se tu, que tens tudo que os outros precisam ter, puderes compreender isto, saberás também defender-te. Se tu souberes separar causas de efeitos, se tu souberes que Paine, Marx, Jefferson, Lenin foram efeitos e não causas, sobreviverás. Mas tu não poderás compreender. Pois que a qualidade da posse cristalizou-se para sempre na fórmula do “Eu” e sempre te isolarás do “Nós”.

Os estados ocidentais inquietam-se sob os efeitos da metamorfose incipiente. A necessidade é um estimulante do ideal, o ideal, o estímulo para a ação. Meio milhão de homens caminha pelas estradas; um milhão mais prepara-se para a caminhada; dez milhões mais sentem as primeiras inquietudes.

E tratores abrem sulcos múltiplos nas terras abandonadas.
John Steinbeck, "As vinhas da ira"

Crônica da natureza ferida

Meu avô dizia que toda árvore devia ser respeitada. A natureza demorava anos para formar uma árvore, que se expandia por léguas de mata fechada, enquanto o homem com repetidas machadadas não demorava muitas horas para derrubá-la. A mata tinha uma enorme cabeleira verde, dormia um sono milenar até o homem chegar para desfazer o que somente a ela pertencia.

O vento rangia na parte alta da árvore, tremia sua canção antiga nas folhas, os macacos pulavam nos galhos. Os pássaros cantavam quando a mata acordava, na festa da natureza a lei para sobreviver era matar ou morrer, mas com ordem. A mata havia com sua cabeleira milenar, o corpo volumoso onde os raios do sol não penetravam, de tão fechado. O dia era como a noite nos confins da terra coberta de árvores. O gavião cedo amanhecia e sobrevoava as partes mais altas.

Meu avô também dizia que a árvore chamava a nuvem, umas às outras se uniam numa cortina compacta, fazendo cair a chuva na terra centenária. A água que caía dos céus fertilizava os campos, amolecia a terra, os frutos despontavam. Somente o homem, que se dizia civilizado, não quis que a mata permanecesse nessas bandas de cá com os índios, seus habitantes nativos, e os bichos que nela moravam, sem fazer mal aos que matam pelo prazer.

Os caçadores, os plantadores de lavoura, os madeireiros, todos eles desde que apareceram numa sanha incontrolável foram dizimando tudo que encontrava pela frente na mata fechada. As árvores de lei foram tombando nos estirões enormes, os troncos serrados, vendidos para que fossem transformados em esteios, estacas, tábuas, peças para a casa, como ripa, cumeeira, porta, janela, mesa, cadeira e diversos utensílios domésticos.

Os caçadores não davam trégua aos bichos. Não descansavam enquanto soubessem que um bicho estivesse vivendo na mata. A caça era moqueada e vendida na feira do lugarejo e da cidade. Os plantadores queimavam os pedaços de mata derrubada, o chão reduzido a cinzas servia para implantar as lavouras perenes ou de pouca duração.

A paisagem que antes era ocupada pelo verde da mata foi dando lugar às pastagens. Meu avô dizia que a natureza ofendida se vinga cedo ou tarde. Verdade, de uns anos para cá as chuvas escassearam, a cada verão a estiagem se torna mais prolongada, a vegetação morre, o capim seca, as lagoas viram lama. Gado morre de sede e fome, a rês com pele e osso, alquebrada, sem forças para levantar do chão, os olhos semimortos, o mudo mugido apertado na garganta. Os urubus alvoroçados bicam a pobre coitada, disputam seus pedaços na festa que fazem com a comida ainda com uns restos de vida.

Diante do cenário pintado com tintas de luto nos seres e nas coisas, não esqueço do que meu avô dizia que cedo ou tarde a natureza quando ofendida se vinga e traz para o algoz ao invés de benesses o funeral das horas.
Cyro de Mattos

quinta-feira, junho 15

A sombra do personagem

 


Separação

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.

Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação.

Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce.

Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias – um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas.

De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"

Mão de jardineira


Editar um livro é tratá-lo com mão de jardineiro para que ele floresça
Maria Amélia Mello, "Editando a Editora": 

A Ilha dos Gatos Pingados

Já sei o que vou fazer. Se Cedil não voltar até o fim do ano, vou-me embora para o sítio de minha avó. Lá eu vou ter uma bezerra pra tirar cria, um cavalinho pra montar e muitas coisas pra fazer o dia inteiro. É melhor do que ficar aqui feito bobo, pensando toda a vida na ilha, nos brinquedos que a gente brincava, nas coisas que Cedil e Tenisão diziam, e até nos sustos que passávamos, como no dia que a jangada quase afundou com nós três.

Camilinho ainda anda atrás de mim; mas não sei se é influência de Tenisão, eu não gosto muito de brincar com ele. Ele tem umas ideias bobas, chora por qualquer coisa, e tudo que a gente faz de meio estouvado ele acha de linguarar. Agora eu compreendo mais por que Tenisão implicava com ele: ele sempre foi chorão e enredeiro.

Toda vez que a gente queria ir em algum lugar precisava combinar escondido, sair sem Camilinho ver, e às vezes nem assim adiantava. Quando a gente ia longe, lá vinha Camilinho correndo atrás, chorando e pedindo pra esperar. Tenisão xingava, jogava pedra, mas ele não desistia. Era preciso parar e esperar. Aí o brinquedo perdia a maior parte da graça porque ele era pequeno e não dava conta de acompanhar, não sabia pisar em espinho sem espetar o pé, à toa à toa chorava. Era bobinho que só vendo, tinha medo de tudo. Não engolia semente de jenipapo para não virar barata na barriga, não comia rolinha assada pra não dar fome canina, não jogava pedra na casa de João Benedito porque ele furava um ovo com agulha e a gente ficava cego (eu só joguei uma vez e de longe, porque todo mundo dizia que ele era feiticeiro infalível). De entoado um de nós, ou nós três, estava apanhando por causa de Camilinho.

De maio a agosto, os meses sem R ninguém podia tomar banho no rio, dava febre. A gente ia escondido, Camilinho seguia, o tempo todo aconselhando, fazendo medo. Tenisão dava coque nele, mandava parar com a ladainha, mas era mesmo que nada: ele continuava choramingando, dizia que a gente todos ia morrer. Eu ficava com dó de ver aquele porqueirinha chorando por causa da morte inventada da gente, dizia que isso de morrer era invenção, prometia armar arapuca pra ele. Tenisão ficava enfezado, dizia que não tinha de armar arapuca nenhuma, se ele contasse em casa apanhava de corrião. Uma vez ele chorou tanto com uma guaspada de Tenisão que eu tive de prometer jogar burro com ele e deixar ele ganhar. Com isso ele calou do choro, mas não deixou de enredar. Quando chegou em casa ficou rodeando a mãe por todo canto, ela mandava ele brincar, ele arremanchava e não saía de perto. Ela perguntou o que ele queria, ele disse que era preciso fazer um chá bem forte pra Tenisão porque ele tinha nadado no rio. Dona Zipa ficou nervosa, chamou Tenisão, fez o coitado beber o chá, mas primeiro deu uma surra nele e depois foi avisar lá em casa. A minha valença foi que eu estava na casa de vovó e lá eu não apanhava.

A ideia de brincar na ilha começou um dia que Cedil andou fugido de casa por causa do namorado da irmã. Ele sofria muito, todo rapaz que namorava Milila achava de mandar nele, ele nem podia brincar direito, vivia vigiado.

Quando Milila começou a namorar Zoaldo a vida de Cedil piorou. Zoaldo era muito bruto, só falava gritando. Nem Pedro Arcanjo, que já tinha brigado com soldado, tirava farinha com ele. Uma vez brigaram no botequim do Cândido, Pedro Arcanjo puxou a garrucha, o povo todo saiu de perto, menos Zoaldo. Pedro gritou que corresse, Zoaldo nem nada, e ainda ficou caçoando da garrucha, dizendo que era arma alcaide, arma de queijeiro, que hoje em dia em cidade só se usava revólver chimite ou parabelo.

Pedro Arcanjo chorava e repetia que corresse, senão ele virava assassino. O Cândido entrou no meio, pediu a Zoaldo que saísse um pouquinho só pra não contrariar, Zoaldo disse que favor só fazia pra quem merecia, e assim mesmo quando tinha vontade. Quando Pedro Arcanjo já tinha chorado bastante, e olhava a garrucha na mão sem saber o que fazer dela, e todo mundo em volta já ria sem medo nenhum, Zoaldo chegou perto. Falou manso como amigo, Pedro, você já brincou bastante, agora me dá pra guardar, e sem esperar foi tomando a garrucha e tocando Pedro pra fora a empurrões, e se ele não corresse teria apanhado muito. Quando Pedro já ia longe Zoaldo voltou pra dentro do botequim dizendo que ia fazer uma rifa da garrucha a um mil-réis o número, com o dinheiro ia comprar uma botina de cano de casimira. Pediu papel ao Cândido, escreveu os números, muita gente foi assinando e botando pg. ali mesmo.

Nos primeiros dias do namoro Zoaldo deu uma surra em Cedil por causa de uma malcriação que ele fez pra Milila. Cedil estava brincando com outros meninos no barranco perto da casa. Milila chegou na janela e chamou. Ele disse que já ia e ficou brincando. Ela chamou de novo, ele disse pra não amolar. Zoaldo desceu a calçada da casa e veio vindo, parecia que ia embora. Mas quando passou perto de Cedil deu um bote e agarrou o coitado pelo cangote, levou pra dentro debaixo de tapa e lá ainda bateu com o cinturão.

Quando Cedil contou isso Tenisão escachou com ele, disse que ele era um pamonha, mais apanhasse pra deixar de ser bobo. — Se fosse comigo — disse — eu sentava um trem na cara daquele trelente.

— Você fala assim porque tem pai que pune por você — respondeu Cedil.

— E sua mãe, por que que não pune?

Aí Cedil contou com muita tristeza que a mãe dele estava na cozinha moendo café quando ouviu a zoeira; veio ver, ficou olhando e não fez nada, só dizia meu filho, meu filho, coitadinho de meu filho. Depois que Zoaldo bebeu o café e foi embora ela veio agradar, pôs arnica nos lanhos, fez beiju pra ele comer com leite antes de deitar, mas ele disse que de pirraça não quis. No outro dia cedo ela foi na loja e comprou um canivete Corneta pra dar de surpresa a Cedil, era o brinquedo que ele mais queria.

Cedil ficou meio envergonhado com o que Tenisão disse, mas explicou que a mãe dele era muito boa, só que era nervosa e não gostava de questão.

Depois disso Zoaldo não deixou mais Cedil ter descanso.

Vivia mandando o coitado na rua fazer isso e aquilo, levar e buscar cavalo no pasto, e volta e meia enfiava o couro nele. Dizia que era para desasnar.

No dia que o cavalo fugiu, Cedil apanhou demais mesmo. Ele tinha ido cedinho no pasto e só voltou depois do almoço — e de mão abanando. Contou que o cavalo tinha se amadrinhado com a égua de um tropeiro e destampado com ela pelo morro acima, não deixava chegar perto. Zoaldo sapateou de raiva, disse que era má vontade de Cedil pra atrapalhar o ganhame que ele ia ter na viagem com o agrimensor. Tomou o cabresto da mão de Cedil e com ele mesmo foi batendo sem olhar lugar. Cedil correu pedindo o socorro da mãe, Zoaldo atrás dando cabrestada. A mãe de Cedil correu para o quarto, fechou a porta e ficou rezando tão alto que de fora se ouvia.

Quando eu vinha da escola encontrei Cedil sentado no parapeito atrás da igreja com as pernas todas lanhadas, chorando e riscando a pedra com um carvão. Não estava pintando nem escrevendo nada, era só rabisco. Perguntei por que não tinha ido à escola, respondeu que não ia mais, nunca mais, e me contou a história do cavalo. Disse que não adiantava ir à escola porque estava resolvido a fugir. Não sabia pra onde, mas ia fugir de qualquer jeito, estava esperando um caminhão pra pular em cima.

Eu disse que então ele ia passar apertado com os índios.

— Ques índios? — perguntou ele.

Eu disse que todo caminhão que passava ali ia para o norte, e que meu pai tinha falado que no norte dava muito índio feroz. Ele ficou tristinho, pensando, depois perguntou uma coisa boba, de gente que está mesmo muito desacorçoado: perguntou se afogar doía, se a gente ficava desesperado como quando está mergulhando em poço fundo e o fôlego acaba. Eu disse que afogar era horrível, que no sítio de minha vó morreu um menino afogado, o Zuzezinho, ficou de olhos estufados como sapo, eu passei muitas noites sem dormir, com medo dele. Era horrível. Cedil pensou, e perguntou se se ele fosse viver no mato eu mais Tenisão ia todo dia brincar com ele depois da escola. Eu disse que a gente levava facão, cortava pau pra fazer casa, levava mantimento, fazia caçada com espingarda de cano de guarda-sol, Tenisão estava trabalhando uma, só faltava colocar o tufo quando achasse jeito de derreter chumbo sem a mãe dele ver.

— E a gente escala sentinela, inventa senha, ninguém passa sem dar a senha — disse ele animado, parece que já esquecido da surra.

Eu disse que não carecia de senha nem de sentinela, isso era mais pra de noite, como no tempo dos revoltosos, e de noite eu não podia ir, e achava que Tenisão também não. Ele perguntou se minha mãe ficasse ruim pra mim e desse de me bater se eu não resolvia fugir também; eu disse que aí podia ser, mas era preciso pensar.

Nessa hora apareceu Tenisão rodando um cubertão velho, brecou o bicho com o pé bem diante de nós. Falamos com ele e ele achou que o melhor lugar era a ilha. Lá ninguém ia, o mato era fechado na beira da água, mas varando o mato o resto era limpo, dava muito cará e sangue-de-cristo. Não tinha era canoa, a que costumava ter tinham tirado, com certeza justamente pra menino não atravessar. O jeito era fazer uma jangada de toro de bananeira.

Fazer a jangada foi fácil, manejar a bicha é que deu panca. Não fizemos direito, pusemos os toros com a ponta mais grossa para um lado só, era tão fácil ver que não dava certo, mas ninguém reparou, acho que foi a pressa de botar na água. Dentro da água ela teimava em afundar na parte de trás, chegamos pra frente e ela afundou a frente pra igualar. Chegamos na ilha escandalosamente molhados da cintura para baixo.

No primeiro dia fincamos as estacas da casa, amarramos as traves e cortamos uma braçada de varas para trançar as paredes. Cedil queria fazer uma parede de qualquer jeito, com ramo de assa-peixe mesmo, só pra poder dormir a primeira noite. Enquanto ele varria o chão da casa muito entusiasmado eu saí com Tenisão e combinamos que era preciso desistir Cedil de fugir improvisado; a gente primeiro fazia uma casinha caprichada, com jirau e tudo pra dormir, depois ele mudava pra ela se ainda tivesse inclinação.

Cedil tinha esquecido a contrariedade, tinha brincado e dado risada, tinha até corrido atrás de Tenisão com uma cobra na ponta de um pau, ameaçando jogar nele; mas quando falamos que era hora de voltar, que de jeito nenhum ele devia de ficar, ele caiu na tristeza de novo, fazia tudo com moleza, até caminhava sem vontade, como a gente faz quando tem de recitar em festa de escola.

Depois que a casa ficou pronta o nosso brinquedo era só na ilha. Eu nem queria mais almoçar quando voltava da escola, preparava merenda escondido, mamãe não sabia e ralhava para eu comer, meu pai era que não ligava, dizia que quando barriga está cheia goiaba tem bicho. Mamãe dizia que assim eu acabava doente, que ele devia comprar um xarope pra abrir o meu apetite; ele respondia que o xarope que eu precisava não se vende em farmácia, é comprido e cheira a couro; daí a pouco estavam discutindo, eu aproveitava e saía.

Eu gostava bem da ilha, mas acho que gostava mais era por causa de Cedil. Ele tinha deixado de falar em afogar ou fugir, decerto porque Zoaldo estava viajando, ajudando seu Zaco no serviço de guarda-fio. Diziam que Milila não ia mais ser namorada dele, não sei se era certo, mamãe zangou quando perguntei.

Mas Cedil não parecia o mesmo, todo dia inventava um brinquedo novo. Fizemos monjolinho de gameleira, é fácil de torar e furar, pilava à toa o dia inteiro, quando a gente ia embora escorava ele levantado como monjolo de verdade. Fizemos usina de luz com represa, casa de turbina, poste subindo e descendo morro, copinho de isolador, fio e tudo, gastamos acho que dois carretéis de linha.

A ilha não tinha nome, era tratada só de ilha. Tenisão disse que carecia de dar um nome, mas não achamos nenhum que prestasse. Eu disse um, Tenisão disse que era bobo; Cedil disse outro, já tinha. Um dia pegamos a falar de bicho, eu disse que pra meu gosto o bichinho mais perfeito que tem é o preá, até dá vontade de criar em quintal, aquele corpinho peludo chamusca do, os olhinhos balançando de nervoso, o bigodinho tremendo quando vê gente. Eu só não pelejava pra pegar um porque tinha edo que ele morresse de susto. Tenisão disse que o bichinho mais bonito do mundo inteiro, até nacional, e o mais custoso de achar, era o gato pingado; tinha uns até pingados de ouro, e esses então nem se fala. Eu não sabia que tinha esse bicho, Cedil também não, mas mostrou logo influência. Disse que se a gente juntasse dinheiro vendendo banana do quintal de cada um, quem sabe se não podia comprar um casal e tirar cria na ilha? Aí ficava sendo a Ilha dos Gatos Pingados. Tenisão disse que para comprar era baixo que não achava, nem um quanto mais dois.

O nome ficava bom, mas só se tivesse os gatos. Mas, como nenhum de nós arranjou outro, ficamos com esse mesmo por enquanto.

Camilinho vivia desconfiado que a gente devia ter um lugar escondido, só nosso, e andava sempre atrás adulando, oferecendo brinquedo, me deu uma lente de óculo, tão forte que até acendia papel no sol. Às vezes me dava remorso de ver o bestinha brincando sozinho uns brinquedos sem graça de botar besouro pra carrear caixa de fósforo, fazer zorra que nunca zoava, ajuntar folha de folhinha; mas quando falei pra Tenisão que a gente devia levar Camilinho ao menos uma vez pra ver os brinquedos da ilha, Tenisão deu na mala, disse que nem por um óculo, que ele era muito chorão, parecia moenda.

Acho que um dia Camilinho pombeou nós três e viu quando tiramos a jangada da moita e atravessamos para a ilha. Quando foi de noite na porta da igreja ele me perguntou onde a gente tinha ido na jangada, e outro dia na escola um tal Estogildo, menino muito entojado que vivia passando rasteira nos outros, disse que ele também ia fazer uma jangada pra passear longe no rio. Depois eu vi Camilinho muito entretido com uma garrucha de taquara, dessas que jogam bucha de papel, uma mesma que eu tinha visto na mão de Estogildo. Eu não contei pra Tenisão pra ele não bater em Camilinho, porque de nós três ele era o que mais não gostava de Estogildo; mas aí eu principiei a desconfiar que o brinquedo da ilha ia acabar acabando.

E nem demorou muito, parece até que eles estavam só esperando uma vaza. Passamos uns dias sem ir lá porque Tenisão andou de dedo inchado com panariz, doía muito, foi preciso lancetar, e brinquedo sem ele desanimava. Nesses dias a gente ia pra beira do rio e ficava olhando a ilha. De longe ela parecia mais bonita, mais importante. Quando vimos o fumaceiro, corremos lá eu e Cedil, Tenisão ainda não podia.

Estava tudo espandongado, a casa, a usina, os postes arrancados, o monjolinho revirado. Cedil chorava de soluço, corria pra cima e pra baixo mostrando os estragos, clamando da ruindade. Eu quase chorei também só de ver a tristeza dele. Para nós a ilha era brinquedo, pra ele era consolo.

Tenisão parece que não ligou muito, disse que ia arranjar outro lugar melhor e mais escondido, mas nunca tinha animação pra procurar; quando Cedil perguntava, ou eu, ele dizia que tinha tempo. Assim foi indo até que d. Zipa mandou Tenisão para o colégio dos padres em Bonfim. Mais ou menos nesse tempo Zoaldo voltou de viagem e pegou de novo em namoro com Milila, batia mais ainda em Cedil, acho que pra descontar o tempo que não bateu. Nós todos lá de casa fomos para o sítio de vovó esperar a folia. Eu quis levar Cedil, mas Zoaldo disse que podíamos tirar o cavalo da chuva.

Quando voltamos, acho que um mês depois, todo mundo falava em Cedil — tinha fugido de madrugada ninguém sabia pra onde. Deixou o canivete Corneta pra mim, sabia que eu ia gostar de possuir. Sei que ele quis me agradar, mas foi pior, porque eu passava o dia inteiro pensando nele. Mamãe ralhava, dizia que era melhor eu ir tratando de esquecer. Ouvindo todo dia sempre a mesma coisa eu ficava mais triste ainda. Qual era a vantagem de esquecer? Pois eu até tinha medo de acordar um dia e descobrir que tinha esquecido Cedil completamente, ele tão menino e já sofrendo longe no mundo. Acho que tem certas coisas que a gente não deve esquecer, é como uma obrigação. Se depender de mim, nunca eu hei de esquecer a Ilha dos Gatos Pingados.

José J. Veiga, "Os cavalinhos de Platiplanto"

quarta-feira, junho 14

Perdido no templo

 


O desaparecido

Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.
Rubem Braga, "A Traição das Elegantes"

Ler na cama

Pergunta-se muito às pessoas “qual é o seu livro de cabeceira”, supondo com isto que cada pessoa mantém um livro junto à cama para se aconselhar naquele aconchego de pré-dormida, ou durante as horas de insônia.

Livro de cabeceira implica livro favorito, livro companheiro-de-todas-as-horas, mas que, como qualquer companhia de todas as horas, ganha uma importância especial nas horas em que tudo está bem, tudo está em paz, a família ressona, a cidade descansa, as contas estão pagas, “governo e oposição estão sem assunto” (como dizia Guilherme de Figueiredo), o mundo inteiro está adormecido... e para acontecer o “plin!” da perfeição a gente precisa apenas estender o braço, e apanhar o Livro de Cabeceira. Qual é o seu?


Eu não tenho, ou melhor, tenho junto da minha cama um movelzinho de madeira com duas fileiras de volumes. A última vez que contei, eram vinte e sete.

Ali tem principalmente livros recentes que ainda estão sendo examinados pra ver se dão um caldo, livros de amigos, livros divididos em unidades menores (poesia, contos, artigos, variedades, fragmentos) que vou lendo ao ritmo de uma unidade por semana.

Não existe O Livro Especial, e muitos que ali estão são livros de releitura, volumes de contos ou de poemas que já li dez vezes, mas a última delas foi quinze anos atrás. Em verdade vos digo: a gente só pode dizer que conhece um livro quando o lê pelo menos duas vezes.

O “pobrema” de ler na cama não é mental nem bibliográfico, é físico. Primeiro, a posição. Tudo que a Inquisição Espanhola vem fazendo à minha coluna nos últimos vinte anos não se deve às minhas piadinhas de herege, e sim ao costume de ler deitado.

Os médicos já insistiram: “Ponha travesseiros, sente em forma de L (tronco ereto, pernas esticadas). Não leia na horizontal com os travesseiros forçando seu pescoço para cima”. Disseram, mas não adiantou, foi como se eu telegrafasse hoje para John Lennon pedindo-lhe que não desse autógrafo a ninguém quando chegasse em casa tarde da noite.

E aqui pra nós, é uma coisa fisicamente absurda o camarada pretender ler deitado, com os dois braços tendo que manter o livro erguido no ar, com a luz do teto incidindo nos olhos e a página sendo mantida na sombra. Em casa a gente se vira, mas 99% dos hotéis brasileiros tratam seus hóspedes como indivíduos avessos à leitura: não há um mísero quebra-luz pra clarear o livro.

Sem contar o maior problema de todos, resumido por Millôr Fernandes num versinho que trago decorado desde a infância:

Ler na cama
é uma difícil operação.
Me viro e me reviro
e não encontro posição.
Mas, se afinal encontro um cômodo abandono...
pego no sono.

Lições

Estava sob uma pilha de livros, embrulhada em panos de cortina carcomidos de traças, enfiada entre camadas de papelão. Ele a mantivera escondida durante toda a guerra. Era a primeira edição do Blaue Reiter Almanac, publicado em 1912, uma espécie de manifesto do grupo de artistas expressionistas de Munique e região nos poucos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Foram declarados “degenerados” pelo Partido Nacional-Socialista e seus quadros foram confiscados, vendidos, destruídos ou ocultados.

Ian McEwan, "Lições"

Mandioca de feitiço

Para Miguel Torga
Faustio e Firmo, personagens saídos dos "Contos da Montanha", foram por artes mágicas parar a Angola, na década de quarenta. Por artes de magia ou da literatura, o que vai dar tudo no mesmo, pois se sabe que a palavra leva consigo muitos feitiços.

Quanto a Firmo, andarilho compulsivo, não seria de admirar, embora o seu terreno de eleição fosse o Brasil, a Argentina e outras vizinhanças da América hispânica. Todos sabiam, sobretudo na sua aldeia de Vilarinho, que ele desconseguia de ficar parado muito tempo e o mundo o atraia como música de sereia. Por uma única vez trocou de lado no Atlântico e foi encalhar em Luanda. Anos depois de se ter deliciado com a terra e as gentes, reconheceu o patrício Faustino, acabadinho de chegar de Abaças, uma aldeia vizinha nas fragas de Trás-os-Montes. A principio manteve certas reservas, pois sobre Faustino corriam estórias não muito abonatórias de furtos menores praticados nas redondezas das suas aldeias. Já quanto a Faustino, poderia causar alguma estranheza tão comprido percurso para fugir ao destino. Mas nem tanto assim, se pensarmos na miséria em que vivia na montanha, condenado a roubar ninhos de passarinhos, pois pouco mais havia de que suas mãos ávidas e ágeis se pudessem locupletar. A decisão de Faustino veio depois da terrível aventura de, numa noite de tempestade, ter assaltado a desvalida capela da Senhora da Saúde, de onde só retirou uma broncopneumonia que o ia levando desta para melhor. Disse para a mulher quando estava mais recomposto, aqui não fico, é uma vergonha termos uma capela onde nada há para nosso orgulho, apenas uma caixa de esmolas permanentemente vazia e nem um cruci-fixo de prata ou um cálice, nada de jeito, assim também é demais, vou masé roubar para outras freguesias. Um parente afastado mandou-lhe uma providencial carta de chamada e lá embarcou para Luanda na terceira classe do paquete «S. Tomé».

Firmo e Faustino costumavam se encontrar na Pensão Flaviense, para beber um copo e matar saudades da terra. Sobretudo para compararem Vilarinho e Abaças, chegando sempre ao consenso de que se igualavam na miséria e na falta de perspectivas. No entanto, Firmo já morria de saudades e mostrava muita inquietação com a sua permanência parada em Luanda, embora tivesse um bom emprego, do qual ia amealhando uma razoável maquia. Na altura em que Faustino lhe confidenciou que tinha finalmente arranjado trabalho numa roça de café no Uíje, onde certamente ia enriquecer pois o café era o futuro, Firmo revelou que comprara passagem num barco zarpando daí a dias, voltando à terra por tempo incerto mas o suficiente para fazer mais um filho na mulher. Deixava em Luanda os dois mulatitos que entretanto gerara na Rosa, sua lavadeira. Estes dois filhos de Firmo cresceriam nas ruas, um pouco ao abandono, embora tivessem todo o carinho da mãe, que os criou sozinha e sem nunca mais rever o transmontano. Cresceram revoltados contra a sua condição de filhos de pai incógnito, como era de esperar, e foram um dia engrossar o exército que libertaria o pais.

Quanto a Faustino, a estória foi outra.

Partiu para o Uíje, terra de montanhas também, mas sendo as urzes substituídas por densas florestas, onde, na sombra das grandes árvores, crescia o arbusto do café, riqueza para uns poucos colonos, maldição escrava para muitos. Começou como capataz na roça, mas em breve ficou uma espécie de gerente, pois o anterior foi evacuado para Luanda por causa de um paludismo fulminante e o patrão não tinha mais ninguém em quem confiar. Confiar no Faustino? O problema foi mesmo esse. O homem não podia ver dinheiro à sua frente. Aprendeu rapidamente o que tinha a fazer e era suficientemente activo para contentar o patrão, também ele um pouco desleixado, mais preocupado emir jogar às cartas na cidade do que em permanecer na roça para controlar as coisas. E o Faustino acabou por ter acesso ao dinheiro das compras de comida para os trabalhadores ou para material urgente. E foi desviando umas migalhas. Temos de compreender, era demais para quem tinha sempre convivido com a fome mais absoluta e sem saber o que lhe iria acontecer no dia seguinte. Foi escondendo aqueles trocados na mala de folha que tinha trazido da Metrópole, era o seu seguro de vida, a sua pensão reforma.

Faustino ainda não tinha aprendido com os outros colonos que em Portugal se habituavam a só ter gente acima deles e, de repente, caídos em África, descobriam ter muita gente abaixo deles afinal. E exerciam até à exaustão sobre esses deserdados da vida o pequenino poder com que de repente se maravilhavam. Faustino só tivera tempo de aprender as tarefas exigidas no serviço e a guardar de lado alguma pequena fortuna para o que desse e viesse. Por isso ainda tratava os trabalhadores da roça como seres humanos. E arranjou uma relação mais chegada, senão amizade, com o ajudante do cozinheiro da casa grande, um jovem esperto que se chamava Ndozi.

Estava a sua vida correndo pelo melhor, apesar do calor a que não estava habituado e dos mosquitos que lhe furavam a pele. Mas num repente lhe desabou o mundo em cima da cabeça. Falta de habilidade nas contas, demasiada confiança, não sabemos ao certo qual o erro, mas o facto é que o patrão foi alertado pelo Costa, seu ajudante na contabilidade e secretaria, da provável existência de algum desvio nos dinheiros destinados à comida dos trabalhadores. Investigaram os dois, no segredo que deve envolver essas coisas, até chegarem ao Faustino. E daí até à mala de folha, onde estava uma quantia que ultrapassava os salários entretanto recebidos pelo capataz-quase-gerente. Patrão e Costa a revistarem a mala e o Ndozi a avisar o Faustino, é melhor fugir, ouvi tudo, o patrão vai chamar a polícia da cidade.

Faustino nem teve muito tempo para pensar, ainda por cima com Ndozi a pressionar, é melhor fugir, é melhor fugir. De facto, nunca se tinha confrontado com a polícia. Os peque-nos delitos em Portugal foram resolvidos entre as suas mãos e a sua consciência, com a excepção da tentativa na capela da Senhora da Saúde, que dessa vez se resolveu entre o seu corpo e os poderes da santa, que lhe pregaram aquela valente broncopneumonia para não mais esquecer. Mas tinha sempre ficado longe da polícia. Por isso o terror de Ndozi, que esse apesar da juventude sabia bem como era brutal a polícia colonial, encontrou terreno fértil no seu temor. E também devemos referir que Faustino tinha uma ponta de vergonha em relação ao patrão, que nele confiara. Mas fugir para onde? Para o mato, claro, onde havia de ser, lhe explicou Ndozi, todo nervoso, como se de liberdade própria se tratasse. Faustino se viu naquele mato do Uíje, florestas atrás de florestas, refúgio de todas as cobras, desde a terrível surucucu à pequena mas fulminante buta, cuja picada matava num minuto. Os trabalhadores do café já lhe tinham mostrado cotos decepados, pois quando na colheita a buta, escondida entre as folhas e parecendo um raminho seco vulgar, mordia a mão que procurava os bagos da fortuna, o homem só tinha tempo de cortar o braço com a catana mais próxima, antes que o veneno começasse a circular no sangue e paralisasse o coração. Hesitava no seu medo e Ndozi teve de o empurrar para o mato, o esconder numa casota abandonada ainda dentro dos limites da roça, fique aqui por um tempo, que eu vou à casa grande falar com o patrão, arranjar uma desculpa para ficar uns dias fora, depois levo-o para algum lado. Faustino nem teve acesso ao seu quarto, ficou assim sem o dinheiro, a mala e toda a roupa. Horas depois veio Ndozi explicar que o patrão lhe tinha concedido três dias para visitar os parentes. Para isso lhe contou que acabava de receber a notícia da morte de um tio e tinha de ir assistir ao óbito. Relatou ainda Ndozi que a polícia tinha chegado à roça para constatar o roubo mas sobretudo o desaparecimento do Faustino, prova mais do que suficiente da sua culpabilidade. Teria pois de ir para outra província, que certa¬mente as buscas se limitariam à cidade, não chegariam ao Kuanza-Norte ou ao Zaire, províncias vizinhas. Leva-me então até lá, não importa qual, olha, a que ficar mais perto de Luanda, a qual era o Kuanza-Norte mas Ndozi não o levaria até lá, apenas até uma estrada onde ele pudesse apanhar uma boleia de algum camião.

Assim combinados, meteram pelo mato e se afastaram da roça, evitando os caminhos e sobretudo as picadas. Levavam apenas uma cabaça cheia de água, que o rapaz trouxera da roça. Segundo este, bastaria dormirem uma noite na caminhada, pois no dia seguinte já Faustino poderia apanhar alguma boleia, quem ia negar levar um branco em estado de necessidade? E como mandava a tradição, até teria direito a ir na cabina, que a carroçaria e a poeira eram destinadas aos negros. Ndozi voltaria logo para a roça, que não lhe convinha ter três dias descontados no ordenado, se o pudesse evitar.

À tarde a fome apertava, porém. Tinham saído cedo da roça, só com algum café tomado. E Faustino não parava de se lamentar, agora que comia três refeições por dia, uma delas sempre de carne, do que nos seus tempos de Portugal nem o cheiro lhe chegava, é que tinha tido o azar de ser apanhado com a massa na mala. Gomo podia o desgraçado do Costa ter descoberto tudo, eram quantias insignificantes de cada vez, mas todos os dias, ou quase todos, é certo, esse Gosta era um coca-bichinhos, umas míseras diferenças lhe chamaram a atenção, estupor. E antes que fosse ele o acusado, tratou de o acusar, só podia ser isso. O Ndozi tinha razão, o patrão ia deixar o caso por ali, nem se ia queixar para Luanda, e ele podia ir viver para outra terra. O problema seria arranjar um emprego tão bom e num sitio tão bonito como é uma montanha de café, com os nevoeiros matinais que são afastados pelo Sol nascente, espalhando luz pelos verdes de todas as cores.

Andaram pelo mato até ao fim da tarde e nessa altura meteram por um caminho que os conduziu a umas lavras de mandioca. Havia aldeia por perto. Ndozi não queria arriscar, pois o branco ia embora, mas ele ficava. Podia acontecer por um azar que algum dos habitantes da aldeia mais tarde soubesse do desaparecimento do Faustino e ligasse os factos. Se fosse contar ao patrão que Ndozi servira de guia, ainda acabava por ser acusado de cúmplice, quando só fazia isto por pena de alguém que sempre o tratara bem, caso raro com os brancos. Tinha pois de evitar ser visto com Faustino. E só havia uma alternativa, dormir com fome.

Mas o outro reconheceu as lavras de mandioca e a barriga roncou mais alto. — Essa mandioca é da que se come?

De facto era a qualidade que não tem veneno e por isso não precisa de ficar em água durante uns dias. Podia ser imediata¬mente consumida e assim Ndozi explicou. Mas logo a seguir apontou para os fiapos de pano vermelho que estavam amarrados nalgumas hastes.

— Tem feitiço. Quem come morre.

E afastou Faustino da lavra, avançando de novo para o mato. Parou pouco depois para descansar.

— É melhor dormirmos aqui. De manhã lhe levo até à estrada, já não fica longe.

E sentou no chão, encostado a um tronco de árvore, descansando. Faustino, apesar de muito fatigado, permaneceu de pé, olhando para o caminho que tinham abandonado. Não conseguia despegar a vista dos troncos finos mas convidativos das mandioqueiras jovens. E a barriga roncava, roncava, mal habituada já àquelas fomes que noutros tempos eram a normalidade. Num repente pegou no facão que levava à cintura e investiu contra a lavra.

— Não faz isso, só Faustino, não faz isso.

Inútil gritar, inútil correr atrás dele, inútil demovê-lo. O português foi mesmo ao primeiro pé de mandioca, com o facão removeu o chão e desenterrou um tubérculo grosso como um braço. Desenterrou outro e voltou para onde estava Ndozi.

— Tens a certeza que esta mandioca não tem veneno?

— Não tem. Mas tem feitiço. E pior.

— Deixa-te disso.

— Esses panos vermelhos que se amarram em cima é para avisar. Essa lavra foi enfeitiçada. Só os donos podem tirar.

— Essas crenças são pagãs, nem devias dizer isso. É pecado.

Ndozi recusou o tubérculo que Faustino lhe estendeu. Este começou a descascar o seu, sentado agora junto de outra árvore.

— Não és católico, ó Ndozi? Não costumas ir à missa?

— Às vezes.

— Então como acreditas nestes feitiços? Disparate.

E meteu à boca um pedaço cortado da mandioca. Doce, suculento, uma delícia para a sua fome.

— Hum, maravilha.

Derrotou o tubérculo inteiro e descascou o outro. Ndozi só olhava, enquanto escurecia à volta deles. Para se entreter, o angolano juntou paus secos que havia à profusão ali perto e fez uma fogueira. Não estava frio, mas era mais aconchegante. E afastava os bichos. Faustino entretanto tinha comido a outra mandioca e bebido água da que Ndozi trouxera da casa grande. A fome tinha passado, se deitou perto da fogueira o mais comodamente que pôde.

A meio da noite, Ndozi foi acordado pelos gemidos do companheiro. Porra, porra, que dores. Faustino se agarrava à barriga, porra, que dores. Tinha vómitos, mas só ar saia. Bem que se torcia, e vomitava, nem saia nada, nem a dor passava.

— Faz alguma coisa, porra, pá.

— Fazer o quê? — disse Ndozi. — Não há nada a fazer. É o feitiço.

— Só a Senhora da Saúde me pode valer, ela é muito mais forte que qualquer feitiço — ainda disse Faustino no meio dos gemi¬dos. — Ai valei-me, Senhora da Saúde.

Não lhe valeu. Ndozi ficou ao lado dele, assistindo impotente e pesaroso à agonia. De manhã, usou o facão de Faustino para cavar uma sepultura no meio do mato. E lá ficou para sempre o ladrão de Abaças. No mais completo segredo.

Pepetela, "Para Miguel Torga"