Da série
"Quase Nada", de Gabriel Bá e Fábio Moon, na "Folha de
S.Paulo
domingo, agosto 10
O medo de não ter o que ler
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Dormindo com os livros, ilustração de David de Ramón |
"Não sei como se chamaria o
medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares
fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e
as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e
até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por
exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome
tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania,
uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra
serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se
as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha
sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista
telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens,
seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e
lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os
americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação,
embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A
Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes
personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, –
e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico
dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que
seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina…
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem… Tem uma carta da mamãe.
– Manda!"
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina…
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem… Tem uma carta da mamãe.
– Manda!"
(Luis Fernando Verissimo, Banquete com os deuses: cinema, literatura, música e
outras artes)
sábado, agosto 9
Ambiente ajuda
Papiroflexia
Curta
da espanhola Beatriz Alonso Aranzábal. Os textos lidos são de Clarice Lispector
e a música, de Sergio Makaroff
Os velhos retalhos
Curiosidade não mata, mas movimenta o mundo. Não são
curiosos apenas as crianças ou as mulheres. Um ser curioso, o homem. Talvez
seja sua força motriz. Por futucar tudo, acabou criando das utilidades às
parafernálias. Hoje o mundo é dele e só por enquanto gira em torno do sol; até
que esse grande curioso não invente uma outra órbita para a Terra. Não seria,
portanto, estranho a curiosidade também habitar o sebo.
O livreiro guarda a mesma ansiedade da criança diante dos
pacotes. Quando chegam novos livros, há sempre algo diferente. Por mais
acostumado a desmanchar amarrados, persiste a esperança da novidade. Um livro
nunca visto, talvez um autor desconhecido se revele. Nem faltam as decepções
com o estrago em algumas obras. E ao menos aqui, no Brasil, a destruição é
muita tanto pelo tempo, que maltrata os volumes, como as traças e o próprio
homem, o maior admirador e ao mesmo tempo o grande desleixado com as
obras.
Bicho curioso, ainda assim, vai o homem descobrindo
novidades nos montes de livro. Quanta criatividade se mostra nas prateleiras
para atender aos múltiplos desejos dos leitores desde a edição rara a um volume
simples que caiba no bolso, mas editado com esmero.
Lojas de surpresas constantes, o sebo tem o atrativo de
atender perfeitamente a esses leitores que carregam em si aquela criança a se
divertir na leitura de um livro. Há leitor que não sai da loja sem visitar as
prateleiras dos livros infantis à procura de seus “retalhos de infância”.
quinta-feira, agosto 7
Assim começa o livro...
Mar morto
A noite se antecipou. Os homens ainda não esperavam quando
ela desabou sobre a cidade em nuvens carregadas. Ainda não estavam acesas as
luzes do cais, no Farol das Estrelas não brilhavam ainda as lâmpadas pobres que
iluminavam os copos de cachaça, muitos saveiros ainda cortavam as águas do mar
quando o vento trouxe a noite de nuvens pretas.
Os homens se olharam e como que se interrogava. Fitavam o
azul do oceano a perguntar de onde vinha aquela noite adiantada no tempo. Não
era a hora ainda. No entanto, ela vinha carregada de nuvens, precedida do vento
frio do crepúsculos, embaciando o sol, como num milagre terrível.
A noite veio, nesse dia, sem música que a saudasse. Não
ecoara pela cidade a voz clara dos sinos do fim da tarde. Nenhum negro
aparecera ainda de violão na areia do cais. Nenhuma harmônica saudava a noite
da proa de um saveiro. Não rolara sequer pelas ladeiras o baticum monótono dos
candomblés e macumbas. Por que então a noite já chegara sem esperar a música,
sem esperar o aviso dos sinos, a cadência das violas e harmônicas, o misterioso
bater dos instrumentos religiosos? Por que viera assim antes da hora, fora do
tempo?
Detetive continua em domínio público
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| Personagem tem estátuas por todo lado como esta na Suíça |
A história de Sherlock Holmes permanecerá em domínio
público, apesar das tentativas de manter os diretos autorais sobra a obra,
levadas à justiça pelos administradores do espólio do escritor Sir Arthur Conan
Doyle (1859-1930). A corte americana decidiu esta semana em favor de um editor
que brigava na justiça pela publicação da história do famoso detetive
britânico, criado por Doyle no final do século XIX. A disputa entre o editor
Leslie Klinger e os atuais administradores da herança de Doyle teve início no
ano passado. Na ocasião, os herdeiros exigiram que Klinger pagasse uma licença
para publicar uma nova antologia do detetive, o que levou o editor a abrir um
processo na justiça contra os gestores. No Brasil e no Reino Unido, o prazo
para uma obra entrar em domínio público é de 70 anos após a morte de seu autor,
o que significa que todos os livros de Conan Doyle podem ser reeditados e adaptados
livremente nos dois países.
quarta-feira, agosto 6
Dylan Thomas, lenda e excesso
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| Local de trabalho do poeta em casa |
Quando se completa o centenário de nascimento, a casa natal
do grande escritor galês Dylan Marlais Thomas, em Cwmdonkin Drive, reabre suas
portas para reivindicar a figura e a obra de um dos grandes nomes da literatura
inglesa, morto aos 39 anos.
Aqui escreveu Dylan a maior parte de sua produção lírica e
não há mais do que chegar às janelas para se encontrar suas referências,
certifica Matthew Hughes, de 30 anos, sentado no aposento menor da casa, o
quartinho onde se forjou o poeta.
84 Charing Cross Road
Filme
virou um cult em 1988, no Brasil, com Anthony Hopkins (o livreiro inglês Frank Doel)
e Anne Bancroft (a própria autora Helene Hanff)
“É a loja antiga mais encantadora que existe, saiu direto de Dickens, diante dela você iria perder completamente o juízo.
Tem umas bancas do lado de fora: parei e fiquei folheando isso e aquilo, só para estabelecer a imagem de rato de livrarias antes de vagar pelo seu interior. Quando você entra, encontra-se numa penumbra, sente o cheiro da loja antes de vê-la, e é um cheiro delicioso. Não posso descrever com facilidade, mas é um cheiro onde se misturam mofo, poeira, o tempo acumulado, paredes de madeira e assoalhos de madeira. Lá para o fundo da loja, à esquerda, ergue-se uma escrivaninha com uma lâmpada de trabalho; estava sentado um homem de uns cinquenta anos, com um nariz de figura de Hogarth. Levantou os olhos, disse “Boa tarde” com sotaque da Região Norte, falei que só queria espiar os livros, e ele me solicitou que por fazer o fizesse.
As prateleiras não acabam nunca. Chegam até o teto, são muito antigas e com um tom cinzento, assim como um velho carvalho que, através dos anos, absorveu tanta poeira que não tem mais a cor original. Há uma seção de gravuras, ou melhor uma comprida mesa cheia de gravuras, com Cruikshank, Rackham, Spy, todos esses maravilhosos caricaturistas e ilustradores ingleses, os quais não conheço tanto como deveria, se fosse mais sabida, além de velhas revistas ilustradas, muito simpáticas.
(Trecho de “Nunca te vi... sempre te amei” (84 Charing Cross Road ) de Helene Hanff)
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| A verdadeira Marks&Co em Londres |
terça-feira, agosto 5
Por que lemos, segundo Miller
O
norte-americano Henry Miller (1891-1980) no monólogo "Ler no
banheiro", com muita ironia, dá algumas pistas sobre por que lemos.
1. Para
fugir de nós mesmos
2. Para nos
armar contra perigos reais e imaginários
3. Para
ficar no mesmo nível dos vizinhos ou impressionar a eles
4. Para saber
por que está passando o mundo
5. Para
passar bem e conseguir um estímulo que nos permita uma atividade maior e mais
elevada, ou uma existência mais rica
Projeto no Acre sofre com falta de devolução
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| Usuários esvaziam estantes e não devolvem livros |
Com o lema "retire, leia
e devolva", o projeto Integrando a Leitura pretende disponibilizar obras
literárias nos terminais rodoviários de Rio Branco, no Acre, de forma
gratuita e sem ficha de controle, para popularizar a leitura entre os usuários
de transporte coletivo durante o deslocamento. Porém, após quatro meses desde a
criação do projeto, os responsáveis perceberam que cerca de 80% dos livros não
estão retornando para os pontos de leitura.
A equipe responsável pelo
projeto repõe os livros semanalmente, de
forma que cada ponto de acolhimento possa ter 100 exemplares disponíveis para
leitura. No projeto, o leitor pode retirar o livro e devolver no ponto de
acolhimento de origem ou no próximo que visitar.
segunda-feira, agosto 4
Livreiro no cinema
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| Woody Allen interpreta livreiro ao lado de Turtutto |
Borges descansa ao lado de escritora e prostituta
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| Lápide em escandinavo antigo no túmulo de Borges |
O escritor Jorge Luis Borges morreu na Suíça em 1986 e foi
enterrado em Genebra. Grisélidis Réal, nascida em Lausanne, passou sua infância
em Alexandria, estudou arte em Zurique e no apogeu da Guerra Fria se
transformou na prostituta mais famosa de Genebra e Munique.
Os mistérios do túmulo de Jorge Luis Borges não estão apenas
na lápide de pedra branca com frases em inglês e em escandinavo antigo. O
genial escritor argentino morreu em Genebra em 1986 e foi enterrado sob uma
árvore, chamada if, que floresce nos anos ímpares.
A lápide com suas inscrições, para muitos indecifráveis, foi
uma homenagem de sua viúva, María Kodama. Mas, quase ao lado do túmulo de
Borges, há outra que a sombra da árvore if também chega a proteger. A poucos
passos e cercada por uma minúscula cerca de madeira jaz Grisélidis Réal. Uma
simples placa metálica parece dizer tudo: “Écrivain-Peintre-Prostituée,
1929-2005” (escritora, pintora, prostituta).
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