domingo, maio 3

Florescer

Marta García Pérez

A dama de branco

Temos a sorte dos apartamentos em nosso edifício serem providos de sacadas. Embora pequenas, as sacadas são uma abertura para o universo. Agora, com a diminuição do monóxido de carbono na atmosfera, com muito menos carros circulando no Rio, várias estrelas se tornaram visíveis. Estou pensando em comprar um telescópio pela internet. Enquanto isso, contemplo o céu a olho nu mesmo. Me embriaga não passar de um ser ínfimo no cosmos.

Mas o que me leva a vir para a sacada de madrugada, mais do que as estrelas, é contemplar a dama de branco, que circula pelo estacionamento a céu aberto do edifício, sempre às três da manhã. Todos estão dormindo e fico contente com isso, pois, com ninguém mais a contemplá-la, é como se a dama de branco me pertencesse exclusivamente.

 Andrei Andreevich Mylnikov
Entendi por que ela sempre vem a essa hora. É porque não há ninguém a importuná-la, reclamar que ela não está usando máscara, como se tornou obrigatório fora de casa. Imagino ver as suas feições, reparar como é bonita. Uma beleza singular, que não consigo descrever. É compreensível que ela queira caminhar a céu aberto, e ao mesmo tempo protegida pelos porteiros, que permanecem em seus abrigos nos portões do condomínio. As ruas de noite são sempre perigosas e confrangeria meu coração se algum mal acontecesse com a dama de branco.

Com minha imaginação solta, penso na dama de branco como uma sílfide, que parece levitar acima do solo, com o seu vestido comprido, esvoaçante. Penso nela como uma mulher pura, inclusive porque nestes tempos de isolamento até os namorados não dormem mais juntos, nem se encontram. Não consigo imaginá-la na cama com homens, esses seres brutos. Com outra mulher, talvez, mas agora deve dormir sozinha, quero crer.

Para mim ela está em outra dimensão. Não tenho propriamente uma religião, mas como guardo dois bons livros de astronomia, que volta e meia releio, penso na grandeza para mim incalculável do universo. Trilhões de astros, bilhões de anos-luz. Mas penso que, se houver um Deus, Ele não é bom, como dizem, mas indiferente à sorte humana, isso se houver um pensamento de Deus.

No entanto, como imaginá-Lo? Não deixo de usar para Ele as maiúsculas de praxe. Cheguei a refletir, sem nenhuma certeza, só dúvidas, se por acaso Ele ainda não estará sendo criado, muito aos poucos, pela mente humana?

Mas o nada também não me angustia. Penso nele como uma espécie de barato como o produzido pelo ópio, que experimentei duas vezes na Meca que é Nova York, onde, com as informações certas, pode se experimentar um pouco de tudo. Mas para conseguir o ópio tinha de digitar uma senha no celular, ora vejam só. Nem sei o que aconteceria comigo se continuasse naquela cidade. Experimentava a droga com uma mulher que eu não amava nem desejava, como ela também não a mim, mas, depois que eu a pagava, gostava de se deitar comigo, drogada, ambos silenciosos.

Não consigo deixar de pensar na dama de branco deitada comigo, quem sabe nua, com seu corpo esguio, mas isso me parece um sacrilégio. A dama vem à minha mente como uma pessoa solitária como eu, não imaginando que a possam observar em sua caminhada, nesta hora tão deserta. Nem transaríamos, pois já estou com setenta e nove anos.

Crio para a dama de branco uma história. Ela me conta sobre sua infância. De como gostava de passear em sua rua de Botafogo de mãos dadas com uma amiga muito especial. De como ela amava essa amiga que morreu muito jovem, de uma doença misteriosa. Mas antes teve tempo de falar que a esperaria. Não foi egoísta a ponto de pedir que a dama de branco também a esperasse ou partisse logo para se juntar a ela. Então a dama de branco teria experimentado várias relações, sempre com um sentido de incompletude, até que chegou este tempo da peste e ela está em isolamento como eu. Às vezes, penso que a dama de branco é a própria morte. Sei que isso é um modo de prendê-la e logo me penitencio e sei que em outro momento pensarei outra coisa. A morte não passa de uma obsessão minha.

Pelo menos é isso que imagino neste momento. Noutra hora posso pensar que ela fora casada com um pianista, um jovem amável e sensível. Depois apago, por ciúmes, esse pianista. Então é ela a pianista e eu a escuto embevecido. Não, sou eu o pianista e toco para ela. Tento compor no pensamento uma melodia, mas logo me vem à cabeça as Gnossiennes, de Satie, que eu escutava compulsivamente na sala, antes de vir para a varanda para acompanhar a dama de branco indo e voltando na área do estacionamento, com a leveza de uma bailarina. Será ela uma bailarina? Satie anotou que as Gnossiennes deviam ser tocadas com convicção e uma tristeza rigorosa. Eu tenho essa tristeza rigorosa, que me faz feliz. Os títulos de Satie são tão interessantes quanto suas obras: Três peças em forma de pera, Prelúdios flácidos, Desespero agradável.

Satie compondo em seu confinamento, só saindo, sempre de terno negro, para encontrar seus amigos dadaístas. Como eu gostaria de estar entre eles. Não, quero viver este momento mesmo. Quero ser eu próprio. Mas quem sabe a dama de branco tocando as Gnossiennes para mim a seus pés? Satie e eu amamos essa tristeza lírica. E a dama de branco, será? Não, penso mesmo que ela é etérea, a caminhar quase sem tocar o solo. Será que não pressente o meu olhar? Poderá ela me amar como eu a amo?

Satie fundou uma religião denominada “Igreja Metropolitana da Arte de Jesus Condutor” e excomungava quem não aderisse a ela. Eu adiro a ela e quem sabe poderia me casar com a dama de branco segundo os seus rituais, ao som da Gnossienne 1. Eu teria prazer em cozinhar para ela, ser seu escravo. Não, não, porque aí haveria os perigos inerentes ao hábito. Prefiro vê-la como que levitando lá embaixo.

Ah, mas como eu gostaria de deitar com a dama de branco numa cama, consumindo ópio. Como não tenho ópio, vai este baseado mesmo. Seria como se nos beijássemos, misturando nossas salivas em sua seda.
Sérgio Sant’Anna

sábado, maio 2

Leitor surreal

Michael Sowa

Quase crônica de amor

Emil Rau
Casou-se com a moça que ensinava Canto no educandário feminino. Tinha muita crença em Deus, fazia parte do coro na Catedral de São José, era filha de Maria. Pianista admirada, compôs o hino da cidade, além disso escreveu a letra. Havia fundado a escola de música “Som do Sol” para meninos e jovens carentes, necessitados de desenvolverem seu pendor para a vida tocada por sons e pelas cordas. Marília havia sido a sua primeira namorada quando cursava o segundo ano no ginásio local. E ele havia sido também o primeiro namorado dela.

Uma moça recatada, filha do maestro da Filarmônica da Euterpe e da diretora do educandário feminino. No seu retorno à terra natal, encontrou-se com Marília no salão nobre da sede da Prefeitura Municipal. A cidade comemorava mais um ano de emancipação política. À noite dançou a valsa na festa que o clube social dava para homenagear o aniversário da cidade. Reataram o sentimento de amor que ficara adormecido no tempo, desde que tiveram o primeiro namoro naqueles idos adolescentes, quando eram estudantes do ginásio local.

Havia três anos que vinha exercendo a profissão de advogado com zelo e dedicação na sua terra natal. Pensou que já era hora de se casar e constituir uma família. Marília foi a moça eleita para assumir a condição de esposa, tornar-se mãe de seus filhos. Não entendia como uma moça da beleza dela, de boas maneiras, recatada, comportamento irretocável, não tinha encontrado um parceiro ideal para levá-la ao altar e com a bênção de Deus fosse selada uma união definitiva.

– É verdade, Marília, que fui o seu primeiro namorado?

– O primeiro e único.

– Por que ficou tanto tempo sem namorar algum rapaz da cidade ou de fora?

– Isso não me incomodava.

– Creio que pretendente não faltou.

– Não, mas recusei as propostas, preferia esperar por você.

Assim era o destino que em certos momentos somente ele sabe como engendrar situações no curso do amor. Tantos anos em Salvador, estudando para se tornar um advogado e, quando pensou no último ano do curso que era chegado o momento de pensar em se casar com uma moça digna, não passou pela cabeça em se lembrar de Marília, a primeira namorada que teve na sua vida, filha da mesma cidade, como ele. Ela tinha sido apenas um breve momento de sua vida, como foi a primeira gravata usada no baile para comemorar a coroação da rainha da primavera no clube social, e que, pasmem os céus, a eleita entre os estudantes fora a adolescente Marilia, sua colega de turma.

Ah, a vida, a vida, ia passando com as suas pegadas ocultas na trama do amor. Ali estava na sua cidade a moça que esperava sem pressa para se casar com ele. Tudo estava marcado para acontecer porque assim é que devia ser.

Saudade (por pouco tempo)


Literatura e justiça

Franz von Defregger
Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria era “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, por mais que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para nada humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

sexta-feira, maio 1

Mês das flores


Namastê

Mar Azabal
Sinta o ar entrando mais frio pelas narinas, perceba o caminho que ele percorre descendo lentamente pela garganta até chegar aos pulmões.

Será que a minha coluna tá reta-reta, ou tá reta não-muito… ai, gente, isso dói, deixa reta não-muito, tá bom assim.

Imagine uma linha que vai do topo da cabeça até os ísquios. Alongue a coluna vertebral conforme a linha se estica, e sinta-se grande, cresça o máximo possível, e continue observando o caminho que o ar faz dentro do seu corpo…

Ísquio é bunda?

Deixe tudo o que aconteceu no passado e as preocupações futuras de lado, e esteja presente, seja o agora…

Certo. Estou aqui.

Agora, na expiração, a temperatura do ar é mais quente…

Gente, num é que é? E o que será que deu aquela ligação que a Lou recebeu? Falando nela, preciso ver o negócio da dermatologista, onde, ar nas canelas?

…subindo até os joelhos, coxas, relaxe completamente…

E o Brasil? Será que o povo já está finalmente se arrependendo? É burrice, maldade ou muito egoísmo? Estamos no umbigo? Eu nunca soube como…

…relaxe o peito, os pulmões…

Graças a Deus o dia tá acabando, ops,

…ombros, desça para os braços, antebraços…

Será que eu vou ficar na França pra sempre? Eu não deveria ter tomado o segundo café, mas agora nem isso pode, porra? Ai, sinto muito, não disse porra, senhora, estamos onde? Nas mãos. Perfeitamente, estou relaxando as mãos, o ar está quente nas mãos, tá tudo certinho, obrigada, eu me perdoo, eu te perdoo, eu nos abraço, tem aquela frase que tem que dizer pras coisas funcionarem, num tem? Esqueci a frase. As palavras “couro cabeludo” juntas me dá uma adormecidinha boa no cérebro, é tão gostosinho, será que é ok sentir o cérebro dar uma adormecidinha? Gente, esse negócio do terceiro olho, olha, me lembra sabe quem? Aquela menina, a cantora lá, nossa, minha memória tá horrível, é o consumo de queijo, será?… Daí se eu ler umas 10 páginas do livro por dia, eu consigo terminar até o dia 20, escrever o trabalho e entregar na data, a minha agendinha rosa nunca mais vi, nem minha meia rosa, é típico do meu gato, deve ter sido ele, mas se… a língua? Como relaxa a língua, moça? Acho que to mais com cara de vômito do que relaxando a língua, de toda a forma, amanhã eu preciso acordar às 8h em ponto pra dar certo todo o planejamento, e só de pensar nisso, olha, o coração já, opaaa, acordou, que loucura este período estranho, ontem sonhei que tirava um colar de pedras coloridas da minha orelha, e parece que tem explicação científica para sonhos estranhos durante a quarentena, foi o que ouvi dizer. Tem dias que eu queria me tatuar inteira, tenho inúmeras ideias, mas tem gente que não ia gostar nada disso, a começar pela minha mãe, mas minha pele é minha, mas a mãe também é, e agora? Será que todo mundo sente esse complexo de inferioridade, ou sou só eu? Às vezes eu tenho saudades, às vezes raiva, às vezes inveja, às vezes horror, e às vezes eu amo. Que coisa maluca o ser humano, né, só com muita meditação mesmo, eu hein, credo, namastê pra você também, senhora.

Meditar é tudo.
Drica Muscat

Mundo em casa


Mês de maio

Hoje é primeiro de maio, quer dizer que começa o mês das noivas, das flores e de Nossa Senhora.

Já foi também o mês dos trabalhadores, que justamente a primeiro de maio comemoravam o seu dia especial. Dia de recordação e reparação, aniversário do sacrifício dos mártires de Chicago.

Era dia em que se podia celebrar com entusiasmo e sem escrúpulos, antes que o fascismo, o estalinismo e o estado-novismo tomassem conta dele e o maculassem com o seu bafo demagógico. Pois aos poucos, a data quase sagrada dos trabalhadores, o dia dos socialistas de todo o mundo, se foi adulterando e corrompendo. Era no primeiro de maio que o louco da cruz gamada fazia as suas mais espetaculares exibições e que o histrião da praça Veneza assomava ao balcão venerável, soltando o verbo, mãos aos quadris, queixo para a frente. No primeiro de maio era que o falecido Stalin, na sua obra sistemática de traição às jornadas de outubro e bourrage de crânes do povo russo, organizava as suas brutais manifestações de força, os desfiles em massa ― soldados, atletas, polícia, aviões, tanques ― tudo que fosse forte, e ameaçador, e de guerra, para assustar inimigos internos e externos. E era ainda no primeiro de maio que encerrava a farsa do seu endeusamento pessoal; já que demitira o barbudo Deus dos popes, e havia lugar para outro deus, por que não preencher a vaga?

Aqui mesmo no Brasil, o 1º de maio não nos traz boas recordações. Tínhamos em certa época aqueles melancólicos e cômicos desfiles "da raça" ― Não, meu engano (feliz memória que tão cedo esquece!), meu engano: os "da raça" mal agouravam outra data, o nosso amado 7 de setembro. No 1º de maio o que havia eram as concentrações no estádio do Vasco (ainda não existia o Maracanã e o nosso heroico Vasco tinha então que servir); e a pelegada agitava faixas e pendões, e os trens circulavam grátis, e os trabalhadores arrebanhados para a "espontânea" tinham o dia de serviço pago, para ajudarem no vivório. Vivório esse que nem sempre havia e quando havia não era tão vibrante quanto o ampliavam os microfones oficiais.

Hoje tudo mudou, parece. E o imenso Maracanã fica mudo, pois tem medo que ele ecoe com o som errado, benza-o Deus.

E, assim, de tal modo comunistas e fascistas estragaram a data dos trabalhadores, que o melhor é que eles escolham outro dia, limpo de más lembranças. E volte o mês de maio às suas funções líricas de mês das flores e das noivas, de mês de Nossa Senhora.


Resuma-se às recordações que trazemos todos da infância ― quem não tem na sua saudade algum remoto mês de maio, com coroação e novenas ― um mês de maio como os recordo na Matriz da Conceição, em Guaramiranga? As moças vestidas de branco, o rosto corado do ar frio da serra, de pé ao alto do coro, respondendo à ladainha e cantando o Magnificat.

Mês de maio, mês da desobriga no sertão: já há milho e feijão novo, muito queijo, coalhada e doce de leite para oferecer a seu vigário que vem para fazer a festa. Mês dos casamentos ― tantos casamentos que são feitos por atacado: quinze, vinte pares alinhados em semicírculo em redor do altar, cada par com os seus dois casais de padrinhos atrás de si. E o padre diz a reza do casamento toda de uma vez só e faz a prédica de uma só vez também: contudo, na hora do "recebo a vós", pergunta de um se leva a gosto, e vai reunindo as mãos dos noivos entre as dobras da estola. E enquanto o primeiro é inquirido e abençoado, os outros pares suam, e se inquietam, e dançam ao aperto dos sapatos novos. Houve um ano em que se deu um caso de desmaio de noiva, e outro ano ainda pior: desistência de noivo, só por causa do nervoso, da tensão da demora: sendo o último da fila, o pobre teve mais de tempo de pensar, diziam os engraçados.

E depois que o vigário com um suspiro despede o último par, os sinos repicam e os cortejos se espalham, quem mora perto sai a pé, quem mora longe parte a cavalo, com sua dama na garupa.

Todavia, o pobre do padre nem aí tem descanso; porque depois começa a roda dos batizados ― que são o resultado dos casamentos do mês de maio do ano anterior.

quinta-feira, abril 30

Mantenha-se em forma

Andrea De Santis

Os irmãos

 Henri Lebasque 
À direita do velho Gabriel, com os olhares paralelos, presos em pontos abstractos e desfocados, estavam os irmãos. Os seu olhares eram iguais, mas não viam o mesmo. Eram o mesmo olhar a ver duas coisas. Durante os meses em que estava parado, era, os irmãos que tomavam conta do lagar. Sempre juntos, sempre um ao lado do outro, envelheceram ao mesmo tempo: tinham a mesma curva nas costas, o mesmo andar pouco ligeiro e, sem que o soubessem, o mesmo número exacto de cabelos brancos na cabeça. Já tinham passado muito mais de setenta anos da manhã de agosto em que, ao mesmo tempo, nasceram, rasgando a mãe por dentro à sua passagem. Contavam os mais velhos, que tinham ouvido dos seus pais, que, assim que lhes cortaram os cordões umbilicais, a mãe os olhou e viu ainda que eram siameses. Morreu alguns minutos depois, sem dizer uma palavra. O seu enterro foi seguido por toda a vila e sentido como uma tragédia entre as maiores. Todas as pessoas da vila davam os pêsames ao pai dos irmãos, pela esposa e pelos filhos, pois todos cuidaram que crianças assim não medravam. Mas, no momento em que a mãe era enterrada, os meninos dormiam sobre três cobertores dobrados, no quarto do pai, ao lado da cama onde a mãe se esvaíra em sangue. De pele muito enrugada, os meninos dormiam , com as mãos que tinham unidas levantadas sobre o lençol que os cobria, como num orgulho inocente de serem irmãos. E, sob o olhar preocupado das pessoas, cresceram como crescem as crianças. Com os anos, muitos lhes quiseram analisar as mãos e todos se arrepiavam com o que viam: a mão direita de um e a mão esquerda do outro estavam unidas pelo dedo mindinho. Tinham as mãos muito elegantes, finas, dedos longos, mas a partir da última norça do mindinho, os seus dedos fundiam-se e terminavam numa só unha. Todos os que viam isto inventavam maneiras de os separar, mas o mais insistente foi o homem de arrancar dentes com o alicate. Inflamado, dizia conhecer homens que tinham cortado muitas pernas e muitos braços na guerra, e que tinha lido muitos livros com desenhos mesmo, e que cortar um dedo a uma criança é mais fácil do que podar uma parreira. E o pai dos irmãos perguntou-lhe e como é que eu decido qual deles é que fica sem dedo? E o homem de arrancar dentes com um alicate, imediato, respondeu já tinha pensado nisso, o mais justo é cortar o dedo aos dois. O pai dos irmãos olhou-o por um instante e não voltou a falar com ele. 
José Luís Peixoto, "Nenhum olhar"

Leitura em segurança


Poirot e os quatro relógios (prólogo)

A tarde do dia 9 de Setembro foi exatamente igual a qualquer outra tarde. Nenhuma das pessoas que viriam a estar relacionadas com os acontecimentos desse dia poderia alegar que tivera uma premonição de tragédia. (Com excepção, evidentemente, de Mrs. Packer, de Wilbraham Crescent, 47, a qual era especializada em premonições e, depois, descreveu sempre, com grande minúcia de pormenores, os estranhos pressentimentos e as tremuras que tivera. Mas Mrs. Packer estava, no 47, tão distante do 19, e o que neste número se passou relacionou-se tão pouco com ela, que lhe pareceu absolutamente desnecessário ter uma premonição.)

No Gabinete de Secretariado e Dactilografia Cavendish, dirigido por Miss K. Martindale, no dia 9 de Setembro fora um dia igual a tantos outros, um dia rotineiro. O telefone tocara, as máquinas de escrever tinham matraqueado como de costume e o nível de trabalho fora médio, nem acima nem abaixo do habitual.

O gênero também fora o costumado, sem interesse especial. Até às duas e trinta e cinco da tarde, o dia 9 de Setembro não teve nada a distingui-lo de outro dia qualquer.

Às duas e trinta e cinco, a extensão de Miss Martindale deu sinal e Edna Brent, que trabalhava no escritório contíguo, atendeu-a com a voz ofegante e um nadinha nasalada do costume, enquanto empurrava um caramelo para um dos lados da boca.

- Que deseja, Miss Martindale?

- Já lhe disse que não deve falar assim quando atende o telefone, Edna! Pronuncie as palavras com clareza e domine a respiração.

- Desculpe, Miss Martindale.

- Já foi melhor. Se tentar, consegue. Mande-me a Sheila Webb.

- Ainda não voltou do almoço, Miss Martindale.

- Ah! - Miss Martindale viu que eram duas horas e trinta e seis minutos, o que significava que Sheila estava exatamente seis minutos atrasada. - Mande-ma assim que chegar - acrescentou, a pensar que, nos últimos tempos, Sheila Webb se desmazelava um pouco.

- Sim, Miss Martindale.

Edna passou de novo o caramelo para o meio da língua e, a chupar prazenteiramente, recomeçou a dactilografar o romance Amor Nu, de Armand Levine.

O erotismo forçado da obra deixava-a indiferente - como, aliás, à maioria dos leitores de Mr. Levine, não obstante os seus esforços. Armand Levine era uma prova convincente de que nada pode ser mais enfadonho do que a pornografia enfadonha. Apesar das capas sinistras e dos títulos provocantes, as suas vendas decresciam todos os anos e a última conta de serviços datilográficos já lhe fora apresentada três vezes, em vão.

A porta abriu-se e Sheila Webb entrou, um bocadinho ofegante.

- A Sandy Cat * chamou-te - informou Edna.

* Gata Loura. (N. da T.)

- Já é preciso ter azar! - exclamou Sheila, a fazer uma careta. - No único dia em que chego atrasada!

Passou a mão pelo cabelo, pegou num lápis e num livro de apontamentos e bateu à porta da directora.

Miss Martindale levantou a cabeça. Era uma mulher de quarenta e tal anos, que respirava actividade e eficiência e devia a alcunha de Sandy Cat ao seu cabelo ruivo-claro e ao seu nome próprio de Katherine.

- Chegou atrasada, Miss Webb.

- Peço desculpa, Miss Martindale. Houve um grande engarrafamento de trânsito...

- Há sempre um grande engarrafamento de trânsito a esta hora do dia.

Devia contar com isso e sair de casa mais cedo. - Consultou a sua agenda e prosseguiu: - Telefonou uma tal Miss Pebmarsh, que precisa de uma estenógrafa para as três horas e se mostrou particularmente interessada em que fosse você. Já trabalhou alguma vez para ela?

- Não me lembro, Miss Martindale. Pelo menos ultimamente, não trabalhei.

- A morada é Wilbraham Crescent, dezanove...

- Calou-se, com um ar interrogador, mas Sheila Webb abanou a cabeça.

- Não me lembro de lá ter ido.

Miss Martindale consultou o relógio.

- Três horas... Consegue lá chegar a tempo. Tem outros compromissos, para esta tarde? - Passou os olhos pela agenda, que tinha a seu lado. - Professor Purdy, Curlew Hotel, às cinco horas. Deve chegar antes disso, mas se não chegar mandarei a Janet.

Mandou-a embora, com um aceno de cabeça, e Sheila voltou para o escritório.

- Alguma coisa interessante, Sheila?

- Ora, mais um daqueles dias chatos... Uma velhota qualquer de Wilbraham Crescent e, às cinco horas, o professor Purdy... e todos aqueles horríveis nomes arqueológicos! Como desejaria que, de vez em quando, acontecesse alguma coisa emocionante, para variar!

A porta de Miss Martindale abriu-se e a diretora avisou:

- Esqueci-me de um pormenor, Sheila. Se Miss Pebmarsh não estiver, quando chegar, entre, pois a porta não estará fechada. Entre para a sala que fica à direita do vestíbulo e espere. Não se esquece ou prefere que escreva num papel?

- Não me esquecerei, Miss Martindale.

A diretora voltou para o seu santuário.

Edna Brent tirou debaixo da cadeira um sapato um bocado espampanante, cujo salto altíssimo e muito fino se despregara.

- Como diabo regressarei a casa? - perguntou, tristemente.

- Deixa-te de lamúrias, alguma coisa se há-de arranjar - respondeu-lhe uma das outras raparigas, quase sem deixar de martelar as teclas.

Edna suspirou e meteu na máquina uma nova folha de papel. 'O desejo dominava-o. Com dedos frenéticos rasgou o tecido finíssimo que lhe cobria os seios e empurrou-a para a sopa'...

- Bolas! - resmungou Edna, a procurar a borracha, ao ver que escrevera "a sopa" em vez de "o sofá".

Sheila pegou na malinha de mão e saiu.

Wilbraham Crescent era uma fantasia criada por um construtor de 1880, mais ou menos, e constava de uma meia-lua de duas fileiras de casas com os jardins de permeio, traseiras com traseiras. Este conceito arquitetónico causava constantes dificuldades às pessoas que não conheciam o lugar. As que chegavam ao lado exterior da meia-lua tinham dificuldade em encontrar os números mais baixos, e as que chegavam ao lado interior viam-se às aranhas para descobrir os mais altos.

As casas eram limpas, afetadas, com varandas artísticas e um ar muitíssimo respeitável. O modernismo mal lhes tocara ainda, pelo menos exteriormente. As cozinhas e as casas de banho tinham sido as primeiras divisões a sofrer as consequências das mudanças.

Não havia nada de especial no número 19. Tinha cortinas impecáveis e um puxador muito reluzente, na porta principal. De ambos os lados do caminho que conduzia à entrada erguiam-se roseiras.

Sheila Webb abriu a cancela, encaminhou-se para a porta principal e tocou à campainha. Aguardou um ou dois minutos e, como não lhe respondessem, obedeceu às instruções recebidas. Girou o puxador, a porta abriu-se e ela entrou. A porta do lado direito do vestíbulo estava entreaberta. Sheila bateu, aguardou um momento e entrou também.

Encontrou-se numa vulgar e aconchegada sala de estar, talvez um pouco atravancada para o gosto moderno. A única coisa extraordinária que lhe chamou a atenção foi a abundância de relógios: um relógio de pé, a um canto; um relógio de porcelana de Dresden, na chaminé; um relógio de prata, na secretária; um pequeno relógio dourado de fantasia, numa papeleira, e numa mesa, junto da janela, um velho relógio de viagem, com uma caixa de cabedal, desbotado e o nome ROSEMARY * em letras douradas e já um pouco apagadas, a um canto.

Sheila olhou, um pouco surpreendida, para o relógio da secretária, segundo o qual já passava das quatro e dez. Olhou para o da chaminé e verificou que se encontrava nas mesmas circunstâncias.

Estremeceu violentamente, ao ouvir um estalido, por cima da cabeça, e ao ver sair um cuco de um relógio de parede, de maneira esculpida. O passaroco anunciou, em tom audível e firme, quase ameaçador: cu, cu! cu, cu! cu, cu! Depois desapareceu e a portinha fechou-se.

Sheila Webb esboçou um sorriso e contornou a ponta do sofá. De repente, porém, estacou, petrificada.

Estiraçado no chão estava o corpo de um homem, de olhos semicerrados e sem vida e com uma mancha escura e úmida na frente do fato cinzento-escuro.

A jovem baixou-se, quase maquinalmente, e tocou-lhe na cara e numa das mãos. Estavam ambas frias. Depois tocou na mancha úmida e retirou bruscamente a mão, de olhos desorbitados de horror.

No mesmo instante ouviu abrir a cancela e olhou, quase sem dar por isso, para a janela. Uma figura de mulher subia o carreiro, apressada. Sheila engoliu a custo a saliva, pois tinha a garganta ressequida. Sentia-se pregada ao chão, incapaz de se mexer ou gritar, de olhos fixos em frente.

A porta abriu-se e entrou uma mulher alta e idosa, com um saco de compras. Tinha cabelos grisalhos ondulados, penteados para trás, e olhos muito grandes e de um azul muito bonito, olhos que fitaram Sheila, mas não a viram.

A jovem soltou uma espécie de gemido abafado, os olhos azuis fitaram-na de novo e a mulher perguntou, vivamente:

- Está aí alguém?

- Es... está - gaguejou Sheila, enquanto a mulher se aproximava, depressa, das costas do sofá.

Depois gritou:

- Não... não! Pisa-o... pisa-o e ele está morto!
Agatha Christie
* Rosemary significa alecrim, em inglês, mas também é tomado na acepção de "recordação"

quarta-feira, abril 29

Sob proteção


Outra carta na garrafa

Hei, você!

Não sei quanto tempo faz, mas faz bastante tempo que meu computador abre com imagens lindas. São fotos realmente extraordinárias de praias de mar, grutas, faróis, lagos com montanhas ao fundo, pequenos vilarejos nas margens de rios… Umas vezes ficam por dias se repetindo, outras trocam a cada ligar e desligar. Tem um comando a pedir opinião sobre a foto que nunca entrei – pareço paranoico ao pensar que estes botões querem saber de mim mais do que confessam?

Já são meses olhando as imagens. Anos, talvez. Sou distraído com essas coisas, sabe? Porém, quem sabe motivado pelo isolamento social, dei-me conta que não há pessoas nas fotos. Tem céu, tem água, tem floresta. Tem muita areia e algumas rochas. Intervenções do homem, tem – ou vistas ao longe, ou completamente isoladas. Quem fotografou não aparece, bem como está atrás das lentes supostas companhias. Existirão? A lógica diz que sim, mas a composição existe para fazê-los sumirem.

Onde estão todos?

Tivesse eu acesso aos responsáveis por este carinho ofertado na abertura do computador, uma verdadeira galeria de arte franqueada para tornar nosso cotidiano mais agradável, faria um pedido: altere completamente a série. Hoje, depois do dar-me-conta, olhar as paisagens dói. É a dor da solidão, do pesar por tantas mortes, do imaginar futuros distópicos onde a humanidade seria pouco mais do que marcas deixadas na paisagem. Troque por festas populares, praças lotadas, parques de diversão. Estádios esportivos, encontros religiosos, crianças brincando. Casais apaixonados, idosos sorrindo, animais de estimação. Que tal?

A intenção pode parecer boba. Uma iniciativa digna de Poliana virtual. Sei lá… Ainda assim, creio ser capaz de atenuar tantos maus pensamentos que abalam o sono, abatem a esperança, contaminam feito um vírus anímico. Caso você tenha algum canal de interlocução com o Bill Gates, leve a ele meu apelo.

Desta ilha em que me encontro, com carinho.

E assim se passam os dias... cinzentos

Chris Beatrice

A nova arte de varandear

Dia 45.

E ao 44º dia, sexto domingo de quarentena, não me apeteceu escrever. Normalmente, um cursor a piscar numa folha em branco costuma ser um desafio encarado com agrado. Gosto da sensação de desafio de ter uns milhares de carateres para debitar num ecrã. É engraçado como, por mais anos disto que se leve, quando nos sentamos para escrever, nunca sabemos bem quem vai sair vencido ou vencedor: se nós ou a folha (que ficaria melhor) em branco.


Mas ontem, confesso, padeci da humana preguiça. Atire a primeira pedra quem nunca. Sucumbi a ela e dediquei a tarde a varandear, embalada por uma playlist de jazz a tocar na coluna e o cão sempre deitado ao meu lado no chão. Ofereci-me umas horas sem nada para fazer. Como assim nada?, cheguei a perguntar, meio pasmada com a própria ideia, de mim para os meus botões. Nada, Mafalda, nada é nada, respondi-me. Nem livro, nem revistas, nem jornais para ler, nem notas no telemóvel para tirar. Nada, nadinha, será possível? É lamentável como hoje parece tão difícil desligarmos o cérebro e não fazermos nada. Não sei como deixámos que isto nos acontecesse.

Estendi-me numa cama de paletes improvisada e fechei os olhos. Tentei resistir ao apelo de estar, o tempo todo, a fazer listas ou a tentar resolver problemas na minha cabeça. Deixei-me estar. Quase que consegui ouvir Fernando Pessoa a dizer-me ao ouvido: “Ai que prazer/ Não cumprir um dever/ Ter um livro para ler/ E não o fazer!”. Que coisa rara e nunca vista… Tenho uma varanda desde que me mudei para esta casa, há 12 anos. E foram, na verdade, tão poucas as vezes que realmente desfrutei dela com tranquilidade. Cuido das plantas com dedicação, rego-as e limpo-lhes as folhas secas, apanho a alpista que os pássaros que nos visitam espalham no chão, mas nunca me detive realmente por ali. Até agora, a varada era só mais um afazer na minha vida. Até a cama de rede que comprei foi, durante anos, vetada ao abandono e a desbotar ao sol.

Mas por estes dias, tudo mudou. A varanda tornou-se o segundo centro da casa, a seguir à cozinha. O lugar onde ouvimos os pássaros, olhamos o céu, fotografamos a chuva e os bichos, adivinhamos as formas das nuvens, vislumbramos ao longe um pedacinho de mar e fazemos apostas às ondas. Almoçamos e lanchamos na varanda, cantamos na varanda, pintamos e fazemos cerâmica na varanda, fazemos ginástica e ioga na varanda. A cama de rede já precisava de um sistema de senhas.

Desconfio que é algo que sucedeu a muitos portugueses. Nas nossas varandas, cabe agora o mundo todo. Acho comovente como redescobrimos este espaço, que muitos tinham a sorte de ter mas que para pouco mais servia do que estender a roupa, e lhe passámos a dar toda uma nova vida. Bastam, na verdade, pouco mais do que dois metros quadrados para dar um concerto, projetar cinema para os vizinhos ou recitar poesia, como as histórias que fui ouvindo por estes dias. Quem diria que podemos ser tão felizes nas nossas varandas…

Elas podem mesmo ser centros de convívio social. Na semana passada, a passear o cão, passei por um bairro de prédios altos aqui ao lado. Às 21h da noite, toda a vizinhança estava na varanda, para um novo ritual repetido diariamente. Fiquei a ver – eram dezenas de famílias, a falar umas com as outras. Uns lançavam palavras de ordem, outros acendiam luzes multicolores, outros punham música. No fim da catarse coletiva, a despedida: boa noite vizinhos, força, até amanhã! Encontramo-nos na varanda, à mesma hora. Será que depois de tudo isto passar vão esquecer-se das varandas e deixar de se falar nos elevadores?

terça-feira, abril 28

Inspire-se

Os livros são apenas para inspirar
Ralph Waldo Emerson

A repulsa do Poder pelo homem de letras

A repulsa dos poderes constituídos pelo homem de letras e pelo homem de pensamento (pois tanto a expressão racionalista do filósofo e do sociólogo como a apreensão intuitiva do real a que procede o ficcionista surgem como ameaça aos sistemas de imposição de ideias ou de coerciva persuasão), esse afastamento do intelectual inconformista, transformado assim, com raras excepções (que nalguns casos já beiram o limite da assimilação) em outsider, representa uma destruição de valores culturais, que se traduz não poucas vezes em atraso de gerações.

Evidentemente, tal relegamento do escritor para zonas de sombra acicata-o por vezes, levando-o a produções vertebradas, que são autênticos gritos da inteligência rebelde e onde não raro se derrama o melhor da capacidade imaginativa, tensa e exasperada, de períodos em que se obscurece a comunicação normal entre os homens e em que a acção do livro, reduzida embora em extensão, ganha uma acutilante qualidade crítica e concentra a dignidade de minorias advertidas culturalmente e firmes no seu espírito de resistência. Mas o saldo não deixa de ser negativo quando se considera não já tudo aquilo que o escritor suporta e sofre, mas - e sobretudo - o muito que a camada dos leitores perde pela falta de convívio efectivo com aqueles que são não, é claro, os meus mentores, mas os que injectam na massa ideias novas, que divisam, na zona penumbrosa em que o futuro se vai pouco a pouco libertando da hora viva, os moventes sinais de amanhã.

Urbano Tavares Rodrigues,"Ensaios de Escreviver"