terça-feira, maio 5
Estamos esperando o quê?
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| Lucija Mrzljak |
Mariana Ianelli
segunda-feira, maio 4
O livro e seus magníficos chavões
A Livraria Rio de Janeiro, instalada na rua desse mesmo nome, acaba de fechar após dois anos de atividades. Em termos de casa comercial, pode-se dizer que foi o tempo de abrir e fechar, pois nenhum comércio se estabelece para ser um piscar de olhos mas para chegar a netos. Se fosse um negócio que vendesse outra mercadoria, não tínhamos de estar nem surpresos nem desolados, porque sempre há mil e uma razões para o fracasso em outro tipo de mercado que seja heterogêneo e competidor. Mas, quando isso ainda uma vez acontece com uma casa que só vende livros, é para haver surpresa e lástimas soluçadas.
O livro é mercadoria que se registra nos gêneros de primeira importância. É vital como o oxigênio, como a água, como uma proteína. Devia haver uma lei que obrigasse toda casa a consumir pelo menos cada semana um livro, que nem precisava ser tamanho família, podia ser um livro de bolso mesmo.
Este país se desinflacionaria rapidamente ou jamais chegaria a ser inflacionado se o brasileiro lesse tanto quanto joga no bicho. A falta de alimento intelectual é que emagrece economicamente o povo, o que opila as suas forças e faz uma nação endividada. Se lesse mais não teria de passar por essas vergonhas de importar feijão, importar carne de vaca, importar leite, sendo um dos países maiores, mais cornucopiais e mais férteis deste mundo.
O livro é a ferramenta da fartura, que tira a barriga da miséria, aquela que, cultivando a cabeça, transmite a lucidez, a tenacidade e a coragem às mãos que cultivam a terra e enchem as despensas e os paióis. Povo burro que não tem diligência nem prudência e precisa comprar a outros o que come acaba encalacrado em sua terra e enforcado no estrangeiro.
Pessoa que lê é pessoa que fica milionária com um dinheiro peregrino que não conhece fronteiras, tem câmbio em toda parte, compra o incomprável.
Pobreza é uma avitaminose, um escorbuto da inteligência. Sem inteligência não há trabalho produtor, eis o chavão dos chavões, além dos anteriores e dos seguintes. E é onde o livro, que é o tônico, o remédio regenerador da inteligência, entra como a solução, o recurso lógico e oportuno. Por isso é que se admite existir no Brasil uma guerra secreta manobrando armas invisíveis contra o livro e contra tudo quanto ele representa e que, sendo a cultura, é também o know-how. E dizendo know-how é o mesmo que dizer as chaves do reino ou a mesa do banquete donde o Brasil tem estado longe.
Nas livrarias e nas bibliotecas está a origem das transformações econômicas do mundo moderno, fala o mestre John Kenneth Galbraith. Tanto Marx como Lenin foram inveterados leitores de livros e recorriam às bibliotecas públicas, um em Londres, outro em Berna. Razão pela qual há tão mal cuidadas bibliotecas e tão raras livrarias entre nós e por que o livro padece sob os silêncios, as sombras e os gelos com que o capitalismo explorador procura sufocá-lo. Daí também a marginalização do intelectual, marginalização que é a forma farisaica de o perseguir. O intelectual, quer dizer, o livro, é sempre uma ameaça que terrifica o mundo do dinheiro. Livro faz o homem enxergar e erguer a cabeça, quando o mundo do dinheiro quer um povo de óculos escuros, povo de coolies e de sutras.
Com esta linha de raciocínio na qual se pode dar um tanto de desconto às formas axiomáticas mais paroxísticas, creio que o governo deveria olhar paternalmente pela condição do livro dentro da unidade federativa e dentro também dos municípios. Na Federação existe o MEC, o ministério da proverbial somitiquice, dando ao livro alguns impalpáveis farelos. Porém o município parece que nem isso. Para mais de 100 milhões de habitantes nosso país tem cerca de quatrocentas livrarias. Esta cidade com os seus 100 mil habitantes chegou a ter cinco, um número fabuloso.
Nossa primeira livraria deve ter sido uma que se chamava Agência Scalabrino, fundada por um ilustrado cavalheiro italiano, ao correr dos primeiros lustros deste século. Era uma excelente livraria onde se encontravam obras em vários idiomas. A Agência Scalabrino se transformou em Livraria Vida Social, do também douro professor e advogado Cornélio Tavares Hovelacque. Esta livraria se empenhou em sustentar em qualidade e variedade a linha livreira da Agência Scalabrino, mas as dificuldades, não do ofício, mas do negócio, levaram o balanço comercial a cifras pouco alentadoras. Daí a Livraria Vida Social, já sob a gerência do doutor Leibnitz Tavares Hovelacque, passou a não evoluir e ampliar, mas a diminuir o seu estoque de livros, preferindo atividades sem tantos gravames. Era exemplo e advertência que fariam deter novos e desavisados candidatos a livreiros. Porém, louve-se a bravura destes, seu amor ao livro, sua dedicação ao ingrato serviço da cultura intelectual: outras livrarias continuam a aparecer. Daqui a pouco serão vistas apenas as que desaparecem, caso o município não tenha em consideração o papel especialíssimo dessas casas de comércio que complementam o papel de nossas escolas, colégios e faculdades.
O comércio do livro é uma instituição que também merece do governo municipal incentivos, subsídios, isenções e favores múltiplos que a ajudem a manter as portas abertas. Já tivemos abertos onze cassinos e um benemérito os fechou. Temos quatro livrarias e que nome daremos a quem concorrer para fechá-las?
Jurandir Ferreira, "Da quieta substância dos dias"
A realidade estará se desmanchando?
Na passada terça-feira sonhei que encontrava Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, e que mantinha com ele uma interessante conversa sobre o estado do mundo e a pandemia em curso. Sem surpresa, passeávamos pelo Chiado em lentas passadas melancólicas. Uma luz fria baixava devagar sobre as ruas desertas. Bernardo instalou-se na cadeira vazia, em bronze, colocada ao lado da estátua de Fernando Pessoa. Como não havia mais nenhuma disponível, sentei-me na mesa. Recordo-me (vagamente) de o ouvir defender uma tese segundo a qual o novo coronavírus seria um artefato desenvolvido por uma inteligência terrestre, não humana. Bernardo chamou a atenção para o nosso desconhecimento não apenas de tudo quanto é enorme, mas também daquilo que por ser tão pequeno não conseguimos ver. Acordei nesse instante. Levantei-me e apontei num papel as últimas frases dele. Quando despertei já não me recordava do sonho. Dois dias mais tarde, felizmente, encontrei a folha na qual apontara as frases:
— O universo também cresce para dentro — disse-me Bernardo Soares. — É possível ser-se imenso, sendo-se ínfimo.
— O universo também cresce para dentro — disse-me Bernardo Soares. — É possível ser-se imenso, sendo-se ínfimo.
A partir das frases fui-me lembrando do resto do sonho. Enfim, não do sonho completo. Mas da parte que relato acima.
No início de abril vivi um sonho ainda mais curioso, e que agora me parece estranhamente ligado ao de Bernardo Soares. Sonhei que numa grande praça de Madri aparecia uma frase escrita no céu, como se fosse uma nuvem, ou a bruma produzida pelo respirar de alguém no ar gelado: “Todo habla!” (“tudo fala!).
A partir dessa altura começaram a aparecer palavras ou frases breves escritas no céu, um pouco por todo o mundo. Eventualmente, era possível comunicar-se com quem quer que estivesse escrevendo aquelas palavras. “Quem és tu?”, perguntei, ao abrir os olhos, numa praia, e descobrir acima das largas folhas verdes das palmeiras a palavra “Escutem”. E a entidade respondeu: “Somos vocês!”
Na lógica interna do sonho, quem se comunicava conosco era o próprio vírus, ou talvez a entidade responsável pela sua existência.
Suspeito que Bernardo Soares me apareceu no segundo sonho para me ajudar a compreender o primeiro. Se eu não tivesse anotado as frases, ou se não tivesse encontrado o papel onde tomei as notas, teria perdido todo o sonho. Inquieta-me pensar que isso pode ter sucedido e eu nunca conseguirei saber o fim. Em todo o caso, fico com a terrível impressão de que os meus sonhos, tentando explicar a realidade, são mais credíveis do que esta.
Suspeito que Bernardo Soares me apareceu no segundo sonho para me ajudar a compreender o primeiro. Se eu não tivesse anotado as frases, ou se não tivesse encontrado o papel onde tomei as notas, teria perdido todo o sonho. Inquieta-me pensar que isso pode ter sucedido e eu nunca conseguirei saber o fim. Em todo o caso, fico com a terrível impressão de que os meus sonhos, tentando explicar a realidade, são mais credíveis do que esta.
Ora, quase sempre aquilo que nos parece claro e coerente durante um sonho se revela, no momento em que despertamos, ridiculamente absurdo. Se nos fosse possível (talvez seja) despertar da realidade em que vivemos para uma outra, um grau acima desta, isto é, mais lúcida do que esta, provavelmente experimentaríamos um idêntico sentimento. O problema é quando as fronteiras entre sonho e realidade se começam a esbater.
Mau, mau mesmo, é quando os sonhos nos parecem mais lúcidos do que a realidade. Ou é a realidade que está se desmanchando — ou somos nós.
José Eduardo Agualusa
José Eduardo Agualusa
domingo, maio 3
Abrigue-se
Adquirir o hábito da leitura é construir para si mesmo um abrigo contra quase todas as misérias da vidaSomerset Maugham
A dama de branco
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| Andrei Andreevich Mylnikov |
Com minha imaginação solta, penso na dama de branco como uma sílfide, que parece levitar acima do solo, com o seu vestido comprido, esvoaçante. Penso nela como uma mulher pura, inclusive porque nestes tempos de isolamento até os namorados não dormem mais juntos, nem se encontram. Não consigo imaginá-la na cama com homens, esses seres brutos. Com outra mulher, talvez, mas agora deve dormir sozinha, quero crer.
Para mim ela está em outra dimensão. Não tenho propriamente uma religião, mas como guardo dois bons livros de astronomia, que volta e meia releio, penso na grandeza para mim incalculável do universo. Trilhões de astros, bilhões de anos-luz. Mas penso que, se houver um Deus, Ele não é bom, como dizem, mas indiferente à sorte humana, isso se houver um pensamento de Deus.
No entanto, como imaginá-Lo? Não deixo de usar para Ele as maiúsculas de praxe. Cheguei a refletir, sem nenhuma certeza, só dúvidas, se por acaso Ele ainda não estará sendo criado, muito aos poucos, pela mente humana?
Mas o nada também não me angustia. Penso nele como uma espécie de barato como o produzido pelo ópio, que experimentei duas vezes na Meca que é Nova York, onde, com as informações certas, pode se experimentar um pouco de tudo. Mas para conseguir o ópio tinha de digitar uma senha no celular, ora vejam só. Nem sei o que aconteceria comigo se continuasse naquela cidade. Experimentava a droga com uma mulher que eu não amava nem desejava, como ela também não a mim, mas, depois que eu a pagava, gostava de se deitar comigo, drogada, ambos silenciosos.
Não consigo deixar de pensar na dama de branco deitada comigo, quem sabe nua, com seu corpo esguio, mas isso me parece um sacrilégio. A dama vem à minha mente como uma pessoa solitária como eu, não imaginando que a possam observar em sua caminhada, nesta hora tão deserta. Nem transaríamos, pois já estou com setenta e nove anos.
Crio para a dama de branco uma história. Ela me conta sobre sua infância. De como gostava de passear em sua rua de Botafogo de mãos dadas com uma amiga muito especial. De como ela amava essa amiga que morreu muito jovem, de uma doença misteriosa. Mas antes teve tempo de falar que a esperaria. Não foi egoísta a ponto de pedir que a dama de branco também a esperasse ou partisse logo para se juntar a ela. Então a dama de branco teria experimentado várias relações, sempre com um sentido de incompletude, até que chegou este tempo da peste e ela está em isolamento como eu. Às vezes, penso que a dama de branco é a própria morte. Sei que isso é um modo de prendê-la e logo me penitencio e sei que em outro momento pensarei outra coisa. A morte não passa de uma obsessão minha.
Pelo menos é isso que imagino neste momento. Noutra hora posso pensar que ela fora casada com um pianista, um jovem amável e sensível. Depois apago, por ciúmes, esse pianista. Então é ela a pianista e eu a escuto embevecido. Não, sou eu o pianista e toco para ela. Tento compor no pensamento uma melodia, mas logo me vem à cabeça as Gnossiennes, de Satie, que eu escutava compulsivamente na sala, antes de vir para a varanda para acompanhar a dama de branco indo e voltando na área do estacionamento, com a leveza de uma bailarina. Será ela uma bailarina? Satie anotou que as Gnossiennes deviam ser tocadas com convicção e uma tristeza rigorosa. Eu tenho essa tristeza rigorosa, que me faz feliz. Os títulos de Satie são tão interessantes quanto suas obras: Três peças em forma de pera, Prelúdios flácidos, Desespero agradável.
Satie compondo em seu confinamento, só saindo, sempre de terno negro, para encontrar seus amigos dadaístas. Como eu gostaria de estar entre eles. Não, quero viver este momento mesmo. Quero ser eu próprio. Mas quem sabe a dama de branco tocando as Gnossiennes para mim a seus pés? Satie e eu amamos essa tristeza lírica. E a dama de branco, será? Não, penso mesmo que ela é etérea, a caminhar quase sem tocar o solo. Será que não pressente o meu olhar? Poderá ela me amar como eu a amo?
Satie fundou uma religião denominada “Igreja Metropolitana da Arte de Jesus Condutor” e excomungava quem não aderisse a ela. Eu adiro a ela e quem sabe poderia me casar com a dama de branco segundo os seus rituais, ao som da Gnossienne 1. Eu teria prazer em cozinhar para ela, ser seu escravo. Não, não, porque aí haveria os perigos inerentes ao hábito. Prefiro vê-la como que levitando lá embaixo.
Ah, mas como eu gostaria de deitar com a dama de branco numa cama, consumindo ópio. Como não tenho ópio, vai este baseado mesmo. Seria como se nos beijássemos, misturando nossas salivas em sua seda.
Sérgio Sant’Anna
sábado, maio 2
Quase crônica de amor
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| Emil Rau |
Uma moça recatada, filha do maestro da Filarmônica da Euterpe e da diretora do educandário feminino. No seu retorno à terra natal, encontrou-se com Marília no salão nobre da sede da Prefeitura Municipal. A cidade comemorava mais um ano de emancipação política. À noite dançou a valsa na festa que o clube social dava para homenagear o aniversário da cidade. Reataram o sentimento de amor que ficara adormecido no tempo, desde que tiveram o primeiro namoro naqueles idos adolescentes, quando eram estudantes do ginásio local.
Havia três anos que vinha exercendo a profissão de advogado com zelo e dedicação na sua terra natal. Pensou que já era hora de se casar e constituir uma família. Marília foi a moça eleita para assumir a condição de esposa, tornar-se mãe de seus filhos. Não entendia como uma moça da beleza dela, de boas maneiras, recatada, comportamento irretocável, não tinha encontrado um parceiro ideal para levá-la ao altar e com a bênção de Deus fosse selada uma união definitiva.
– É verdade, Marília, que fui o seu primeiro namorado?
– O primeiro e único.
– Por que ficou tanto tempo sem namorar algum rapaz da cidade ou de fora?
– Isso não me incomodava.
– Creio que pretendente não faltou.
– Não, mas recusei as propostas, preferia esperar por você.
Assim era o destino que em certos momentos somente ele sabe como engendrar situações no curso do amor. Tantos anos em Salvador, estudando para se tornar um advogado e, quando pensou no último ano do curso que era chegado o momento de pensar em se casar com uma moça digna, não passou pela cabeça em se lembrar de Marília, a primeira namorada que teve na sua vida, filha da mesma cidade, como ele. Ela tinha sido apenas um breve momento de sua vida, como foi a primeira gravata usada no baile para comemorar a coroação da rainha da primavera no clube social, e que, pasmem os céus, a eleita entre os estudantes fora a adolescente Marilia, sua colega de turma.
Ah, a vida, a vida, ia passando com as suas pegadas ocultas na trama do amor. Ali estava na sua cidade a moça que esperava sem pressa para se casar com ele. Tudo estava marcado para acontecer porque assim é que devia ser.
Literatura e justiça
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| Franz von Defregger |
sexta-feira, maio 1
Namastê
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| Mar Azabal |
Será que a minha coluna tá reta-reta, ou tá reta não-muito… ai, gente, isso dói, deixa reta não-muito, tá bom assim.
Imagine uma linha que vai do topo da cabeça até os ísquios. Alongue a coluna vertebral conforme a linha se estica, e sinta-se grande, cresça o máximo possível, e continue observando o caminho que o ar faz dentro do seu corpo…
Ísquio é bunda?
Deixe tudo o que aconteceu no passado e as preocupações futuras de lado, e esteja presente, seja o agora…
Certo. Estou aqui.
Agora, na expiração, a temperatura do ar é mais quente…
Gente, num é que é? E o que será que deu aquela ligação que a Lou recebeu? Falando nela, preciso ver o negócio da dermatologista, onde, ar nas canelas?
…subindo até os joelhos, coxas, relaxe completamente…
E o Brasil? Será que o povo já está finalmente se arrependendo? É burrice, maldade ou muito egoísmo? Estamos no umbigo? Eu nunca soube como…
…relaxe o peito, os pulmões…
Graças a Deus o dia tá acabando, ops,
…ombros, desça para os braços, antebraços…
Será que eu vou ficar na França pra sempre? Eu não deveria ter tomado o segundo café, mas agora nem isso pode, porra? Ai, sinto muito, não disse porra, senhora, estamos onde? Nas mãos. Perfeitamente, estou relaxando as mãos, o ar está quente nas mãos, tá tudo certinho, obrigada, eu me perdoo, eu te perdoo, eu nos abraço, tem aquela frase que tem que dizer pras coisas funcionarem, num tem? Esqueci a frase. As palavras “couro cabeludo” juntas me dá uma adormecidinha boa no cérebro, é tão gostosinho, será que é ok sentir o cérebro dar uma adormecidinha? Gente, esse negócio do terceiro olho, olha, me lembra sabe quem? Aquela menina, a cantora lá, nossa, minha memória tá horrível, é o consumo de queijo, será?… Daí se eu ler umas 10 páginas do livro por dia, eu consigo terminar até o dia 20, escrever o trabalho e entregar na data, a minha agendinha rosa nunca mais vi, nem minha meia rosa, é típico do meu gato, deve ter sido ele, mas se… a língua? Como relaxa a língua, moça? Acho que to mais com cara de vômito do que relaxando a língua, de toda a forma, amanhã eu preciso acordar às 8h em ponto pra dar certo todo o planejamento, e só de pensar nisso, olha, o coração já, opaaa, acordou, que loucura este período estranho, ontem sonhei que tirava um colar de pedras coloridas da minha orelha, e parece que tem explicação científica para sonhos estranhos durante a quarentena, foi o que ouvi dizer. Tem dias que eu queria me tatuar inteira, tenho inúmeras ideias, mas tem gente que não ia gostar nada disso, a começar pela minha mãe, mas minha pele é minha, mas a mãe também é, e agora? Será que todo mundo sente esse complexo de inferioridade, ou sou só eu? Às vezes eu tenho saudades, às vezes raiva, às vezes inveja, às vezes horror, e às vezes eu amo. Que coisa maluca o ser humano, né, só com muita meditação mesmo, eu hein, credo, namastê pra você também, senhora.
Meditar é tudo.
Drica Muscat
Mês de maio
Hoje é primeiro de maio, quer dizer que começa o mês das noivas, das flores e de Nossa Senhora.
Já foi também o mês dos trabalhadores, que justamente a primeiro de maio comemoravam o seu dia especial. Dia de recordação e reparação, aniversário do sacrifício dos mártires de Chicago.
Hoje tudo mudou, parece. E o imenso Maracanã fica mudo, pois tem medo que ele ecoe com o som errado, benza-o Deus.
E, assim, de tal modo comunistas e fascistas estragaram a data dos trabalhadores, que o melhor é que eles escolham outro dia, limpo de más lembranças. E volte o mês de maio às suas funções líricas de mês das flores e das noivas, de mês de Nossa Senhora.
Mês de maio, mês da desobriga no sertão: já há milho e feijão novo, muito queijo, coalhada e doce de leite para oferecer a seu vigário que vem para fazer a festa. Mês dos casamentos ― tantos casamentos que são feitos por atacado: quinze, vinte pares alinhados em semicírculo em redor do altar, cada par com os seus dois casais de padrinhos atrás de si. E o padre diz a reza do casamento toda de uma vez só e faz a prédica de uma só vez também: contudo, na hora do "recebo a vós", pergunta de um se leva a gosto, e vai reunindo as mãos dos noivos entre as dobras da estola. E enquanto o primeiro é inquirido e abençoado, os outros pares suam, e se inquietam, e dançam ao aperto dos sapatos novos. Houve um ano em que se deu um caso de desmaio de noiva, e outro ano ainda pior: desistência de noivo, só por causa do nervoso, da tensão da demora: sendo o último da fila, o pobre teve mais de tempo de pensar, diziam os engraçados.
E depois que o vigário com um suspiro despede o último par, os sinos repicam e os cortejos se espalham, quem mora perto sai a pé, quem mora longe parte a cavalo, com sua dama na garupa.
Todavia, o pobre do padre nem aí tem descanso; porque depois começa a roda dos batizados ― que são o resultado dos casamentos do mês de maio do ano anterior.
Já foi também o mês dos trabalhadores, que justamente a primeiro de maio comemoravam o seu dia especial. Dia de recordação e reparação, aniversário do sacrifício dos mártires de Chicago.
Era dia em que se podia celebrar com entusiasmo e sem escrúpulos, antes que o fascismo, o estalinismo e o estado-novismo tomassem conta dele e o maculassem com o seu bafo demagógico. Pois aos poucos, a data quase sagrada dos trabalhadores, o dia dos socialistas de todo o mundo, se foi adulterando e corrompendo. Era no primeiro de maio que o louco da cruz gamada fazia as suas mais espetaculares exibições e que o histrião da praça Veneza assomava ao balcão venerável, soltando o verbo, mãos aos quadris, queixo para a frente. No primeiro de maio era que o falecido Stalin, na sua obra sistemática de traição às jornadas de outubro e bourrage de crânes do povo russo, organizava as suas brutais manifestações de força, os desfiles em massa ― soldados, atletas, polícia, aviões, tanques ― tudo que fosse forte, e ameaçador, e de guerra, para assustar inimigos internos e externos. E era ainda no primeiro de maio que encerrava a farsa do seu endeusamento pessoal; já que demitira o barbudo Deus dos popes, e havia lugar para outro deus, por que não preencher a vaga?
Aqui mesmo no Brasil, o 1º de maio não nos traz boas recordações. Tínhamos em certa época aqueles melancólicos e cômicos desfiles "da raça" ― Não, meu engano (feliz memória que tão cedo esquece!), meu engano: os "da raça" mal agouravam outra data, o nosso amado 7 de setembro. No 1º de maio o que havia eram as concentrações no estádio do Vasco (ainda não existia o Maracanã e o nosso heroico Vasco tinha então que servir); e a pelegada agitava faixas e pendões, e os trens circulavam grátis, e os trabalhadores arrebanhados para a "espontânea" tinham o dia de serviço pago, para ajudarem no vivório. Vivório esse que nem sempre havia e quando havia não era tão vibrante quanto o ampliavam os microfones oficiais.
Hoje tudo mudou, parece. E o imenso Maracanã fica mudo, pois tem medo que ele ecoe com o som errado, benza-o Deus.
E, assim, de tal modo comunistas e fascistas estragaram a data dos trabalhadores, que o melhor é que eles escolham outro dia, limpo de más lembranças. E volte o mês de maio às suas funções líricas de mês das flores e das noivas, de mês de Nossa Senhora.
Resuma-se às recordações que trazemos todos da infância ― quem não tem na sua saudade algum remoto mês de maio, com coroação e novenas ― um mês de maio como os recordo na Matriz da Conceição, em Guaramiranga? As moças vestidas de branco, o rosto corado do ar frio da serra, de pé ao alto do coro, respondendo à ladainha e cantando o Magnificat.
Mês de maio, mês da desobriga no sertão: já há milho e feijão novo, muito queijo, coalhada e doce de leite para oferecer a seu vigário que vem para fazer a festa. Mês dos casamentos ― tantos casamentos que são feitos por atacado: quinze, vinte pares alinhados em semicírculo em redor do altar, cada par com os seus dois casais de padrinhos atrás de si. E o padre diz a reza do casamento toda de uma vez só e faz a prédica de uma só vez também: contudo, na hora do "recebo a vós", pergunta de um se leva a gosto, e vai reunindo as mãos dos noivos entre as dobras da estola. E enquanto o primeiro é inquirido e abençoado, os outros pares suam, e se inquietam, e dançam ao aperto dos sapatos novos. Houve um ano em que se deu um caso de desmaio de noiva, e outro ano ainda pior: desistência de noivo, só por causa do nervoso, da tensão da demora: sendo o último da fila, o pobre teve mais de tempo de pensar, diziam os engraçados.
E depois que o vigário com um suspiro despede o último par, os sinos repicam e os cortejos se espalham, quem mora perto sai a pé, quem mora longe parte a cavalo, com sua dama na garupa.
Todavia, o pobre do padre nem aí tem descanso; porque depois começa a roda dos batizados ― que são o resultado dos casamentos do mês de maio do ano anterior.
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