quarta-feira, maio 13
Socorro
Uma vez li um livro, ou vi um filme, ou alguém me contou um facto real, com o seguinte argumento: um oficial de marinha meteu de contrabando a sua amada no camarote de um navio de guerra, e viveram um amor desmesurado dentro daquele recinto opressivo , sem que ninguém os descobrisse durante vários anos.
A quem saiba quem é o autor desta belíssima história peço que mo faça saber com urgência, porque o perguntei a tantos e tantos que não o sabem, que já começo a suspeitar que se calhar me ocorreu a mim alguma vez e já não me lembro. Obrigado.Gabriel Garcia Márquez, 25 de janeiro de 1984, El País
Uma vista com janela
Vejo de um lado o computador, do outro, o Pão de Açúcar. Encontro-me no meio. Preciso me concentrar para escrever, mas devanear para a escrita fluir. Ouço pássaros e o tic-tac do prazo. Esta é minha rotina desde que iniciei esta coluna. No entanto, houve uma alteração ligeira, porém significativa, nos meses recentes. Estamos aquarentenados por precaução. A vida perdeu o ritmo de antes. Os cantos dos pássaros se prolongam e o teimoso toque do relógio mental também. Não preciso sair de casa e os compromissos usuais foram adiados por não sei quanto tempo. Tudo tornou-se mais vagaroso para quem não está à beira da morte. A vida durante a pandemia segue… até quando?
A paisagem que me contempla ou eu que contemplo a paisagem? Pequenas questões como esta, além de medianas e gigantescas, brincam de pega enquanto traço linhas. Não tenho ideia do mundo que me aguarda quando acordamos deste sono febril. Temo pelo que virá. O governo muge “E daí?” e, com sorte, permaneço na estatística em que estava antes da crise iniciar. Em comum, lutamos contra inimigos invisíveis. A diferença está no que inventamos para si. A vista não clama mais por um futuro. Sua plenitude me lembra o quadro de Dorian Gray. Para eles, coberto, para mim, descoberto.
A intensificação dos sentimentos confinados torna a placidez ainda mais enervante. Deixei de acompanhar o jornal. Racionalizei que se é para ver a mesma coisa, prefiro assistir a velhos episódios de “A Grande Família”. Ao menos neles a comédia é engraçada. Estamos todos ouriçados e desunidos. Estar junto é conjuntura local ou sentimental. Este embate é diário, e assim como o MMA, não aguarda dias melhores. São nestes poucos momentos calados que tudo borbulha. O canto dos pássaros serve como coro, não uma interrupção, destes pensamentos.
É inusitado como as prioridades se invertem. Comer era algo quase circunstancial na correria, algo é emergencial. Ir ao supermercado era um teste de paciência, agora é prova de fogo tanto mental quanto física. Dizer “eu te amo” evoluiu de um muxoxo assertivo para uma declaração carregada de mortalidade. Pode ser sim a última vez. Peco pelo excesso de sentimentalidade, nenhuma novidade. Mas não quero mais me restringir nisso. Todo sussurro tornou-se um estrondo. Cada pio é quase um alarme no planeta quase parado.
Em outra reconfiguração, passei a ignorar as barreiras de madeiras para o lado de fora. A pintura engoliu o enquadramento e puxa o artista junto. Como lidar com todo o mundo dentro de mim? Sinto-me mais presente num lugar donde jamais saí. Sem o véu da fugacidade, fico desprotegido de minhas reflexões. Além do almoço e de lavar a louça, tenho mais algo para fazer. Só que este fazer não é para daqui a pouco, é um este fazer que se estende. É o futuro, de novo, inconveniente. Grita através das aves: “Você vai mudar alguma coisa ou fazer parte da passagem para sempre?” Debocho de volta: “Bom, quero ser jardineiro…” “E estas reticências?”, o futuro devolve. “Ah, malditas reticências.”, e meu blefe é descoberto.
A vida não segue, ela voa. Pode pousar no seu ombro ou cagar sobre sua cabeça. Não sou bicho alado. Tenho dois pés no chão, ao contrário do governo, que tem quatro. Estão fincados, o que é um problema. Só com movimentos meus o futuro ficará menos aterrorizante. Porém como se movimentar num estado de confinamento? Talvez começar de dentro para fora, de modo a criar uma janela para minha vista interiorizada. E, quando o mundo acordar, manter concentração e devaneio em medidas saudáveis. Pombo gordo não voa, trota.]
Daniel Russell Ribas
A paisagem que me contempla ou eu que contemplo a paisagem? Pequenas questões como esta, além de medianas e gigantescas, brincam de pega enquanto traço linhas. Não tenho ideia do mundo que me aguarda quando acordamos deste sono febril. Temo pelo que virá. O governo muge “E daí?” e, com sorte, permaneço na estatística em que estava antes da crise iniciar. Em comum, lutamos contra inimigos invisíveis. A diferença está no que inventamos para si. A vista não clama mais por um futuro. Sua plenitude me lembra o quadro de Dorian Gray. Para eles, coberto, para mim, descoberto.
![]() |
| Em Portugal, projeto “Sacadas Literárias” une leitores em tempo de coronavírus |
É inusitado como as prioridades se invertem. Comer era algo quase circunstancial na correria, algo é emergencial. Ir ao supermercado era um teste de paciência, agora é prova de fogo tanto mental quanto física. Dizer “eu te amo” evoluiu de um muxoxo assertivo para uma declaração carregada de mortalidade. Pode ser sim a última vez. Peco pelo excesso de sentimentalidade, nenhuma novidade. Mas não quero mais me restringir nisso. Todo sussurro tornou-se um estrondo. Cada pio é quase um alarme no planeta quase parado.
Em outra reconfiguração, passei a ignorar as barreiras de madeiras para o lado de fora. A pintura engoliu o enquadramento e puxa o artista junto. Como lidar com todo o mundo dentro de mim? Sinto-me mais presente num lugar donde jamais saí. Sem o véu da fugacidade, fico desprotegido de minhas reflexões. Além do almoço e de lavar a louça, tenho mais algo para fazer. Só que este fazer não é para daqui a pouco, é um este fazer que se estende. É o futuro, de novo, inconveniente. Grita através das aves: “Você vai mudar alguma coisa ou fazer parte da passagem para sempre?” Debocho de volta: “Bom, quero ser jardineiro…” “E estas reticências?”, o futuro devolve. “Ah, malditas reticências.”, e meu blefe é descoberto.
A vida não segue, ela voa. Pode pousar no seu ombro ou cagar sobre sua cabeça. Não sou bicho alado. Tenho dois pés no chão, ao contrário do governo, que tem quatro. Estão fincados, o que é um problema. Só com movimentos meus o futuro ficará menos aterrorizante. Porém como se movimentar num estado de confinamento? Talvez começar de dentro para fora, de modo a criar uma janela para minha vista interiorizada. E, quando o mundo acordar, manter concentração e devaneio em medidas saudáveis. Pombo gordo não voa, trota.]
Daniel Russell Ribas
Em Buenos Aires, a cultura se apaga para proteger a metrópole
Nunca se saberá com certeza quantos teatros existem em Buenos Aires. Oficialmente, são cerca de 300. Mas há muito mais. E a qualquer momento, em qualquer pátio ou sala, surge outro. Esta é uma cidade de teatros, de livrarias, de gente esquisita e notívaga que discute filosofia. O fechamento devido à pandemia infligiu uma ferida muito profunda na alma portenha. Sob um dos confinamentos mais rígidos do mundo, com muito poucos testes realizados, com o país devastado economicamente e à beira da suspensão de pagamentos, com um sistema hospitalar apreensivo que prevê para junho os piores momentos, Buenos Aires contempla o abismo.
Acontece, porém, que a capital argentina está acostumada aos desastres. Claudio Tolcachir, um dramaturgo, ator, diretor e professor de 45 anos, conspícuo representante do novo teatro latino-americano, sabe muito bem disso. Ele tinha 26 anos quando abriu uma sala ao lado do seu apartamento, no bairro popular de Boedo. Falamos de 2001, o ano do corralito (confisco de depósitos bancários) e da hecatombe financeira. “Tinha gente que se vestia com elegância para vir ao nosso teatrinho, um lugar muito humilde em uma área bastante perigosa naquela época”, lembra. “Nos momentos de grande crise, os portenhos vão ao teatro.”
Quem pode pagar, paga. Quem não, não. O mesmo ocorre com os espetáculos: os atores passam uma “sacolinha virtual” e cada espectador deposita nela o dinheiro que considera adequado. Em um fim de semana, a audiência pode passar de 100.000 espectadores.
Claudio Tolcachir é um caso entre muitos. Acredita que as crises estimulam a criatividade. Especialmente em uma atividade tão incorporada à história portenha como o teatro. Segundo ele, a identificação entre Buenos Aires e o palco veio com os imigrantes, que tinham a necessidade de se reencontrar com sua cultura. Cada comunidade tinha seus teatros e seus momentos de catarse. Do sainete espanhol, por exemplo, surgiu o sainete argentino. As ditaduras e as numerosas épocas sombrias reforçaram o papel do teatro como lugar de comunhão e resistência. “Trabalhamos apegados à atualidade e fazemos teatro de sobrevivência, sem produção, sem salários, simplesmente porque necessitamos”, afirma.
A palavra “necessidade” surge com frequência quando se fala de cultura em Buenos Aires. Para citar um caso, Pablo Braun, descendente de uma das famílias mais ricas da Argentina, não deveria estar brigando com a distribuição de livros: poderia ocupar um escritório em alguma das empresas dos Braun, como fez por pouco tempo. Mas precisa salvar sua livraria, a Eterna Cadencia, talvez a melhor da cidade (nela não há um único volume que não valha a pena), sua editora e a pequena rede de livrarias em shopping centers que adquiriu recentemente. E precisa recuperar o contato pessoal com seus clientes. Pablo Braun é o tipo de livreiro a quem você pergunta o que deve ler.
Fundou a Eterna Cadencia em 2005, quando a Argentina começava a se recuperar da grande crise de 2001. Acredita que a de agora é pior: “O que está por vir é um desastre, algo dramático que nos obriga a nos reinventarmos”. Ele já voltou para trabalho. Distribui livros com um motorista. Sente-se com mais ânimo do que algumas semanas atrás. Mas se pergunta se a pandemia obrigará a cultura a se refugiar nos braços das grandes corporações digitais. “A própria cultura terá de refletir sobre isso”, comenta. E suspira: “Acho que para o teatro é pior ainda”.
Acontece, porém, que a capital argentina está acostumada aos desastres. Claudio Tolcachir, um dramaturgo, ator, diretor e professor de 45 anos, conspícuo representante do novo teatro latino-americano, sabe muito bem disso. Ele tinha 26 anos quando abriu uma sala ao lado do seu apartamento, no bairro popular de Boedo. Falamos de 2001, o ano do corralito (confisco de depósitos bancários) e da hecatombe financeira. “Tinha gente que se vestia com elegância para vir ao nosso teatrinho, um lugar muito humilde em uma área bastante perigosa naquela época”, lembra. “Nos momentos de grande crise, os portenhos vão ao teatro.”
A palavra “necessidade” surge com frequência quando se fala de cultura na capital argentinaNesta nova hecatombe, não se pode ir ao teatro. O teatro, portanto, é entregue em domicílio por meios telemáticos. Às 20h, Claudio Tolcachir aparece na tela e cumprimenta o público, pedindo-lhe que desligue os celulares e diminua a luz, e apresenta uma obra gravada. Ou transmite ao vivo uma peça representada, por exemplo, na cozinha de sua casa. “O teatro não foi feito para a câmera, mas é o que há”. A escola da Timbre 4, a companhia de Tolcachir, também não foi criada para que os alunos acompanhassem de casa as aulas. Mais uma vez, é o que há: toda manhã, o dramaturgo e seus professores se conectam com os alunos e dão prosseguimento ao programa. “Para os pequenos, não é fácil ensaiar nessas condições, às vezes na frente da família”, admite.
Quem pode pagar, paga. Quem não, não. O mesmo ocorre com os espetáculos: os atores passam uma “sacolinha virtual” e cada espectador deposita nela o dinheiro que considera adequado. Em um fim de semana, a audiência pode passar de 100.000 espectadores.
Claudio Tolcachir é um caso entre muitos. Acredita que as crises estimulam a criatividade. Especialmente em uma atividade tão incorporada à história portenha como o teatro. Segundo ele, a identificação entre Buenos Aires e o palco veio com os imigrantes, que tinham a necessidade de se reencontrar com sua cultura. Cada comunidade tinha seus teatros e seus momentos de catarse. Do sainete espanhol, por exemplo, surgiu o sainete argentino. As ditaduras e as numerosas épocas sombrias reforçaram o papel do teatro como lugar de comunhão e resistência. “Trabalhamos apegados à atualidade e fazemos teatro de sobrevivência, sem produção, sem salários, simplesmente porque necessitamos”, afirma.
A palavra “necessidade” surge com frequência quando se fala de cultura em Buenos Aires. Para citar um caso, Pablo Braun, descendente de uma das famílias mais ricas da Argentina, não deveria estar brigando com a distribuição de livros: poderia ocupar um escritório em alguma das empresas dos Braun, como fez por pouco tempo. Mas precisa salvar sua livraria, a Eterna Cadencia, talvez a melhor da cidade (nela não há um único volume que não valha a pena), sua editora e a pequena rede de livrarias em shopping centers que adquiriu recentemente. E precisa recuperar o contato pessoal com seus clientes. Pablo Braun é o tipo de livreiro a quem você pergunta o que deve ler.
Fundou a Eterna Cadencia em 2005, quando a Argentina começava a se recuperar da grande crise de 2001. Acredita que a de agora é pior: “O que está por vir é um desastre, algo dramático que nos obriga a nos reinventarmos”. Ele já voltou para trabalho. Distribui livros com um motorista. Sente-se com mais ânimo do que algumas semanas atrás. Mas se pergunta se a pandemia obrigará a cultura a se refugiar nos braços das grandes corporações digitais. “A própria cultura terá de refletir sobre isso”, comenta. E suspira: “Acho que para o teatro é pior ainda”.
terça-feira, maio 12
Os menores
“Há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis”Bertolt Brecht
Não sei se Voltaire, se Pascal ou se um terceiro, em carta, se desculpou com o amigo por escrever um texto longo, pois estava sem tempo para um curto.
Nos anos de 1970, fez sucesso o livro Small is beautiful (O negócio é ser pequeno), de Ernst Friedrich Schumacher, economista que incentivava o consumo de bens e serviços oferecidos pelos pequenos estabelecimentos, aqueles situados em nossas vizinhanças. Não é uma ideia sepultada, está aí até hoje.
O que pretendo com esses exemplos colhidos aleatoriamente?
Primeiro apontar que o pequeno, ao contrário do que se possa pensar, é um trabalho de extremo cuidado estético, típico de ourives. Segundo chamar a atenção para o fato de que o grande pode destruir a diversidade. Em síntese, sublinhar o pequeno, sua pluralidade e potência.
Sou um artista menor, não no sentido da qualidade do meu trabalho, não é isso que está em jogo, sou menor porque ando por uma faixa menos exposta, quer se pense em termos de mídia quer se pense em termos de acesso a outros escritores.
Como eu, há muitos. Não sou um escritor profissional no sentido de viver do que escrevo, trabalho com o diploma de economista. Porém, na faixa dos miúdos, está uma variedade de artistas que fazem da literatura — ou da música, ou do cinema, ou da fotografia, ou das artes plásticas, ou do teatro, ou do artesanato, enfim, de qualquer uma das artes e de suas manifestações — seu ganha-pão.
Como fazem para sobreviver? De mil maneiras. Há artistas que se apresentam em sinais, no transporte público. Outros enfiam seus livros embaixo do braço e desbravam este país para vendê-los. Existem alguns mais estruturados, com biografia estabelecida ou prêmio incensado, que são convidados para festas literárias, festivais de música, de teatro. Muitos conseguem participar de leis de incentivo patrocinadas por alguma das instâncias de governo. Há uma lista grande de escritores que, para viverem da escrita, trabalham com livros didáticos, revisão, tradução etc. Estou sendo genérico, sem pretensão de esgotar todos os casos. A ideia é focar essa miríade de artistas que, digamos, correm por fora.
A crise econômica, entre nós não é de hoje, foi elevada a uma potência máxima a partir da atual pandemia. Os artistas menores, se vivem com dificuldade quando a maré é boa, desmoronam na situação atual. O que viaja para vender livros, não pode — e, se for responsável, não quer — viajar. O que tem um grupo de teatro não pode (e certamente não quer) nem ensaiar nem se exibir. O músico não tem plateia. O cineasta não tem onde passar seus filmes. É o caos.
Em torno desses artistas, há um emaranhado de editoras, produtoras, locadoras de material e outros tantos serviços, que, do mesmo modo, ruem. Sigo com o exemplo de um setor que conheço mais.
Várias editoras pequenas, chamadas de independentes, trabalham com poucos autores e adotam um modelo de negócio baseado na impressão em pequena escala. A sobrevivência delas está na venda miúda, muitas vezes fora de livrarias. Ao contrário de uma grande, em alguns casos ramificada em outros países — portanto capaz de segurar o tranco por uns bons meses —, a redução da receita da pequena editora é o seu fim.
Escritores menores vendem poucos livros, mas cem livros vendidos de cada um de seus autores, em um ou dois lançamentos, garantem o fluxo necessário à pequena editora. Os lançamentos, todos sabem, estão descartados. A consequência é imediata: cofres vazios e a diminuição imediata desse “nicho” de mercado.
Pouco podemos fazer a não ser, aqui e ali, comprar livros que não seriam comprados agora, contribuir para uma caixinha virtual com vistas a garantir um produto futuro, mas nosso limite é pequeno — há outras demandas: contribuir para instituições que levam alimentos e produtos de limpeza a milhões de desassistidos, por exemplo — e, verdade seja dita, muitos de nós estão sendo jogados ao desemprego ou à redução de salários (os ainda assalariados). Os governos, bem, ou estão perdidos ou, como é o caso do Federal e seu “edaiísmo”, estão se lixando para a cultura, produzida por artistas tanto pequenos quanto grandes.
Não tenho solução para nada. Este meu texto, com ares distintos de uma crônica domingueira, foi a forma encontrada para compartilhar minha angústia. Foi escrito pensando em vários artistas e empresários menores. Cito, em nome deles, Eduardo Lacerda (poeta e editor em São Paulo. Editora Patuá), Marco Ajeje (artista plástico e moveleiro em Tiradentes. Divinas Gerais), Maurílio Romão (ator, diretor e administrador de teatro em Passos. Trupe Ventania). Os três representam trinta, que representam trezentos, que representam três mil, trinta mil, trezentos mil.
Os menores produzem uma beleza vasta, heterogênea, combativa, amorosa, engraçada, inovadora… Pensemos neles. Façamos uma ação por eles.
Nos anos de 1970, fez sucesso o livro Small is beautiful (O negócio é ser pequeno), de Ernst Friedrich Schumacher, economista que incentivava o consumo de bens e serviços oferecidos pelos pequenos estabelecimentos, aqueles situados em nossas vizinhanças. Não é uma ideia sepultada, está aí até hoje.
O que pretendo com esses exemplos colhidos aleatoriamente?
Primeiro apontar que o pequeno, ao contrário do que se possa pensar, é um trabalho de extremo cuidado estético, típico de ourives. Segundo chamar a atenção para o fato de que o grande pode destruir a diversidade. Em síntese, sublinhar o pequeno, sua pluralidade e potência.

Sou um artista menor, não no sentido da qualidade do meu trabalho, não é isso que está em jogo, sou menor porque ando por uma faixa menos exposta, quer se pense em termos de mídia quer se pense em termos de acesso a outros escritores.
Como eu, há muitos. Não sou um escritor profissional no sentido de viver do que escrevo, trabalho com o diploma de economista. Porém, na faixa dos miúdos, está uma variedade de artistas que fazem da literatura — ou da música, ou do cinema, ou da fotografia, ou das artes plásticas, ou do teatro, ou do artesanato, enfim, de qualquer uma das artes e de suas manifestações — seu ganha-pão.
Como fazem para sobreviver? De mil maneiras. Há artistas que se apresentam em sinais, no transporte público. Outros enfiam seus livros embaixo do braço e desbravam este país para vendê-los. Existem alguns mais estruturados, com biografia estabelecida ou prêmio incensado, que são convidados para festas literárias, festivais de música, de teatro. Muitos conseguem participar de leis de incentivo patrocinadas por alguma das instâncias de governo. Há uma lista grande de escritores que, para viverem da escrita, trabalham com livros didáticos, revisão, tradução etc. Estou sendo genérico, sem pretensão de esgotar todos os casos. A ideia é focar essa miríade de artistas que, digamos, correm por fora.
A crise econômica, entre nós não é de hoje, foi elevada a uma potência máxima a partir da atual pandemia. Os artistas menores, se vivem com dificuldade quando a maré é boa, desmoronam na situação atual. O que viaja para vender livros, não pode — e, se for responsável, não quer — viajar. O que tem um grupo de teatro não pode (e certamente não quer) nem ensaiar nem se exibir. O músico não tem plateia. O cineasta não tem onde passar seus filmes. É o caos.
Em torno desses artistas, há um emaranhado de editoras, produtoras, locadoras de material e outros tantos serviços, que, do mesmo modo, ruem. Sigo com o exemplo de um setor que conheço mais.
Várias editoras pequenas, chamadas de independentes, trabalham com poucos autores e adotam um modelo de negócio baseado na impressão em pequena escala. A sobrevivência delas está na venda miúda, muitas vezes fora de livrarias. Ao contrário de uma grande, em alguns casos ramificada em outros países — portanto capaz de segurar o tranco por uns bons meses —, a redução da receita da pequena editora é o seu fim.
Escritores menores vendem poucos livros, mas cem livros vendidos de cada um de seus autores, em um ou dois lançamentos, garantem o fluxo necessário à pequena editora. Os lançamentos, todos sabem, estão descartados. A consequência é imediata: cofres vazios e a diminuição imediata desse “nicho” de mercado.
Pouco podemos fazer a não ser, aqui e ali, comprar livros que não seriam comprados agora, contribuir para uma caixinha virtual com vistas a garantir um produto futuro, mas nosso limite é pequeno — há outras demandas: contribuir para instituições que levam alimentos e produtos de limpeza a milhões de desassistidos, por exemplo — e, verdade seja dita, muitos de nós estão sendo jogados ao desemprego ou à redução de salários (os ainda assalariados). Os governos, bem, ou estão perdidos ou, como é o caso do Federal e seu “edaiísmo”, estão se lixando para a cultura, produzida por artistas tanto pequenos quanto grandes.
Não tenho solução para nada. Este meu texto, com ares distintos de uma crônica domingueira, foi a forma encontrada para compartilhar minha angústia. Foi escrito pensando em vários artistas e empresários menores. Cito, em nome deles, Eduardo Lacerda (poeta e editor em São Paulo. Editora Patuá), Marco Ajeje (artista plástico e moveleiro em Tiradentes. Divinas Gerais), Maurílio Romão (ator, diretor e administrador de teatro em Passos. Trupe Ventania). Os três representam trinta, que representam trezentos, que representam três mil, trinta mil, trezentos mil.
Os menores produzem uma beleza vasta, heterogênea, combativa, amorosa, engraçada, inovadora… Pensemos neles. Façamos uma ação por eles.
Esboço do sonho do líder
O sono do líder é agitado. A mulher sacode-o até acordá-lo do pesadelo. Estremunhado, ele se levanta, bebe um pouco de água, vai ao banheiro onde se vê diante do espelho. O que ele vê ? Um homem de meia-idade. Ele alisa os cabelos das têmporas, volta a deitar-se . Adormece e a agitação do mesmo sonho recomeça. "Não! Não!" , debate-se com a garganta seca.
É que o líder assusta-se enquanto dorme. O povo ameaça o líder ? Não, se foi o povo que o elegeu como líder do povo. O povo ameaça o líder ? Não, pois escolheu-o em meio de lutas quase sangrentas. O povo ameaça o líder ? Não, porque o líder cuida do povo. Cuida do povo?
Sim, o povo ameaça o líder do povo. O líder revolve-se na cama. De noite ele tem medo. Mesmo que seja um pesadelo sem história. De noite vê caras quietas, uma atrás da outra. E nenhuma expressão nas caras. é só este o pesadelo, apenas isso. Mas cada noite, mal adormece, mais caras quietas vão-se reunindo às outras como na fotografia em branco e preto de uma multidão em silêncio. Por quem é este silêncio ? Pelo líder. É uma sucessão de caras iguais como numa repetição monótona de um rosto só. Parece uma terrível fotomontagem onde a inexpressão das caras dá-lhe medo. Nesse painel monstruoso, caras sem expressão. Mas o líder se cobre de suores porque os milhares de olhos vazios não pestanejavam. Eles o haviam escolhido . E antes que eles enfim se aproximassem definitivamente, ele gritou : sim, eu menti
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
É que o líder assusta-se enquanto dorme. O povo ameaça o líder ? Não, se foi o povo que o elegeu como líder do povo. O povo ameaça o líder ? Não, pois escolheu-o em meio de lutas quase sangrentas. O povo ameaça o líder ? Não, porque o líder cuida do povo. Cuida do povo?
Sim, o povo ameaça o líder do povo. O líder revolve-se na cama. De noite ele tem medo. Mesmo que seja um pesadelo sem história. De noite vê caras quietas, uma atrás da outra. E nenhuma expressão nas caras. é só este o pesadelo, apenas isso. Mas cada noite, mal adormece, mais caras quietas vão-se reunindo às outras como na fotografia em branco e preto de uma multidão em silêncio. Por quem é este silêncio ? Pelo líder. É uma sucessão de caras iguais como numa repetição monótona de um rosto só. Parece uma terrível fotomontagem onde a inexpressão das caras dá-lhe medo. Nesse painel monstruoso, caras sem expressão. Mas o líder se cobre de suores porque os milhares de olhos vazios não pestanejavam. Eles o haviam escolhido . E antes que eles enfim se aproximassem definitivamente, ele gritou : sim, eu menti
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
segunda-feira, maio 11
Desenhar uma flor
![]() |
| Geneviève Godbout |
A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros, “O Regresso ou o Homem Sentado – III parte”
Leitura não tem ruído
A leitura faz falta, sim, porque ela dá aos leitores um espaço muito maior. Se você está lendo um livro, se vê obrigado a criar junto com ele — algo que, na televisão, não existe. Na tevê, você pega as coisas mais mastigadas, uma torrente de anúncios e de segundos interesses. É muito ruídoSérgio Sant'anna (1941-2020), "Sérgio Sant’Anna e a obsessão pela literatura"
A moça e o Gaballum
A janela de Fernando Mendes tinha o que ver, esta manhã. Foi uma moça, que passou, a caminho do mar. Sim, amigos, da janela de Fernando Mendes, esticando-se o pescoço e olhando-se à esquerda, vê-se, não só o mar, mas a própria Ilha Rasa, em toda sua grandeza e majestade.
Lá se ia a moça, a caminho do mar. Uma moça alazã, de longos cabelos, que lhe passavam dos ombros (lindos). Uma blusinha da "Laís" lhe descia até as coxas. Depois da blusinha não tinha nada, mas presumo que antes, isto é, embaixo da blusinha, havia roupa de banho. Ah! que coisa bonita, mais que bonita, RELEVANTE, uma moça de blusinha, enganando que está só de blusinha.
E lá se ia a moça, quando o primeiro homem parou e lhe disse uma coisa. Boa coisa, não foi. E só um poeta cruzaria com semelhante moça, na calçada, sem dizer nada, sem ao menos parar. Só os poetas sabem que as moças, que passam, passam... e se afogam no mar, ou sobem aos céus. A verdade é que a gente não as vê, nunca mais. A que vier, não estará voltando. Será outra, mesmo que tenha iguais: os cabelos, os olhos, os ombros, as partes semoventes, o som de dizer "meu bem", o cheiro de maresia reminiscente. Será outra, numa nova cidade antiga, a praça, a igreja e, de tardinha, sentir-se-á o odor dos ofícios religiosos. Será outra, de olhos baixos, de mãos dadas, jurando eternidades a não cumprir. Será outra, a morrer de ciúmes, porque surgiu mais uma mulher na sala. Será outra, a pedir, com humildade dos leigos franciscanos. Mais: a humildade dos vendedores de jornalzinho "Brado de Guerra", do Exército de Salvação:
– Meu benzinho, se você puder, baixe os olhos, porque acaba de entrar uma...
Engraçado, a mulher que gosta da gente diz sempre a mesma palavra das outras que, um dia, também poderão gostar. É que as mulheres bonitas detestam as mulheres bonitas, quando estão gostando muito de um homem feio.
Continuando: será outra, no silêncio e na eternidade do abraço, naquela noite, abençoada do terceiro amor. Quem conhece de casamentos sabe muito bem que não era preciso haver as noites do primeiro e do segundo amor. A terceira é que é a bonita. Quando já se conhecem os caminhos – onde são todas as coisas.
Será outra, no dia de ir embora, com os olhos cheios daquele ódio que nasce na vontade imensa de ficar. Será outra, no convés do navio, de óculos pretos, perguntando às suas próprias esperanças:
– Onde andará agora aquele grandissíssimo...
O homem ausente é chamado pela mesma palavra, desde quando Adão saía para buscar a maçã do regime de Eva. O homem está sendo verdadeiramente procurado, esperando, ansiado, quando é tratado de "aquele grandissíssimo"...
Será que já fui tratado de "aquele grandissíssimo"? Não sei. Não sei. Quando jovem, uma uruguaia zelosa entrava em neura ciumosa e me chamava de "gordito de porqueria". Não mais.
Lá se vai a moça, em direção ao Atlântico. Nem sabe o bem que me causam seus cabelos, seus ombros, sua blusinha de "Laís", suas pernas, seu andarzinho insólito, que pede uma plaquinha (como nos automóveis): AMACIANDO.
Adeus, menina, adeus. Tomara que passe outra, para que eu te esqueça. Eu, que sempre fui o grande Inconstante Ramos.
Que bom, a poesia voltou! Tomei um remédio, chamado Gaballum, e cinco minutos depois, minha paisagem interior era ainda mais bonita do que aquela, na varanda de um hotel em Persberg, maio de 1955. Oh, colegas meus, poetas e escritores, salvai-vos da menopausa com, apenas, alguns comprimidos de Gaballum.
Antônio Maria, "O jornal de Antônio Maria"
Antônio Maria, "O jornal de Antônio Maria"
domingo, maio 10
Mãe Otaciana
Minha avó Ana dizia que uma mãe é para cem filhos e cem filhos não são para uma mãe. Que dizer então de uma mãe que teve mais de centena de filhos e um número incalculável de netos?
Otaciana Eráclia Ferreira Pinto muito cedo pôs os pés na estrada deste mundo de Deus. Mas foi em Itabuna, outrora cidade rica na região de plantações de cacau, que iria passar toda a sua vida. Vida bem vivida, como gostava de dizer aquela criatura baixinha, enrugadinha, incansável, de bons préstimos e muito estimada. Na cidade do sul da Bahia, a professora nascida em Arraial do Galeão iria seguir uma vocação diferente, a de “pegar menino”, numa época em que parto em maternidade não era constante.
![]() |
Anna Kirstine Ancher
|
Pelas mãos de Mãe Otaciana nasceram homens e mulheres que construíram o progresso da cidade. Pelas mãos pacientes de uma criatura que tinha olhos pequenos, Deus anunciou o milagre da vida. Mostrou a flor gerada com ansiedade e, no desenlace feliz, sendo levada para o calor do seio.
Um dia, com aqueles olhinhos vivos, que pareciam sorridentes quando ela falava, contou-me como ocorreu o primeiro parto que fez. Fora chamada à noite, o tempo escuro e chuvoso. Bem moça, coração confiante, chegava à casa da parturiente, que passava mal. Passados aqueles minutos sempre lentos, de apreensão para os de casa, escutou-se dentro da noite o choro da criança. O pai limpou a turvação ardida nos olhos com a manga da camisa. Observou: “Foi esse calanguinho aí que deu todo esse trabalho!”. A partir daquele parto, a professora que veio do sertão deixaria de ensinar, enquanto vivesse mãos cuidadosas jamais deixariam de “pegar menino”.
Mãe Otaciana nunca foi política, mas se elegeu duas vezes como vereadora pelo extinto Partido Social Democrático. Nunca fez campanha, nunca compareceu a comício. Foi candidata por imposição dos amigos. Quando sabia, já estava eleita. Da última vez que encontrei Mãe Otaciana, saindo de sua residência, perguntei-lhe se começaria tudo de novo no seu ofício de parteira. Ela, sem hesitar um minuto, irradiando calor e alegria, numa voz baixinha quase não se ouvindo, respondeu que sim. Era muito apegada com Deus. Nunca teve problemas na arte de “pegar menino”. Sempre que um parto era difícil recorria a um médico, que dava todo o apoio e ajuda, e essa mão amiga a fazia feliz. Encerrou a conversa com uma observação que, em seu significado puro e verdadeiro, muita gente na cidade conhecia: “Na vida trabalhei muito, meu filho”.
Forte, abnegada, sábia. Com aquele saber simples e profundo recolhido das águas do tempo. Só consigo vê-la nesse instante como uma criatura aparentemente frágil, mãos pequenas, cabeça alva, rumo à casa da parturiente. Encurvadinha, acalentando luas, recolhendo a vida, que, enrolada com a capa do mistério, chega dos longes divinos, para dar nesse beijo alegre o primeiro vagido.
Revejo-a com os olhinhos sorridentes, rosto lúcido, aparando o susto esplêndido dentro da noite caprichosa. Noite túmida que, adormecida no seio, ainda nem sonha.
Cyro de Mattos
Mãe
(Crônica dedicada ao Dia das Mães, embora com o final inadequado, ainda que autêntico)
Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana ― "que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel" - "Ih, é mesmo, João, nós precisamos telefonar para os Nunes" ― "que presente de casamento vamos dar à Lúcia? Tem de ser uma coisa boa" ― e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas, de repente:
― Cadê Joãozinho?
― Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!
O pai (fica em minúscula; o dia é da Mãe) achou que não era preciso:
― OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!
E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.
― Bem, eu vou lá, só para você não ficar assustada.
Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera e o casal ouvia, muito interessado ― "mas a Niquinha com o coronel? Não é possível! ― Quando a Mãe se ergueu de repente:
Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo ― "deve estar por aí', a Mãe gradativamente nervosa ― " mas por aí, onde"? -; O amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro d'água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.
― Joãozinho!
― Não sei, eu estava catando conchas, ele estava comigo, depois ele sumiu.
De pé, os lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim ― mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada, olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta praia mesmo!) ― Deu um grito para as ondas e espumas ― "Joãozinho"!
O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé e, quando sentiu que a tempestade estava passando, fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direçã dos pais:
― Mãe é chaaata...
O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente e tranquilo, na manhã de sol.
Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear ― e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte.
Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana ― "que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel" - "Ih, é mesmo, João, nós precisamos telefonar para os Nunes" ― "que presente de casamento vamos dar à Lúcia? Tem de ser uma coisa boa" ― e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas, de repente:
― Cadê Joãozinho?
O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.
― Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!
O pai (fica em minúscula; o dia é da Mãe) achou que não era preciso:
― O menino tem OITO anos, Maria!
― OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!
E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.
― Bem, eu vou lá, só para você não ficar assustada.
Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma bola vermelha na mão e a paz voltou a reinar sobre a face da terra.
Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera e o casal ouvia, muito interessado ― "mas a Niquinha com o coronel? Não é possível! ― Quando a Mãe se ergueu de repente:
― E o Joãozinho?
Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo ― "deve estar por aí', a Mãe gradativamente nervosa ― " mas por aí, onde"? -; O amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro d'água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.
― Joãozinho!
O pai levantou-se, foi lá, não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.
― Não sei, eu estava catando conchas, ele estava comigo, depois ele sumiu.
A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. "Mas sumiu como? Para onde? Entrou n'água? Não sabe? Mas que menino pateta". O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço:"Mas diga, menino, ele entrou no mar? Como é que você não viu, você não estava com ele? Hein? Ele entrou no mar"?
― Acho que entrou... ou então foi-se embora.
De pé, os lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim ― mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada, olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta praia mesmo!) ― Deu um grito para as ondas e espumas ― "Joãozinho"!
Banhistas distraídos foram interrogados ― se viram algum menino entrando no mar ― o pai e o amigo partiram para um lado e outro da praia, a mãe ficou ali, trêmula, nada mais existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados ― "Joãozinho"! ― Ela mesma não tinha mais nome nem era mais mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo ― "Joãozinho"! ― Ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado!
O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé e, quando sentiu que a tempestade estava passando, fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direçã dos pais:
― Mãe é chaaata...
Assinar:
Postagens (Atom)


















