terça-feira, outubro 11

Sobre grades e véus

Recorro a uma imagem de infância para refletir sobre nossas visões de normalidade e anormalidade. Lá em casa, durante muitos anos, meu pai teve passarinhos em gaiolas. Cardeais, canários belgas, pintassilgos, pintagóis, canários da terra… Devo estar me esquecendo de alguns, é claro. Ele chegou a cultivar tenébrios, cujas larvas são um banquete para os pássaros carnívoros – as caixas ficavam na escada que descia para a garagem, onde um armário guardava os sacos de alpiste e painço. Investia boa parte do seu tempo livre cuidando dos bichos, trocando o papel na base da gaiola, renovando a comida e a água. Pelo carinho que testemunhava, nunca estranhei a condição de serem enjaulados.

Agora, ao perguntarmos para qualquer pessoa, seja velho, adulto ou criança, o que fazem os pássaros, “voam” será a primeira resposta para a maioria. Antes de pôr ovos, cantar, fazer ninho, comer sementes ou insetos, é notório que passarinhos voam. Até a galinha voa – muito mal, mas voa. Ok: menos as emas, avestruzes e, talvez, alguns poucos mais para servirem de exceção. O que me leva a pensar na violência que é aprisionar passarinhos: estamos tirando deles sua mais expressiva natureza, aquilo a definir sua existência. Mas eu não estranhava – era normal.

Iman Maleki

Pensava no assunto e no quanto algumas pessoas confundem o normal como sendo o certo, o anormal como o errado. Se por um lado não condeno meu pai por ter vivido na época em que capturar passarinhos para colocar em gaiolas não era nada de mais (ou seja, normal), teria muita dificuldade em achar correto armar uma arapuca para prender um cardeal que vimos outro dia numa caminhada pelo condomínio (por mais que o canto deste passarinho possa me recordar da infância). Muito antes de isso ser incomum nos dias de hoje, parece bem errado. Mas errado não teria sido em qualquer tempo?

Este é sempre o grande debate sobre as mudanças culturais: o que é normal muitas vezes pode ser completamente diferente de ser certo, ser justo ou incontestável. Cabem aí questões de costumes, de ecologia, de organização social e credos. Até leis precisam mudar – jamais deveríamos esquecer que ações de cunho segregacionista até pouco tempo eram amparadas pelo poder judiciário. No caso das outrora inocentes gaiolas, mesmo considerando bastante severa a punição para quem aprisiona animais silvestres, vejo como necessária: o bichinho não tem defesa.

A morte de uma moça no Irã após ser detida pela polícia de costumes por não usar o véu do modo adequado terá sido só uma andorinha? Os reflexos em forma de convulsão social parecem dizer que não.
Rubem Penz

O emplastro

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis.

Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado, sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.

Machado de Assis, "Memórias póstumas de Brás Cubas"

segunda-feira, outubro 10

Hora do cafezinho

 


Aqueles que andam por aí

As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes as sinto à minha volta, não apenas a presença, o cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso

- Não fui eu quem disse isto

e realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se, afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis

(invisíveis?)

densas de humanidade, tão próximas. Umas alturas muitas, outras uma ou duas apenas por terem que fazer noutro lado, no caso de saírem não vale a pena preocuparmo-nos: têm a chave e a prova que têm a chave está em que entram, silenciosas, amigas, penduram os casacos no bengaleiro, sorriem. Onde se encontra o pai? Na cadeira do costume. Onde se encontra a avó? Lá fora, no quintal, a alinhar a roupa no frio, ou a fazer festas à cadela com a mão leve de sempre. Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entendermos que não existe ninguém lá em baixo. Para quê visitar ausências? Uns pardais nos choupos, nada. Que sítios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto. Segredam-nos


- Não faleci, sabes?

e não faleceram, é verdade, continuam, não na nossa lembrança, continuam de facto, pertinho. Quase sem ruído mas, tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos. Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixámos de estar juntos. Nunca deixámos de estar juntos: Quando é necessário poisam-nos a palma no ombro. Na época em que andei muito doente houve sempre palmas no meu ombro, a ajudarem. E agora, na mesa a escrever isto, espreitam o papel, sabem, melhor do que eu, as palavras que se seguem. O meu avô

- Não te aborrece escrever?

ele, a quem nunca vi ler um livro, instalava-se diante dos canteiros, em silêncio, a olhar as árvores, suponho que a olhar o Brasil da sua infância. Avôzinho. Tão diferente de mim: muito moreno, de cabelo encaracolado, lindo. Continua por aí, não deixe de continuar por aí. Um amigo meu, que disse a missa de corpo presente da mãe, contou-me que, ao voltar a casa semanas depois, a primeira pergunta que fez foi

- A mãe?

seguro de a achar num compartimento qualquer. E, de certeza

(isto já não me contou)

que deu com ela. Que dá com ela a cada passo. Nem é preciso interrogar seja quem for, a mãe encarrega-se de resolver o problema, haverá algum problema que uma mãe não resolva? Não é infantilidade da minha parte afirmar isto: é assim. Frase da minha, ontem

- A gente tem que se divertir ao divertir as crianças, porque se a gente não se divertir elas não se divertem

e eu de boca aberta. É que não há coisa mais séria que o divertimento. Os nossos brinquedos foram uma coisa importantíssima para o meu pai. Confiscava-nos alguns para seu gozo pessoal, secreto. A gravidade apaixonada com que ele jogava. Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem. Não faço nenhum livro agora, ando vazio, e o vazio começa a inquietar-me. E se isto acabou? Terei secado? Apareceu-me uma coisa mas não dava, de maneira que fiquei sem nada. As falsas partidas, os equívocos, pensar que se consegue e não se consegue. O que julgarão desta impotência aqueles que andam por aí? Não lhes falo nisso, claro, é o género de assuntos que guardo para mim, guardo quase tudo para mim. A casa frente ao mar que nunca tive, por exemplo, tenho prédios feios. Algumas árvores e prédios feios. Que silêncio. A minha filha, no computador, entretem-se com o que chama um jogo de estratégia, em lugar de se sentar no meu colo. Olho para o écran e não percebo raspas, deve ser uma estratégia complicadíssima. Afirma que está a construir coisas. Ao menos que haja alguém ao pé de mim a construir seja o que for, compenetrada, solene. Se olhar bem o seu ombro vejo a palma que poisou nela. Há palmas tão bonitas quanto os pássaros. Daqui a nada, sem que ela dê por isso, começa a cantar. Basta um bocadinho de atenção para a ouvir cantar. E, ao cantar, começo a escutar as ondas. Uma após outra. Para mim. Atrás destas janelas e destas árvores há-de haver uma praia. Reparem.
António Lobo Antunes

Volta às compras

 


Duas ferramentas

 Eric Fabien-Naissant

Use a condução do poema
só quando a velocidade da tua visão
não der para viajar em prosa

Paulo Mendes Campos

Pequenas constatações

Os maus exemplos, dos quais tanto se queixam as pessoas sérias, não vêm da gente sem juízo da gente desequilibrada, como lhe chamam. Não. Os maus exemplos são espalhados precisamente pelas pessoas sérias. O que elas dizem, o que elas fazem, a gravidade das suas atitudes, a veemência das suas opiniões, tudo que constitui o modo e a razão de existir dos “homens de caráter”, das “senhoras impolutas’, tudo isso desperta a mania da contradição, muito espalhada entre os mortais. Se há vícios neste mundo, a culpa é dos que se manifestam contra eles. Se não escrevessem nos jornais coisas alarmantes sobre a cocaína, se a polícia não perseguisse os vendedores da poudre folle, pensam que a cidade estaria cheia, tal qual está, de cocainômanos?... Não estava. Eu, por exemplo, até aos vinte anos, não fumei. Mas, num inverno, adoeci da garganta e o médico a quem fui procurar, proibiu-me o fumo... Desandei a fumar, desde aí. E não tenho motivos de queixa... Também não me arrependo de pensar ao invés de numerosos moralistas... A moral comum parece-se muito com os provérbios... Ai de quem se fia nos provérbios...

A dor é útil! assegurou-me, há dias, um filósofo, que foi dentista e enriqueceu...

As mulheres feias acham sempre as modas exageradas...

O meu jardineiro teima em chamar os lírios de “copos-de-leite”. Tentei, várias vezes, revelar-lhe, incutir-lhe a verdade, a pequena verdade. Ele respondeu que toda a gente diz que é “copo-de-leite” o nome daquela flor. Aí está a razão por que não há lírios neste país...

Não convém contrariar ninguém...

Artista! Esta palavra é a que mais nobremente qualifica um homem. Artista! E logo todas as honras lhe são concedidas, e logo se cria em torno dele um ambiente de admiração e respeito. Entretanto, num certo meio, artista é sinônimo aproximado de inútil, quando não é de coisa pior... Ora, isso me entristece um pouco. Não pelos artistas. Mas, pelos que lhes julgam os trabalhos com uma espécie de superioridade sardônica, que é, em silêncio, a forma viva e visível de um relincho...

Os cretinos são insuportáveis às segundas-feiras...

A verdadeira capital do Brasil fica entre a Rua São José e a Rua do Ouvidor... E ali, à sombra dos palácios e das árvores, o agitado mostruário da população carioca. A política, a literatura; a elegância, a inteligência, a tolice, a riqueza, a miséria e outros substantivos mais ou menos femininos passam sobre aquelas pedras miúdas das três quadras fatais, todos os dias... Passam... Só ficam os guardas-civis ensinando a andar na mão...

Confia em ti. Mas, antes, trata de saber se podes. Se não puderes e confiares, ficas aborrecido para o resto da existência...

Só as pessoas que não gostam de nós sabem, na verdade, como somos. As outras andam sempre a descobrir defeitos que ainda não temos...

A felicidade assemelha-se a um bilhete de loteria, antes de andar a roda...

Quando uma mulher que tu conheces há muito tempo, sem outras intimidades, de repente, um dia, conversando contigo, endireita a tua gravata podes fazer dela o que quiseres...

Ainda se discute a propósito da utilidade dos críticos. Os escritores louvados são a favor. Os outros são contra. O público, felizmente, não se interessa pela discussão.

Parece-me que os críticos não deixam de ser úteis. A alguns, eu, por exemplo, devo a ampliação dos meus conhecimentos literários. Se eles não houvessem constatado a profunda influência exercida sobre mim por certos autores, com certeza eu nunca leria esses autores...

Já Jesus Cristo dizia, e a sociedade republicana provou: somos todos iguais. Agora, principalmente depois da guerra, com a integral democracia realizada, não há mais diferenças. A sem-cerimônia passou por cima da multidão uma plaina afiada e rápida... Somos todos semelhantes... Isto, por displicência sentimental, não deixa de ser bonito. Mas, para os encontros da vida quotidiana, é terrível.

É costume afirmar-se que o Brasil tem poetas demais. E é um mau costume. Os poetas nunca são demais. Eles descansam dos aturdimentos quotidianos, dão a ingenuidade e dão o sorriso, tornando melhores quem os encontra, numa hora de fadiga, num instante de pesar. Irmãos daqueles que, outrora, sob o sol novo, na chama das alvoradas e no fumo dos ocasos, falavam de amor e de sabedoria, os poeta são, dentro do tempo, as vozes do silêncio, vozes que sobem, eternas, ensinando aos homens desencantados um desejo mais perfeito, uma bondade mais universal...

No outro tempo, quando os rapazes não davam mesmo para nada, os pais, que haviam tentado fazer deles homens notáveis, desesperavam-se diante de tanta incompreensão e resolviam mandá-los para o comércio.

Hoje, o jornalismo absorve todos esses rapazes. Lucrou o comércio, que se encheu de gente atilada. Os negócios, de uns anos para cá, segundo ouvi dizer, exigem inteligência e noção das coisas...

O bem supremo é o bom humor.. Demócrito tinha razão. Mas no tempo dele, o bom humor era fácil. O mundo andava no encanto de uma raça contente. A vida bela sorria em tudo, desde o céu, que não punha terrores nas ideias, até as fontes, onde a imagem de Narciso refletia. Hoje, a água das fontes é triste. Narciso morreu... E para além das nuvens, está o Deus da nossa infância, o Deus que castiga...

Uma das mais teimosas preocupações da Humanidade moderna é a fotografia em jornais e revistas: o retrato, espalhado, visto por muita gente, no bonde, nos cafés, dentro de casa... Mulheres, homens, velhos e crianças, todos querem aparecer... Há quem se mate para realizar, assim, o desejo da vida inteira... Inúmeras pessoas só casam para isso... Agora mesmo, acabo de ver, numa folha diária, o cliché de um cavalheiro, ferido pela amante, com cinco tiros ferozes. Deitado na maca da Assistência, ele já tem um dos olhos fechados pela morte; mas, com o outro, ainda vagamente aberto fixa, enternecido, um ponto no espaço, posando para o fotógrafo...

Pensar não é, decerto, um hábito dos nossos poetas. Se aquele príncipe da comédia de Shakespeare ressuscitasse no Brasil, ficaria contente por ter voltado à vida, ele que, na sua biblioteca, queria apenas livros bem encadernados e falando de amor... Mandaria fazer as encadernações na Europa, e os livros, achá-los-ia aos milhares aqui, sob o Cruzeiro do Sul... Raro será o livro brasileiro que não fale de amor...

Pierre Nozière, que é um disfarce amável de Anatole France, conta de certa criada, vinda para o seu serviço, do fundo ingênuo da Bretanha, com o mar nos olhos, um voo de gaivota preso nos cabelos e a puríssima simplicidade na alma. Como a rapariga nunca saíra, Pierre Nozière deu-lhe férias, um dia: que ela fosse visitar Paris... E ela foi. Voltou, à tarde, maravilhada. A grande capital não lhe parecera feia, mas tinha visto, numa quitanda, uns rabanetes sublimes...

Ignoro se essa criada de Pierre Nozière casou. Mas, sei que deixou uma enorme descendência...

Para as mulheres, pentear é um verbo importante, tão importante que o substantivo vindo dele faz parte das vitórias femininas... O penteado, na ofensiva da paixão, ficou sendo a grande arma irresistível. É o penteado que dá à fisionomia aquele não sei quê logo transformado pelos homens em sentimento, nas suas almas sempre abertas... A imagem que os homens guardam das mulheres é a imagem de um penteado...

O que aborrecia, nos versos das nossas poetisas de antes da guerra, era a masculinização dos seus sentimentos, a forma rija de que os vestiam, impecáveis... Versos de fraque... Agora, nas musas novas reveladas e nas que vão aparecendo, as mulheres andam bem presentes, e dizem da vida com aquela sabedoria ingênua e a mesma graça deliciosa que têm quando não escrevem.

Toda felicidade que faz falar é sempre vinda de uma grande tolice...

O meu maior prazer é mudar de opiniões. Mudando-as, evito tê-las. E assim consigo a maneira mais alegre de não envelhecer...

Eu gosto de adiar. Deixo sempre para amanhã o que posso fazer hoje. Enquanto não faço, ensaio. Enquanto ensaio, divirto os que estão ao meu lado. O grande público que espere...

Alvaro Moreyra. "A cidade mulher"

sábado, outubro 8

Conclamação à Primavera

 


La Suzanita

O Peugeot parou na esquina do posto de gasolina. Ali acabava o asfalto e começava a rua de terra. Era como a fronteira do mundo com outro mundo. Dali em diante, seria a pé. Precaución, compaiero, havia dito El Gitano na noite anterior, enquanto terminávamos o café.

O chofer gordo e queimado de sol puxou um lenço do bolso e sem tirar o cigarro da boca secou a testa, o queixo e o nariz. Depois olhou o taxímetro, que marcava dezoito e quarenta, e disse: Veinte. Estendi duas notas de dez e uma de cinco e disse: Gracias. Ele resmungou alguma coisa que não entendi. Desci do carro.

Fiquei parado na estrada, bem ali, na fronteira entre o asfalto e a estrada de terra batida, vendo como ele manobrava sem nenhuma perícia e levàva o Peugeot amarelo de volta para o asfalto e desaparecia logo depois. Cruzar a fronteira entre os dois mundos pelo lado direito do posto de gasolina, entrar na primeira ruela à direita, caminhar quatro quarteirões, parar, acender um cigarro, continuar, agora à esquerda por outra ruela de terra, seguir até encontrar um bar chamado La Suzanita, assim mesmo, com z. Alguém estará lá, disse El Gitano, que era de pouco falar. — Ele vai estar lá? — Quizá. Es posible. Todo es posible. — Quero saber. Devo saber. — Quizá.



El Gitano esvaziou a xícara de café, tocou a ponta do bigode com o dedo, acendeu um cigarro e não disse nada. Era mesmo de pouco falar. Muito pouco. Na verdade, eu não gostava dele. Ficou me olhando um tempinho, eu me sentia meio ridículo e um pouco irritado, e enfim ele disse: Una y cuarto. E depois completou: Más vale que no te retrases. Eu tinha chegado cinco minutos atrasado ao encontro daquela noite. Olhei para ele e disse em voz baixa: Vete a la mierda.

Eu pensava no homem que iria encontrar e na última vez em que havíamos estado juntos, uns dois meses antes, quando as coisas eram diferentes e todos repartiam promessas nas quais acreditavam. Não levava relógio, mas o chofer do Peugeot garantira que faltavam quinze para a uma quando me deixara logo ali atrás, na fronteira entre o asfalto e o chão de terra, no posto de gasolina.

O sol de outubro começou a arder em minha cara quando virei à direita e continuou ardendo nas duas quadras seguintes, e ainda quando parei e acendi o cigarro fora de hora. Olhei para trás, um menino vinha pela rua, e nada mais. O menino passou por mim olhando minhas calças desbotadas. Essa gente nunca diz nada: são pobres e calados. As janelas estavam fechadas e vi que logo adiante havia um pequeno Fiat 600 debaixo de uma árvore. A rua estava morta, como todo o resto.

Na esquina seguinte virei à esquerda, continuei andando, o sol ardia na nuca, uma, três, cinco quadras, será que vou chegar na hora?, e apertei o passo, o bar deveria estar perto, mas tenho tempo, pensei, tenho tempo, se ele estiver lá e eu chegar atrasado vai ser desagradável, e andei mais rápido ainda e vi, na outra esquina, a placa da Coca-Cola anunciando enfim o La Suzanita.

Eram duas portas abertas para a calçada de cimento coberta de poeira da rua de terra, e uma camionete empoeirada na esquina seguinte e eu adivinhava gente escondida, na vigia, nas redondezas.

Duas portas abertas e lá dentro, ninguém: três mesas de ferro, um balcão, prateleiras com latas e garrafas, cartaz de cigarros. Fiquei esperando.

De repente, atrás do balcão surgiu um garoto de uns quinze anos. Eu disse buenas tentando arrastar cada letra para dar um ar de preguiçosa familiaridade e serenidade, mas ele não respondeu.

Um rádio velho chiava o noticiário da uma, e o garoto olhou para uma mesa no canto. Acompanhei seu olhar: na mesa, uma garrafa solitária de cerveja Corona entre dois copos vazios, como à minha espera e de mais alguém, e só. Sentei, enchi um copo.

Enquanto eu bebia a cerveja o garoto sumiu por uma portinha estreita entre as prateleiras e fiquei sozinho. O rádio continuava chiando os resultados do regional de futebol e anunciou que era uma e meia. Pensei: “Não vai vir”. As ruas de terra continuavam num silêncio de noite alta debaixo de um sol sem piedade. Fiquei pensando em como fazer para retomar o contato, agora que o sindicato tinha sido fechado e a vida era outra. Eu havia vindo de muito longe, e precisava levar de volta informações que só ele poderia me dar, em troca de informações que só eu poderia dar a ele. Era um encontro crucial, tinha sido cuidadosamente combinado, com todas as precauções e mais algumas. Quinze minutos de atraso, e ele não atrasava nunca. Quinze minutos era o tempo que teríamos para o nosso encontro.

De repente, atrás do balcão, surgiu o ruído de pés leves que se arrastavam. Olhei, havia uma moça de uns vinte anos, misteriosamente bela e serena. Eu murmurei buenas outra vez, e outra vez foi em vão. Ela olhou para a rua e desapareceu pela portinha entre as prateleiras, para surgir de novo em seguida e fazer um gesto aflito para que eu me aproximasse. Olhei para a rua, tudo continuava igual.

Contornei o balcão, entrei pela mesma portinha entre as prateleiras. Ela me olhava com olhos assustados. Vi um minúsculo colar de gotículas sobre seus lábios. Era uma menina sombria e bonita. Havia uma certa fúria em seus olhos. Fiquei olhando para ela, esperando alguma palavra, algum sinal. Ela me olhava com uma agonia juvenil enquanto buscava palavras. O silêncio pareceu durar meia-vida, até que ela disse, com voz serena: — Sucedió algo.

O resto veio num jorro: não ia haver encontro, eu tinha de voltar para o hotel da cidade e esperar até às dez da manhã do dia seguinte. Se ninguém me procurasse, deveria voltar imediatamente para a capital e buscar abrigo até que tudo tornasse a se acalmar. Depois, indicou-me uma porta que dava para o quintal, dizendo que além do quintal havia outra ruela, e que eu deveria caminhar rápido até o posto de gasolina, onde um táxi estava à minha espera para me levar de volta para a cidade.

Ela era esguia, tinha uma aflição nos gestos que contrariava a serenidade da voz e o brilho parado dos olhos. Tocou levemente minha mão, como numa despedida; depois, num arrebato sem explicação, me abraçou, antes de me empurrar na direção da porta.

Havia outro Peugeot no posto de gasolina. O motorista era um jovem de pele curtida de sol. Não disse nada quando entrei, apenas arrancou numa velocidade de relâmpago, e assim prosseguiu por quilômetros até a cidade. Parou a três quarteirões do hotel. Não perguntei quanto devia. Desci o mais rápido que pude. Ele apenas sussurrou: Suerte. Cuidado.

Cheguei ao hotel pouco antes das três e quinze da tarde, me estendi na cama e dormi.

Quando acordei era noite. Persegui na televisão o noticiário das oito, e fiquei sabendo: ele tinha sido pego pouco depois das duas, naquele mesmo subúrbio operário, muito perto de onde eu estivera. Com ele, na mesma casa, havia mais três homens e uma moça. Um dos homens era El Gitano: reconheci seu rosto numa velha foto sem nome do arquivo policial. O noticiário dizia que tentaram resistir e que foram todos mortos no tiroteio, inclusive a moça. Dizia que ela era filha dele. Dizia também que no meio da tarde a polícia havia localizado um bar que servia de ponto de reunião, e que no bar estava um garoto. O garoto fora levado preso. Dizia tudo isso o noticiário das oito.

No dia seguinte, depois de uma noite sem sono e atravessada de memória, fúria e medo, desci logo cedo e comprei os jornais. A notícia estava em todos, com mais estardalhaço que informação.

Um dos jornais trazia uma foto da moça. Era realmente bonita. Tinha dezenove anos.

Às dez e meia paguei o hotel e fui para o aeroporto. Enquanto esperava o voo joguei fora os jornais. Antes, e sem que nunca tenha tido tempo de entender por que, rasguei cuidadosamente da página a foto da moça, dobrei-a pela metade e guardei na carteira. O nome dela era Suzanita, e nunca entendi o que me levou a querer levar a foto comigo.

Eu sabia que era um dos próximos de uma lista sem fim. Queria apenas chegar de volta à capital, avisar os companheiros, buscar abrigo e pensar no que poderia ser feito.

Uma semana depois, quando fui preso, a fotografia continuava na minha carteira.
Eu consegui me manter à tona até o momento em que um deles resolveu examinar de novo minha carteira. Até ali, eu estava indo bem — até perguntarem se eu sabia quem era a moça. Um deles fez a pergunta com toda calma, enquanto os outros sorriam.

Eu disse apenas que era uma moça que tinha conhecido numa cidade do interior. Foi então que o inferno começou.
Eric Nepomuceno, "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século"

Fora do mundo

 


As diferenças

James Bolivar Pissarro
Um romance não é apenas um fenômeno linguístico. Na poesia, é difícil traduzir as palavras porque o que importa é o seu som, assim como seus significados deliberadamente múltiplos, e é a escolha das palavras que determina o conteúdo. Numa narrativa, temos a situação contrária: o universo que o autor construiu, os acontecimentos que neles ocorrem é que ditam o ritmo,, o estilo e até a escolha das palavras. A narrativa é governada pela regra latina, “Rem tene, verba sequentor” — “Prenda-se ao tema e as palavras virão” — ao passo que na poesia a formulação deve ser mudada para: “Prenda-se às palavras e o tema virá.
Umberto Eco, "Confissões de um jovem romancista" 

sexta-feira, outubro 7

Café e narguilé

 

Mona Trad Dabaji 

Um crente

Ao cair da tarde, dois desconhecidos se encontram nos corredores escuros de uma galeria de quadros. Com um leve calafrio, um deles disse:


- Este lugar é sinistro. Você acredita em fantasmas?

- Eu, não - respondeu o outro. E você?

- Eu, sim - disse o primeiro, desapareceu.
George Loring Frost, "Memorabilia"

A Fraternidade

 


O mais feroz e vil dos animais

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o cetro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêndios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.


Então, quando os homens virem esse vazio, quando se tiver de deixar a vida pela morte, pela morte que come, que tem sempre fome, haverá um riso imenso de desespero. E tudo explodirá para se desmoronar do nada, e o homem virtuoso amaldiçoará a sua virtude e o vício aplaudirá.

Alguns homens ainda errantes numa terra árida chamar-se-ão, encontrar-se-ão e recuarão horrorizados, aterrorizados consigo próprios, e morrerão. O que será então o homem, ele que já é mais feroz do que os animais ferozes, e mais vil do que os répteis? Adeus para sempre, carros deslumbrantes, fanfarras e famas; adeus, mundo, palácios, mausoléus, volúpias do crime e delícias da corrupção! A pedra cairá de repente, esmagada por si mesma, e a erva crescerá sobre ela. E os palácios, os templos, as pirâmides, as colunas, mausoléu do rei, caixão do pobre, carcaça do cão, tudo isso ficará à mesma altura, sob a relva da terra.

Então, o mar sem diques baterá tranquilamente nas praias e irá banhar as suas ondas na cinza ainda fumegante das cidades; as árvores crescerão, reverdecerão, e não haverá mão que as quebre e as destrua; os rios correrão nos prados floridos, a natureza será livre, sem homem que a oprima, e esta raça será extinta, porque era maldita desde a infância.
Gustave Flaubert, "Memória de um louco"

Mamão doce

Comer mamão doce como sobremesa depois da refeição do almoço.


Nada era igual. Doçura pura. Mastigava com prazer os pedaços adocicados da fruta.

Colocava com gosto na gaiola o pedaço do mamão para o passarinho. Não podia deixar de fazer isso, o bichinho merecia fazer o deguste prazeroso da fruta. Deu até para imitar o canto de vários pássaros depois que bicava o pedaço de mamão maduro. Sinal que se sentia bem com a vida que levava, embora seu canto fosse de um prisioneiro, sem voo, som e pluma pelos ares das estações estáveis. Um canto inútil nos dias contrários da gaiola. Sem beber dos ritmos da natureza, livres.

Passavam as estações sem ter a graça de viver lá fora.

Virou rotina para o dono ter que limpar a gaiola, depois que ele comia o mamão e cantava vários cantos, todos os dias.

Se sacudia alegre no espaço pequeno da gaiola, enquanto bicava e comia o mamão.

Limpar todos os dias a gaiola. Que coisa chata. Começou a se indignar com o passarinho. Comia o mamão, mostrava-se alegre, deixava a gaiola suja, aquele passarinho nojento.

Contrariado, imaginando como se sair daquela obrigação de limpar o que o passarinho sujava na gaiola.

“Deixe estar, seu dia vai chegar, não vai mais sujar.”

Dessa vez deixou o pedaço de mamão com um tantinho de coisa líquida dentro. O passarinho só deu um bicada no pedaço do mamão. Caiu nervosinho, sem canto, qualquer movimento que indicasse que ali na gaiola existia um bichinho que ficava alegre imitando o canto de outros quando acabava de comer seu pedaço de mamão.

O veneno fizera o efeito que esperava.

“Agora passarinho arreliento vá cagar e sujar na cidade dos nadas, lá não há mamão doce pra você comer prazeroso. Acabou qualquer tipo de canto, bicho imundo, teimoso.”

Assoviou, aliviado, como se tivesse se livrado de uma coisa que lhe dava desconforto, transtornava.

“Triluli, trilulá, bem que disse que seu dia ia chegar.”
Cyro de Mattos

quarta-feira, outubro 5

Miragem

 


Os donos da língua

A estória que vos vou contar aconteceu no tempo em que os animais falavam, ou melhor, em que falavam todos o mesmo idioma.

O Senhor Cão, o animal mais velho da floresta, era uma espécie de guardião do verbo. Na verdade via-se a si próprio como o legítimo proprietário da fala.

- A palavra foi criada pelos cães, os quais, por gentileza, a emprestaram aos outros animais - explicava aos filhos. - O vosso avô, o Velho Cão, andou por toda esta floresta, descobrindo e nomeando as coisas: rios, lagos, rochedos, montes e vales, árvores, ervas, flores, frutos, os pequenos insectos, nevoeiros, chuvas,o lodo e a lama. Enfim, tudo. O que nós, cães, não conhecemos, não existe; o que não tem nome, não existe. Assim, a existência da floresta deve-se a nós. Este é um Mundo Cão.


A Senhora Sucuri não gostava de ouvir aquele discurso. Era o animal maior da floresta, falava tão bem como o Senhor Cão, e, como ele, usava chapéu. "A língua pertence a todos", dizia, "da mesma forma que um rio constrói o seu caminho e depois é ele esse caminho, assim nós fazemos uma lingua e a seguir ela nos refaz". A Senhora Palanca achava o mesmo, mas era mais dramática: "A língua sou eu!"; e o Senhor Papagaio repetia: "A língua sou eu, a língua sou eu!". Tímida, a Corça propunha uma outra formulação: "A minha Pátria é a minha língua"; e o Senhor Papagaio repetia: "A minha Pátria é a minha língua, a minha Pátria é a minha lingua".

Um dia o Senhor Cão foi passear para a zona mais remota da floresta, como costumava fazer, empurrado pelo desejo de descobrir coisas novas às quais pudesse dar nome (e existência). A luz era escassa, húmida e verde, naqueles deslimites. Uma lama espessa escondia o chão. As próprias árvores pareciam perigosas.

Algumas tinham os troncos cobertos de picos, outras de resina ácida, flores de uma melancolia crepuscular devoravam tudo em seu redor.

Ali, meio imerso na lama, o Senhor Cão descobriu o esqueleto de um animal desconhecido. Aproximou-se para o estudar melhor, ansioso por lhe dar um nome, agregando-o dessa forma à floresta, ao universo, à imensidão das coisas existentes, mas não lhe ocorreu nada. Ficou assim muito tempo, rondando aquela morte que lhe desorganizava o pensamento. "Como te chamas?", perguntou, já desesperado, e então, para seu grande espanto, o esqueleto ergueu-se e respondeu: "O meu nome? Nunca tive nome.

O Senhor Cão assustou-se:

- O nome é um resumo da alma - disse -, tudo o que existe ou existiu, ou até que se acredita que possa vir a existir, tem de ter um nome.

O esqueleto chocalhou os ossos, indiferente à perplexidade do outro:

- Eu nunca tive. Vivi e morri sem que ninguém me nomeasse.

Naquela tarde os outros animais viram o Senhor Cão regressar a casa de cabeça baixa. Achava-se um falhado. Descobrira algo de novo na Floresta e não fora capaz de lhe dar um nome. Adoeceu de desgosto. Alguns dias depois, preocupada, a Senhora Corça foi saber o que se passava e encontrou o Cão às portas da morte.

"Morro", disse-lhe este, "sem ter cumprido o meu papel nesta Floresta". E morreu.

Durante uma semana os animais choraram, dançaram e beberam o morto, conforme a tradição, e depois lançaram o seu cadáver ao rio, e o rio arrastou-o até à zona mais remota da floresta.

Anos depois, ou séculos, não importa, o cão foi parar junto às ossadas do animal desconhecido.

- Estou a conhecer-te - disse o esqueleto. - Tu és o cão. Aquele que se julgava o dono da língua. Mas morreste e a língua continua. Os outros animais servem-se dela, agora, como se fosse um perpétuo Domingo.

- Já alguém te deu um nome? - quis saber o cão - Só isso me interessa.

O outro riu-se:

- Sim - disse -, chamam-me Escuridão.
Pepetela

Descanso do livreiro

 


Morte na primavera

Na tarde em que o menino enterrou no quintal seu gato atropelado, os passarinhos, talvez por ser o primeiro dia de primavera, pareciam cantar com mais entusiasmo do que nunca.


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Um haicai é o mais arisco dos seres poéticos.

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Quando o poeta ergueu a mão para o arco-íris, um fiozinho multicolorido emaranhou-se no seu dedo indicador.

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O poeta social quer somar ao seu tempo de aposentadoria a época em que, desconhecendo Engels e Marx, defendia os direitos das flores e dos passarinhos.

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Um soneto se emenda. Um sonetista, jamais. Tenha ele sessenta, setenta ou oitenta anos, sempre pode surpreender e, no meio da mais pacata das reuniões, sacar do bolso com a mão trêmula mais uma de suas enferrujadas armas de catorze tiros.

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É um poeta assim assim: nem muito bom nem muito ruim.

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Por trilhos retos ou tortos, nós havemos de chegar. Logo estaremos tão mortos quanto um morto deve estar.

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O lugar mais adequado para um sofá há de ser aquele em que ele melhor possa acolher a preguiça vespertina do gato da casa e do sol.

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Alguns poetas são ainda festejados por um soneto que escreveram muitos anos atrás. Outros são reverenciados por nunca terem escrito nenhum.

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Esta madrugada, acordei sacudindo-me todo, como fazem as aves antes de voar. Cheguei a pensar que conseguiria, mas logo a esperança se foi e voltei a ser um homem triste deitado no escuro.

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Um gato não tem donos. Tem amigos, se lhe agradarem e se o merecerem.

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Na autobiografia, o poeta sonetoso atribui sua métrica impecável à habilidade que ganharam seus dedos nos anos em que, para sustentar seus cisnes, trabalhou como caixa num banco.
Raul Drewnick