segunda-feira, julho 17

O original e a cópia

No dia infindável,
no centenário banco de farmácia,
discutem passarinho
como se fosse polícia municipal.
Carece discutir alguma coisa,
senão o tempo vira mármore
gelado
e todas as pessoas viram mármore
roído, desbotado; de jazigo.
Discute-se a vária cor do sabiá,
o voo particular do sabiá,
o canto divino do sabiá,
superior à flauta de Lilingue.
Protesta Lilingue,
retira-se, flautista indignado.
Silêncio de sem-jeito.
Seu Paulinho Apóstolo rompe o mal-estar:
— De todos os sabiás da redondeza
(e abrange, mãos em concha, o orbe terráqueo),
desde o coleira ao laranjeira,
o que eu destaco pela melodia,
que é dom de Deus, sei lá, de anjos cantores,
é o sabiacica.
Todos se erguem, estupefatos:
— Mas não é sabiá! É papagaio!
Só imita sabiá, o porcaria!
Seu Paulinho Apóstolo sorri
de tamanha besteira:
— Bobagem de vocês, o sabiá
é que vive imitando sabiacica.
Carlos Drummond de Andrade, "Boitempo – Esquecer para lembrar"

Ainda bem que choro

Digo-te o que ouço, invejas-me o ouvido, a piedade das pessoas ergue-se em uníssono neste refrão: « ouvido invejável, ouvido invejável» , onde quer que eu vá, gabam-me o ouvido, como às raparigas feias se gaba o sorriso. Ouvia apenas metade das frases, era uma distraída deliberada, sem paciência para as conversas de circunstância e sem capacidade para distinguir os timbres, os seus nós secretos de solidão, ternura ou desconsolo. Agora todas as vozes me inquietam e mesmo sozinha falo em voz alta, para preencher este nevoeiro de gesso em que habito. Não sei ser cega, não nasci cega, não posso esquecer o que perdi — tenho desejo da visão, um desejo físico, concreto, feito de suores e ansiedade, um desejo sexual, maculado, absoluto. Nem imaginas como odeio as pessoas que me garantem, com música de elevador na voz, que é bom manter o desejo, a raiva, a vontade, que bom, a questão é canalizar positivamente tudo isso. Odeio-os, a esses conselheiros bondosos e às suas teorias do positivo e à auréola de tolerância que lhes envolve a garganta quando me incitam a que desabafe, que desabafar faz bem. Querem que além de cega seja santa, eruditamente santa, socialmente santa, que me porte bem, que aceite o carinho empenado pela piedade que têm para me oferecer. Podem chamar-lhe compaixão, socorrer-se da raiz etimológica de paixão partilhada, odeio-os. Pelo menos sou uma ceguinha má, dura de roer, imune às maviosas vozes da resignação.

*

Esqueçam-se de mim, todos, esta noite. Esqueçam-me. É impossível a uma cega tornar-se invisível. Ah, a terrível bondade daqueles a quem nenhum sentido falta. Esmagam-me de compaixão.

Falam-me alto, espaçadamente, como se eu também fosse surda. Agarram-me no braço, continuamente. Queria conhecer alguém que tivesse a sensibilidade de me tocar apenas com o olhar. Eu sei quando olham para mim. Mas precisamente eles evitam olhar para mim, não se olha uma aleijadinha. Deixem-me entrar nos vossos risos, deixem-me ser igual a vocês.

Perguntas-me por que choro. Ainda bem que choro, Sebastião. É sinal de que os meus olhos ainda servem para alguma coisa. Escoam o naufrágio do meu coração. Pedes-me que deixe que me seques as lágrimas, e começas a beijar-me os olhos — mas já não há beijos que possam acender-me os olhos, Sebastião.

*

A música das palavras estilhaçou-se no túnel de silêncio que a cegueira construiu dentro de mim. A cegueira cresce como um longo ouvido, sim — mas os que vêem não se apercebem do silêncio aterrador que se amplia nesse hiper-ouvido. O roer do tempo torna-se audível. Pouco a pouco torna-se mesmo o único ruido audível, um roer de castor, uma parada de castores trabalhando em uníssono nas circunvoluções do nosso cérebro, mastigando-nos os ficheiros da memória. Insónias dedicadas à tipologia dos azuis: azul-anil, azul-atlântico, azul-petróleo, azul-noite, azul-desespero.

Um dia desiste-se das cores, da insidiosa subtileza das cores. Desiste-se de se fazer de conta que se vive como os outros. Então declina-se a cegueira como revolução, porta de passagem para um outro mundo, a começar do zero. E falha-se, como falham as revoluções, suicidadas por essa arrogância ingrata que sofismamos em candura. Falha-se, porque ninguém pode, nem verdadeiramente quer, começar do zero. Que zero é o zero? O zero da pedra, o zero do Jardim do Éden com as suas maçãs biológicas e as suas serpentes conversadeiras?

Ou o zero do cem por cento de algodão, do microondas e das bombas nucleares? Que partícula do zero podemos decidir? Ser cego é não poder desistir dos sons. Esse órgão agigantado já não é um ouvido, um mecanismo humano, falível, atravessado pela mentira fácil, confortável, da visão. Acabaram-se os sorrisos, o próprio tacto cede aos seus equívocos. Só a voz não tem o poder de trair, esse poder fulgurante que determinou a prevalência do Homem sobre a Terra e esse trajecto circular, épico, entorpecente, a que se pôs o nome de progresso. A palavra inicial continha já em si o poder de ligar e o de dividir, a energia bélica que está na origem da arte e da guerra. A palavra é um utensílio sofisticado que serve para tapar a voz. Na amabilidade das palavras oculto o rumor de desolação que me treme na garganta — mas a cegueira conduziu-me a esse dom que eu não queria, de ver as vozes à transparência das palavras. Não tenho como me distrair: sou inteiramente vulnerável à brutalidade das vozes, aos sentimentos incontrolados que circulam nelas, mordendo como piranhas. Centro-me no sentido específico de cada palavra, tento anular a voz que ouço, transformá-la numa cortina de fundo — mas a palavra dança e decompõe-se, quebra-se em estilhaços de vidro que voam dentro do meu corpo-ouvido, ferindo-o, primeiro, e abrindo-o em chaga, depois, porque dentro do ouvido do que é o meu corpo agita-se uma corrida de criança atraída pelo brilho das coisas perigosas. Palavras estilhaçadas. Despalavradas.
Inês Pedrosa, "A Eternidade e o Desejo"

Os livros que você nunca leu

Conhece o romance “O Mundo Coberto de Penas”, de 1938? Trata da seca no Nordeste. Seus personagens são uma família de retirantes famintos seguindo por uma estrada com sua cachorra Baleia, que eles acabam comendo. O autor é Graciliano Ramos. E, antes que você diga que esse livro é plágio de “Vidas Secas”, vou logo dizendo que ele é o próprio “Vidas Secas”, com o infeliz título original que lhe foi dado por Graciliano e que a Editora José Olympio fez muito bem em corrigir.

Quantos outros romances não estarão nesse caso? “A Maçã no Escuro” (1961), de Clarice Lispector, nasceu como “A Veia no Pulso”. Mas Fernando Sabino, ao lê-lo ainda no manuscrito, argumentou que poderiam entender “Aveia no Pulso”, o que não era bem a ideia. Não que o livro tenha a ver com maçãs no escuro —é só uma imagem para designar algo difícil de pegar, de apreender.

Muitos escritores já quase se estreparam no título. “A Ilha do Tesouro” (1883), de Robert Louis Stevenson, ia se chamar “O Cozinheiro do Navio”; “O Grande Gatsby” (1925), de Scott Fitzgerald, “Incidente em West Egg”; e “1984” (1949), de George Orwell, “O Último Homem na Europa”.

E há os casos de livros que tiveram seus títulos simplificados pelos leitores. “Robinson Crusoé” (1719), de Daniel Defoe, chama-se, na verdade, “A Vida e as Estranhas e Surpreendentes Aventuras de Robinson Crusoé”; “Frankenstein” (1818), de Mary Shelley, “Frankenstein, o Moderno Prometeu”; e “Alice Através do Espelho” (1871), de Lewis Carroll, “Através do Espelho… e o que Alice Encontrou Lá”.

A peça “Bonitinha, mas Ordinária” (1962), de Nelson Rodrigues, é “Otto Lara Resende, ou Bonitinha, mas Ordinária”. Ao ver aquilo, Otto implorou para que Nelson o mudasse: “Vão achar que a bonitinha mas ordinária sou eu!”. Mas Nelson não mudou e, segundo ele, Otto estava só fingindo protestar —gostou tanto que até se ofereceu para pagar o neon na fachada do teatro.

domingo, julho 16

Leitura domingueira

 


O menino e o trem

A inauguração da estrada de ferro aconteceu com música. A bandinha tocou marchas, dobrados e maxixes para saudar o desembarque feliz dos primeiros passageiros. Construído pela administração da companhia que implantou a estrada de ferro, um barracão serviu como o primeiro ponto oficial do desembarque.

O trem passou a fazer parte da vida da cidade.

Na partida, os carregadores colocavam apressados malas e embrulhos pelas janelas dos vagões. Reservavam os lugares melhores para os seus fregueses conhecidos. Na chegada, sempre os mesmos carregadores recebiam malas e embrulhos pelas janelas dos vagões.

O trem era uma coisa viva que partia e chegava, trazendo as cargas de peixe, caju e coco. Pelo apito ficava-se sabendo da hora certa da partida e chegada. Encontros eram marcados pelo apito do trem, de manhã e à tarde, às vezes importantes.

Nos rastros do sonho, vejo o trem fagulhando, atritando, apitando. No vento, no verde, na várzea. Entre os passageiros segue com a conversa tola, velha e mansa. Gente de alpercata fuma na tarde de verão seu cigarrinho de palha.

Quando passa, o trem fala com as pessoas que estão no terreiro, nas portas e janelas das casas à beira da estrada. Na aurora, na tarde, na fumaça, lá vai o trem.

Quando ele deu o último apito na estação velha, não ficou fogo morto nem sucata. Nem qualquer sinal de fumaçazinha se perdendo no longe.

No menino permaneceu um percurso luminoso feito por vagões, indo e vindo, subindo e descendo por trilhos que tinham um tom marcante de vozes coloridas na paisagem.

Vagões levavam dias de sol e chuva, traziam a estação de magníficos sabores.

Moleques vendiam cordas de caranguejo na plataforma. Vovó Maria Conga mercava beiju de Água Branca, lugarejo que ficava distante alguns quilômetros da cidade pequena de Itabuna. Do tabuleiro de Vovó Maria Conga vinha o cheiro de mingau quente, atraindo na manhã os fregueses com o rosto de sono.

O trem dava ao menino momentos alegres de aventuras indescritíveis. Certo sentimento humano corria com o vento e formava com a natureza uma relação amiga.

Pela janela desfilavam vales e outeiros.

Gado manso no verde subia a encosta.

No céu nuvens como barcos, almofadas, rochas brancas.

O sol brilhava a manhã com fios de ouro nas folhas de capim.

A cachoeira batia nas pedras uma pancada formosa.

Os olhos do menino viajavam na paisagem.

Quando mais olhavam, mais queriam olhar.

E de olhar tanto nunca se cansavam.

Aos sábados havia uma algazarra na chegada.

Atos, ruídos e gestos propagavam-se pela plataforma.

No desembarque, como se fosse feita de papagaios e periquitos, mais aumentava a algazarra. No peito do menino, a tarde reverberava as cores do verão.

A paisagem acomodava-se ali no quarto, os olhos semitontos de sono. Reaparecia num sonho quente e puro, descendo e subindo pelos campos verdes do pequeno coração.

A propósito da neve úmida

Mas a fase de minhas devassidõezinhas estava terminando, e eu começava a ficar terrivelmente nauseado. Se era assomado pelo arrependimento, eu o enxotava: a náusea que ele causava era demasiada. Aos poucos, porém, fui me acostumando com isso também. Eu me acostumava a tudo, ou melhor, não me acostumava, propriamente, e sim, de certa forma, concordava voluntariamente em suportar. Mas eu tinha uma saída conciliadora, que era refugiar-me em tudo que fosse “belo e sublime”, em sonhos, naturalmente. Eu era um terrível sonhador, sonhava até por três meses seguidos, enfiado no meu canto, e creiam-me: nesses momentos eu não me parecia com aquele senhor que, na perturbação de seu coração de galinha, costurava uma pele de castor alemã à gola do seu capote. De repente me transformava em herói. Não admitiria meu tenente grandalhão na minha casa nem como visita. Já nem conseguia mais imaginá-lo. Agora é difícil dizer quais eram os meus sonhos e como eles podiam me satisfazer, mas o fato é que naquela época eles me satisfaziam. Aliás, mesmo agora eu me satisfaço parcialmente dessa maneira. Sonhos particularmente mais fortes e doces me vinham depois da devassidãozinha, vinham com arrependimento e lágrimas, com maldições e arrebatamentos. Aconteciam momentos tão bons de inebriamento, de tal felicidade, que, juro por Deus, não sentia dentro de mim nem sombra de deboche. O que havia era fé, esperança e amor. Acontece que, naquela época, o que eu acreditava cegamente era que por um milagre, por uma circunstância exterior qualquer, tudo de repente iria mover-se, alargar-se; que de repente surgiria o horizonte da atividade conveniente, nobre e maravilhosa e, principalmente, completamente pronta (exatamente qual seria eu nunca soube, mas o mais importante é que estaria completamente pronta), e eu surgiria de repente neste mundo de Deus nada menos que montado num cavalo branco e com uma coroa de louros. Um papel secundário eu nunca pude aceitar, e era por isso que na vida real ocupava muito tranquilamente o último lugar. Ou herói ou a lama, não havia meio-termo. Isso foi a minha perdição, porque, na lama, eu me consolava dizendo que em outras ocasiões eu era herói, e o herói encobria a sujeira: para uma pessoa comum, é vergonhoso sujar-se na lama, mas um herói está muito acima de tudo e não vai se sujar inteiramente, por isso ele pode sujar-se um pouco. É admirável que esses acessos de “tudo o que é belo e sublime” me vinham também durante minha devassidãozinha, e precisamente no momento em que eu me encontrava já no fundo; vinham como pequenos lampejos isolados, como que para se fazerem lembrar, mas, pelo fato de aparecerem, não a impediam; ao contrário, parece que a avivavam pelo contraste e vinham na medida exata para um bom molho. O molho, aqui, era constituído de contradições e sofrimentos, de uma análise interior martirizante, e todos esses suplícios e supliciozinhos conferiam um sabor picante e até um sentido à minha devassidãozinha – em suma, executavam perfeitamente a função de um bom molho. Tudo isso se dava não sem uma certa profundidade. E acaso eu poderia concordar com uma devassidãozinha de segunda, simples, vulgar, direta, de amanuense, e suportar toda essa sujeira? Que poderia haver nela para me seduzir e atrair para a rua à noite? Não, senhores, eu tinha uma escapatória nobre para tudo...


Porém, quanto amor, senhores, quanto amor eu experimentava nesses meus devaneios, nessas “salvações em tudo o que é belo e sublime”: embora fosse um amor fantástico que jamais se aplicaria a alguma coisa humana e real, ele era tão grande que nem se sentia necessidade de aplicá-lo à realidade, pois seria um luxo excessivo. Tudo, aliás, terminava sempre da maneira mais satisfatória, com a passagem preguiçosa e inebriante para a arte, ou seja, para as belas formas da existência, inteiramente acabadas, fortemente roubadas dos poetas e romancistas e que se adaptam facilmente a toda sorte de serviços e exigências. Eu, por exemplo, triunfo sobre todo mundo. Todos, evidentemente, viraram pó e são obrigados a reconhecer espontaneamente as minhas perfeições, mas eu os perdoo. Ora me apaixono, quando sou um poeta célebre e camerista da corte, ora recebo incontáveis milhões e logo em seguida sacrifico-os em prol do gênero humano e, na mesma ocasião, confesso diante do povo as minhas infâmias que, evidentemente, não são simplesmente infâmias, mas que encerram em si uma quantidade extraordinária de “belo e sublime”, algo “manfrediano”. Todos choram e me beijam (de outra forma, que idiotas eles seriam!), e eu parto, descalço e faminto, para pregar novas ideias e derroto os retrógrados em Austerlitz! Em seguida começa a soar uma marcha, é decretada a anistia, o papa concorda em deixar Roma e ir para o Brasil; depois há um baile para toda a Itália na Villa Borghese, que está situada na margem do lago de Como, que fora transportado para Roma especialmente para essa ocasião; depois há uma cena entre os arbustos, etc., etc. Será que senhores não sabem disso? Os senhores dirão que é vulgar e indigno expor tudo isso em praça pública, depois de tantos arrebatamentos e lágrimas que eu mesmo confessei. Por que seria indigno? Será possível que os senhores pensem que eu me envergonho de tudo isso e que tudo isso era mais idiota do que qualquer episódio de suas próprias vidas? Ademais, acreditem os senhores: algumas coisas estavam até bem resolvidas para mim... Nem tudo se passava no lago de Como. Aliás, os senhores estão certos: de fato era vulgar e indigno. Mas o mais indigno de tudo é que agora comecei a me justificar para os senhores. E mais indigno ainda é eu estar fazendo esta observação. Mas basta, senão isso nunca terá fim: sempre haverá uma coisa mais indigna que a anterior…

Eu não era capaz de ficar mais de três meses seguidos devaneando e começava então a sentir uma necessidade incontrolável de mergulhar na sociedade, o que, para mim, significava visitar o meu chefe de seção, Anton Anônytch Sétotchkin. Foi a única pessoa conhecida com quem mantive uma relação constante durante toda a vida, fato que, agora, até eu mesmo considero surpreendente. Mas, mesmo à sua casa, eu só ia quando entrava na fase oportuna, e meus sonhos atingiam tal felicidade que eu sentia uma necessidade imperiosa de imediatamente abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para isso, era necessário ter a presença de pelo menos uma pessoa concreta. Anton Antônytch recebia às terças-feiras e, consequentemente, a vontade de abraçar toda a humanidade tinha que cair sempre na terça-feira. Esse Anton Antônytch morava perto das Cinco Esquinas, no quarto andar, num apartamento de quatro peças, cada uma menor que a outra, com o teto baixinho, tudo meio amarelado e dando a impressão de economia. Viviam com ele as duas filhas e a tia delas, que servia o chá. As filhas tinham treze e catorze anos e ambas tinham narizinho arrebitado. Eu ficava terrivelmente constrangido na presença das meninas, porque elas cochichavam o tempo todo, dando risadinhas. O dono da casa geralmente permanecia no seu escritório, sentado num divã de couro em frente à mesa, em companhia de algum convidado de cabelos grisalhos, funcionário do nosso departamento ou mesmo de algum outro. Nunca vi lá mais de dois ou três visitantes, e eram sempre os mesmos. Conversavam sobre o imposto indireto, as licitações no senado, os salários, a produção, Sua Excelência, os meios de agradar, etc. etc. Pacientemente, eu ficava ali sentado umas quatro horas junto a essas pessoas como um idiota, ouvindo-as, sem coragem ou sem assunto para falar com elas. Sentia-me burro, vinham-me ondas de suor e parecia que estava tendo um ataque de paralisia, mas isso tinha seu lado bom e útil. Chegando em casa, por algum tempo desistia do meu desejo de abraçar a humanidade.

Pensando bem, eu ainda tinha um tipo de conhecido, o meu colega de escola Símonov. Eu tinha muitos ex-colegas de escola em Petersburgo, mas não me dava com eles e já nem os cumprimentava na rua. Talvez eu tenha pedido transferência para outro departamento justamente para não ficar junto deles e romper de uma vez por todas com a minha infância detestável. Que a maldição caia sobre aquela escola e aqueles terríveis anos de trabalhos forçados! Resumindo, eu me separei dos meus colegas assim que ganhei a liberdade. Restaram uns dois ou três que eu ainda cumprimentava quando encontrava. Um deles era Símonov, que na escola não se distinguia em nada, era quieto e constante, mas em quem eu percebi alguma independência de caráter e mesmo honestidade. Até nem acho que ele fosse muito limitado. Numa certa época, nós dois tivemos alguns momentos bastante agradáveis, mas que não duraram muito e, de repente, parece que foram encobertos por uma espécie de bruma. Aparentemente, essas recordações eram difíceis para ele, que parecia temer que eu voltasse ao antigo tom. Eu desconfiava de que lhe causava muita repugnância, mas apesar de tudo eu o visitava, pois não tinha certeza absoluta disso.

Certa quinta-feira, não suportando minha solidão e sabendo que naquele dia a porta de Anton Antônytch estava fechada, lembrei-me de Símonov. Quando subia para o quarto andar, estava exatamente pensando que esse senhor não se sentia à vontade comigo e que em vão eu o procurava. Mas, como sempre, tais reflexões, como que de propósito, incitavam-me ainda mais a me meter em situações dúbias, e eu entrei. Fazia quase um ano que eu não via Símonov.

Fiódor Dostoiévski, "Notas do Subsolo"

sábado, julho 15

Leitura com protetor solar

 


Agroval

… onde pululam vermes de animais e
plantas e subjaz um erotismo criador genésico
 M. Cavalcanti Proença

Por vezes, nas proximidades dos brejos ressecos, se encontram arraias enterradas. Quando as águas encurtam nos brejos, a arraia escolhe uma terra propícia, pousa sobre ela como um disco, abre com as suas asas uma cama, faz chão úbere por baixo — e se enterra. Ali vai passar o período da seca. Parece uma roda de carreta adernada.

Com pouco, por baixo de suas abas, lateja um agroval de vermes, cascudos, girinos e tantas espécies de insetos e parasitas, que procuram o sítio como um ventre.

Ali, por debaixo da arraia, se instaura uma química de brejo. Um útero vegetal, insetal, natural. A troca de linfas, de reima, de rúmen que ali se instaura é como um grande tumor que lateja.

Faz-se debaixo da arraia a miniatura de um brejo. A vida que germinava no brejo transfere-se para o grande ventre preparado pela matrona arraia. É o próprio gromel dos cascudos!

Penso na troca de favores que se estabelece; no mutualismo; no amparo que as espécies se dão. Nas descargas de ajudas; no equilíbrio que ali se completa entre os rascunhos de vida dos seres minúsculos. Entre os corpos truncados. As teias ainda sem aranha. Os olhos ainda sem luz. As penas sem movimento. Os remendos de vermes. Os bulbos de cobras. Arquétipos de carunchos.

Penso nos embriões dos atos. Uma boca disforme de rapa-canoa que começa a querer se grudar nas coisas. Rudimentos rombudos de um olho de árvore. Os indícios de ínfimas sociedades. Os liames primordiais entre paredes e lesmas. Também os germes das primeiras ideias de uma convivência entre lagartos e pedras. O embrião de um muçum sem estames, que renega ter asas. Antepassados de antúrios e borboletas que procuram uma nesga de sol.

Penso num comércio de frisos e de asas, de sucos de sêmen e de pólen, de mudas de escamas, de pus e de sementes. Um comércio de cios e cantos virtuais; de gosma e de lêndeas; de cheiro de íncolas e de rios cortados. Comércio de pequenas jias e suas conas redondas. Inacabados orifícios de tênias implumes. Um comércio corcunda de armaus e de traças; de folhas recolhidas por formigas; de orelhas-de-pau ainda em larva. Comércio de hermafroditas de instintos adesivos. As veias rasgadas de um escuro besouro. O sapo rejeitando sua infame cauda. Um comércio de anéis de escorpiões e sementes de peixe.

E ao cabo de três meses de trocas e infusões — a chuva começa a descer. E a arraia vai levantar-se. Seu corpo deu sangue e bebeu. Na carne ainda está embutido o fedor de um carrapato. De novo ela caminha para os brejos refertos. Girinos pretos de rabinhos e olhos de feto fugiram do grande útero, e agora já fervem nas águas das chuvas.

É a pura inauguração de um outro universo. Que vai corromper, irromper, irrigar e recompor a natureza.

Uma festa de insetos e aves no brejo!

Manoel de Barros, "Meu quintal é maior do que o mundo"

'Genocídio'


É possível sustentar com alguma aparência de exatidão que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento
Lin Yutang

A Turma

Eu também já tive turma, ou melhor, fiz parte de turma e sei como é importante em certa idade essa entidade, a turma. A gente é um ser racional, menos quando em turma. Existe, por exemplo, alguma razão para um grupo de pessoas sentar todo dia numa escadaria ou meio-fio e passar horas conversando? Você pode falar a um filho, por exemplo, que refrigerantes engordam e chocolates dão mais espinhas em quem já está na idade das espinhas. Ele nem ouvirá. Mas, se um dia a turma resolver, ele passará a tomar só água com limão e pegará nojo de chocolate. Você pode falar que cabelo tão comprido é incômodo, calorento, atrapalha, mas que nada, ele te pedirá dinheiro para comprar mais xampu. Agora, se a turma resolver cortar careca, ele aparecerá de repente careca no café da manhã e nem quererá falar no assunto – qual o problema em cortar careca? Você pode dizer que bossa nova é bom, e mostrar jornais e revistas, provar que só “Garota de Ipanema” já recebeu centenas de gravações em todo o mundo, mas ele aumentará o volume do rock pauleira ou da tecno-bost. Até o dia em que alguém da turma aparece com um CD de bossa nova e ele troca Axel Rose por Tom Jobim de um dia para o outro. A turma tem modas, como quando resolvem todos arregaçar as barras das calças, que usavam arrastando pelo chão. A turma tem traumas, como quando o namoradinho de uma se apaixona pela namoradinha de outro e ... A turma tem linguagem própria, uma variante local de um ramal regional da vertente adolescente da língua. A turma adora sentar na calçada e na praça e falar sobre o que viram em casa na televisão. A turma tem duplas de amigos e amigas mais chegados, e trios, e quartetos, que num grande minueto anarquista se misturam nas festas de aniversário. Ninguém da turma dança até que alguém da turma começa a dançar, aí dançam todos trocando de par até acabarem dançando todos juntos como turma que são. Um da turma se tatua, todos da turma querem se tatuar. Um bota uma argola no nariz, os outros, para variar, botam no lábio, na sobrancelha e na orelha e... A turma é isso aí, cara, uma reunião diária de espinhas e inquietações, habilidades e temperamentos, o baralho das personalidades se misturando, o jogo das informações e dos sentimentos rolando nas conversas sem fim, nas andanças sem cansaço, nas músicas compartilhadas, no refri com três canudos e uma empadinha pra quatro. Na turma pouco dá pra todos, todo mundo divide, cada um contribui, a turma se une partilhando e repartindo. A turma ri como só na turma se ri. A turma julga quando erramos. A turma castiga com silêncios e ironias.

A turma te chama, te reprime, te liberta, te revela, te rebela, te maltrata, te orgulha, te ama e te envolve, te afasta e te atrai, mas a turma é assim porque a turma é a turma. Até o dia em que – disse a todos meus filhos – cansamos de ter turma e passamos a ser gente. E todos me disseram que sou um chato, mas o primogênito hoje já concorda: o tempo da turma passa. Mas, aqui entre nós, como dá saudade!
Domingos Pelegrini, "Ladrão que rouba ladrão e outras crônicas"

Preto e branco

Perdera emprego, chegara a passar fome, sem que ninguém soubesse; por constrangimento, afastara-se da roda boêmia que antes costumava frequentar: escritores, jornalistas, um sambista de cor que vinha a ser seu mais velho companheiro de noitadas.

De repente, a salvação lhe apareceu na forma de um americano, que lhe oferecia emprego numa agência. Agarrou-se com unhas e dentes à oportunidade, vale dizer, ao americano, para garantir na sua nova função uma relativa estabilidade.

E um belo dia vai seguindo com o chefe pela Rua México, já distraídos de seus passados tropeços, mas, tropeçando obstinadamente no inglês com que se entendiam -- quando vê do outro lado da rua um preto agitar a mão para ele.

Era o sambista seu amigo.

Ocorreu-lhe desde logo que ao americano poderia parecer estranha tal amizade, e mais tarde incompatível com a ética ianque a ser mantida nas funções que passara a exercer. Lembrou-se num átimo que o americano em geral tem uma coisa muito séria chamada preconceito racial e seu critério de julgamento da capacidade funcional dos subordinados talvez se deixasse influir por essa odiosa deformação. Por via das dúvidas, correspondeu ao cumprimento de seu amigo de maneira mais discreta que lhe foi possível, mas viu em pânico que ele atravessava a rua e vinha em sua direção, sorriso aberto e braços prontos para um abraço.

Pensou rapidamente em se esquivar -- não dava tempo: o americano também se detivera, vendo o preto aproximar-se. Era seu amigo, velho companheiro, um bom sujeito, dos melhores mesmo que já conhecera -- acaso jamais chegara sequer a se lembrar de que se tratava de um preto! Agora, com o gringo ali ao seu lado, todo branco e sardento, é que percebia pela primeira vez: não podia ser mais preto. Sendo assim, tivesse paciência: mais tarde lhe explicava tudo, haveria de compreender. Passar fome era muito bonito nos romances de Knut Hamsun, lidos depois do jantar, e sem credores à porta. Não teve mais dúvidas: virou a cara quando o outro se aproximou e fingiu que não o via, que não era com ele.

E não era mesmo com ele.

Porque antes de cumprimentá-lo, talvez ainda sem tê-lo visto, o sambista abriu os braços para acolher o americano, também seu amigo.
Fernando Sabino

sexta-feira, julho 14

Adonias e Jorge no jardim

No domingo azul de verão fui fazer meu passeio matinal e aproveitar o banho de sol no jardim. Oportunidade em que vejo crianças no ritmo da infância brincando com os pombos, subindo na escadinha da pequena casa e descendo pelo caminho enladeirado feito com a madeira macia. Nessa hora da infância livre como sonho, sorridentes todas elas, com gestos contínuos que se propagam em ondas de alegria e cantares afoitos de passarinho, pelo chão e ar iluminados.

Foi então que tive uma surpresa agradável quando avistei aqueles dois senhores sentados em um dos bancos perto do coreto. Não havia dúvida, eram Adonias Filho e Jorge Amado, os consagrados romancistas, em conversa mansa, fraterna, provavelmente falando das coisas da terra onde nasceram. Das longes terras do sem fim em que uma civilização foi forjada com caracteres próprios graças à saga do cacau, o fruto que valia como ouro.


Aproximei-me deles, dei meu bom dia, disse da alegria em encontrá-los naquele momento marcado pelos céus. Eles sorriram ao mesmo tempo. Adonias foi logo dizendo que se sentia um privilegiado por ter seu nome escolhido para ser o paraninfo da Academia de Letras de Itabuna. Acrescentou que isso era generosidade dos membros da instituição, mas que não fazia justiça ao Jorge, que havia nascido em Itabuna, no distrito de Ferradas, na fazenda Auricídia. Jorge interveio frisando que a homenagem era justa. Disse que embora Adonias tivesse nascido em Itajuípe, antigo Pirangi, distrito de Ilhéus, era antes de tudo um grapiúna, um filho legítimo da civilização do cacau. Afinal, comentou, somos todos irmãos, filhos de uma mesma nação. Ressaltou que se dava como satisfeito em ser o patrono da cadeira 5, que tinha como fundador o escritor Cyro, um de seus autores emergentes preferidos, da geração que veio depois da sua, em terras grapiúnas, com Jorge Medauar, Hélio Pólvora, Elvira Foeppel, Sônia Coutinho, Telmo Padilha, Florisvaldo Mattos e Marcos Santarrita, entre outros.

Não preciso dizer o quanto me senti lisonjeado com a observação de Jorge, mas fiquei com um sorriso tímido, sem graça até, pois não esperava tanta gentileza por parte do célebre autor de Gabriela, Cravo e Canela. Sem dúvida, como o Adonias, Jorge era um autor grandão de nossas letras, eu não passava de um nanico.

Tanto Adonias como Jorge pediram que eu transmitisse aos membros da Academia de Letras de Itabuna (Alita), carinhosamente chamados de alitanos, que estavam sorrindo de contente com uma entidade que se dedicava com competência às letras, ainda na idade de 12 anos. Uma menina moça, mas que vinha fazendo com suas atividades continuas papel de gente grande, desempenho bonito, ao divulgar com amor a cultura.

Despediram-se, depois do fraternal abraço que recebi de cada um deles. Provavelmente iam participar de algum encontro de escritores promovido pelos anjos. Lá, no teatro do céu, atapetado de nuvem no ambiente, acariciado na plateia pelo vento suave, que abana como um leque sem fim os instantes do eterno.
Cyro de Mattos

Supere o abismo


 

Quer ser amado? Alugue os seus ouvidos

 A delícia dos livros está em que eles, repentinamente, nos abrem os olhos, e vemos então coisas que nunca havíamos visto. A diferença entre os textos científicos e os textos literários está em que, enquanto os textos científicos nos colocam diante da mesa metálica onde se dissecam os cadáveres, os textos literários nos colocam bem no centro da vida. Quando se lê literatura vive-se a vida de outras pessoas, em outros tempos, em outros lugares. Vidas que não existiram. Acabei de ler O livro do riso e do esquecimento, de Milan Kundera. Uma simples frase me deu um choque: “Nós escrevemos porque nossos filhos se desinteressaram de nós”. Sim, escrevemos porque somos seres solitários à procura de outros filhos. Ele conta a estória de uma jovem que trabalhava como garçonete num bar. Seu nome era Tamina. Tamina “fica sentada no bar, num tamborete, e quase sempre há alguém que quer conversar com ela. Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo? Ou não faz outra coisa senão olhar, muito atenta, muito calada? O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas conversam. Uma fala e a outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu...’ e começa a falar sobre si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu...’. Essa frase, exatamente como eu, eu... parece ser um eco aprovador, uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo: na verdade é uma revolta brutal contra uma violência brutal, um esforço para libertar o nosso próprio ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro. Todo o mistério da popularidade de Tamina é que ela não deseja falar sobre si mesma. Sem resistência, ela aceita os ocupantes de seu ouvido...” De repente, os diálogos comuns do dia a dia se me tornaram mais claros.

Rubem Alves, "Pérola feliz não faz ostra"

Martin

Martin é capaz de coisas de que sou incapaz. De abordar qualquer mulher em qualquer rua. Devo confessar que, desde que conheço Martin (e isso faz bastante tempo), tenho me aproveitado muito desse talento do meu amigo, pois gosto de mulheres tanto quanto ele, mas não possuo sua impetuosa audácia. Por outro lado, poderia censurar Martin por fazer da abordagem um exercício de virtuosismo considerado como um fim em si e, muitas vezes, não ir mais adiante. É por isso que ele se compara, não sem certa amargura, ao generoso atacante que dá bons passes para um companheiro de equipe, fazendo-o assim marcar gols fáceis e colher glórias sem grande esforço.

Na segunda-feira daquela semana, ao sair do trabalho à tarde, eu estava esperando por ele num café da praça São Venceslau, absorvido na leitura de um grosso livro alemão sobre a antiga cultura etrusca. Foram necessários muitos meses para que a biblioteca da universidade conseguisse para mim o empréstimo dessa obra na Alemanha. Naquele dia eu estava acabando de recebê-la; trazia-a comigo como uma relíquia e no fundo estava muito contente com o atraso de Martin, pois assim poderia finalmente folhear numa mesa de café o tão desejado livro.

Não posso evocar essas velhas culturas antigas sem uma espécie de nostalgia. De nostalgia e inveja, ao pensar sem dúvida na suave lentidão da história naquele tempo. A antiga cultura egípcia ocupa muitos milênios, a antiguidade grega durou perto de mil anos. Sob esse aspecto, a vida do ser humano como indivíduo é uma imitação da história humana: a princípio mergulhada numa imóvel lentidão, depois acelerando aos poucos e cada vez mais. Martin faria quarenta anos dentro de dois meses.

Milan Kundera, "Risíveis amores"

O bisavô e a dentadura

Eu ouvi esta história de uma amiga, que disse que isso aconteceu, de verdade, em Montes Claros, Minas Gerais.

Para contar a história, é preciso imaginar uma velha fazenda antiga. Dentro da fazenda, uma vetusta (socorro, que palavrão!) mesa colonial, muito comprida, de jacarandá, naturalmente. Em volta da mesa, tudo que mineiro tem direito para um bom almoço: tutu, carne de porco, linguiça, feijão-tropeiro, torresminho, couve cortada bem fina... e nem posso descrever mais, porque já estou com excesso de peso, só de pensar: hum, que delícia!

A família era enorme e comia reunida, em volta da toalha bordada: pai, mãe, avó, avô, filhos, netos, sobrinhos, afilhados, a comadre que ficou viúva, a solteirona que era irmã da vó da Mariquinha... e o bisavô Arquimedes. O bisavô Arquimedes usava dentadura.

Naturalmente, cada integrante tinha a sua frente o seu saboroso prato de tutu, couve, torresmo, feijão-tropeiro, carninha de porco, linguiça, etc. e tal. E todos mastigavam e repetiam porque a fartura, ali, em Montes Claros, naquele tempo, era um espanto, de tanta! E cada um, evidentemente, tinha o seu copo. Pois os copos e o bisavô Arquimedes, diariamente, sofriam a seguinte brincadeira:

-- Toninho, ocê vai beber desse copo ai, na sua frente? Olha que o bisavô deixou a dentadura dele de molho, bem no seu copo, Toninho, na noite passada!

-- Num foi no meu, não: foi no copo da Maroca! O bisavô deixou a dentadura dentro do copo da Maroquinha!

-- Ó gente, num brinca assim que eu fico cum nojo, uai!

O velho bisavô Arquimedes ouvia, sorria, mostrando a dentadura.

Quando chegava o doce de leite, o queijinho, a goiabada e uma tal de sobremesa que tem o nome de "mineiro de botas", que tem queijo derretido, banana, canela, cravo, sei lá mais que gostosuras, o pessoal comia, comia. E depois de comer tanto doce, a sede vinha forte, e a chateação começava, ou recomeçava, ou não terminava.

-- Tia Santinha, não beba do copo da dentadura do bisavô, cuidado! Tenho certeza de que a dentadura ficou no seu copo, de molho, a noite inteira!

O bisavô ouvia e ia mastigando, o olhinho malicioso, nem te ligo para a brincadeira, comendo a goiabadinha, o "mineiro de botas", o doce de leite, o queijinho... e mexendo a dentadura pra lá e pra cá, pois a gengiva era velha e a dentadura já estava sem apoio, Mas o bisavô tinha senso de humor... e falava pouco. O pessoal cochichava que ele era mais surdo do que uma porta. Bestagem, porque se existe coisa que não é surda, é porta: mesmo fechada, deixa passar cada coisa...

Um dia, de repente, o bisavô apareceu sem a dentadura. E como todos perguntaram para ele o que tinha havido, o velho Arquimedes sorriu, um sorriso banguela dizendo:


-- Ôces tavam pertubando demais, todos com nojo dela, resolvi não usar, uai!


Aí, a família ficou sem jeito, jurando que não iria falar mais da dentadura, que tudo fora brincadeira, que todos adoravam o velho Arquimedes, que ele desculpasse.


-- Tá desculpado, num tem importância. Eu já tava me aborrecendo com a história, mas tão desculpados. Mas até que tô achando bom ficar banguela: vou comer tutu e sopa... e doce de leite mole, ora!


A família insistiu, pediu perdão, mas o bisavô botou fim à conversa, dizendo:


-- Ocês num insista. Resolvi e tá resolvido. O dia que eu deixar de resolver, boto a dentadura outra vez!

E passaram-se vários dias. Ninguém mais fazia a brincadeira do copo. De vez em quando, o bisavô lembrava:

-- Tô sentindo falta...

-- Da dentadura, bisavô?

-- Não, da traquinagem de ocês... ninguém tá com nojo de beber água no copo, né?

-- Ora, o senhor não deve levar a mal, foi molecagem, a gente não faz mais, pode usar a dentadura, bisavô.

Um dia, de repente, o bisavô voltou a usar a dentadura. Todos na mesa se cutucaram e começaram a rir, muito disfarçado, quando bebiam água, pensando... sem dizer, pois haviam prometido.

Depois da sobremesa, boca pedindo água depois de tanto doce caseiro, o velho Arquimedes disse:

-- Ôces tão bebendo tanta água, sem nojo...

-- Bisavô, era brincadeira!

-- Eu também fiz uma brincadeira: durante todo esse tempo que fiquei banguela, minha dentadura ficou de molho, dentro do FILTRO!

Sylvia Orthof, "Quem conta um conto?"

quinta-feira, julho 13

Aqualouco

 


Humanidade

Depois de conhecer a humanidade
suas perversidades
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões
o que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguém pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
é horrível, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As péssimas qualidades

Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoísta interesseiros
Mas trata com cortesia
Mas tudo é hipocrisia
São rudes, e trapaceiros.

Carolina Maria de Jesus

O amor entre o trigo

Cheguei ao acampamento dos Hernández antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solitária pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.

A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto, empoleirados numa máquina debulhadora. Nunca conversavam. Falavam de tudo em tom de brincadeira, salvo quando lutavam. Mas a lutar eram ciclones— arrasavam tudo o que viam diante dos olhos. Eram também os primeiros nos churrascos em pleno campo, no vinho tinto e nas violas plangentes. Eram homens da fronteira, gente de que eu gostava. Estudantil e pálido, sentia-me diminuído ao lado daqueles bárbaros estudantes de actividade. E eles, não sei porquê, tratavam-me com certa delicadeza, que em geral não tinham para ninguém.

Depois do churrasco, das violas, do ofuscante cansaço do sol e do trigo, tinha de me arranjar como pudesse para passar a noite. Os casais e as mulheres sozinhas acomodavam-se no chão, dentro do acampamento erguido com tábuas recém-cortadas. Quanto aos rapazes, fomos destinados a dormir na eira. Elevava-se nela uma montanha de palha e podia meter-se na sua macieza amarela uma aldeia inteira. Para mim, tudo aquilo era uma inusitada incomodidade. Não sabia como devia estender-me. Pus cuidadosamente os sapatos debaixo de uma camada de palha de trigo, que iria servir-me de almofada. Tirei a roupa, enrolei-me no meu poncho e afundei-me na montanha de palha. Fiquei longe de todos os outros, que, desde logo e de modo unânime, se puseram a roncar.

Fiquei muito tempo estendido de costas, com os olhos abertos, a cara e os braços cobertos pela palha. A noite estava clara, fria e penetrante. Não havia Lua, mas as estrelas pareciam recém-molhadas pela chuva; e, por cima do sono cego de todos os outros, cintilavam só para mim no regaço do céu. Depois adormeci.

Despertei de súbito porque algo se aproximava de mim, um corpo desconhecido movia-se debaixo da palha e acercava-se do meu. Tive medo. Aquela coisa ignota encostava-se lentamente. Sentia quebrarem-se os filamentos da palha, esmagados pela forma desconhecida que avançava. Todo o meu corpo estava alerta, à espera. Devia talvez erguer-me ou gritar. Fiquei imóvel. Ouvia uma respiração muito próxima da minha cabeça.

De repente avançou uma mão para mim, uma mão grande, trabalhadora, mas mão de mulher. Percorreu-me a fronte, os olhos, todo o rosto, com doçura.

Depois, uma boca ávida colou-se à minha, e senti, ao longo de todo o corpo, até aos pés, um corpo de mulher que se apertava contra mim. Pouco a pouco o meu temor transformou-se em prazer intenso. A minha mão tacteou uma cabeleira com tranças, uma fronte lisa, uns olhos de pálpebras cerradas, suaves como borboletas. A minha mão continuou a procurar e toquei em dois seios, grandes e firmes, umas largas e redondas nádegas, umas pernas que me enlaçavam, e afundei os dedos num púbis como musgo das montanhas. Nem uma palavra saía nem saiu daquela boca anónima.

É difícil fazer amor sem produzir ruído numa montanha de palha, perfurada por sete ou oito homens mais, homens adormecidos que por nada do mundo deviam acordar. Mas a verdade é que tudo pôde ser feito, embora à custa de infinito cuidado. Um pouco mais tarde, também a desconhecida ficou bruscamente adormecida junto de mim. E eu, enfebrecido por aquela situação, comecei a aterrorizar-me. Em breve amanheceria, pensava, e os primeiros trabalhadores encontrariam a mulher nua na eira, estendida ao meu lado. Mas também acabei por adormecer. Ao despertar, estendi a mão, sobressaltado, e só encontrei um espaço morno, a sua morna ausência. Um pássaro começou logo a cantar e depois a sel.va inteira recheou-se de gorjeios. Soou uma apitadela de motor e homens e mulheres começaram a cirandar e a azafamar-se junto da eira e das suas lidas. O novo dia de debulha principiava.

Ao meio-dia almoçámos, reunidos em torno de umas largas tábuas. Eu olhava de soslaio enquanto comia, procurando entre as mulheres aquela que poderia ter sido a visitante nocturna. Mas umas eram demasiado velhas, outras demasiado magras, algumas eram jovenzinhas escorridas como sardinhas. Ora eu procurava uma mulher compacta, de bons peitos e traças compridas. De repente entrou uma senhora que trazia um pedaço de churrasco para o marido, um dos Hernández. Ela, sim, podia ser. Ao contemplá-la da outra ponta da mesa, julguei notar que aquela formosa mulher de grandes tranças me fitava com uma mirada rápida e me sorria com um sorriso ténue. E pareceu-me que tal sorriso se tornava maior e mais profundo, abrindo-se dentro do meu corpo.
Pablo Neruda, "Confesso que Vivi"