sexta-feira, julho 18

Amor declarado ao papel

A partir do domingo, 20 de julho, jornais, revistas e sites de todo o País começam a divulgar os primeiros anúncios da campanha mundial Two Sides, em favor da comunicação impressa. Com o mote “Você ama papel. Dá para entender”, as peças mostram a presença do papel e da mídia impressa na vida de pessoas de todas as idades e em diferentes situações e trazem informações variadas sobre a sustentabilidade do papel e da impressão. “É uma campanha sem precedentes no País e, por sua dimensão, promete mexer com a opinião pública, desfazendo mitos e disseminando informações corretas sobre a sustentabilidade da cadeia do papel e da impressão”, acredita Fabio Arruda Mortara, country manager da Two Sides Brasil.


Com articulação do Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo (Sindigraf-SP), da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e da Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), a Two Sides Brasil foi lançada oficialmente no início de abril e segue o mesmo conceito da campanha mundial, já disseminada por toda a Europa, Estados Unidos, Austrália e África do Sul. O próximo passo será uma pesquisa nacional para descobrir as preferências do público leitor e sua visão sobre os pontos fortes e fracos das mídias impressas e eletrônicas.

Vale-Cultura e mercado editorial


A ministra Marta Suplicy divulgou semana passada os primeiros dados da movimentação financeira do Vale-Cultura, dizendo “que há um consumo muito maior de livros e revistas”, e acrescentando que as editoras e livrarias haviam saído na frente e se preparado.

Bom, os números não mentem e informam que 88,09% dos gastos com o Vale Cultura foram feitos em empresas cujo CNAE as coloca na categoria de “Comércio Varejista de livros, jornais, revistas e papelarias” (4761-01).  O cinema veio em seguida, e depois a venda de instrumentos musicais, o segmento de CDs, as artes cênicas, com “outras atividades culturais” no fim da fila.  Ou seja, dos R$ 13,7 milhões consumidos em seis meses, R$ 12,112 milhões foram para livros, jornais, revistas e papelarias.

O que pensar disso tudo?

A primeira constatação, claro, é que isso é ótimo. Na verdade, o que todas as pesquisas sobre hábito de leitura indicam, sempre, é que a leitura é muitíssimo bem considerada pelos brasileiros. Para formação, informação, cultura, educação e lazer. E para a religião também (a esmagadora maioria dos leitores coloca a leitura da Bíblia como sua atividade preferida na área). O que atrapalha a leitura é realmente a dificuldade de acesso. Além dos que declaram não conseguir ler corretamente, ou que preferem outras atividades.

Outra informação importante da notícia que veiculou os números do Vale-Cultura é que a ministra anunciou esses resultados em um evento na Federação dos Sindicatos de Metalúrgicos da CUT, em S. Bernardo. A Ministra foi lá – e tem feito atividades semelhantes em outros segmentos – para estimular os sindicatos a incluir o Vale-Cultura na pauta das reivindicações nas campanhas salariais.

quinta-feira, julho 17

Imagem do Dia


Bebê também tem vez


O Bebelê é um projeto experimental da Barca dos Livros, na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, que começou em fevereiro com o objetivo de desenvolver o hábito e o contado com a leitura em crianças desde a gestação até 3 anos, que podem participar do projeto gratuitamente. Realizada a cada quinta-feira, reúne cerca de 12 famílias num espaço especialmente montado para receber os pequenos leitores. Uma equipe do projeto faz contação de histórias, musica­lização, exercícios de aproximação com os livros. 

Homenagem a Nadine

“Cada escritor ilumina um pouco o mundo”
Nadine Gordimer escritora sul-africana falecida esta semana enquanto dormia
(1923-2014) 

Falta de bibliotecas e as verbas da educação


Lei federal determina que, até 2020, todas as escolas do Brasil tenham bibliotecas, com, no mínimo, um livro por aluno matriculado. É lamentável verificar que a meta está longe de ser alcançada, como demonstra o Censo Escolar 2013, ao indicar que contam com esse equipamento apenas 12,4% dos estabelecimentos do Ensino Fundamental e do Médio das redes municipal e estadual do município de São Paulo. E estamos falando do Estado e da cidade com os maiores orçamentos nacionais. 

A ausência de bibliotecas em escolas públicas compromete as metas relativas à formação de novas gerações de leitores e a própria qualidade do ensino, considerando a importância dos livros e do ato de ler para os resultados do aprendizado. O Brasil precisa avançar muito nesse sentido, como demonstram as notas do exame internacional PISA, realizado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em abril último, foram divulgados os resultados da primeira avaliação da capacidade de resolução de problemas de matemática aplicados à vida real.

Participaram 85 mil estudantes, de 44 países. O Brasil ficou em 38° lugar, atrás apenas da Malásia, Emirados Árabes Unidos, Montenegro, Uruguai, Bulgária e Colômbia. Nos primeiro lugares encontram-se Singapura, seguida da Coreia do Sul, Japão e China. Aproximadamente 40% dos estudantes brasileiros que participaram da avaliação alcançaram os níveis 1 e 2 de conhecimento, que são os mais baixos. Somente 1,8% de nossos alunos conseguiu situar-se nos patamares mais altos (5 e 6), com capacidade de resolução de problemas matemáticos mais complexos. Dentre os estrangeiros, 11% conseguiram resolver as questões complexas.

O Pisa é realizado a cada três anos. Participam adolescentes com idade de 15 anos, ou seja, são os alunos que estão passando do Ensino Fundamental para o Médio. O exame é reconhecido internacionalmente como um dos parâmetros de avaliação dos conhecimentos de matemática, leitura e ciências. Na prova anterior, divulgada em dezembro de 2013, na soma dessas três disciplinas, o Brasil ficou na 58º posição, dentre 65 países.

No exame divulgado em abril, relativo à compreensão da matemática na vida real, uma das dificuldades de nossos estudantes foi a compreensão dos enunciados. Isso ratificou posições anteriores dos brasileiros no PISA. Em edições anteriores, inclusive quando avaliada a performance em leitura, também ficamos nos últimos lugares. A psicolinguista argentina Emilia Ferreiro, uma das maiores autoridades mundiais em alfabetização, que influenciou bastante os Parâmetros Curriculares Nacionais do Brasil, observa: “Para ensinar a ler e escrever é necessário utilizar diferentes materiais. Um livro só não basta. É preciso utilizar livro, revista, jornal, calendário, agenda, caderno, um conjunto de superfícies sobre as quais se escreve”.

Assim, não é sem razão que a indústria gráfica, por meio do Sindigraf-SP e da Abigraf-SP, entidades que a representam no Estado de São Paulo, mantêm o Projeto de Revitalização de Bibliotecas. Já foram entregues 16 desses equipamentos, com um acervo básico de livros, em municípios do interior paulista onde os alunos das escolas públicas não dispunham desse recurso. Acreditamos a sociedade civil, embora a educação seja obrigação constitucional do Estado, deva contribuir para que os estudantes de baixa renda tenham mais acesso aos livros.

A questão do ensino é uma das prioridades da indústria gráfica, e não apenas pelo seu justo interesse capitalista de que se imprimam mais livros no País. O significado da leitura e da educação transcende a essa questão econômica. Estamos falando de justiça social, democratização de oportunidades, acesso ao conhecimento e desenvolvimento socioeconômico.

Por isso, as entidades de classe que representam o setor — Abigraf Nacional, Abigraf-SP e Sindigraf-SP — aplaudiram a aprovação, na Câmara dos Deputados, do Plano Nacional da Educação (PNE). O item do projeto que prevê investimento gradativo de 10% do PIB na rede pública nos próximos dez anos foi pioneiramente sugerido no Congresso Brasileiro da Indústria Gráfica, em outubro de 2011, em Foz do Iguaçu, Paraná. A necessidade de mais dinheiro para o ensino é escancarada quando se constata que, na segunda década do Século 21, 88% das escolas públicas da cidade mais rica do Brasil não têm biblioteca.


*Fabio Arruda Mortara é o presidente do Sindicato das Indústrias Gráficas no Estado de São Paulo (Sindigraf-SP).    

quarta-feira, julho 16

Valor da biblioteca

Eduard Hildebrandt (1818-1869) detalhe
em aquarela da biblioteca de Humboldt
As bibliotecas precisam continuar enfatizando não só a necessidade de leitura como uma habilidade para a sobrevivência assim como a alegria da leitura, que às vezes esquecemos nesta correria pela alfabetização informal
Nancy Pearl

Podcast


Entrevista com Semiramis Corsi, autora do livro “Magia e Poder no Império Romano. A Apologia de Apuleio”, obra que integra a  coleção Propg Digital da Editora Unesp.

Incentivo à leitura em Miguel Pereira

Projeto fica na cidade por uma semana
O Projeto Mais Leitura chegou esta semana  a Miguel Pereira, no sul do Rio de Janeiro, oferecendo livros a preços populares de R$ 2 e R$ 3, numa estrutura montada na Praça João XXIII, no Centro, em frente ao Centro Cultural. O estande do projeto conta com até 10 mil livros de 700 títulos diferentes. O projeto foi criado em 2011 pelo governo do Estado do Rio de Janeiro a fim de incentivar a leitura e já alcançou a marca de 2 milhões livros vendidos. 

Quem disse que brasileiro não lê?


Estamos assistindo a uma paulatina mudança histórica. São várias as causas dessa transformação, dentre elas a democracia, a liberdade de imprensa e expressão
Os primeiros resultados do Vale Cultura, relativos ao movimento acumulado de janeiro a junho de 2014, questionam o dogma de que o brasileiro não lê: 88,01% dos R$ 13,65 milhões consumidos no período pelos portadores dos 215.249 cartões emitidos referem-se à compra de livros, jornais e revistas. Seguem-se o cinema (9,26%), instrumentos musicais e acessórios (1,32%), CDs e DVDs (0,66%) e artes cênicas, espetáculos e demais atividades culturais (0,75%).

Observa-se nessas estatísticas oficiais do Ministério da Cultura que, em números absolutos, os beneficiários do programa aplicaram pouco mais de R$ 12 milhões em leitura nos primeiros seis meses de sua execução prática. Trata-se de um dos mais importantes investimentos que se pode fazer, considerando os dividendos obtidos no mercado de trabalho, na formação escolar e acadêmica e na vida. Afinal, aquisição de informação e conhecimento contribui de modo muito significativo para a boa formação e o desenvolvimento dos indivíduos.

Os dados podem parecer surpreendentes ante o índice histórico de leitura no Brasil, muito abaixo do que se observa nas nações desenvolvidas e atrás também de alguns emergentes, como a nossa vizinha Argentina. No entanto, os resultados do Vale Cultura, incontestáveis quanto à opção pelos livros, jornais e revistas no primeiro semestre deste ano, referendam na realidade do mercado uma tendência que já havia sido apontada na última edição da pesquisa Retratos da Leitura.
Leia mais o artigo de KarinePansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro      

terça-feira, julho 15

O encanto dos velhos livros

Beleza em busca de conhecimento 1782
A bibliofilia tem muito de esporte, praticado diversamente por pobres e ricos. Uma é a bibliofilia dos esnobes endinheirados que compram livros raros ou luxuosos, não para os  ler, mas pela vã glória de os possuir. Outra é a bibliofilia dos que realmente leem com apetite e curiosidade insaciáveis e cuja ânsia de leitura se estende por bem dizer a todos os livros.
(...)
Na verdade, o culto que bibliólatra pobre vota aos livros é antes de nada um culto de leitor e não de simples colecionador.


(...)O bibliófilo pobre sai para a rua em peregrinações aventurosas pelos mercadores de livros usados. Não busca livros raros e caros, mas livros baratos e curiosos, que verdadeiramente convidem à leitura.

Até há bem poucos anos, o bibliófilo pobre, saindo a curiosear pelos livro-velheiros , topava às vezes algumas obras interessantes, já pouco achadiças. Eram encontros felizes, agradáveis, alegrias positivas, que custavam pouco dinheiro. Agora, é muito difícil. Os achados pouco dispendiosos são cada dia mais caros, porque os livros de sebo, com judaica cupidez, fariscam logo aquilo que mais pode interessar aos amadores de alfarrábios e, em consequência, cotam bem a sebosa mercadoria.
Adeus, pechinchas!

(Trechos do artigo de Eduardo Frieiro, em Os livros nossos amigos)

A viagem


O livro está nas ruas

Os espaços públicos por vários cantos do mundo servem de painéis para o livro. Os artistas desses painéis e instalações, além de comporem a paisagem urbana, inspiram aos passantes a correr a ler um livro. E assim as cidades ficam mais bonitas e agradáveis. 
Construção em praça de Omsk, na Rússia
Parede em Amsterdam, na Holanda
Mural em Chicago

segunda-feira, julho 14

Ler é brincadeira


A diferença


Vender livros não é o mesmo que ser livreiro. Qualquer um pode vender livros se for pedido pelo freguês, mas a relação do livreiro com seus livros é como a que tem o pastor com seu rebanho. É certo que vive deles, mas vive sobretudo para eles. É dizer, ama os livros. Ser livreiro é como estar enamorado pela vida

José Saramago

Viajar pela leitura

Ilustração: Quint Buchholz

         Viajar pela leitura

Viajar pela leitura
sem rumo, sem intenção.
Só para viver a aventura
que é ter um livro nas mãos.
É uma pena que só saiba disso
quem gosta de ler.
Experimente!
Assim sem compromisso,
você vai me entender.
Mergulhe de cabeça
na imaginação!

Clarice Pacheco (1989-2002)


Por que alunos abandonam biblioteca ao crescerem?


Levantamento feito pelo movimento Todos pela Educação para o Observatório do Plano Nacional de Educação (PNE), com dados da Prova Brasil 2011, mostra que o porcentual de alunos da rede pública que nunca ou quase nunca utiliza a biblioteca de sua escola salta de 18,5% para 35,1% do quinto para o nono ano do ensino fundamental no País. Em contrapartida, o número de estudantes que sempre ou quase sempre usa a biblioteca despenca de 57,4% para 29,9%, entre as mesmas séries. Outro dado também chama a atenção: o porcentual de professores que leva seus alunos para a biblioteca para “momentos de leitura literária e estudos em geral”. A taxa cai de 40,1% entre professores do quinto ano para 23% entre os do nono. 

domingo, julho 13

Mar de livros

Ilustração de Doug Salat

Uma frase de fama

Menos de 50 letras tornaram famoso o escritor hondurenho Augusto Monterroso (1921-2003) ao criar o microconto menor e mais badalado do mundo.

O dinossauro

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá".

Chega a hora de ler sem relógio

No Verão, somos mais indulgentes, menos atentos. É a hora de ler sem relógio
As leituras de Verão são diferentes das leituras de Inverno, como as do dia são das que fazemos à noite. Algo no ar e a luz que nos rodeia afeta o texto e sua compreensão. E todo leitor sabe que não o mesmo ler uma novela que nos deleita estendido na grama, ao sol, que lê-la aconchegado sob um cobertor na penumbra de um quarto de inverno. No Verão, a relação com um livro se faz íntima. Tátil, carinhosa, as páginas se contagiam de humidade dos dedos, adquirem o odor do corpo, a textura da pela humana. Ao contrário, sob um céu cinzento, um leitor é mais severo, recatado: a leitura se faz lenta, respeitosa, reflexiva. Até a má literatura muda com as estações: No Verão, somos mais indulgentes, menos atentos, e, enquanto que no Inverno nos mostraríamos implacáveis com um livro que começa “Jacques Saunière, o famoso conservador, caminha com dificuldade pelos corredores do Museu do Louvre”, envolvidos pelo calor e contentes como lagartos, continuamos lendo, demasiadamente letárgicos para determo-nos nas assombrosas faltas gramaticais e nas imbecilidades da história.

Pouco sabemos das leituras estivais de nossos antepassados. Uma tarde de Verão, Sócrates propôs a Fedro que fossem sentar-se à sombra de um plátano de onde o jovem leria o discurso de um tal Licio, do qual Fedro havia falado com entusiasmo, mas talvez essa leitura singular não seja um exemplo fidefigno das preferências de Verão do filósofo. Três séculos mais tarde, Cícero escreve a seu amigo Ático que, mesmo que este encontre um amante por mais apaixonado que seja, não lhe promete sua biblioteca, pois está destinada a ninguém mais do que ao próprio Cícero. Por “biblioteca”, dizem os classicistas, Cícero entendia “coleção de obras gregas” que o escritor romano lia durante os verões, em seu projetado retiro na vila de Lácio. 
Leia mais o artigo de Alberto Manguel, Llega la hora de leer sin reloj

Talvez não sejam os próprio livros que possuam qualidades próprias a uma atmosfera estival, ou uma atmosfera qualquer. Somos nós, leitores, que transformamos o livro segundo nossas circunstâncias e desejos, fazendo do “Dom Quixote” ou de “Viagem ao Centro da Terra” um livro de viagens, uma crônica de aventuras, uma novela psicológica, uma história de violência ou de humor