sábado, outubro 8

As diferenças

James Bolivar Pissarro
Um romance não é apenas um fenômeno linguístico. Na poesia, é difícil traduzir as palavras porque o que importa é o seu som, assim como seus significados deliberadamente múltiplos, e é a escolha das palavras que determina o conteúdo. Numa narrativa, temos a situação contrária: o universo que o autor construiu, os acontecimentos que neles ocorrem é que ditam o ritmo,, o estilo e até a escolha das palavras. A narrativa é governada pela regra latina, “Rem tene, verba sequentor” — “Prenda-se ao tema e as palavras virão” — ao passo que na poesia a formulação deve ser mudada para: “Prenda-se às palavras e o tema virá.
Umberto Eco, "Confissões de um jovem romancista" 

sexta-feira, outubro 7

Café e narguilé

 

Mona Trad Dabaji 

Um crente

Ao cair da tarde, dois desconhecidos se encontram nos corredores escuros de uma galeria de quadros. Com um leve calafrio, um deles disse:


- Este lugar é sinistro. Você acredita em fantasmas?

- Eu, não - respondeu o outro. E você?

- Eu, sim - disse o primeiro, desapareceu.
George Loring Frost, "Memorabilia"

A Fraternidade

 


O mais feroz e vil dos animais

Quando se extinguirá esta sociedade corrompida por todas as devassidões, devassidões de espírito, de corpo e de alma? Quando morrer esse vampiro mentiroso e hipócrita a que se chama civilização, haverá sem dúvida alegria sobre a terra; abandonar-se-á o manto real, o cetro, os diamantes, o palácio em ruínas, a cidade a desmoronar-se, para se ir ao encontro da égua e da loba.

Depois de ter passado a vida nos palácios e gasto os pés nas lajes das grandes cidades, o homem irá morrer nos bosques. A terra estará ressequida pelos incêndios que a devastaram e coberta pela poeira dos combates; o sopro da desolação que passou sobre os homens terá passado sobre ela e só dará frutos amargos e rosas com espinhos, e as raças extinguir-se-ão no berço, como as plantas fustigadas pelos ventos, que morrem antes de ter florido.

Porque tudo tem de acabar e a terra, de tanto ser pisada, tem de gastar-se; porque a imensidão deve acabar por cansar-se desse grão de poeira que faz tanto alarido e perturba a majestade do nada. De tanto passar de mãos e de corromper, o outro esgotar-se-á; este vapor de sangue abrandará, o palácio desmoronar-se-á sob o peso das riquezas que oculta, a orgia cessará e nós despertaremos.


Então, quando os homens virem esse vazio, quando se tiver de deixar a vida pela morte, pela morte que come, que tem sempre fome, haverá um riso imenso de desespero. E tudo explodirá para se desmoronar do nada, e o homem virtuoso amaldiçoará a sua virtude e o vício aplaudirá.

Alguns homens ainda errantes numa terra árida chamar-se-ão, encontrar-se-ão e recuarão horrorizados, aterrorizados consigo próprios, e morrerão. O que será então o homem, ele que já é mais feroz do que os animais ferozes, e mais vil do que os répteis? Adeus para sempre, carros deslumbrantes, fanfarras e famas; adeus, mundo, palácios, mausoléus, volúpias do crime e delícias da corrupção! A pedra cairá de repente, esmagada por si mesma, e a erva crescerá sobre ela. E os palácios, os templos, as pirâmides, as colunas, mausoléu do rei, caixão do pobre, carcaça do cão, tudo isso ficará à mesma altura, sob a relva da terra.

Então, o mar sem diques baterá tranquilamente nas praias e irá banhar as suas ondas na cinza ainda fumegante das cidades; as árvores crescerão, reverdecerão, e não haverá mão que as quebre e as destrua; os rios correrão nos prados floridos, a natureza será livre, sem homem que a oprima, e esta raça será extinta, porque era maldita desde a infância.
Gustave Flaubert, "Memória de um louco"

Mamão doce

Comer mamão doce como sobremesa depois da refeição do almoço.


Nada era igual. Doçura pura. Mastigava com prazer os pedaços adocicados da fruta.

Colocava com gosto na gaiola o pedaço do mamão para o passarinho. Não podia deixar de fazer isso, o bichinho merecia fazer o deguste prazeroso da fruta. Deu até para imitar o canto de vários pássaros depois que bicava o pedaço de mamão maduro. Sinal que se sentia bem com a vida que levava, embora seu canto fosse de um prisioneiro, sem voo, som e pluma pelos ares das estações estáveis. Um canto inútil nos dias contrários da gaiola. Sem beber dos ritmos da natureza, livres.

Passavam as estações sem ter a graça de viver lá fora.

Virou rotina para o dono ter que limpar a gaiola, depois que ele comia o mamão e cantava vários cantos, todos os dias.

Se sacudia alegre no espaço pequeno da gaiola, enquanto bicava e comia o mamão.

Limpar todos os dias a gaiola. Que coisa chata. Começou a se indignar com o passarinho. Comia o mamão, mostrava-se alegre, deixava a gaiola suja, aquele passarinho nojento.

Contrariado, imaginando como se sair daquela obrigação de limpar o que o passarinho sujava na gaiola.

“Deixe estar, seu dia vai chegar, não vai mais sujar.”

Dessa vez deixou o pedaço de mamão com um tantinho de coisa líquida dentro. O passarinho só deu um bicada no pedaço do mamão. Caiu nervosinho, sem canto, qualquer movimento que indicasse que ali na gaiola existia um bichinho que ficava alegre imitando o canto de outros quando acabava de comer seu pedaço de mamão.

O veneno fizera o efeito que esperava.

“Agora passarinho arreliento vá cagar e sujar na cidade dos nadas, lá não há mamão doce pra você comer prazeroso. Acabou qualquer tipo de canto, bicho imundo, teimoso.”

Assoviou, aliviado, como se tivesse se livrado de uma coisa que lhe dava desconforto, transtornava.

“Triluli, trilulá, bem que disse que seu dia ia chegar.”
Cyro de Mattos

quarta-feira, outubro 5

Miragem

 


Os donos da língua

A estória que vos vou contar aconteceu no tempo em que os animais falavam, ou melhor, em que falavam todos o mesmo idioma.

O Senhor Cão, o animal mais velho da floresta, era uma espécie de guardião do verbo. Na verdade via-se a si próprio como o legítimo proprietário da fala.

- A palavra foi criada pelos cães, os quais, por gentileza, a emprestaram aos outros animais - explicava aos filhos. - O vosso avô, o Velho Cão, andou por toda esta floresta, descobrindo e nomeando as coisas: rios, lagos, rochedos, montes e vales, árvores, ervas, flores, frutos, os pequenos insectos, nevoeiros, chuvas,o lodo e a lama. Enfim, tudo. O que nós, cães, não conhecemos, não existe; o que não tem nome, não existe. Assim, a existência da floresta deve-se a nós. Este é um Mundo Cão.


A Senhora Sucuri não gostava de ouvir aquele discurso. Era o animal maior da floresta, falava tão bem como o Senhor Cão, e, como ele, usava chapéu. "A língua pertence a todos", dizia, "da mesma forma que um rio constrói o seu caminho e depois é ele esse caminho, assim nós fazemos uma lingua e a seguir ela nos refaz". A Senhora Palanca achava o mesmo, mas era mais dramática: "A língua sou eu!"; e o Senhor Papagaio repetia: "A língua sou eu, a língua sou eu!". Tímida, a Corça propunha uma outra formulação: "A minha Pátria é a minha língua"; e o Senhor Papagaio repetia: "A minha Pátria é a minha língua, a minha Pátria é a minha lingua".

Um dia o Senhor Cão foi passear para a zona mais remota da floresta, como costumava fazer, empurrado pelo desejo de descobrir coisas novas às quais pudesse dar nome (e existência). A luz era escassa, húmida e verde, naqueles deslimites. Uma lama espessa escondia o chão. As próprias árvores pareciam perigosas.

Algumas tinham os troncos cobertos de picos, outras de resina ácida, flores de uma melancolia crepuscular devoravam tudo em seu redor.

Ali, meio imerso na lama, o Senhor Cão descobriu o esqueleto de um animal desconhecido. Aproximou-se para o estudar melhor, ansioso por lhe dar um nome, agregando-o dessa forma à floresta, ao universo, à imensidão das coisas existentes, mas não lhe ocorreu nada. Ficou assim muito tempo, rondando aquela morte que lhe desorganizava o pensamento. "Como te chamas?", perguntou, já desesperado, e então, para seu grande espanto, o esqueleto ergueu-se e respondeu: "O meu nome? Nunca tive nome.

O Senhor Cão assustou-se:

- O nome é um resumo da alma - disse -, tudo o que existe ou existiu, ou até que se acredita que possa vir a existir, tem de ter um nome.

O esqueleto chocalhou os ossos, indiferente à perplexidade do outro:

- Eu nunca tive. Vivi e morri sem que ninguém me nomeasse.

Naquela tarde os outros animais viram o Senhor Cão regressar a casa de cabeça baixa. Achava-se um falhado. Descobrira algo de novo na Floresta e não fora capaz de lhe dar um nome. Adoeceu de desgosto. Alguns dias depois, preocupada, a Senhora Corça foi saber o que se passava e encontrou o Cão às portas da morte.

"Morro", disse-lhe este, "sem ter cumprido o meu papel nesta Floresta". E morreu.

Durante uma semana os animais choraram, dançaram e beberam o morto, conforme a tradição, e depois lançaram o seu cadáver ao rio, e o rio arrastou-o até à zona mais remota da floresta.

Anos depois, ou séculos, não importa, o cão foi parar junto às ossadas do animal desconhecido.

- Estou a conhecer-te - disse o esqueleto. - Tu és o cão. Aquele que se julgava o dono da língua. Mas morreste e a língua continua. Os outros animais servem-se dela, agora, como se fosse um perpétuo Domingo.

- Já alguém te deu um nome? - quis saber o cão - Só isso me interessa.

O outro riu-se:

- Sim - disse -, chamam-me Escuridão.
Pepetela

Descanso do livreiro

 


Morte na primavera

Na tarde em que o menino enterrou no quintal seu gato atropelado, os passarinhos, talvez por ser o primeiro dia de primavera, pareciam cantar com mais entusiasmo do que nunca.


***

Um haicai é o mais arisco dos seres poéticos.

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Quando o poeta ergueu a mão para o arco-íris, um fiozinho multicolorido emaranhou-se no seu dedo indicador.

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O poeta social quer somar ao seu tempo de aposentadoria a época em que, desconhecendo Engels e Marx, defendia os direitos das flores e dos passarinhos.

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Um soneto se emenda. Um sonetista, jamais. Tenha ele sessenta, setenta ou oitenta anos, sempre pode surpreender e, no meio da mais pacata das reuniões, sacar do bolso com a mão trêmula mais uma de suas enferrujadas armas de catorze tiros.

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É um poeta assim assim: nem muito bom nem muito ruim.

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Por trilhos retos ou tortos, nós havemos de chegar. Logo estaremos tão mortos quanto um morto deve estar.

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O lugar mais adequado para um sofá há de ser aquele em que ele melhor possa acolher a preguiça vespertina do gato da casa e do sol.

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Alguns poetas são ainda festejados por um soneto que escreveram muitos anos atrás. Outros são reverenciados por nunca terem escrito nenhum.

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Esta madrugada, acordei sacudindo-me todo, como fazem as aves antes de voar. Cheguei a pensar que conseguiria, mas logo a esperança se foi e voltei a ser um homem triste deitado no escuro.

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Um gato não tem donos. Tem amigos, se lhe agradarem e se o merecerem.

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Na autobiografia, o poeta sonetoso atribui sua métrica impecável à habilidade que ganharam seus dedos nos anos em que, para sustentar seus cisnes, trabalhou como caixa num banco.
Raul Drewnick

sexta-feira, setembro 30

Ponto de luz

 


A morte do funcionário

Juliano Lopes
Em uma noite esplêndida, o não menos esplêndido funcionário encarregado de seção Ivan Dmítritch Tcherviakov estava sentado na segunda fileira do teatro e assistia pelo binóculo à apresentação de Os sinos de Corneville. Olhava e se sentia no auge da bem-aventurança. Mas, de repente... Nas narrativas, encontra-se com frequência esse “mas, de repente”. Os autores estão certos: a vida é tão cheia de acontecimentos inesperados! De repente, seu rosto enrugou, os olhos reviraram, sua respiração parou... Ele afastou o binóculo dos olhos, inclinou-se para a frente e... atchim!!! Espirrou, como vocês perceberam. Não se proíbe a ninguém e em parte alguma de espirrar. Camponeses e chefes de polícia espirram, e às vezes até conselheiros secretos espirram. Todo mundo espirra. Tcherviakov não ficou nem um pouco embaraçado; enxugou-se com o lenço e, sendo um homem educado, olhou em volta para ver se havia incomodado alguém com seu espirro. Mas então foi inevitável que ficasse atrapalhado. Ele viu que um velhinho, sentado à sua frente, na primeira fileira, enxugava cuidadosamente a careca e o pescoço com a luva e resmungava alguma coisa. Tcherviakov reconheceu no velhinho o general civil Bryzjálov, funcionário do departamento de viação.

“Eu cuspi nele!” – pensou Tcherviakov. – “Não é meu chefe, é de outro departamento, mas mesmo assim é embaraçoso. Tenho de pedir desculpas.”

Tcherviakov deu uma tossidinha, inclinou o tronco para frente e sussurrou no ouvido do general:

– Perdoe-me, Excelência, eu espirrei no senhor... Foi sem querer...

– Não foi nada, não foi nada...

– Pelo amor de Deus, me perdoe. Pois... eu não queria!

– Ah, sente-se, por favor! Deixe-me ouvir a cena!

Tcherviakov ficou confuso, sorriu com ar apalermado e olhou para o palco. Ele assistia à peça, mas já não sentia a mesma bem-aventurança. A preocupação começou a torturá-lo. No intervalo, aproximou-se de Bryzjálov, ficou andando por perto dele e, vencendo a timidez, balbuciou:

– Eu espirrei no senhor, Excelência... Perdoe-me... Eu... não tinha a intenção...

– Ah, já chega... Eu já esqueci, mas o senhor continua a falar no assunto! – disse o general, mexendo com impaciência o lábio inferior.

“Ele diz que esqueceu, mas tem maldade no olhar” – pensou Tcherviakov, olhando desconfiado para o general. – “E não quer conversa. Era importante explicar para ele que não tive nenhuma intenção... que é uma lei da natureza, senão pode pensar que eu quis cuspir nele. Pode não pensar agora, mas depois vai pensar!...”

Chegando em casa, Tcherviakov contou à mulher sua grosseria. Mas lhe pareceu que ela reagiu de modo muito leviano ao ocorrido. Apenas levou um susto, porém depois, quando soube que Bryzjálov não era do departamento do marido, sossegou.

– Apesar de tudo, vá procurá-lo e peça desculpas – disse ela. – Senão ele vai pensar que você não sabe se comportar em público.

– Mas aí é que está! Eu me desculpei, mas ele agiu de modo estranho... Não disse nem uma palavra que prestasse. E não houve tempo para conversarmos.

No dia seguinte, Tcherviakov vestiu seu novo uniforme de serviço, cortou o cabelo e foi procurar Bryzjálov para se explicar. Ao entrar na ante-sala, viu ali muitos solicitantes e entre eles o próprio general, que já tinha começado o atendimento. Após interrogar alguns solicitantes, o general levantou os olhos para Tcherviakov.

– Ontem, no “Arcádia”, se Vossa Excelência se recorda – começou a expor o encarregado de seção –, eu dei um espirro e... sem querer, respingou... Peço desc...

– Quanta bobagem... Só Deus sabe o que é isso! O senhor, o que deseja? – disse o general, dirigindo-se ao próximo solicitante.

“Não quer conversar!” – pensou Tcherviakov, empalidecendo. – “Significa que está com raiva... Não, isso não pode ficar assim... Hei de lhe explicar...”

Quando o general terminou o atendimento ao último solicitante e se dirigiu às dependências internas, Tcherviakov foi atrás dele e começou a balbuciar:

– Excelência! Se ouso incomodá-lo, é precisamente pelo sentimento de arrependimento, posso lhe assegurar!... Não fiz de propósito, o senhor sabe disso!
O general fez uma expressão de choro e um gesto de pouco caso com a mão.

– O senhor simplesmente está zombando de mim, cavalheiro! – disse ele, sumindo atrás da porta.

“Onde ele viu zombaria?” – pensou Tcherviakov. – “Não houve zombaria nenhuma! É um general, mas não consegue compreender! Se é assim, não vou mais me desculpar com esse fanfarrão! Que vá para o diabo! Vou lhe escrever uma carta, mas não o procuro mais! Juro, nunca mais!”

Esses eram os pensamentos de Tcherviakov enquanto ia para casa. Mas a carta para o general ele não escreveu. Pensou, pensou e não conseguiu redigi-la. Foi necessário ir pessoalmente se explicar no dia seguinte.

– Ontem vim incomodá-lo – balbuciou Tcherviakov, quando o general o olhou interrogativamente –, não para zombar de Vossa Excelência, como se dignou a afirmar. Eu estava pedindo desculpas porque espirrei e atirei respingos... e nunca pensei em zombar. Ousaria eu fazer uma zombaria? Se isso acontecer, significa que não haverá mais nenhum respeito para com as pessoas...

– Fora daqui! – vociferou o general, já azul e tremendo.

– O que, senhor? – sussurrou Tcherviakov, entorpecido de pavor.

– Fora daqui! – repetiu o general, sapateando.

Algo rebentou dentro da barriga de Tcherviakov. Sem conseguir ver nem ouvir nada, ele recuou até a porta, saiu para a rua e foi embora arrastando-se. Chegou maquinalmente em casa, deitou-se no divã sem tirar o uniforme e... morreu.
Anton Tchekhov, "A dama do Cachorrinho e Outras histórias"

Carta a Deus

Caro Deus,

Se Você existe, e se é como O descrevem — onisciente, onipresente e, acima de tudo, onipotente —, com certeza não irá tremer em seu assento celestial ao ser confrontado por um simples livro [“Os Versos Satânicos”] e seu escrevinhador, não é? Os grandes filósofos muçulmanos com frequência discordam em relação à Sua relação precisa com os homens e os atos humanos.

Ibn Sina (Avicena) argumentava que Você, por estar muito acima do mundo, limitava-se a tomar conhecimento dele em termos muito gerais e abstratos. Ghazali discordava. Qualquer Deus “aceitável ao islã” conheceria em minúcias tudo o que acontecesse sobre a superfície da terra e teria uma opinião a respeito.
Bem, Ibn Rushd não aceitava isso, como Você há de saber se Ghazali estivesse certo (e não saberá se quem tivesse razão fosse Ibn Sina ou Ibn Rushd). Para Ibn Rushd, a opinião de Ghazali tornava Você muito parecido com os homens — com os homens com suas discussões tolas, suas dissensões mesquinhas, seus pontos de vista triviais. Imiscuir-se nos assuntos humanos estaria abaixo de Você, e O diminuiria. Por isso, é difícil saber o que pensar.

Se Você é o Deus de Ibn Sina e Ibn Rushd, nesse caso nem sabe o que está sendo dito e feito neste exato momento em seu nome. No entanto, se Você é o Deus de Ghazali, e lê os jornais, vê a TV e toma partido em disputas políticas e até literárias, não acredito que pudesse fazer objeções a “Os Versos Satânicos”, ou a qualquer outro livro, por mais ignóbil que fosse. Que espécie de Todo-Poderoso poderia se deixar abalar pela obra de um homem? Ao contrário, Deus, se porventura Ibn Sina, Ghazali e Ibn Rushd estivessem todos errados e Você não existisse, também, nesse caso, Você não teria problemas com escritores e com livros.

Chego à conclusão de que minhas dificuldades não são com você, Deus, mas com Seus servos e seguidores no mundo. Uma famosa romancista me disse, certa vez, que tinha parado de escrever ficção durante algum tempo porque não gostava de seus admiradores. Fico a me perguntar se Você compreende a posição dela. Obrigado por Sua atenção (a menos que não esteja prestando atenção: Veja acima).
Salman Rushdie, "Joseph Anton - Memórias"

quinta-feira, setembro 29

Em tempos escuros

 


Impertinências

Depois de cinco meses da minha vida durante os quais não consegui escrever nada que me satisfizesse e dos quais poder nenhum vai me ressarcir, embora todos tivessem obrigação de fazê-lo, vem-me a ideia de tornar a falar comigo mesmo. Toda vez que me interroguei de fato, sempre respondi, sempre houve o que arrancar de mim, deste amontoado de palha que sou há cinco meses e cujo destino parece ser o de pegar fogo e arder no verão mais rapidamente do que o espectador é capaz de piscar. Se ao menos assim fosse! E que assim fosse uma dezena de vezes, porque não me arrependo nem sequer dessa época desditosa. Meu estado não é o da infelicidade e tampouco o de felicidade, não é o da indiferença nem o da fraqueza, não é cansaço nem o interesse em outra coisa, mas o que é então? Que eu não o saiba há de ter a ver com minha incapacidade de escrever. E esta, creio compreendê-la, ainda que lhe desconheça a razão. É que todas as ideias que me ocorrem não me ocorrem desde a sua raiz, mas somente a partir de algum ponto intermediário. Tente segurá-las, tente segurar-se numa haste de grama que só começa a crescer a partir da metade do caule. Alguns por certo logram fazê-lo; os acrobatas japoneses, por exemplo, que sobem por uma escada de mão apoiada não no solo, e sim nas solas erguidas dos pés do companheiro semideitado, e que tampouco se apoia na parede, mas ergue-se apenas e tão somente no ar. Eu não consigo, sem falar que minha escada não dispõe nem mesmo daquelas solas nas quais se apoiar. Naturalmente, isso não é tudo, e uma tal demanda tampouco basta para me fazer falar. A cada dia, porém, cabe voltar ao menos uma frase na minha direção, à maneira como hoje se voltam os telescópios na direção do cometa. Então, um dia, eu talvez venha a comparecer diante dessa frase, atraído por ela, como aconteceu no último Natal, por exemplo, em que fui longe a ponto de só por pouco conseguir ainda me segurar e parecia estar de fato no último degrau de minha escada, apoiada, porém, tranquilamente no chão e na parede. Mas que chão! E que parede! Ainda assim, a escada não caiu, de tanto que meus pés a comprimiam contra o chão, de tanto que a alçavam contra a parede.

Catherine Clark Ellis
Hoje, por exemplo, cometi três impertinências, contra um cobrador no bonde e contra alguém que me apresentaram — foram, pois, duas apenas, mas elas me doeram como uma cólica estomacal. Teriam sido impertinências da parte de qualquer um, mas mais ainda provindas da minha pessoa. Saí, portanto, de mim, lutei no ar em meio à névoa e o mais grave foi que ninguém notou que também em relação a meus acompanhantes cometi uma impertinência, tive de cometê-la; precisei fazer a cara adequada e arcar com a responsabilidade; mas o pior foi um de meus conhecidos não ter entendido minha impertinência como um sinal qualquer de caráter, e sim como o caráter em si, chamando-me a atenção para ela e admirando-se dessa minha impertinência. Por que não permaneço em mim? Agora por certo digo a mim mesmo: “Veja, o mundo se deixa golpear por você, o cobrador e a pessoa que lhe foi apresentada permaneceram tranquilos quando você partiu, e esta última chegou mesmo a se despedir”. Só que isso não significa nada. Você não vai alcançar coisa nenhuma saindo de si mesmo, mas, por outro lado, quanto vai perder permanecendo dentro do seu próprio círculo? A essa pergunta, respondo apenas: também eu preferiria deixar-me surrar no interior do meu próprio círculo a desferir golpes fora dele, mas onde diabos está esse círculo? Por um tempo, eu de fato o vi na terra, como se demarcado com cal, mas agora ele não faz senão pairar em algum ponto ao meu redor, ou nem sequer paira.
Franz Kafka, "Diários: 1909 – 1923"

Flagrante de humor

 

Gerhard Gluck

Ao relento das ideias

Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo, sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele. Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das emoções e na emoção dos pensamentos. Estagnar ao sol, douradamente, como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso, indistinta entre coisas maiores. Ser isto com um conhecimento seguro, nem alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais… A música do faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no deserto do camelo vazio sem destino…

Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, "Livro do Desassossego"

Mãos

Quem olhasse as mãos de Francisco João de Azevedo segurando a amurada do navio veria as mãos de um operário. Não que

fossem grandes, eram no tamanho um tanto femininas, mas tinham a rudeza própria de quem se dedicava a ofícios manuais. A pele dos dedos estava partida, as unhas lascadas com alguma sujeira sob elas e calos que podiam ser entrevistos na extremidade das palmas. Muitas vezes, lidando na solidão de sua oficina, Francisco observava aquelas mãos, a parte de seu ser que mais conhecia, sempre inquietas como sua mente, enquanto o resto do corpo mantinha uma aparência retraída. Começamos a morrer pelas mãos, pensou com tristeza. As mãos tinham mais idade do que ele, estavam se desgastando com muita rapidez. O envelhecimento se estampara nas veias e nervos salientes, nas superfícies ásperas, nos dedos rudes de camponês. Mas ele não tinha vergonha do aspecto delas, no fundo sentia orgulho, pois lembravam seu passado de órfão afeito ao trabalho.

—O senhor parece não apreciar a Corte—disse uma senhora a seu lado.

Ele ergueu os olhos, cegando-se com o sol refletido nas roupas brancas e rendadas dela.

—De modo algum, muito me agrada a cidade.

—Deve ter estado aqui várias vezes; e já não vê novidades.

—Esta é a primeira.

—E nenhum brilho nos olhos? Nenhum sorriso de admiração?

—Estava rezando—mentiu.

—Ah, desculpe por ter incomodado—ela disse, voltando a fitar a terra, sempre mais próxima.

As pessoas ao redor faziam comentários sobre a cidade, tão bonita vista assim do mar, numa manhã de sol. Alguém identificava torres de igreja, um morro, o Paço Imperial, revelando a euforia própria de quem chega à Corte depois de ter deixado para trás a província e sonha viver grandes contecimentos. Francisco João de Azevedo também desejava experimentar o prazer, mas este não estaria na paisagem, nas vidraças da rua do Ouvidor, nem nos restaurantes ou no teatro. As coisas mundanas não o fascinavam nem um pouco. Em verdade, suas mãos não o seguravam ao navio, seguravam-no a si mesmo. Vestindo casaca preta, calças folgadas e botinas bem polidas, dava a impressão de um homem refinado. Só as mãos destoavam. Não serviam para o sinal da cruz, para se colocarem juntas, simbolizando contrição, e muito menos para ministrar santos sacramentos. Quando apertava a mão de outros religiosos, até causavam constrangimentos. O tecido adiposo das mãos dos padres, macias como estofados, contrastava com a aspereza da sua, e os religiosos se afastavam num susto quando elas se encontravam, como se tivessem tocado em um inseto asqueroso.

O vapor já estava ancorando, as pessoas acenavam para o porto, onde conhecidos e desconhecidos esperavam os viajantes, uns para receber parentes e amigos, outros, para conseguir algum trabalho. Padre Azevedo continuava agarrado à amurada. Não há viagens, chegadas e partidas para quem se dedica às próprias ideias.
Miguel Sanches Neto, "A máquina de madeira"

quarta-feira, setembro 28

Desembarque

 


Reino da estupidez

O diálogo com a estupidez
estraga a vida e corrói a alma.
Mesmo um estúpido de cada vez,
à doce paciência, leva a palma.
A estupidez é um muro de betão,
que fica diante de nós, teimoso:
não há argumento ou empurrão,

que mova um imbecil meticuloso.

O estúpido não sabe argumentar,
porque isso fica além das suas posses:
por isso, mais não faz do que alinhar

patetices, como se fossem doces.
A estupidez consome tempo e espaço
e, ao saber, prefere o estardalhaço!

Eugénio Lisboa