sexta-feira, outubro 6

Fosse no Brasil

Eu dirigia sem parar. Era bom. Era boa a sensação de estar em movimento. Sem saber para onde estava indo. Apenas dirigia. O tédio havia se apoderado de mim, logo de mim, que nunca me deixei afetar por ele. Nada que me passasse pela cabeça me animava. Por isso decidi fazer alguma coisa. Entrei no carro e fui para onde ele me levasse, se no caminho houvesse uma curva à esquerda ou à direita, eu virava à direita, e se, no cruzamento seguinte, pudesse virar à direita ou à esquerda, eu virava à esquerda. E continuei dirigindo assim. Acabei enveredando por uma estrada no meio da floresta, e os sulcos no chão foram se aprofundando até que senti o carro patinar. Segui em frente, até o carro finalmente empacar. Ensaiei dar uma ré mas não consegui, então estanquei de vez. Desliguei o motor. Fiquei sentado no carro. Pois bem, cá estou eu agora, cá estou eu agora sentado, pensei, e me senti vazio, como se o tédio tivesse se transformado num vazio. Ou, melhor dizendo, numa espécie de agonia, porque senti um medo em mim enquanto estava ali com o olhar fixo adiante, fitando o vazio, como estivesse diante do vácuo. Do nada. Que conversa é essa, pensei. Diante de mim está a floresta, só a floresta, pensei. Então foi até a floresta que esse ímpeto de dirigir me trouxe. Poderia dizer de outra maneira, que alguma coisa, não sei bem o quê, me conduziu a alguma outra coisa, fosse lá o que fosse, a uma coisa distinta. Contemplei a floresta à minha frente. A floresta. Sim, árvores próximas umas das outras, pinheiros, um pinhal. E entre as árvores o solo marrom, ressequido. Eu me senti vazio. E também com essa agonia. Do que eu sentia medo. Por que estava com medo. O medo era tamanho que não consegui nem sair do carro. Não me atrevi. Quer dizer, eu estava aqui, nessa estrada, no meio da mata, para onde dirigi e fiquei preso, quase onde a estrada termina. Vai ver por isso senti essa agonia, porque deixei o carro empacar no fim de uma estrada no meio da floresta, e bem aqui, no fim dessa estrada, não havia espaço para manobrar. Não lembrava, depois que peguei essa estrada, ter passado por algum trecho em que pudesse retornar. É bem possível. Sim, porque se eu tivesse avistado um retorno decerto teria parado o carro e dado meia-volta, pois dirigir por uma estrada tão estreita cortando essa paisagem de colinas onduladas não diminuía minha agonia, pelo contrário, só a aumentava. Mas não passei por nenhum retorno, provavelmente era isso que eu esperava acontecer o tempo todo, sim, avistar um lugar adiante para encostar o carro, engatar ré, avançar um pouco, talvez repetir esse movimento algumas vezes, sim, até conseguir manobrar e voltar para a rodovia, e então prosseguir para algum lugar, mas para qual, para um lugar em que tivesse gente, e lá eu pudesse comprar alguma coisa para comer, quem sabe um cachorro-quente, ou talvez, podia muito bem ser, chegar a uma lanchonete no acostamento da rodovia para fazer uma parada e comer. Era bem possível. De repente me dei conta de que já haviam se passado dias, não lembro quantos, desde a última vez que tinha feito uma refeição decente. Se bem que provavelmente é sempre assim com quem mora sozinho. Cozinhar é um estorvo, sim, é bem mais fácil recorrer ao que está à mão, uma fatia de pão, se houver pão em casa, com o que estiver na geladeira, na maioria das vezes maionese pura e simples e umas fatias de salame. Mas isso lá é coisa para ficar remoendo, como se eu não tivesse coisas mais importantes com que me preocupar. Mas com o que então. Que estupidez me perguntar, até mesmo pensar sobre isso. Estou com o carro preso numa estrada na floresta, não tem ninguém por perto, e não consigo tirá-lo daqui, então suponho que isso já seja o bastante para me ocupar, sim, ocupar a cabeça, como se diz, me ocupar imaginando como tirar o carro daqui. Pois o carro não pode ficar preso aqui como está agora. Óbvio que não. Tão óbvio que chega a ser uma bobagem pensar isso. Cá estou eu olhando para o carro e ele apenas me devolve o olhar, estúpido. Ou será que esse olhar estúpido é o meu. Repare como ele parece estúpido ali, enganchado num montinho, como se diz, no meio da estrada, que se prolonga mais alguns metros até se transformar numa trilha pelo coração da floresta. Que diabos eu vim fazer nesse lugar. Por que vim dirigindo até aqui. Por que eu tinha que inventar isso. Por que motivo agi assim. Nenhum motivo. Nenhum. E por que dirigi até essa estrada no meio da floresta. Por puro acaso, talvez. Sim, não há outro nome para isso. Mas o acaso, o que é mesmo. Não, não vou começar a pensar essas baboseiras. Nunca leva a nada. O que preciso agora é fazer meu carro andar. E depois manobrá-lo. Mas há outra coisa. Sim, porque não passei por nenhum retorno, se tivesse passado já teria feito esse retorno há muito tempo, porque dificilmente haveria lugar mais entediante para dirigir do que essa estrada no meio da floresta. Nada além de colinas suaves e de uma fazenda abandonada, sim, só podia estar abandonada, porque havia tábuas pregadas nas janelas da casa. A pintura, aliás, estava em péssimo estado, em alguns lugares já nem havia tinta. E metade do telhado do celeiro tinha desabado. É triste ver uma casa caindo aos pedaços. Lugares com os quais ninguém se importa. Mas por que alguém haveria de se importar. Antes de estar em ruínas era, sim, uma bela casa. Eu teria gostado de morar numa casa daquelas, gostaria de ter vivido naquela casa pela qual passei, mas mais cedo na vida, quando eu era jovem, não agora. Evidente que eu não moraria numa casa naquelas condições. No estado em que estava, é óbvio que ninguém moraria nela, nem pessoas nem sei lá o quê. Animais, talvez. Sim, talvez algum animal tenha se abrigado ali dentro. A casa deve estar tomada por ratos. Até ratazanas devem ter se mudado para lá.
Jon Fosse, Nobel de 2023, lança "Brancura" (Editora Fósforo) no final do mês

quinta-feira, outubro 5

Em paz

 

Leo Gestel

Quando chegar o dia, verás

Quando nada mais tiveres que cause a inveja dos homens e a atenção das mulheres, quando disseres adeus e não houver ninguém que te diga para ficar, quando os primeiros passos deres e começares a te afastar, verás como pode ser leve uma caminhada quando não se tem nada que cause a inveja dos homens e a atenção das mulheres.

***

Nem sempre o maior valor está ligado à alegria. Eu amava mais o amor no tempo em que o amor doía.

***

Ontem eu queria ser o melhor que poderia. Era um uma hora e outro outra hora. Ora era Pessoa, ora era Drummond, ora era outro que me seduzia. De um herdei o ceticismo, de outro o pessimismo. Com um aprendi a tristeza, com outro a melancolia. Com nenhum deles o mágico dom da poesia.

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De todos os poetas, os concretistas são os que prezam mais os bens materiais.

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Que bela cena é uma gata se espreguiçando, esticando-se languidamente, encompridando-se para alcançar seu sono no sofá.

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Agora que o gato morreu e o sofá é ocupado apenas pelo avô, o sol tem aparecido só esporadicamente na sala.

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A condessa tinha o sotaque de um marujo francês curtido em trinta anos de conhaque.

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E chegou o momento, afinal, de trocarmos nossa burrice natural pela inteligência artificial.

***

Quando Pessoa morreu, que pena. Com ele morreu uma centena. Quando eu morrer, não haverá perda. Que falta há de fazer um zero à esquerda?

Nas sombras das prateleiras...


Os livros se divertiam sombrios nas estantes como se preservassem as antigas leis férreas que somente os de casa compreendiam de verdade
Gyula Krúdy, "O companheiro de viagem"

O homem que roubou a torre Eiffel

Não foi tanto o roubo da torre Eiffel que me criou dificuldades, mas sim colocá-la de volta antes que alguém notasse. Devo afirmar, sem falsa modéstia, que o plano foi muito bem arquitetado. Vocês podem imaginar o que me custou — uma frota de caminhões enormes para carregar a torre até um daqueles campos planos e desertos que se vêem a caminho de Chantilly. Lá a torre podia facilmente ser colocada na horizontal. Durante a viagem, em uma manhã nevoenta de outono, havia bem pouco tráfego, e o pouco que havia era insignificante. Ninguém que tentou ultrapassar meus 102 caminhões de seis rodas notou que eles eram unidos entre si pela torre, como as contas de um colar: Os carros particulares chegavam a fazer menção de ultrapassar, mas quando os motoristas dos Fiat e Renault viam aquela fila de caminhões à frente, desistiam e conformavam-se em seguir a procissão. Por outro lado, os carros que vinham em sentido contrário tinham a estrada toda para eles: meus caminhões transformaram o trajeto Chantilly—Paris em uma longa estrada de mão única. Os carros passavam a toda velocidade e nem tinham tempo de notar que a torre estava apoiada sobre cada caminhão da corrente, como numa espécie de berço de centenas de metros de comprimento.

Tenho muito carinho pela torre, e fiquei feliz em vê-la, depois de tantos anos de guerra, cerração, chuva e radar, em repouso. No primeiro dia da mudança caminhei ao seu redor, de vez em quando tocando um dos suportes: o quarto andar parecia um pouco desconfortável no pedaço que passava por cima de um afluente manso e lamacento do Sena, então coloquei-o mais à vontade. Depois voltei para sua sede original — ainda temia que alguém notasse. Os grandes blocos de concreto estavam lá, sem nada em cima. Lembravam tanto túmulos, que alguém já havia deixado um maço de flores para os heróis da Resistência. Um táxi parou trazendo os últimos turistas da estação antes de, como andorinhas, rumarem para oeste com a chegada do inverno. O homem estava com uma garota e cambaleava um pouco ao caminhar. Curvou-se para ver as flores e ao endireitar-se ficou vermelho nas bochechas lisas e empoadas.

— É um memorial — disse.

— Comment? — perguntou o motorista de táxi.

A garota acrescentou:

— Chester, você disse que poderíamos almoçar aqui.

— Não estou vendo torre nenhuma — disse o homem.

— Comment?

— Veja bem — tentou explicar, gesticulando para dar maior ênfase —, você nos trouxe para o lugar errado. Fez um esforço. — Ici n 'est pas la Tour Eiffel.

— Oui. Ici.

— Non. Pas du tout. Ici il n 'est pas possible de manger.

O motorista saltou do carro e olhou ao seu redor. Fiquei um pouco nervoso, com medo de que desse pela falta da torre, mas ele voltou para dentro do carro e virou-se para mim dizendo, melancólico:

— Vivem mudando o nome das ruas.

Falei com ele em tom confidencial.

— Eles só querem almoçar. Leve-os ao Tour d'Argent. — Partiram satisfeitos e o perigo passou.

Obviamente havia sempre o risco de que os funcionários chamassem a atenção do público, mas eu havia pensado nisso. Eles recebiam semanalmente e quem seria bobo de admitir que seu local de trabalho desapareceu antes de esperar a semana terminar e ver se o dinheiro entrou normalmente? Os cafés das redondezas tornaram-se o grande ancoradouro dos funcionários da torre, mas todos evitavam sentar na mesma mesa de seus colegas de trabalho para não dar margem a conversas constrangedoras. Identifiquei um boné de uniforme por bistrô em uma área de uma milha quadrada: cada homem passava as horas de seu expediente sentado tranquilamente a uma mesa de bar, tomando uma cerveja ou um pastis dependendo do salário, levantando pontualmente para bater o ponto da saída. Não me pareceu que estivessem perplexos com o desaparecimento da torre. Era algo que podia ser convenientemente esquecido, como o imposto de renda. Melhor não pensar a respeito: se pensassem, alguém poderia esperar que tomassem uma providência.

Os turistas, obviamente, representavam o perigo maior. Aviões noturnos alegaram nevoeiro baixo, e o Ministério do Ar solicitou o "comentário" do Ministério das Relações Exteriores sobre várias reclamações de interferências no radar — um novo dispositivo russo na guerra fria. Mas logo espalhou-se a notícia, entre guias e motoristas de táxi, de que quando um turista pedisse para ver a torre Eiffel a melhor coisa a fazer era simplesmente levá-lo ao Tour d' Argent. A gerência do lugar não decepcionava, e a vista, nesses dias de outono, também era ótima, de modo que os turistas assinavam o livro de clientes a tanto por cabeça. Eu costumava ir para lá ouvi-los.

— Eu imaginava que era mais, como dizer... metálica — disse um deles. — Achei que dava para ver através dela.

— Expliquei-lhe que isso se aplicava perfeitamente ao estabelecimento em que se encontrava.

Férias nunca duram para sempre, e uma manhã, enquanto rodeava a torre aplicando um pouco de cuspe e polidor aos suportes, concluí que ela precisava voltar a funcionar antes que os empregados sentissem falta de seu salário. Só me restava esperar que, algum dia, ela encontrasse outra pessoa que, como eu, lhe desse a chance de passar uma temporada no campo. Garanto que não há risco nenhum. Ninguém em Paris admitiria que a ausência da torre passou despercebida por cinco dias — assim como um homem apaixonado não admitiria não ter notado a falta da amante.

Mesmo assim devolver a torre não foi fácil, tendo sido obrigado a lançar mão de alguns truques a fim de desviar a atenção das pessoas. Para facilitar, encomendei a um conhecido, que fazia figurinos teatrais, alguns uniformes da polícia, das Gardes Mobiles, das Gardes Républicaines e da Académie Française. Planejei uma reunião de poujadistes, uma rebelião de argelinos e um discurso pela morte de um crítico de teatro obscuro, que um amigo meu fez "disfarçado" de Ministro da Educação. Digo disfarçado, mas na verdade não havia a menor necessidade de mudar de nome, nem de cara, visto que ninguém lembrava quem ocupava essa pasta no gabinete de Monsieur Mollet.

Os turistas tiveram a última palavra e, curiosamente, enquanto admirava minha amada torre, que parecia dar piruetas na névoa da manhã, de volta a seu lugar, vi o mesmo americano chegando de táxi com a mesma garota. Ele olhou rapidamente ao seu redor e disse:

— Aqui não é a torre Eiffel.

— Comment?

— Ah, Chester — disse a garota —, onde é que nos trouxeram desta vez? Eles nunca acertam. Eu estou morrendo de fome, Chester. Estou sonhando com aquele Sole Délice que comemos.

Eu disse para o motorista:

— É o Tour d'Argent que eles querem — observei-os partir. A coroa para os heróis da Resistência havia murchado, mas eu peguei uma flor seca e desbotada, coloque lapela e acenei para a torre. Não ousei ficar mais tempo Poderia ficar tentado a roubá-la de novo.
Graham Greene

quarta-feira, outubro 4

Feirão de livros de antigamente

 


Os leitores não podem deixar de ser subversivos

De início, mantinha meus livros em rigorosa ordem alfabética, por autor. Depois passei a separá-los por gênero: romances, ensaios, peças de teatro, poemas. Mais tarde tentei agrupá-los por idioma, e quando, durante minhas viagens, era obrigado a ficar apenas com alguns, separava-os entre os que dificilmente lia, os que lia sempre e aqueles que esperava ler. Às vezes minha biblioteca obedecia a regras secretas, nascidas de associações idiossincráticas. O romancista espanhol Jorge Semprún mantinha Carlota em Weitnar, de Thomas Mann, entre seus livros sobre Buchenwald, o campo de concentração em que estivera, porque o romance começa com uma cena no Hotel Elefante, em Weimar, para onde Semprún foi levado depois de sua libertação. Certa vez, pensei que seria divertido construir uma história da literatura a partir de agrupamentos como esse, explorando, por exemplo, as relações entre Aristóteles, Auden, Jane Austen e Marcel Aymé (em minha ordem alfabética), ou entre Chesterton, Sylvia Townsend Warner, Borges, são João da Cruz e Lewis Carrol (dentre os que mais gosto). Parecia-me que a literatura ensinada na escola — na qual se explicavam as ligações entre Cervantes e Lope de Vega com base no fato de serem do mesmo século e na qual Platero e eu, de Juan Ramón Jiménez (uma história floreada da paixão tola de um poeta por um burro), era considerado uma obra-prima - era tão arbitrária ou constituía uma escolha tão aceitável quanto a literatura que eu mesmo podia construir, baseado nas minhas descobertas ao longo da estrada sinuosa de minhas próprias leituras e no tamanho de minhas próprias estantes. A história da literatura, tal como consagrada nos manuais escolares e nas bibliotecas oficiais, parecia-me não passar da história de certas leituras — mais velhas e mais bem informadas que as minhas, porém não menos dependentes do acaso e das circunstâncias.


Em 1966, um ano antes de terminar o colégio, quando se instalou o governo militar do general Onganía, descobri um outro sistema de organização dos livros. Sob suspeita de serem comunistas ou obscenos, certos títulos e determinados autores foram colocados na lista dos censores, e, nas batidas policiais cada vez mais frequentes em cafés, bares, estações de trem ou simplesmente na rua, tornou-se tão importante não ser visto com um livro suspeito nas mãos quanto estar com os documentos apropriados. Os autores proibidos - Pablo Neruda, J. D. Salínger, Maximo Gorki, Harold Pinter - formavam uma outra e diferente história da literatura cujas ligações não eram evidentes nem duradouras e cuja comunhão revelava-se exclusivamente pelos olhos meticulosos do censor. Mas não são apenas os governos totalitários que temem a leitura. Os leitores são maltratados em pátios de escolas e em vestiários tanto quanto nas repartições do governo e nas prisões. Em quase toda parte, a comunidade dos leitores tem uma reputação ambígua que advém de sua autoridade adquirida e de seu poder percebido. Algo na relação entre um leitor e um livro é reconhecido como sábio e frutífero, mas é também visto como desdenhosamente exclusivo e excludente, talvez porque a imagem de um indivíduo enroscado num canto, aparentemente esquecido dos grunhidos do mundo, sugerisse privacidade impenetrável, olhos egoístas e ação dissimulada singular (“Saia e vá viver!”, dizia minha mãe quando me via lendo, como se minha atividade silenciosa contradissesse seu sentido do que significava estar vivo.) O medo popular do que um leitor possa fazer entre as páginas de um livro é semelhante ao medo intemporal que os homens têm do que as mulheres possam fazer em lugares secretos de seus corpos, e do que as bruxas e os alquimistas possam fazer em segredo, atrás de portas trancadas. O marfim, de acordo com Virgílio, é o material de que é feito o Portal dos Sonhos Falsos; segundo Sainte-Beuve, é também o material de que é feita a torre do leitor.

Borges disse-me certa vez que, durante uma das manifestações populistas organizadas pelo governo de Perón em 1950 contra os intelectuais da oposição, os manifestantes gritavam: “Sapatos sim, livros não”. A resposta - “Sapatos sim, livros sim”- não convenceu ninguém. Considerava-se a realidade a dura, a necessária realidade em conflito irremediável com o mundo evasivo e onírico dos livros. Com essa desculpa, e com efeito cada vez maior, a dicotomia artificial entre vida e leitura é ativamente estimulada pelos donos do poder. Os regimes populares exigem que esqueçamos, e portanto classificam os livros como luxos supérfluos; os regimes totalitários exigem que não pensemos, e portanto proíbem, ameaçam e censuram; ambos, de um modo geral, exigem que nos tornemos estúpidos e que aceitemos nossa degradação docilmente, e portanto estimulam o consumo de mingau. Nessas circunstâncias, os leitores não podem deixar de ser subversivos.
Alberto Manguel, "História da leitura"

Morrer com os livros

Há uns dias falei de destruir livros em bibliotecas e livrarias, e hoje o livro de que falarei vem a propósito. Diz-se que o autor checo Bohumil Hrabal afirmou ter vivido apenas para escrever Uma Solidão demasiado Ruidosa, romance que se tornou obra de culto para todos os que acreditam que os livros não vão morrer nunca, apesar de muitos os terem, ao longo do tempo, condenado à morte, sobretudo ditadores e líderes religiosos para quem o que traziam escrito podia ser uma ameaça ao seu poder. Mas nem a Inquisição nem a Censura fascista ou comunista foi capaz de matar a memória, e a palavra escrita e, até ver, os livros importantes continuam a ser escritos e lidos contra a barbárie e a arrogância da ignorância. Hanta, o protagonista deste romance de Bohumil, prensa livros e papel há trinta e cinco anos e, não resistindo a ler uma frase aqui e outra ali, acabou por tornar-se um homem extremamente culto que, entre a miséria e muitas canecas de cerveja, cita Hegel e Lao-Tsé. De há muito para cá, numa cave infecta e cheia de ratos (que também vão parar à prensa de vez em quando), separa das enormes pilhas de papel os livros que o mandam destruir e tem, por isso, toneladas de obras literárias no seu quarto de dormir, o que ninguém sabe e poderia perturbar realmente a sua paz. Mas eis que chega a grande prensa tecnicamente desenvolvida (que, na verdade, dispensará o seu trabalho manual), bem como os rapazes e raparigas com fardas coloridas e cursos superiores que são os novos prensadores a mando da nação... Que será do pobre Hanta e dos seus livros? Com um final inesquecível, este romance (que foi censurado na sua época, ensina que o riso silencioso dos livros se ouve sempre, mesmo entre as engrenagens de uma prensa).

A inesquecível Beatriz

Relembro hoje aquela a quem chamarei Beatriz, alegria de minha vista e de minha vida, saudade alegre, prazer de sempre, clarinada matinal, doçura.


Que sou eu em sua vida? Penso tranquilamente: nada, quase nada. Alguém que ela encontrou ao dobrar uma esquina e a acompanhou... lembro-me, eu devia levá-la apenas uma quadra adiante, porque nossos rumos eram diferentes. Mas a companhia era boa — fui um pouco mais adiante, era bom andar a seu lado na penumbra, eu era o Caminhante Premiado Pela Doce Companhia, fui andando. Quando nos separamos foi sem mágoa — Seja feliz! Seja feliz!

Dissemos isto com tanta vontade que acho que, afinal, temos sido felizes.

Ah!, quando penso em outras, que me dilaceraram o peito em troca de ilusões; quando penso em vós, minhas antigas amadas, agora que conheço Beatriz, tenho pena do que fui e do que sois, e pela primeira vez sinto-me infiel à vossa lembrança. Passai bem, princesas, adeus pastoras, rainhas das czardas, deusas que endeusei outrora, ainda hoje não vos quero mal, apenas sucede que sobreveio Beatriz; como alguém que viaja à noite em um trem e desperta porque o trem parou, e escuta o silêncio da noite e, no silêncio, o murmúrio de um córrego — assim é lua música, Beatriz: como a brisa que beija a cara do trabalhador cansado, suado, que se sentou um instante debaixo de uma árvore — assim é a tua mão, Beatriz; como, nas fainas de um barco negro, numa tarde de mar grosso, sobe à coberta o lúrido foguista, e olha o céu e vê o arco-íris, assim é a tua aparência, Beatriz. Entre tantas que trouxeram meu nome nos lábios (como a Liberdade de Rui Barbosa) e não me guardaram no coração; e as que me corroeram como ácidos (eu sorria!), as que traçaram com suas unhas estas rugas de minha cara; entre as que eu pensei terríveis e eram apenas vulgares; e as que amei de verdade e desamei devagar — entre todas, acima, casta, e fácil, alegre, linda e natural, eu te saúdo, Beatriz.

Pela tua risada, pela tua beleza, pela tua bondade, pela graça de teu corpo, pela tua amizade necessária e dada — entre todas te alcandoro e te abençoo, ó branca, ó alta, ó bela, inesquecível Beatriz!
Dezembro, 1956
Rubem Braga, "Recado de primavera"

segunda-feira, outubro 2

Prisioneiro

 


A casa do pastor

Passar por essa bela casa desperta em mim uma áurea de saudade e de nostalgia. Saudade de silêncio, calma e burguesia, nostalgia de camas confortáveis, bancos de jardim e olores de cozinha saborosa. Mais ainda, saudade de uma biblioteca, de tabaco e de velhos livros. 

Para pessoas como eu, seria maravilhoso viver aqui e ser um pastor. Especialmente para alguém como eu.

Se fizesse tempo ruim, eu aqueceria intensamente a casa, e debruçado numa dessas lareiras azuis ou esverdeadas, de vez em quando, chegaria até a janela, balançando a cabeça comovido pelo tempo. Mas, pelo contrário, se o tempo fosse bom, eu permaneceria longamente no jardim, cortando e amarrando minhas videiras, ou chegaria até a janela escancarada e, de pé, ficaria olhando as montanhas cinzas e escuras retomarem sua cor rosada e brilhante.

Abreviando: nessa casa eu não seria nenhum pastor senão o mesmo, inofensivo e instável peregrino de agora. Não seria nunca um padre, mas, ora um teólogo fantástico, ora um gourmet tremendamente preguiçoso perseguindo as garrafas de vinho e as jovens damas, ora um poeta e um mímico, ora nostálgico com o pobre coração cheio de medos e amargura. 

Dá no mesmo, se eu fosse padre aqui ou vagabundo na rua, é tudo igual com exceção de algumas poucas coisas com as quais eu me importo muito. É sentir que a vida palpita em mim, quer seja na ponta da língua ou na planta do pé, quer seja no prazer ou na tortura, que meu espírito seja vivaz, que possa transformar-se em inúmeras fantasias e formas, em pastor e em peregrino, em cozinheira e em assassino, em crianças e em animais, principalmente em pássaros e árvores também. Isso é muito importante, isso eu quero e preciso para a vida, e se um dia não puder ser mais assim e eu tiver que viver na chamada "realidade", então preferirei morrer.
Hermann Hesse

Eu, mutilado capilar

Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa. Faz uns vinte anos que o espelho delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa. Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimentos de horror.

Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e que antes de tombar teve nome ou pelo menos número.

A frase de um amigo piedoso me consola:

— Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.

Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos mas nenhuma de minhas ideias, o que acaba sendo uma alegria quando a gente pensa em todos esses arrependidos que andam por ai.

Eduardo Galeano

Vovô imortal, até morrer

Com 100 anos e um dia de idade, vovô Jake despertou na manhã seguinte para um doce dia de primavera. Sentou-se na varanda com uma garrafa do Velho Sussurro da Morte para ajudar a tirar o furador de gelo que sentia dentro de seu cérebro desde a noite anterior, e, quando se sentiu pronto para mais 100 anos, preparou um grande ensopado de carne de veado com pãezinhos para o jantar. Depois do jantar, ele e Miúdo repartiram o último pedaço do bolo de aniversário que tinha sobrado da festa. Observou e deu conselhos, enquanto Miúdo esboçava algumas de suas ideias para os entalhes dos postes, e então foi dar sua caminhada noturna.

Quando voltou, tomou mais uns dois goles extras de uísque para enganar o frio, tirou as roupas até ficar só de ceroulas, foi para a cama, leu um artigo numa velha Argosy sobre um mercenário no Amazonas que fora adotado por uma tribo de caçadores de cabeças, casara-se com as graciosas filhas gêmeas do cacique, tivera cinco filhos e andava pelado até os missionários chegarem, e com eles o inferno e todas as nossas escapadas ousadas do fogo eterno. Não achou a matéria muito ruim, mesmo que fosse besteira. Apagou a luz e adormeceu.


Estava sonhando com as adoráveis irmãs gêmeas se aconchegando no seu corpo quando a lua cheia se ergueu sobre o rio, ofuscante e limpa. Ouviu um choro abafado, uma criança no outro quarto, anos atrás, e aí ouviu seu nome sussurrado, talvez Miúdo tentando acordá-lo, ou uma das belas filhas do cacique murmurando seu nome no sono. Escutou atentamente na escuridão, uma concentração que parecia tirá-lo de si mesmo em uma suspensão vazia. Escutou o próprio coração parar de bater, o último encher de pulmões deixá-lo em um silêncio luminoso. Esperou, totalmente quieto. Escutou seu choro suave retornar em sua carne, desvanecendo-se em direção à lua. E então um sussurro de asas enquanto era erguido.

Podia sentir, pelo jeito como era levado, que não se tratava de anjos, não podia conceber que fossem anjos, tinha tanta certeza de que eram patos, que nem se incomodou em abrir os olhos. Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:

– Ora, com os diabos, fui imortal até morrer.

Esperou, mas não houve mais respiração. Sucumbiu por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem.
Jim Dodge, "Fup"

sábado, setembro 30

Leitura na areia


 

Do fim do mundo

Escrevo-lhe do fim do mundo. É preciso que o saiba. Amiúde as árvores tremem. Apanham-se as folhas. Têm uma imensa quantidade de nervuras.

Mas de que servem? Não há mais nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, incomodados.

Será que a vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou será preciso que tudo trema sempre, sempre?

Há também tumultos subterrâneos, e dentro de casa, como raivas que surgissem à nossa frente, como seres severos que quisessem arrancar confissões.

Não se vê nada, como se importasse muito pouco ver. Nada, e todavia treme-se. Porquê?

Henri Michaux, "Escrevo-lhe de um país distante"

Romance de coruja

Ave noturna, agoureira,
Não me apavora teu canto…
Lourival Açucena

Anoiteceu. Na moldura do oco no tronco da mangueira o vulto claro de Sofia aparece. As asas escuras, ferrugem com tintas de canela, destacam o papo alvacento, com listas horizontais feitas com tinta delicada de negro pálido. Na gorjeira, placas de matiz carregado, salientando-se como um colar de três voltas, condecorador. O bico curvo, forte, dá uma impressão de ferocidade meditativa que os olhos claros, límpidos, completam, no ar clássico de decisão e cisma estudiosa. Na altura das orelhas as penas se elevam, cucurutando como um boné de jogral. As patas, de dedos firmes, são garras, sabendo prender-se em qualquer galho, e também agarrar e suspender a presa, varando-a com as adagas das unhas implacáveis.

Equilibrada no rebordo, balança-se como medindo o espaço que escurece. Há uma lenta claridade invasora, leitosa, transparente, acariciante. É luar. Luar de agosto. Será noite de caça festiva e fácil. Esperança otimista de repleção antes do frio da madrugada.

As pupilas negras de Sofia restringem-se concentricamente. Pisca. Bem desejaria ela explicar quanto é mentirosa a lenda obstinada que a diz ver de noite quando não enxerga de dia, deslumbrada pela claridade cegante do sol. Nem tanto. Verdade é que não pode ver sem luz, sem alguma luz. De noite cerrada, bem trevosa, nada distingue, nada caça, voando baixo, quase às apalpadelas, temendo esbarros e batidas nos espinhos, nas urtigas, nas cascas ásperas e rugosas que a molestam, arrancando-lhe as penas da garganta e do peito.

É uma Strix flammea, Gmel, a Effraie dos poemas de França, a sinistra “rasga-mortalha” na sinonímia popular, coruja de igreja que também vive em oco de pau, imóvel e assombradora. Eleos dos gregos. Aluco dos latinos, Sofia precisa de luz mesmo difusa e tênue para agir. Ao entardecer, quando a luminosidade se arrasta nos retardados crepúsculos de verão, até que a noite torne o arvoredo maciço, é o tempo ideal para as proezas da coruja alvacenta.

É a hora em que os animais se recolhem e os pássaros zombeteiros e atrevidos, que irritam sua impassibilidade soturna, procuram os ninhos. Miríades de insetos revoam. Também há uma fauna noturna e rastejante, amiga deste horário. Morcegos e ratos pululam. Gô e Quiró saem para caçar, levando seu povo esfomeado.

Sofia ouve maravilhosamente e pode fechar ou abrir o pavilhão, movimentando sua coroa de penas, obstrutora. O bico é imóvel nas duas partes, como o dos papagaios, alcançando maiores proporções preadoras que escorregam pela garganta enorme, deglutindo ratos e morcegos inteiros. O estômago generosamente encarrega-se de expelir o couro peludo em forma de bolinhas. O bico permite bicoradas decisivas e também o rumor estalante de castanholas, sinal de intranquilidade e também de pacificação digestiva. Seu andar de velho marujo não a leva para longe mas aproxima-a de quem deseja ver de perto. O voo é macio, silencioso, pesado, graças à penagem mole que a reveste. Há, entretanto, corujas – e Sofia é uma delas – denunciadas às vezes por um súbito ranger quando voam mais baixo que o habitual. Parada, resfolega ou ressona surdamente, com imprevistas representações sônicas de estrangulamento estertorante. Por sua culpa é que a fama se espalhou, de anunciadora da morte, arauto dos cemitérios e núncio fatal quando voa resmungando por perto da câmara dos agonizantes.

Seu canto – canto? – é um piado triste e continuado, com pausas sonolentas que iniciam a continuação. Na época do amor Sofia ulula sem parar, teimosa, chamando, indicando a coordenada geográfica ao seu amor ou indo buscá-lo, se ouve a cadência entrecortada da réplica interessada. Horas a fio repete a última vogal, bem acentuada, ligada mas clara, espécie monótona de um rosário merencório de mágoas inconsoláveis. Nas noites enluaradas, o canto parece sair da terra e de todos os recantos onde Sofia não esteja.

Em qualquer país do mundo e tempo da História a coruja é mensageira da morte infalível. Morávamos numa chácara e numa noite, muito doente meu pai, a coruja começou no seu ululado arrepiante. Meu pai fez um sinal a um dos criados. Um tiro estrondou e o servo voltou com a corujinha morta, pintada de sangue, olhos imensos, abertos, sem saber por que morrera. Meu pai disse a frase consagrada pelo uso: “– Vá agourar outro...”

O doente que vê morta a coruja que o agourou cantando perto da casa, sobreviverá.

Meu pai viveu mais 25 anos. No Rio de Janeiro, bairro da Tijuca, visitamos um doente. Inexplicavelmente ouvia-se a coruja cantar, teimosa e distante nos intervalos da conversa. Voltando, um grande político da época afirmou, convicto:

 “– Está perdido! Não ouviram a coruja cantar?”

O doente faleceu, efetivamente, na noite seguinte. Estes acasos credenciam Sofia irremediavelmente como o sinistro pássaro da morte, como dizia Plínio. Sofia é tão responsável pelas mortes humanas como pela orientação política dos Estados Unidos ou União Soviética.

Criei mais de um ano uma coruja e esta comia tudo que se lhe desse. Apenas, aristocraticamente, só comia sozinha, com lentidão e gravidade. Nunca a vi beber. Libertou-se numa noite de luar, véspera de “festa” (24 de dezembro) e não sei como se arranjou levando um pedaço de corrente de latão na pata direita. Jamais habituou-se com as pessoas de casa, mesmo com quem a alimentava. Olhava-os fixa, desesperadamente, meneando a cabeça chata e dando um rosnado meio bufado que seria cólera justa e desprezo. Nunca se dignou cantar. Comia camundongos e morcegos vivos. Mortos, recusava-os sem olhar. Servia-se de carne crua, insetos. Também desdenhava frutas. Inexplicavelmente apreciava pirão de leite, farinha de mandioca, leite e açúcar. Metia o bico, lambuzando-se como um periquito glutão. Não tentava beliscar os curiosos e também não permitia intimidades nem verificações por contato. O primeiro sinal de impaciência não era abrir o bico e sim uma ou duas asas, semiabrir. O bico aberto ocorria imediatamente a esta preparação. Dei-lhe nome familiar de Maroca. Não parecia, muito justamente, entender. Não deixou saudades a ninguém.

Serviu-me, para teste, sobre a conservação do seu terrível prestígio. Todas as pessoas que nos visitavam, ilustres e humildes, desde o Governador do Estado ao vendedor de carvão, surpreendiam-se com a coruja, aconselhando sua imediata libertação. Não convém manter a coruja presa. Reuniam todos os prejuízos multisseculares sobre Sofia, dizendo, muito sérios: “– Faz mal...”. Era tudo.
Decepcionou-me em muitas experiências. Uma delas era a constatação da coruja beber óleo das lâmpadas da igreja. Buffon afirma. Pus junto a Maroca a lâmpada de óleo do oratório de minha mãe (indignação de vários dias pelo sacrilégio) por duas vezes, mas a coruja deixou-o intacto. Buffon informa que o apetite de Maroca pelo óleo santo é maior se ele coagula... surtout si elle vient à se figer. Não pude obter óleo coagulado.

Na Europa é comum os estrigídeos reunirem-se durante o inverno nos palheiros, tolerando-se mutuamente pela necessidade de obter calor. Será um dos efeitos socializantes do clima. No Brasil, especialmente no Norte, que é um verão eterno, as corujas são adversários do gregarismo e vivem isoladas. Mesmo no cio, que é rápido, permanecem nas grutas, buracos do chão, muros antigos, torres de velhas igrejas, ocos de árvores robustas. O casal pode ser visto em certas noites de luar, cantando, trocando apelos mas separado, cada personagem na sua árvore privativa. Nunca vi duas corujas no mesmo pouso.

A versão popular é que lutam quando se encontram as do mesmo sexo macho. Não há delicadeza para a fêmea, fora ou dentro do clima amoroso. Vendo-a com uma boa presa, tenta arrebatar-lha. Um meu parente, caçador noturno de tatus, assistiu justamente a um desses combates aéreos pela tomada de uma ratazana que uma coruja levava e fora encontrada por outra, irmã de pai e mãe, decidia o informante. Terminava a justa o rato escapulindo.

No tempo em que o amor lhes sopra a tentação sedutora, cantam mais e é a época dos ululos que chamam a morte, mas realmente suplicam a presença da noiva requestada e tardia. Permutam os agouros até que o macho toma coragem e voa ao encontro do desejado par.

Por isso Sofia estava cantando naquela noite e não caçando os ratos de Gô ou os morcegos de Quiró.

Imóvel no galho, como que feita de porcelana, Sofia lança o seu chilrear conclamativo. As notas encadeiam-se, sem espaços, os u-u-u-u se estiram, conjugadas as terminações, obtendo uma única ressonância suplicativa. Ratos e morcegos ocultam-se ou fogem, avisados da proximidade da caçadora. A coruja quando caça não canta. Outra era a caça para o apelo ululante de Sofia.

O canto, firmado interminamente na derradeira vogal, é bem diverso dos outros constantes do repertório da Strix flammea perlata. Seu epitalâmio consiste naquela teimosa epizeuxe certamente irresistível aos ouvidos femininos da coruja, ouvinte e recatada.

Não é o piado longo e tétrico, levemente interrogativo às vezes, nem o estalo surdo e brusco que faz voando, rumor semelhante a um rompimento de tecido e daí a ideia fúnebre do rasga-mortalha. Nem a cadeia das notas se interrompe pelo prolongamento sobre uma vogal, espécie de marcação de uma neuma no entoado de uma jubilação gregoriana. O canto amoroso, terno e eterno nas vogais profundas e valorosas de intenção, possui um término variado, inflexões diversas que findam por um ralentando preguiçoso ou espaços intervalares que salientam as três derradeiras notas, cheias de subentendidos e chamamentos maviosos.

A repetição na mesma intensidade de certas notas dá à simulcadência um significado intencional, fazendo ressaltar na própria intermitência melódica o fraseado convencional do convite amoroso. O canto, monótono, inacabável, não é rigorosamente igual. Um floreio quase imperceptível, uma acentuação mais demorada em segundos, um final diverso, modifica a mensagem musical na noite branca.

Tanto é assim que a outra coruja respondeu por um pio longo, duas ou três vezes ressoando, como um “sim” de renúncia à resistência remorada e cruel. Sofia abriu as asas perladas, com o listrão vivo de ferrugem e canela heráldicas, e voou para a cajazeira matrimonial.

Estão agora as duas figuras hirtas, lado a lado, no galho curvo abrigador de tanta felicidade. Acabaram-se os cantos. Não há espaço entre os noivos. Apenas a sombra de uma ave que se volta, erguendo as penas do uropígio, que ocultam a vulva, acima o ânus. No mesmo ponto Sofia possui a breve verga muscular fecundadora. O contato é de minutos e o esposo feliz não acompanha a fêmea complacente. Voa, calado e jubiloso, para a casa distante. A fêmea tratará de todos os encargos.

Durante uns dois meses Sofia repetirá, todas as noites, o seu apelo de paixão transbordante, não sei se à mesma ou outra coruja sentimental. Viverá o seu romance na cajazeira ou em qualquer árvore de abrigo. Mas não fará ninho e nem alimentará os filhos de bico aberto na exigência do cibo. O ninho não precisa ser feito porque é oco-de-pau ou reentrância de muro, torre patinada, com um leve forro de palha ou capim sem arranjo circular, rústico quanto o da cegonha.

As aves de preia, as grandes ornamentais, poderosas de força, águias, abutres, gaviões, não têm amor prolongado pela pequenina ninhada. Expulsam os filhos bem cedo dos ninhos malfeitos, obrigando-os a buscar a vida batalhada, matando para comer. As aves humildes e fracas são, em sua maioria, as enamoradas da prole e da fêmea, as românticas que fazem serenatas, aquelas que buscam alimentos para o choco, sustentam os filhos com paixão e defendem o lar com sacrifício comovedor.

Certamente Sofia conhecerá os filhos a distância e os terá na classe de concorrentes à caça e rivais no futuro amor. Dispensa-se cordialmente de protegê-los ou morrer por eles. Nunca vi e nem soube que alguém encontrasse em ninho de coruja mais de uma ave adulta. Buffon, lui, toujours lui, informa que: “– Elle nourrit ses petits d’insectes et de morceaux de chair de soris”. Pode ser que exista no Brasil esta regra de que Sofia é uma consabida exceção.

Ponhamos, prudentemente, o eles no singular, ela. Buffon narra emocionalmente que prendera uma Effraie e esta, emitindo o seu grito de socorro, determinara que as companheiras corressem para junto da prisão repetindo o apelo amargurado e mesmo se deixassem prender nos laços, et s’y laisser prendre au filet. Suicídio pelo solidarismo. No Brasil a coruja evoluiu psicologicamente para o plano do egoísmo superior. Se contarem a Sofia esta notícia, balançará a cabeça ornamental, imaginando a resposta: “– Outras terras, outros costumes...”.

Sofia não faz ninho, ensinam, porque as aves noturnas não costumam construir suas residências. Não têm tempo oportuno porque as horas de caça coincidem com o horário apertado em que podem ver alguma coisa. Tendo que escolher entre o ninho e o alimento todas se decidem pelo segundo. O ninho é trabalho diurno. Os psitacídios veem deliciosamente de dia e nunca uma criatura humana chegou a encontrar o papagaio ocupado em fazer sua casa. Um ditado de Minas Gerais afirma, lógico: “– Quem tem asas para que quer casa?” É generalizar demasiado.

Um ditado do Ceará, recolhido por Leonardo Mota: “– Coruja é quem gaba o toco”. Toco é a residência. Até hoje não quis outro. Para que fazê-lo se já o depara feito a seu gosto?

Nos assuntos maternais a coruja é clássico exemplo devotado e completo. Incomparável à solicitude na procura de alimentos e cuidados minuciosos na manutenção e resguardo da progênie. Perpetuamente esfomeadas, exigentes e piantes, as corujinhas são satisfeitas com todos os sacrifícios e a coruja velha esvoaça, num ciúme de bom gosto, o toco de pau que esconde aos olhos profanos aquelas maravilhas.

É popular na Europa de onde veio para América o episódio com a raposa que ia iniciar seu almoço e consultava a coruja sobre os tabus alimentares. De todas as aves novas, a coruja recomendou unicamente as mais lindas e sedutoras, de aspecto irresistível no encanto imediato. Eram as horrendas corujinhas. Pequenas mal-ajambradas, a grande cabeçorra pelada desproporcional ao corpinho molenga e úmido, o bico aparado anunciando a bocarra incomensurável, a penugem branquicenta, molhada e suja, os olhos redondos, imensos, assombrados da própria hediondez, lembrando os restos de um vômito, repugnante e confuso. A raposa devorou-as com mau gosto e bom apetite. A coruja, inconsolável, ainda guarda rancor à falta de justiça estética da gente vulpina. Para o julgamento de todas as mães do mundo o modelo fiel é o da coruja, mater admirabilis.

Os insetos maiores, ortópteros e coleópteros, Sofia apanha-os no voo e os engole sofregamente. Não podendo mastigar, língua cartilaginosa e seca, não creio que tenha o sentido do paladar. Sabe, pela riqueza da experiência de tantas gerações, os melhores coeficientes nutritivos. Entre os insetos e os ratos e morcegos, especialmente os ratos novos e os camundongos vestidos de penugem cinzento-clara, fina como arminho, prefere os últimos e a perseguição é mais encarniçada e teimosa na captura dos roedores.

Vi muitas vezes nas vilas do interior, onde a matriz fica silenciosa ao cair da noite e há tranquilidade em todo o quadro da rua, as corujas-de-igreja, suiná, suinara, suindá, suindara, atacando os quirópteros, seguindo-os acesamente a ponto de esbarrarem na parede branca do templo, com o raspar violento da asa no obstáculo imprevisto. Um informador, digno de crédito pela idade e circunspecção, descreveu-me a pegada de um Gô, ratazana alentada e veloz que correu, defendendo a vida, no fio do beiral da casa enquanto Sofia o acompanhava em voo que se tornava mais e mais tragicamente baixo. O guabiru antes de ser fisgado pelo bico e garras da coruja soltou um guincho de pavor atroz, lamento e apelo de socorro que deveria estarrecer os companheiros distantes. Sofia agadanhou-o e passou voando pela calçada onde se encontrava o meu informador. A luz da lua mostrava perfeitamente o perfil estrebuchante do guabiru, sacudindo o seu inútil grito solicitador de auxílio. Foi dilacerado no cimo da torre iluminada pelo luar sereno.

Numa noite branca é que Sofia suspendeu Tim pelo dorso esverdeado e levou-o, imóvel e resignado, para final de sua ceia. Tim, calango verde listrado de negro, vagamundo e turista gratuito, fora em semanas anteriores o matador de um pirilampo. Sem querer, Sofia castigou-o pela sua falta de respeito artístico por uma pequenina obra-prima da criação. Apesar da obnubilação diurna Sofia é atraída pelas luzes domésticas. Fatalmente as corujas-do-campo ou as “buraqueiras” (Speotyto cunicularia, Temm), Caboré intrometido e curioso e mesmo Sofia, não resistem ao apelo cintilante e vão verificar de perto a origem daquele clarão, derramando sustos e recebendo protestos, tiros e pedradas reacionárias. As lâmpadas elétricas dos postes nas avenidas remotas e de pouco trânsito alta noite são inevitavelmente visitadas pelas corujas, visitas apressadas, meramente cerimoniosas, um círculo respeitoso ao derredor do foco antes de remergulharem na escuridão. É uma homenagem ao elemento misterioso cuja desacamodação às suas pupilas fá-las retraídas e sinistras, fora do convívio das aves, haloadas de lendas e seguidas de maldições seculares.

Vezes acompanham, virando lentas o pescoço móbil, os faróis que passam, não podendo apartar a vista daquele listrão que acorda a paisagem, mudando o cenário no lampejo atordoante. Quase dão o completo giro na cabeça, o bico no meio das costas, olhos parados, fosforescentes, seduzidos e encantados, abertos e contemplativos no deslumbramento inesquecível da visão rutilante.

As menores, inexperientes ou mais sensíveis, voam de encontro aos vidros dos para-brisas, cegas, fascinadas na ofuscação súbita daquele milagre perturbador de suas pupilas. O choque as sacode atordoadas e contusas para a margem da estrada. Viajando numa noite de escuro, de Goiânia para o Recife, o automóvel focou os olhos distantes de uma coruja que estava empoleirada num galho na curva do caminho. Vimo-la voar na direção do veículo e sentimos o embate do seu corpo no radiador. Quando a fui ver já estava morta; uma patinha crispava-se vagarosa na última convulsão. Manchas de sangue nodoavam-lhe a cabeça chata, de penas claras, ouro pálido. Os dois olhos grandes, desmesuradamente abertos, pareciam guardar a impressão imediata de uma revelação que lhe custara a vida. Estavam mais luminosos, molhados de sangue, vitoriosos pela conquista que fora aquela aproximação ansiada e definitiva. Matara-a a luz irresistível, fascinadora e fatal.

Na sua lenta e pesada diagonal, Sofia atravessou o céu tranquilo da madrugada e pousou, nobre e séria, no umbral da sua casa. Um instante alvejou seu vulto senhorial oscilando, balançando-se como velho marujo nas alturas do mastro grande. Ficou olhando a placidez das coisas adormecidas e a vida palpitante que continuava, terna e dominadora, matando, amando, morrendo para reproduzir-se.

Depois, apagou-se na sombra…
Luís da Câmara Cascudo, "in Canto de Muro"

O pequeno rei vira-lata

Todas as tardes, lá estava ele. Longe dos outros, o garoto se sentava na sombra do arvoredo, com as costas contra o tronco de uma árvore e a cabeça inclinada. Os dedos de sua mão direita dançavam debaixo de seu queixo, dançavam sem parar como se ele estivesse coçando o peito com uma incontida alegria, e ao mesmo tempo sua mão esquerda, suspensa no ar, se abria e fechava em pulsações rápidas. Os outros tinham aceito, sem perguntas, o hábito.


O cão se sentava, sobre as patas de trás, ao seu lado. E ali ficavam até a chegada da noite. O cão paralisava as orelhas e o garoto, com a testa franzida atrás da cortina de cabelos sem cor, dava liberdade aos seus dedos para que se movessem no ar. Os dedos estavam livres e vivos, vibrando na altura de seu peito, e das pontas dos dedos nasciam o rumor do vento entre os galhos dos eucaliptos e o repicar da chuva nos telhados, nasciam as vozes das lavadeiras no rio e o bater das asas dos passarinhos que voavam, ao meio-dia, com os bicos abertos pela sede. Às vezes, dos dedos brotava, de puro entusiasmo, um galope de cavalos; os cavalos vinham galopando pela terra, o ruído dos cascos sobre as colinas, e os dedos se enlouqueciam na celebração. O ar cheirava a miosótis e ervilha-de-cheiro.

Um dia, os outros deram-lhe de presente um violão. O garoto acariciou a madeira da caixa, lustrosa e boa de se tocar, e as seis cordas ao longo do diapasão. E ele pensou: que sorte. Pensou: agora, tenho dois.
Eduardo Galeano, "Vagamundo"

quinta-feira, setembro 28

Fonte de todo dia

 


Porcelanas da China

A força de uma estrada do campo é uma se alguém anda por ela, e outra se a sobrevoa de aeroplano. Assim é também a força de um texto, uma se alguém o lê, outra se o transcreve.

Quem voa vê apenas o modo como a estrada se insinua através da paisagem, e, para ele, ela se desenrola segundo as mesmas leis que o terreno em torno. Somente quem anda pela estrada experimenta algo de seu domínio e de como, daquela mesma região que, para o que voa, é apenas uma planície desenrolada, ela faz sair, a seu comando, a cada uma de suas voltas, distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas, assim como o chamado do comandante faz sair soldados de uma fila.

Assim comanda unicamente o texto copiado a alma daquele que está ocupado com ele, enquanto o mero leitor nunca fica conhecendo perspectivas de seu interior, tais como as abre o texto, essa estrada através da floresta virgem interior que sempre volta a adensar-se: porque o leitor obedece ao movimento de seu eu no livre reino aéreo do devaneio, enquanto o copiador o faz ser comandado. A arte chinesa de copiar livros foi, portanto, a incomparável garantia de cultura literária, e a cópia, uma chave para os enigmas da China.

Walter. Benjamin, “Rua de Mão Única”

Eles vinham de longe

Se tivessem conhecido o idioma da cidade, poderiam ter perguntado quem fez o homem branco, de onde saiu a força dos automóveis, quem segura os aviões lá no céu, por que os deuses nos negaram o aço.

Mas não conheciam o idioma da cidade. Falavam a velha língua dos antepassados, que não tinham sido pastores nem vivido nas alturas da serra nevada de Santa Marta. Porque antes dos quatro séculos de perseguição e espoliação os avós dos avós dos avós tinham trabalhado as terras férteis que os netos dos netos dos netos não puderam conhecer nem de vista nem de ouvir falar.

De modo que agora eles não podiam fazer outro comentário que aquele que nascia, em chispas bem-humoradas, dos olhos: olhavam essas mãos pequeninas dos homens brancos, mãos de lagartixa, e pensavam: essas mãos não sabem caçar, e pensavam: só podem dar presentes feitos pelos outros.

Estavam parados numa esquina da capital, o chefe e três de seus homens, sem medo. Não os sobressaltava a vertigem do trânsito das máquinas e das pessoas, nem temiam que os edifícios gigantes pudessem cair das nuvens e despencar em cima deles. Acariciavam com a ponta dos dedos seus colares de várias voltas de dentes e sementes, e não se deixavam impressionar pelo barulho das avenidas.

Seus corações sentiam pena dos milhões de cidadãos que passavam por cima e por baixo, de costas e de frente e de lado, sobre pernas e sobre rodas, a todo vapor: “Que seria de todos vocês” – perguntavam lentamente seus corações – “se nós não fizéssemos o sol sair todos os dias?”
Eduardo Galeano, "Vagamundo"