quinta-feira, março 16

Donos do mundo

Todo mundo quer ser dono do fim do mundo.

Foi o que meu pai me disse, junto às janelas arredondadas de seu escritório em Nova York — gestão de recursos privados, dynasty trusts, mercados emergentes. Estávamos, coisa rara, compartilhando um momento no tempo, um momento contemplativo, tornado completo pelos óculos escuros clássicos de meu pai, que traziam a noite para dentro da sala. Eu examinava os quadros nas paredes, obras de diferentes graus de abstração, e comecei a me dar conta de que o silêncio prolongado que se seguiu a seu comentário não pertencia a ele nem a mim. Pensei na esposa dele, a segunda, a arqueóloga, cuja mente e corpo depauperado em breve haveriam de se dissipar, seguindo um roteiro previsível, no vazio.

Aquele momento me voltou à lembrança alguns meses depois, do outro lado do mundo. Cinto de segurança afivelado, eu estava no banco de trás de um carro blindado, um hatch com vidro fumê nas janelas laterais, cego dos dois lados. O motorista, separado do banco de trás por uma divisória, usava uma camisa de time de futebol e calças de moletom com um volume no quadril que indicava a presença de uma arma. Depois de uma hora de viagem por estradas esburacadas, ele parou o carro e disse algo para o dispositivo preso em sua lapela. Então girou a cabeça quarenta e cinco graus em direção ao banco do carona. Concluí que era hora de soltar o cinto de segurança e saltar.

Aquela viagem de carro era a última etapa de uma maratona intercontinental, e me afastei do veículo e fiquei parado por algum tempo, entorpecido pelo calor, carregando minha mala e sentindo meu corpo relaxar. Ouvi o motor dar a partida e me virei para o carro. Ele estava voltando para a pista de pouso particular, e era a única coisa a se mover ao longe, que em breve haveria de sumir na paisagem ou na penumbra crescente ou no horizonte puro e simples.

Dei uma volta completa, percorrendo com a vista lentamente a extensão de deserto de sal e pedregulho, onde só havia algumas estruturas baixas, talvez interligadas, difíceis de distinguir naquela paisagem estorricada. Não havia mais nada, nenhum outro lugar. Eu não conhecia a natureza precisa de onde estava
indo, só sabia que era remoto. Era fácil imaginar que meu pai, à janela de seu escritório, havia extraído seu comentário daquele mesmo terreno nu e das formas geométricas que com ele se confundiam.

Ele estava aqui agora, eles dois, pai e madrasta, e eu viera para fazer uma visita rapidíssima e lhes dar um adeus incerto.

O número de estruturas era difícil de calcular, estando eu tão perto delas. Duas, quatro, sete, nove. Ou então uma apenas, uma unidade central com extensões que se irradiavam dela. Imaginei-a como uma cidade a ser descoberta no futuro, autônoma, bem preservada, anônima, abandonada por alguma cultura nômade desconhecida.

O calor me dava a impressão de que eu estava encolhendo, mas eu queria permanecer ali mais um momento e olhar. Eram prédios escondidos, agorafobicamente fechados. Eram prédios cegos, silenciosos e severos, com janelas invisíveis, planejados para implodir, pensei, quando o filme chegar ao momento do colapso digital.

Fui seguindo por um caminho calçado com pedras e cheguei a um portão largo onde havia dois vigias. Camisas de futebol diferentes, os mesmos volumes nos quadris. Estavam atrás de uma fileira de estacas que impedia a entrada de veículos.

Nas laterais do portão, longe do centro, coisa estranha, dois outros vultos, envoltos em xadores, mulheres veladas imóveis.

Don DeLillo, "Zero K"

quarta-feira, março 15

Jardim de leitura

 


A paixão da leitura

Nesta época tardia da história do mundo, encontram-se livros por toda parte da casa – no quarto das crianças, na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha. E, em algumas casas, eles aumentaram tanto que têm que ser acomodados num aposento exclusivo. Romances, poemas, histórias, memórias, livros caros em couro, livros baratos em brochura – detemo-nos diante deles e, num assombro passageiro, perguntamos: que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?
Ler é uma arte muito complexa – é o que nos revelará até mesmo o exame mais apressado de nossas sensações como leitores. E nossas obrigações como leitores são muitas e variadas. Mas talvez se possa dizer que nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo. E nossa primeira obrigação como leitores é tentar entender o que o escritor está fazendo, desde a primeira palavra com que compõe a primeira frase até a última com que termina o livro. Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa. Devemos deixar que Defoe seja Defoe e que Jane Austen seja Jane Austen tão livremente quanto deixamos que o tigre tenha seu pelo e a tartaruga sua carapaça. E isso é muito difícil. Pois uma das qualidades da grandeza consiste em deixar que o céu e a terra e a natureza se conformem à visão que lhes é própria.

Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.

Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.

Mas se esse processo de julgar e decidir está cheio de prazer, está também cheio de dificuldades. Não se pode esperar muita ajuda do exterior. Críticos e resenhas críticas abundam, mas ler as opiniões de outra mente não ajuda muito quando a nossa ainda está fervendo de um livro que acabamos de ler. É só depois que formamos nossa opinião que as opiniões dos outros se mostram mais esclarecedoras. É quando podemos defender nosso próprio julgamento que obtemos o máximo do julgamento dos grandes críticos – os Johnson, os Dryden e os Arnold. Para que possamos tomar nossa decisão, a melhor forma de ajudarmos a nós mesmos é, primeiro, compreender tão completa e exatamente quanto possível a impressão que o livro deixou e, depois, comparar essa impressão com as impressões que formulamos no passado. Elas estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada. Assim, se acabamos de ler pela primeira vez, digamos, Clarissa Harlowe, nós o pegamos e deixamos que se mostre contra a forma que continua em nossa mente desde que lemos Ana Karenina. Colocamos os dois lado a lado e, imediatamente, as silhuetas dos dois livros aparecem recortadas uma contra a outra tal como o canto de uma casa (para mudar de figura) aparece recortado contra a plenitude da lua cheia. Contrastamos as características salientes de Richardson com as de Tolstói. Contrastamos a sua obliquidade e verbosidade com a brevidade e a falta de rodeios de Tolstói. Perguntamo-nos por que cada escritor escolheu um ângulo tão diferente de abordagem. Comparamos a emoção que sentimos em diferentes crises de seus livros. Especulamos sobre as diferenças entre o século dezoito na Inglaterra e o século dezenove na Rússia – mas as questões que se insinuam assim que juntamos os livros não têm fim. Assim, por etapas, fazendo perguntas e respondendo-as, descobrimos que decidimos que o livro que acabamos de ler é deste tipo ou do outro, que tem este ou aquele nível de mérito, toma o seu lugar neste ou naquele ponto na literatura como um todo. E se somos bons leitores julgamos, assim, não apenas os clássicos e as obras-primas dos mortos, mas prestamos aos escritores vivos o cumprimento de compará-los como devem ser comparados: com o padrão dos grandes livros do passado.

Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, partindo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades, é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"

Um doutor

Um doutor veio formado de São Paulo. Almofadinha.
Suspensórios, colete, botina preta de presilhas.
E um trejeito no andar de pomba rolinha. No verbo,
diga-se de logo, usava naftalina. Por caso, era
um pernóstico no falar. Pessoas simples da cidade
lhe admiravam a pose de doutor. Eu só via o casco.
Fomos de tarde no Bar O Ponto. Ele, meu pai e este
que vos fala. Este que vos fala era um rebelde
adolescente. De pronto o Doutor falou pra meu
pai: Meus parabéns Seo João, parece que seu filho
agora endireitou! E meu pai: Ele nunca foi torto.
Pintou um clima de urubu com mandioca entre nós.
O doutor pisou no rabo, eu pensei. Ele ainda
perguntou: E o comunismo dele? Está quarando
na beira do rio entre as capivaras, o pai respondeu.
O doutor se levantou da mesa e saiu com seu
andar de vespa magoada.

Manoel de Barros, "Memórias Inventadas – A segunda infância"

Pilhérias

Nem todas as tradicionais casas interioranas possuem um passado de feitos gloriosos de que possam se vangloriar, mas no seio delas sempre existem lendas que, transmitidas oralmente, se perpetuam ao longo das gerações. Tais lendas se criam em torno de ocorrências por vezes fantásticas ou até cômicas e ficam retidas na memória familiar como uma espécie de “pilhéria” genial.

Um fato ocorreu no ano em que ingressei na faculdade, ano em que, por coincidência, também celebramos uma das últimas cerimônias religiosas em memória de meu pai, falecido havia muito. Em meio aos numerosos parentes e familiares que pela primeira vez em bastante tempo lotaram as dependências da casa estava um tio que conseguira casar a filha mais velha com um graduado funcionário do governo, diplomado em direito pela Universidade de Tóquio. Esse tio voltou-se para mim e disse:

— Soube que você também ingressou na universidade em  que meu genro se formou e o parabenizo, mas que ramo você escolheu seguir?

Quando lhe respondi que escolhera a Faculdade de Letras, deixou transparecer claramente sua decepção.

— Nesse caso, não podemos esperar que você consiga arrumar um bom emprego… — comentou.

Contudo, minha mãe, pessoa habitualmente discreta, respondeu da seguinte maneira e me deixou aturdido, pois, naqueles tempos, eu só pensava em me tornar um estudioso da língua francesa:

— Ora, se não conseguir emprego, esse menino na certa vai ser escritor! — No silêncio que se seguiu, o que ela acrescentou prestamente desfez a tensão e levou todos a rir: — E material para romance ele tem o suficiente dentro da minha “maleta de couro vermelha”.

Pois essa “maleta de couro vermelha” era uma das já mencionadas lendas, entre fantásticas e cômicas, correntes em minha família. As palavras de minha mãe calaram fundo em mim, principalmente porque um dos meus parentes mais próximos havia rido à minha custa. De fato, três anos depois, época em que eu
ainda nem havia definido os rumos de minha vida, escrevi alguns contos de maneira experimental. E a publicação de um deles no jornal acadêmico da Universidade de Tóquio me levou a ganhar a vida como escritor. Ou seja, induzidas pela “pilhéria” de minha mãe, “pilhérias” surgirão outras vezes neste romance, nem sempre revestidas de sua literal insignificância cômica, mas disso
falaremos oportunamente, no decorrer da história.

Kenzaburo Oe, "Morte na água"

terça-feira, março 14

O mundo ao nosso lado


 

Crônicas de um livreiro

Há um livro que, em 800 anos, não se moveu um centímetro. Está no túmulo de Leonor da Aquitânia, na Abadia de Fontevraud, perto de Poitiers. Toda a sua vida turbulenta ficou para trás e agora jaz em profundo repouso, segurando uma Bíblia aberta. Descansa da mesma forma que todos nós na camaquando, depois de uma conversa ou de um chá, nos tornamos um só com um livro, perdidos num mundo privado. A história de amor que a humanidade tem com os livros seria, para um visitante de outra galáxia, uma das mais estranhas que contamos.Esta história do livro explora a nossa relação com o livro físico, mostrando como esta aprofundou o nosso sentido de identidade.

O livro impresso ajudou a inaugurar uma primavera da consciência à escala mundial. Enroscados num livro, continuamos a descobrir novas identidades.

Tal leitura privada só se generalizou na era da imprensa. Na maioria das línguas, a palavra «ler» significava originalmente «ler em voz alta». Os homens de Alexandre, o Grande, olhavam-no perplexos quando lia em silêncio, e até à era da impressão a leitura pública era mais comum do que leitura privada. Com a nova privacidade, veio um aprofundamento do envolvimento emocional, do afeto. A socióloga pioneira vitoriana Harriet Martineau sentia que frequentemente se tornava o autor que estava a ler, e romances como Clarissa geravam invulgares episódios de choro convulsivo e de exaltação. Após Gutenberg, injetamos histórias na nossa imaginação, inebriados com novos domínios.

A leitura privada deu-nos novas dimensões interiores. Sentimos essa verdade nas estantes de uma grande biblioteca ou nos cantos de uma livraria, sítios que nos dão uma sensação de imanência, de estarmos à beira de um infinito espaço interior. A antiga Biblioteca de Alexandria pode nem sequer ter existido, mas, como diz a classicista Edith Hall, a ideia de uma tal biblioteca é quase tão importante para a nossa psique coletiva como a realidade da sua existência. Sabemos instintivamente que somos tanto infinito como serendipidade, por isso adoramos perder-nos em livrarias e bibliotecas e acidentalmente encontrarmos livros que desbloqueiam os nossos vários eus escondidos.

A nossa apaixonada relação com os livros propriamente ditos (não com «o texto» dos teóricos literários) tem vindo a ser estabelecida através de muitas formas físicas pouco documentadas. É até possível, como observou Virginia Woolf, que se trate de uma interação quase sexual. Tenho-o visto acontecer ao longo de 30 anos de venda de livros: clientes acariciando a capa de um livro, espreitando por baixo da sobrecapa, fechando sub-repticiamente os olhos para cheirarem o vale formado pelas páginas — por vezes, acompanhando-o com um discreto gemido de prazer —, abraçando-o após a sua aquisição, e dando-lhe até mesmo um pequeno beijo. Aqueles que apreciam livros não conseguem explicar porque é que gostam de pegar em livros e, depois de tanto os ouvir — algumas centenas de vezes ao longo dos anos — dizer que não o conseguem explicar, começo a achar que essas pessoas não querem analisar um sentimento tão interior.O livro, de papel feito a partir de árvores, é meio caminho para a floresta, esse grande manancial de mitos. Os dispositivos tecnológicos, além de serem feitos de materiais mais frios e desnaturalizados, são implacavelmente exigentes. Em 1913, Kafka, com surpreendente presciência, descreveu o futuro numa carta à sua pretensa namorada Felice, que vendia dictafones. Detestava tais máquinas, e regozijava--se com a forma como podia olhar pela janela do escritório a meio do ditado e ouvir depois o raspar da lima das unhas da sua secretária enquanto ela se juntava asecreto ramerrão. Disse a Felice que «perante tais máquinas» nos tornamos «degradados trabalhadores fabris». Hoje, todos nós nos sentimos, por vezes, como broncos a servir as nossas máquinas; tal não acontece com o livro. Kafka previu que essas máquinas acabariam por falar connosco, apresentando sugestões de restaurantes, ou mesmo corrigindo a pronúncia. Até há uma década, quando comecei este livro, pensar em tal tecnologia era um absurdo, mas agora é trivial. A pobre Felice não respondeu à carta de Franz, que parecia completamente alucinada. A «fria tecnologia» dos dispositivos digitais proporciona «interatividade». É, porém, uma interatividade com regras de formatação, desde «gostar» de algo até publicar em blogues, muito longe da forma como muitos interagem com os livros — «tecnologia quente» —, ao escrever neles. A marginália de Montaigne na sua cópia de Lucrécio representa toda uma vertente do seu pensamento, tal como as inflamadas notas de Blake nos Discourses de Joshua Reynolds. A marginália de Coleridge preenche um volume inteiro das suas obras coligidas. Contudo, a marginália foi literalmente marginalizada por bibliotecários académicos, especialmente na época vitoriana, quando foi extirpada e deitada fora em operações de reencadernação e até mesmo — como aconteceu com a marginália de Milton — censurada. O legado dessa higiene benthamista é a excessiva relutância que hoje temos em escrever nos livros. Um atual historiador da marginália lamenta que, a menos que afrouxemos essa nossa atitude, deixaremos de ter registo das nossas reações primeiras e imediatas aos livros. Desde sensivelmente 1600 e até cerca de 1870, os apreciadores de livros, movidos por uma bibliossensualidade igualmente irreverente, recortaram as suas passagens favoritas e colaram-nas em livros de notas, passagens essas que eram intercaladas com os seus próprios pensamentos manuscritos. Essa mania em grande medida, ficou por registar devido à atitude de bibliotecários como M. R. James, que descreveu os livros de notas como «uma espécie de resíduo ou sedimento». Para aborrecer ainda mais a mente empírica dos bibliotecários, esses livros eram inclassificáveis — seriam livros ou manuscritos? Até ao final dos anos 1980, foram lançados fora aos magotes.

Os sugestivos livrinhos conhecidos na Grã-Bretanha como chapbooks1 são outra parte perdida da história do livro. Essas narrativas de crime, mitologia, atividade paranormal, romance, filosofia e religião eram impressas aos magotes em todo o mundo, mas eram menosprezadas pelos bibliotecários e, até recentemente, ignoradas pelos académicos. É estranho, tendo em conta quantos gigantes da literatura se alimentaram dessas histórias virais. Pepys acumulou-os, Blake escreveu grandes poemas nesse formato, Dickens foi influenciado por eles, Stevenson gostava tanto deles que escreveu um (Moral Emblems), e o apreço de Shakespeare por Autólico, o nómada e aldrabão vendedor de folhetins, é palpável. Contudo, muitas vezes sem encadernação, esses relatos tinham apenas circulação de rua, e, em grande parte, perderam-se.

Jacques Derrida lamentou a perniciosa influência do quadro predominantemente masculino de bibliotecários que moldou a nossa cultura, e cunhou o termo «patriarquivo». Pouco lhes dizia o interesse deste escritor na arqueologia dos livros, nas odisseias dos tomos nómadas, nos segredos escondidos na tinta e no papel, nas marcas- -d’água e nas pinturas produzidas nos bordos das páginas de um livro, nas histórias das flores prensadas e nas dedicatórias escritas à mão. Os amantes ressentem-se dos estímulos rivais e os ditadores só querem ser amados. O líder da Alemanha de Leste, Erich Honecker, presidiu a muitas perseguições, mas lamentou-se na velhice: «Será que eles não viam como eu os amava?» Este ciúme é responsável pelo grande número de livros queimados por ditadores. A sobrevivência dos livros clandestinos é uma história que ainda está totalmente por contar, desde as secretas fotocópias de Soljenítsin encontradas nos arquivos do Kremlin até ao exemplar de O Triunfo dos Porcos descoberto em Berlim Leste. Estas são as crónicas não censuradas da nossa história de amor com os livros, uma relação que assistiu à emergência de um eu mais privado e reflexivo. É uma relação com o livro enquanto objeto físico que floresce — talvez de uma forma particular — mesmo na era digital.

Não sei como é que aprendi a ler. Lembro-me unicamente das minhas primeiras leituras e do seu efeito em mim. É desse tempo que dato a minha consciência de mim. (Confissões de Rousseau.)

Apetitosos

À ideia de que não somos mais do que uma erupção passageira na superfície de um planeta menor numa galáxia entre trilhões de outras se antepôs, ultimamente, a convicção – agora não mais religiosa, mas cientificamente plausível – de que o Universo existe para a gente existir.


O fato de a Terra estar na distância exata do Sol para haver vida como a nossa – um pouquinho mais perto ou um pouquinho mais longe e nem você, eu ou qualquer outro mamífero seria possível – é apenas uma amostra dessa grande deferência conosco.

Somos a razão de tudo, o resto é cenário ou sistema de apoio. E não fazemos feio entre os mamíferos. Nenhuma outra espécie com a mesma proporção de peso e volume se iguala à nossa.

Nosso habitat natural é o planeta todo, independentemente de clima e vegetação. Somos a primeira espécie da História a controlar a produção do seu próprio alimento e a sobreviver fora do seu ecossistema de nascença.

Em nenhuma outra espécie as diferentes categorias se intercasalam como na nossa, o que nos salvou do processo de seleção natural que militou nas outras.

E o que a nossa sociabilidade não conseguiu, a técnica garantiu. Mutações que decretariam o fim de outra espécie em poucas gerações, na espécie humana são corrigidas ou compensadas pela técnica. Exemplo: a visão. Enxergamos menos do que nossos antepassados caçadores e catadores, mas vemos muito mais, graças à oftalmologia e a todas as técnicas de percepção incrementada.

Mas nosso sucesso tem um preço. Chegamos aonde estamos consumindo tudo à nossa volta e hoje somos tantos que também nos transformamos em recursos consumíveis.

Em breve, a carne humana superará em valor calórico todas as outras fontes de alimento disponíveis sobre a Terra. E 10 mil anos ingerindo comida cultivada, mesmo com a maioria só comendo para subsistir, nos tornaram cada vez mais apetitosos e nutritivos.

Gente já é o principal exemplo de recurso subexplorado do planeta. E as leis da evolução são impiedosas: comunidades virais e bacteriológicas se transformam para nos incluir, cada vez mais, na sua dieta. Já que estamos ali, aos bilhões, literalmente dando sopa.
Luis Fernando Verissimo

segunda-feira, março 13

Cotidiano

 


A Ponta do Nariz

Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida... Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos, – e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia, atinei com a única, verdadeira e definitiva explicação.

Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.

Ouço daqui uma objeção do leitor: – Como pode ser assim, diz ele, se nunca jamais ninguém não viu estarem os homens a contemplar o seu próprio nariz?

Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no cérebro de um chapeleiro. Um chapeleiro passa por uma loja de chapéus; é a loja de um rival, que a abriu há dois anos; tinha então duas portas, hoje tem quatro; promete ter seis e oito. Nas vidraças ostentam-se os chapéus do rival; pelas portas entram os fregueses do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a sua, que é mais antiga e tem só duas portas, e aqueles chapéus com os seus, menos buscados, ainda que de igual preço. Mortifica-se naturalmente; mas vai andando, concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade do outro e do seu próprio atraso, quando ele chapeleiro é muito melhor chapeleiro do que o outro chapeleiro... Nesse instante é que os olhos se fixam na ponta do nariz.

A conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

O chá, os fantasmas, os ventos encanados...

Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a “gente bem” dizia estar com enxaqueca, palavra horrível mas desculpa distinta. Ter enxaqueca não era para todos, mas só para essas senhoras que tomavam chá com o dedo mindinho espichado. Quando eu via aquilo, ficava a pensar sozinho comigo (menino, naqueles tempos, não dava opinião) por que é que elas não usavam, para cúmulo da elegância, um laçarote azul no dedo...

Também se falava misteriosamente em “moléstias de senhoras” nos anúncios farmacêuticos que eu lia. Era decerto uma coisa privativa das senhoras, como as enxaquecas, pois as criadas, essas não tinham tempo para isso. Mas, em compensação, me assustavam deliciosamente com histórias de assombrações. Nunca me apareceu nenhuma.

Pelo visto, era isso: nunca consegui comunicar-me com este nem com o outro mundo. A não ser através do “Tico-tico” e da poesia de Camões – do qual até hoje me assombra este verso único: “Que o menor mal de tudo seja a morte!”.

Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo.

Mario Quintana, "Sapo amarelo"

Pensar a cultura a partir das livrarias


“Todas as livrarias são um convite à viagem”, escreveu o catalão Jorge Carrión (n. 1976) no seu mais recente livro, Livrarias: um volume que de alguma forma é inclassificável, pois ao mesmo tempo que se trata de um “livro de viagens”, levando o leitor em visita por muitas livrarias espalhadas um pouco por todo o mundo, é também um ensaio (algo insólito na sua forma) que pensa a história da cultura a partir destes lugares, da sua geografia e do seu passado. Foi isso mesmo que Carrión contou ao Ípsilon na sua recente estada em Lisboa para promoção do livro, quando lhe perguntámos qual a razão do seu interesse na história das livrarias: “São territórios sobre os quais muita pouca gente pensou, territórios quase inéditos em termos de estudos. E a partir dos quais se pode pensar a história da cultura de uma óptica geral. A mim interessa-me muito, no xadrez, o movimento do cavalo: esse movimento lateral, um pouco inesperado, é o movimento que têm de assumir os estudos culturais. O que procuro são objectos culturais, ou espaços culturais, a partir dos quais se pode pensar, com uma certa diferença, a cultura. As livrarias, como as passagens [as ruas estreitas] em Barcelona, são lugares periféricos que te permitem pensar com uma certa originalidade a cidade, no caso das últimas. E as livrarias, e a história pessoal que têm da literatura, dão a oportunidade de as estudar a partir de um tempo em que os livros não eram considerados centrais.”

Jorge Carrión — que é professor na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona — conta no seu livro que este interesse sistemático (refere-se-lhe como o primeiro “carimbo” que recebeu numa livraria) começou em 1998, quando viveu por uns meses na Cidade da Guatemala. O país era sacudido pelos estertores do assassinato de um bispo (o rosto visível da Oficina de Derechos Humanos, que apresentara pouco antes, em quatro tomos, o relatório Guatemala — Nunca Más, no qual se documentavam cerca de 54 mil violações dos direitos humanos cometidas ao longo dos últimos anos da ditadura militar) — e, nesses dias conturbados, Carrión fez da Librería del Pensativo (e do seu bar-galeria) uma espécie de lar onde passava a maior parte do tempo. Mas, ao Ípsilon, confidenciou que, depois da publicação do livro, veio a lembrar-se de que esse seu interesse talvez tivesse começado mais cedo, em 1995, em Londres, quando estabeleceu uma cartografia afectiva da cidade tendo as livrarias como pontos de referência. Sobre os motivos por que visita livrarias de maneira quase compulsiva em cada nova cidade a que chega, admite que talvez a resposta esteja no seu inconsciente, numa “necessidade psicológica”: “Em minha casa não havia livros. Os meus pais não estudaram, e teríamos talvez uns 15 livros. Mas sempre me compraram os que quis, e mais tarde deram-me também o suporte económico para ir comprando enciclopédias, o que à época, muito pré-Internet, era uma coisa normal. Talvez durante estes últimos 20 anos eu tenha tentado criar algo que preencha esse vazio da minha infância, e por isso me interessem de novo as livrarias.”

O que lhe interessa quando as visita, para além dos títulos mais recentes postos à venda, ou de outros mais raros que fazem o catálogo dessas casas, é o conjunto que tem diante de si, “porque em cultura tudo tem a ver com uma dialéctica entre o reconhecimento e a novidade”: “Quando se vê um filme ou se lê um romance, há sempre uma tentativa de identificar o discurso com o que se viu ou leu antes, e é esse resultado que faz a diferença. Depois há aspectos que são sempre iguais: por exemplo, todas as livrarias terão na entrada os livros relacionados com a cidade em que se localizam.” Confessa ainda que lhe interessa muito o modo como cada livraria tenta cativar as crianças para a leitura e a extensão e o tipo de espaço que lhes dedicam (e com que elementos, se com jogos, se com almofadas, ou com outras estratégias mais inventivas). E exemplifica: “Estive ontem na Pó dos Livros [em Lisboa], e interessaram-me muito aquelas pequenas vitrines, como num museu. Interessam-me também as fotografias, tudo o que têm exposto. É o reconhecimento destes elementos que me leva à tipologia internacional.” Pessoalmente, gosta de livrarias de viajantes, ou de viagens, porque “são as únicas nas quais a cartografia tem o mesmo protagonismo que o verso e a prosa”, e fala de uma em Amesterdão, a Pied à Terre, onde estão espalhados dezenas de globos terrestres “que nos olham de soslaio enquanto procuramos guias e outras leituras”.

"Livrarias" é um singular ensaio que tem a melancolia como eixo central, em volta do qual Carrión, ao mesmo tempo que leva o leitor em visita, e lhe vai contando histórias passadas em alguns desses lugares, apresenta livros lidos como despojos de um tempo, ruínas da textura do passado e das ideias que sobrevivem ou sobreviveram; as livrarias como restos arqueológicos, pois cada uma condensa o mundo (à sua maneira), e a ordem cartográfica desses lugares é a sua singular representação do mundo.

É isso que faz quando aborda um conto, O Mendel dos Livros, escrito em 1929 por Stefan Zweig e ambientado na Viena do adeus ao império, um conto que fala de leitores e de livros, e de um lugar que, não sendo uma livraria, o Café Gluck, um café menor, é desses templos de peregrinação para todos os que amam os livros. Carrión diz ainda, na sua escrita solta e que convida a uma leitura atenta, que O Mendel dos Livros faz parte de uma série de relatos contemporâneos que giram à volta da relação entre a leitura e a memória (numa outra perspectiva, entre a leitura e o esquecimento) — uma série que poderia começar em 1909 com um conto de Luigi Pirandello, Mondo di Carta, e acabar em 1981 com a Enciclopédia dos Mortos, de Danilo Kis, passando pelo referido Zweig e por Jorge Luis Borges (pois os seus contos, sobretudo O Aleph e Funes, o Memorioso. são “absolutamente complementares”, na perspectiva singular de Jorge Carrión).

Fala-nos também de livrarias que acolhem comunidades de leitores, de como se convertem numa moderna ágora, um lugar de encontro em volta das ideias que os livros guardam. E fala disto para nos dizer que o modo como olhamos para a história das livrarias é muito diferente do modo como olhamos, por exemplo, para a história das bibliotecas; que a nossa percepção de cada uma varia com a afectividade dispensada. E pelo meio cita Walter Benjamim: “Seguimos pelo corredor estreito e escuro até entrar numa livraria em saldo, onde volumes atados e empoeirados falavam de todas as formas de ruína.”

Para Carrión, as livrarias são em geral muito parecidas dentro de um país, como se esses lugares fossem aproveitando elementos do que lhes está mais próximo, do que lhes é vizinho. Mas as grandes livrarias internacionais, essas reproduzem modelos de outros países, e dá o exemplo de uma das livrarias mais conhecidas de São Francisco que há décadas, quando nasceu, teve o propósito de imitar uma livraria de referência em Paris — pois há sempre referências, não apenas arquitectónicas mas sobretudo de cartografia afectiva. Nos livros que lê, argumenta, o lado afectivo acaba por impor-se: “Lembro-me de onde os comprei, em que cidade e em que livraria. A leitura para mim é uma dupla experiência de viagem, aquela que o livro propõe e a minha viagem afectiva à memória desse objecto.”

São inúmeras as histórias contadas com deleite neste livro, histórias de leitores (de Hitler a Fidel, passando por Estaline e Mao Tsé-Tung), de um grande número de escritores (sobretudo do século XX), e de lugares de livros um pouco por todo o mundo.

sexta-feira, março 10

Paisagem com livro

 


Coisas da Ponte Velha

O tráfego de automóvel e carroça nem sempre fluía com desembaraço quando a travessia para um dos lados da cidade era feita através da Ponte Velha. Só podia passar um carro de cada vez, não havia espaço para transitar sobre o piso dois carros ao mesmo tempo, em direções opostas. O motorista em uma das entradas tinha que esperar que o outro saísse com o seu carro para que na sua vez pudesse adentrar na ponte. Até que acontecia o que sempre transtornava. Dois carros entravam na ponte ao mesmo tempo, um de cada lado, em posições contrárias. Quando se encontravam, paravam e ficavam impedindo o trânsito livre dos pedestres na bicicleta, que reclamavam impacientes com o impasse criado. Gente nervosa queria seguir em frente, mas não tinha como fazê-lo por falta de espaço. Pequeno ajuntamento de pessoas ia se formando por detrás de cada carro, do meio do aglomerado humano alguns soltavam gaiatice.


Um gritava, exasperado:

“Quero passar, antes que perca a paciência e jogue esse calhambeque no rio!”

Cada motorista não recuava de sua posição no volante. Nenhum deles queria dar marcha a ré para desobstruir a passagem para o outro automóvel seguir em frente.

O motorista da caçamba sugeriu que fosse tirado a sorte nos dados para ver quem iria recuar primeiro o seu carro para o outro ter passagem. O mulato com a voz rouca ganhou no jogo de dados para o motorista que tinha a barriga estufada, parecendo de mulher grávida. A solução encontrada nos lances com os dados desfazia o impasse entre o caminhão de carroceria de madeira e a caçamba carregada de areia, parados no meio da ponte.

Um projeto municipal foi decretado no dia seguinte proibindo que carro, carroça e animal de alto porte transitassem pela Ponte Velha.
Cyro de Mattos

A Era dos 'Sensitive Readers'

Quando George Orwell cunhou, para a posteridade, a Newspeak (Novilíngua), criada pelo Ministério da Verdade, para esconder as coisas mais horríveis, sob o casto manto das palavras bem escolhidas, pensava que essas picardias eram só próprias dos regimes totalitários. As maiores ignomínias eram descritas num estilo altamente purificador, que lhes dava um ar de inocente formulação erudita. O horror era desinfectado pela filologia ao seu serviço.


A verdade, porém, é que Orwell se enganou. O Newspeak está agora em vigor nas democracias e invade o mundo editorial, com a emergência dos “sensitive readers”, que acabam de descobrir um novo nicho de emprego. Estes leitores, mais do que provavelmente, grosseiramente iletrados, como é sempre o caso dos censores, passam a funcionar junto dos editores, com o fim benévolo de catarem, em Homero, Virgílio, Camões, Garrett, Camilo, Eça, Régio ou Pessoa ou Faulkner ou Lawrence ou Proust ou Garcia Marquez, qualquer palavra mais grosseira ou menos conveniente. Mas aquilo que eles são, isto é, Censores, é, por sua vez, censurado e eles passam a ser apenas Leitores Sensíveis. Dá-se assim aos assassinos da cultura, perdão, aos vigilantes da cultura, o poder egrégio de corrigirem os deslizes indesculpáveis dos grandes criadores de cultura. Tudo a bem da protecção de sensibilidades mais finas e subtis de leitores a quem incomodam muito palavras obscenas como “descobrimentos”, “gordo”, “feio” , “coxo”, “cego”, etc. De facto, seria imperdoável permitir-se que gente de pele tão fina se magoasse, ao encontro de tais palavrões.

É mais uma das muitas invenções estapafúrdias que as universidades americanas, com grande alarido, exportam regularmente, para um mundo gulosamente desejoso de se pôr à la page com a sabedoria do Tio Sam. Nós, cá em Portugal, costumávamos ser os últimos a consumir as pérolas de sabedoria que atravessavam o Atlântico, mas as coisas andam a mudar. Tornámo-nos mais atentos, mais depressa modernaços, passámos a consumir mais fluentemente expressões como “sair do armário” & outras, que gostamos de manipular a torto e a direito, para não parecermos demasiado antiquados.

Por mim, faço sinceros votos por que, pelo menos, um ou outro editor mais destemido, da nossa praça lusíada, consiga resistir a esta imensa maré de imbecilização, que nos chega, impetuosa, da pátria de Sherwood Anderson. O Novo mundo deve ter coisa melhor a oferecer-nos: não precisamos de ter orgasmos com este lixo.”

Eugénio Lisboa

quinta-feira, março 9

Descanso

 


Carta a um amigo

Meu caro Otto: sei que você está de malas prontas, depois de dois anos e meio na Europa, para retornar ao Brasil, e assim eu não poderia deixar de adverti-lo nesta carta. As coisas aqui em nosso país mudaram muito e de repente; o fito desta é poupar-lhe um choque que até poderia desandar em uma espécie de neurose de situação.

Eu não sei bem o que houve mas o fato é que deu um negócio coletivo que torna as pessoas sempre insatisfeitas com aquilo que faziam habitualmente. Deu uma louca impressionante. Antes de mais nada, nem lhe passe pela cabeça perguntar a um marido pela mulher ou a uma mulher pelo marido. Houve uma troca geral. Sobre isso ficamos conversados, mas se prepare também para outras diversas surpresas, de que lhe dou apenas alguns exemplos. Os velhos tomam novocaína furiosamente, enquanto os moços tomam coca-cola e cocaína. Velhotas irremissíveis trafegam de lambreta pelas avenidas da zona sul, enquanto os mais lindos brotinhos andam de óculos e estudam nas faculdades de filosofia. Ministros aprendem violão e escrevem em colunas sociais, diretores de graves órgãos da imprensa praticam ganzá ou reco-reco, ao passo que os colunistas sociais tratam dos problemas de saúde pública. Não há vedete do Teatro Recreio que não dê, pelo menos uma vez por mês, uma entrevista sobre música clássica e literatura inglesa. A música popular está a cargo dos melhores poetas do Brasil. Os milionários não soltam mais um vintém, mas em compensação os prontos fazem grandes farras. Investigadores de polícia, ganhando dez mil mensais, gastam
cento e cinquenta mil, mas não há de ser nada, pois, por outro lado, sujeitos que estão se enchendo de dinheiro não pagam mais nem fogo na roupa. Grã-finos, que eram capazes até de andar malvestidos só para saírem nos jornais, hoje pedem pelo amor de Deus que os deixem em paz. Há muitos intelectuais que tocam bateria e há bateristas que não dormem sem ler um pouco de Heidegger ou Burckhardt. O Exército, de que tanto se falava mal, hoje guarda a dignidade brasileira, não deixando que os entreguistas metam a mão no petróleo. Os violinistas agora cantam, os cantores fazem corretagens, o Escurinho faz o gol, o Quarentinha está jogando o fino, o Botafogo contratou para armar o time um crioulo que tocava gongo muito bem. Em matéria de modas, não há nada mais impossível. Regra geral, as mulheres estão cada vez mais masculinizadas, enquanto as camisarias para homens exibem nas vitrinas aquelas roupas coloridíssimas que a Esther Williams usava nos filmes antigos da Metro. Deputados famosos por sua violência panfletária hoje escrevem sobre rosas. Os aviões nem sempre voam, os lotações voam sempre, outro dia apareceu uma vaca na minha rua.

Antônio Maria hoje é um magro e Vinicius de Moraes, o nosso bom Vinicius, um gordo. Esporte da moda é boxe, apreciado sobretudo pelas damas. Os mais espalhafatosos doutrinadores das práticas democráticas são conhecidos nazistas do Estado Novo. Os humoristas ficaram sérios de súbito, enquanto homens probos dormiram gravemente e acordaram palhaços. Gente rica não tem mais filho, por causa da inflação, mas as favelas estão cheias de crianças. A polícia instalou por contra própria a pena de morte, fuzilando sem mais aquela ladrões e malandros.

Está mesmo tudo virado de perna pro ar e é de todo conveniente que você vá se acostumando. Os velhos acabaram com essa coisa de morrer, mas o enfarte come solto entre a gente moça. Há juízes que vivem no Jóquei e há cavalos que vivem no Palácio da Justiça. Quando alguém quer mostrar que uma coisa é boa ou bonita, diz que essa coisa é bárbara. Galanteio hoje se chama curra. O vinho nacional é bom, você poderia tomar algumas marcas sem perigo de dor de cabeça. Em matéria de televisão não lhe digo nada, você verá com os seus próprios olhos: piorou ainda mais. Há padres sem batina, mulas sem cabeça e generais de pijama. Há cães que têm medo de gatos e gatos com medo de ratos e ratos (isso há demais e pertencem todos ao nosso set social) sem medo de ninguém.

O parto agora (dizem elas) é uma delícia. Macaco velho já mete a mão em cumbuca. Mania também nova é estudar dicção: há pessoas que dizem as maiores besteiras do mundo com uma dicção linda. Mulher matando marido diminuiu bastante, ainda bem. Candidatos à presidência da República há dois: um de São Paulo, que nasceu em Mato Grosso, e um aqui do Rio, que nasceu em Minas Gerais. Outro dia, um médico, amigo meu, foi nomeado na prefeitura para uma vaga de “bailarino letra i”. Em Niterói me disseram que há ópio. O cardeal não quer que o Brasil reate relações comerciais com os países socialistas. Vício novo é homem público aparecer na televisão para ser xingado de todas as maneiras. Gostam. Você conhece o pintor Raimundo Nogueira, não é? Pois outro dia ele foi visto recusando um bife com fritas, alegando que tinha acabado de almoçar; confesso que foi só um instantinho, imediatamente pensou melhor e comeu o bife.

Fico por aqui, de braços abertos, à sua espera. Agora, tem uma coisa: se você por acaso chegar num dia de sábado, vai me desculpar, meu velho, mas eu não posso ir ao cais, porque estarei jogando futebol. Ponta de lança.
Paulo Nendes Campos 

Doida pra escrever

Tem dia que eu acordo doida pra escrever. Não serve mais nada. Tem alguma coisa incomodando demais, dando engulhos ou fazendo cócegas. Às vezes é só um prazo mesmo, vencido, de preferência. Outras vezes, não. É assim a sensação que deve ter um vulcão ou então uma bomba. Vamos humanizar as coisas, minha gente. É a sensação que deve ter o nosso corpo, imagine aí em que circunstâncias mais variadas.

Mas já ouvi dizer de gente que nunca sente isso. Por outro lado, ouvi falar de médico que prescreve escrita pra curar doideira ou algum mal da cabeça. Talvez cure também o coração e outras vísceras. Quantas vezes senti os pulmões mais capazes depois de um belo poema. Pode nem ter sido assim tão belo, vá lá, mas foi eficaz pra dores diversas.

Em relação a essa turma que não precisa da escrita pra nada só sinto duas coisas: ou inveja ou dó. Isso, dó. Desculpem aí minha intolerância. (Neste mundo, é preciso ter cuidado com isso, senão dá processo). Inveja quando penso que alguém pode conseguir viver agarradinho com seus quiprocós todos, no maior love, sem precisar tirá-los a fórceps, com uma caneta ou um teclado desbotado. Quem me dera essa convivência toda. Mas tudo bem. Pode ser que a pessoa tenha outros expedientes, tipo jogar bola com os amigos, beber bastante, correr (já vi gente se curar assim), cantar, ah, cantar a beleza de ser… isso. Mas não precisar escrever é um mistério pra mim.

O outro sentimento é mais delicado. É dó, é pena, é um negócio complicado. A gente, cá do alto de nossa implicância, fica pensando “coitado desse pessoal”. Mas é que quem escreve se sente dono de um garimpo inteiro. Uma espécie de poder. Está na moda aí, aliás, uma palavra esquisita, traduzida e mal paga, que é “empoderamento”. É mais ou menos quando a gente aprende uma coisa que nos faz ficar mais potente, mais podendo, com uma espécie de “cinto de utilidades” que pode ser usado quando a gente quiser mudar algo. E aí já li bastante falarem de empoderamento em relação à leitura e à escrita. E me senti mais super-heroína do que todas: a She-Ha, a Mulher Maravilha, a… bem, são quantas mesmo?

Escrever é um ódio. Mas, depois que acontece, é uma mansidão geral, até a próxima escala. Só que tem dia que eu acordo – eu e um monte de gente que fez esta descoberta – doida pra escrever. Não me vem nem a ideia do café da manhã. É que tem bastante gente que precisa tomar café primeiro. Mas eu sou uma mineira estranha: não curto nem café, nem tropeiro, nem praia. Mas aí eu corro pro computador e piro geral. Vai que dá certo? Costuma.

A escrita é uma mistura inexplicável de força, memória, conexões, leituras, falatórios, horas de filmes bons e ruins, uma vida inteira de ações e reações, atenção, desatenção, amor e desamor, ímpetos, convicções, perdões, convenções, aulas de tudo quanto há, escola, muita escola, contenção, habilidade, um tico de tendências sado-masô, exibicionismo, em algum grau, experiência em qualquer medida, mas, fundamentalmente, desobediência. A escrita nem te suga nem nada. Você acorda doidão, corre pra máquina que for (pode ser lápis, pois ela não é muito específica), escreve, escreve, escreve, sente que secou, murchou ou brochou, e continua o dia. Não desgasta, sabe? E enche, enche tudo de novo, que nem caixa d’água (quer dizer… aí depende…).

Hoje eu acordei doida pra escrever. Note-se que nem tinha muito o que dizer. Isso também acontece. No entanto, não é bem um problema quando isso rola. Tanta gente não tem nada a dizer! Ora, bolas. Nem é preciso ter um ostentável conteúdo para escrever. Milhares e milhares de estudantes fazem isso, todos os anos, quando escrevem algumas sofridas (e sofríveis) linhas sobre o que não sabem. Já imaginou? Ter de escrever o que nunca foi pensado antes? É a tarefa mais ingrata que há. Digo sempre isso aos alunos que passam ali pelo meu quadrado: sua tarefa é a pior que há, meu caro. Depois desta, qualquer coisa funciona. Imagine o comando: Escreva aí, nesta sala bege ou verde-hospital, sem livros nem nada o que consultar, bem rapidamente, sob o olhar lancinante deste fiscal mal pago, sobre um tema que você conhecerá neste instante. OK. Está dada a largada. Se isso for possível, o resto será festa.

Não. Escritor doido pra escrever tem tempo, tem paixão, tem uns dias, uns meses, uns anos, uns livros e muita gente com quem conversar. Muitas vezes, escrever sucede a pesquisa. Pesquisa mesmo, com roteiros, leituras, entrevistas, consultas. Quem é doido por escrever costuma ter uma sala, um quarto, uma estante, uma prateleira, um computador, o que seja… mas cheios de coisas pra ler, pra olhar, pra visitar, pra levar debaixo do braço. Pensa, pensa, daí vem um ímpeto. A gente fica fogoso, um dia. Não pode nem ver uma folha de papel, uma tela em branco, que o fogo acende.

Mas vá lá. É preciso saber ficar doido pra escrever. Ligar a ignição. Tá tudo calmo e quieto, vontade alguma, só pensando no mato pra capinar ou na graxa do portão, mas chega uma demanda de escrever. Quem não entende do riscado pensa que é assim, ó: “Senta e escreve, bora lá”. E a gente faz. Aprende a riscar a faca no chão até dar faísca. Pedra com pedra. Fósforo. Lente no sol. Queima até o que não tem. Doidos pra escrever são perigosos. Acordei doida pra escrever. E nem era só um prazo expirado. Era uma energia transbordando aqui e ali. Calibrada? Níveis normais? Vamos agora ao dia, pra ter mais o que escrever, nas próximas linhas.

quarta-feira, março 8

A metro

Há muitos anos, apareceram as vendas de livros porta a porta em Portugal; e o Círculo de Leitores, o maior clube de livro português, chegou a ter meio milhão de sócios, que compravam mensalmente livros e publicações, recebendo por vezes como prémio de fidelização presentes que incluíam electrodomésticos giros e modernos. Mas muitos desses compradores de livros cartonados e bonitos, ou encadernados a couro, ou com muitos volumes e caros, não eram na verdade leitores; eram pessoas com estantes vazias em casa que achavam que ficava bem ter livros, ou pais que não tinham podido estudar e adquiriam património literário para os filhos. Contava-se até a história de um sócio que tinha ido à sede da empresa com uma fita métrica medir os volumes de uma certa colecção bonita para ver se lhe cabiam nas prateleiras da sala. Rimos desta história, mas eis que descubro numa partilha do Facebook uma empresa que se dedica à decoração de... estantes, para a biblioteca da sala ficar mais bonita. Nem sei se se trata apenas de lombadas, como em Casa de Campo, de José Donoso, mas não me admiraria muito se assim fosse. O anúncio vai abaixo. Não creio que interesse muito aos que aqui vêm...



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