terça-feira, julho 25

Liberdade

Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.

Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam "Liberdade, Igualdade e Fraternidade! "; nossos avós cantaram: "Ou ficar a Pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!"; nossos pais pediam: "Liberdade! Liberdade! abre as asas sobre nós", e nós recordamos todos os dias que "o sol da liberdade em raios fúlgidos/ brilhou no céu da Pátria..." em certo instante.

Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre como diria o famoso conselheiro... é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho... Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Suponho que seja isso.)

Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.

Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir. (Às vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso...)

Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito de outrora!...) Não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento!

Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.

E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos!

São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE. Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte. E os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.

Mas os sonhadores vão para a frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos, que falam de asas, de raios fúlgidos linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel...
Cecília Meireles, "Escolha o seu sonho"

Sobre andar e tropeçar

Venho esquecendo muitas coisas. Mas tenho aprendido algumas, também. Uma das mais recentes é a descoberta de que andar é um verbo irregular. Na teoria, talvez não. Mas a prática diária tem me posto diante da realidade de tropeçar, tropicar, cambalear, cair, desabar.

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Digam-me que um poeta deve ter assuntos mais preciosos do que o amor, e eu lhes direi que vocês estão agudamente enganados.

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Se tenho alguma virtude, ela é meu comedimento. Não sou gênio nem portento. Fiz apenas o que pude.

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Um dia descobriremos talvez por que estamos aqui, para que viemos . E será uma revelação tão simples, tão sem afetação e filosofia, que nos olharemos e diremos: ora, é isso, então? Isso nós já sabíamos, isso nós sempre soubemos.

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Lembrar os dias de febre, cantar os dias de pompa, antes que o fio se rompa, antes que a vida se quebre.

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Das loiras de sua vida, a mais gelada, hostil, malévola e inconquistável foi Estocolmo.

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A desproporção com que Deus usou o verde em sua obra máxima, e que hoje é reconhecida pelos críticos como um dos mais gritantes erros da Criação, só começou a ser notada depois do advento do futebol, mais precisamente a partir de 1910.

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Um dos itens do manual de sobrevivência dos haicais recomenda que, ao menor sinal de gongorismo, fujam com todas as asas que tiverem.

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Ter seguidores na rede social, ainda que poucos, é o pior dos pesadelos para um paranoico.

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Questão de leveza: a borboleta transporta o haicai ou é o haicai que transporta a borboleta?

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Um poeta deve estar preparado para viver fatos extraordinários, como erguer a mão para o céu e colher uma estrela ou erguê-la e vê-la voltar decepcionantemente vazia.

segunda-feira, julho 24

Antigamente...

 


Amor

Outro dia liguei o rádio e ouvi que faziam um concurso entre os ouvintes procurando uma definição para amor. As respostas eram muito ruins, até dava para se pensar que nem ouvintes nem locutores entendiam nada de amor realmente; o lugar-comum é mesmo o refúgio universal, que livra de pensar e dá, a quem o usa, a impressão de que mergulha a colher na gamela da sabedoria coletiva e comunga das verdades eternas. O que aliás pode ser verdade.

Mas a ideia de definição me ficou na cabeça e resolvi perguntar por minha conta. Tive muitas respostas. A impressão geral que me ficou do inquérito é que de amor entendem mais os velhos do que os moços, ao contrário do que seria de imaginar. E menos os profissionais que os amadores __digo os amadores da arte de viver, propriamente, e os profissionais do ensino da vida.

Vamos ver:

Dona Alda, que já fez bodas de ouro, diz que o amor é principalmente paciência. Indaguei: e tolerância? Ela disse que tolerância é apenas paciência com um pouco de antipatia. E diz que amor é também companhia e amizade. E saudade? [...] Não. Afinal, o amor não vai embora. Apenas envelhece, como a gente.

A jovem recém-casada me diz que o amor é principalmente materialismo. Todos os sonhos das meninas estão errados. Aquelas coisas que se leem nos livros da Coleção das Moças, aqueles devaneios e idealismos e renúncias e purezas, está tudo errado. Quando a gente casa, é que vê que o amor não passa de materialismo. [...]

Um senhor quarentão, bem casado, pai de filhos: "Amor, como se entende em geral, é coisa da juventude. Depois de uma certa idade, amor é mais costume. É verdade que tem a paixão com seus perigos. Mas você falou em amor e não em paixão, não foi?"

__ E de paixão, que me diz? __ Aí ele se fecha em copas. "Deixo isso para os jovens. Velhote apaixonado é fogo. E eu não passo de um pai de família."
A mãe da família desse senhor: "Amor? Bem, tem amor de noiva, que é quase só castelos e tolices. Tem o de jovem casada, que é também muita tolice __ mas sem castelos. Complicado com ciúme, etc., mas já inclui algum elemento mais sério. E tem o amor do casamento, que é a realidade da vida puxada a dois. Agora, o amor de mãe... Você perguntou também o amor de mãe?"

Respondi energicamente que não: amor de mãe, não. Quero saber só de amor de homem com mulher, amor propriamente dito.

Diz o solteiro, quase solteirão, que se imagina irresistível e incansável: "Amor é perigo. Só é bom com mulher sem compromissos. [...] O melhor é amor forte e curto, que embriaga enquanto dura e não tem tempo para se complicar. Aquela história de marinheiro com um amor em cada porto tem o seu brilho, tem o seu brilho".

O pastor protestante diz que o amor é sublimar a atração entre os dois seres, é atingir a mais alta e pura das emoções. Não confundir amor com sexo! [...]
Já o padre católico não elimina o sexo do amor. Explica que, pelo contrário, o sexo, no amor, é tão importante como os seus demais componentes __ o altruísmo, a fidelidade, a capacidade de sacrifício, a ausência do egoísmo. E é tão importante que, para santificar o amor sexual __ o amor conjugal __, a Igreja o põe sob a guarda de um sacramento, o santo matrimônio. E ante a pergunta: se tudo é assim tão santo, por que os padres não casam? O padre velho não se importa com a impertinência, sorri: "Nós nos demos a um amor mais alto. Casamento, para nós, seria pior que bigamia..."

E por último tem a matrona sossegada que explica: "Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito. Dói devagarinho, quentinho, confortável. É a mão que vem da cama vizinha, de noite, e segura na sua, adormecida. E você prefere ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele contato. Tão precioso ele é. Amor é ter medo __ medo de quase tudo __ da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste mundo".

Rachel de Queiroz, "Cenas brasileiras"

O canário

... Você vê aquele grande prego à direita da porta da frente? Dificilmente olho para ele, mesmo agora, e até hoje não tive vontade de arrancá-lo. Gostaria de pensar que ele fosse permanecer ali, mesmo depois de mim. Às vezes imagino as pessoas no futuro a dizerem: "Deve ter havido uma gaiola pendurada ali." E isso conforta-me; sinto que ele não está inteiramente esquecido.

... Você não pode avaliar como era maravilhoso o seu canto: não .cantava como os outros canários. E isto não é apenas fantasia minha. De minha janela, eu costumava ver as pessoas pararem em frente ao portão, para ouvir melhor, ou encostarem-se na cerca perto da falsa-laranjeira, um bocado de tempo, emocionadas. Suponho que você vá achar isso um absurdo — não acharia se o tivesse ouvido cantar —, mas parecia, realmente, que ele cantava as canções completas, com começo e fim.

... Por exemplo: à tarde, quando eu terminava o serviço, mudava de blusa e trazia minha costura para a varanda, ele costumava pular de um poleiro para o outro, bater contra as grades da gaiola, como se fosse para atrair minha atenção, bebia um gole d'água, tal como o faria um cantor, e punha-se a executar uma canção tão afinada que eu tinha de largar a agulha para ouvi-lo. Não sou capaz de descrevê-lo; bem que gostaria. Era sempre igual, toda tarde, e eu sentia que compreendia cada nota emitida.

... Eu o amava. Como eu o amava! Talvez não importe muito que coisa amamos neste mundo. Mas devemos amar alguma coisa. É claro, eu tinha minha casinha e o jardim, mas, por algumas razões, não era o bastante. Flores são maravilhosas, mas não sabem demonstrar simpatia. Naquela ocasião eu amava a Estrela Dalva. Isto lhe parece uma tolice? Eu tinha o costume de ir para o jardim, depois do pôr-do-sol, e esperá-la até que brilhasse por cima do eucalipto escuro. Eu costumava murmurar: "Aí está você, minha querida." E exatamente nesse instante ela parecia brilhar só para mim. Ela parecia compreender isso... alguma coisa que é como um anseio, mas não é um anseio. Ou lamento — sim, é mais parecido com lamento. E, no entanto, lamento por quê? Eu tenho tantos motivos para ser grata!

... Mas depois que ele entrou em minha vida, esqueci a Estrela Dalva; não precisei mais dela. Mas foi estranho. Quando o chinês chegou à minha porta vendendo pássaros, ele, em sua pequena gaiola, em vez de se debater contra as grades, como aqueles pobres pintassilgos, soltou um trinado fraco e curto, e eu me vi dizendo, como havia dito para a estrela por cima do eucalipto: "Aí está você, meu querido." Desde aquele momento, ele foi meu.

... Até hoje me surpreendo, quando me lembro de como ele e eu partilhávamos nossas vidas. Na hora em que eu descia, pela manhã, e retirava a toalha que cobria sua gaiola, ele saudava-me com uma notinha sonolenta. Sentia que ele queria dizer: "Tia! Tia!" Então, pendurava a gaiola no prego do lado de fora, enquanto servia o café aos meus três rapazes, e nunca o levava de volta para dentro enquanto não tínhamos a casa só para nós dois. Depois, enquanto eu lavava a louça, era uma diversão completa. Eu abria um jornal sobre um canto da mesa e, logo depois que eu punha a gaiola sobre o jornal, ele costumava bater as asas desesperadamente, como se não soubesse o que ia acontecer. "Você é um perfeito ator", eu gostava de dizer-lhe com ar de zangada. Eu raspava o fundo da gaiola, espalhava areia em cima, renovava a água e o alpiste das latinhas, espetava um pedaço de couve e meia pimenta malagueta na grade. Tenho plena certeza de que ele compreendia e apreciava cada item dessa pequena operação. Sabe, ele era por natureza muito asseado. Nunca havia uma sujeira em seu poleiro. E era preciso ver como gostava de se banhar, para se perceber que ele tinha verdadeira paixão por limpeza. Sua banheira era colocada por último; no mesmo instante ele pulava nela. Primeiro batia uma asa, depois a outra; então, mergulhava a cabeça e umedecia as penas do peito. Gotas d'água espalhavam-se por toda a cozinha, mas ele ainda não queria parar. Eu costumava dizer-lhe: "Agora basta. Você está apenas se exibindo." E por fim ele pulava para fora e, de pé sobre uma das pernas, começava a se bicar para enxugar-se. Finalmente sacudia-se, dava uma pirueta, um gorjeio, levantava a cabeça e... Ah! como dói lembrar. Nessa hora eu estava sempre enxugando as facas e quase me convencia de que elas também cantavam quando eu as esfregava para brilharem em cima da tábua.

... Companhia! É isso, veja, isso é o que ele era. Uma companhia perfeita. Se você algum dia viveu só, compreenderá o quanto isto é precioso. É verdade que havia meus três rapazes, que chegavam para o jantar todas as tardes e algumas vezes ficavam na sala, lendo o jornal. Mas eu não podia esperar que eles se interessassem pelas pequenas coisas corriqueiras do meu dia-a-dia. Por que se interessariam? Eu nada era para eles. Na verdade, eu os ouvira certa vez na escada referindo-se a mim como "O espantalho". Não importa. Não tem importância. Eu entendo muito bem. Eles são jovens. Por que haveria eu de ficar ressentida? Mas lembro-me de me sentir grata por não estar inteiramente só, naquela noite. Eu lhe disse, depois que os rapazes tinham ido embora. Eu lhe disse: "Você sabe de que nome eles chamam a Tia?" E ele deixou cair a cabeça para um lado e olhou-me com seu olhinho brilhante até que eu não pude conter o riso. Aquilo pareceu diverti-lo.

... Você já criou pássaros? Se não, tudo isto vai talvez parecer-lhe exagerado. As pessoas têm idéia de que os pássaros são seres sem coração, pequenas criaturas frias, ao contrário de cães e gatos: Minha lavadeira costumava dizer, nas segundas-feiras, quando queria saber por que eu não criava "um bonito fox-terrier": "Ter um canário não traz conforto, senhora." Não é verdade. É um grande engano. Lembro-me de uma noite. Eu tinha tido um sonho horrível — os sonhos podem ser muito cruéis — do qual, mesmo depois de acordada, não podia livrar-me. Então, vesti minha camisola e desci à cozinha, para tomar um copo d'água. Era uma noite de inverno e chovia forte. Acho que eu estava ainda meio adormecida. Pela janela da cozinha, que não tinha veneziana, a escuridão parecia estar olhando fixamente para dentro, espionando. E de repente senti que era insuportável não ter alguém a quem pudesse dizer: "Tive um sonho tão horrível" — ou "Defenda-me da escuridão." Até mesmo cobri meu rosto, por um momento. Então veio o agradável som "Psiu! Psiu!" A gaiola estava em cima da mesa, e o pano que a cobria havia escorregado, deixando uma fenda, por onde entrava um raio de luz. "Psiu, psiu!" — disse o encantador bichinho outra vez, docemente, como para dizer "Estou aqui, Tia! Estou aqui!" Aquilo soou tão agradável e confortante para mim, que quase chorei.

... E agora ele se foi. Nunca mais terei um outro pássaro, nem qualquer outro animal de estimação. Como poderia ter? Quando o encontrei, deitado de costas, os olhos turvos, as patinhas retorcidas, quando percebi que nunca mais ouviria seu canto tão querido, alguma coisa pareceu morrer em mim. Meu coração ficou vazio, como se fosse a gaiola dele. Eu hei de superar isso. É claro. Preciso fazê-lo. Com o tempo as pessoas se recuperam de qualquer coisa. Dizem que eu sempre estou bem-disposta, e têm razão. Graças a Deus, estou.

... Contudo, sem ser mórbida e mexendo nas lembranças, devo confessar que vejo nisto alguma coisa de triste na vida. Não me refiro à tristeza que todos nós conhecemos, como a doença, a pobreza e a morte. Não, é algo diferente. É lá no fundo, bem no fundo, faz parte da gente, como a respiração. Por mais que trabalhe, por mais que me canse, basta parar para sentir que essa coisa está lá, esperando. Muitas vezes eu me pergunto se todo mundo sente do mesmo jeito. Nunca se pode saber. Mas não é extraordinário que dentro de seu canto alegre, doce, tudo o que eu ouvia era: tristeza? ah, o que é isto?
Katherine Mansfield

domingo, julho 23

Volta das compras

 


A cidade e seu improvável livreiro

Quando cheguei a Curitiba, em 1964, me senti em Nova York. Que cidade, eu me perguntava, teria tantas livrarias? Eu vinha de uma cidade sem livrarias. Nesse circuito, algum tempo depois, eu procurava um livro de Arnold Hauser, História Social da Arte. Como não havia tradução brasileira, fui informado de que poderia encontrar uma edição em espanhol na livraria do Vignoles. Era o nome do livreiro. Um sujeito esquisito, me advertiram.

A livraria ficava, se não me engano, no primeiro andar da esquina da Rua do Rosário com a Praça Tiradentes. Entrava-se por uma escada estreita, de madeira. Subi passo a passo, os degraus rangendo a lembrar um filme de terror. Ninguém. Prateleiras, livros, um balcão. Andei de um lado para outro, pigarreei, arrastei o pé no chão. Já estava desistindo, quando emergiu, por detrás do balcão, um sujeito que me perguntou:

– O que você quer?

Assim, sem rodeios, um golpe de direita no queixo. Era um homem careca, de cara monolítica e sobrancelhas tensas. Ele balançou o corpo – parecia não se conter dentro de si – uma das mãos na cintura e outra sobre o balcão. Repetiu a pergunta:

– O que você quer?

Naquela época eu era um tímido profissional, capaz de horas de mutismo e de silêncios abissais e intransponíveis. Mal consegui dizer:

– Procuro um livro…

Hesitei. Súbito, o nome do livro sumira de minha cabeça. O careca atacou:

– É claro que procura um livro. Mas qual é o livro?

– História Social da Arte, do Arnold Hauser – lembrei, de soco.

Afastando-se ligeiramente, ele ergueu o tronco que inclinara para falar comigo. Retirou a mão que estava sobre o balcão, mantendo a outra na cintura e continuou, no estilo boxeador:

– E por que precisa deste livro?

Eis uma pergunta que eu não me fizera. Ou seja: queria ler, apenas isso. Já encontrara várias referências a ele em artigos, em livros, em jornais.

– Quero ler, murmurei.

– É claro, para que iria querer um livro, não é mesmo?

Ficamos os dois, olhos nos olhos, preparando o bote. Boxe puro. Temi que eu pudesse passar da timidez mórbida à agressividade mais desastrada, o que me acontecia na época. Por sorte, ele relaxou, ergueu os ombros, fazendo com que seu pescoço sumisse no meio deles, e estaqueou os braços sobre o balcão:

– Olhe, meu rapaz. Eu tenho o livro. Está ali, na prateleira ao lado da janela. Mas… – esperei pelo pior – …seu professor, ou seja lá quem lhe indicou este livro, não explicou uma coisa, provavelmente porque também não sabe. E me disse que eu perderia tempo lendo aquele livro. Está na moda, comentou com alguma repugnância, todo mundo anda lendo, todo mundo indica, mesmo sem ter a menor noção do que se trata. Moda, compreende? Moda é moda. Acontece que é um livro teoricamente fraco, com uma visão tosca das relações entre sociedade e arte. O autor, esse Hauser, leu Marx e não entendeu nada. E arrematou:

– Bom, o livro está ali. Se quiser comprar… Não aconselho.

Não comprei. Sumi escada abaixo. Só fui ler o livro meses depois, comprado no sebo da Voluntários. Em todos os casos, era outra Curitiba. Em qual das livrarias de hoje eu poderia encontrar um espécime raro daqueles: um livreiro que lia os livros que vendia, que tinha uma opinião a respeito deles – qualquer que fosse – e que, por discordância teórica e ideológica, preferisse não vendê-los a um estudante incauto?

Anos depois, me tornei amigo do Vignoles, quando ele já deixara de ser livreiro. Seguimos no estilo boxeador, como sempre, com diretos e cruzados de lado a lado. Uma grande figura. Um livreiro que sabia falar sobre os livros que vendia. Era outra Curitiba. Talvez outro mundo.
Roberto Gomes

Selfie de leitores

 


A vela ao diabo

E se as unhas roessem os meninos?
— Estória imemorada —

Esse problema era possível. Teresinho inquietou-se, trás orelha saltando-lhe pulga irritante. Via espaçarem-se, e menos meigas, as cartas da nôiva, Zidica, ameninhamente ficada em São Luís. As mulheres, sóis de enganos... Teresinho clamou, queixou-se — já as coisas rabiscavam-se. Ele queria a profusão. Desamor, enfado, inconstância, de tudo culpava a ela, que não estava mais em seu conhecer. Tremefez-se de perdê-la.

Embora, em lógico rigor, motivo para tanto não houvesse ou houvesse, andara da incerteza à ânsia, num dolorir-se, voluntário da insônia. Até bebeu; só não sendo a situaçãozinha solúvel no álcool. Amava-a com toda a fraqueza de seu coração. Saiu-se para providência.

A de que se lembrou: novena, heroica. Devia, cada manhã, em igreja, acender vela e de joelhos ardê-la, a algum, o mesmo, santo — que não podia saber nem ver qual, para o bom efeito. O método moveria Deus, ao som de sua paixão, por mirificácia — dedo no botão, mão na manivela — segurando-lhe com Zidica o futuro.

Sem pejo ou vacilar, começou, rezando errado o padre-nosso, porém afirmadamente, pio, tiriteso. Entrava nessa fé, como o grande arcanjo Miguel revoa três vezes na Bíblia. Havia-de.

Ia conseguindo, e reanimava-se; nada pula mais que a esperança. Difícil — pueris humanos somos — era não olhar nem conhecer o seu Santo. Na hora, sim, pensava em Zidica; vezes, outrossim, pensasse um risquinho em Dlena.

No terceiro dia, retombou, entretanto, coração em farpa de seta, odiando janelas e paredes. São Luís não lhe mandara carta. Quem sabe, cismou, vela e ajoelhar-se, só, não dessem — razoável sendo também uma demão, ajudar com o agir, aliar recursos? Deus é curvo e lento. E ocorreu-lhe Dlena.

Tão recente e inteligente, de olhos de gata, amiga, toda convidatividade, a moça esvoaçadora. Ela mesma, lindo modo, de início picara-lhe em Z a dúvida, mas pondo-se para conselhos — disso Teresinho quase se recordava. Realegrou-se, em imo, coração de fibra longa. Veio vê-la.

Dlena o acolheu, com tacto fino de aranha em jejum. Seu sorriso era um prólogo. E a estória pegou psicologia.

Teresinho — todos gostariam de narrar sua vida a um anjo — seus embaraços mentais. Dlena ouviu-o. Instruiu-o. — “Mulheres? Desprezo...” — muxoxo; ela isso dizia tão enxuto. Ela e cujo encanto.

Ele, dócil à sua graça, em plástico estado de suspenso, como um bicho inclina o ouvido. Apaziguavam-no seus olhos-paisagem. Sim, o que devia, e ora: não censuras e mágoas perturbadas, nenhum afligir-se, de gato sob pata, mas aguentar tempo, pagar na moeda! Descarregado das más suspeitas, já cienciado: dos poros da pele às cavidades do coração. Foi saindo do doendo.

Prosseguia na novena — ao infalir de Deus, por Santo incógnito; seguido, porém, o de Dlena, de cor — o que recordava, fonográfico. A Zidica, enviou curta carta, sem parte emotiva, traída a brasa do amor, entrouxada em muita palha. Voltava a Dlena, tanto quanto e tanto, caminhando sutilmente. Reenchia-se a lua, por aqueles dias.

Mostrou-lhe as de Zidica, após e pois. Simplórias simples cartinhas, reles ternas. Dlena, aliás, nelas leve notava as gentis faltas de gramática. Tinha ela olhos que nem seriam mesmo verdes, caso houvesse nome para outra igual e mais bela cor. Seu parecer provava-se sagaz tática, não há como Deus, d’ora-em-ora. Seu picadinho de conversa, razões para depois-de-amanhã.

Sentados os dois, ombro com ombro, a fim de arredondados suspiros ou vontade de suspirar. Ternura sem tentativa — fraternura. Teresinho se embriagando miudinho, feliz feito caranguejo na umidade, aos eflúvios dessa emoção. Seu coração e cabeça pensavam coisas diversas.

Valia divertir-se, furtar o tempo ao tormento — apud Dlena. Foram, a abrandar o caso, a festa e cinema. Num muito mais; prorrogavam-se. Teresinho, repartido, fino modo, que mais um escorpião em pica em sua consciência. Zidica bordando o enxoval... Zidica, a doçura insípida da boa água, produtora de esperanças... Tão quieto, São Luís, tão certo... Seu coração batia como uma doença, ele tinha medo.

Não iam desnamorar-se! A vida, vem se encaminhava. A novena completara-se, a derradeira vela, ele genuflexo. Fez o que pôde com aquele pensamento.
Ou começava a interrogar-se, desestruturando-se sua defesa. Frescura, quase felicidade; e espinhos perseverantes. Ideia tonta pousou nele. Tornou à igreja, espiou enfim o Santo, data vênia. Mal e nada no escuro viu, santo muda muito de figura.

Veio a Dlena — a seu suavizamento — com o coração na mão, algemada; caiu-lhe a alma aos pés dela. Apalpou os bolsos, contradesfeito. De Zidica, a última carta, esquecera-se de trazê-la. Ocorreu-lhe espirrar. Do nada, nada obteve.

Tudo, quanto há, é saudade, alternando-se com novidades: diagrama matemático, em calor de laboratório. O diabo não é inteiro nem invento. Teresinho desconjurava-se, imaginava-se chorando morno, por fechado desespero. Zidica — desconversas escrevera, volúvel, vaga?

Correu ele a Dlena, ao súbito último ato, açorado, asas nos sapatos. De fato. O Santo não lhe valera.

Dlena, ei-la — jeitinho, sorrisinho, dolo — estampada no vestido, amarelo com malhas castanho-vermelhas. Foi ela quem abriu o envelope; o iá-iá-iá de rir — riu de modo desusado. Mas franziu-se, então que então.

Ela era: seus olhos sem cinzas, rancordiosa. A carta rasgou, desfaçava-se. — “Viva, esta!” — voz de festa; o que maldisse. Soou, e fez-se silepse.
Teresinho recuou, de surpresa, susto, queimados os dedos. Seu coração se empacotou. Decidiu-se, de vez, de ombros, não preso. Ali algo se apagava. Dlena, ente. Nada disse, e disse mal. Só o que doeu: sorriso do amarelo mais belo. Teresinho arredou olhos.

Saiu-se — e tardara — de lá, dela, de vê-la. Voou para Zidica, a São Luís, em mês se casaram.

Foram infelizes e felizes, misturadamente.
Guimarães Rosa, "Tutameia"

sábado, julho 22

Fiat lux

 


A noiva jovem

Os degraus a subir são trinta e seis, trinta e seis degraus de pedra, que o velho sobe devagar, com circunspecção, como se recolhesse um a um para conduzi-los ao primeiro andar: ele pastor, eles animais mansos. Modesto é o seu nome. Serve naquela casa há cinquenta e nove anos, portanto é o sacerdote dali.

Ao chegar ao último degrau, detém-se diante do largo corredor que se alonga sem surpresas ante seu olhar: à direita os quartos fechados dos Senhores, cinco; à esquerda sete janelas, escurecidas por folhas cegas de madeira laqueada.

Está quase amanhecendo.

Detém-se, o velho, porque precisa atualizar a contagem. Registra as manhãs que anunciou naquela casa, sempre do mesmo modo. Então acrescenta uma unidade que se perde para além dos milhares. A conta é vertiginosa, mas isso não o perturba: o fato de celebrardesde sempre o mesmo rito matutino lhe parece coerente com seu ofício, respeitoso às suas inclinações e típico do seu destino.

Depois de passar a palma das mãos no tecido engomado da calça — nos flancos, à altura das coxas —, avança a cabeça um pouquinho e recomeça a caminhar. Ignora as portas dos Senhores, mas, diante da primeira janela, à esquerda, detém-se para abrir as folhas cegas. Faz isso com gestos suaves e calculados. Repete os movimentos em cada janela, sete vezes. Só então se volta, para contemplar a luz da alvorada que entra em feixes, pelas vidraças: conhece todas as possíveis nuances e, pelo aspecto, sabe como será o dia: pode deduzir daí, às vezes, esbatidas promessas. Já que confiarão nele — todos —, é importante a opinião que vai formular. Sol encoberto, brisa leve, decide. Assim será. Então percorre de volta o corredor, dessa vez dedicando-se à parede ignorada antes. Abre as portas dos Senhores, uma a uma, e anuncia em voz alta que já é dia, com uma frase que repete cinco vezes, sem modificar nem o timbre nem a inflexão.

Bom dia. Sol encoberto, brisa leve.

Depois desaparece.

Deixa de existir até reaparecer, inalterado, na sala dos desjejuns.

Alessandro Baricco

Os mais célebres 'Era uma vez'


Quando o Coelho Branco aparece diante do Rei Vermelho para dar seu depoimento no País das Maravilhas, diz que não sabe por onde começar. “Comece do começo”, lhe diz o Rei, “e continue até chegar ao final. Então pare”. Mas o que é esse começo? São João, pensando sem dúvida que dessa forma esclarecia o complexo dogma cristão, escreveu que no começo era o verbo. Séculos mais tarde, na primeira parte de Fausto, o desiludido médico procura nessa primeira palavra o entendimento que sente que lhe falta. Lutero teria traduzido esse verbo (logos) como wort, “palavra”, perdendo assim os outros sentidos implícitos no vocábulo grego, e Fausto se propõe a lê-los como “sinn”, “kraft” e “tat” – “intelecto”, “força” e “ação” –. Para Fausto, todas essas coisas estão no começo do livro sagrado.

As palavras iniciais de todo texto devem fazer pressentir as páginas seguintes. Pausada ou bruscamente, resumindo o argumento ou distraindo o leitor para que ele não adivinhe o desenlace, indicando o tom da narração que virá ou dando falsos indícios, se desculpando ou se vangloriando da aptidão do autor, as primeiras palavras são o gesto de reconhecimento e desafio lançados do ponto final de um livro ao leitor que inicia o percurso. Por motivos geralmente misteriosos, algumas dessas aberturas se tornam tão célebres que se transformam em lugares-comuns, enquanto outras são relegadas ao esquecimento como paixões fugazes.

Todo leitor reconhece o aterrador início de A Metamorfose, de Kafka: “Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto”. Ninguém pode se esquecer do inapelável começo de O Contrato Social, de Rousseau: “O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado”. Por que lembramos do musical início de As Ruínas Circulares, de Borges (“Ninguém o viu desembarcar na unânime noite”), e não com igual facilidade “Gostávamos tanto da casa porque, além de ser espaçosa e antiga”, de A Casa Tomada de Cortázar? Talvez pelo poder do inaudito adjetivo “unânime”, bem mais memorável do que os banais, ainda que exatos, epítetos “espaçosa e antiga”. Isso sugere que talvez nos deixamos seduzir mais prontamente pelo tom dos começos do que por seus significados. “Fala-me, Musa, do varão de grande engenho” com que começa a Odisseia e “Canta, Deusa, a cólera de Aquiles” da Ilíada dependem, para que lembremos deles, e a menos que saibamos grego antigo, da tradução que escolhemos para lê-las.

Sem levar em consideração as páginas preliminares que Cervantes escreveu para seu Dom Quixote, mesmo os que não leram o romance sabem de cor as primeiras hoje célebres palavras do primeiro capítulo. Apesar, entretanto, dos inumeráveis comentários que apareceram desde a publicação do livro em 1605 (e ainda antes, quando circulavam cópias manuscritas do livro, como provam as respostas que dá Lope a Cervantes em El Peregrino en su Patria, publicado no ano anterior), não sabemos nada de como Dom Quixote foi composto. Não conservamos um manuscrito feito por Cervantes, não sabemos quais foram seus primeiros esboços, suas dúvidas, quais outras palavras iniciais foram imaginadas e descartadas, qual foi sua inspiração inicial.

O imprescindível Francisco Rico, comentando em 1996 uma edição crítica do Dom Quixote de Rodríguez Marín, observou que a longa nota sobre aquele “lugar da Mancha de cujo nome não quero me lembrar” demonstrava a influência de “um minguado romancezinho que nem o autor nem ninguém poderia ter em conta” e não dizia nada sobre a palavra lugar, que o leitor, segundo Rico, “interpreta indefectivelmente e equivocadamente como ‘local’, ‘paragem’ e não como povoadinho”. Rico acrescenta que a emoção que podem despertar no leitor as famosas palavras de Cervantes muitas vezes precisa dispensar todo o arcabouço crítico. As primeiras palavras de uma obra prima podem prescindir de facilitadores.

Goethe dizia que, antes de escrever um livro, era preciso tê-lo “todo na cabeça” porque “um livro não começa necessariamente pela primeira frase”. Provavelmente isso é verdade, mas há algo inefável nas palavras iniciais que para um leitor é o “Abre-te, Sésamo”, de um texto. “Arma virumque cano”, “Nel mezzo del cammin di nostra vita”, “Call me Ishmael”, “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira”, “Longtemps je me suis couché de bonne heure”, se transformaram, ao longo de nossas leituras, em uma espécie de catálogo abreviado da literatura universal canônica.

Alguns dos começos mais célebres da literatura mundial:

Odisseia. Homero. Século VIII antes de Cristo. "Fala-me, Musa, do varão de grande engenho…".

Ilíada. Homero. Século VIII antes de Cristo. "Canta, Deusa, a cólera de Aquiles…".

A Divina Comédia. Dante Alighieri. 1321. "Na metade do caminho da vida, me encontrava em uma selva escura porque perdi o verdadeiro caminho…".

Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes. 1615. "Em um lugar da Mancha, de cujo nome não quero me lembrar, não faz muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor".

O Contrato Social. Jean-Jacques Rousseau. 1762. "O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado".

Memórias póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis. 1881. "Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte".

Anna Karenina. León Tolstói. 1877. "Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira".

A Metamorfose. Franz Kafka. 1915. "Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto".

Em Busca do Tempo Perdido. Marcel Proust. 1913-1927. "Durante muito tempo fui me deitar cedo".

Lolita. Vladimir Nabokov. 1955. "Lolita, luz da minha vida, fogo das minhas entranhas".

Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez. 1967. "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo".

Lolita. Vladímir Nabokov. 1955. "Lolita, luz de minha vida, fogo de minhas entranhas".

sexta-feira, julho 21

Fonte de magia

 


I had a dream!

Eu tive um sonho, e acordei hoje mais profético do que Martin Luther King. O pastor sonhava com um dia em que os negros teriam direitos iguais aos brancos. Eu sou mais modesto: sonho com o dia em que toda cidade brasileira terá uma Biblioteca Pública. Estarei com febre, com alucinações? Que nada. Não sonho com biblioteca de filme americano: edifícios imponentes, leões de pedra ladeando as escadarias, enorme pé-direito em mármore, centenas de mesinhas dispostas em grade. Penso em bibliotecazinhas modestas como muitas que já vi. No centro da cidade, de frente para a praça onde há também o cinema e a igreja, tem aquela casinha amarela, espremida entre uma barbearia e uma lanchonete. Você entra, e lá dentro tem quatro ou cinco mesas de formatos e tamanhos diferentes (que claramente foram doadas por particulares), um birô com uma bibliotecária atenta e um fichário do lado, e ao longo da parede umas estantezinhas com livros.

Biblioteca Pública Municipal de Várzea Alegre (CE)

Não são obras raras, obras caras. São aquelas velhas coleções encadernadas que se encontram nas salas de tantas famílias brasileiras, compradas a prestação numa época remota em que livros eram vendidos de porta em porta. É aquele Monteiro Lobato verde-escuro, aquele Jorge Amado vermelho-e-branco com letronas, aquele Dostoiévski vermelho da José Olympio cravejado de maravilhosas gravuras de Darel, Lívio Abramo, Goeldi. São as enciclopédias tornadas obsoletas pela Internet: a Delta-Larousse verde-escura, a gigantesca Mirador, a manuseada Barsa. Tem aquela coleção branca do Prêmio Nobel com uns autores que ninguém sabe mais quem são (quem diabo era Theodor Mommsen, Bjornstjerne Bjornsson?), tem aquela coleção verde com os melodramas de A. J. Cronin, tem o saudoso “Tesouro da Juventude”, e não esqueçamos os refugos das coleções de bancas de revistas: “Os Pensadores”, “Os Imortais da Literatura”, “Os Economistas”...

Muitos amigos meus hão de torcer o nariz diante de um tesouro cultural tão defasado, mas não reside aí o X da questão. O X é a existência de milhões de garotos e garotas, Brasil afora, que são doidos para ler mas não têm como, porque em suas cidades não se vendem livros, e mesmo que vendessem eles não teriam dinheiro para comprar. E não me venham com conversa de que por causa da Internet e dos videogames ninguém se interessa por livros. Quem gosta de ler gosta de livros. As bibliotecas que descrevi acima existem. Já as vi, com variações, espalhadas pelo Brasil afora, e quando as vi o que menos olhei foram as estantes. Olhei as caras mulatas ou caboclas dos adolescentes do Pará, do Paraná, do Espírito Santo, do Estado do Rio, de Minas, todos de olho enfiado num livro de Érico Veríssimo, num “Dicionário da Mitologia”, numa “Veja” do ano passado, num romance de Agatha Christie, num volume de Castro Alves. Lêem porque pertencem a uma elite: a das pessoas que tiveram um sonho e perceberam que não é sonho.
Braulio Tavares

As grandes ideias

Já se disse que as grandes ideias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios, e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade, sempre ameaçada, de que cada e todo homem, sobre a base de seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos.
Albert Camus

A Tempestade de um Minuto

O desregrado das estações está a inventar umas chuvas fortes de alguns segundos nas Caxinas. O meu cão ladra à noite quando subitamente se abate a tromba-de-água nas janelas como se viesse de mãos a empurrar o prédio todo. Isto nunca foi assim. Os temporais duravam mais tempo, ficavam pela tarde toda, pareciam prometer não mais ir embora. Agora, têm acontecido como ideias precipitadas, inacabadas, tidas à pressa como se não soubessem bem para que servem, que sentido haverão de ter. As estações estão um bocado sem saber a que se destinam.

Ouço a folia do mar. Fica sempre numa convulsão maior, como aliado da raiva súbita das nuvens e do vento. Ouço-o do quarto igual a um vizinho gigante que espia minha casa com vontade de um dia se vingar. Vingar de quê?

Alguém me dizia em pequeno que somos pecadores culpados. Era tão importante deixar de se dizer porcarias assim às crianças. Por causa disto, é mais forte do que eu desconfiar de mim mesmo. A policiar-me nos gestos e nos pensamentos com a impressão impagável de estar tão perto do erro que poderei ser o erro. Lembro-me de os professores na escola anunciarem que alguém copiou e eu, por mais aflito estivesse, nunca copiei mas senti sempre que me culpariam por ter olhado a janela aberta, por haver espiado os sapatos à procura de um milagre, ou por pasmar diante da nuca de algum colega como quem contava cabelos para não sucumbir à falta de respostas.

Na frutaria, um colega do início do liceu disse-me que ouve o mar logo depois das chuvas e que chega a ir espreitar para se assegurar de que não está de pé pelas ruas. Sem mais nem menos, disse que vai para velho com medo de tudo por sermos culpados. Entende agora o que lhe diziam os adultos quando era criança. Somos sempre culpados, e em algum instante o mundo vai pronunciar nossa sentença. Passamos as noites a braços com a consciência.

Há dias, ainda o mar troando louco mas já a chuva passada, calei o cão e levei-o lá fora para ver também como estavam as ruas e como se arranja medo. Tenho andado a convencer-me de que nunca vi o nosso mar assim. É certamente da perturbação da pandemia, do cansaço, de não haver ninguém, mas é facto que se põe em montanhas de água, formações cada vez mais verticais que treinam claramente para se porem de pé. O Crisóstomo, o meu cão, atónito na marginal, ladra às ondas mal alumiadas da noite. Ralha com elas. Não aceita que se alterem e nos ameacem. Repito, isto nunca foi assim.

As almas penadas do costume juntam-se no canto abrigado onde fumam ervas muito escolhidas. Chamam pelo cão, dizem boa noite. Falam do temporal. Durou 40 segundos. Um temporal inteiro em 40 segundos. Como se fosse uma festa rápida da qual até duvidaríamos. E riram-se. Quem fosse apanhado ao relento, por qualquer passo já estaria náufrago em tanta água. Um dos moços mais novos brinca dizendo que o inverno transtorna pela culpa das pessoas. É para virar barcos e haverá de ser para virar casas. Se 40 segundos assim acontecerem no mar qualquer traineira afunda. Perguntei-lhe porque fala em culpa. Que raio de culpa teremos nós pelo que chove. E ele respondeu que é o que o povo diz. Depois, corrige: as mulheres. As mulheres dizem e os homens passam a dizer. Ele acha que é para manter os homens em casa. Educa-se os homens para não saírem de casa, mas eles saem.

Esta tarde, quando voltei das compras, um senhor que passava quis cumprimentar-me pelo que lê nos jornais. Agradeci. E ele acrescentou: fale sobre isto ser um sinal. E eu, confuso, perguntei a que se referia. E ele reafirmou: isto é tudo um sinal. Esta pandemia e esta chuva, veja como andam as pessoas de cara no chão. Ouça o mar. Preste atenção ao ruído do mar à noite. Aquilo é uma 
conversa zangada. O senhor repare em como é tudo nossa culpa.

Valter Hugo Mãe

quinta-feira, julho 20

O conde e o passarinho

Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração.

Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens — o conde e o passarinho — foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.


Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O conde não sabe gorjear nem voar. O conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o conde. O conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o conde é um industrial, e o conde é conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.

Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu.

Entretanto, eu não quisera ser conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde. Não amo os condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro. Ainda ontem ou anteontem assim escrevi. O essencial é falar ao motorneiro. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

Quando eu era calouro de Direito, aconteceu que uma turma de calouros assaltou um bonde. Foi um assalto imortal. Marcamos no relógio quanto nos deu na cabeça, e declaramos que a passagem era grátis. O motorneiro e o condutor perderam, rápida e violentamente, o exercício de suas funções. Perderam também os bonés. Os bonés eram os símbolos do poder.

Desde aquele momento perdi o respeito por todos os motorneiros e condutores. Aquilo foi apenas uma boa molecagem. Paciência. A vida também é uma imensa molecagem. Molecagem podre. Quando poderás ser um urubu, meu velho Rubem?

Mas voltemos ao conde e ao passarinho. Ora, o conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha.

O conde ficou muito aborrecido, achou muita graça. Ora essa! Que passarinho mais esquisito!

Isso foi o que o Diário de São Paulo contou. O passarinho, a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do conde, varando as fábricas do conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o conde, voai, voai, voai, voai, passarinho, voai.
Rubem Braga, fevereiro, 1935

No embalo da leitura

 


Ler no café

No tempo em que se estudava nos cafés de caderno aberto a tomar apontamentos, assim que chegava perto do meio-dia, os empregados vinham enxotar-nos, dizendo que não podíamos ficar ali mais tempo só com um café e um copo de água, pois estavam a chegar os clientes para o almoço. Depois, pelo menos na zona onde eu morava, esses cafés desapareceram, dando lugar a agências bancárias, e o hábito perdeu-se. Mas eis que em Braga alguém interessado em alargar a todos os hábitos de leitura se lembrou de fazer regressar os livros aos cafés... Trata-se de uma empresa de construção, a DST, que patrocina há já mais de vinte e cinco anos um importante prémio literário, cuja mais recente vencedora foi a escritora Teolinda Gersão. Na sua teimosia de promover a cultura e a literatura portuguesa, resolveu então oferecer aos cafés de Braga livros dos vencedores do Prémio DST ao longo dos anos, assim aproximando o público mais jovem (que agora vai para o café olhar para o telemóvel) dos livros. Cada café terá uma escolha alargada de títulos (Mário Cláudio, Manuel Alegre, Lídia Jorge, Nuno Júdice, Maria Ondina Braga e muitos mais) para que quem por lá passe não possa dar a desculpa de já ter lido aquele romance ou não apreciar o autor por aí além. Empresas ao serviço da cultura. Muito bem.

Carta a um adolescente

Você pediu que eu escrevesse sobre a maldade. Foi a primeira vez que uma pessoa me pediu isso. Você foi corajoso porque falar sobre a maldade é falar sobre nós mesmos. A maldade é algo que mora dentro de nós, à espera do momento certo para se apossar do nosso corpo. Ao pedir que eu falasse sobre a maldade você me pediu que o ajudasse a entender o lado escuro de você mesmo.

Para a gente entender a maldade é preciso entender, antes, os dois poderes de que somos feitos. Somos feitos de uma mistura de amor e poder. Amor é um sentimento que nos liga a determinadas coisas, e vai desde o simples gostar até o estar apaixonado. O amor quer abraçar, ficar perto, proteger. Amo meu cachorrinho: quero brincar com ele, tenho saudade dele. Se ele morrer eu vou chorar. Gosto da minha casa. Dói muito – dá raiva – se alguém picha de preto o muro que tinha justo sido pintado de branco. Gosto muito de uma pessoa: pode ser o pai, a mãe, o avô, a namorada. Por causa desse sentimento fico triste vendo que aquela pessoa está triste. O amor faz isso: coloca o outro dentro da gente. O que o outro sente, a gente sente também. Um amigo meu, pedreiro, senhor João, a primeira coisa que fazia quando me visitava em minha casa era salvar, com um peneira, as abelhas que estavam morrendo afogadas na piscina. Ele sofria com as abelhas.

Por isso, muitas pessoas são vegetarianas. Elas não suportam pensar na dor por que passam os bichos para que nós nos lambuzemos com a carne deles. Uma pessoa muito querida, que não é vegetariana, não consegue comer frango ao molho pardo. O molho pardo desse frango se faz com sangue – e ela se lembra de haver visto frangos de pescoço cortado, pendurados num gancho, agonizantes, seu sangue vagarosamente pingando num prato. Agora, sempre que ela vê frango ao molho pardo, ela se lembra do sofrimento daquela ave inocente. Os bichos também sofrem.

O amor nos liga à natureza toda. Eu amo a natureza – os riachos de água limpa, as cachoeiras frias, as matas com suas samambaias, avencas, orquídeas, bananeiras, as borboletas, cigarras, pássaros. Nós humanos, temos olhos deformados – não percebemos a beleza dos seres que são diferentes da gente. Mas todos eles, inclusive os besouros (que alguns chamam de “bisorros”), as rãs, os lagartos, as marias-fedidas, as taturanas, os urubus – todos eles querem viver, sofrem, fazem parte desse nosso mundo e são necessários à sua existência. Todos eles são nossos irmãos – porque todos nós teremos o mesmo fim. Um dia nós voltaremos à terra e, quem sabe, renasceremos como besouro ou galinha…

Aquilo que eu amo eu quero proteger. Proteger o cachorrinho, o muro de casa, a natureza… Às vezes, a gente quer algo anterior ao proteger: a gente crer criar. Você ainda não é pai. Não tem, portanto nenhum filho para proteger. Chegará um dia, entretanto, em que você desejará ter um filho que você ainda não tem. Para isso é preciso que você tenha os poderes de homem – para semear no ventre de uma mulher a semente do filho que você ama, mas ainda não tem. Você deseja ser (ainda não é) administrador de empresa, cozinheiro, médico ou flautista: você ama essas coisas; mas ainda não é. O amor sozinho, não faz milagres. Para ser qualquer dessas coisas você terá que, devargazinho, ir desenvolvendo poderes no seu corpo, poderes que tornarão a forma ou de conhecimentos ou de habilidades.

Quando você tem essas duas coisas juntas o amor e o poder, coisas muito bonitas acontecem. O poder torna possível a existência daquilo que a gente ama: gero um filho, planto um jardim, construo uma casa.

O poder, assim está a serviço da alegria. Pelo poder eu posso contribuir para que o mundo seja melhor. O poder e o amor juntos, estão a serviço da preservação da vida.

Acontece, entretanto que a vida anda devagar. Leva tempo para uma criança ser gerada. Leva tempo para uma árvore crescer. Por vezes, ao plantar uma árvore, a gente sabe que nunca se assentará à sua sombra.

Já a morte anda rápido. Mata-se numa fração de segundo. Basta puxar um gatilho. Ou pisar o bicho. Ou quebrar o ovo. Corta-se uma árvore que levou cem anos para crescer em poucos minutos: se for uma bananeira, basta um golpe de facão.

Você me perguntou sobre a maldade: a maldade é isso – quando as pessoas sentem prazer no ato de destruir, isto é quando as pessoas sentem prazer no exercício puro do poder, sem que esse poder tenha um objetivo de vida. Bondade é o poder usado para a vida. Maldade é o poder usado para a morte.

A adolescência é o momento da vida quando se descobrem as delícias do poder. Criança tem amor mas não tem poder. Ela quer sorvete mas não tem o dinheiro. A mãe segura, põe de castigo, dá palmada. A criança é impotente. Na adolescência o corpo se desenvolve. Fica maior que o corpo da mãe, o corpo do pai. Ganha força. Juntos, então os adolescentes se constituem num exército poderoso. É por isso que os adolescentes gostam de estar juntos: isso lhes dá um sentimento de poder. Há coisas que nunca fariam sozinhos. Mas, em grupo, tudo é permitido. As pessoas mais mansas podem se tornar monstruosas em grupo. No grupo a gente perde o senso da responsabilidade moral.

Como eu já disse, o poder, como fim em sim mesmo, sem um propósito de amor, dá prazer rápido. Quebrar, pichar, arrancar, bater, cortar esmagar, derrubar – todas essas são formas do poder-prazer a serviço da morte. É uma coisa demoníaca.

Por isso, meu amigo, adolescente, quero confessar uma coisa que nunca confessei: “Tenho medo de vocês”. O fascínio que vocês têm pelo poder me assusta. É isso que é maldade: poder sem amor.

Eu queria poder dar para vocês, como herança, o ovo onde moram os meus sonhos, na esperança de que vocês continuassem a chocá-lo, depois da minha partida. Sim, o mundo que eu amo se parece com um ovo: está cheio de vida mas é muito frágil. Dentro dele estão coisas delicadas, fáceis de serem destruídas: plantas, insetos, ninhos, aves, músicas, poemas, memórias, livros, peixes, muros brancos, crianças, velhos, jardins…

Mas eu tenho medo que vocês não resistam à tentação de quebrar o ovo onde eu e o meu mundo moramos. Como é fácil quebrar um ovo! Fácil e irreversível: nunca mais! Assim, por enquanto, o ovo onde moram meus sonhos fica sob a minha guarda. Até encontra os herdeiros que eu espero.

Rubem Alves, Correio Popular, (Campinas, 1996)