A gente morava na última casa de uma rua. Depois
o mato começava. Dois trilheiros entravam pelo
mato. Um trilheiro dava no rancho de Nhá Velina
Cuê que comia feijão com arara, quati com abóbora
e cobra com mandioca. O outro trilheiro esbarrava
no rio. Os meninos brincavam nus no rio entre
pássaros. Tinha um Bolivianinho, boliviano pé
de pano entre os guris. E um Gonçalo pé de galo
orelha de meu cavalo. Acho que o pé de pano do
boliviano era só para trovar. Assim como o pé de
galo do Gonçalo. Descobri nesse tempo que os
apelidos pregam mais quando trovam. Depois descobri
naquele lugar a palavra abandono. A palavra funcionava
dentro e fora das pessoas. Eu não sabia se era o
lugar que transmitia o abandono às pessoas ou se
eram elas que transmitiam o abandono ao lugar. Eu
conhecia a palavra só de nome. Mas não conhecia
o lugar que pegava abandono. Por antes a força da
palavra é que me dava a noção. Mas em vista do
que vi o olhar reforça a palavra. O olhar segura
a palavra na gente. O cheiro e o amor do lugar
também participam. Todos os seres daquele lugar
me pareciam perdidos na terra, bem esquecidos como
um lápis numa península. Mas Nhá Velina Cuê me
falou: este abandono me protege. Acho que esse
paradoxo reforça mais a poesia do que a verdade.
Manoel de Barros, "Memórias Inventadas – A segunda infância"
quarta-feira, agosto 9
segunda-feira, agosto 7
Pingo
Passava de vinte e duas horas quando o casal, que vinha do cinema, viu no meio-fio uma pequena forma escura, sobre a qual se debruçavam três moças.
A rua era tranquila, dessas que, mesmo desembocando em outras de agudo movimento, conservam sua placidez de província, alheias a toda emoção fora de pauta. Um ponto escuro na calçada, àquela hora de domingo, e a presença de moças em torno constituíam, pois, algo extraordinário, cuja importância o casal intuiu devidamente.
A pequena sombra movia-se. Era gente, mantinha a cabeça baixa, e suas mãos de menino tenro lidavam com um caixotinho que iam convertendo em gravetos. Parecia muito preocupado com a tarefa, de sorte que se manteve alheio à exposição feita por Iolanda, uma das moças, moradora na vizinhança.
Contava ela que, passando com duas amigas, também fora atraída pela coisinha movediça, no recanto menos iluminado da rua. Aproximando-se, pôs-se a observar o garoto, que tremia de frio mas não abandonava seu trabalho.
— E para onde foi seu pai?
— Eu é que sei?
— A que hora ficou de voltar?
— Não disse.
— E você vai ficar aí jogado até que ele volte?
— Fico fazendo lenha, uê.
A moça viu logo que a primeira providência era dar alimento e agasalho ao guri. Foi à casa, correndo, e trouxe um saco de biscoitos e um suéter tanto mais admirável quanto estava exatamente na medida, como tecido na previsão de uma criança de cinco anos, que fosse encontrada ao abandono, em noite de frio, na calçada.
Ele se deixou vestir, comeu com gosto e sem pressa. Mas, enquanto comia, procurava despregar mais uns pedacinhos de madeira.
A moça pensou em recolhê-lo em casa, à espera dos acontecimentos. Mas, se o pai viesse e não encontrasse o garoto no meio-fio, como restituí-lo? Nessa fiúza, estavam já havia uma hora. Por outro lado, era estranho aquele pai que assim deixava seu filho atirado na rua, ao relento, prometendo voltar mais tarde. Voltaria? Nunca mais, talvez.
Restava o recurso de tomar um carro e ir campear o barracão do menino, mas ele falava em sítios confusos, parecendo incapaz de localizá-los, ou pouco disposto a isso. Apelar para a delegacia ou o juízo de menores, a essa hora da noite, seria inútil. Na pior hipótese, a moça o guardaria em casa, e amanhã dá-se um jeito.
Examinava-se o que convinha fazer, em definitivo, quando outro grupo assomou à esquina, e, vendo o ajuntamento, dele se aproximou. Eram domésticas e operárias, que vinham rindo, satisfeitas com o domingo bem vivido, ou por coisa nenhuma. Curvando-se, reconheceram logo um irmão:
— É Pingo!
Era Pingo, amigo de todas, domiciliado na Praia do Pinto. Pai? Não tinha pai, pelo menos que alguma delas soubesse. A mãe era lavadeira, e Pingo gostava de sair à aventura, percorrendo mundo. Pingo é muito levado, tem imaginação.
Então a moça samaritana pediu às vizinhas de Pingo que o levassem. Elas concordaram, e Pingo não fez oposição. Queria apenas carregar as tabuinhas, com que faria em casa um grande fogo. Juntaram-se os fragmentos, e o bando partiu com a mesma algazarra feliz, comboiando Pingo de suéter novo, com as tabuinhas e os biscoitos remanescentes na mão.
— Você vai para o céu, Iolanda! — comentou o casal, a uma voz.
Mas Iolanda seguia com os olhos o grupo de raparigas, e preocupava-se. “Essa gente é meio maluca, sei lá se elas levam mesmo o garoto para casa?”
Carlos Drummond de Andrade, "Fala, Amendoeira"
A rua era tranquila, dessas que, mesmo desembocando em outras de agudo movimento, conservam sua placidez de província, alheias a toda emoção fora de pauta. Um ponto escuro na calçada, àquela hora de domingo, e a presença de moças em torno constituíam, pois, algo extraordinário, cuja importância o casal intuiu devidamente.
A pequena sombra movia-se. Era gente, mantinha a cabeça baixa, e suas mãos de menino tenro lidavam com um caixotinho que iam convertendo em gravetos. Parecia muito preocupado com a tarefa, de sorte que se manteve alheio à exposição feita por Iolanda, uma das moças, moradora na vizinhança.
Contava ela que, passando com duas amigas, também fora atraída pela coisinha movediça, no recanto menos iluminado da rua. Aproximando-se, pôs-se a observar o garoto, que tremia de frio mas não abandonava seu trabalho.
Perguntou-lhe por que estava ali, já tarde, solito, desmanchando tabuinhas. E ele, que não se revelou amigo de conversa, a custo foi soltando sua explicação. O pai deixara-o naquele ponto, recomendando-lhe que não saísse do lugar. Tinha que fazer, e voltaria mais tarde para buscá-lo.
— E para onde foi seu pai?
— Eu é que sei?
— A que hora ficou de voltar?
— Não disse.
— E você vai ficar aí jogado até que ele volte?
— Fico fazendo lenha, uê.
A moça viu logo que a primeira providência era dar alimento e agasalho ao guri. Foi à casa, correndo, e trouxe um saco de biscoitos e um suéter tanto mais admirável quanto estava exatamente na medida, como tecido na previsão de uma criança de cinco anos, que fosse encontrada ao abandono, em noite de frio, na calçada.
Ele se deixou vestir, comeu com gosto e sem pressa. Mas, enquanto comia, procurava despregar mais uns pedacinhos de madeira.
A moça pensou em recolhê-lo em casa, à espera dos acontecimentos. Mas, se o pai viesse e não encontrasse o garoto no meio-fio, como restituí-lo? Nessa fiúza, estavam já havia uma hora. Por outro lado, era estranho aquele pai que assim deixava seu filho atirado na rua, ao relento, prometendo voltar mais tarde. Voltaria? Nunca mais, talvez.
Restava o recurso de tomar um carro e ir campear o barracão do menino, mas ele falava em sítios confusos, parecendo incapaz de localizá-los, ou pouco disposto a isso. Apelar para a delegacia ou o juízo de menores, a essa hora da noite, seria inútil. Na pior hipótese, a moça o guardaria em casa, e amanhã dá-se um jeito.
Examinava-se o que convinha fazer, em definitivo, quando outro grupo assomou à esquina, e, vendo o ajuntamento, dele se aproximou. Eram domésticas e operárias, que vinham rindo, satisfeitas com o domingo bem vivido, ou por coisa nenhuma. Curvando-se, reconheceram logo um irmão:
— É Pingo!
Era Pingo, amigo de todas, domiciliado na Praia do Pinto. Pai? Não tinha pai, pelo menos que alguma delas soubesse. A mãe era lavadeira, e Pingo gostava de sair à aventura, percorrendo mundo. Pingo é muito levado, tem imaginação.
Então a moça samaritana pediu às vizinhas de Pingo que o levassem. Elas concordaram, e Pingo não fez oposição. Queria apenas carregar as tabuinhas, com que faria em casa um grande fogo. Juntaram-se os fragmentos, e o bando partiu com a mesma algazarra feliz, comboiando Pingo de suéter novo, com as tabuinhas e os biscoitos remanescentes na mão.
— Você vai para o céu, Iolanda! — comentou o casal, a uma voz.
Mas Iolanda seguia com os olhos o grupo de raparigas, e preocupava-se. “Essa gente é meio maluca, sei lá se elas levam mesmo o garoto para casa?”
Carlos Drummond de Andrade, "Fala, Amendoeira"
Rita
No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.
Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...
Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhantes de prazer, eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca teve.
Rubem Braga, "200 crônicas escolhidas"
Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...
Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhantes de prazer, eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca teve.
Rubem Braga, "200 crônicas escolhidas"
O nome das coisas
Quando o velho poeta disse tristemente que tinha dissipado a vida com sonetos, o repórter fez duas perguntas. A primeira foi: o que era dissipar; a segunda, o que eram sonetos.
Nos seus últimos dias, ainda se dizia poeta, mas só a si mesmo, e com a voz furtiva de quem confessa uma infâmia ou uma derrota.
Não há mais loiras longilíneas e langorosas em sua vida. Foram-se todas; restaram só as aliterações.
A literatura pode tornar-se uma obsessão. Você perderá o apetite, o sono, e os amigos que conservar terão também apetite ruim, sono difícil e, como você, sonharão com baleias assassinas e insetos gigantescos. Não se preocupe. Quem entende do assunto diz que não chegam a ser maus sinais.
Ninguém sabe melhor que eu a cor dos olhos de minha tristeza, quando chora.
Quando ela diz rosa, um murmúrio de pétalas perfuma o ar.
O viço é uma artimanha do tempo.
A gramática é a tia velha que exige que todos, parentes ou não, saibam que o nome dela é Maria Campos das Dores e não Maria Jardim das Flores.
Nunca neguei alegria aos meus personagens. Eu os fiz beber, sorrir, subir em mesas, sapatear, rir o riso dos idiotas e dos tresloucados. Mas, quando precisavam de um rosto transtornado pelo infortúnio, não lhes dei tudo que podia. Sempre tive ciúme de minha tristeza.
O poeta concretista mudou de ares. Saiu do sobradinho romântico e mora agora na cobertura de um edifício de quarenta andares.
***
Nos seus últimos dias, ainda se dizia poeta, mas só a si mesmo, e com a voz furtiva de quem confessa uma infâmia ou uma derrota.
***
Não há mais loiras longilíneas e langorosas em sua vida. Foram-se todas; restaram só as aliterações.
***
A literatura pode tornar-se uma obsessão. Você perderá o apetite, o sono, e os amigos que conservar terão também apetite ruim, sono difícil e, como você, sonharão com baleias assassinas e insetos gigantescos. Não se preocupe. Quem entende do assunto diz que não chegam a ser maus sinais.
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Ninguém sabe melhor que eu a cor dos olhos de minha tristeza, quando chora.
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Quando ela diz rosa, um murmúrio de pétalas perfuma o ar.
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O viço é uma artimanha do tempo.
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A gramática é a tia velha que exige que todos, parentes ou não, saibam que o nome dela é Maria Campos das Dores e não Maria Jardim das Flores.
***
Nunca neguei alegria aos meus personagens. Eu os fiz beber, sorrir, subir em mesas, sapatear, rir o riso dos idiotas e dos tresloucados. Mas, quando precisavam de um rosto transtornado pelo infortúnio, não lhes dei tudo que podia. Sempre tive ciúme de minha tristeza.
***
O poeta concretista mudou de ares. Saiu do sobradinho romântico e mora agora na cobertura de um edifício de quarenta andares.
sexta-feira, agosto 4
O encanto dos velhos livros
A bibliofilia tem muito de esporte, praticado diversamente por pobres e ricos. Uma é a bibliofilia dos esnobes endinheirados que compram livros raros ou luxuosos, não para os ler, mas pela vã glória de os possuir. Outra é a bibliofilia dos que realmente leem com apetite e curiosidade insaciáveis e cuja ânsia de leitura se estende por bem dizer a todos os livros.
Na verdade, o culto que bibliólatra pobre vota aos livros é antes de nada um culto de leitor e não de simples colecionador.
Eduardo Frieiro, "Os livros nossos amigos"
Na verdade, o culto que bibliólatra pobre vota aos livros é antes de nada um culto de leitor e não de simples colecionador.
Eduardo Frieiro, "Os livros nossos amigos"
Cemitério de carros
Os Agras não lidavam apenas com enterros: alugavam também coches de passeio. Carros de luxo para batizado, para casamento, para formatura de bacharéis em direito. Carros festivamente forrados de cor-de-rosa e de branco e não apenas de azul-escuro; de damasco, cor de cereja e não somente de cinzento; carros alegremente claros e não somente pretos e dourados como os dos funerais caros; ou os todo pretos dos enterros baratos, quase iguais aos chamados “violões” de caridade.
Augusto dos Anjos encontrou em Casa Agra rima ideal para sua “sombra magra” de homem preocupado com escarro de sangue, doença, morte, enterro, cemitério. E deu à velha casa da rua do Imperador a triste celebridade de empresa apenas funerária.
Mas para o recifense de primeira água essa celebridade é completada pela outra: pela de um nome ligado também às melhores alegrias e festas do Recife. Não só às de batizado, às de casamento e às de formatura na Academia de Direito, como aos piqueniques finos, que até os começos deste século se faziam de carros de cavalo; aos pastoris, que os rapazes elegantes dos fins do século passado frequentavam também de carros às vezes rodando escandalosamente pelas ruas e quebrando o silêncio e a paz das noites burguesas e trazendo dos subúrbios para ceias no centro da cidade, mestras e dianas que, rindo alto, cantando, gritando, dentro dos próprios carros perdiam a virgindade de mulatas pobres; às representações no Teatro Apolo e às companhias italianas no Santa Isabel; às passeatas cívicas, com vivas à liberdade, à República, à Abolição, à princesa Isabel, ao dr. José Mariano; às chegadas de heróis da guerra do Paraguai como o marquês de Herval; ou de bispos oficialmente de Olinda, mas na verdade de Recife, como dom Vital; aos carnavais — os velhos carnavais recifenses quando os carros do Agra, de capotas arriadas, os cocheiros, como sempre, de cartolas solenes como as dos ministros de Estado, rodavam pelas ruas da cidade aos gritos de “Olha, o carro!” levando mascarados elegantes, dominós de veludo, bailarinas de saias de seda; ou simplesmente famílias providas de gordos sacos de confete, caixas de bisnagas, os meninos fantasiados de palhaços e com muitos guizos, as meninas vestidas de camponesas, de holandesas, de ciganas. Os carros eram atacados pelos foliões a pé — isto é, os da mesma condição social da gente que rodava de carro — a bisnaga, a confete, a serpentina. Que carros mais alegres do que esses? Pois eram quase todos da Casa Agra.
Sucede que há mais de trinta anos, voltando eu do estrangeiro a um Recife já muito despoetizado de seus antigos encantos pelo triunfo, que nele foi rápido após a primeira Grande Guerra, de novidades que o sociólogo escocês Geddes chamaria “paleotécnicas”, procurei matar saudades do Recife da minha meninice vendo coisas nobremente velhas: mesmo as plebeias como as tascas fiéis ao seu passado e por ele enobrecidas. E como já fossem raros nas ruas, nos próprios enterros, os carros de cavalo, e estes mesmos, uns carros desengonçados e feios, rangendo de fadiga mortal e guiados por boleeiros sem cartola, chapéu mole, ar acapadoçado, perguntei por eles: pelos velhos e belos carros do Agra. Eram tantos que não podiam ter se sumido de repente, expulsos das ruas pelos ainda poucos automóveis.
Um Agra da nova geração — pois a família era amiga já velha da minha gente — prometeu mostrar-me carros antigos, não em movimento, mas parados. Tristonhamente parados como num museu. E em vez de carros vivos, como os raros e moribundos que ainda rodavam arcaicamente pela cidade nos enterros, vi uma tarde, guiado por um Agra, verdadeiro cemitério de velhos carros de luxo, todos mortos. Carros de luxo, carros de qualidade, carros de gala. Carros com as belas lanternas de prata que eu admirara no meu tempo de menino; com as almofadas de veludo, os forros de seda, os tapetes felpudos, as molas doces, todo o macio conforto em que eu me regalara em idas e vindas do centro do Recife a Caxangá, à Capunga, aos Aflitos, em carnavais, em passeios pelas ruas empedradas do centro da cidade, pelas areias secas dos arrabaldes mais elegantes, pelas lamas profundas dos subúrbios desprezados pela prefeitura.
Esse cemitério de carros de luxo, com muita prata, muito veludo, muita seda, muito damasco, muito resto de luxo antigo a abrilhantar-lhes a velhice melancólica e ignorada, os Agras conservavam numa vasta cocheira para os lados da rua do Sossego. Precisamente a rua que pelo nome e pela situação de lugar, na verdade, quase morto, de tão tranqüilo e próximo do cemitério de Santo Amaro, Convinha ao fim de vida daqueles carros também “postos em sossego”. Quase mortos depois de anos e anos de movimento, de vibração, de glória. Um carro fora de Osório: atravessara as ruas do Recife com o herói da guerra do Paraguai vivado por multidões. Tinha lanternas de prata lavrada que sozinhas davam ao ilustre veículo nobreza e não apenas encanto artístico. Belo era também o cupê que fora dos bispos: forrado de veludo, lanternas de prata parecidas às de procissão, parecia saudoso das murças que tantas vezes animaram de roxo, de vermelho, de brilhos litúrgicos, aquele interior grave, severo, mas não lúgubre, de carro também triunfal. Havia um landau que me informaram ter tido a glória de carregar Quincas, o Belo, numa de suas chegadas ao Recife; e do qual o formoso gigante falara à multidão. Uma vitória meio alegre que me disseram ter sido do Palácio do Governo no tempo de Sigismundo Gonçalves, que foi homem galante, tendo sido ao mesmo tempo austero homem de Estado. Outro cupê, forrado de cor-de-rosa, lanternas que eram duas jóias: este me asseguraram que fora de certa condessinha, iaiá muito mimosa do Recife, no seu tempo de moça.
Naquela cocheira erma, feia, triste, com um vigia dia e noite para botar sentido nos coches e não deixar que os gringos mais afoitos roubassem as pratas, era esse cupê alegre o único com fama de assombrado ou encantado. Uma vez por outra dizia o velho da cocheira que a própria condessinha aparecia no cupê, toda sinhá, num ruge-ruge de sedas finas e galantes que arrepiava os negros mais calmos. Era pelo menos o que contava esse negro velho, vigia da cocheira.
Ouvi de outro empregado da cocheira dos Agras que uma vez acordara, noite alta, despertado por um ruído que lhe parecera o de carro de cavalos desembestados. Impossível porque ali não havia cavalo: só carros passivos e tristes. Não afirmava que não fosse um resto de sonho mau: mas sua impressão fora a de ter visto sair do meio dos carros mortos, um, de repente vivo, ruidosamente vivo, puxado por um cavalo alazão com um pé branco e guiado por um negro de sobrecasaca cheia de galões de ouro. Tomara o carro a direção do cemitério de Santo Amaro. Aliás, o cemitério de carros dos Agras ficava tão perto do de Santo Amaro que era como se fosse um seu anexo. O cemitério de carros anexo do cemitério de gente.
Augusto dos Anjos encontrou em Casa Agra rima ideal para sua “sombra magra” de homem preocupado com escarro de sangue, doença, morte, enterro, cemitério. E deu à velha casa da rua do Imperador a triste celebridade de empresa apenas funerária.
Mas para o recifense de primeira água essa celebridade é completada pela outra: pela de um nome ligado também às melhores alegrias e festas do Recife. Não só às de batizado, às de casamento e às de formatura na Academia de Direito, como aos piqueniques finos, que até os começos deste século se faziam de carros de cavalo; aos pastoris, que os rapazes elegantes dos fins do século passado frequentavam também de carros às vezes rodando escandalosamente pelas ruas e quebrando o silêncio e a paz das noites burguesas e trazendo dos subúrbios para ceias no centro da cidade, mestras e dianas que, rindo alto, cantando, gritando, dentro dos próprios carros perdiam a virgindade de mulatas pobres; às representações no Teatro Apolo e às companhias italianas no Santa Isabel; às passeatas cívicas, com vivas à liberdade, à República, à Abolição, à princesa Isabel, ao dr. José Mariano; às chegadas de heróis da guerra do Paraguai como o marquês de Herval; ou de bispos oficialmente de Olinda, mas na verdade de Recife, como dom Vital; aos carnavais — os velhos carnavais recifenses quando os carros do Agra, de capotas arriadas, os cocheiros, como sempre, de cartolas solenes como as dos ministros de Estado, rodavam pelas ruas da cidade aos gritos de “Olha, o carro!” levando mascarados elegantes, dominós de veludo, bailarinas de saias de seda; ou simplesmente famílias providas de gordos sacos de confete, caixas de bisnagas, os meninos fantasiados de palhaços e com muitos guizos, as meninas vestidas de camponesas, de holandesas, de ciganas. Os carros eram atacados pelos foliões a pé — isto é, os da mesma condição social da gente que rodava de carro — a bisnaga, a confete, a serpentina. Que carros mais alegres do que esses? Pois eram quase todos da Casa Agra.
Sucede que há mais de trinta anos, voltando eu do estrangeiro a um Recife já muito despoetizado de seus antigos encantos pelo triunfo, que nele foi rápido após a primeira Grande Guerra, de novidades que o sociólogo escocês Geddes chamaria “paleotécnicas”, procurei matar saudades do Recife da minha meninice vendo coisas nobremente velhas: mesmo as plebeias como as tascas fiéis ao seu passado e por ele enobrecidas. E como já fossem raros nas ruas, nos próprios enterros, os carros de cavalo, e estes mesmos, uns carros desengonçados e feios, rangendo de fadiga mortal e guiados por boleeiros sem cartola, chapéu mole, ar acapadoçado, perguntei por eles: pelos velhos e belos carros do Agra. Eram tantos que não podiam ter se sumido de repente, expulsos das ruas pelos ainda poucos automóveis.
Um Agra da nova geração — pois a família era amiga já velha da minha gente — prometeu mostrar-me carros antigos, não em movimento, mas parados. Tristonhamente parados como num museu. E em vez de carros vivos, como os raros e moribundos que ainda rodavam arcaicamente pela cidade nos enterros, vi uma tarde, guiado por um Agra, verdadeiro cemitério de velhos carros de luxo, todos mortos. Carros de luxo, carros de qualidade, carros de gala. Carros com as belas lanternas de prata que eu admirara no meu tempo de menino; com as almofadas de veludo, os forros de seda, os tapetes felpudos, as molas doces, todo o macio conforto em que eu me regalara em idas e vindas do centro do Recife a Caxangá, à Capunga, aos Aflitos, em carnavais, em passeios pelas ruas empedradas do centro da cidade, pelas areias secas dos arrabaldes mais elegantes, pelas lamas profundas dos subúrbios desprezados pela prefeitura.
Esse cemitério de carros de luxo, com muita prata, muito veludo, muita seda, muito damasco, muito resto de luxo antigo a abrilhantar-lhes a velhice melancólica e ignorada, os Agras conservavam numa vasta cocheira para os lados da rua do Sossego. Precisamente a rua que pelo nome e pela situação de lugar, na verdade, quase morto, de tão tranqüilo e próximo do cemitério de Santo Amaro, Convinha ao fim de vida daqueles carros também “postos em sossego”. Quase mortos depois de anos e anos de movimento, de vibração, de glória. Um carro fora de Osório: atravessara as ruas do Recife com o herói da guerra do Paraguai vivado por multidões. Tinha lanternas de prata lavrada que sozinhas davam ao ilustre veículo nobreza e não apenas encanto artístico. Belo era também o cupê que fora dos bispos: forrado de veludo, lanternas de prata parecidas às de procissão, parecia saudoso das murças que tantas vezes animaram de roxo, de vermelho, de brilhos litúrgicos, aquele interior grave, severo, mas não lúgubre, de carro também triunfal. Havia um landau que me informaram ter tido a glória de carregar Quincas, o Belo, numa de suas chegadas ao Recife; e do qual o formoso gigante falara à multidão. Uma vitória meio alegre que me disseram ter sido do Palácio do Governo no tempo de Sigismundo Gonçalves, que foi homem galante, tendo sido ao mesmo tempo austero homem de Estado. Outro cupê, forrado de cor-de-rosa, lanternas que eram duas jóias: este me asseguraram que fora de certa condessinha, iaiá muito mimosa do Recife, no seu tempo de moça.
Naquela cocheira erma, feia, triste, com um vigia dia e noite para botar sentido nos coches e não deixar que os gringos mais afoitos roubassem as pratas, era esse cupê alegre o único com fama de assombrado ou encantado. Uma vez por outra dizia o velho da cocheira que a própria condessinha aparecia no cupê, toda sinhá, num ruge-ruge de sedas finas e galantes que arrepiava os negros mais calmos. Era pelo menos o que contava esse negro velho, vigia da cocheira.
Ouvi de outro empregado da cocheira dos Agras que uma vez acordara, noite alta, despertado por um ruído que lhe parecera o de carro de cavalos desembestados. Impossível porque ali não havia cavalo: só carros passivos e tristes. Não afirmava que não fosse um resto de sonho mau: mas sua impressão fora a de ter visto sair do meio dos carros mortos, um, de repente vivo, ruidosamente vivo, puxado por um cavalo alazão com um pé branco e guiado por um negro de sobrecasaca cheia de galões de ouro. Tomara o carro a direção do cemitério de Santo Amaro. Aliás, o cemitério de carros dos Agras ficava tão perto do de Santo Amaro que era como se fosse um seu anexo. O cemitério de carros anexo do cemitério de gente.
Gilberto Freyre, "Assombrações do Recife Velho"
Por que um lixeiro na rua lendo um livro me emocionou
Às vezes, a insignificância de ontem se torna a maravilha de hoje. Se alguém tivesse me dito há apenas 20 anos que um dia eu me emocionaria ao ver alguém lendo um livro, isso teria me feito sorrir. Isso é o que, no entanto, aconteceu comigo esta manhã.
Na pequena e sorridente cidade de Saquarema onde moro, no Bairro dos Lagos, no Estado do Rio, onde as pessoas ainda te cumprimentam na rua sem te conhecer, costumo sair para passear bem cedo, antes do nascer do sol. Somos quase sempre os mesmos. Quem mais me cumprimenta costuma ser o pescador, que se vê alegremente carregando suas roupas em uma velha bicicleta ou caminhando a pé em direção ao mar. Esta manhã, porém, pela primeira vez, encontrei um homem idoso que andava de bicicleta carregado com sacolas plásticas, provavelmente velhas ferramentas de ferro recolhidas do lixo para revender como sucata.
Na volta, passando pela praia, vi sua bicicleta estacionada e ele sentado em frente ao Oceano Atlântico lendo um livro. Não era um folheto. Era um livro certamente recolhido no lixo. Hesitei em me aproximar para ver, por curiosidade, o que ele lia, até porque aqui no Brasil já é um milagre um pobre saber ler, quanto mais um livro.
Quando me sentei diante do computador para escrever minha coluna, não consegui me desvencilhar da figura do lixeiro, não com um celular velho na mão, mas com um livro. E é que dias atrás eu havia lido a triste notícia do fechamento, em São Paulo, de uma das maiores livrarias da América Latina, por onde passaram os escritores mais famosos para apresentar seus livros.
Sim, eu sei, o importante é ler, seja na pedra, no papel, no meio digital, mas o que é triste é que, no fundo, o desaparecimento do livro conduz a um déficit de leitura. Quando vemos todos os dias a cena de casais em um restaurante, ou caminhando pela rua, cada um absorto em seu celular, temos a certeza de que não estão lendo um livro.
Alguém chegou a escrever, talvez com certo exagero, que o motivo é a sepultura da literatura e principalmente da conversa. E a desculpa é que hoje não sobra tempo para ler um livro. O celular absorve tudo. Muitas vezes especula-se sobre o futuro de uma humanidade que já não lê, sem literatura, sem imaginação, filha e escrava apenas da pressa e da imagem, sem tempo sequer para pensar, por mais que a psicologia insista que a melhor terapia contra o estresse e a angústia é a meditação, o silêncio e a amizade, que podem existir no silêncio.
E é curioso que precisamente num momento crucial para a humanidade em que a solidão, a ansiedade pelo futuro e até o medo de ter filhos estão a aumentar, impõe-se ao mesmo tempo um regresso à sabedoria dos antigos clássicos, os gregos, latinos ou egípcios.
Vivemos um momento de inquietude e de busca desesperada pela velocidade e pelo novo, ao mesmo tempo em que persiste em nossas celas a saudade do que estamos perdendo a ponto de, como aconteceu comigo hoje, me surpreender e até me emocionar ao ver um colecionador de ferros velhos fazendo uma pausa para sentar e ler um livro que alguém jogou fora.
Eu não sou um pessimista. No mínimo, me acusam de ser muito otimista na minha idade, porque acredito que no final das contas não é verdade que os tempos passados foram melhores. É por isso que tentamos esquecê-los. Você não vive sem ilusões, sem esperança, sem amigos de verdade, sem acreditar que o amor ainda é possível. Sim, amor por tudo, a começar pela natureza que havíamos esquecido, desprezado e arruinado e hoje ela se vinga de nós e começa a nos assustar.
Estamos tão acostumados ao pessimismo, ao medo, às vezes tão desiludidos com a própria vida, mesmo jovens, que passamos a internalizar que o amor é impossível. Que tudo é desgosto, hipocrisia e interesse. E os índices de violência e até de suicídios estão crescendo no mundo.
Há dias, folheando o meu livro de conversas com o José Saramago, da editora Planeta, lembrei-me de uma anedota que então me fez sorrir e que às vezes, porém, me volta à cabeça, como nesta manhã, como reflexão filosófica .
Depois de muita discussão com o Prêmio Nobel de Literatura Portuguesa e sua esposa Pilar sobre o título que daríamos à semana de conversas que acabara de ter com o escritor, decidimos chamá-la: Amor Possível. Não sei se por lapso freudiano dado o conhecido pessimismo do autor, ou porque no fundo da alma humana continua a ideia de que o amor, pelo menos aquele que gostaríamos de viver, é impossível, a verdade é que nas primeiras resenhas que saíram do livro o título parecia errado: “O amor impossível”.
E o mais curioso é que neste mesmo jornal, depois de nos divertirmos comentando a anedota, quando saiu um artigo explicando que o verdadeiro título era “El amor posible”, também a manchete do artigo, que depois foi corrigida, tropeçou na mesma pedra intitulando-se “O amor impossível.”
Há muitas coisas em nossas vidas que são ou parecem impossíveis para nós e que nos inclinamos mais para o pessimismo do que para o otimismo. O próprio Saramago me disse que se constrói mais com o “não” do que com o “sim”. É um conceito filosófico que realmente revela nossa tentação ao pessimismo.
Talvez seja por isso que hoje carrego comigo a imagem forte e terna ao mesmo tempo, que me parecia impossível, do lixeiro, sentado no chão, sem pressa e sem celular, lendo um livro. Nada mais? Sim. Já não é pouca coisa saber que o impossível se recusa a morrer.
Na pequena e sorridente cidade de Saquarema onde moro, no Bairro dos Lagos, no Estado do Rio, onde as pessoas ainda te cumprimentam na rua sem te conhecer, costumo sair para passear bem cedo, antes do nascer do sol. Somos quase sempre os mesmos. Quem mais me cumprimenta costuma ser o pescador, que se vê alegremente carregando suas roupas em uma velha bicicleta ou caminhando a pé em direção ao mar. Esta manhã, porém, pela primeira vez, encontrei um homem idoso que andava de bicicleta carregado com sacolas plásticas, provavelmente velhas ferramentas de ferro recolhidas do lixo para revender como sucata.
Na volta, passando pela praia, vi sua bicicleta estacionada e ele sentado em frente ao Oceano Atlântico lendo um livro. Não era um folheto. Era um livro certamente recolhido no lixo. Hesitei em me aproximar para ver, por curiosidade, o que ele lia, até porque aqui no Brasil já é um milagre um pobre saber ler, quanto mais um livro.
Quando me sentei diante do computador para escrever minha coluna, não consegui me desvencilhar da figura do lixeiro, não com um celular velho na mão, mas com um livro. E é que dias atrás eu havia lido a triste notícia do fechamento, em São Paulo, de uma das maiores livrarias da América Latina, por onde passaram os escritores mais famosos para apresentar seus livros.
Sim, eu sei, o importante é ler, seja na pedra, no papel, no meio digital, mas o que é triste é que, no fundo, o desaparecimento do livro conduz a um déficit de leitura. Quando vemos todos os dias a cena de casais em um restaurante, ou caminhando pela rua, cada um absorto em seu celular, temos a certeza de que não estão lendo um livro.
Alguém chegou a escrever, talvez com certo exagero, que o motivo é a sepultura da literatura e principalmente da conversa. E a desculpa é que hoje não sobra tempo para ler um livro. O celular absorve tudo. Muitas vezes especula-se sobre o futuro de uma humanidade que já não lê, sem literatura, sem imaginação, filha e escrava apenas da pressa e da imagem, sem tempo sequer para pensar, por mais que a psicologia insista que a melhor terapia contra o estresse e a angústia é a meditação, o silêncio e a amizade, que podem existir no silêncio.
E é curioso que precisamente num momento crucial para a humanidade em que a solidão, a ansiedade pelo futuro e até o medo de ter filhos estão a aumentar, impõe-se ao mesmo tempo um regresso à sabedoria dos antigos clássicos, os gregos, latinos ou egípcios.
Vivemos um momento de inquietude e de busca desesperada pela velocidade e pelo novo, ao mesmo tempo em que persiste em nossas celas a saudade do que estamos perdendo a ponto de, como aconteceu comigo hoje, me surpreender e até me emocionar ao ver um colecionador de ferros velhos fazendo uma pausa para sentar e ler um livro que alguém jogou fora.
Eu não sou um pessimista. No mínimo, me acusam de ser muito otimista na minha idade, porque acredito que no final das contas não é verdade que os tempos passados foram melhores. É por isso que tentamos esquecê-los. Você não vive sem ilusões, sem esperança, sem amigos de verdade, sem acreditar que o amor ainda é possível. Sim, amor por tudo, a começar pela natureza que havíamos esquecido, desprezado e arruinado e hoje ela se vinga de nós e começa a nos assustar.
Estamos tão acostumados ao pessimismo, ao medo, às vezes tão desiludidos com a própria vida, mesmo jovens, que passamos a internalizar que o amor é impossível. Que tudo é desgosto, hipocrisia e interesse. E os índices de violência e até de suicídios estão crescendo no mundo.
Há dias, folheando o meu livro de conversas com o José Saramago, da editora Planeta, lembrei-me de uma anedota que então me fez sorrir e que às vezes, porém, me volta à cabeça, como nesta manhã, como reflexão filosófica .
Depois de muita discussão com o Prêmio Nobel de Literatura Portuguesa e sua esposa Pilar sobre o título que daríamos à semana de conversas que acabara de ter com o escritor, decidimos chamá-la: Amor Possível. Não sei se por lapso freudiano dado o conhecido pessimismo do autor, ou porque no fundo da alma humana continua a ideia de que o amor, pelo menos aquele que gostaríamos de viver, é impossível, a verdade é que nas primeiras resenhas que saíram do livro o título parecia errado: “O amor impossível”.
E o mais curioso é que neste mesmo jornal, depois de nos divertirmos comentando a anedota, quando saiu um artigo explicando que o verdadeiro título era “El amor posible”, também a manchete do artigo, que depois foi corrigida, tropeçou na mesma pedra intitulando-se “O amor impossível.”
Há muitas coisas em nossas vidas que são ou parecem impossíveis para nós e que nos inclinamos mais para o pessimismo do que para o otimismo. O próprio Saramago me disse que se constrói mais com o “não” do que com o “sim”. É um conceito filosófico que realmente revela nossa tentação ao pessimismo.
Talvez seja por isso que hoje carrego comigo a imagem forte e terna ao mesmo tempo, que me parecia impossível, do lixeiro, sentado no chão, sem pressa e sem celular, lendo um livro. Nada mais? Sim. Já não é pouca coisa saber que o impossível se recusa a morrer.
quinta-feira, agosto 3
Magia diária
Os livros se espalham pelas cadeiras, bancos, sofá em pilhas como torres de Pisa; formam pequenos montes pelo chão. As estantes, entulhadas, ficam no limite do equilíbrio que o tirar ou colocar livros pode causar um desabamento. Pouco espaço livre há. Um tantinho na mesa sobrecarregada, quase sumindo em meio à livralhada, e livre apenas a cadeira para se balançar na leitura.
As janelas só deixam entrar o céu de estrelas, nuvens e sol, e o jardim com flores e perfumes. Um fiapo de lago se avista longe.
Nesse canto de muro, há uma diária manipulação de alfarrábios, grossos volumes esquecidos, encadernações desgastadas, brochuras. A alquimia aqui se faz de palavras, de frases, de longos trechos. Um pedaço aqui, outro ali. As folhas são viradas e reviradas atrás da medida certa para o composto correto para a felicidade do momento. Um elixir preparado a cada dia com novas receitas.
Por mais que periguem de desmoronar as pilhas, ou o vento vire as páginas de livros abertos, há um trabalho constante e renovado. É preciso ler e reler, tresler.
A pedra filosofal é feita de muitas, milhares, centenas de milhares dessas poções que são recolhidas dos livros. Magia diária da leitura.
As janelas só deixam entrar o céu de estrelas, nuvens e sol, e o jardim com flores e perfumes. Um fiapo de lago se avista longe.
Nesse canto de muro, há uma diária manipulação de alfarrábios, grossos volumes esquecidos, encadernações desgastadas, brochuras. A alquimia aqui se faz de palavras, de frases, de longos trechos. Um pedaço aqui, outro ali. As folhas são viradas e reviradas atrás da medida certa para o composto correto para a felicidade do momento. Um elixir preparado a cada dia com novas receitas.
Por mais que periguem de desmoronar as pilhas, ou o vento vire as páginas de livros abertos, há um trabalho constante e renovado. É preciso ler e reler, tresler.
A pedra filosofal é feita de muitas, milhares, centenas de milhares dessas poções que são recolhidas dos livros. Magia diária da leitura.
Marcel Proust
Anedota para uma invenção
Há anos, um estranho relatório era enviado ao Conselho Federal que governa a casta Suíça: um animal desconhecido tinha sido encontrado num vagão da estrada de ferro em Zurique. O funcionário que tinha visto o “monstro” era incapaz de descrevê-lo com pormenores, o bicho correra a grande velocidade, desaparecendo sob uma pilha de ripas. Contudo, o homem falava num animal repelente, de asas compridas e escuras, dotado de antenas longas e vibráteis.
Os jornais de todas as cidades noticiaram o acontecimento alarmante. A primeira providência do governo foi recomendar calma à população. A segunda foi submeter o ferroviário a rigoroso exame psíquico. Nada se apurou de anormal: o empregado, embora emocionalmente transtornado, não apresentava nenhum sinal de sandice, nem diminuição de suas faculdades sensoriais, não bebia, fumava pouco, era viúvo exemplar, com quase trinta anos de serviços impecáveis como sinaleiro.
Afastada a hipótese da alucinação, as autoridades começaram a agir. Nomeou-se uma comissão para verificar a autenticidade do relatório e dar cabo do monstro. Cercou-se o local com policiais armados, dia e noite, prontos para qualquer surpresa.
A Suíça já começava a esquecer o ocorrido quando nova bomba estourou: uma velha solteirona em Berna vira o bicho em sua própria casa.
Foi um deus-me-acuda nos quatro cantões. O povo começou a inventar coisas. Diziam que o animal sugava durante a noite o leite das vacas; diziam que se tratava de um marciano; diziam... Um comitê político, de tendências superconservadoras, aventou a possibilidade de tratar-se dum animal feroz, obtido através de cruzamentos diversos, pelos biologistas soviéticos: em caso de guerra, milhões desses animais seriam lançados em ondas maciças sobre toda a Europa.
As silenciosas noites suíças tornaram-se ainda mais silenciosas, ameaçadas pelo abominável animal. O prestígio do Conselho periclitava. Cartazes de instituições e clubes exigiam a captura do monstro.
Os fatos andavam nesse pé quando a coisa foi vista novamente em Zurique, não longe do local onde aparecera da primeira vez. Um estudante de medicina, demonstrando invulgar bravura, perseguira o monstro com uma bengala. Mais que isso, revelando sangue frio e aplicação nos estudos, chegou a classificar o animal como um inseto. Talvez, disse ele a imprensa, se trate dum inseto tropical, portador dum veneno de efeito letal, mas não tenho dúvidas de que enfrentamos um invertebrado.
O governo respirou com algum alívio, mas não definitivamente. Se por um lado se desfaziam as lendas, reduzido o bicho a suas dimensões (do tamanho duma caixa de fósforos), a palavra INSETO veio causar no povo suíço uma repugnância indizível. As mulheres grávidas enjoavam mais, a gente toda andava com um ar emareado, o país começou a ter um cheiro mais forte de desinfetante.
E não era só isso: muito provavelmente o invertebrado (assim se exprimiam pudicamente os jornais) seria altamente venenoso.
O governo passou a expedir patrulhas armadas aos locais ermos, às habitações velhas. Todas as sábias medidas tomadas pela saúde pública encontraram no entanto um embaraço: essas sábias medidas já eram rigorosamente observadas antes da aparição do inseto.
Por fim, uma patrulha conseguiu sitiar um certo animal e prendê-lo numa gaiola de aço trançado. Sensação. Um grupo de naturalistas veio examinar o bicho e, depois de eruditas discussões, concluiu.
Concluiu que se tratava dum ortóptero da família dos blatídeos, conhecido como Periplaneta americana. Não era mortal ao homem, mas era de qualquer forma um inseto repugnante, capaz de ocasionar estragos às residências, às bibliotecas, aos arquivos etc.
A questão agora era saber de que maneira extinguir com a raça dos periplanetas dentro das fronteiras daquela esplêndida nação neutra. Informando de que o periplaneta era muito comum no Brasil, o governo suíço, tomando todas as precauções para não ofender sentimentos nativistas, consultou o cônsul do Brasil em Berna, a fim de informar-se de nossos métodos de luta contra o terrível inseto.
O cônsul agiu com discrição e sentimento pátrio. Disse, em ofício, que a barata – viu logo que se tratava de uma barata – já não constituía um problema sério no Brasil, país em extraordinário ritmo de desenvolvimento, acrescentando que, ao contrário da marcha do sol e da civilização, esses insetos se deslocavam agora do Ocidente para o Oriente.
O presidente do Conselho Deliberativo ficou pálido. Nomeou-se uma comissão mista, de químicos e naturalistas, com o fito de se encontrar com a máxima urgência um produto que exterminasse os periplanetas.
Os jornais de todas as cidades noticiaram o acontecimento alarmante. A primeira providência do governo foi recomendar calma à população. A segunda foi submeter o ferroviário a rigoroso exame psíquico. Nada se apurou de anormal: o empregado, embora emocionalmente transtornado, não apresentava nenhum sinal de sandice, nem diminuição de suas faculdades sensoriais, não bebia, fumava pouco, era viúvo exemplar, com quase trinta anos de serviços impecáveis como sinaleiro.
Afastada a hipótese da alucinação, as autoridades começaram a agir. Nomeou-se uma comissão para verificar a autenticidade do relatório e dar cabo do monstro. Cercou-se o local com policiais armados, dia e noite, prontos para qualquer surpresa.
A Suíça já começava a esquecer o ocorrido quando nova bomba estourou: uma velha solteirona em Berna vira o bicho em sua própria casa.
Foi um deus-me-acuda nos quatro cantões. O povo começou a inventar coisas. Diziam que o animal sugava durante a noite o leite das vacas; diziam que se tratava de um marciano; diziam... Um comitê político, de tendências superconservadoras, aventou a possibilidade de tratar-se dum animal feroz, obtido através de cruzamentos diversos, pelos biologistas soviéticos: em caso de guerra, milhões desses animais seriam lançados em ondas maciças sobre toda a Europa.
As silenciosas noites suíças tornaram-se ainda mais silenciosas, ameaçadas pelo abominável animal. O prestígio do Conselho periclitava. Cartazes de instituições e clubes exigiam a captura do monstro.
Os fatos andavam nesse pé quando a coisa foi vista novamente em Zurique, não longe do local onde aparecera da primeira vez. Um estudante de medicina, demonstrando invulgar bravura, perseguira o monstro com uma bengala. Mais que isso, revelando sangue frio e aplicação nos estudos, chegou a classificar o animal como um inseto. Talvez, disse ele a imprensa, se trate dum inseto tropical, portador dum veneno de efeito letal, mas não tenho dúvidas de que enfrentamos um invertebrado.
O governo respirou com algum alívio, mas não definitivamente. Se por um lado se desfaziam as lendas, reduzido o bicho a suas dimensões (do tamanho duma caixa de fósforos), a palavra INSETO veio causar no povo suíço uma repugnância indizível. As mulheres grávidas enjoavam mais, a gente toda andava com um ar emareado, o país começou a ter um cheiro mais forte de desinfetante.
E não era só isso: muito provavelmente o invertebrado (assim se exprimiam pudicamente os jornais) seria altamente venenoso.
O governo passou a expedir patrulhas armadas aos locais ermos, às habitações velhas. Todas as sábias medidas tomadas pela saúde pública encontraram no entanto um embaraço: essas sábias medidas já eram rigorosamente observadas antes da aparição do inseto.
Por fim, uma patrulha conseguiu sitiar um certo animal e prendê-lo numa gaiola de aço trançado. Sensação. Um grupo de naturalistas veio examinar o bicho e, depois de eruditas discussões, concluiu.
Concluiu que se tratava dum ortóptero da família dos blatídeos, conhecido como Periplaneta americana. Não era mortal ao homem, mas era de qualquer forma um inseto repugnante, capaz de ocasionar estragos às residências, às bibliotecas, aos arquivos etc.
A questão agora era saber de que maneira extinguir com a raça dos periplanetas dentro das fronteiras daquela esplêndida nação neutra. Informando de que o periplaneta era muito comum no Brasil, o governo suíço, tomando todas as precauções para não ofender sentimentos nativistas, consultou o cônsul do Brasil em Berna, a fim de informar-se de nossos métodos de luta contra o terrível inseto.
O cônsul agiu com discrição e sentimento pátrio. Disse, em ofício, que a barata – viu logo que se tratava de uma barata – já não constituía um problema sério no Brasil, país em extraordinário ritmo de desenvolvimento, acrescentando que, ao contrário da marcha do sol e da civilização, esses insetos se deslocavam agora do Ocidente para o Oriente.
O presidente do Conselho Deliberativo ficou pálido. Nomeou-se uma comissão mista, de químicos e naturalistas, com o fito de se encontrar com a máxima urgência um produto que exterminasse os periplanetas.
Paulo Mendes Campos
quarta-feira, agosto 2
O Gigante egoísta
Todas as tardes, quando saíam da escola as crianças costumavam ir brincar no jardim do Gigante. Era um formoso e imenso jardim, atapetado de grama verde e suave. Aqui e ali, entre as árvores muito altas, cresciam flores brilhantes como estrelas e havia plantas que, na primavera, floresciam em delicadas corolas de rosa aljôfar e que, no Outono, se carregavam de belas frutas. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão docemente que as crianças a todo momento suspendiam seus divertimentos para ouvi-los.
— Como tudo aqui é bom e bonito! — costumavam exclamar, deliciados.
Um dia, o Gigante voltou. Tinha ido visitar seu amigo, o Ogre de Cornwailles, e com ele permanecera sete anos.
Ao chegar, viu as crianças brincando no jardim.
— Que fazeis aqui? — vociferou, áspero e rubro de cólera, assustando terrivelmente os pequeninos, que fugiram correndo.
— Meu jardim é meu jardim! — continuou gritando. — Que todos saibam! A ninguém permitirei que nele penetre e se divirta!
Com efeito, ergueu uma elevadíssima muralha e nela pregou um cartaz: “É terminantemente proibida a entrada, sob as consequentes penas!”
Era, realmente, um gigante muito egoísta!
As pobres crianças já não tinham onde brincar. Trataram de procurar distração na rua. Esta, porém era cheia de poeira e semeada de rude cascalho. Não servia... Frequentemente rondavam o alto paredão, relembrando as delícias do jardim, que havia além desse obstáculo.
— Como era bom e como éramos felizes! — diziam.
Quando chegou a Primavera, toda a região se povoou de pássaros e se encheu de flores. Só no jardim do Gigante egoísta reinava ainda o inverno. Os pássaros, como as crianças, não cantavam e as árvores se esqueciam de florescer.
Certa vez, uma formosa flor ergueu a cabeça dentre as plantas; porém mal viu o cartaz, ficou triste, pensando nas crianças. Logo voltou a se esconder na terra, tornando a adormecer. Os que se sentiam bem felizes eram a Neve e o Granizo.
A Primavera esqueceu este jardim - diziam jubilosas e nele vamos viver o ano inteiro.
A Neve cobriu a terra com seu grande manto branco e o frio pintou de prata as árvores. Depois, convidaram o Vento do Norte... Que fosse passar uma temporada em sua companhia!
E o Vento do Norte compareceu. Vinha envolto em peles e esteve rugindo, todo o dia, através do jardim, derrubando as chaminés.
— Que deliciosa paragem! — exclamou entusiasmado. — Temos que prevenir o Granizo, para que também aproveite.
E o Granizo surgiu. Todos os dias, durante três horas tocava seu tambor sobre os telhados do castelo, até quebrar a maioria das telhas e vidraças, ao fim do que, dava voltas, tudo varrendo com violência. Chegara vestido de cor de cinza e seu hálito era como gelo.
— Não compreendo por que Primavera tarda tanto a chegar... — pensava o Gigante egoísta, quando ousava se aproximar de uma janela, protegido por muitos cobertores e via seu jardim completamente branco. — Mas o tempo há de mudar, breve!
Porém a Primavera não apareceu nunca mais, nem o Verão. O Outono deu frutos dourados a todos os pomares e jardins, porém o jardim do Gigante não viu um só sequer.
— É demasiado egoísta! dizia o Outono.
Assim, ali, sempre foi Inverno, enquanto o Vento do Norte, o Granizo, Chuva e a Neve dançavam continuamente entre as árvores.
Uma manhã, estava o Gigante ainda na cama, quando ouviu música, sumamente agradável. Tão meigamente soava em seus ouvidos, que pensou ser o rei dos músicos quem passava. Na realidade, era apenas um pardal que piava junto de sua janela. Porém havia tanto tempo que ouvia cantar um pássaro em seu jardim, que aquela simples sucessão de pios lhe pareceu a música mais bela do mundo. Então, o Granizo suspendeu sua infernal dança e o Vento do Norte cessou de rugir. Logo um delicioso perfume entrou pelas madeiras rachadas e as vidraças partidas.
— Parece que enfim chegou a Primavera — disse o Gigante; e, saltando da cama, correu a uma janela.
E viu um maravilhoso espetáculo. Através de uma brecha da muralha as crianças vinham e já estavam trepadas nas árvores. Em cada árvore havia um menino e as árvores se sentiam tão contentes, tendo-os novamente entre seus ramos, que se cobriram de flores e, suavemente, com cuidado, balançavam seus braços sobre as cabecinhas infantis. Os pássaros, inúmeros, voavam, cantando com alegria e as flores surgiam radiosas entre as plantas novamente verdes e macias. Apenas num cantinho reinava ainda o Inverno. Era o mais apartado recanto do jardim e nele se achava um menino. Era tão pequeno que não alcançava os ramos das árvores e volteava junto delas chorando amargamente.
A pobre árvore ainda se achava completamente coberta de granizo e de neve e o Vento do Norte soprava, rugindo contra ela.
— Sobe, menino! — dizia a árvore — e baixava seus ramos, tudo o que era possível. Mas o menino era realmente muito pequenino...
O Gigante sentiu derreter o próprio coração, enquanto olhava.
— Quão estúpido fui! — exclamou com voz rouca e difícil. — Sei agora porque a Primavera recusava aparecer. Eu ajudarei esse pobre menino a subir; depois derrubarei a muralha e meu jardim será para sempre o lugar de brincadeira das crianças.
Desceu correndo a escada, abriu com cuidado a porta principal e se embrenhou pelo jardim.
Porém, quando o viram aparecer, as crianças tomaram tão grande susto que correram atropeladamente e o jardim ficou de novo sob os caprichos do Inverno. Somente o pequenino, o menor de todos, não fugiu, pois seus olhos estavam tão cheios de lágrimas que ele não viu a chegada do Gigante. Este se aproximou e, levantando-o suavemente entre os braços, colocou-o no galho mais confortável. Logo a árvore floresceu e os pássaros a encheram, cantando. Então o pequenino lançou os braços em redor do poderoso pescoço do Gigante e beijou-o. Quando os outros meninos viram que o gigante não era mau, voltaram correndo e com eles voltou a Primavera.
— O jardim desde hoje é vosso... — disse o Gigante. E empunhando um tremendíssimo machado, derrubou o muro.
O dia todo, as crianças brincaram, enchendo o jardim com seus risos cristalinos no louco zigue-zague de suas correrias. Quando anoiteceu foram se despedir do Gigante.
Mas onde está o menino pequeno? — perguntou o Gigante, impaciente e assustado. — Aquele, que eu ajudei a subir na árvore? Onde está o garotinho?
O Gigante o queria mais do que aos outros, porque ele o beijara.
— Não sabemos — responderam os meninos. — Já foi...
— Dizei-lhe que volte amanhã pediu o Gigante.
Porém os meninos explicaram que não sabiam onde ele morava e que nunca o tinham visto antes; então o Gigante ficou muito triste.
Todas as tardes, ao sair da escola, os meninos iam brincar no jardim. Porém o pequenino, que o Gigante mais queria, não voltou a aparecer. O Gigante era muito bom para todas as crianças, mas não podia esquecer seu amiguinho.
— Quanto me alegraria se voltasse! — costumava repetir.
Passaram os anos. O Gigante envelheceu e suas forças enfraqueceram. Já não podia tomar parte nos divertimentos dos meninos. Sentado em enorme poltrona, ficava observando suas brincadeiras para que não se excedessem e se machucassem, quando corriam por seu belo jardim.
Numa manhã de inverno, olhou pela janela, enquanto se vestia. Já não odiava o Inverno, pois sabia que era tão somente a Primavera adormecida e que as flores estavam descansando.
Repentinamente esfregou os olhos deslumbrado e olhou mais uma vez...
Era certamente maravilhoso o que via. No recanto mais afastado de seu jardim, havia uma árvore totalmente coberta de flores brancas. Seus ramos eram dourados, frutos de prata pendiam deles e... e junto dele, de pé, estava o pequenino que ele tanto estimava!
Cheio de alegria, desceu correndo as escadarias, chegou ao jardim e quando se aproximou do menino, seu rosto enrubesceu de cólera. Com voz sufocada pela emoção, perguntou:
— Quem se atreveu? Quem se atreveu a te ferir assim?
Porque nas palmas das mãos do menino havia os rasgões de dois pregos, como de pregos eram os dois rasgões de seus pezinhos.
— Quem se atreveu a te ferir assim? tornou a gritar. — Dize-me para que eu o mate!
— Não! respondeu o menino. — Estas são as feridas do Amor.
— Quem és tu? — perguntou o Gigante. E um estranho temor se apoderou dele, fazendo-o dobrar os joelhos diante do pequenino.
O menino sorriu e disse:
— Tu me deixaste, uma vez, brincar em teu jardim; hoje brincarás comigo em meu jardim, que é o Paraíso.
E quando os meninos voltaram, naquela tarde, encontraram o Gigante morto, debaixo da árvore, todo coberto de flores brancas.
Oscar Wilde, revista "Eu Sei Tudo".
F de frustração
Viajar, para muitos, é a grande realização; não viajar, para muitos, é a grande frustração.
Havia um casal que tinha uma inveja terrível dos amigos turistas - especialmente dos que faziam turismo no exterior: Ele, pequeno funcionário de uma grande firma, ela, professora primária, jamais tinham conseguido juntar o suficiente para viajar. Quando dava para as prestações das passagens não chegava para os dólares, e vice-versa; e assim, ano após ano, acabavam ficando em casa. Economizavam, compravam menos roupa, andavam só de ônibus, comiam menos - mas não conseguiam viajar para o exterior. Às vezes passavam uns dias na praia. E era tudo.
Contudo, tamanha era a vontade que tinham de contar para os amigos sobre as maravilhas da Europa, que acabaram bolando um plano. Todos os anos, no fim de janeiro, telefonavam aos amigos: estavam se despedindo, viajavam para o Velho Mundo. De fato, alguns dias depois começavam a chegar postais de cidades europeias, Roma, Veneza, Florença; e ao fim de um mês eles estavam de volta, convidando os amigos para verem os slides da viagem. E as coisas interessantes que contavam! Até dividiam os assuntos: a ele cabia comentar os hotéis, os serviços aéreos, a cotação das moedas, e também o lado pitoresco das viagens; a ela tocava o lado erudito: comentários sobre os museus e locais históricos, peças teatrais que tinham visto. O filho, de dez anos, não contava nada, mas confirmava tudo; e suspirava quando os pais diziam:
- Como fomos felizes em Florença!
Depois é que ficou se sabendo.
Não viajavam coisa alguma. Nem saíam da cidade. Ficavam trancados em casa durante todo o mês de férias. Ela ficava estudando os folhetos das companhias de turismo, sobre - por exemplo - a cidade de Florença: a história de Florença, os museus de Florença, os monumentos de Florença. Ele, num pequeno laboratório fotográfico, montava slides, em que as imagens deles estavam superpostas a imagens de Florença. Escrevia os cartões-postais, colava neles selos usados com carimbos falsificados. Quanto ao menino, decorava as histórias contadas pelos pais para confirmá-las se necessário.
Só saíam de casa tarde da noite. O menino, para fazer um pouco de exercício; ela, para fazer compras num supermercado distante; e ele, para depositar nas caixas de correspondência dos amigos os postais.
Beijaram-se pela última vez ao sair do escritório do advogado.
- A verdade - disse ele - é que me diverti muito com a história toda.
- Eu também me diverti muito - ela disse.
- Fomos muito felizes em Florença - suspirou ele.
- É verdade - ela disse, com lágrimas nos olhos. E prometeu-se que nunca mais iria a Florença.
Moacyr Scliar, "Dicionário do viajante insólito".
Havia um casal que tinha uma inveja terrível dos amigos turistas - especialmente dos que faziam turismo no exterior: Ele, pequeno funcionário de uma grande firma, ela, professora primária, jamais tinham conseguido juntar o suficiente para viajar. Quando dava para as prestações das passagens não chegava para os dólares, e vice-versa; e assim, ano após ano, acabavam ficando em casa. Economizavam, compravam menos roupa, andavam só de ônibus, comiam menos - mas não conseguiam viajar para o exterior. Às vezes passavam uns dias na praia. E era tudo.
Contudo, tamanha era a vontade que tinham de contar para os amigos sobre as maravilhas da Europa, que acabaram bolando um plano. Todos os anos, no fim de janeiro, telefonavam aos amigos: estavam se despedindo, viajavam para o Velho Mundo. De fato, alguns dias depois começavam a chegar postais de cidades europeias, Roma, Veneza, Florença; e ao fim de um mês eles estavam de volta, convidando os amigos para verem os slides da viagem. E as coisas interessantes que contavam! Até dividiam os assuntos: a ele cabia comentar os hotéis, os serviços aéreos, a cotação das moedas, e também o lado pitoresco das viagens; a ela tocava o lado erudito: comentários sobre os museus e locais históricos, peças teatrais que tinham visto. O filho, de dez anos, não contava nada, mas confirmava tudo; e suspirava quando os pais diziam:
- Como fomos felizes em Florença!
O que os amigos não conseguiam descobrir era de onde saíra o dinheiro para a viagem; um, mais indiscreto, chegou a perguntar. Os dois sorriram, misteriosos, falaram numa herança e desconversaram.
Depois é que ficou se sabendo.
Não viajavam coisa alguma. Nem saíam da cidade. Ficavam trancados em casa durante todo o mês de férias. Ela ficava estudando os folhetos das companhias de turismo, sobre - por exemplo - a cidade de Florença: a história de Florença, os museus de Florença, os monumentos de Florença. Ele, num pequeno laboratório fotográfico, montava slides, em que as imagens deles estavam superpostas a imagens de Florença. Escrevia os cartões-postais, colava neles selos usados com carimbos falsificados. Quanto ao menino, decorava as histórias contadas pelos pais para confirmá-las se necessário.
Só saíam de casa tarde da noite. O menino, para fazer um pouco de exercício; ela, para fazer compras num supermercado distante; e ele, para depositar nas caixas de correspondência dos amigos os postais.
Poderia ter durado muitos e muitos anos, esta história. Foi ela quem estragou tudo. Lá pelas tantas, cansou de ter marido pobre, que só lhe proporcionava excursões fingidas. Apaixonou-se por um piloto, que lhe prometeu muitas viagens, para os lugares mais exóticos. E acabou pedindo divórcio.
Beijaram-se pela última vez ao sair do escritório do advogado.
- A verdade - disse ele - é que me diverti muito com a história toda.
- Eu também me diverti muito - ela disse.
- Fomos muito felizes em Florença - suspirou ele.
- É verdade - ela disse, com lágrimas nos olhos. E prometeu-se que nunca mais iria a Florença.
Moacyr Scliar, "Dicionário do viajante insólito".
Rita
No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.
Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...
Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhantes de prazer, eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca teve.
Rubem Braga, "200 crônicas Escolhidas"
Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...
Depois um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.
Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.
Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhantes de prazer, eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; o córrego; e a nuvem tangida pela viração.
Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca teve.
Rubem Braga, "200 crônicas Escolhidas"
terça-feira, agosto 1
O arquivo
No fim de um ano de trabalho, João obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
joão transformou-se num arquivo de metal.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
joão transformou-se num arquivo de metal.
Victor Giudice
Será tudo como nada
Julieta não viajara num foguetão até à Lua, não cartografara mares desconhecidos, não liderara exércitos em batalhas sangrentas; mas quem trocava algumas palavras com a velha senhora, sentada numa poltrona rodeada de outras poltronas de velhas e velhos, percebia estar perante uma mulher extraordinária. Mesmo sem milagres que a levassem à beatificação, mesmo sem feitos épicos no seu passado, mesmo enrugada e sumida, Julieta surgia superior a qualquer personagem romanesca ou cinematográfica: uma heroína da vida real. Um ser maior do que a simples existência terrena.
Alguns desses visitantes tinham conhecido Julieta ainda de pé, atarefada a cuidar da grande casa, dos vários familiares, de um sem-fim de animais. Na verdade, talvez Julieta fosse conhecida por bastante gente. Resgatar-lhe o passado, relatar-lhe a vida, e com isso validar ou contrariar o seu estatuto de ser humano excecional, capaz de suportar agruras inimagináveis, jamais poderia resultar num exercício de incertezas.
Saiba-se que Julieta, como ela própria dizia, se tornou muito velhinha. Viverá mais de cem anos e mostrar ou ocultar o último sopro de vida será decisão do narrador. A morte de uma pessoa tanto pode assumir a imensidão do universo como a insignificância de um átomo. Tanto pode conter o lirismo de um corpo a desagregar-se em poeira estelar como a crueza de um cadáver a arder num forno crematório. A morte, qualquer morte, tanto será tudo como nada.
Paulo M. Morais, "A Boneca Despida"
Alguns desses visitantes tinham conhecido Julieta ainda de pé, atarefada a cuidar da grande casa, dos vários familiares, de um sem-fim de animais. Na verdade, talvez Julieta fosse conhecida por bastante gente. Resgatar-lhe o passado, relatar-lhe a vida, e com isso validar ou contrariar o seu estatuto de ser humano excecional, capaz de suportar agruras inimagináveis, jamais poderia resultar num exercício de incertezas.
Saiba-se que Julieta, como ela própria dizia, se tornou muito velhinha. Viverá mais de cem anos e mostrar ou ocultar o último sopro de vida será decisão do narrador. A morte de uma pessoa tanto pode assumir a imensidão do universo como a insignificância de um átomo. Tanto pode conter o lirismo de um corpo a desagregar-se em poeira estelar como a crueza de um cadáver a arder num forno crematório. A morte, qualquer morte, tanto será tudo como nada.
Paulo M. Morais, "A Boneca Despida"
segunda-feira, julho 31
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