Se os livros pudessem ter mais, dar mais, ser mais, mostrar mais, ainda assim, eles precisariam de leitores para lhes trazer som e perfume e luz e todo o resto que não pode estar contido nos livrosGary Paulsen
segunda-feira, agosto 21
Aquele algo mais...
Como os pistoleiros do Velho Oeste
Leitores antigos têm certamente dezenas de histórias em que, como pistoleiros do Velho Oeste, andavam por toda parte os abomináveis sonetistas. Contra eles não havia defesa, legítima ou ilegítima. Ninguém, estivesse onde estivesse, podia considerar-se livre dos disparos de catorze fumegantes tiros, rimas ribombantes e perdigotos fatais.
No dia 12, alguém pendurou uma placa no gradil do sobradinho: dá-se aulas de matemática. Na manhã seguinte, ao lado dela havia outra, colocada à noite por um vizinho sarcástico: precisa-se de professor de português.
Até hoje as frases mais lindas, seja qual for seu autor, saem por aí molecas, jurando que são filhas de Clarice Lispector.
Do amor sou mau arquiteto. Por erros meus, ou o chão se abre em cratera ou então cai em ruínas o teto.
Quando seu dia chegar, não fique impressionado, não se torne solene, não veja nisso um acontecimento incomum nem algum especial significado. Quando seu dia chegar, significará apenas que seu dia terá chegado.
Isso é normal. Você deve continuar tentando. Um dia talvez alguém acredite que o que você vem fazendo há seis décadas merece o nome de literatura. Serão dois, então.
Por mil razões você deve se conhecer. Uma delas é descobrir por que os outros são melhores.
Posso dizer que sou autossuficiente em matéria de tristeza, mas nunca recuso abrigo a uma tristeza alheia.
***
No dia 12, alguém pendurou uma placa no gradil do sobradinho: dá-se aulas de matemática. Na manhã seguinte, ao lado dela havia outra, colocada à noite por um vizinho sarcástico: precisa-se de professor de português.
***
Até hoje as frases mais lindas, seja qual for seu autor, saem por aí molecas, jurando que são filhas de Clarice Lispector.
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Em mim alguma coisa se perdeu. Não uma dessas tolas, corriqueiras, daquelas mais useiras e vezeiras – mas a que definia que eu era eu.
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Quando seu dia chegar, não fique impressionado, não se torne solene, não veja nisso um acontecimento incomum nem algum especial significado. Quando seu dia chegar, significará apenas que seu dia terá chegado.
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Isso é normal. Você deve continuar tentando. Um dia talvez alguém acredite que o que você vem fazendo há seis décadas merece o nome de literatura. Serão dois, então.
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Por mil razões você deve se conhecer. Uma delas é descobrir por que os outros são melhores.
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Posso dizer que sou autossuficiente em matéria de tristeza, mas nunca recuso abrigo a uma tristeza alheia.
O que se tornou Cândido entre os búlgaros
Cândido, expulso do paraíso terrestre, caminhou por muito tempo sem saber por onde, chorando, erguendo os olhos para o céu, voltando-os com frequência para o mais belo dos castelos que encerrava a mais bela das baronesinhas; dormiu sem jantar no meio dos campos, entre dois sulcos; a neve caía em grandes flocos. Cândido, transido de frio, arrastou-se no dia seguinte rumo à cidade vizinha, que se chama Valdberghoff-trarbk-dikdorff, sem dinheiro, morrendo de fome e de lassidão. Parou tristemente à porta de um cabaré. Dois homens vestidos de azul o notaram: “Camarada”, disse um deles, “aí está um jovem muito bem-apessoado e que tem o porte exigido”. Avançaram em direção a Cândido e lhe pediram que jantasse, com muita civilidade. “Meus senhores”, disse-lhes Cândido com uma modéstia encantadora, “fico muito honrado, mas não tenho com que pagar a minha parte.” “Ah! Meu senhor”, disse-lhe um dos azuis, “as pessoas de vosso porte e mérito nunca pagam nada: não tendes cinco pés e cinco polegadas de altura?” “Sim, senhores, é o meu porte”, disse ele, fazendo uma reverência. “Ah! Meu senhor, ponde-vos à mesa; não somente assumimos a despesa, mas nunca aceitaríamos que um homem como vós esteja sem dinheiro; os homens só são feitos para socorrer uns aos outros.” “Tendes razão”, disse Cândido, “é o que o senhor Pangloss sempre me disse, e bem vejo que tudo está pelo melhor.” Pedem-lhe que aceite alguns écus, ele aceita e quer fazer-lhes um comprovante da dívida; não querem nada disso, sentam-se à mesa: “Vós não amais com ternura?…”. “Oh! Sim”, respondeu ele, “amo com ternura a senhorita Cunegunda.” “Não”, disse um daqueles senhores, “estamos vos perguntando se não amais com ternura o rei dos búlgaros.” “Não, mesmo”, disse ele, “pois nunca o vi.” “Como! É o mais encantador de todos os reis, e temos de beber à sua saúde.” “Ah! Com muito gosto, meus senhores.” E ele bebe. “Basta”, dizem-lhe. “Eis que sois o apoio, o sustentáculo, o defensor, o herói dos búlgaros; vossa fortuna está feita e vossa glória está garantida.” Colocam-lhe imediatamente ferros nos pés e levam-no para o regimento. Fazem-no virar à direita, à esquerda, levantar a vareta, recolocar a vareta, mirar, atirar, dobrar o passo, e dão-lhe trinta bastonadas; no dia seguinte ele faz o exercício um pouco menos mal, e recebe apenas vinte pancadas; dois dias depois só lhe deram dez, e ele passa a ser visto por seus camaradas como um prodígio.
Cândido, completamente estupefato, não distinguia muito bem ainda como é que ele era um herói. Um belo dia de primavera ele teve a ideia de ir passear, caminhando direto para a frente, achando que era um privilégio da espécie humana, como da espécie animal, servir-se das pernas a seu bel-prazer. Mal andou duas léguas quando quatro outros heróis de seis pés o alcançam, amarram-no, levam-no para uma masmorra. Perguntaram-lhe juridicamente o que preferia: ser fustigado trinta e seis vezes por todo o regimento, ou receber ao mesmo tempo doze balas de chumbo no cérebro. Por mais que ele dissesse que as vontades são livres e que não queria nem uma coisa nem outra, foi preciso fazer uma escolha; ele decidiu-se, em virtude do dom de Deus a que se chama liberdade, a passar trinta e seis vezes pelas varas; aguentou dois passeios. O regimento era composto de dois mil homens: isso lhe valeu quatro mil varadas que, desde a nuca até o cu, puseram-lhe à mostra os músculos e os nervos. Como iam proceder à terceira rodada, Cândido, não aguentando mais, pediu como graça que aceitassem ter a bondade de quebrar-lhe a cabeça; ele obteve tal favor; vedam-lhe os olhos, fazem-no ajoelhar-se. O rei dos búlgaros passa nesse momento, informa-se sobre o crime do paciente; e, como esse rei tinha um grande gênio, compreendeu, por tudo o que ouviu de Cândido, que se tratava de um jovem metafísico, completamente ignorante das coisas deste mundo, e concedeu-lhe a sua graça com uma clemência que será louvada em todos os jornais e em todos os séculos. Um bom cirurgião curou Cândido em três semanas com os emolientes ensinados por Dioscórides. Já tinha um pouco de pele e podia andar quando o rei dos búlgaros travou batalha com o rei dos abares.
Voltaire, "Cândido ou o Otimismo"
Cândido, completamente estupefato, não distinguia muito bem ainda como é que ele era um herói. Um belo dia de primavera ele teve a ideia de ir passear, caminhando direto para a frente, achando que era um privilégio da espécie humana, como da espécie animal, servir-se das pernas a seu bel-prazer. Mal andou duas léguas quando quatro outros heróis de seis pés o alcançam, amarram-no, levam-no para uma masmorra. Perguntaram-lhe juridicamente o que preferia: ser fustigado trinta e seis vezes por todo o regimento, ou receber ao mesmo tempo doze balas de chumbo no cérebro. Por mais que ele dissesse que as vontades são livres e que não queria nem uma coisa nem outra, foi preciso fazer uma escolha; ele decidiu-se, em virtude do dom de Deus a que se chama liberdade, a passar trinta e seis vezes pelas varas; aguentou dois passeios. O regimento era composto de dois mil homens: isso lhe valeu quatro mil varadas que, desde a nuca até o cu, puseram-lhe à mostra os músculos e os nervos. Como iam proceder à terceira rodada, Cândido, não aguentando mais, pediu como graça que aceitassem ter a bondade de quebrar-lhe a cabeça; ele obteve tal favor; vedam-lhe os olhos, fazem-no ajoelhar-se. O rei dos búlgaros passa nesse momento, informa-se sobre o crime do paciente; e, como esse rei tinha um grande gênio, compreendeu, por tudo o que ouviu de Cândido, que se tratava de um jovem metafísico, completamente ignorante das coisas deste mundo, e concedeu-lhe a sua graça com uma clemência que será louvada em todos os jornais e em todos os séculos. Um bom cirurgião curou Cândido em três semanas com os emolientes ensinados por Dioscórides. Já tinha um pouco de pele e podia andar quando o rei dos búlgaros travou batalha com o rei dos abares.
Voltaire, "Cândido ou o Otimismo"
sábado, agosto 19
Os livros representam a essência de um espírito
As obras são a quintessência de um espírito: por conseguinte, mesmo se este for o espírito mais sublime, elas sempre serão, sem comparação, mais ricas de conteúdo do que a sua companhia, e a substituirão também na essência – ou melhor, ultrapassá-la-ão em muito e a deixarão para trás: Até mesmo os escritos de uma cabeça medíocre podem ser instrutivos, dignos de leitura e divertidos, justamente porque são sua quintessência, o resultado, o fruto de
todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia não nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias não se encontraria nenhum prazer, e é por essa razão que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e não na conversa com as pessoas.
todo o seu pensamento e estudo; enquanto a sua companhia não nos consegue satisfazer. Sendo assim, podem-se ler livros de pessoas em cujas companhias não se encontraria nenhum prazer, e é por essa razão que uma cultura intelectual elevada nos induz pouco a pouco a encontrar o nosso prazer quase exclusivamente na leitura dos livros, e não na conversa com as pessoas.
Existem duas histórias: a política e a da literatura e da arte. A primeira é a história da vontade, a segunda, do intelecto. Por isso, a primeira é quase sempre alarmante, ou melhor, assustadora. Nela, o medo, a necessidade, o engano e terríveis assassinatos ocorrem em massa. A outra, ao contrário, é sempre agradável e serena, como o intelecto isolado, mesmo quando descreve erros. O seu ramo principal é a história da filosofia. Na verdade, esta constitui o seu baixo ideal, que se faz ouvir até mesmo na outra história e também conduz a opinião do seu fundamento até ela: mas esta última domina o mundo. Sendo assim, a filosofia, no sentido próprio e inequívoco, também é a mais fote potência material; contudo, age de forma muito lenta.
Arthur Schopenhauer
Ganhar o jogo
Quando não estou lendo um livro que apanho na biblioteca pública, fico vendo um dos programas da TV que mostram a vida dos ricos, os palácios deles, os automóveis, os cavalos, os iates, as joias, os quadros, os móveis raros, a baixela, a adega, a criadagem. É impressionante como os ricos são bem servidos. Não perco um desses programas, ainda que não me sejam de muita utilidade, a totalidade desses ricos não vive no meu país. Mas gostei de ouvir um milionário entrevistado durante o jantar dizer que adquiriu um iate no valor de centenas de milhões de dólares porque queria ter um iate maior do que o de um outro sujeito rico. “Era a única maneira de acabar com a inveja que eu sentia dele” confessou, sorrindo, dando um gole na bebida do seu copo. Os comensais à sua volta riram muito quando ouviram aquilo. Rico pode ter tudo, até inveja um do outro, e neles isso é engraçado, aliás tudo é divertido. Eu sou pobre e a inveja em pobre é muito malvista, porque inveja deixa pobre recalcado. Junto com a inveja, vem ódio dos ricos, pobre não sabe como ir à forra esportivamente, sem espírito de vingança. Mas eu não sinto raiva de nenhum rico, minha inveja é parecida com a do cara do iate maior: como ele, apenas quero ganhar o jogo.
Eu descobri como ganhar o jogo entre um sujeito pobre, como eu, e um rico. Não é me tornando rico, eu nunca conseguirei isso. “Ser rico” disse um deles num programa, “é uma propensão genética que nem todo mundo tem.” Esse milionário fizera sua fortuna saindo do zero. O meu pai era pobre, eu nada herdei quando ele morreu, nem o gene que motiva o cara a ganhar dinheiro.
O único bem que tenho é a minha vida, e a única maneira de ganhar o jogo é matar um rico e continuar vivo. É uma coisa parecida com comprar o iate maior. Sei que isso parece um raciocínio extravagante, mas uma forma de ganhar o jogo é criar pelo menos parte das regras, coisa que os ricos fazem. Esse rico que eu vou matar tem que ser um herdeiro, o herdeiro é uma pessoa como eu, sem disposição de ficar rico, mas que nasceu rico e goza fagueiro a fortuna que caiu do céu no seu colo. Para fruir bem a vida, aliás, é preferível que apenas o pai, e não o herdeiro, nasça com o tal gene.
Eu preferia matar um dos ricaços estrangeiros que vejo na televisão. Um homem. As mulheres deles, ou as suas filhas, são ainda mais ostensivamente ricas, porém uma mulher, por mais joias que tenha nos dedos e em volta do pulso e do pescoço, não é o iate maior. Também não me interessaria uma daquelas mulheres que obtiveram sua fortuna trabalhando, certamente portadora do tal gene, donas que aparecem na televisão vestidas de tailleur. Não, teria que ser um homem. Mas como esses homens ricos ideais vivem em outros países, tenho que procurar um rico aqui mesmo, um que herdou a grana e os bens de que desfruta.
A dificuldade para alcançar esse objetivo não me deixa nem um pouco preocupado. Traço meu plano cuidadosamente e, quando deito, alguns minutos depois estou dormindo e não acordo durante a noite. Não apenas tenho paz de espírito, mas uma próstata que funciona bem, ao contrário do meu pai, que levantava a cada três horas para urinar. Não tenho pressa, devo escolher com muito rigor, pelo menos igual ao do rico que comprou o iate grande. As pessoas que aparecem, em sua maioria, nas revistas publicadas aqui no meu país podem ser chamadas de ricas e famosas, mas matar uma figura dessas seria fácil, não me faria ganhar o jogo.
Todo rico gosta de ostentar sua riqueza. Os novos-ricos são mais exibidos, mas não quero matar um desses, quero um rico que herdou a sua fortuna. Esses, das gerações seguintes, são mais discretos, normalmente demonstram sua riqueza nas viagens, eles adoram fazer compras em Paris, Londres, Nova Iorque. Gostam também de ir a áreas distantes e exóticas, mas que possuam bons hotéis com serviçais gentis, e os mais esportistas não podem deixar de esquiar na neve uma vez por ano, o que é compreensível, afinal moram num país tropical. Exibem sua riqueza entre eles mesmos (não há vantagem em jogar com os pobres), nos jantares de milionários, onde o vencedor pode confessar que foi por inveja que comprou o que comprou, e os outros brindam alegremente à sua saúde.
Um sujeito como eu, branco, miserável, magro e famélico não tem irmãos nem aliados. Não foi fácil conseguir um emprego no mais caro e exclusivo bufê da cidade, precisei fazer demorados planos e manobras, levei dois anos nisso, perseverança é a única virtude que possuo. Os ricos costumavam contratar os serviços desse bufê quando ofereciam um jantar. A proprietária, descendente de uma família ilustre, não vou dizer o nome dela, não vou dizer o nome de ninguém, nem o meu, era uma mulher dominadora que mantinha suas anotações e cronogramas num pequeno computador que carregava numa bolsa a tiracolo. Impunha rígidos padrões aos que trabalhavam no bufê, cozinheiros, decoradores, compradores de mercadorias, garçons e os demais. Era tão competente que os seus empregados, além de obedecer sem piscar, ainda a admiravam. Se algum funcionário não se comportava conforme o modelo estabelecido, era mandado embora. Isso era raro, pois todos, antes de serem admitidos, eram submetidos a uma seleção e a um treinamento rigorosos. Fazíamos o que ela mandava, eu era um dos mais obedientes. E o bufê cobrava um dinheirão para cozinhar e alimentar os ricos. A dona do bufê tinha o tal gene.
Antes da avaliação e treinamento a que me submeti para ser garçom do tal bufê, fiz o meu próprio aprendizado. Primeiro, cuidei da minha aparência, arranjei um dentista barato e bom, o que é muito raro, e comprei roupas decentes. Depois, o que foi mais importante, aprendi, no meu adestramento solitário, a ser um servo feliz, como são os bons garçons. Mas fingir esses sentimentos é muito difícil. Essa subserviência e felicidade não podem ser óbvias, devem ser muito sutis, percebidas inconscientemente pelo destinatário. A melhor maneira de representar essa impalpável dissimulação era criar um estado de espírito que me fizesse realmente feliz por ser garçom dos ricos, ainda que provisoriamente. A dona do bufê me apontava como um exemplo de empregado que realizava o seu trabalho orgulhando-se do que fazia, por isso eu era tão eficiente.
Os ricos, como os pobres, não são todos iguais. Há os que gostam de parolar com um charuto caro entre os dedos ou com um copo de líquido precioso na mão, há os galanteadores, os que são reservados, os solenes, os que alardeiam erudição, os que exibem riqueza com seus paramentos de grife, há até os circunspectos, mas no fundo todos são faroleiros, faz parte da mímica. Que acaba sendo uma linguagem de sinais verdadeira, pois permite ver o que cada um realmente é. Sei que os pobres também fazem a sua mímica, mas os pobres não me interessam, não está nos meus planos jogar com nenhum deles, o meu jogo é o do iate maior.
Esperei pacientemente que o rico ideal surgisse para mim. Eu estava preparado para recebê-lo. Não foi fácil conseguir o veneno, insípido e inodoro, que eu transferia de um bolso para o outro em minha romaria. Mas não vou contar os riscos que corri e as torpezas que cometi para obtê-lo.
Afinal, um rico do tipo que eu tanto procurava apareceu num jantar de lugares marcados nas cinco mesas colocadas nas salas da mansão. Eu conhecia a sua história, mas nunca o vira, nem em retrato. Foi a dona do bufê que me disse, e pela primeira vez eu a vi alvoroçada, que “ele” acabara de chegar e que eu estava destacado para atendê-lo pessoalmente. Rico gosta de ser bem servido. Eu ficaria a certa distância, sem olhar para ele, mas todo gesto de comando que fizesse, por mais tênue que fosse, eu teria que me aproximar e simplesmente dizer, “senhor?” Eu sabia fazer isso muito bem, era um garçom feliz.
Ele chegara, como os outros convidados, num carro blindado, cercado de seguranças. Era um sujeito baixo, moreno, um pouco calvo, de gestos discretos. A mulher dele, a quarta, era uma loura alta e esbelta que parecia ainda mais comprida devido aos altos saltos dos sapatos que usava.
Havia oito comensais em cada mesa, quatro homens e quatro mulheres. Ainda que o serviço não fosse à francesa, cada mesa era atendida por dois garçons, o meu colega era um negro alto com dentes perfeitos. Havia bebidas para todas as preferências, até mesmo cerveja, mas não me lembro de alguém da minha mesa ter solicitado esse líquido vulgar e engordativo. Conforme as instruções da dona, o outro garçom estava subordinado a mim. Discretamente eu determinava que o meu colega atendesse aos pedidos dos demais comensais que, entretidos em suas conversas, nem percebiam o tratamento especial dispensado por mim a um deles.
Atendi-o com perfeição. Ele comia pouco, bebia sem se exceder. Não usava, comigo, as palavras “por favor” nem “obrigado” Suas ordens eram lacônicas, sem afetação. O jantar se aproximava do fim.
“Senhor?” eu me aproximei quando ele virou o rosto dois centímetros para o lado, sem olhar para ninguém, mas eu sabia que era para mim.
“Um curto.”
Era a oportunidade que eu esperava.
Fui à cozinha, eu mesmo preparei o café na máquina italiana de último tipo fornecida pelo bufê. Coloquei o veneno dentro.
“Aqui está, senhor.”
Ele sorveu o café conversando com sua vizinha. Sem pressa, peguei a xícara vazia, voltei à cozinha e lavei-a com esmero.
Demorou algum tempo até descobrirem que estava morto, pois ele havia pousado a cabeça sobre os braços apoiados na mesa e parecia estar dormindo. Mas como milionário não faz uma coisa dessas, tirar uma soneca numa mesa de banquete, os circunstantes acabaram estranhando e percebendo que alguma coisa grave ocorrera. Um colapso circulatório, provavelmente.
Foi uma comoção, enfrentada com relativa elegância pela maioria dos presentes, principalmente pela esguia mulher dele. Os seguranças, porém, ficaram muito nervosos. O jantar foi encerrado pouco depois que uma ambulância particular levou o corpo.
Creio que vou continuar por mais algum tempo servindo aos ricos. Terá que ser em outro bufê, aquele onde eu trabalhava caiu em desgraça. Os jornais no início noticiaram apenas que a causa mortis do ricaço fora um mal súbito. Porém uma dessas revistas semanais publicou uma enorme matéria de capa falando em envenenamento, com retratos dos participantes do banquete, principalmente daqueles, homens e mulheres, sobre quem pudesse ser feita uma insinuação maldosa. A vida do milionário morto, seus negócios, seus vários casamentos e separações, principalmente as circunstâncias escandalosas de uma delas, receberam extensa cobertura.
A polícia está investigando. Gostei de ir depor na delegacia. Não demorei muito lá, a polícia achava que eu não tinha muito a dizer sobre o envenenamento, afinal eu era um garçom burro e feliz, acima de qualquer suspeita. Quando fui dispensado pelo delegado encarregado do caso, eu disse de maneira casual.
“Meu iate é maior do que o dele.”
Alguém precisava saber.
“Já disse que está dispensado, pode se retirar.”
Quando estava saindo, ouvi o delegado dizer para o escrivão: “Mais um depoimento de merda.”
Ganhei o jogo. Estou na dúvida se jogo mais uma vez. Com inveja, mas sem ressentimentos, apenas para ganhar, como os ricos. É bom ser como os ricos.
Rubem Fonseca, "Pequenas Criaturas"
Eu descobri como ganhar o jogo entre um sujeito pobre, como eu, e um rico. Não é me tornando rico, eu nunca conseguirei isso. “Ser rico” disse um deles num programa, “é uma propensão genética que nem todo mundo tem.” Esse milionário fizera sua fortuna saindo do zero. O meu pai era pobre, eu nada herdei quando ele morreu, nem o gene que motiva o cara a ganhar dinheiro.
O único bem que tenho é a minha vida, e a única maneira de ganhar o jogo é matar um rico e continuar vivo. É uma coisa parecida com comprar o iate maior. Sei que isso parece um raciocínio extravagante, mas uma forma de ganhar o jogo é criar pelo menos parte das regras, coisa que os ricos fazem. Esse rico que eu vou matar tem que ser um herdeiro, o herdeiro é uma pessoa como eu, sem disposição de ficar rico, mas que nasceu rico e goza fagueiro a fortuna que caiu do céu no seu colo. Para fruir bem a vida, aliás, é preferível que apenas o pai, e não o herdeiro, nasça com o tal gene.
Eu preferia matar um dos ricaços estrangeiros que vejo na televisão. Um homem. As mulheres deles, ou as suas filhas, são ainda mais ostensivamente ricas, porém uma mulher, por mais joias que tenha nos dedos e em volta do pulso e do pescoço, não é o iate maior. Também não me interessaria uma daquelas mulheres que obtiveram sua fortuna trabalhando, certamente portadora do tal gene, donas que aparecem na televisão vestidas de tailleur. Não, teria que ser um homem. Mas como esses homens ricos ideais vivem em outros países, tenho que procurar um rico aqui mesmo, um que herdou a grana e os bens de que desfruta.
A dificuldade para alcançar esse objetivo não me deixa nem um pouco preocupado. Traço meu plano cuidadosamente e, quando deito, alguns minutos depois estou dormindo e não acordo durante a noite. Não apenas tenho paz de espírito, mas uma próstata que funciona bem, ao contrário do meu pai, que levantava a cada três horas para urinar. Não tenho pressa, devo escolher com muito rigor, pelo menos igual ao do rico que comprou o iate grande. As pessoas que aparecem, em sua maioria, nas revistas publicadas aqui no meu país podem ser chamadas de ricas e famosas, mas matar uma figura dessas seria fácil, não me faria ganhar o jogo.
Todo rico gosta de ostentar sua riqueza. Os novos-ricos são mais exibidos, mas não quero matar um desses, quero um rico que herdou a sua fortuna. Esses, das gerações seguintes, são mais discretos, normalmente demonstram sua riqueza nas viagens, eles adoram fazer compras em Paris, Londres, Nova Iorque. Gostam também de ir a áreas distantes e exóticas, mas que possuam bons hotéis com serviçais gentis, e os mais esportistas não podem deixar de esquiar na neve uma vez por ano, o que é compreensível, afinal moram num país tropical. Exibem sua riqueza entre eles mesmos (não há vantagem em jogar com os pobres), nos jantares de milionários, onde o vencedor pode confessar que foi por inveja que comprou o que comprou, e os outros brindam alegremente à sua saúde.
Um sujeito como eu, branco, miserável, magro e famélico não tem irmãos nem aliados. Não foi fácil conseguir um emprego no mais caro e exclusivo bufê da cidade, precisei fazer demorados planos e manobras, levei dois anos nisso, perseverança é a única virtude que possuo. Os ricos costumavam contratar os serviços desse bufê quando ofereciam um jantar. A proprietária, descendente de uma família ilustre, não vou dizer o nome dela, não vou dizer o nome de ninguém, nem o meu, era uma mulher dominadora que mantinha suas anotações e cronogramas num pequeno computador que carregava numa bolsa a tiracolo. Impunha rígidos padrões aos que trabalhavam no bufê, cozinheiros, decoradores, compradores de mercadorias, garçons e os demais. Era tão competente que os seus empregados, além de obedecer sem piscar, ainda a admiravam. Se algum funcionário não se comportava conforme o modelo estabelecido, era mandado embora. Isso era raro, pois todos, antes de serem admitidos, eram submetidos a uma seleção e a um treinamento rigorosos. Fazíamos o que ela mandava, eu era um dos mais obedientes. E o bufê cobrava um dinheirão para cozinhar e alimentar os ricos. A dona do bufê tinha o tal gene.
Antes da avaliação e treinamento a que me submeti para ser garçom do tal bufê, fiz o meu próprio aprendizado. Primeiro, cuidei da minha aparência, arranjei um dentista barato e bom, o que é muito raro, e comprei roupas decentes. Depois, o que foi mais importante, aprendi, no meu adestramento solitário, a ser um servo feliz, como são os bons garçons. Mas fingir esses sentimentos é muito difícil. Essa subserviência e felicidade não podem ser óbvias, devem ser muito sutis, percebidas inconscientemente pelo destinatário. A melhor maneira de representar essa impalpável dissimulação era criar um estado de espírito que me fizesse realmente feliz por ser garçom dos ricos, ainda que provisoriamente. A dona do bufê me apontava como um exemplo de empregado que realizava o seu trabalho orgulhando-se do que fazia, por isso eu era tão eficiente.
Os ricos, como os pobres, não são todos iguais. Há os que gostam de parolar com um charuto caro entre os dedos ou com um copo de líquido precioso na mão, há os galanteadores, os que são reservados, os solenes, os que alardeiam erudição, os que exibem riqueza com seus paramentos de grife, há até os circunspectos, mas no fundo todos são faroleiros, faz parte da mímica. Que acaba sendo uma linguagem de sinais verdadeira, pois permite ver o que cada um realmente é. Sei que os pobres também fazem a sua mímica, mas os pobres não me interessam, não está nos meus planos jogar com nenhum deles, o meu jogo é o do iate maior.
Esperei pacientemente que o rico ideal surgisse para mim. Eu estava preparado para recebê-lo. Não foi fácil conseguir o veneno, insípido e inodoro, que eu transferia de um bolso para o outro em minha romaria. Mas não vou contar os riscos que corri e as torpezas que cometi para obtê-lo.
Afinal, um rico do tipo que eu tanto procurava apareceu num jantar de lugares marcados nas cinco mesas colocadas nas salas da mansão. Eu conhecia a sua história, mas nunca o vira, nem em retrato. Foi a dona do bufê que me disse, e pela primeira vez eu a vi alvoroçada, que “ele” acabara de chegar e que eu estava destacado para atendê-lo pessoalmente. Rico gosta de ser bem servido. Eu ficaria a certa distância, sem olhar para ele, mas todo gesto de comando que fizesse, por mais tênue que fosse, eu teria que me aproximar e simplesmente dizer, “senhor?” Eu sabia fazer isso muito bem, era um garçom feliz.
Ele chegara, como os outros convidados, num carro blindado, cercado de seguranças. Era um sujeito baixo, moreno, um pouco calvo, de gestos discretos. A mulher dele, a quarta, era uma loura alta e esbelta que parecia ainda mais comprida devido aos altos saltos dos sapatos que usava.
Havia oito comensais em cada mesa, quatro homens e quatro mulheres. Ainda que o serviço não fosse à francesa, cada mesa era atendida por dois garçons, o meu colega era um negro alto com dentes perfeitos. Havia bebidas para todas as preferências, até mesmo cerveja, mas não me lembro de alguém da minha mesa ter solicitado esse líquido vulgar e engordativo. Conforme as instruções da dona, o outro garçom estava subordinado a mim. Discretamente eu determinava que o meu colega atendesse aos pedidos dos demais comensais que, entretidos em suas conversas, nem percebiam o tratamento especial dispensado por mim a um deles.
Atendi-o com perfeição. Ele comia pouco, bebia sem se exceder. Não usava, comigo, as palavras “por favor” nem “obrigado” Suas ordens eram lacônicas, sem afetação. O jantar se aproximava do fim.
“Senhor?” eu me aproximei quando ele virou o rosto dois centímetros para o lado, sem olhar para ninguém, mas eu sabia que era para mim.
“Um curto.”
Era a oportunidade que eu esperava.
Fui à cozinha, eu mesmo preparei o café na máquina italiana de último tipo fornecida pelo bufê. Coloquei o veneno dentro.
“Aqui está, senhor.”
Ele sorveu o café conversando com sua vizinha. Sem pressa, peguei a xícara vazia, voltei à cozinha e lavei-a com esmero.
Demorou algum tempo até descobrirem que estava morto, pois ele havia pousado a cabeça sobre os braços apoiados na mesa e parecia estar dormindo. Mas como milionário não faz uma coisa dessas, tirar uma soneca numa mesa de banquete, os circunstantes acabaram estranhando e percebendo que alguma coisa grave ocorrera. Um colapso circulatório, provavelmente.
Foi uma comoção, enfrentada com relativa elegância pela maioria dos presentes, principalmente pela esguia mulher dele. Os seguranças, porém, ficaram muito nervosos. O jantar foi encerrado pouco depois que uma ambulância particular levou o corpo.
Creio que vou continuar por mais algum tempo servindo aos ricos. Terá que ser em outro bufê, aquele onde eu trabalhava caiu em desgraça. Os jornais no início noticiaram apenas que a causa mortis do ricaço fora um mal súbito. Porém uma dessas revistas semanais publicou uma enorme matéria de capa falando em envenenamento, com retratos dos participantes do banquete, principalmente daqueles, homens e mulheres, sobre quem pudesse ser feita uma insinuação maldosa. A vida do milionário morto, seus negócios, seus vários casamentos e separações, principalmente as circunstâncias escandalosas de uma delas, receberam extensa cobertura.
A polícia está investigando. Gostei de ir depor na delegacia. Não demorei muito lá, a polícia achava que eu não tinha muito a dizer sobre o envenenamento, afinal eu era um garçom burro e feliz, acima de qualquer suspeita. Quando fui dispensado pelo delegado encarregado do caso, eu disse de maneira casual.
“Meu iate é maior do que o dele.”
Alguém precisava saber.
“Já disse que está dispensado, pode se retirar.”
Quando estava saindo, ouvi o delegado dizer para o escrivão: “Mais um depoimento de merda.”
Ganhei o jogo. Estou na dúvida se jogo mais uma vez. Com inveja, mas sem ressentimentos, apenas para ganhar, como os ricos. É bom ser como os ricos.
Rubem Fonseca, "Pequenas Criaturas"
Livros digitais democratizaram o acesso à leitura?
Na coluna desta semana, gostaria de compartilhar com vocês leitores os resultados de uma indagação: A tecnologia democratizou o acesso à leitura através dos livros digitais? Nossos jovens são consumidores desse formato de livro? Para responder essa provocação, tive a oportunidade de falar com 107 jovens da rede pública brasileira oriundos de 20 estados do país.
O primeiro resultado, honestamente, me surpreendeu: 83% é ou já foi leitor de livros digitais. Dentro do grupo dos 17% que nunca consumiu esse tipo de conteúdo, as justificativas foram: não saber onde procurar e acessar, a preferência pelos livros físicos e o medo dos possíveis problemas de visão devido à exposição às telas.
Nosso foco aqui será os 83% que já tiveram a experiência de ler uma obra digital. Este público contribuiu com a nossa discussão trazendo os pontos positivos e negativos da leitura online.
Bom, vamos primeiro aos pontos positivos. A palavra "praticidade" apareceu muitas vezes. Eles acreditam que a manipulação é mais fácil, tornando possível "carregar" muitos livros sem pesar a mochila. Muitos também acham que os livros digitais são mais baratos em comparação aos físicos – uns até mencionaram ser possível encontrar obras totalmente gratuitas. Portanto, acreditam que há uma certa democratização do acesso à leitura.
No entanto, os jovens que ajudaram com a coluna também acreditam que há alguns pontos negativos. Noêmia, jovem carioca, sintetizou bem a perspectiva dos colegas: "Acho que uma das principais desvantagens é o uso excessivo das telas e a falta de contato com algo real, porém, há outras desvantagens como a falta de internet em alguns locais e a falta de acesso às tecnologias em várias regiões".
Ela bem destacou dois pontos que foram quase unânimes nas respostas: a questão dos males que tanto tempo de tela podem acarretar na visão e também que nem todos, infelizmente e especialmente no Brasil, têm acesso às mesmas tecnologias. Um outro fator citado foi a maior possibilidade de distração durante leituras online, dado às notificações de redes sociais e afins.
Confesso que, especialmente por ter falado com jovens, me surpreendi com outro ponto que eles trouxeram. "Livros físicos são, na minha opinião, muito mais legais de se ler. Sinto mais vontade e gosto de ler um livro se for físico. O cheiro, a textura, passar as páginas se perguntando o que vai acontecer na próxima, é muito mais emocionante do que apenas passar o dedo num aparelho", diz Manuelly, jovem paraense.
A jovem nortista me impressionou e não foi a única. Temos jovens defensores da leitura e, sobretudo, da experiência que o ato pode nos proporcionar. Muitos deles, inclusive, temem pelo fim dos livros físicos e estou nessa com eles.
Como a Noêmia bem apontou: nem todos têm acesso à tecnologia necessária para consumir livros digitais. Estes, sim, caminham para a democratização da leitura, mas somente em um cenário em que existem no mesmo mundo dos livros físicos. A razão é que, em um universo de substituição total de livros físicos por digitais, o potencial de democratização deste último será minado, pelo menos em alguma medida, por obstáculos estruturais e que refletem as desigualdades de nossas classes sociais, como, por exemplo, o acesso à tecnologia necessária para o simples ato de leitura.
Você, leitor mais pessimista, pode acreditar que nossos jovens já não gostam mais de ler. Eu mesmo, confesso, já os julguei por isso também. Aos 107 que contribuíram para a coluna eu perguntei exatamente isso: "é verdade que o jovem não gosta mais de ler?". Eles, os jovens, podem responder esta pergunta muito melhor do que eu. Portanto, encerro esta coluna com a fala da Judith, jovem paulista.
"Acredito que a questão seja que não há muito incentivo à leitura! Não ‘gostar' de ler é para alguém que já teve a experiência e não sentiu confortável nessa situação ou, simplesmente, não achou aquilo que leu interessante. Mas isso vem de uma questão maior: quais os livros que, muito embora bons, são socialmente aceitos? Qual a diferença entre preferir ler um gibi, um mangá, ou um livro de romance, do que algo clássico? A leitura não será relevante? Acredito que muitas pessoas pensam dessa forma e isso interfere na leitura, principalmente entre jovens. Então, concluindo: há falta de incentivo à leitura e muitas pessoas ainda não encontraram algo que realmente gostam de ler, muitas vezes porque estão presas (por causa de outros que influenciam) nesse limbo que classificam como livros bons apenas os clássicos. Muitas vezes as pessoas associam os livros ou ficam surpresas quando você diz ‘eu leio, eu gosto de ler' com algo super culto e inteligente, mas simplesmente, às vezes, os jovens querem ler algo que os diverte, sem pressão. As pessoas precisam gostar do que estão lendo."
O primeiro resultado, honestamente, me surpreendeu: 83% é ou já foi leitor de livros digitais. Dentro do grupo dos 17% que nunca consumiu esse tipo de conteúdo, as justificativas foram: não saber onde procurar e acessar, a preferência pelos livros físicos e o medo dos possíveis problemas de visão devido à exposição às telas.
Nosso foco aqui será os 83% que já tiveram a experiência de ler uma obra digital. Este público contribuiu com a nossa discussão trazendo os pontos positivos e negativos da leitura online.
Bom, vamos primeiro aos pontos positivos. A palavra "praticidade" apareceu muitas vezes. Eles acreditam que a manipulação é mais fácil, tornando possível "carregar" muitos livros sem pesar a mochila. Muitos também acham que os livros digitais são mais baratos em comparação aos físicos – uns até mencionaram ser possível encontrar obras totalmente gratuitas. Portanto, acreditam que há uma certa democratização do acesso à leitura.
No entanto, os jovens que ajudaram com a coluna também acreditam que há alguns pontos negativos. Noêmia, jovem carioca, sintetizou bem a perspectiva dos colegas: "Acho que uma das principais desvantagens é o uso excessivo das telas e a falta de contato com algo real, porém, há outras desvantagens como a falta de internet em alguns locais e a falta de acesso às tecnologias em várias regiões".
Ela bem destacou dois pontos que foram quase unânimes nas respostas: a questão dos males que tanto tempo de tela podem acarretar na visão e também que nem todos, infelizmente e especialmente no Brasil, têm acesso às mesmas tecnologias. Um outro fator citado foi a maior possibilidade de distração durante leituras online, dado às notificações de redes sociais e afins.
Confesso que, especialmente por ter falado com jovens, me surpreendi com outro ponto que eles trouxeram. "Livros físicos são, na minha opinião, muito mais legais de se ler. Sinto mais vontade e gosto de ler um livro se for físico. O cheiro, a textura, passar as páginas se perguntando o que vai acontecer na próxima, é muito mais emocionante do que apenas passar o dedo num aparelho", diz Manuelly, jovem paraense.
A jovem nortista me impressionou e não foi a única. Temos jovens defensores da leitura e, sobretudo, da experiência que o ato pode nos proporcionar. Muitos deles, inclusive, temem pelo fim dos livros físicos e estou nessa com eles.
Como a Noêmia bem apontou: nem todos têm acesso à tecnologia necessária para consumir livros digitais. Estes, sim, caminham para a democratização da leitura, mas somente em um cenário em que existem no mesmo mundo dos livros físicos. A razão é que, em um universo de substituição total de livros físicos por digitais, o potencial de democratização deste último será minado, pelo menos em alguma medida, por obstáculos estruturais e que refletem as desigualdades de nossas classes sociais, como, por exemplo, o acesso à tecnologia necessária para o simples ato de leitura.
Você, leitor mais pessimista, pode acreditar que nossos jovens já não gostam mais de ler. Eu mesmo, confesso, já os julguei por isso também. Aos 107 que contribuíram para a coluna eu perguntei exatamente isso: "é verdade que o jovem não gosta mais de ler?". Eles, os jovens, podem responder esta pergunta muito melhor do que eu. Portanto, encerro esta coluna com a fala da Judith, jovem paulista.
"Acredito que a questão seja que não há muito incentivo à leitura! Não ‘gostar' de ler é para alguém que já teve a experiência e não sentiu confortável nessa situação ou, simplesmente, não achou aquilo que leu interessante. Mas isso vem de uma questão maior: quais os livros que, muito embora bons, são socialmente aceitos? Qual a diferença entre preferir ler um gibi, um mangá, ou um livro de romance, do que algo clássico? A leitura não será relevante? Acredito que muitas pessoas pensam dessa forma e isso interfere na leitura, principalmente entre jovens. Então, concluindo: há falta de incentivo à leitura e muitas pessoas ainda não encontraram algo que realmente gostam de ler, muitas vezes porque estão presas (por causa de outros que influenciam) nesse limbo que classificam como livros bons apenas os clássicos. Muitas vezes as pessoas associam os livros ou ficam surpresas quando você diz ‘eu leio, eu gosto de ler' com algo super culto e inteligente, mas simplesmente, às vezes, os jovens querem ler algo que os diverte, sem pressão. As pessoas precisam gostar do que estão lendo."
sexta-feira, agosto 18
O pressuposto indispensável para ser um Grande-Escritor
O pressuposto indispensável para se ser um grande-escritor é, então, o de escrever livros e peças de teatro que sirvam para todos os níveis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, é preciso primeiro produzir efeito: este princípio é a base de toda a existência como grande-escritor. É um princípio miraculoso, eficaz contra todas as tentações da solidão, por excelência o princípio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos é propício, tudo o resto virá por si. Pois quando um escritor começa a ter sucesso dá-se logo uma transformação significativa na sua vida. O seu editor para de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista trágico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A crítica descobre nele um objeto digno da sua atividade, porque os críticos muitas vezes até nem são más pessoas, mas, dadas as circunstâncias epocais pouco propícias, ex-poetas que precisam de um apoio do coração para poderem pôr cá fora os seus sentimentos; são poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que têm de aplicar com proveito, e por isso é perfeitamente compreensível que escolham o livro de um grande-escritor e não o de um comum escritor. Acontece que uma pessoa tem uma capacidade de trabalho limitada, que os seus melhores resultados se aplicam com facilidade às novidades saídas anualmente da pena dos grandes-escritores, que assim se transformam em caixas-económicas da prosperidade intelectual da nação, na medida em que cada um deles arrasta consigo interpretações que não se limitam a ser explicações, são antes aplicações, e para o resto dos livros pouco sobra. Mas a coisa só alcança proporções verdadeiramente grandes pela mão dos ensaístas, dos biógrafos e dos historiadores instantâneos, que se servem dos homens grandes para descarregar as suas necessidades. Com o devido respeito, até os cães preferem para as suas necessidades mais comuns uma esquina movimentada a uma pedra solitária. Por que razão hão-de então os homens que sentem o nobre impulso de legar o nome à posteridade escolher uma pedra manifestamente solitária?
Provavelmente é essa a explicação para um dos traços mais comuns do carácter de um grande-escritor: um marcado sentido do bom comportamento. Só recorrem à escrita combativa quando sentem o seu prestígio ameaçado; em todos os outros casos o seu comportamento distingue-se pelo equilíbrio e pela benevolência. São sempre tolerantes para com as ninharias que se dizem em seu louvor. Não se rebaixam facilmente a escrever sobre outros autores; quando o fazem, raramente é para elogiar um homem superior, mas quase sempre para animar um daqueles talentos apagados que se compõem de quarenta e nove por cento de talento e cinquenta e um por cento de ausência dele, e, devido a esta composição, se ajustam a todas as situações em que é precisa alguma força, mas um homem forte poderia ser prejudicial; e a curto ou a longo prazo todos eles terão um lugar influente na vida literária.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos, cujas obras permanecem intactas e vigorosas pelos milénios? Talvez de ambos. Mas sei que, se algum dia o estudo das línguas antigas cessar, como ameaça cessar agora, surgirá então uma nova literatura, feita de escrevinhações bárbaras, triviais e indignas, como ainda não chegou a existir; tanto mais que a língua alemã, que realmente possui algumas das perfeições das línguas antigas, é delapidada e mutilada com zelo e método pelos rabiscadores da época «actual», de modo que, pouco a pouco, ela se empobrece e degenera, transformando-se num jargão miserável.
Quando dá por si, o grande-escritor já não é um ser com autonomia, viu-se transformado numa simbiose, no resultado de um grupo de trabalho à escala nacional, no mais dedicado e delicado sentido, beneficiando da mais bela certeza que a vida lhe pode conceder: a de que o seu êxito está intimamente ligado ao de inúmeros outros homens.
Provavelmente é essa a explicação para um dos traços mais comuns do carácter de um grande-escritor: um marcado sentido do bom comportamento. Só recorrem à escrita combativa quando sentem o seu prestígio ameaçado; em todos os outros casos o seu comportamento distingue-se pelo equilíbrio e pela benevolência. São sempre tolerantes para com as ninharias que se dizem em seu louvor. Não se rebaixam facilmente a escrever sobre outros autores; quando o fazem, raramente é para elogiar um homem superior, mas quase sempre para animar um daqueles talentos apagados que se compõem de quarenta e nove por cento de talento e cinquenta e um por cento de ausência dele, e, devido a esta composição, se ajustam a todas as situações em que é precisa alguma força, mas um homem forte poderia ser prejudicial; e a curto ou a longo prazo todos eles terão um lugar influente na vida literária.
O método do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, é o que adoptamos, com magnífica inconsciência, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que esplêndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: «É uma besta! É um maroto!» Para exclamar: «É um génio!» ou «É um santo!», oferecemos naturalmente mais resistência. Mas ainda assim, quando uma boa digestão e um fígado livre nos inclinam à benevolência risonha, também concedemos prontamente, e só com lançar um olhar distraído sobre o eleito, a coroa de louros ou a auréola de luz.
Não há maior refrigério para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: tão logo temos um deles nas mãos, e mesmo que seja por apenas meia hora, sentimo-nos imediatamente refrescados, aliviados, purificados, elevados e fortalecidos; como se nos tivéssemos deleitado na fonte fresca de uma rocha. Tal facto depende das línguas antigas e da sua perfeição ou da grandeza dos espíritos, cujas obras permanecem intactas e vigorosas pelos milénios? Talvez de ambos. Mas sei que, se algum dia o estudo das línguas antigas cessar, como ameaça cessar agora, surgirá então uma nova literatura, feita de escrevinhações bárbaras, triviais e indignas, como ainda não chegou a existir; tanto mais que a língua alemã, que realmente possui algumas das perfeições das línguas antigas, é delapidada e mutilada com zelo e método pelos rabiscadores da época «actual», de modo que, pouco a pouco, ela se empobrece e degenera, transformando-se num jargão miserável.
Robert Musil
Duas almas
Uma mulher com duas almas assombrava nossa rua. Uma alma de Deus a serviço de uma alma do demônio. Uma fada a serviço de uma bruxa. A fada possuía seu corpo, a bruxa, seu coração. Ela vestia seu estreito corpo com tecidos mansos, estampados de miosótis ou bolinhas de um azul calmo sobre seda clara. Seu cabelo, na altura da nuca, era branco misturado ao cinza que cobre as brasas. Andava com um passinho leve — pardal ciscando a terra. Seu sorriso, bastava reparar, era suspenso como o das hienas. O coração, contudo, um imenso caldeirão onde borbulhavam a inveja, a mágoa, o desamor. Diziam que seu marido partiu atrás de menos martírios. E a todos que a fada seduzia a bruxa servia sua poção amarga. Seu cachorro branco, tímido, portava uma doença de pele. Não sei se ele almejava o céu ou o inferno. O cão, ao olhar, suplicava carinho, mas não se deixava acariciar. Teria o cachorro também duas almas? A madrasta, arreada sobre o muro, nego ciava tomate com a mulher de duas almas. Eu suspeitava.
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
A cidade acordava lerda, como se fosse possível escolher os sonhos. O sino da igreja serrava as ruas, becos, praças. Os habitantes sentiam-se prenhes de Deus e perdoados dos pecados ainda por cometerem. O cheiro do café conciliava as almas e a vida, provisoriamente. Ao tomarem das palavras, os lamentos rabiscavam o povoado como se impedidos de escolher outro destino.
Bartolomeu Campos de Queirós, "Vermelho Amargo"
Do lugar em que Oliver Twist nasceu
Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.
Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.
Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas páginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.
Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.
A razão é esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.
O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz.
No momento em que Oliver dava essa primeira prova da força e da liberdade de seus pulmões, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se com dificuldade o rosto pálido de uma moça, e uma voz fraca articulou estas palavras:
— Quero ver meu filho antes de morrer!
O médico estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mãos. Ouvindo a voz da moça levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doçura do que se podia esperar do seu ofício:
— Oh! Não fale de morrer!
— Deus proteja a pobre mulher! — disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa cujo conteúdo provava nesse momento com evidente satisfação; quando ela tiver vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que só me restam dois aqui no asilo, então há de pensar de outra maneira. — Ora, vamos, pense na felicidade de ser mãe deste pequeno.
É provável que essa perspectiva consoladora da ventura maternal não produzisse grande efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabeça e estendeu as mãos para o filho.
O médico passou-lhe a criança aos braços; ela aplicou com ternura, na testa do pequeno, os lábios pálidos e frios; depois passou as mãos pelo próprio rosto, caiu na cama e morreu.
Esfregaram-lhe o peito, as mãos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre; falavam-lhe de esperança e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso que achou melhor expirar.
— Está acabado, Sra. Haingummy — disse o médico.
— Ah! Pobre moça, é verdade — disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde, que havia caído na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.
— É inútil mandar-me chamar se a criança berrar — disse o médico com resolução. — É provável que não fique sossegado. Nesse caso dê-lhe um pouco de mingau.
O médico pôs o chapéu na cabeça e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama e disse:
— Era bonita! De onde veio ela?
— Trouxeram-na ontem à noite — respondeu a velha — por ordem do inspetor; foi achada na rua; fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde vinha e para onde ia? Ninguém sabe dizer.
— Sempre a mesma história; não tem anel de aliança... Não era casada... Boa noite!
O doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar à boca a garrafa, assentou-se numa cadeira junto à lareira e entrou a vestir o pequeno.
Que exemplo da influência da roupa ofereceu então o pequeno Oliver Twist! Envolvido na coberta que até então fora sua única roupa, podia ser filho de um fidalgo ou mendigo; era impossível ao estranho mais presumido dizer qual era a sua classe na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido nesse uso, achou logo seu lugar; filho da paróquia, órfão do asilo de mendigos, vítima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos, à piedade de ninguém. Oliver berrava com quantas forças tinha. Se ele soubesse que era órfão, abandonado à terna compaixão dos bedéis e dos inspetores, talvez berrasse mais alto.
Charles Dickens, "Oliver Twist"
Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.
Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas páginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.
Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.
A razão é esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.
O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz.
No momento em que Oliver dava essa primeira prova da força e da liberdade de seus pulmões, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se com dificuldade o rosto pálido de uma moça, e uma voz fraca articulou estas palavras:
— Quero ver meu filho antes de morrer!
O médico estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mãos. Ouvindo a voz da moça levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doçura do que se podia esperar do seu ofício:
— Oh! Não fale de morrer!
— Deus proteja a pobre mulher! — disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa cujo conteúdo provava nesse momento com evidente satisfação; quando ela tiver vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que só me restam dois aqui no asilo, então há de pensar de outra maneira. — Ora, vamos, pense na felicidade de ser mãe deste pequeno.
É provável que essa perspectiva consoladora da ventura maternal não produzisse grande efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabeça e estendeu as mãos para o filho.
O médico passou-lhe a criança aos braços; ela aplicou com ternura, na testa do pequeno, os lábios pálidos e frios; depois passou as mãos pelo próprio rosto, caiu na cama e morreu.
Esfregaram-lhe o peito, as mãos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre; falavam-lhe de esperança e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso que achou melhor expirar.
— Está acabado, Sra. Haingummy — disse o médico.
— Ah! Pobre moça, é verdade — disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde, que havia caído na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.
— É inútil mandar-me chamar se a criança berrar — disse o médico com resolução. — É provável que não fique sossegado. Nesse caso dê-lhe um pouco de mingau.
O médico pôs o chapéu na cabeça e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama e disse:
— Era bonita! De onde veio ela?
— Trouxeram-na ontem à noite — respondeu a velha — por ordem do inspetor; foi achada na rua; fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde vinha e para onde ia? Ninguém sabe dizer.
O médico inclinou-se para o corpo e, levantando a mão esquerda da defunta, disse abanando a cabeça:
— Sempre a mesma história; não tem anel de aliança... Não era casada... Boa noite!
O doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar à boca a garrafa, assentou-se numa cadeira junto à lareira e entrou a vestir o pequeno.
Que exemplo da influência da roupa ofereceu então o pequeno Oliver Twist! Envolvido na coberta que até então fora sua única roupa, podia ser filho de um fidalgo ou mendigo; era impossível ao estranho mais presumido dizer qual era a sua classe na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido nesse uso, achou logo seu lugar; filho da paróquia, órfão do asilo de mendigos, vítima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos, à piedade de ninguém. Oliver berrava com quantas forças tinha. Se ele soubesse que era órfão, abandonado à terna compaixão dos bedéis e dos inspetores, talvez berrasse mais alto.
Charles Dickens, "Oliver Twist"
quinta-feira, agosto 17
Contra a tirania dos fatos
A história inventada é sempre mais atrativa do que a cansativa tirania dos fatosCees Nooteboom, "A seguinte história"
A morte do Camicego
Foi o Edgard quem “lançou” esse monstro. O Camicego era para sua imaginação de quatro anos um “bicho malvado”, grande como o guarda-louça. Depois foi crescendo, chegou a ficar do tamanho do morro.
Morávamos na fazenda, num casarão rodeado de morros, e ser grande como o morro avistado da “porta da rua” era algo sério…
Comia gente o Camicego, e tinha um bico assim! Este assim não era explicado com palavras, mas figurado numa careta de lábios abrochados em bico e olhos esbugalhados.
Com tão gentil focinho, não devia ser má rês o monstro — pensava a “gente grande” que, de passagem, via o Edgard refranzir os beicinhos naquela onomatopeia muscular. Mas para os nervosos cinco anos de sua irmã, a Marta, era de crer que fosse horrendo, tal o ríctus de pavor com que, enfitando a macaquice do irmão, instintivamente lhe arremedava o muxoxo.
E todas as noites, na rede da sala de jantar, ficavam os dois absorvidos no caso do Camicego — ele a desfiar as proezas incontáveis do monstro, ela a interrompê-lo com perguntas.
— E come gente?
(Preocupava à Marta, sempre que se lhe antolhava algo desconhecido, visto pela primeira vez — um besourão, um lagarto, uma coruja —, saber o grau de antropofagia da novidade. Para ela o mundo se dividia em duas classes: a dos seres bons, que não comem gente, e a dos maus, que comem gente.)
— Come sim! — inventava o Edgard. — Pois não sabe que comeu o filhinho da Mariana no dia da chuvarada?
Marta volvia os olhos sonhadores para a paisagem enquadrada na janela e quedava-se a cismar…
Nisto vinha para a rede um terceiro, o Guilherme, cujos dois anos e pico o traziam ainda muito amodorrado de imaginativa. Ouvia as histórias mas não se impressionava coisa nenhuma, e no meio da papagueada hoffmânica saltava ao chão e pedia coisa mais positiva — o pão de ló, o bolinho de milho, a gulodice qualquer do dia, entrevista no armário.
E a história continuava a dois, sempre na rede, onde eles se balançavam isócronos como dois ponteiros de metrônomo — sempre entremeada das perguntas da menina, futura leitora de Wallace e cabalmente dilucidada pelo Edgard, um Wells em embrião.
— E onde mora o Camicego?
No quarto escuro, no porão, debaixo da cama, no buraco do forno, naquele barranco onde caiu a vaca pintada — o Edgard encontrava incontinenti uma dúzia de biocos tenebrosos onde encafuar a sua criação.
Às vezes brincavam de casinha na sala de visitas, um grande salão sempre mergulhado em penumbra. Sob o sofá antigo, de canela-preta, armavam com álbuns de música e almofadas a casinha da Irene, a grande boneca de louça sem uma perna.
Que maravilhosa mobília tinha a casa da Irene! Coloridos cacos de tigela figuravam de suntuosa porcelana. Havia travessas e sopeiras “de mentira”. Em torno sentavam-se sabugos de milho representando as grandes personagens da fazenda — Anastácia, a cozinheira; Esaú, o preto tirador de leite; Leôncio, o domador. Quando comparecia à mesa este herói, não deixava de figurar também, solidamente amarrado a um pé de cadeira, o último animal que ele amansara. Este último animal era sempre o mesmo chuchu com quatro palitos à guisa de pernas, uma pena de galinha como cauda e três caroços de feijão figurando boca e olhos — sugestiva escultura da cozinheira que aquelas crianças preferiam aos mais bem-feitos cavalinhos de pau vindos da cidade.
Assim brincavam horas, até que, de súbito, farto já, o Edgard apontava para um canto da sala, onde eram mais intensas as sombras, e berrava com cara de terror:
— O Camicego!
Debandavam todos em grita, tomados de pânico, rumo à sala de jantar, a rirem-se do susto.
Um dia apareceu no quintal um grande morcego moribundo, de asas rotas por uma vassourada da copeira.
O Edgard foi quem o descobriu; trouxe-o para dentro e sem vacilar o identificou:
— O Camicego!
Reuniram-se os três em torno do monstro, em demorada contemplação: a menina mais arredada, no instintivo asco da sua sensibilidade feminil; o Guilherme espichado de barriga, o rosto moreno apoiado nas duas mãos; o Edgard pegando sem nojo nenhum no bicharoco, estirando-lhe as asas em gomos de guarda-chuva, abrindo-lhe a boca para mostrar a serrilha dos alvos dentinhos. E explicava petas a respeito.
— E este Camicego também come gente? — perguntou a menina.
— Boba! Pois não vê que é um coitado que nem come esta palhinha? — e Edgard enfiou uma palha goela adentro do bicho já morto.
Nesse momento “gente grande” apareceu na sala e pilhou-os na “porcaria”, e com ralhos ásperos dispersou o bando, pondo termo à lição anatômica.
O morcego, pegado com asco pela pontinha da asa, lá voou por cima do muro, pinchado, e xingado — “… esta imundície…”.
Mas de nada valeu a energia. O improvisado necrotério transferiu-se ali da sala para detrás do muro, à sombra de uma laranjeira onde caíra o morcego. O Edgard, com uma faca de mesa, procurava abrir a barriga do “porco” para ver o que tinha dentro. Depois teve uma grande ideia: fazer sabão da barrigada!
A faca, porém, não cortava aquelas pelancas moles e rijas, o “porco” fugia à direita e à esquerda, e assim foi até que a Anastácia, de passagem para a horta em busca de coentro, pilhou-os de novo na “porcaria”.
— Cambadinha! Vou já contar pra mamãe!…
Nova dispersão do grupo, e voo final da nojenta pelanca do vampiro, que desta vez foi parar em poleiro inacessível — em cima do telhado.
Datou daí a morte do Camicego. Não amedrontava mais.
Se Edgard o relembrava, os outros riam-se, porque a imaginação dos guris passara a encarnar o monstro na figura triste do pobre morcego morto, a estorricar-se ao sol no telhado.
Os homens, crianças grandes, não procedem de outra maneira. Os seus mais temerosos Camicegos saem-lhes morcegos relíssimos, sempre que uma boa vassourada da crítica os pespega para cima da mesa anatômica.
Morávamos na fazenda, num casarão rodeado de morros, e ser grande como o morro avistado da “porta da rua” era algo sério…
Comia gente o Camicego, e tinha um bico assim! Este assim não era explicado com palavras, mas figurado numa careta de lábios abrochados em bico e olhos esbugalhados.
Com tão gentil focinho, não devia ser má rês o monstro — pensava a “gente grande” que, de passagem, via o Edgard refranzir os beicinhos naquela onomatopeia muscular. Mas para os nervosos cinco anos de sua irmã, a Marta, era de crer que fosse horrendo, tal o ríctus de pavor com que, enfitando a macaquice do irmão, instintivamente lhe arremedava o muxoxo.
E todas as noites, na rede da sala de jantar, ficavam os dois absorvidos no caso do Camicego — ele a desfiar as proezas incontáveis do monstro, ela a interrompê-lo com perguntas.
— E come gente?
(Preocupava à Marta, sempre que se lhe antolhava algo desconhecido, visto pela primeira vez — um besourão, um lagarto, uma coruja —, saber o grau de antropofagia da novidade. Para ela o mundo se dividia em duas classes: a dos seres bons, que não comem gente, e a dos maus, que comem gente.)
— Come sim! — inventava o Edgard. — Pois não sabe que comeu o filhinho da Mariana no dia da chuvarada?
Marta volvia os olhos sonhadores para a paisagem enquadrada na janela e quedava-se a cismar…
Nisto vinha para a rede um terceiro, o Guilherme, cujos dois anos e pico o traziam ainda muito amodorrado de imaginativa. Ouvia as histórias mas não se impressionava coisa nenhuma, e no meio da papagueada hoffmânica saltava ao chão e pedia coisa mais positiva — o pão de ló, o bolinho de milho, a gulodice qualquer do dia, entrevista no armário.
E a história continuava a dois, sempre na rede, onde eles se balançavam isócronos como dois ponteiros de metrônomo — sempre entremeada das perguntas da menina, futura leitora de Wallace e cabalmente dilucidada pelo Edgard, um Wells em embrião.
— E onde mora o Camicego?
No quarto escuro, no porão, debaixo da cama, no buraco do forno, naquele barranco onde caiu a vaca pintada — o Edgard encontrava incontinenti uma dúzia de biocos tenebrosos onde encafuar a sua criação.
Às vezes brincavam de casinha na sala de visitas, um grande salão sempre mergulhado em penumbra. Sob o sofá antigo, de canela-preta, armavam com álbuns de música e almofadas a casinha da Irene, a grande boneca de louça sem uma perna.
Que maravilhosa mobília tinha a casa da Irene! Coloridos cacos de tigela figuravam de suntuosa porcelana. Havia travessas e sopeiras “de mentira”. Em torno sentavam-se sabugos de milho representando as grandes personagens da fazenda — Anastácia, a cozinheira; Esaú, o preto tirador de leite; Leôncio, o domador. Quando comparecia à mesa este herói, não deixava de figurar também, solidamente amarrado a um pé de cadeira, o último animal que ele amansara. Este último animal era sempre o mesmo chuchu com quatro palitos à guisa de pernas, uma pena de galinha como cauda e três caroços de feijão figurando boca e olhos — sugestiva escultura da cozinheira que aquelas crianças preferiam aos mais bem-feitos cavalinhos de pau vindos da cidade.
Assim brincavam horas, até que, de súbito, farto já, o Edgard apontava para um canto da sala, onde eram mais intensas as sombras, e berrava com cara de terror:
— O Camicego!
Debandavam todos em grita, tomados de pânico, rumo à sala de jantar, a rirem-se do susto.
Um dia apareceu no quintal um grande morcego moribundo, de asas rotas por uma vassourada da copeira.
O Edgard foi quem o descobriu; trouxe-o para dentro e sem vacilar o identificou:
— O Camicego!
Reuniram-se os três em torno do monstro, em demorada contemplação: a menina mais arredada, no instintivo asco da sua sensibilidade feminil; o Guilherme espichado de barriga, o rosto moreno apoiado nas duas mãos; o Edgard pegando sem nojo nenhum no bicharoco, estirando-lhe as asas em gomos de guarda-chuva, abrindo-lhe a boca para mostrar a serrilha dos alvos dentinhos. E explicava petas a respeito.
— E este Camicego também come gente? — perguntou a menina.
— Boba! Pois não vê que é um coitado que nem come esta palhinha? — e Edgard enfiou uma palha goela adentro do bicho já morto.
Nesse momento “gente grande” apareceu na sala e pilhou-os na “porcaria”, e com ralhos ásperos dispersou o bando, pondo termo à lição anatômica.
O morcego, pegado com asco pela pontinha da asa, lá voou por cima do muro, pinchado, e xingado — “… esta imundície…”.
Mas de nada valeu a energia. O improvisado necrotério transferiu-se ali da sala para detrás do muro, à sombra de uma laranjeira onde caíra o morcego. O Edgard, com uma faca de mesa, procurava abrir a barriga do “porco” para ver o que tinha dentro. Depois teve uma grande ideia: fazer sabão da barrigada!
A faca, porém, não cortava aquelas pelancas moles e rijas, o “porco” fugia à direita e à esquerda, e assim foi até que a Anastácia, de passagem para a horta em busca de coentro, pilhou-os de novo na “porcaria”.
— Cambadinha! Vou já contar pra mamãe!…
Nova dispersão do grupo, e voo final da nojenta pelanca do vampiro, que desta vez foi parar em poleiro inacessível — em cima do telhado.
Datou daí a morte do Camicego. Não amedrontava mais.
Se Edgard o relembrava, os outros riam-se, porque a imaginação dos guris passara a encarnar o monstro na figura triste do pobre morcego morto, a estorricar-se ao sol no telhado.
Os homens, crianças grandes, não procedem de outra maneira. Os seus mais temerosos Camicegos saem-lhes morcegos relíssimos, sempre que uma boa vassourada da crítica os pespega para cima da mesa anatômica.
Monteiro Lobato
A máscara do meu rosto
Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela é a ponte que cruzo para alcançar os demais seres.
Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.
Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade. E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.
Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.
As máscaras que levo pelas manhãs coladas à pele têm recursos múltiplos. Fogem ao meu controle. Fazem-se de gestos, do franzir da testa, das rugas em torno dos olhos, dos sulcos próximos à comissura dos lábios. Integram um sistema que esconde e revela ao mesmo tempo quem sou. Desgovernada, inescrupulosa, cheia de razão e de fúria, padecendo, como os demais, da enfermidade dos sentimentos. E que embora esteja sob a guarda das máscaras, não está a salvo dos que nos observam com luneta. Donos de um olhar que semeia, a respeito de quem seja, uma versão contrária à que queríamos.
As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo a educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?
Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?
Nélida Piñon, "Até amanhã, outra vez"
Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.
Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade. E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.
Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.
As máscaras que levo pelas manhãs coladas à pele têm recursos múltiplos. Fogem ao meu controle. Fazem-se de gestos, do franzir da testa, das rugas em torno dos olhos, dos sulcos próximos à comissura dos lábios. Integram um sistema que esconde e revela ao mesmo tempo quem sou. Desgovernada, inescrupulosa, cheia de razão e de fúria, padecendo, como os demais, da enfermidade dos sentimentos. E que embora esteja sob a guarda das máscaras, não está a salvo dos que nos observam com luneta. Donos de um olhar que semeia, a respeito de quem seja, uma versão contrária à que queríamos.
As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo a educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?
Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?
Nélida Piñon, "Até amanhã, outra vez"
quarta-feira, agosto 16
As mãos, as mães
Estava encostada num poste, à entrada do jardim municipal. Parecia ocupada em acender um cigarro, o torso enrolado para a frente, as mãos retorcendo um invisível rosário. Mais perto vi que era jovem e as mãos, encobertas por uma vasta cabeleira, manipulavam um telemóvel.
Terminada a chamada, enroscou-se sobre si mesma, a cabeça tocando nos joelhos e assim permaneceu imóvel por um tempo. De repente, num vibrante impulso, suspendeu os braços no ar e tombou desamparadamente na areia. Desabou com aquele surdo ruído que é exclusivo da queda dos corpos. O embate de um corpo vivo não obedece às leis da Física. É um suspiro da terra que encerra o nosso pranto inaugural.
Ninguém senão eu se apressou a ajudar a jovem que, no meio da poeira, parecia ter perdido os sentidos. Um mirone comentou à distância: a gaja deve ser epilétrica. Um outro disse: conheço essa moça, deixem-na sozinha, ela está a ser visitada. Debrucei-me, tão incapaz quanto um anjo amnésico.
– Tudo bem? – perguntei, a medo.
De olhos fechados, ergueu um braço, estendeu-me a mão, em gesto nupcial, e murmurou: ainda bem que veio. E apertou-me os dedos com um vigor tão desesperado que escutei as falanges rangendo.
Ajudei-a a regressar àquilo que ela chamou residência. Era um resto de um casebre de zinco. Sem porta, existe casa? Estendeu-se num decrépito sofá. Escutei o mesmo suspiro que acontecera na sua recente queda no jardim público.
– Como se chama? – perguntei.
– Sou Sara.
– O que lhe aconteceu há pouco, no parque?
Nada, eu estava simplesmente a nascer, respondeu de olhos postos no teto. Nasço todos os dias e, assim, trago-a de volta, disse apontando uma fotografia pendurada na parede. Espreitei a imagem. Era uma bela mulher, mestiça, olhos escurecidos pela tristeza, cabelos sobre os ombros como uma cascata de lava.
– A minha mãe – disse quase sem mover os lábios. – Tombei no parque por causa dela. Ou melhor, por causa das mãos.
– Entendo – declarei como se tudo aquilo fizesse sentido.
Segui o seu olhar: na parede oposta, uma outra fotografia exibia duas mãos longas e finas, postas uma sobre a outra. A foto parecia um selo fixando as duas margens de uma parede rasgada pelo tempo.
– São as mãos da sua mãe?
– Essas mãos são a minha mãe – retificou ela, pontuando palavra por palavra.
A moça ergueu-se, acendeu um cigarro e retirou da parede a fotografia com o mesmo cuidado que teria se carregasse no colo uma criatura viva. Depois, voltou a sentar-se com a moldura sobre os joelhos. Foi falando com os olhos postos nos meus braços. Ela estava no ventre, começou por dizer, e a sua mãe todos os dias lhe perguntava se ela queria nascer. O pai ria-se, entre dúvida e culpa. A esposa estava louca. Há mulheres que, quando se lhes incha a barriga, encolhe-se-lhes o cérebro.
– Falas com ela? – ironizava o pai com serena ironia.
– Não é ela, a minha filha tem nome. É Sara. E tem direito a decidir.
Depois, o pai beijava a barriga da esposa, sossegando-lhe o seu medo de se sentir feia e indesejada. O teu corpo é a minha casa, afirmava ele.
Sara usou a saliva para apagar uma beata para depois, com ela ainda fumegando, a voltar a esconder sob as descoloridas almofadas. É assim que durmo, deitada sobre o fumo, suspirou.
– Falava da sua mãe… – A minha voz era quase uma súplica que o relato não fosse interrompido.
No nono mês, a futura Sara sentiu a urgência do parto. Tinha pressa de entrar no meu corpo, foi o que a moça explicou. Naquele momento, porém, a moça ainda não sabia como nascer. Tinha medo. Sentia que lhe faltavam os ombros e que os seus ossos eram feitos de água e barro.
Até que uma tarde, a mãe se apresentou dobrada, as mãos tocando o pátio do hospital. Ela vinha ali para se desluar. É a hora do espinho perfurar a nuvem, comentou o pai que, segundo Sara, usava as piores metáforas sempre que se sentia amedrontado. E começou, para ela, o mais solitário dos desfiles, sem hinos, sem bandas, sem céu nem chão. Apenas um pequeno coração à procura do seu próprio peito, peixe esbracejando no túnel, eterna viagem da água para a carne.
– Era o que me acontecia quando o senhor me apanhou há pouco no parque – disse Sara.
– Não entendo – comentei.
Perguntou-me se sabia dos patinhos recém-nascidos que adotam o primeiro objeto que veem em movimento. Para Sara essa imagem primordial foram as mãos. Ficaram gravadas como se fossem o primeiro gesto do seu próprio corpo.
E a moça avaliou-me os dedos, um por um, como se fossem beatas que ela haveria de fumar. Não há mãos que não sejam bonitas, concluiu. Mesmo as feias se tornam belas sempre que ensaiam um gesto.
No parque, as minhas mãos a tinham recolhido depois da queda. E ela experimentou o seu peso como se fosse a primeira vez. Naquela tarde, Sara voltou a transitar da gravidez para a gravidade.
– Lembro-me da primeira luz – declarou.
Não tinha sido um parto fácil. No momento em que se preparavam para cortar o cordão umbilical, Sara decidiu rebelar-se. No princípio, parecia a amotinada gesticulação dos recém-nascidos. Ela estava ainda cega e dava o seu primeiro suspiro. Era isso que pensava a parteira quando exclamou: vem cheia de vida, esta menina! Depois notaram que os seus gestos tinham um propósito. A bebé segurou o cordão que a ligava à mãe, com aqueles dedos tão pequenos que agarram o Universo inteiro. E o corpinho se enroscou, pernas e braços opondo-se à intenção da parteira. Vá, bebé, deixa-me trabalhar, implorou a mulher, forçando a que o pequeno corpo escorregadio se apartasse do ventre da mãe.
Naquele momento, Sara interrompeu as lembranças. Ajeitou o corpo no fedorento sofá e ficou de olhos parados, fixando a porta que nunca houve.
– Sabe o que sucedeu? – perguntou, depois de longa pausa.
– A sua mãe morreu no parto?
– É o que dizem.
E ficou um tempo de olhos fechados. Pareceu-me que tinha adormecido quando me retirei em respeitoso silêncio. Na rua, enrosquei os dedos uns nos outros com medo de que, se abrisse as mãos, a Vida tombaria a meus pés.
Terminada a chamada, enroscou-se sobre si mesma, a cabeça tocando nos joelhos e assim permaneceu imóvel por um tempo. De repente, num vibrante impulso, suspendeu os braços no ar e tombou desamparadamente na areia. Desabou com aquele surdo ruído que é exclusivo da queda dos corpos. O embate de um corpo vivo não obedece às leis da Física. É um suspiro da terra que encerra o nosso pranto inaugural.
Ninguém senão eu se apressou a ajudar a jovem que, no meio da poeira, parecia ter perdido os sentidos. Um mirone comentou à distância: a gaja deve ser epilétrica. Um outro disse: conheço essa moça, deixem-na sozinha, ela está a ser visitada. Debrucei-me, tão incapaz quanto um anjo amnésico.
– Tudo bem? – perguntei, a medo.
De olhos fechados, ergueu um braço, estendeu-me a mão, em gesto nupcial, e murmurou: ainda bem que veio. E apertou-me os dedos com um vigor tão desesperado que escutei as falanges rangendo.
Ajudei-a a regressar àquilo que ela chamou residência. Era um resto de um casebre de zinco. Sem porta, existe casa? Estendeu-se num decrépito sofá. Escutei o mesmo suspiro que acontecera na sua recente queda no jardim público.
– Como se chama? – perguntei.
– Sou Sara.
– O que lhe aconteceu há pouco, no parque?
Nada, eu estava simplesmente a nascer, respondeu de olhos postos no teto. Nasço todos os dias e, assim, trago-a de volta, disse apontando uma fotografia pendurada na parede. Espreitei a imagem. Era uma bela mulher, mestiça, olhos escurecidos pela tristeza, cabelos sobre os ombros como uma cascata de lava.
– A minha mãe – disse quase sem mover os lábios. – Tombei no parque por causa dela. Ou melhor, por causa das mãos.
– Entendo – declarei como se tudo aquilo fizesse sentido.
Segui o seu olhar: na parede oposta, uma outra fotografia exibia duas mãos longas e finas, postas uma sobre a outra. A foto parecia um selo fixando as duas margens de uma parede rasgada pelo tempo.
– São as mãos da sua mãe?
– Essas mãos são a minha mãe – retificou ela, pontuando palavra por palavra.
A moça ergueu-se, acendeu um cigarro e retirou da parede a fotografia com o mesmo cuidado que teria se carregasse no colo uma criatura viva. Depois, voltou a sentar-se com a moldura sobre os joelhos. Foi falando com os olhos postos nos meus braços. Ela estava no ventre, começou por dizer, e a sua mãe todos os dias lhe perguntava se ela queria nascer. O pai ria-se, entre dúvida e culpa. A esposa estava louca. Há mulheres que, quando se lhes incha a barriga, encolhe-se-lhes o cérebro.
– Falas com ela? – ironizava o pai com serena ironia.
– Não é ela, a minha filha tem nome. É Sara. E tem direito a decidir.
Depois, o pai beijava a barriga da esposa, sossegando-lhe o seu medo de se sentir feia e indesejada. O teu corpo é a minha casa, afirmava ele.
Sara usou a saliva para apagar uma beata para depois, com ela ainda fumegando, a voltar a esconder sob as descoloridas almofadas. É assim que durmo, deitada sobre o fumo, suspirou.
– Falava da sua mãe… – A minha voz era quase uma súplica que o relato não fosse interrompido.
No nono mês, a futura Sara sentiu a urgência do parto. Tinha pressa de entrar no meu corpo, foi o que a moça explicou. Naquele momento, porém, a moça ainda não sabia como nascer. Tinha medo. Sentia que lhe faltavam os ombros e que os seus ossos eram feitos de água e barro.
Até que uma tarde, a mãe se apresentou dobrada, as mãos tocando o pátio do hospital. Ela vinha ali para se desluar. É a hora do espinho perfurar a nuvem, comentou o pai que, segundo Sara, usava as piores metáforas sempre que se sentia amedrontado. E começou, para ela, o mais solitário dos desfiles, sem hinos, sem bandas, sem céu nem chão. Apenas um pequeno coração à procura do seu próprio peito, peixe esbracejando no túnel, eterna viagem da água para a carne.
– Era o que me acontecia quando o senhor me apanhou há pouco no parque – disse Sara.
– Não entendo – comentei.
Perguntou-me se sabia dos patinhos recém-nascidos que adotam o primeiro objeto que veem em movimento. Para Sara essa imagem primordial foram as mãos. Ficaram gravadas como se fossem o primeiro gesto do seu próprio corpo.
E a moça avaliou-me os dedos, um por um, como se fossem beatas que ela haveria de fumar. Não há mãos que não sejam bonitas, concluiu. Mesmo as feias se tornam belas sempre que ensaiam um gesto.
No parque, as minhas mãos a tinham recolhido depois da queda. E ela experimentou o seu peso como se fosse a primeira vez. Naquela tarde, Sara voltou a transitar da gravidez para a gravidade.
– Lembro-me da primeira luz – declarou.
Não tinha sido um parto fácil. No momento em que se preparavam para cortar o cordão umbilical, Sara decidiu rebelar-se. No princípio, parecia a amotinada gesticulação dos recém-nascidos. Ela estava ainda cega e dava o seu primeiro suspiro. Era isso que pensava a parteira quando exclamou: vem cheia de vida, esta menina! Depois notaram que os seus gestos tinham um propósito. A bebé segurou o cordão que a ligava à mãe, com aqueles dedos tão pequenos que agarram o Universo inteiro. E o corpinho se enroscou, pernas e braços opondo-se à intenção da parteira. Vá, bebé, deixa-me trabalhar, implorou a mulher, forçando a que o pequeno corpo escorregadio se apartasse do ventre da mãe.
Naquele momento, Sara interrompeu as lembranças. Ajeitou o corpo no fedorento sofá e ficou de olhos parados, fixando a porta que nunca houve.
– Sabe o que sucedeu? – perguntou, depois de longa pausa.
– A sua mãe morreu no parto?
– É o que dizem.
E ficou um tempo de olhos fechados. Pareceu-me que tinha adormecido quando me retirei em respeitoso silêncio. Na rua, enrosquei os dedos uns nos outros com medo de que, se abrisse as mãos, a Vida tombaria a meus pés.
Palavras
Quando eu era criança, tive uma professora de piano que tentava estimular seus alunos pouco inspirados com um sistema de recompensas. Memorizar uma sonatina de Clementini ou terminar um caderno de exercícios valia-nos certo número de estrelas que se somavam para o grande prêmio: um pequeno busto de gesso, não pintado, de um compositor famoso: Bach, Beethoven, Mozart.
Parte da obrigação do leitor é descobrir por que certos escritores permanecem. Isso pode exigir alguma reconexão: desfazer a conexão que nos faz pensar que devemos ter uma opinião sobre o livro e reconectar esse fio ao terminal, seja ele qual for, que nos permite ver a leitura como algo capaz de nos comover ou deliciar. Faremos um desserviço a nós mesmos se limitarmos nossa leitura à estrela ascendente cujo contrato de seis dígitos por dois livros parece indicar para onde nosso próprio trabalho deveria estar avançando. Não estou dizendo que você não deveria ler esses autores, alguns dos quais são excelentes e merecedores de celebridade. Só estou salientando que eles representam o ponto final da longa, gloriosa e complexa frase em que a literatura foi escrita.
Com tanta leitura à sua frente, a tentação poderia ser aumentar a velocidade. Mas na verdade é essencial desacelerar e ler cada palavra. Porque algo importante que se pode aprender lendo devagar é o fato óbvio, mas estranhamente subestimado, de que a linguagem é o meio que usamos, mais ou menos como um compositor usa notas, como um pintor usa tinta. Compreendo que isso pode parecer óbvio, mas é surpreendente a facilidade com que perdemos de vista o fato de que as palavras são a matéria-prima com que a literatura é construída.
Cada página foi antes uma página em branco, assim como cada palavra que aparece nela agora não esteve sempre ali – antes, reflete o resultado final de incontáveis deliberações, grandes e pequenas. Todos os elementos da boa escrita dependem da habilidade do escritor de escolher uma palavra em vez de outra. E o que prende e mantém nosso interesse tem tudo a ver com essas escolhas.
A primeira frase declarativa simples dificilmente poderia ser mais direta: sujeito, verbo, infinitivo, preposição. Não há um adjetivo ou advérbio para nos distrair do fato central. Mas quanta coisa está contida nessas oito pequenas palavras!
Chamá-la de “a avó” a reduz imediatamente a seu papel na família, tal como o fato de que sua nora nunca é chamada de outra coisa senão “a mãe das crianças”. Ao mesmo tempo, o título dá a ela (como ao Desajustado) um papel arquetípico, mítico, que a eleva e impede que fiquemos íntimos demais dessa mulher cujo nome nunca chegamos a saber, ainda que o escritor esteja preparando nossos corações para se partirem no momento crítico para o qual toda a sua vida e os eventos do conto a levaram.
“A avó não queria ir para a Flórida.” A primeira frase é uma negativa, que, em sua própria simplicidade, enfatiza a força com que a velha está resistindo. É um ato concentrado de vontade negativa, que viremos a compreender em toda a sua trágica insensatez – isto é, o absurdo de tentar exercer a própria vontade quando o fado ou o destino (ou, como O’Connor alegaria, Deus) têm outros planos para nós. E, finalmente, a austeridade terra-a-terra da construção da frase confere-lhe um tipo de autoridade que – como a primeira frase de Moby Dick, “Chame-me Ishmael” – nos faz sentir que o autor está no controle, uma autoridade que nos arrasta para diante na história.
A primeira parte da segunda frase – “Queria visitar alguns de seus contatos no leste do Tennessee” – nos situa na geografia, isto é, no sul dos Estados Unidos. E essa única palavra, contatos (em contraposição a parentes, familiares ou gente), revela a consciência que a avó tem de sua própria fidalguia decaída, de ter perdido sua posição social, uma autoimagem um tanto enganosa que, como as ilusões de muitos outros personagens de O’Connor, contribuirá para a sua ruína.
O Desajustado está “tresmalhado” – aqui encontramos uma dessas palavras com que O’Connor transmite o ritmo e o sabor de um dialeto local, sem nos sujeitar às irritantes mudanças ortográficas, omissões dos plurais (os minino, os ômi) e à má gramática com que outros autores tentam transcrever a fala regional. As frases finais do parágrafo – “Eu não levaria meus filhos a parte alguma com um criminoso como esse tresmalhado por lá. Não ficaria em paz com a minha consciência se levasse” – sintetizam a qualidade cômica e enlouquecedora das manipulações da avó. Ela usará qualquer coisa, mesmo um encontro imaginário com um criminoso foragido, para desviar as férias da família da Flórida para o leste do Tennessee. E sua fantasia aparentemente improvável de encontrar o Desajustado pode nos levar a refletir sobre o egocentrismo e o narcisismo peculiares das pessoas que estão constantemente convencidas de que, por minúsculas que sejam as probabilidades, a bala perdida irá de algum modo encontrá-las. Ao mesmo tempo, novamente por conta da escolha de palavras, a frase final já está aludindo àquelas questões de consciência, moralidade, o espírito e a alma que se revelarão o cerne do conto de O’Connor.
Dado o tamanho do país, pensamos, não é possível que eles topem com o criminoso acerca do qual a avó os advertiu. Podemos lembrar, contudo, a observação de Tchekhov de que o revólver que vemos no palco numa cena inicial provavelmente terá sido detonado antes do fim da peça. Que vai acontecer então? Essa curta passagem já nos introduziu num mundo que é realístico, mas que ao mesmo tempo está além do alcance da lógica comum, e numa narrativa que acompanharemos, a partir desta introdução, tão inexoravelmente quanto a avó está fadada a encontrar um destino que (suspeitamos) envolverá o Desajustado. Reduzida e editada, extremamente concentrada, um modelo de compressão do qual seria difícil suprimir uma palavra, essa única passagem alcança tudo isto, ou mais, já que haverá sutilezas e complexidades adicionais óbvias apenas para cada leitor individual.
Novamente, a história começa com uma simples frase declarativa que estabelece um sentido de competência e controle: uma história está prestes a ser contada por alguém que sabe o que está fazendo. Mas se a lermos rapidamente, podemos não notar o fato de que não sabemos a que se refere a palavra seguinte. A semana seguinte... a quê? Nossas heroínas – duas irmãs que ainda não conhecemos e que não foram nomeadas para nós (Josephine e Constantia) nem mencionadas de qualquer maneira exceto como elas – não podem fornecer as palavras necessárias, a semana seguinte ao funeral de seu pai, porque ainda não foram capazes de se convencer de que esse evento grave e aterrorizante realmente ocorreu. Elas simplesmente não conseguem pôr na cabeça que seu temido e tirânico pai, o coronel, tenha morrido e não esteja mais ditando exatamente o que deviam fazer, sentir e pensar a cada momento de cada dia.
(Note-se, também, a maneira engenhosa e econômica como “aterrorizado manjar branco” reflete o estado mental das “velhas solteironas” no tremor do pudim gelatinoso.)
Mansfield é um desses estilistas cuja obra podemos abrir em qualquer lugar para descobrir alguma escolha de palavra inspirada. Aqui, as irmãs ouvem um realejo lá fora na rua e, pela primeira vez, dão-se conta de que não precisam pagar o tocador para ir embora antes que a música irrite o pai. “Um perfeito repuxo de notas borbulhantes jorrou do realejo, notas redondas e luminosas, displicentemente espalhadas.” E como são precisas e inventivas as palavras com que as mulheres reagem à enfermeira do pai, que residia na casa e continuou lá depois da morte dele. As maneiras à mesa da enfermeira Andrews alarmam e enfurecem as irmãs, que de repente não têm a menor ideia de como, economicamente, devem sobreviver sem o pai.
A enfermeira Andrews era simplesmente terrível com a manteiga. Realmente não podiam deixar de sentir que com a manteiga, pelo menos, ela tirava proveito de sua generosidade. E tinha aquele hábito enlouquecedor de pedir só mais uma pontinha de pão para terminar o que restava no prato, e depois, no último bocado, distraidamente – claro que não era distraidamente –, servir-se de novo. Josephine ficava muito vermelha quando isso acontecia, e pregava seus olhinhos redondos na toalha, como se visse um minúsculo e estranho inseto rastejando através da sua trama.
Novamente, é uma questão de palavra por palavra – desta vez, de adjetivos e advérbios. Embora permaneçamos na terceira pessoa, o simplesmente terrível e o enlouquecedor são palavras das irmãs. Seria difícil não perceber a raiva e o desespero gerados por aquele “só mais uma pontinha de pão”, aquele “distraidamente – claro que não era distraidamente”. E podemos ver com absoluta nitidez o olhar de horror, concentração e repugnância reprimida no rosto de Josephine quando ela “prega seus olhinhos redondos” no “minúsculo e estranho inseto” que imagina rastejando através da trama da toalha de mesa. De passagem, trama nos informa que a toalha é de renda.
Vale a pena ler “As filhas do falecido coronel” em diferentes pontos de nossas vidas. Durante anos, supus que compreendia o conto. Acreditava que a incapacidade das irmãs de relacionar aquele seguinte com alguma coisa, de compreender a partida misteriosa do pai, tinha a ver com suas naturezas excêntricas, com sua incapacidade (ou recusa) infantil de encarar as complexidades da vida adulta. Mas calhou de eu o reler não muito tempo depois de uma morte em minha própria família, e pela primeira vez compreendi que a perplexidade das irmãs não é tão diferente do espanto e atordoamento que todos nós sentimos (por mais “adultos” ou sofisticados que nos imaginemos) em face do término chocante, da ausência, do mistério da morte.
Francise Prose, "Para ler como um escritor"
A ideia, suponho, era que alinhássemos as estatuetas sobre o piano numa espécie de altar, ao qual ofereceríamos nossos exercícios na débil esperança de ganhar a aprovação daqueles mortos. Eu era fascinada por suas perucas empoadas e suas expressões severas – ou sonhadoras, no caso de Chopin. Eles eram como bonecas brancas, sem corpo, que eu não podia pensar em vestir.
Infelizmente para a minha professora de piano e para mim, eu não me importava muito em granjear as boas opiniões dos compositores mortos, talvez por já saber que nunca o conseguiria.
Infelizmente para a minha professora de piano e para mim, eu não me importava muito em granjear as boas opiniões dos compositores mortos, talvez por já saber que nunca o conseguiria.
Eu tinha meu próprio panteão privado, composto não por compositores, mas por escritores: P.L. Travers, Astrid Lindgren, E. Nesbit, os ídolos de minha infância. Era pela aprovação, pela companhia deles que eu ansiava enquanto flutuavam acima de mim, dando-me alguma coisa em que pensar durante aquelas enfadonhas sessões de exercícios ao piano. Nos anos transcorridos desde então, a composição de meu panteão literário mudou. Mas não perdi a imagem de Tolstoi ou George Eliot fazendo um aceno de aprovação ou franzindo a sobrancelha diante do meu trabalho, virando o polegar para cima ou para baixo.
Ouvi outros escritores falarem sobre a sensação de escrever para um público composto parcialmente por mortos. Em suas memórias, Hope against Hope, Nadezhda Mandelstam descreve como seu marido, Osip, e sua amiga Anna Akhmatova, também poeta, participavam de uma espécie de comunhão sobrenatural com seus predecessores:
M. e Akhmatova tinham ambos a assombrosa capacidade de transpor de algum modo o tempo e o espaço quando liam a obra de poetas mortos. Por sua própria natureza, essa leitura é geralmente anacrônica, mas com eles significava entrar num mundo de relações pessoais com o poeta em questão: era uma espécie de conversa com alguém que há muito se fora. Pelo modo como ele saudou seus companheiros poetas da Antiguidade no Inferno, M. suspeitava que Dante também tinha essa capacidade. Em seu artigo “On the nature of words”, ele menciona a busca de Bergson por vínculos entre coisas do mesmo tipo, separadas unicamente pelo tempo – do mesmo modo, pensava ele, podemos procurar amigos e aliados através das barreiras tanto do espaço quanto do tempo. Isso provavelmente havia sido compreendido por Keats, que tinha o desejo de encontrar todos os amigos, vivos e mortos, numa taberna.
Akhmatova, ao ressuscitar figuras do passado, estava sempre interessada no modo como viviam e em suas relações com os outros. Lembro como fez Shelley reviver para mim – esse foi, por assim dizer, seu primeiro experimento do gênero. Em seguida iniciou-se seu período de comunhão com Pushkin. Com a minuciosidade de um detetive ou de uma mulher ciumenta, ela deslindou tudo sobre as pessoas que o cercavam, sondando seus motivos psicológicos e virando pelo avesso, como uma luva, cada mulher para quem ele havia sorrido.
Quais são então os escritores com quem poderíamos desejar ter esse tipo de comunhão atemporal? As irmãs Brontë, Dickens, Turguêniev, Woolf – a lista é longa o bastante para garantir leitura sólida por uma vida inteira. Podemos dar por certo que, se a obra de um escritor sobreviveu ao longo de séculos, há razões para isso, explicações que nada têm a ver com uma conspiração de acadêmicos tramando para ressuscitar um exército zumbi de homens brancos mortos. Há, é claro, a questão do gosto individual. Pode ser que nem todos os grandes escritores pareçam grandes para nós, não importa a frequência e a intensidade com que tentemos ver suas virtudes. Sei, por exemplo, que Trollope é considerado um brilhante romancista, mas nunca compreendi muito bem o que torna seus fãs tão ardorosos. Entretanto, nossos gostos mudam à medida que nós mesmos mudamos e envelhecemos, e é possível que dentro de alguns meses Trollope tenha se tornado meu novo escritor favorito.
Parte da obrigação do leitor é descobrir por que certos escritores permanecem. Isso pode exigir alguma reconexão: desfazer a conexão que nos faz pensar que devemos ter uma opinião sobre o livro e reconectar esse fio ao terminal, seja ele qual for, que nos permite ver a leitura como algo capaz de nos comover ou deliciar. Faremos um desserviço a nós mesmos se limitarmos nossa leitura à estrela ascendente cujo contrato de seis dígitos por dois livros parece indicar para onde nosso próprio trabalho deveria estar avançando. Não estou dizendo que você não deveria ler esses autores, alguns dos quais são excelentes e merecedores de celebridade. Só estou salientando que eles representam o ponto final da longa, gloriosa e complexa frase em que a literatura foi escrita.
Com tanta leitura à sua frente, a tentação poderia ser aumentar a velocidade. Mas na verdade é essencial desacelerar e ler cada palavra. Porque algo importante que se pode aprender lendo devagar é o fato óbvio, mas estranhamente subestimado, de que a linguagem é o meio que usamos, mais ou menos como um compositor usa notas, como um pintor usa tinta. Compreendo que isso pode parecer óbvio, mas é surpreendente a facilidade com que perdemos de vista o fato de que as palavras são a matéria-prima com que a literatura é construída.
Cada página foi antes uma página em branco, assim como cada palavra que aparece nela agora não esteve sempre ali – antes, reflete o resultado final de incontáveis deliberações, grandes e pequenas. Todos os elementos da boa escrita dependem da habilidade do escritor de escolher uma palavra em vez de outra. E o que prende e mantém nosso interesse tem tudo a ver com essas escolhas.
Uma maneira de você se obrigar a desacelerar e parar a cada palavra é perguntar-se que tipo de informação cada uma – cada escolha de palavra – transmite. Lendo com essa pergunta em mente, consideremos a riqueza de informação fornecida pelo primeiro parágrafo de “A good man is hard to find”, de Flannery O’Connor.
A avó não queria ir para a Flórida. Queria visitar alguns de seus contatos no leste do Tennessee e agarrava-se a todas as chances para fazer Bailey mudar de ideia. Bailey era o filho com que morava, seu único menino. Ele estava sentado na ponta de sua cadeira à mesa, curvado sobre a seção esportiva laranja do Journal. “Ora, olhe aqui, Bailey”, disse ela, “veja aqui, leia isto”, e parou, uma mão nas cadeiras magras e a outra sacudindo o jornal junto à cabeça calva dele. “Este sujeito aqui que chama a si próprio de O Desajustado fugiu da Penitenciária Federal e tomou o rumo da Flórida, e leia aqui o que ele diz que fez com essas pessoas. Dê só uma lida nisto. Eu não levaria meus filhos a parte alguma com um criminoso como esse tresmalhado por lá. Não ficaria em paz com a minha consciência se levasse.”
A primeira frase declarativa simples dificilmente poderia ser mais direta: sujeito, verbo, infinitivo, preposição. Não há um adjetivo ou advérbio para nos distrair do fato central. Mas quanta coisa está contida nessas oito pequenas palavras!
Aqui, como nas aberturas de muitos contos e romances, somos confrontados com uma escolha importante que um escritor de ficção precisa fazer: a questão de como chamar seus personagens. Joe, Joe Smith, sr. Smith? Não, neste caso, Vovó, ou Vovó Smith (ninguém nesta história tem sobrenome), ou, digamos, Ethel, ou Ethel Smith, ou sra. Smith, ou qualquer da miríade de termos ou designações que poderiam ter estabelecido diferentes graus de distância psíquica e simpatia entre o leitor e a velha.
Chamá-la de “a avó” a reduz imediatamente a seu papel na família, tal como o fato de que sua nora nunca é chamada de outra coisa senão “a mãe das crianças”. Ao mesmo tempo, o título dá a ela (como ao Desajustado) um papel arquetípico, mítico, que a eleva e impede que fiquemos íntimos demais dessa mulher cujo nome nunca chegamos a saber, ainda que o escritor esteja preparando nossos corações para se partirem no momento crítico para o qual toda a sua vida e os eventos do conto a levaram.
“A avó não queria ir para a Flórida.” A primeira frase é uma negativa, que, em sua própria simplicidade, enfatiza a força com que a velha está resistindo. É um ato concentrado de vontade negativa, que viremos a compreender em toda a sua trágica insensatez – isto é, o absurdo de tentar exercer a própria vontade quando o fado ou o destino (ou, como O’Connor alegaria, Deus) têm outros planos para nós. E, finalmente, a austeridade terra-a-terra da construção da frase confere-lhe um tipo de autoridade que – como a primeira frase de Moby Dick, “Chame-me Ishmael” – nos faz sentir que o autor está no controle, uma autoridade que nos arrasta para diante na história.
A primeira parte da segunda frase – “Queria visitar alguns de seus contatos no leste do Tennessee” – nos situa na geografia, isto é, no sul dos Estados Unidos. E essa única palavra, contatos (em contraposição a parentes, familiares ou gente), revela a consciência que a avó tem de sua própria fidalguia decaída, de ter perdido sua posição social, uma autoimagem um tanto enganosa que, como as ilusões de muitos outros personagens de O’Connor, contribuirá para a sua ruína.
A segunda metade da frase – “agarrava-se a todas as chances para fazer Bailey mudar de ideia” – agarra nossa própria atenção com mais força do que o faria se O’Connor tivesse escrito, digamos, “aproveitando todas as chances”. O verbo revela de maneira tranquila, mas sucinta, tanto a veemência da avó quanto a passividade de Bailey, “o filho com que morava, seu único menino”, duas expressões que transmitem a situação doméstica dos dois, bem como a dominância que infantiliza o filho e a ternura simultânea que a avó sente por ele. Essa palavra menino assumirá uma ressonância trágica mais tarde. “Menino Bailey!”, a velha gritará depois que seu filho for morto pelo Desajustado, que já está prestes a fazer sua aparição no jornal que a avó está “sacudindo” junto à cabeça calva de seu garoto. Nesse meio tempo, o paradoxo de um menino calvo, presumivelmente de meia-idade, leva-nos a tirar certas conclusões precisas sobre a constelação familiar.
O Desajustado está “tresmalhado” – aqui encontramos uma dessas palavras com que O’Connor transmite o ritmo e o sabor de um dialeto local, sem nos sujeitar às irritantes mudanças ortográficas, omissões dos plurais (os minino, os ômi) e à má gramática com que outros autores tentam transcrever a fala regional. As frases finais do parágrafo – “Eu não levaria meus filhos a parte alguma com um criminoso como esse tresmalhado por lá. Não ficaria em paz com a minha consciência se levasse” – sintetizam a qualidade cômica e enlouquecedora das manipulações da avó. Ela usará qualquer coisa, mesmo um encontro imaginário com um criminoso foragido, para desviar as férias da família da Flórida para o leste do Tennessee. E sua fantasia aparentemente improvável de encontrar o Desajustado pode nos levar a refletir sobre o egocentrismo e o narcisismo peculiares das pessoas que estão constantemente convencidas de que, por minúsculas que sejam as probabilidades, a bala perdida irá de algum modo encontrá-las. Ao mesmo tempo, novamente por conta da escolha de palavras, a frase final já está aludindo àquelas questões de consciência, moralidade, o espírito e a alma que se revelarão o cerne do conto de O’Connor.
Dado o tamanho do país, pensamos, não é possível que eles topem com o criminoso acerca do qual a avó os advertiu. Podemos lembrar, contudo, a observação de Tchekhov de que o revólver que vemos no palco numa cena inicial provavelmente terá sido detonado antes do fim da peça. Que vai acontecer então? Essa curta passagem já nos introduziu num mundo que é realístico, mas que ao mesmo tempo está além do alcance da lógica comum, e numa narrativa que acompanharemos, a partir desta introdução, tão inexoravelmente quanto a avó está fadada a encontrar um destino que (suspeitamos) envolverá o Desajustado. Reduzida e editada, extremamente concentrada, um modelo de compressão do qual seria difícil suprimir uma palavra, essa única passagem alcança tudo isto, ou mais, já que haverá sutilezas e complexidades adicionais óbvias apenas para cada leitor individual.
Apenas passar os olhos não basta se desejamos extrair uma fração, como a acima, do que as palavras de um escritor podem nos ensinar sobre como usar a linguagem. E ler rapidamente – voltado para a trama, para as ideias, e até para as verdades psicológicas que uma história revela – pode ser um empecilho quando as revelações cruciais estão nos espaços entre as palavras, no que foi excluído. Esse é o caso da abertura de “As filhas do falecido coronel”, de Katherine Mansfield:
A semana seguinte foi uma das mais atarefadas de suas vidas. Mesmo quando elas iam para a cama, eram apenas seus corpos que se deitavam e repousavam; suas mentes continuavam, resolvendo as coisas, reconsiderando-as, discutindo-as, duvidando, decidindo, tentando se lembrar onde…
Novamente, a história começa com uma simples frase declarativa que estabelece um sentido de competência e controle: uma história está prestes a ser contada por alguém que sabe o que está fazendo. Mas se a lermos rapidamente, podemos não notar o fato de que não sabemos a que se refere a palavra seguinte. A semana seguinte... a quê? Nossas heroínas – duas irmãs que ainda não conhecemos e que não foram nomeadas para nós (Josephine e Constantia) nem mencionadas de qualquer maneira exceto como elas – não podem fornecer as palavras necessárias, a semana seguinte ao funeral de seu pai, porque ainda não foram capazes de se convencer de que esse evento grave e aterrorizante realmente ocorreu. Elas simplesmente não conseguem pôr na cabeça que seu temido e tirânico pai, o coronel, tenha morrido e não esteja mais ditando exatamente o que deviam fazer, sentir e pensar a cada momento de cada dia.
Ao omitir a que se refere a palavra seguinte já na primeira frase, Katherine Mansfield estabelece as regras ou a falta de regras que permite ao conto adotar um ponto de vista distanciado na terceira pessoa juntamente com uma fluidez que torna possível penetrar os recessos empoeirados, peculiares das psiques das duas irmãs. A segunda e última frase desse parágrafo é toda de gerúndios – pensando, duvidando, decidindo, tentando lembrar – que descrevem pensamento e não ação, até que a frase se esgota e desaparece aos poucos numa elipse que prefigura o beco sem saída a que as tentativas das irmãs de refletir sobre as coisas finalmente chega.
Essas duas frases sóbrias já nos introduziram no reino paradoxalmente rico e claustrofóbico (tanto fora quanto dentro das irmãs) em que a história se passa. Elas nos permitem ver o mundo delas de uma perspectiva ao mesmo tempo tão objetiva e tão estreitamente identificada com essas mulheres infantis que tudo acerca de suas ações (dar risadinhas, contorcer-se em suas camas, afligir-se com o pequeno camundongo que corre pelo quarto) nos faz pensar que devem ser crianças, até que, quase na quinta página do conto, a criada, Kate, entra na sala de jantar e – em apenas duas palavras – a história nos ofusca com um áspero clarão que revela a idade das “velhas solteironas”: “E a jovem e orgulhosa Kate, a princesa encantada, entrou para ver o que as velhas solteironas queriam agora. Passou a mão em seus pratos de arremedo disto ou daquilo e pôs ruidosamente na mesa um aterrorizado manjar branco.”
(Note-se, também, a maneira engenhosa e econômica como “aterrorizado manjar branco” reflete o estado mental das “velhas solteironas” no tremor do pudim gelatinoso.)
Mansfield é um desses estilistas cuja obra podemos abrir em qualquer lugar para descobrir alguma escolha de palavra inspirada. Aqui, as irmãs ouvem um realejo lá fora na rua e, pela primeira vez, dão-se conta de que não precisam pagar o tocador para ir embora antes que a música irrite o pai. “Um perfeito repuxo de notas borbulhantes jorrou do realejo, notas redondas e luminosas, displicentemente espalhadas.” E como são precisas e inventivas as palavras com que as mulheres reagem à enfermeira do pai, que residia na casa e continuou lá depois da morte dele. As maneiras à mesa da enfermeira Andrews alarmam e enfurecem as irmãs, que de repente não têm a menor ideia de como, economicamente, devem sobreviver sem o pai.
A enfermeira Andrews era simplesmente terrível com a manteiga. Realmente não podiam deixar de sentir que com a manteiga, pelo menos, ela tirava proveito de sua generosidade. E tinha aquele hábito enlouquecedor de pedir só mais uma pontinha de pão para terminar o que restava no prato, e depois, no último bocado, distraidamente – claro que não era distraidamente –, servir-se de novo. Josephine ficava muito vermelha quando isso acontecia, e pregava seus olhinhos redondos na toalha, como se visse um minúsculo e estranho inseto rastejando através da sua trama.
Novamente, é uma questão de palavra por palavra – desta vez, de adjetivos e advérbios. Embora permaneçamos na terceira pessoa, o simplesmente terrível e o enlouquecedor são palavras das irmãs. Seria difícil não perceber a raiva e o desespero gerados por aquele “só mais uma pontinha de pão”, aquele “distraidamente – claro que não era distraidamente”. E podemos ver com absoluta nitidez o olhar de horror, concentração e repugnância reprimida no rosto de Josephine quando ela “prega seus olhinhos redondos” no “minúsculo e estranho inseto” que imagina rastejando através da trama da toalha de mesa. De passagem, trama nos informa que a toalha é de renda.
Vale a pena ler “As filhas do falecido coronel” em diferentes pontos de nossas vidas. Durante anos, supus que compreendia o conto. Acreditava que a incapacidade das irmãs de relacionar aquele seguinte com alguma coisa, de compreender a partida misteriosa do pai, tinha a ver com suas naturezas excêntricas, com sua incapacidade (ou recusa) infantil de encarar as complexidades da vida adulta. Mas calhou de eu o reler não muito tempo depois de uma morte em minha própria família, e pela primeira vez compreendi que a perplexidade das irmãs não é tão diferente do espanto e atordoamento que todos nós sentimos (por mais “adultos” ou sofisticados que nos imaginemos) em face do término chocante, da ausência, do mistério da morte.
Francise Prose, "Para ler como um escritor"
A quinhentos metros
A quinhentos metros, os vossos belos olhos desaparecem; e essa claridade do vosso rosto; e a fascinação da vossa palavra. É uma pena (eu também acho que é uma pena!), mas, a quinhentos metros, tudo se torna muito reduzido: sois uma pequena figura sem pormenores; vossas amáveis singularidades fundem-se numa sombra neutra e vulgar. Ao longe, caminhais como qualquer pessoa – e até como certas aves: é o que resta de vós: esse ritmo, na imensa estrada que também se vai projetando, estreita e indistinta, sobre o horizonte.
Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, – bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas, para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para o outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista.
É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos chamásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas, que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram?
Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, com a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos dizer que existe. É como, nos mapas, o desenho de um rio que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos.
A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… – É assim em quinhentos metros!
Cecília Meireles, "Quadrante 1"
Bem sei que tendes muitas inquietações: há um mês de maio na vossa memória, e um campo em flor, e um arroio que cantava numas pedrinhas, e depois muitas, muitas cidades grandiosas e indiferentes, e teatros acesos, ramos de flores, ceias, risos, vozes, adereços de turquesa, – bem sei, bem sei. Bem sei que tudo isso ficou a mais de quinhentos metros, e ainda de longe continuais a sofrer. Mas, para quem vos olha a uma distância de quinhentos metros, essas dimensões que levais convosco deixam de existir. As canções que aprendestes e a dor que sabeis, nada se avista daqui. Sois uma sombra muito pequenina, prestes a perder mesmo o ritmo do passo, a parecer parada como o próprio chão. Podereis ir para um lado ou para o outro: daqui a pouco nem saberemos para onde fostes: e as vossas decisões estarão fora do nosso alcance, como vós estareis fora da nossa vista.
É bem triste tudo isso, porque nós vos amamos, e gostaríamos de responder, se por acaso nos chamásseis: mas, a quinhentos metros, é bem difícil ouvirmos a vossa voz. Mandamos pelo ar nossos bons pensamentos: mas, que acontece aos pensamentos, mesmo aos melhores, desde que partem, desde que se desprendem de nós? Onde vão pousar os nossos bons pensamentos? E as pessoas a quem os dirigimos serão exatamente aquelas que os encontram?
Tenho muita pena de tudo isso: mas a pena vai ficando também menor, cada vez menor, à medida que avançais para longe: o sofrimento acompanha seu dono; nós apenas o vemos, e algumas vezes o compreendemos, sem, no entanto, o podermos tomar para nós, desfazê-lo ou dar-lhe outra direção. E ele também vai ficando pequenino, diminuindo, com a distância, para nós que não o carregamos, que apenas ouvimos dizer que existe. É como, nos mapas, o desenho de um rio que jamais encontramos: é certo que passa por ali, mas não sabemos nada de suas histórias, reflexos e ecos.
A quinhentos metros, na verdade, há muita ausência, vamos acabando muito depressa. Pensai que, geralmente, neste mundo, há sempre cerca de quinhentos metros de uma pessoa para outra! Somos só desaparecimento. E apenas quando conseguimos ficar, também, a quinhentos metros de nós mesmos, encontramos algum sossego. Porque, então, é a vez dos nossos tormentos mudarem de proporções e aspecto. De serem vistos só de longe, sem pormenores, sem voz, sem ritmo: nem mês de maio, nem flores, nem arroio. Talvez a memória serenada. Talvez nem a memória… – É assim em quinhentos metros!
Cecília Meireles, "Quadrante 1"
terça-feira, agosto 15
Abandono
o mato começava. Dois trilheiros entravam pelo
mato. Um trilheiro dava no rancho de Nhá Velina
Cuê que comia feijão com arara, quati com abóbora
e cobra com mandioca. O outro trilheiro esbarrava
no rio. Os meninos brincavam nus no rio entre
pássaros. Tinha um Bolivianinho, boliviano pé
de pano entre os guris. E um Gonçalo pé de galo
orelha de meu cavalo. Acho que o pé de pano do
boliviano era só para trovar. Assim como o pé de
galo do Gonçalo. Descobri nesse tempo que os
apelidos pregam mais quando trovam. Depois descobri
naquele lugar a palavra abandono. A palavra funcionava
dentro e fora das pessoas. Eu não sabia se era o
lugar que transmitia o abandono às pessoas ou se
eram elas que transmitiam o abandono ao lugar. Eu
conhecia a palavra só de nome. Mas não conhecia
o lugar que pegava abandono. Por antes a força da
palavra é que me dava a noção. Mas em vista do
que vi o olhar reforça a palavra. O olhar segura
a palavra na gente. O cheiro e o amor do lugar
também participam. Todos os seres daquele lugar
me pareciam perdidos na terra, bem esquecidos como
um lápis numa península. Mas Nhá Velina Cuê me
falou: este abandono me protege. Acho que esse
paradoxo reforça mais a poesia do que a verdade.
Manoel de Barros, "Memórias Inventadas – A segunda infância"
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