sexta-feira, agosto 19

Grande digressão sobre a prateleira hipotética

Ano passado precisei fazer uma cirurgia que envolvia internação que poderia ser de cinco a dez dias, conforme recuperação, blablablá. Mas levei dez livros. Se eu sabia que não leria todos? Sabia. Mas levei livros? Não só levei dez como levei o Uma vida pequena que lia na época, de 720 páginas. (Digressão: sim, operei, deu tudo certo.)

Agora me preparo para algo bem mais grave do que uma mera anestesia geral e médicos fuçando minhas entranhas. Agora me preparo para um mestrado no exterior. Em literatura. (Digressão: na verdade, em Creative Process com ênfase emCreative Writing, mas todo mundo entendeu.) Tecnicamente, as probabilidades de morrer durante um procedimento cirúrgico e durante um procedimento acadêmico são as mesmas.

Mas a fonte da minha maior ansiedade não tem tanto a ver com ter que estudar e ler — em Dublin, com coleguinhas irlandeses, no original em inglês —, James Joyce na University College Dublin, que é a alma mater do homem. (Digressão: antes que digam que estou tranquila com essa situação, deixo claro: não é minha maior ansiedade. Mas tenho muita capacidade de ansiedade.)

Minha maior ansiedade se resume a duas malas com limite de peso de trinta e dois quilos.
Italo Calvino tem um ensaio* sobre a ideia de uma prateleira hipotética, uma prateleira onde o escritor imagina estar ao escrever um livro. Um exemplo dele é justamente um livreiro que sabe vender ao dizer “Você gostou desse autor? Vai gostar desse daqui também”. O ensaio vai além dessa metáfora inicial, mas traz a discussão de quais ideias entre livros são afins de fato, quem é o “leitor ideal”, onde um livro fica numa estante e por que ali? (Digressão: beijos a todos os livreiros.)

A questão toda é que, ao organizar quais livros levar em uma viagem bastante permanente, me peguei pensando nesse ensaio. Porque não basta levar livros de teoria literária, levar Ulysses traduzido pelo maravilhoso Caetano Galindo, o guia de leitura escrito pelo maravilhoso Caetano Galindo, levar uns Machados de Assis pra abraçar ao dormir.

Acontece que eu não estava planejando me lembrar desse ensaio — portanto, precisar do livro — semana passada. Mas como resumir anos de influências literárias de coisas nada-a-ver? Desde uma palavra em alemão que gostei até uma piadinha que o Stephen King fez num conto em que nem lembro o que acontece. E se isso me acontece na Irlanda? (Digressão: beijos Leidenschaftianos a todos os fãs de piadas internas.)

Como resumir anos de estante hipotética? Esse me parece ser o problema da estante não-hipotética. Da estante real. Argumento ainda que um mestrado em literatura tem o problema de que vou precisar de literaturas. E aí imagine você encomendar um livro da Elvira Vigna lá da ilhota do outro lado do Atlântico só por uma citação.

Sim, é claro que existem e-books. E meu Kobo no momento está sob mais pressão do que eu. Mas jogue a primeira pedra quem não preferiria riscar o Calvino de lápis mesmo.

Quando fui internada, sabia que não leria meus dez livros. Eu sabia que dormiria muito, que estaria sob o efeito de drogas, que iria me ocupar com essas atividades pós-operatórias. Mas eu queria um quarto hospitalar com livros. Uma mesinha de cabeceira que não fosse só remédios.

E talvez agora eu saiba que nem vou folhear o Thesaurus que está separado, que não vou me lembrar de outro ensaio aleatório, que eu não preciso de uma versão física de um livro que tenho um PDF. Mas se estou levando fotos da minha família, minha família literária pode vir junto. Meu quarto irlandês precisa de uma estante, hipotética e não-hipotética.

* CALVINO, Ítalo. Para quem se escreve? (A prateleira hipotética). In: Assunto encerrado — Discursos sobre literatura e sociedade.

quinta-feira, agosto 18

Da biblioteca para o mundo


No te gustaba el fútbol

Jorge Luis Borges nunca se encantou pelo futebol. Nesta crônica, o jornalista Iuri Müller fala sobre aquilo que perdemos graças à aversão de Borges ao esporte bretão, simulando uma conversa ou uma carta enviada ao mestre da ficção argentina e mundial
Sei dos teus motivos, mas ainda assim não posso aceitar a tua recusa. Eu estive em Liniers e vi a iluminação noturna, uma larga cadeia de lâmpadas amarelas a se misturar com a procissão de homens e mulheres que caminhavam, de azul e branco, em direção ao José Amalfitani. Horas depois, voltariam para casa a pé (para Villa Luro, para Floresta), uma história ou uma lembrança movendo cada passo, as lâmpadas amarelas enfrentando, por sua vez, a noite já escura. Pareceu- -me, novamente, que haveria algo a se dizer sobre estas imagens, e que tu poderias dizer com mais clareza do que qualquer um de nós.

E a cidade antiga, a que tu cantavas em Cuaderno San Martín, a tão buscada Buenos Aires de ontem e que evapora um pouco mais a cada dia, essa cidade por acaso não estava todo o tempo ao teu lado, nas arquibancadas amarelas de Villa Crespo, onde centenas de judeus, todos os domingos, se aglomeravam para ver com os próprios olhos o time do bairro? Se Baruch Espinosa, teu filósofo preferido, tivesse por acaso nascido pelas redondezas, ele seria torcedor do Atlanta, nós dois sabemos, e depois de cada jogo iria ao bar do velho Linch, aquele que sabe recitar todas as escalações do clube desde algum momento impreciso dos anos 1930. 

Os temas, os teus temas, que ironia, sempre estiveram dentro de um estádio, era só ter comprado um ingresso (vinte pesos e vamos os dois na popular, se queres companhia) e deixar que os acontecimentos se aproximem, pois sempre que estamos num lugar assim algo irá nos acontecer. Não enxergas a coragem de arrabalde daquele lateral direito do Platense, o moreno que completou o jogo inteiro com um corte imenso na maçã do rosto? E a vingança matemática, arquitetada ao longo de sete meses por Domínguez, o zagueiro do Almagro que esperou o campo pelo outono para marcar para sempre, com uma cotovelada, o nariz de Acevedo, o ponteiro corredor que jogava no Temperley? Isso se deu numa tarde nublada, bem perto do rio, e creio também que o cenário teria te agradado: um bairro de ruas estreitas, casas com luz de pátio, um compadrito que fuma numa esquina pouco antes de adentrar o armazém.

Aqui estão todas as tuas obsessões: cada técnico à beira do gramado é um jogador de xadrez na biblioteca, a arquibancada visitante é o nosso labirinto, e não há melhor modo de sentir a passagem do tempo como perceber que, após dois rebaixamentos e longas temporadas no Ascenso, o Ferro Carril Oeste está de volta à Primeira e batalha para ser campeão. Que lástima que este jogo não te encanta, Borges. Ainda posso te imaginar (é um velho delírio meu) numa das tribunas do Palacio Ducó, no sul da cidade de Buenos Aires, a observar em silêncio o Huracán em campo, o clube dos teus sonhos e amores. Também sei que, de pouco em pouco, tu desviar o olhar do gramado para contemplar os rostos na arquibancada, os desenhos no céu, a cidade que se transforma lá fora, e isso tudo com os teus olhos perplexos e frágeis.

Iuri Müller

quarta-feira, agosto 17

É hora do café!

Reading:

Mil modos de ler

Cada lector se refleja en sus lecturas (ilustración de Marta Altés)
Há tantas maneiras de ler um livro! Ele pode ser lido a partir da primeira para a última linha, que é a outra leitura, ou enviesada na diagonal. Outra é começar na quarta página e perceber que é intolerável. Outra é o estilo livreiro lendo um prólogo lá, aqui uma orelha, para além de um terceiro capítulo, e assim você pode dar uma ideia sobre milhares de livros que não leram ...
Hector Yanover (1929-2003),“el más famoso librero de Buenos Aires”

A fome na madrugada

Je mange des livres, Tim Foley:

Assim começa o livro...

Perdi a conta dos dias que transcorreram desde que fugi dos horrores da fortaleza louca de Vasco Miranda, na aldeia de Benengeli, nas montanhas da Andaluzia; fugi da morte na escuridão da noite, deixando uma mensagem pregada na porta. E desde então, ao longo de meu caminho, junto com a fome e o calor, não têm faltado maços de folhas rabiscadas, e marteladas, e interjeições secas de pregos de duas polegadas. Há muito tempo, nos meus verdes anos, minha amada me disse num rompante amoroso: “Ah, meu mouro, meu negro, que homem mais estranho, tão cheio de teses, sem ter uma porta de igreja onde pregá-las”. (Ela, uma indiana confessadamente religiosa mas não cristã, fazia troça do protesto de Lutero em Wittenberg para zombar de seu amor, um indiano nem um pouco religioso, embora cristão: como as histórias se espalham, e em que bocas elas vão parar!)  felizmente,
minha mãe a ouviu; e retrucou, rápida como mordida de cobra: “Cheio de fezes, é o que você quer dizer”. Sim, mãe,também neste assunto a última palavra foi sua: como em tudo o mais.

“Amrika” e “Moskva”, alguém as chamou uma vez, Aurora minha mãe e Uma meu amor, aludindo às duas grandes superpotências; e as pessoas diziam que as duas eram parecidas, mas nunca vi a semelhança, jamais consegui vê-la. Ambas mortas, de causas não naturais, e eu num país longínquo, com a morte em meu encalço e a história delas na mão, uma história que vivo a crucificar nos portões, nas cercas, nas oliveiras, espalhando-a por esta paisagem de minha última viagem, a história que aponta para mim. Na fuga, transformei o mundo em meu mapa de pirata, cheio de pistas, cheio de xx assinalando o tesouro de mim mesmo. Quando meus perseguidores seguirem a trilha até o fim hão de encontrar-me à espera, sem queixas, ofegante, preparado. Eis-me aqui. Não poderia ter agido de outro modo.

(Para ser mais exato, eis-me aqui sentado nesta selva escura — isto é, neste monte de oliveiras, no meio de um arvoredo, observado pelas cruzes de pedra curiosamente tortas de um pequeno cemitério abandonado, a pouca distância do posto de gasolina Último Suspiro — sem a ajuda nem necessidade de nenhum Virgílio, no que deveria ser o meio do caminho da minha vida, mas que acabou sendo, por motivos complicados, o fim da linha, exausto, totalmente pregado.)

Mas sim, minhas senhoras, além de mim muitas coisas estão sendo pregadas. Por exemplo, bandeiras em mastros. Porém, após uma vida não muito longa (se bem que muito animada), constato de repente que não tenho mais teses. De crucificação, já basta a vida.

terça-feira, agosto 16

Leitura equilibrista

Equilibrios lectores (ilustración de Alessandro Lecis)
Alessandro Lecis

Bibliotecas comunitárias ou bibliotecas instaladas nas comunidades?

Hoje gostaria de compartilhar minha visão sobre a diferença entre bibliotecas comunitárias e bibliotecas instaladas nas comunidades. Também quero falar sobre a importância do trabalho de promoção da leitura realizado pelas inúmeras bibliotecas comunitárias nos diferentes cantos deste enorme Brasil.

Conforme conceito estabelecido pelo Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), integrante da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) no Ministério da Cultura (MinC), a “Biblioteca Comunitária é um espaço de incentivo à leitura e acesso ao livro. É criada e mantida pela comunidade local, sem vínculo direto com o Estado”.


A biblioteca comunitária se estabelece quando o Estado deixa de garantir a leitura e principalmente a leitura literária como um direito de todos. A biblioteca comunitária nasce pelo desejo de alguém ou de uma instituição que entende que o contato com a leitura e a escrita pode proporcionar à sua comunidade informações e conhecimentos importantes. Essa possibilidade de acesso proporciona uma reflexão mais profunda do papel do leitor como cidadão. Desta forma, o leitor pode interferir em situações ou cenários que antes pareciam distantes e impossíveis de serem mudados. O acesso por meio das palavras e das imagens contidas nos livros contribui para o empoderamento do cidadão. Por isso, garantir a qualidade deste acesso a materiais diversos e de qualidade ajudam a constituir um pensamento aberto às diferenças.

Uma outra característica das bibliotecas comunitárias é que elas são a cara da sua comunidade. Seus espaços dialogam com a cultura local, são geridas pelos moradores e recebem doações da comunidade. Muitas bibliotecas comunitárias se estabelecem nas próprias casas dos moradores e por isso, possuem horário de atendimento mais flexível com a demanda da comunidade. Mesmo no horário do almoço basta o menino ou a menina bater na porta com fome de história que sairá de lá com um livro. Estas são algumas características das bibliotecas comunitárias que garantem seus espaços apinhados de crianças todos os dias. O fechamento de uma biblioteca comunitária é sempre uma grande perda para aquela comunidade porque ela faz parte do seu dia a dia.

Recentemente o governo interino anunciou a criação de bibliotecas comunitárias no Programa Minha Casa, Minha Vida. Ter bibliotecas neste programa será muito bem-vindo. Mas precisamos fazer algumas diferenciações. Primeiro vamos deixar claro que o que o governo denomina bibliotecas comunitárias na verdade se tratam debibliotecas instaladas nas comunidades. Já mencionei algumas características de bibliotecas comunitárias e agora vou levantar alguns pontos que devem ser considerados por governos (municipais, estaduais e federais) em bibliotecas instaladas nas comunidades:

Como este é um equipamento instituído por um governo, traz as diretrizes da sua política para a área da promoção da leitura. É necessário, portanto, estabelecer um diálogo permanente com a comunidade. O governo precisa realizar um importante processo de escuta, resultando em ações que reflitam as demandas de cada sociedade.
Estas bibliotecas, precisam ter uma relação construída desde o início com a comunidade local. Sem esta relação as bibliotecas correm sério risco de ficar vazias. A comunidade precisa entender que será instalada uma biblioteca e qual a importância deste equipamento.
O projeto de implantação destas bibliotecas pode e deve vir com algum padrão, por exemplo, para mobiliário, software, acervo e processo de atendimento. Mas tudo isso precisa ter possibilidade de ser customizado pela comunidade. Se as bibliotecas implantadas nas comunidades não tiverem esta abertura, as pessoas não irão se enxergar neste espaço. Não colocarão os seus pés por lá. Pensar em bibliotecas não é pensar numa rede de loja de perfumes e nem de supermercados. Nada de padronizar demais.
Geralmente quando um projeto de implantação de bibliotecas nas comunidades é concebido, se parte do princípio que esta comunidade não é leitora e que este projeto tem conhecimento do que os cidadãos precisam ler. Chegar com um acervo completamente pronto pode afastar leitores. É importante criar o vínculo do objeto-livro como um objeto de desejo. Mas para que isso aconteça é fundamental que o governo pergunte aos moradores quais são os gêneros literários, quais sãos as histórias de ficção de que gostam, quais são suas vontades e seus medos. Para se constituir o acervo de uma biblioteca é necessário saber o desejo dos futuros frequentadores desse espaço.
É necessário pensar a relação das bibliotecas a serem implantadas nas comunidades com as bibliotecas escolares, as bibliotecas públicas municipais e centros culturais. Nenhum programa de governo que pense o desenvolvimento do leitor deve fazer ação isolada. Os diferentes equipamentos existentes na comunidade devem estar interligados e projetar ações conjuntas. Desta forma será possível criar condições de estímulos para os leitores.
É importante que o governo tenha desde o início a preocupação com a sustentabilidade desta ação de implantação de bibliotecas no programa Minha Casa, Minha Vida. Será uma ação irresponsável implantar um número determinado de bibliotecas e não garantir no seu orçamento recursos necessários para mantê-las com acervo, mobiliário, equipamentos de informática, recursos humanos – bibliotecário e promotores de leitura, entre outros. Cansamos de ver bibliotecas recém implantadas serem fechadas.
Recentemente sofremos com o que aconteceu com as Bibliotecas Parques do Rio de Janeiro. Belíssimos equipamentos implantados nas comunidades que no final do ano de 2015 reduziram seu horário de funcionamento por falta de planejamento e de investimento do Estado. Estiveram mesmo bem perto de fechar. Hoje se mantém abertas graças a um convênio estabelecido com a prefeitura municipal. Convênio este que vence no final deste ano, trazendo novamente a possibilidade de fechamento de suas portas, já que o Estado declarou processo de falência há mais ou menos dois meses.

Liberdade

Alejandra Acosta

Bem-aventurados

Somos o mundo do excerto, a civilização do caco, o universo do fragmento. 
the-flying-salmon:
“A Quiet Read, Walter Langley (1852-1922), United Kingdom
”
Walter Langley (1852-1922)
Somos a época na qual a viagem da parte ao todo está em colapso. O caco é o todo. Surge um universo de caleidoscópio com a beleza fátua definida por espelhos de ilusão. Bem-aventurados os que ainda encaram um livro completo
Leandro Karnal, "O caco como cultura"

domingo, agosto 14

O bom passeio dominical

Preparada para un fin de semana muy lector y artístico (ilustración de Kayla Harren)
 Kayla Harren

Dica

Numa livraria de segunda mão, vá até o fundo para achar velhos livros com poeira imperturbada e capas desgastadas, verdadeiros tesouros disfarçados
Rachel Hall

Soneca

Confesso

O padre disse que não era para fazer, mas não só eu fiz, como desconfiava que ele também fazia. Roubei marzipã da loja sem saber o que era, para depois descobrir que não gosto de marzipã nem levo jeito para o crime.

Não matei passarinho com estilingue – não por bondade, porque era míope feito uma porta e ruim de pontaria. A campanha dizia para não dirigir depois de beber e não lembro qual das duas coisas fiz primeiro. O suco estava vencido e eu o servi às visitas. Só respeitei o limite de velocidade perto do radar.

Fiz piada com gago e fanho e, quando não fui eu, dei a risada mais alta. O prefeito mandou economizar água e levei meia hora no banho para melhorar da ressaca. Minha filha pediu minha opinião e eu não tinha nenhuma. Comecei a gostar de Português porque a professora sorria com todos os predicados. O médico pediu para evitar queijo e comi até com banana.

Ensaiei o que dizer trinta dias e noventa noites e, quando foi preciso, fiquei mudo. As tábuas da lei mandavam não cobiçar a mulher do próximo e, sinceramente, achei exagero – só olhar, admirar, ô gente, que mal tem? Gaguejei feio na apresentação e me despediram por justa causa.

Deixei para a última hora, não contei a verdadeira história, não medi as consequências nem cedi o lugar no metrô ao idoso. Não me comovi com o malabarista no sinal, não achei Maceió essa coisa toda, não dei os 10% ao garçom (ele mereceu, ou melhor, não mereceu). Não marquei o gol feito por displicência e afundei o time.

Reconheço que umas vezes gostei de quem não podia e não devia – o verbo me é incerto, talvez tenha sobrado um pouco da tontura.

Vi o holerite do colega escondido para descobrir quanto ele ganhava e se era mais do que eu. Fiquei contando os lustres nas paredes no discurso de formatura. Peidei disfarçando no elevador e olhei indignado para o moleque ao lado, que era inocente. Uma vez fiquei na dúvida se aquilo era amizade ou coisa maior, tinha uns olhares.

Já me disse doente para escapar de prova, de encontro, de reunião. Menino, ajudei a vizinha a subir as compras com um olho nela, outro na melancia. Nunca decorei como é quinhentos em algarismos romanos, nem entendi para que serve saber isso a não ser nas palavras cruzadas. Tive vergonha da inocência de um amigo e vejo hoje que o ridículo era eu.

O síndico proibiu a gente de jogar bola e esvaziamos todos os extintores em represália. Recusei emprego por preguiça e ser par de valsa de debutante por vergonha. Chamei de canastrão o ator sem ter assistido ao filme. Criei campanha beneficente em meu único benefício. Não escondi direito o lança-perfume, a revistinha de sacanagem, essa timidez danada e acabei descoberto.

Confesso que não me confesso desde que os pecados eram inocentes.

De tudo sinto orgulho e durmo feito um bebê.

Cássio Zanatta

sábado, agosto 13

A primeira vez, para não esquecer

"Das ist Augendienst", G. Bartisch, 1583, registra pela primeira vez o uso de óculos na leitura

Aves urbanas

Foto da autora
Caminhava pela praia, quando meu acompanhante chamou atenção para a novidade: os postes de iluminação da areia estão se transformando em moradia dos joão-de-barro. Nas várias divisórias de concreto, lembrando andares de um edifício, cada casal de pássaros instalou seu ninho, sabe-se lá com que sacrifício, pois foi preciso levar a terra dos jardins até lá em cima, para só então construir, com patas e bicos, aquelas casas quase bolas, antes comuns nos galhos das árvores.

Como nós, as aves que nos cercam se adaptam às transformações da cidade de forma compulsória. Estranhamos o gigantismo dos prédios atuais, elas estranham a falta de árvores, e buscamos sossego e segurança como podemos, para viver da melhor maneira possível.

Há alguns anos, notei que passarinhos de pequeno porte utilizavam o oco dos canos que sustentam os semáforos para se abrigar. Desde a janela do ônibus, admirava sua precisão: vinham voando a toda velocidade e entravam sem titubear naqueles túneis redondos e escuros que só eles conhecem. Não sei como, faziam a volta lá dentro, e ganhavam os ares novamente, repetindo o trajeto várias vezes, sem falhas.

Outra adaptação já se tornou atração turística por aqui. Junto às bancas do Mercado de Peixe, dezenas de garças, de todos os tamanhos, disputam sobras de pescado que negociantes e fregueses lhes oferecem. Estão tão acostumadas à presença humana, que pousam na calçada, sobre os carros, nos telhados. A qualquer hora, pode-se vê-las por lá, à espera do alimento.

Nem todas, porém, já deixaram de pescar. Há várias na beira do mar, esforçando-se para conseguir a refeição do dia. Quando a maré baixa, é possível acompanhar sua técnica, dentro e fora dos canais. Fazem sombra com o próprio corpo para atrair peixes e mantêm fixo o olhar na água, prontas para apanhar o primeiro que aparecer. Depois, com o prêmio prateado no bico, voam para lugar mais seguro onde nenhum concorrente possa disputar a presa.

A praia também é frequentada por urubus, que apreciam todo tipo de carniça que as ondas trazem para a areia. Também eles se adaptaram à paisagem árida da cidade e pousam nas parabólicas, para descansar ou observar o entorno. Os mais pesados chegam a quebrar as antenas que têm hastes, mais antigas e frágeis. Mas todos já estão peritos em se equilibrar sobre as circulares, pousando e decolando sem dificuldade.

De dentro do apartamento, tenho o privilégio de observar alguns desses seres alados de perto. Andorinhas apostam corrida entre os prédios, ágeis como pilotos de fórmula 1, e me deixam acompanhar a elegância de suas manobras. Sanhaços vêm, pela manhã e à tarde, alimentar-se de frutas que a vizinha coloca na janela, e me encantam com suas cores e pios suaves. E eu mesma recebo a visita diária de bem-te-vis, porque gostam das bolachas de água e sal que espalho junto ao vitrô. Sei quando chegam, porque batem os pedaços da guloseima no peitoril para torná-los menores, mais fáceis de deglutir. Mas, quando muito famintos, mal esperam para se aproximar, assim que abro os vidros. Alguns já perderam o medo e não fogem, ao me notar na área de serviço. E um deles me deu grande susto, ao piar alto quando passou por mim…

Apesar de tudo, ainda convivemos na selva de concreto. E sobrevivemos.