domingo, maio 10

O amor mascarado

Pedro levou meia hora a vestir-se e a equipar-se para sair de casa. Ajustou ao rosto a sofisticada máscara que um amigo lhe trouxera de Singapura, com a garantia de o proteger de qualquer tipo de vírus, além da poluição (poderia continuar a usá-la, explicou-lhe o amigo, quando o vírus desaparecesse e a bendita poluição retornasse). Colocou o capuz e os óculos escuros. Finalmente, calçou as luvas. Estudou a sua figura no amplo espelho do corredor. Parecia um viajante vindo de um futuro apocalíptico, pensou, e no mesmo instante lhe ocorreu que esse futuro já chegara.

As ruas de Lisboa, agora desertas, limpas e desafogadas, pareciam mais largas. A cidade inteira resplandecia, lavada e escovada, sob um doce sol de primavera. À porta da padaria encontrou uma fila de umas dez pessoas, a rigorosos dois metros de distância umas das outras, todas equipadas com máscaras e luvas. À frente dele postava-se uma mulher elegante. Pedro costumava vê-la ali. A máscara dela fora confecionada a partir de um tecido florido. Era como se tivesse o rosto afundado num ramalhete de flores. Cumprimentaram-se com um aceno alegre. Nunca haviam trocado mais do que duas palavras de circunstância. Porém, Pedro simpatizava com a mulher e ela parecia retribuir tal sentimento. Naquela manhã isso ficou evidente quando, saindo da padaria, ao cruzar-se com o homem, a desconhecida lhe passou para as mãos um papelinho rabiscado à pressa. Era um número de telefone. Mal chegou a casa, Pedro ligou para o número:

– Olá! Sou o tipo da fila da padaria. Chamo-me…
– Não preciso de saber o teu nome…

– E o teu, posso saber?

– Não. Tu também não precisas de saber o meu. Podes chamar-me, eu sei lá, Alfonsina. Tu vais ser Mário…


Pedro teve uma sensação de reconhecimento, como quando um perfume súbito a pastéis de massa tenra, a terra molhada, a goiabas maduras nos faz regressar aos lugares da nossa infância. Aquela voz acordava nele sentimentos atordoados e contraditórios.

– Posso saber o que fazes, quero dizer, profissionalmente? – perguntou, tropeçando nas palavras.

A mulher riu-se:

– Não. Prefiro inventar. O jogo é esse. A partir de agora só vale a ficção.

Disse-lhe que era cantora. Costumava cantar numa casa de fados. Cantou para ele. Cantava bem. Pedro, ou Mário, contou que era arquiteto. Tinha um atelier em Berlim. Fazia muitos projetos para países do Médio Oriente. Quando se despediram, três horas mais tarde, já se desconheciam muitíssimo bem. As conversas continuaram nos dias seguintes. Pedro foi-se tornando mais Mário a cada conversa. Nos intervalos sentia a falta de Alfonsina. Sozinho em casa, irritava-se com a presença de Pedro, que passava quase todo o tempo ocupado com as suas traduções. Sim, Pedro era tradutor. Sempre trabalhara em casa. O confinamento pouco alterara uma rotina invariável, acordar, lavar os dentes, comer um iogurte e uma fruta, e sentar-se depois a traduzir até à uma da tarde. Almoçava sempre na mesma tasca, na esquina, fazia uma sesta breve e voltava ao trabalho por volta das duas e meia.

Pela primeira vez em muitos anos, custava-lhe sentar-se para trabalhar. A cada frase se distraía. Deixava de ser Pedro, o tradutor, para ser Mário, o arquiteto. Deu por si a desenhar projetos de grandes edifícios de apartamentos enquanto pensava em Alfonsina. Ela não lhe dissera em que casa de fados costumava cantar. Procurou no Google, mas não encontrou uma única referência a uma fadista chamada Alfonsina. Lembrou-se então de que Alfonsina não era real, e isso doeu-lhe, como o fim de um grande amor. Logo a seguir, porém, ela ligou, e cantou para ele, e contou-lhe episódios divertidos da sua vida nas noites alfacinhas, e voltou a ser mais verdadeira do que qualquer mulher que ele alguma vez conhecera.

Pedro só costumava ir à padaria duas vezes por semana. Dois pães grandes davam-lhe para a semana toda. Depois que se começou a transformar em Mário, passou a ir todas as manhãs, na secreta esperança de encontrar Alfonsina. Como ela não aparecia à hora habitual, tentou outras. Chegava a ir à padaria três vezes no mesmo dia. O pão multiplicava-se. Guardou o excedente no congelador. Quando o congelador ficou cheio, passou a armazená-lo em caixas de sapatos, na despensa, na cozinha e até debaixo da cama.

– Preciso ver-te – implorou Mário, numa noite em que haviam conversado mais tempo do que o habitual, e ele terminara a última garrafa de bom vinho que guardava em casa. – Só quero ver o teu rosto.

Surpreendentemente, Alfonsina concordou. Prometeu que faria uma selfie, ao acordar, com a luz generosa do amanhecer, e que a enviaria para ele. Mário dormiu mal. Sonhou com uma mulher cujo rosto mudava ao longo do dia: de manhã era jovem e resplandecente; contudo, ia perdendo o brilho e a frescura à medida que o sol percorria o céu e depois declinava, até se transformar, finalmente, num ser opaco e murcho. Acordou por volta das sete da manhã, com o tilintar do telefone. Alfonsina cumprira a promessa: ali estava ela, desmascarada, posando diante de um vaso branco com orquídeas.

Pedro deixou cair o telefone. Sentou-se no soalho, encostado à parede, com o coração aos saltos: era Helena, a namorada de quem fugira, quinze anos antes, após vinte meses de uma relação tumultuosa. Vira-a pela última vez no casamento de uma irmã dela. A mulher quebrara-lhe uma jarra com orquídeas contra a cabeça, e ele tivera de ser levado para o hospital, coberto de sangue e de vergonha. Estava então no terceiro ano de arquitetura. Abandonara a faculdade, trocara de telefone e de cidade e recomeçara a vida como tradutor.

Olhou de novo o telefone. Era Helena, sem dúvida. E sorria.
José Eduardo Agualusa

sábado, maio 9

Oxigene o cérebro


O livro bem escrito

Que ridículo e mesmo estúpido dizer-se de um livro que está bem escrito. Não é "bem escrito" que está. Está é sentido originalmente, original nas observações, inteligente na reflexão. É por isso que não se pode imitar. Pode-se é ser original de outra maneira. Há realmente livros que são apenas "bem escritos". São os livros banais, com palavras trabalhadas ao torno, frases que se pretendem "despojadas", reduzidas ao "essencial", e cruas. Mas como o que nelas está não representa um sentir originário, nem uma observação imprevista, nem uma reflexão que nos surpreenda pela justeza e profundidade, o que delas resulta é uma construção pretensiosa, estéril e quase sempre irritante. Decerto um romance (como a poesia segundo Mallarmé e como creio já ter dito), faz-se com palavras. Pois com que é que havia de fazer-se? Mas antes disso faz-se com o impulso animador a essas palavras e que assim não passa bem por elas mas por entre elas, fazendo delas apenas um apoio para passar além, como o som passa pelas cordas mas existe por entre elas e é nesse som o indizível que nos emociona. O que nos fica de um livro "em escrito" é essa emoção que já não lembra as palavras e vive por si.

Eis porque tal livro é inimitável e apenas poderá repetir-se, ou seja plagiar-se. Imitar verdadeiramente esse livro é recompor uma emoção afim e inventar outras palavras que traduzam esse sentir, ou seja que lhe sirvam de pretexto ou estratagema para que esse sentir (e pensar/sentir) se realize como a música nas cordas de um instrumento. O escritor medíocre imagina que todo o seu trabalho deve incindir no trabalhar uma frase. Ora não é a frase que tem de se trabalhar: é aquilo que há-de passar por ela. Os autores célebres que trabalharam a frase, na realidade trabalharam apenas aquilo que haviam de exprimir; testaram na frase a realização de uma expressão. O escritor medíocre dá como já adquirido o que haveria a dizer e todo o seu esforço é secar o período, burilar ou envernizar o vocábulo. E no fim de contas, este é que "escreve bem". Mas quem assim escreve bem, escreve bastante mal. Não digo rasamente que o "conteúdo" preceda a sua "expressão". Mas o que preexiste à expressão não é um puro nada. Exprimir é operar e concretizar esse algo. Mas esse algo existe. Escrever bem, como se diz, é realizar pela escrita um "bem" que aí se revela mas que está antes e depois disso em que se revela. Escreve-se bem com o espírito e a sensibilidade - não com um dicionário. Embora seja no dicionário que está toda a obra-prima. Como na pedra está toda a melhor escultura.
Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente 4"

Bibliotecas vivas

 Sonia Pais

Notas do anoitecer da crise

Edição extra. Sem notícia e sem esperanças. O céu está castanho.

Estou chegando da rua, onde me disseram que tudo iria parar à meia-noite.

– Mas, São Paulo, também? –... perguntei, com algumas esperanças. Não me responderam. Um dia, ficará provado, que São Paulo pode parar, sim.

1 – Não sei se a situação nacional é tão grave, como dizem. Sei que a minha é gravíssima. O dinheiro acabou. Restava-me uma caderneta de cheques, que fui desfolhando, sem muito cuidado, nos botequins das cercanias. Claro, os cheques se acabaram. Terei crédito, para levantar dinheiro, na voz? Isto é que se irá saber.

2 – Cada pessoa devia fazer o seu dinheiro. Quem tivesse mais jeito para desenho, levaria vantagem. Nada mais justo. Poderia fazer uma nota de 5 mil cruzeiros, muito parecida com as que estão circulando por aí, valendo tanto quanto. Que tempo gastaria eu para desenhar uma nota de 5 mil cruzeiros? Caprichando, umas nove ou dez horas. Então, após trabalhar nove ou dez horas, qualquer homem tem direito a 5 mil cruzeiros.

Em meu caso, não me conteria e acabaria desenhando Vinicius de Morais, no lugar de Tiradentes. Seria preso, como falsificador.


3 – As notícias começam a rarear. E, quando rareiam as notícias, começam os boatos. Disseram-me, por exemplo... cala-te boca. O melhor é deixar de lado a crise e ir escrevendo algumas lembranças. Acho que já esgotei as minhas. Em todo caso... Uma vez, eu era tão pequeno, que as empregadas deixavam que eu tomasse banho no rio, com elas. Deixavam só, não: me convidavam. Naquele tempo, não havia roupas de banho. Então, minha mãe soube e perguntou se a iniciativa partira de mim ou das empregadas. Se era eu que tinha querido ou se foram elas. As empregadas disseram que o convite fora meu. Então, me fizeram aprender depressa o Padre-Nosso e a Ave-Maria, para rezar dez de cada, até o demônio sair de mim. E fui proibido de tomar banho no rio, mesmo sozinho. Nunca entendi por quê.

Só hoje descobri porque as empregadas disseram que fui eu que inventei o banho. Se elas confessassem, que me convidaram, seriam condenadas ao opróbrio nacional.

4 – Na usina, havia um lugar mal-assombrado: "A volta da jaqueira." Quem passasse por ali, de noite, veria sempre uma alma penada.

Uma noite, eu e Tião resolvemos fazer um susto aos outros primos, que tinham saído a cavalo. Tião embrulhou-se num lençol e, quando os cavalos vinham chegando, atravessou-se na estrada. Ninguém teve medo. Ao contrário, cada um, com o seu chicote, bateu na alma, até não poder. O coitado do Tião gritava, mas, ninguém lhe ouvia os gritos. Saiu com o corpo todo lanhado.

5 – Quase todas as minhas lembranças são olfativas. Ou, em quase todas, há um cheiro qualquer, que se perenizou, em mim. Eu me lembro, por exemplo, do cheiro do rio Serinhaen. A usina derramava calda em suas águas e o rio tinha um cheiro azedo, insuportável. As piabas e os jundiaís (peixes) morriam em massa, com os olhos saltados e ficavam boiando, de barriga para cima. Antes de morrer, nadavam tontos, zanzando, na beira do rio, e nós os pegávamos com a mão.

Também, inesquecível o cheiro do leite ao pé da vaca. Não era o cheiro do estábulo. Do leite. O leite quente, ao sair da teta da vaca tinha um cheiro forte e bom, que hoje me recorda como nós éramos felizes, em nossa vidinha de menino de engenho. Nosso relógio era o trem. Quando ia, de manhã cedinho. Quando voltava, pelas sete da noite. Numa viagem e noutra, era hora de comer.

6 – Outro cheiro inesquecível, o do requeijão, que se fazia na cozinha. Não sei quantas latas de leite, para fazer uma travessa de requeijão. Mas, que delícia! Vinha molinho para a mesa, cheio de lagoas de manteiga. Ao mesmo tempo, na cozinha, se fazia um tacho de doce de goiaba. A casa toda cheirava a doce de goiaba durante três, quatro dias. E a gente, por qualquer motivo, comia doce com requeijão.

Lembro que o doce em calda, se caísse num dente mais avariado, era uma dor de tinir. Então, a gente escolhia o lado que mastigava. Arrumava o doce na boca, que era para não dar dor de dente.

7 – Naquele tempo só havia duas soluções, para casos de dor de dente – arrancar ou botar um remedinho, chamado Cêra do Dr. Lustosa. Ainda haverá a Cêra do Dr. Lustosa? Creio que não, porque se houvesse o rádio anunciaria. Quando não era dente de leite, o pai levava ao dentista, para "chumbar". Isto é, obturar, com chumbo. Doíííaaaaa! Mesmo depois de chumbado, o dente doía, a vida inteira.

Então, a vida inteira, em cada vez que o menino fosse comer qualquer espécie de doce, tinha que preparar a boca. Arrumar a comida do lado em que não houvesse dente chumbado.

Cocada, nem fala. Só em ouvir a palavra, quem tivesse dente furado, ou chumbado, sentia uma pontada violenta e tinha que bochechar água quente.


Hoje, minhas depressões, minhas angústias (não são muitas) eu atribuo, todas elas, às dores de dente da minha infância.

Passar, passar de todo, ainda não passaram.

8 – Meu pai era tenente-coronel da Guarda Nacional, e, disso, a família muito se orgulhava. Mas, eu tinha medo de guerra e perguntava à mamãe.

– Havendo guerra, papai tem que ir, não tem?

– É dos primeiros... – respondia ela.

– E se ele se ferir em combate?

– Ah, botam iodo.

Naquele tempo só tinha um remédio, para qualquer ferimento: iodo. Ardia. Como ardia! Mas, também, dois dias depois a pessoa estava boazinha.

Em Pernambuco havia, porém (e ainda há), um remédio, que servia para tudo. Inclusive, para beber, em certos casos, como por exemplo: se a gestante tomava um susto ou levava uma queda. Chamava-se e ainda se chama: Elixir Sanativo. A fórmula pertencia à família Guimarães que (ouvimos dizer) recebia propostas vantajosas para vendê-la até para a Europa. O gosto e o cheiro eram deliciosos (meio travoso, o gosto). E oferecia uma grande vantagem sobre o iodo: ardia menos.

Ainda hoje, quem voltar ao Recife, há de encontrar no armarinho do banheiro de qualquer família, um vidrinho de Elixir Sanativo. Em ferimentos leves, é superior a qualquer antibiótico.


9 – Houve muitos mortos, em nossa família. Os velórios eram dramáticos. O difícil era desgrudar a viúva, que queria sempre ir com o morto, abraçada a ele. E gritava, sem parar:

– Eu quero ir! Eu quero ir!

E o padre, que tinha vindo para a "encomendação do corpo", dizia três ou quatro palavras santas, como:

– Ele vai para junto de Deus, minha filha.

Depois:

– Ele ficará à sua espera, no céu.

Ao fim de tudo, uma pessoa da família, mulher, ajeitava o cabelo da viúva. Era um gesto, do mesmo tempo, de zelo e carinho, guardado até hoje, em minha lembrança. Um cuidado comovente e inútil.

10 – No Recife, até muito pouco tempo, vendiam-se cigarros em "porções". Por exemplo, as crianças e os pobres compravam sempre um tostão de cigarros. Duzentos réis, no máximo. Gente já de algum dinheiro comprava meio maço. Só rico é que comprava o maço inteiro

No tempo em que comecei a fumar, havia cigarros de trezentos réis (os mais baratos), de quinhentos, de oitocentos, de 1.100, 1.500 e de 2 mil réis, os caros Colúmbia, que só tendo muito dinheiro, podia-se fumar. Os meus eram os de oitocentos réis. Regência, ovais, de fumo forte.

Pois bem, em 1940, quando cheguei ao Rio, passei no Ponto Elegante (por ali, onde, hoje, é o Top Club) e pedi:

– O senhor quer me dar um tostão de Regência?

– Só vendemos o maço inteiro... – respondeu-me o homem. E quase morri, de tanta vergonha. Mas, estava inocente. Não sabia que uma pessoa das minhas posses fosse obrigada a comprar um maço inteiro. Havia dois banhistas perto, um rapaz e uma moça, saíram rindo de mim, imitando meu sotaque e minha candura:

– O senhor quer me dar um tostão de Regência?

11 – E aqui vão estas lembranças, de quem se despurificou, com o tempo. De quem teve de aprender todas as coisas depressa, para ser lembrado e lembrar a vida, é preciso. São elas escritas num anoitecer de segunda-feira, quando nenhuma notícia é alegre. Vive-se um apreensivo começo de noite. Quanto a mim, estou por tudo. Ah, por que os homens não sabem viver em paz, uns com os outros? Bastaria que cada um fizesse direito sua parte. Eu sempre procurei fazer direito a minha parte... ou, ao menos, fazer tudo o que me pagam para fazer. E ainda faço uma porção de coisas de graça, para ajudar... ajudar... ajudar...

Que poderia escrever um cronista, em dia assim? Todas as ordens foram traídas. Todas as promessas foram desfeitas. Já começo a sentir algum desgosto de ser brasileiro... e ter que continuar sendo, por todos os séculos, por todos os remorsos, por todas as insônias, pela minha pobreza, pelo meu amor. Haverá outro dia esperança? Quando?

Então, leitor, contente-se, por hoje, com estas notas escritas, sob um céu castanho. Feitas de uma melancólica preguiça de ser. Sim. De ser. Partilhe comigo desse perdoável desgosto pelas coisas paradas, pelos homens parados, por um deus parado. Há um desânimo geral, que nem a poesia salvará. A poesia, apenas, nos ensinaria a morrer. Assim seja.
Antônio Maria, "O jornal de Antônio Maria"

sexta-feira, maio 8

O espírito que forma

Nunca admiro uma catedral sem me lembrar de que são feitos da mesma pedra os degraus mais humildes do burgo. As palavras são como as pedras; o espírito é que as lavra
Afonso Lopes Vieira

A noite na biblioteca


Em português soa muito melhor

Monotemático, o tempo presente acabrunha-nos o espírito e deposita-nos inquietações sobre a epiderme, como pó em móveis quietos. Temos os corpos em casa, mas os pensamentos lá fora, no futuro. Pouco nos resta para além de habitarmos também o sonho, esse que em português alguém que assinava António Gedeão tão certeiramente escreveu que comanda a vida.


Mas, de súbito, eis que começamos a sair e a deixar de ver o futuro apenas através dos vidros – o sonho e o amanhã ganham corpo. E, ontem (5 de maio), ao assinalar-se o agora consagrado pela Unesco Dia Mundial da Língua Portuguesa, dei por mim a pensar no quão mais animador é o futuro do Portugal de hoje, na sua relação consigo próprio e com a sua língua, face àquele que entre a bruma mal se descortinava, quando eu era criança, nos anos 80 e 90. Parolice crónica e estreiteza de espírito, provavelmente motivadas por décadas de repressão e de estímulo ao comedimento dos costumes, dos desejos e das ambições, são cada vez mais lembranças antigas, mas foi ainda num Portugal tímido e pessimista que cedo ganhei, oferecida pela música, a noção de que a nossa língua era um território de privilégio. No final dos anos 80, eu garatujava as primeiras palavras ao som dos hinos da Sétima Legião, que me proporcionaram os primeiros arrepios por motivação artística, e preparava-me para um longo amor com os GNR e as líricas de Rui Reininho, exemplos pungentes das potencialidades do escrever em português. Logo após o dobrar da década, conspirei com o meu colega e amigo Rui Duarte (ao contrário de mim, um talento enorme para a música) a criação de uma banda, que começou por chamar-se Sagasipê e, mais tarde, de modo muito apropriado, Desastres Naturais. Andávamos na escola primária e gravámos uma cassete. Os outros membros eram também grandes amigos, o Edgar e o Pedro. Ainda sei – não digo ainda sei cantar, note-se – muitas das letras. Diziam-nos que o português não era orelhudo, por isso escrevemos uma em inglês e eu também a recordo ainda. Não soava mal (também não soava bem), pelo que rapidamente tomámos uma decisão. Mas já lá irei. Quero sublinhar que foi a música – ela tem esse poder – que primeiro chamou a minha atenção para as faculdades não meramente utilitárias ou funcionais da língua materna. Logo depois, vieram as composições, os poemas, a banda desenhada que ainda guardo, os livros e livrinhos começados e nunca terminados – em suma, os primeiros namoricos com uma língua que, em vez de traiçoeira, como diziam, se me apresentava já fecunda e bela.

Mais tarde, tive a felicidade de o poder confirmar e de perceber o que, a vários níveis, fazem com ela e a partir dela autores tão diferentes como Mário de Carvalho, Miguel Esteves Cardoso ou José Tolentino Mendonça, só para citar alguns nomes que gostaria que nunca parassem de escrever. Ou o que tão recentemente nos deram Agustina Bessa-Luís, José Saramago ou Herberto Helder. Uns e outros fizeram de namoricos uma paixão duradoura. E muitos mais poderia referir na literatura (cada um que elenque os seus), mas regressemos às canções e pensemos no que fez José Afonso e no que ainda nos dá Sérgio Godinho; atentemos na forma como escrevem autores surgidos na última década, como Jorge Cruz, Samuel Úria ou Márcia. E em poucas linhas poderíamos ir ainda – porque, viva e pluriforme, a língua também é deles – aos demais países de língua portuguesa, mas fiquemo-nos por esse colosso produtor de deslumbres, que é o Brasil, e que nos deu, e sem sair da música, Vinicius, Caetano ou Chico Buarque, entre tantos outros talvez não tão famosos.

A língua portuguesa agrega nove países e mais de 260 milhões de falantes. Para além do valor literário, cultural, identitário e comunicacional, que no fundo é aquele de que venho falando, tem arreigado a si um grande valor económico, estimado em 17% do PIB (dados de 2012). Apesar de datar de 1214 um dos primeiros documentos em português, o testamento de D. Afonso II, e de em meados do século XVII ainda ser necessário a Coroa obrigar médicos e farmacêuticos a receitarem e a aviarem os medicamentos em português, nos últimos 500 anos (dados de 2015), a língua portuguesa enquanto língua materna foi aquela que mais cresceu. Hoje, é a mais falada no hemisfério sul, a quinta mais usada na internet (à frente do japonês, do russo, do francês e do alemão, e só suplantada pelo árabe, pelo espanhol, pelo chinês e pela língua líder, o inglês) e também a quinta mais falada no mundo (adiante, por exemplo, do russo, do japonês ou do alemão). Múltipla e variada, a língua portuguesa galopa: estima-se que, em 2050, terá 387 milhões de falantes e, em 2100, cerca de 487 milhões.

Muitos desses quase 500 milhões já nasceram, são hoje crianças, e a maioria ainda está por nascer. E é bom saber que, nesse futuro onde habita o sonho, muitos mais miúdos, como aquele que eu era há trinta anos, vão poder ouvir e ler, melódica em vez de pouco orelhuda, polissémica em vez de traiçoeira, a minha – a nossa – riquíssima língua portuguesa. Tenho a esperança de que, tal como naquele dia os miúdos daquela banda com uma secção arrítmica formada por tachos e panelas concluíram que em inglês não soava mal mas que em português soava muito melhor, também eles principiem uma história de amor com ela e possam ser capazes de admirar e fruir a maravilha que, hoje, felizmente, eu sei que ela é.

quinta-feira, maio 7

O guardião


A terra

Passei a página distraído, depois deixei de lado o jornal para ler outro, mas de toda aquela variedade de notícias de guerra, desastres, crimes e entrevistas com elementos destacados das classes conservadoras, o que me ficou na memória foi esse título de uma notícia que não me animei a ler: "aos 95 anos quer trabalhar na agricultura".

Berthe Morisot 
Não sei se esse velho é um antigo lavrador ou é alguém que, antes de morrer, resolveu mudar de ofício. O que talvez me prendeu a atenção, ou me soltou a imaginação, nesse título foi essa saudade da terra que vive no fundo de todo cidadão. Saudade que pode não vir da vida da gente mesmo, que pode vir de mais longe, do homem antigo que pisava o chão com o pé descalço. Saudade que leva o caixa de banco, filho do amanuense do ministério, nascido e criado e vivido no asfalto, a fazer economias miúdas para comprar um sítio a prestações - um sítio cujo anúncio no jornal de domingo soube cativar seu urbano coração. Não importa que ele chegue à conclusão de que o lindo terreno, em uma região saudável e encantadora, a 20 minutos do Rio, fica, na realidade, a 40 de Cascadura, e é um triste e quente brejo entre dois morros. De qualquer modo, os mosquitos, os carrapatos, as decepções e as formigas o esperam. Mas o caixa, heroicamente, lutará para fazer sua casinha e sonhará, na quarta-feira, com a penosa viagem suburbana do sábado como se já tivesse uma passagem reservada para a Pasárgada.

Há urbanos que se arriscam a aventuras maiores, e sonham em trocar para sempre o escritório por uma fazendinha "que por enquanto está comendo dinheiro, mas pode dar uma boa renda" e lê com um olho lírico a revista que traz um artigo que explica perfeitamente o quão rendosa pode ser a cultura intensiva da alfafa ou a criação racional de galinholas.

Assim sonham os homens da cidade - e não despertam nem quando seus passos distraídos são ameaçados por um caminhão cheio de homens da roça que estão chegando ao asfalto, atraídos pelo chamamento irresistível de suas luzes.

Passarada em leitura


Loira de vestido grená

Não sei por que (embora talvez saiba muito bem) me lembrei hoje de uma conversa que ouvi quando menino. Eram todos homens velhos e, cada um a seu modo, concordavam num ponto: a Morte, quando viesse, seria uma loira belíssima de vestido grená.

***

O amor é a tolice que mais nos gabamos de cometer.

***

Quem encontrar uma tristeza toda desengonçada, toda estragadinha, faça o favor de ligar: é minha.

***

Provérbio que ladra não morde.

***

Quem viver viverá.

***

Não precisarmos dizer nada é uma bênção quase sempre tardia.

***

Deve ter ido para o céu. Poeta, morreu jovem, sem tempo de ser possuído pela lúbrica tentação dos sonetos.

***

No final, se algo se mover em nós, que nos conduza ainda no rumo da beleza.

***

Os truques de um defunto, como ficar sem se mover e sem respirar, geralmente são mais apreciados pelos espectadores jovens. Os adultos logo se enfastiam.

***

Há quem considere injusto o destaque dado num velório justamente àquele personagem que nada faz além de se omitir.

***

Bilac, quando conversava com as estrelas, tratava-as de vós. Quintana, de vocês.

***

Para um poeta concretista, manter os pés no chão não é uma vergonha; é uma questão de honra.

***

Se você é poeta e não se chama Arthur Rimbaud, nem recebe dele poemas psicografados, eu só lhe digo isto: continue trabalhando, mesmo que você esteja fazendo isso há já cinquenta anos.

***

Se a literatura for a razão de sua vida, não tenha vergonha de dizer. Se tiver, mude suas prioridades.

***

Mario Quintana era um poeta simples, um poeta completo, um poeta poeta.

***

Muitos dos que dizem que escrever é uma bênção deveriam antes saber a opinião dos leitores.
Raul Drewnick

quarta-feira, maio 6

Começa o dia


A aventura de um míope

Amilcare Carruga era ainda jovem, não desprovido de recursos, sem ambições materiais ou espirituais exageradas: nada o impedia, portanto, de gozar a vida. E, no entanto, reparou que de uns tempos para cá essa vida para ele andava, imperceptivelmente, perdendo o gosto. Coisas à-toa, como, por exemplo, olhar as mulheres na rua; antigamente costumava lançar os olhos em cima delas, ávido; agora até procurava instintivamente olhar para elas, mas logo tinha a impressão de que passavam correndo como um vento, sem lhe dar nenhuma sensação, e então baixava as pálpebras indiferente.

Antigamente as cidades novas o exaltavam — viajava com frequência, pois trabalhava no comércio —, agora só percebia nelas o aborrecimento, a confusão, a desorientação. À noite, antes, costumava — vivendo sozinho — ir sempre ao cinema: divertia-se nisso, com qualquer coisa que levassem; quem vai todas as noites é como se estivesse vendo um único grande filme em série: conhece todos os atores, até os figurantes e os extras, e já esse reconhecer a cada vez é divertido. Pois bem: até no cinema, afora, todas essas caras lhe pareciam ter se tornado desbotadas, sem relevo, anônimas; entediava-se. Por fim, entendeu. Ele estava míope. O oculista lhe receitou um par de óculos. A partir daquele momento sua vida mudou, tornou-se cem vezes mais rica em interesse do que antes.


Cada vez que punha os óculos no nariz era uma emoção. Encontrava-se, digamos, num ponto de bonde, e era tomado pela tristeza de que tudo, pessoas e objetos ao redor, fosse tão genérico, banal, desgastado em ser do jeito que era, e ele ali se debatendo em um mundo de formas frouxas e cores esmaecidas. Punha os óculos para ler o número de um bonde que chegava, e então tudo mudava; as coisas mais corriqueiras, até um sarrafo de andaime, desenhavam-se com tantos detalhes mínimos, com linhas tão nítidas, e os rostos, os rostos desconhecidos, cada um deles se cobria de sinaizinhos, pontinhos de barba, espinhas, matizes de expressão antes insuspeitos; e as roupas, discernia-se de que pano eram feitas, adivinhava-se o tecido, observava-se o puído das costuras. Olhar se tornava um divertimento, um espetáculo; não o olhar uma coisa ou outra: olhar. E assim Amilcare Carruga se esquecia de verificar o número do bonde, perdia um depois do outro, ou então subia num bonde errado. Via tal quantidade de coisas que era como se não visse mais nada. Teve que se acostumar pouco a pouco, aprender desde o começo o que era inútil olhar e o que era necessário.

E então as mulheres com quem cruzava pela rua e que uma vez se tinham reduzido para ele a impalpáveis sombras fora de foco, agora o poder vê-las com o exato jogo de côncavos e convexos que o corpo delas faz, se mexendo dentro da roupa, e avaliar o frescor da pele, e o calor contido no olhar, não mais lhe parecia apenas vê-las, mas já até possuí-las. Estava às vezes andando sem óculos (não os colocava sempre, para não se cansar inutilmente, mas só se precisava olhar para longe), e pronto: mais adiante na calçada despontava uma roupa de cor viva. Com um gesto já automático Amilcare imediatamente retirava os óculos do bolso e os metia no nariz. Esta indiscriminada cupidez de sensações frequentemente era punida: às vezes era uma velha. Amilcare Carruga se tornou mais cauteloso. E, às vezes, uma mulher que estava avançando lhe parecia, pelas cores, pelo porte, demasiadamente modesta, insignificante, para não se levar em consideração; não punha os óculos; mas depois, se ocorria de se roçarem, notava que pelo contrário havia nela alguma coisa que o atraía fortemente, sabe-se lá o que, e tinha a impressão de captar naquele instante um olhar dela como que de expectativa, talvez o olhar que ela já em seu primeiro aparecimento lhe enviara e ele não se dera conta; mas agora era tarde, ela desaparecera no cruzamento, subira no ónibus, estava longe depois do sinal, e ele não saberia mais reconhecê-la. Assim, devido à necessidade dos óculos, ia lentamente aprendendo a viver.

Mas o mundo mais novo que os óculos abriam para ele era o da noite. A cidade noturna, já envolta em nuvens informes de escuridão e de clarões coloridos, agora revelava divisões nítidas, relevos, perspectivas; as luzes tinham contornos precisos, os escritos em néon antes imersos num halo indistinto agora escandiam letra por letra. O bonito da noite, porém, era aquela margem de indeterminação que as lentes afugentavam à luz do dia, e que permanecia: Amilcare Carruga sentia o desejo de pôr os óculos e depois reparava que já estava com eles; a sensação de plenitude nunca emparelhava com o impulso da insatisfação; a obscuridade era o depósito de húmus sem fundo onde ele nunca se cansava de cavar. De sobre as ruas, acima das casas manchadas de janelas amarelas finalmente quadradas, erguia os olhos para o céu estrelado: e descobria que as estrelas não estavam esmigalhadas no fundo do céu como ovos quebrados, mas eram espetadelas agudíssimas de luz que abriam em torno de si lonjuras infinitas.

Essas novas preocupações quanto à realidade do mundo externo não se separavam das preocupações quanto ao que era ele mesmo, ainda devidas ao uso dos óculos. Amilcare Carruga não dava muita importância a si mesmo, porém, como às vezes acontece exatamente com as pessoas mais modestas, era extremamente afeiçoado à sua maneira de ser. Ora, a passagem da categoria dos homens sem óculos à dos homens de óculos pode não parecer nada, mas é um salto muito grande. Pense que, quando alguém que não o conhece tenta definir você, a primeira coisa que diz é: "um de óculos"; assim aquele acessório particular, que quinze dias atrás lhe era completamente estranho, torna-se seu primeiro atributo, identifica-se com sua própria essência. Para Amilcare, talvez até tolamente, tornar-se assim de repente "um de óculos" chateava um pouco. Mas não é tanto por isso: é que basta que comece a se insinuar em você a dúvida de que tudo o que lhe diz respeito é puramente acidental, passível de transformação, e que você poderia ser completamente diferente e isso não teria importância nenhuma, e eis que por esse caminho se chega a pensar que existir ou deixar de existir seria tudo a mesma coisa, e daí o passo que leva ao desespero é curto. Então Amilcare, tendo que escolher um tipo de armação, instintivamente optou por uma daquelas mais finas, minimizadoras, nada além de um par de delgadas hastes prateadas que seguram por cima as lentes nuas e com um cavalete as unem por cima do septo nasal. Assim continuou por um tempo; depois se deu conta de que não estava feliz: se inadvertidamente lhe acontecia se ver ao espelho com os óculos, experimentava uma viva antipatia pela sua cara, como se fosse a cara típica de uma categoria de pessoas estranhas a ele. Eram exatamente aqueles óculos tão discretos, leves, quase femininos que o faziam parecer mais do que nunca "um de óculos", um que nunca tivesse feito outra coisa na vida a não ser usar óculos, tanto que agora nem repara mais que está com eles. Passavam, aqueles óculos, a fazer parte de sua fisionomia, amalgamavam-se com seus contornos, e assim ficava atenuado qualquer contraste natural entre aquilo que era a sua cara — uma cara qualquer, mas sempre uma cara — e aquilo que era um objeto estranho, um produto da indústria.

Não gostava deles, e então não demoraram a cair e se quebrar. Comprou outro par. Dessa vez orientou sua escolha no sentido contrário: ficou com uma armação de plástico preto, uma moldura de dois dedos de largura, uns espigões com dobradiças que se destacavam dos zigomas como antolhos de cavalo, umas hastes pesadas de dobrar as orelhas. Era uma espécie de meia-máscara que lhe escondia metade da cara, mas ali debaixo ele se sentia ele mesmo: não havia dúvida de que ele era uma coisa e os óculos outra, completamente separada; era claro que só ocasionalmente ele usava os óculos e que, sem óculos, era um homem completamente diferente. Voltou — tanto quanto sua natureza consentia nisso — feliz.

Aconteceu-Ihe naquela época se deslocar, para certos negócios, até V. Era V. a cidade natal de Amilcare Carruga, e lá ele passara toda a juventude. Já a deixara, porém, havia dez anos, e seus retornos a V. sempre foram passageiros e esporádicos, e agora vários anos tinham passado sem que ele lá pusesse os pés. Já se sabe como é quando alguém se separa de um ambiente onde viveu por muito tempo: quando se volta a longos intervalos se estranha o lugar, parece que aquelas calçadas, aqueles amigos, aquelas conversas de café ou são tudo ou não podem mais ser nada, ou se acompanha tudo isso dia a dia ou não se consegue mais entrar, e a idéia de dar sinal de vida depois de muito tempo dá como que um remorso, e é afastada. Assim, pouco a pouco Amilcare não mais procurara as oportunidades de voltar a V., pois se houvera oportunidades ele as deixara passar, e por fim até as evitara. Mas nos últimos tempos, nessa atitude negativa para com sua cidade natal, entrava, além do estado de espírito definido agora mesmo, também aquela sensação de desamor geral que tomara conta dele, e que depois ele identificara com o progredir da miopia. Tanto é verdade que então, encontrando-se graças aos óculos em novas condições de ânimo, assim que surgiu uma oportunidade de ele ir até V., aceitou-a prontamente.

V. lhe apareceu de um ponto de vista totalmente diverso de quando lá estivera pela última vez. Mas não pelas transformações: claro, a cidade estava muito mudada, construções novas por todo lado, lojas e cafés e cinemas muito diferentes de antes, os jovens, todos desconhecidos, e um trânsito duas vezes pior do que amigamente. Mas toda essa novidade só fazia acentuar e tornar mais reconhecível o velho, em suma Amilcare Carruga pela primeira vez conseguia rever a cidade com os olhos de quando era rapaz, como se a tivesse deixado no dia anterior. Com os óculos via uma infinidade de detalhes insignificantes, por exemplo, certa janela, certo balaústre, ou seja, tinha a consciência de vê-los, de escolhê-los no meio de todo o resto, enquanto antigamente os via e pronto. Para não falar dos rostos: um jornaleiro, um advogado, alguns envelhecidos, outros tal e qual. Parentes mesmo de verdade em V. Amilcare Carruga não tinha mais; e o grupo de amigos mais próximos também este se dispersara havia muito tempo; mas tinha conhecidos que não acabavam mais, e não poderia ser de outro modo numa cidadezinha tão pequena — como fora até a época em que ele morava lá —, onde se pode dizer que todos se conheciam, pelo menos de vista. Agora a população estava muito aumentada, houvera lá também — como em toda parte nos centros privilegiados do Norte — certa imigração de meridionais, a maioria das caras que Amilcare encontrava eram de desconhecidos: mas justamente por isso tinha a satisfação de distinguir na primeira olhadela os velhos habitantes, e lhe vinham à mente episódios, relações, apelidos.

V. era uma dessas cidades de província onde persistia o costume do passeio à noite pela rua principal, e quanto a isso nada havia mudado dos tempos de Amilcare até hoje. Das duas calçadas, como sempre acontece nesses casos, uma estava lotada com um fluxo ininterrupto de pessoas, a outra menos. No tempo deles, Amilcare e seus amigos, por uma espécie de anticonformismo, passeavam sempre pela calçada menos freqüentada, e de lá lançavam olhadelas e saudações e piadas às moças que passavam na outra. Ele agora estava se sentindo como então, até com uma excitação maior, e começou a andar pela sua velha calçada olhando toda a gente que passava. Encontrar pessoas conhecidas desta vez não lhe trazia constrangimento mas divertimento, e se apressava em saudá-las. Com alguns bem que gostaria de parar para trocar duas palavras, mas a rua principal de V. era feita de um modo, com as calçadas tão estreitas, densas de gente que empurrava para a frente, e além do mais com a circulação de veículos tão aumentada, que não se podia mais como antigamente caminhar também um pouco pelo meio da rua e atravessar onde se quisesse. Em suma, o passeio se desenrolava ou depressa demais ou devagar demais, sem liberdade de movimentos, Amilcare precisava seguir a corrente ou subi-la ao contrário com dificuldade, e quando entrevia uma cara conhecida mal tinha tempo de lhe lançar um aceno de cumprimento antes que desaparecesse, e nem sequer conseguia entender se fora visto ou não.

Então esbarrou com Corrado Strazza, seu companheiro de escola e de bilhar por muitos anos. Amilcare sorriu para ele e fez também um amplo aceno com a mão. Corrado Strazza vinha em frente com o olhar em cima dele, mas era como um olhar que o atravessasse de lado a lado sem parar, e continuou seu caminho. Seria possível que não o tivesse reconhecido? Havia passado algum tempo, mas Amilcare Carruga sabia bem que não mudara muito; até então se mantivera ao abrigo tanto da obesidade como da calvície, e sua fisionomia não sofrera grandes alterações. Lá vem o professor Cavanna. Amilcare lhe fez uma saudação respeitosa, com uma pequena inclinação. O professor primeiramente acenou para responder, instintivamente, depois parou e olhou em torno de si, como que procurando alguma outra pessoa. O professor Cavanna!, que era famoso como fisionomista porque de todos os seus numerosos alunos recordava caras e nomes e sobrenomes e até as notas trimestrais! Finalmente Ciccio Corba, o treinador do time de futebol, respondeu à saudação de Amilcare. Porém, logo depois piscou os olhos e começou a assobiar, como se dando conta de ter interceptado por engano a saudação de um desconhecido, destinada sabe-se lá a quem.

Amilcare compreendeu que ninguém o reconhecera. Os óculos que lhe tornavam visível o resto do mundo, aqueles óculos com a enorme armação preta, tornavam-no invisível. Quem alguma vez pensaria que por trás daquela espécie de máscara estava exatamente Amilcare Carruga, havia tanto tempo longe de V., que ninguém esperava encontrar de um momento para outro? Mal tinha chegado a formular mentalmente estas conclusões quando apareceu Isa Maria Bietti, Estava com uma amiga, passeavam olhando as vitrines, Amilcare parou bem na frente delas, estava para dizer: "Isa Maria!", mas lhe faltou a voz na garganta, Isa Maria Bietti deu-lhe uma cotovelada, disse à amiga: "Mas é assim que eles fazem agora...", e foi em frente.

Nem Isa Maria Bietti o reconhecera. Entendeu de repente que era só por Isa Maria Bietti que voltara, que só por Isa Maria Bietti quisera se afastar de V. e passara tantos anos longe, que tudo, tudo em sua vida e tudo no mundo era somente por Isa Maria Bietti, e agora finalmente ele a revia, seus olhares se encontravam de novo, e Isa Maria Bietti não o reconhecia. Sua emoção havia sido tanta que não reparara se ela estava mudada, gorda, envelhecida, se tinha o fascínio de antigamente, menos ou mais, não vira nada senão que aquela era Isa Maria Bietti e que Isa Maria Bietti não o vira.

Havia chegado ao fim do trecho de rua freqüentado para o passeio. Ali as pessoas, na esquina da sorveteria ou um quarteirão mais adiante, na banca, viravam e percorriam de volta a calçada no sentido contrário. Também Amilcare Carruga virou. Tinha tirado os óculos. Agora o mundo era novamente aquela nuvem insípida e ele se debatia, se debatia com os olhos fixos e não puxava nada para a tona. Não que não conseguisse reconhecer ninguém: nos pontos mais bem iluminados estava sempre a um passo de identificar algumas caras, mas uma margem de dúvida de que não fosse quem pensava sempre permanecia, e depois, afinal, que fosse ou que não fosse não lhe importava tanto. Alguém fez um aceno, uma saudação, podia acontecer que o estivesse cumprimentando, mas Amilcare não entendeu bem quem era. Também outros dois, passando, o cumprimentaram; fez menção de responder, mas não tinha ideia de quem fossem. Um, da outra calçada, lhe lançou um: "Olá, Carrù!”. Pela voz, podia ser um certo Stelvi. Com satisfação Amilcare notou que o reconheciam, que se lembravam dele. Uma satisfação relativa porque ele nem sequer os via, ou então não conseguia reconhecê-los, eram pessoas que se confundiam em sua memória umas com as outras, pessoas que no fundo lhe eram bastante indiferentes. "Boa noite!", dizia de vez em quando, ao reparar num aceno, num movimento de cabeça. Está aí, aquele que o cumprimentara agora devia ser ou Bellintusi, ou Carretti, ou Strazza. Se era Strazza gostaria até de parar um pouco para falar com ele. Mas agora tinha respondido à sua saudação com tanta pressa, e pensando bem era natural que suas relações fossem apenas assim, de convencionais e apressadas saudações.

Seu girar de olhos em torno, porém, era claro que tinha um objetivo: descobrir Isa Maria Bietti. Estava com um casaco vermelho, por isso podia ser vista de longe. Por um tempo Amilcare seguiu um casaco vermelho, mas quando conseguiu ultrapassá-lo viu que não era ela, e enquanto isso dois casacos vermelhos passaram no sentido contrário. Naquele ano estava na moda casaco vermelho de meia-estação. Primeiro, com um casaco igual, por exemplo, tinha visto Gigina, aquela da tabacaria. Uma de casaco vermelho agora o cumprimentou, e Amilcare respondeu bem frio, porque era certamente Gigina, aquela da tabacaria. Depois lhe veio a dúvida de que não se tratava de Gigina, aquela da tabacaria, mas justamente de Isa Maria Bietti! Mas como era possível confundir Isa Maria com Gigina? Amilcare voltou sobre seus passos para verificar. Encontrou Gigina, essa era ela, não havia dúvida; mas, se estava vindo por aqui agora, não podia ser ela que dera a volta toda; ou então dera uma volta mais curta? Não estava entendendo mais nada. Se Isa Maria o cumprimentara e ele lhe respondera bem frio, toda aquela viagem, toda aquela espera, todos aqueles anos passados tinham sido inúteis. Amilcare ia para a frente e para trás por aquelas calçadas, um pouco pondo os óculos e um pouco tirando-os, um pouco saudando a todos e um pouco recebendo saudações de nebulosos e anônimos fantasmas.

Depois da outra ponta do passeio, a rua se prolongava e depressa se estava fora da cidade. Havia uma fileira de árvores, um fosso, para lá uma sebe, e os campos. No tempo dele, à noite, chegava-se lá de braço dado com a namorada, quem tinha uma namorada, ou então quando se estava sozinho se ia lá para estar mais sozinho, para se sentar num banco e ouvir os grilos cantarem. Amilcare Carruga continuou por aquele lado; agora a cidade se estendia um pouco mais além, mas nem tanto. Lá estavam o banco, o fosso, os grilos, como antes. Amilcare Carruga se sentou. De toda a paisagem a noite só deixava de pé grandes faixas de sombra. Os óculos, pô-los ou tirá-los ali dava exatamente no mesmo. Amilcare Carruga compreendia que talvez aquela exaltação dos óculos novos tivesse sido a última de sua vida, e agora havia acabado.
Italo Calvino

1001 utilidades


O poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

*

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos

Alexandre O'Neill, "Abandono Viciado"

Descansar é bom

 Markus Gmür

Os precursores

A primeira notícia sensacional que aconteceu - depois da criação - foi sem dúvida a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Teria sido uma primeira página inesquecível : ADÃO E EVA EXPULSOS DO PARAÍSO ( a oito colunas). "Ganharás o pão com o suor do teu rosto", disse Deus. - "Um anjo com a espada de fogo cumpriu ontem a sentença e monta guarda no Éden. - Uma maçã, causa da tragédia."

Há quantos anos ocorreu essa notícia ? Tão difícil é responder a essa pergunta como predizer quando chegará o momento de escrever a última grande reportagem sensacional: a do Juízo Final, que será uma espécie de balanço definitivo da humanidade. Mas antes que chegue essa hora, quem sabe quantas modificações sofrerá o jornalismo, essa incomodativa atividade que começou quando um vizinho contou a outro o que fez um terceiro na noite anterior, e que tem uma curiosa variante nas nossas aldeias , onde um homem que lê os jornais todos os dias comenta por escrito a notícia, num artigo com inequívoco tom editorial ou no ligeiro e insignificante estilo de uma crônica, segundo a sua importância , e o lê nessa tarde na farmácia, onde a opinião pública se considera no dever de sentir-se orientada. 

Esse comentador do fato quotidiano, que pelo menos se pode encontrar em quarenta por cento das nossas aldeias, é o jornalista sem jornal, um homem que exerce a sua profissão contra a dura e inalterável circunstância de não ter sequer uma prensa de mão para expressar as suas ideias e as expressa na via pública, com tão evidentes resultados que talvez essa seja uma demonstração incontroversa de que o jornalismo é uma necessidade biológica do homem , que por isso mesmo está em condições de sobreviver inclusivamente aos próprios jornais. Haverá sempre um homem que leia um artigo à esquina de uma farmácia, e sempre - porque é essa a graça - há de haver um grupo de cidadãos disposto a escutá-lo, mesmo que seja para sentir o democrático prazer de não estar de acordo.

Gabriel García Márquez 10 de Agosto de 1954, El Espectador 

terça-feira, maio 5

Café da manhã


O tempo na ponta dos dedos

Há mais de cem anos, Eça de Queiroz defina assim a “crónica”:

"A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o lêem […] A crónica é como estes rapazes que não têm morada sua e que vivem no quarto de seus amigos, que entram com um cheiro de primavera, alegres, folgazões, dançando, que nos abraçam, que nos empurram, que nos falam de tudo, que se apropriam do nosso papel, do nosso colarinho, da nossa navalha da barba, que nos maçam, que nos fatigam mesmo e, quando se vão embora, nos deixam cheios de saudades". (“A crónica “, Distrito de Évora, nº1, 6 Jan 1867.)

Soube deste texto há muito pouco tempo, por intermédio da Carla Rodrigues Cardoso, Diretora da Licenciatura em Comunicação e Jornalismo na Universidade Lusófona, e desde o primeiro momento senti uma empatia muto grande com esta “definição”. Escrevo crónicas há mais de quinze anos e nunca soube porque o fazia. Por vezes havia uma mensagem política que quera transmitir, outras, simplesmente, apetecia-me… era um exercício com o seu quê de egoico, sim. Muitas vezes parece que escrevo para mim, para melhor vivenciar o meu quotidiano.

Já uma vez fizera um diário de viagem, publicado diariamente, mas nunca tinha embarcado numa aventura de escrever diariamente, com base num tema. A Visão aceitou a minha proposta e foram cinco semanas, até ao final do Estado de Emergência. Hoje é a última crónica desta série "2020, com vírus".

Tive a necessidade de fazer estes textos para me obrigar a pensar as grandes alterações mentais que esta nova forma de vida nos ia transmitir. Foi atenção, foi crítica, foi análise muito pessoal do que vi acontecer. Tornei-me espectador ainda mais atento e participativo.

Hoje, com o confinamento a começar a ser levantado, passadas cinco semanas, ao olhar para trás, tantas voltas se deram… tantas questões, tantos medos, tantas decisões difíceis, tanta alteração de hábitos. Foi um tempo único no que foi de prova.

Para mim, foi uma terapia da máxima importância, uma forma de entrar a fundo em questões que mexem comigo, que alteraram a minha forma de viver e de ver o mundo. Para os leitores, espero que tenham sido isso, inserts nas temáticas que se tornaram complexas, mas que também tenham correspondido a momentos de alguma fruição, de verdadeiro prazer e não apenas de inquietação. Para ser produtiva, a inquietação não pode apenas “inquietar”, tem de se transformar em prazer para ser verdadeiramente operativa.

Aliás, essa é a marca mais consciente que imprimo nas minhas crónicas: juntar, ao incómodo de querer fazer pensar, uma dose de ironia, de leveza e de estética.

Só assim me suporto e só assim acho que me suportam.

Obrigado!

Paulo Mendes Pinto