domingo, julho 23

Selfie de leitores

 


A vela ao diabo

E se as unhas roessem os meninos?
— Estória imemorada —

Esse problema era possível. Teresinho inquietou-se, trás orelha saltando-lhe pulga irritante. Via espaçarem-se, e menos meigas, as cartas da nôiva, Zidica, ameninhamente ficada em São Luís. As mulheres, sóis de enganos... Teresinho clamou, queixou-se — já as coisas rabiscavam-se. Ele queria a profusão. Desamor, enfado, inconstância, de tudo culpava a ela, que não estava mais em seu conhecer. Tremefez-se de perdê-la.

Embora, em lógico rigor, motivo para tanto não houvesse ou houvesse, andara da incerteza à ânsia, num dolorir-se, voluntário da insônia. Até bebeu; só não sendo a situaçãozinha solúvel no álcool. Amava-a com toda a fraqueza de seu coração. Saiu-se para providência.

A de que se lembrou: novena, heroica. Devia, cada manhã, em igreja, acender vela e de joelhos ardê-la, a algum, o mesmo, santo — que não podia saber nem ver qual, para o bom efeito. O método moveria Deus, ao som de sua paixão, por mirificácia — dedo no botão, mão na manivela — segurando-lhe com Zidica o futuro.

Sem pejo ou vacilar, começou, rezando errado o padre-nosso, porém afirmadamente, pio, tiriteso. Entrava nessa fé, como o grande arcanjo Miguel revoa três vezes na Bíblia. Havia-de.

Ia conseguindo, e reanimava-se; nada pula mais que a esperança. Difícil — pueris humanos somos — era não olhar nem conhecer o seu Santo. Na hora, sim, pensava em Zidica; vezes, outrossim, pensasse um risquinho em Dlena.

No terceiro dia, retombou, entretanto, coração em farpa de seta, odiando janelas e paredes. São Luís não lhe mandara carta. Quem sabe, cismou, vela e ajoelhar-se, só, não dessem — razoável sendo também uma demão, ajudar com o agir, aliar recursos? Deus é curvo e lento. E ocorreu-lhe Dlena.

Tão recente e inteligente, de olhos de gata, amiga, toda convidatividade, a moça esvoaçadora. Ela mesma, lindo modo, de início picara-lhe em Z a dúvida, mas pondo-se para conselhos — disso Teresinho quase se recordava. Realegrou-se, em imo, coração de fibra longa. Veio vê-la.

Dlena o acolheu, com tacto fino de aranha em jejum. Seu sorriso era um prólogo. E a estória pegou psicologia.

Teresinho — todos gostariam de narrar sua vida a um anjo — seus embaraços mentais. Dlena ouviu-o. Instruiu-o. — “Mulheres? Desprezo...” — muxoxo; ela isso dizia tão enxuto. Ela e cujo encanto.

Ele, dócil à sua graça, em plástico estado de suspenso, como um bicho inclina o ouvido. Apaziguavam-no seus olhos-paisagem. Sim, o que devia, e ora: não censuras e mágoas perturbadas, nenhum afligir-se, de gato sob pata, mas aguentar tempo, pagar na moeda! Descarregado das más suspeitas, já cienciado: dos poros da pele às cavidades do coração. Foi saindo do doendo.

Prosseguia na novena — ao infalir de Deus, por Santo incógnito; seguido, porém, o de Dlena, de cor — o que recordava, fonográfico. A Zidica, enviou curta carta, sem parte emotiva, traída a brasa do amor, entrouxada em muita palha. Voltava a Dlena, tanto quanto e tanto, caminhando sutilmente. Reenchia-se a lua, por aqueles dias.

Mostrou-lhe as de Zidica, após e pois. Simplórias simples cartinhas, reles ternas. Dlena, aliás, nelas leve notava as gentis faltas de gramática. Tinha ela olhos que nem seriam mesmo verdes, caso houvesse nome para outra igual e mais bela cor. Seu parecer provava-se sagaz tática, não há como Deus, d’ora-em-ora. Seu picadinho de conversa, razões para depois-de-amanhã.

Sentados os dois, ombro com ombro, a fim de arredondados suspiros ou vontade de suspirar. Ternura sem tentativa — fraternura. Teresinho se embriagando miudinho, feliz feito caranguejo na umidade, aos eflúvios dessa emoção. Seu coração e cabeça pensavam coisas diversas.

Valia divertir-se, furtar o tempo ao tormento — apud Dlena. Foram, a abrandar o caso, a festa e cinema. Num muito mais; prorrogavam-se. Teresinho, repartido, fino modo, que mais um escorpião em pica em sua consciência. Zidica bordando o enxoval... Zidica, a doçura insípida da boa água, produtora de esperanças... Tão quieto, São Luís, tão certo... Seu coração batia como uma doença, ele tinha medo.

Não iam desnamorar-se! A vida, vem se encaminhava. A novena completara-se, a derradeira vela, ele genuflexo. Fez o que pôde com aquele pensamento.
Ou começava a interrogar-se, desestruturando-se sua defesa. Frescura, quase felicidade; e espinhos perseverantes. Ideia tonta pousou nele. Tornou à igreja, espiou enfim o Santo, data vênia. Mal e nada no escuro viu, santo muda muito de figura.

Veio a Dlena — a seu suavizamento — com o coração na mão, algemada; caiu-lhe a alma aos pés dela. Apalpou os bolsos, contradesfeito. De Zidica, a última carta, esquecera-se de trazê-la. Ocorreu-lhe espirrar. Do nada, nada obteve.

Tudo, quanto há, é saudade, alternando-se com novidades: diagrama matemático, em calor de laboratório. O diabo não é inteiro nem invento. Teresinho desconjurava-se, imaginava-se chorando morno, por fechado desespero. Zidica — desconversas escrevera, volúvel, vaga?

Correu ele a Dlena, ao súbito último ato, açorado, asas nos sapatos. De fato. O Santo não lhe valera.

Dlena, ei-la — jeitinho, sorrisinho, dolo — estampada no vestido, amarelo com malhas castanho-vermelhas. Foi ela quem abriu o envelope; o iá-iá-iá de rir — riu de modo desusado. Mas franziu-se, então que então.

Ela era: seus olhos sem cinzas, rancordiosa. A carta rasgou, desfaçava-se. — “Viva, esta!” — voz de festa; o que maldisse. Soou, e fez-se silepse.
Teresinho recuou, de surpresa, susto, queimados os dedos. Seu coração se empacotou. Decidiu-se, de vez, de ombros, não preso. Ali algo se apagava. Dlena, ente. Nada disse, e disse mal. Só o que doeu: sorriso do amarelo mais belo. Teresinho arredou olhos.

Saiu-se — e tardara — de lá, dela, de vê-la. Voou para Zidica, a São Luís, em mês se casaram.

Foram infelizes e felizes, misturadamente.
Guimarães Rosa, "Tutameia"

sábado, julho 22

Fiat lux

 


A noiva jovem

Os degraus a subir são trinta e seis, trinta e seis degraus de pedra, que o velho sobe devagar, com circunspecção, como se recolhesse um a um para conduzi-los ao primeiro andar: ele pastor, eles animais mansos. Modesto é o seu nome. Serve naquela casa há cinquenta e nove anos, portanto é o sacerdote dali.

Ao chegar ao último degrau, detém-se diante do largo corredor que se alonga sem surpresas ante seu olhar: à direita os quartos fechados dos Senhores, cinco; à esquerda sete janelas, escurecidas por folhas cegas de madeira laqueada.

Está quase amanhecendo.

Detém-se, o velho, porque precisa atualizar a contagem. Registra as manhãs que anunciou naquela casa, sempre do mesmo modo. Então acrescenta uma unidade que se perde para além dos milhares. A conta é vertiginosa, mas isso não o perturba: o fato de celebrardesde sempre o mesmo rito matutino lhe parece coerente com seu ofício, respeitoso às suas inclinações e típico do seu destino.

Depois de passar a palma das mãos no tecido engomado da calça — nos flancos, à altura das coxas —, avança a cabeça um pouquinho e recomeça a caminhar. Ignora as portas dos Senhores, mas, diante da primeira janela, à esquerda, detém-se para abrir as folhas cegas. Faz isso com gestos suaves e calculados. Repete os movimentos em cada janela, sete vezes. Só então se volta, para contemplar a luz da alvorada que entra em feixes, pelas vidraças: conhece todas as possíveis nuances e, pelo aspecto, sabe como será o dia: pode deduzir daí, às vezes, esbatidas promessas. Já que confiarão nele — todos —, é importante a opinião que vai formular. Sol encoberto, brisa leve, decide. Assim será. Então percorre de volta o corredor, dessa vez dedicando-se à parede ignorada antes. Abre as portas dos Senhores, uma a uma, e anuncia em voz alta que já é dia, com uma frase que repete cinco vezes, sem modificar nem o timbre nem a inflexão.

Bom dia. Sol encoberto, brisa leve.

Depois desaparece.

Deixa de existir até reaparecer, inalterado, na sala dos desjejuns.

Alessandro Baricco

Os mais célebres 'Era uma vez'


Quando o Coelho Branco aparece diante do Rei Vermelho para dar seu depoimento no País das Maravilhas, diz que não sabe por onde começar. “Comece do começo”, lhe diz o Rei, “e continue até chegar ao final. Então pare”. Mas o que é esse começo? São João, pensando sem dúvida que dessa forma esclarecia o complexo dogma cristão, escreveu que no começo era o verbo. Séculos mais tarde, na primeira parte de Fausto, o desiludido médico procura nessa primeira palavra o entendimento que sente que lhe falta. Lutero teria traduzido esse verbo (logos) como wort, “palavra”, perdendo assim os outros sentidos implícitos no vocábulo grego, e Fausto se propõe a lê-los como “sinn”, “kraft” e “tat” – “intelecto”, “força” e “ação” –. Para Fausto, todas essas coisas estão no começo do livro sagrado.

As palavras iniciais de todo texto devem fazer pressentir as páginas seguintes. Pausada ou bruscamente, resumindo o argumento ou distraindo o leitor para que ele não adivinhe o desenlace, indicando o tom da narração que virá ou dando falsos indícios, se desculpando ou se vangloriando da aptidão do autor, as primeiras palavras são o gesto de reconhecimento e desafio lançados do ponto final de um livro ao leitor que inicia o percurso. Por motivos geralmente misteriosos, algumas dessas aberturas se tornam tão célebres que se transformam em lugares-comuns, enquanto outras são relegadas ao esquecimento como paixões fugazes.

Todo leitor reconhece o aterrador início de A Metamorfose, de Kafka: “Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto”. Ninguém pode se esquecer do inapelável começo de O Contrato Social, de Rousseau: “O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado”. Por que lembramos do musical início de As Ruínas Circulares, de Borges (“Ninguém o viu desembarcar na unânime noite”), e não com igual facilidade “Gostávamos tanto da casa porque, além de ser espaçosa e antiga”, de A Casa Tomada de Cortázar? Talvez pelo poder do inaudito adjetivo “unânime”, bem mais memorável do que os banais, ainda que exatos, epítetos “espaçosa e antiga”. Isso sugere que talvez nos deixamos seduzir mais prontamente pelo tom dos começos do que por seus significados. “Fala-me, Musa, do varão de grande engenho” com que começa a Odisseia e “Canta, Deusa, a cólera de Aquiles” da Ilíada dependem, para que lembremos deles, e a menos que saibamos grego antigo, da tradução que escolhemos para lê-las.

Sem levar em consideração as páginas preliminares que Cervantes escreveu para seu Dom Quixote, mesmo os que não leram o romance sabem de cor as primeiras hoje célebres palavras do primeiro capítulo. Apesar, entretanto, dos inumeráveis comentários que apareceram desde a publicação do livro em 1605 (e ainda antes, quando circulavam cópias manuscritas do livro, como provam as respostas que dá Lope a Cervantes em El Peregrino en su Patria, publicado no ano anterior), não sabemos nada de como Dom Quixote foi composto. Não conservamos um manuscrito feito por Cervantes, não sabemos quais foram seus primeiros esboços, suas dúvidas, quais outras palavras iniciais foram imaginadas e descartadas, qual foi sua inspiração inicial.

O imprescindível Francisco Rico, comentando em 1996 uma edição crítica do Dom Quixote de Rodríguez Marín, observou que a longa nota sobre aquele “lugar da Mancha de cujo nome não quero me lembrar” demonstrava a influência de “um minguado romancezinho que nem o autor nem ninguém poderia ter em conta” e não dizia nada sobre a palavra lugar, que o leitor, segundo Rico, “interpreta indefectivelmente e equivocadamente como ‘local’, ‘paragem’ e não como povoadinho”. Rico acrescenta que a emoção que podem despertar no leitor as famosas palavras de Cervantes muitas vezes precisa dispensar todo o arcabouço crítico. As primeiras palavras de uma obra prima podem prescindir de facilitadores.

Goethe dizia que, antes de escrever um livro, era preciso tê-lo “todo na cabeça” porque “um livro não começa necessariamente pela primeira frase”. Provavelmente isso é verdade, mas há algo inefável nas palavras iniciais que para um leitor é o “Abre-te, Sésamo”, de um texto. “Arma virumque cano”, “Nel mezzo del cammin di nostra vita”, “Call me Ishmael”, “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira”, “Longtemps je me suis couché de bonne heure”, se transformaram, ao longo de nossas leituras, em uma espécie de catálogo abreviado da literatura universal canônica.

Alguns dos começos mais célebres da literatura mundial:

Odisseia. Homero. Século VIII antes de Cristo. "Fala-me, Musa, do varão de grande engenho…".

Ilíada. Homero. Século VIII antes de Cristo. "Canta, Deusa, a cólera de Aquiles…".

A Divina Comédia. Dante Alighieri. 1321. "Na metade do caminho da vida, me encontrava em uma selva escura porque perdi o verdadeiro caminho…".

Dom Quixote de la Mancha. Miguel de Cervantes. 1615. "Em um lugar da Mancha, de cujo nome não quero me lembrar, não faz muito tempo vivia um fidalgo dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim magro e galgo corredor".

O Contrato Social. Jean-Jacques Rousseau. 1762. "O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado".

Memórias póstumas de Brás Cubas. Machado de Assis. 1881. "Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte".

Anna Karenina. León Tolstói. 1877. "Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira".

A Metamorfose. Franz Kafka. 1915. "Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto".

Em Busca do Tempo Perdido. Marcel Proust. 1913-1927. "Durante muito tempo fui me deitar cedo".

Lolita. Vladimir Nabokov. 1955. "Lolita, luz da minha vida, fogo das minhas entranhas".

Cem Anos de Solidão. Gabriel García Márquez. 1967. "Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo".

Lolita. Vladímir Nabokov. 1955. "Lolita, luz de minha vida, fogo de minhas entranhas".

sexta-feira, julho 21

Fonte de magia

 


I had a dream!

Eu tive um sonho, e acordei hoje mais profético do que Martin Luther King. O pastor sonhava com um dia em que os negros teriam direitos iguais aos brancos. Eu sou mais modesto: sonho com o dia em que toda cidade brasileira terá uma Biblioteca Pública. Estarei com febre, com alucinações? Que nada. Não sonho com biblioteca de filme americano: edifícios imponentes, leões de pedra ladeando as escadarias, enorme pé-direito em mármore, centenas de mesinhas dispostas em grade. Penso em bibliotecazinhas modestas como muitas que já vi. No centro da cidade, de frente para a praça onde há também o cinema e a igreja, tem aquela casinha amarela, espremida entre uma barbearia e uma lanchonete. Você entra, e lá dentro tem quatro ou cinco mesas de formatos e tamanhos diferentes (que claramente foram doadas por particulares), um birô com uma bibliotecária atenta e um fichário do lado, e ao longo da parede umas estantezinhas com livros.

Biblioteca Pública Municipal de Várzea Alegre (CE)

Não são obras raras, obras caras. São aquelas velhas coleções encadernadas que se encontram nas salas de tantas famílias brasileiras, compradas a prestação numa época remota em que livros eram vendidos de porta em porta. É aquele Monteiro Lobato verde-escuro, aquele Jorge Amado vermelho-e-branco com letronas, aquele Dostoiévski vermelho da José Olympio cravejado de maravilhosas gravuras de Darel, Lívio Abramo, Goeldi. São as enciclopédias tornadas obsoletas pela Internet: a Delta-Larousse verde-escura, a gigantesca Mirador, a manuseada Barsa. Tem aquela coleção branca do Prêmio Nobel com uns autores que ninguém sabe mais quem são (quem diabo era Theodor Mommsen, Bjornstjerne Bjornsson?), tem aquela coleção verde com os melodramas de A. J. Cronin, tem o saudoso “Tesouro da Juventude”, e não esqueçamos os refugos das coleções de bancas de revistas: “Os Pensadores”, “Os Imortais da Literatura”, “Os Economistas”...

Muitos amigos meus hão de torcer o nariz diante de um tesouro cultural tão defasado, mas não reside aí o X da questão. O X é a existência de milhões de garotos e garotas, Brasil afora, que são doidos para ler mas não têm como, porque em suas cidades não se vendem livros, e mesmo que vendessem eles não teriam dinheiro para comprar. E não me venham com conversa de que por causa da Internet e dos videogames ninguém se interessa por livros. Quem gosta de ler gosta de livros. As bibliotecas que descrevi acima existem. Já as vi, com variações, espalhadas pelo Brasil afora, e quando as vi o que menos olhei foram as estantes. Olhei as caras mulatas ou caboclas dos adolescentes do Pará, do Paraná, do Espírito Santo, do Estado do Rio, de Minas, todos de olho enfiado num livro de Érico Veríssimo, num “Dicionário da Mitologia”, numa “Veja” do ano passado, num romance de Agatha Christie, num volume de Castro Alves. Lêem porque pertencem a uma elite: a das pessoas que tiveram um sonho e perceberam que não é sonho.
Braulio Tavares

As grandes ideias

Já se disse que as grandes ideias vêm ao mundo mansamente, como pombas. Talvez, então, se ouvirmos com atenção, escutaremos, em meio ao estrépito de impérios, e nações, um discreto bater de asas, o suave acordar da vida e da esperança. Alguns dirão que tal esperança jaz numa nação; outros, num homem. Eu creio, ao contrário, que ela é despertada, revivificada, alimentada por milhões de indivíduos solitários, cujos atos e trabalho, diariamente, negam as fronteiras e as implicações mais cruas da história. Como resultado, brilha por um breve momento a verdade, sempre ameaçada, de que cada e todo homem, sobre a base de seus próprios sofrimentos e alegrias, constrói para todos.
Albert Camus

A Tempestade de um Minuto

O desregrado das estações está a inventar umas chuvas fortes de alguns segundos nas Caxinas. O meu cão ladra à noite quando subitamente se abate a tromba-de-água nas janelas como se viesse de mãos a empurrar o prédio todo. Isto nunca foi assim. Os temporais duravam mais tempo, ficavam pela tarde toda, pareciam prometer não mais ir embora. Agora, têm acontecido como ideias precipitadas, inacabadas, tidas à pressa como se não soubessem bem para que servem, que sentido haverão de ter. As estações estão um bocado sem saber a que se destinam.

Ouço a folia do mar. Fica sempre numa convulsão maior, como aliado da raiva súbita das nuvens e do vento. Ouço-o do quarto igual a um vizinho gigante que espia minha casa com vontade de um dia se vingar. Vingar de quê?

Alguém me dizia em pequeno que somos pecadores culpados. Era tão importante deixar de se dizer porcarias assim às crianças. Por causa disto, é mais forte do que eu desconfiar de mim mesmo. A policiar-me nos gestos e nos pensamentos com a impressão impagável de estar tão perto do erro que poderei ser o erro. Lembro-me de os professores na escola anunciarem que alguém copiou e eu, por mais aflito estivesse, nunca copiei mas senti sempre que me culpariam por ter olhado a janela aberta, por haver espiado os sapatos à procura de um milagre, ou por pasmar diante da nuca de algum colega como quem contava cabelos para não sucumbir à falta de respostas.

Na frutaria, um colega do início do liceu disse-me que ouve o mar logo depois das chuvas e que chega a ir espreitar para se assegurar de que não está de pé pelas ruas. Sem mais nem menos, disse que vai para velho com medo de tudo por sermos culpados. Entende agora o que lhe diziam os adultos quando era criança. Somos sempre culpados, e em algum instante o mundo vai pronunciar nossa sentença. Passamos as noites a braços com a consciência.

Há dias, ainda o mar troando louco mas já a chuva passada, calei o cão e levei-o lá fora para ver também como estavam as ruas e como se arranja medo. Tenho andado a convencer-me de que nunca vi o nosso mar assim. É certamente da perturbação da pandemia, do cansaço, de não haver ninguém, mas é facto que se põe em montanhas de água, formações cada vez mais verticais que treinam claramente para se porem de pé. O Crisóstomo, o meu cão, atónito na marginal, ladra às ondas mal alumiadas da noite. Ralha com elas. Não aceita que se alterem e nos ameacem. Repito, isto nunca foi assim.

As almas penadas do costume juntam-se no canto abrigado onde fumam ervas muito escolhidas. Chamam pelo cão, dizem boa noite. Falam do temporal. Durou 40 segundos. Um temporal inteiro em 40 segundos. Como se fosse uma festa rápida da qual até duvidaríamos. E riram-se. Quem fosse apanhado ao relento, por qualquer passo já estaria náufrago em tanta água. Um dos moços mais novos brinca dizendo que o inverno transtorna pela culpa das pessoas. É para virar barcos e haverá de ser para virar casas. Se 40 segundos assim acontecerem no mar qualquer traineira afunda. Perguntei-lhe porque fala em culpa. Que raio de culpa teremos nós pelo que chove. E ele respondeu que é o que o povo diz. Depois, corrige: as mulheres. As mulheres dizem e os homens passam a dizer. Ele acha que é para manter os homens em casa. Educa-se os homens para não saírem de casa, mas eles saem.

Esta tarde, quando voltei das compras, um senhor que passava quis cumprimentar-me pelo que lê nos jornais. Agradeci. E ele acrescentou: fale sobre isto ser um sinal. E eu, confuso, perguntei a que se referia. E ele reafirmou: isto é tudo um sinal. Esta pandemia e esta chuva, veja como andam as pessoas de cara no chão. Ouça o mar. Preste atenção ao ruído do mar à noite. Aquilo é uma 
conversa zangada. O senhor repare em como é tudo nossa culpa.

Valter Hugo Mãe

quinta-feira, julho 20

O conde e o passarinho

Acontece que o Conde Matarazzo estava passeando pelo parque. O Conde Matarazzo é um conde muito velho, que tem muitas fábricas. Tem também muitas honras. Uma delas consiste em uma preciosa medalhinha de ouro que o conde exibia à lapela, amarrada a uma fitinha. Era uma condecoração.

Ora, aconteceu também um passarinho. No parque havia um passarinho. E esses dois personagens — o conde e o passarinho — foram os únicos da singular história narrada pelo Diário de São Paulo.


Devo confessar preliminarmente que, entre um conde e um passarinho, prefiro um passarinho. Torço pelo passarinho. Não é por nada. Nem sei mesmo explicar essa preferência. Afinal de contas, um passarinho canta e voa. O conde não sabe gorjear nem voar. O conde gorjeia com apitos de usinas, barulheiras enormes, de fábricas espalhadas pelo Brasil, vozes dos operários, dos teares, das máquinas de aço e de carne que trabalham para o conde. O conde gorjeia com o dinheiro que entra e sai de seus cofres, o conde é um industrial, e o conde é conde porque é industrial. O passarinho não é industrial, não é conde, não tem fábricas. Tem um ninho, sabe cantar, sabe voar, é apenas um passarinho e isso é gentil, ser um passarinho.

Eu quisera ser um passarinho. Não, um passarinho, não. Uma ave maior, mais triste. Eu quisera ser um urubu.

Entretanto, eu não quisera ser conde. A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde. Não amo os condes. Também não amo os industriais. Que eu amo? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

Entendo por vida o fato de um homem viver fumando nos três primeiros bancos e falando ao motorneiro. Ainda ontem ou anteontem assim escrevi. O essencial é falar ao motorneiro. O povo deve falar ao motorneiro. Se o motorneiro se fizer de surdo, o povo deve puxar a aba do paletó do motorneiro. Em geral, nessas circunstâncias, o motorneiro dá um coice. Então o povo deve agarrar o motorneiro, apoderar-se da manivela, colocar o bonde a nove pontos, cortar o motorneiro em pedacinhos e comê-lo com farofa.

Quando eu era calouro de Direito, aconteceu que uma turma de calouros assaltou um bonde. Foi um assalto imortal. Marcamos no relógio quanto nos deu na cabeça, e declaramos que a passagem era grátis. O motorneiro e o condutor perderam, rápida e violentamente, o exercício de suas funções. Perderam também os bonés. Os bonés eram os símbolos do poder.

Desde aquele momento perdi o respeito por todos os motorneiros e condutores. Aquilo foi apenas uma boa molecagem. Paciência. A vida também é uma imensa molecagem. Molecagem podre. Quando poderás ser um urubu, meu velho Rubem?

Mas voltemos ao conde e ao passarinho. Ora, o conde estava passeando e veio o passarinho. O Conde desejou ser que nem o seu patrício, o outro Francisco, o Francisco da Umbria, para conversar com o passarinho. Mas não era aquele, o São Francisco de Assis, era apenas o Conde Francisco Matarazzo. Porém, ficou encantado ao reparar que o passarinho voava para ele. O conde ergueu as mãos, feito uma criança, feito um santo. Mas não eram mãos de criança nem de santo, eram mãos de conde industrial. O passarinho desviou e se dirigiu firme para o peito do conde. Ia bicar seu coração? Não, ele não era um bicho grande de bico forte, não era, por exemplo, um urubu, era apenas um passarinho. Bicou a fitinha, puxou, saiu voando com a fitinha e com a medalha.

O conde ficou muito aborrecido, achou muita graça. Ora essa! Que passarinho mais esquisito!

Isso foi o que o Diário de São Paulo contou. O passarinho, a esta hora assim, está voando, com a medalhinha no bico. Em que peito a colocareis, irmão passarinho? Voai, voai, voai por entre as chaminés do conde, varando as fábricas do conde, sobre as máquinas de carne que trabalham para o conde, voai, voai, voai, voai, passarinho, voai.
Rubem Braga, fevereiro, 1935

No embalo da leitura

 


Ler no café

No tempo em que se estudava nos cafés de caderno aberto a tomar apontamentos, assim que chegava perto do meio-dia, os empregados vinham enxotar-nos, dizendo que não podíamos ficar ali mais tempo só com um café e um copo de água, pois estavam a chegar os clientes para o almoço. Depois, pelo menos na zona onde eu morava, esses cafés desapareceram, dando lugar a agências bancárias, e o hábito perdeu-se. Mas eis que em Braga alguém interessado em alargar a todos os hábitos de leitura se lembrou de fazer regressar os livros aos cafés... Trata-se de uma empresa de construção, a DST, que patrocina há já mais de vinte e cinco anos um importante prémio literário, cuja mais recente vencedora foi a escritora Teolinda Gersão. Na sua teimosia de promover a cultura e a literatura portuguesa, resolveu então oferecer aos cafés de Braga livros dos vencedores do Prémio DST ao longo dos anos, assim aproximando o público mais jovem (que agora vai para o café olhar para o telemóvel) dos livros. Cada café terá uma escolha alargada de títulos (Mário Cláudio, Manuel Alegre, Lídia Jorge, Nuno Júdice, Maria Ondina Braga e muitos mais) para que quem por lá passe não possa dar a desculpa de já ter lido aquele romance ou não apreciar o autor por aí além. Empresas ao serviço da cultura. Muito bem.

Carta a um adolescente

Você pediu que eu escrevesse sobre a maldade. Foi a primeira vez que uma pessoa me pediu isso. Você foi corajoso porque falar sobre a maldade é falar sobre nós mesmos. A maldade é algo que mora dentro de nós, à espera do momento certo para se apossar do nosso corpo. Ao pedir que eu falasse sobre a maldade você me pediu que o ajudasse a entender o lado escuro de você mesmo.

Para a gente entender a maldade é preciso entender, antes, os dois poderes de que somos feitos. Somos feitos de uma mistura de amor e poder. Amor é um sentimento que nos liga a determinadas coisas, e vai desde o simples gostar até o estar apaixonado. O amor quer abraçar, ficar perto, proteger. Amo meu cachorrinho: quero brincar com ele, tenho saudade dele. Se ele morrer eu vou chorar. Gosto da minha casa. Dói muito – dá raiva – se alguém picha de preto o muro que tinha justo sido pintado de branco. Gosto muito de uma pessoa: pode ser o pai, a mãe, o avô, a namorada. Por causa desse sentimento fico triste vendo que aquela pessoa está triste. O amor faz isso: coloca o outro dentro da gente. O que o outro sente, a gente sente também. Um amigo meu, pedreiro, senhor João, a primeira coisa que fazia quando me visitava em minha casa era salvar, com um peneira, as abelhas que estavam morrendo afogadas na piscina. Ele sofria com as abelhas.

Por isso, muitas pessoas são vegetarianas. Elas não suportam pensar na dor por que passam os bichos para que nós nos lambuzemos com a carne deles. Uma pessoa muito querida, que não é vegetariana, não consegue comer frango ao molho pardo. O molho pardo desse frango se faz com sangue – e ela se lembra de haver visto frangos de pescoço cortado, pendurados num gancho, agonizantes, seu sangue vagarosamente pingando num prato. Agora, sempre que ela vê frango ao molho pardo, ela se lembra do sofrimento daquela ave inocente. Os bichos também sofrem.

O amor nos liga à natureza toda. Eu amo a natureza – os riachos de água limpa, as cachoeiras frias, as matas com suas samambaias, avencas, orquídeas, bananeiras, as borboletas, cigarras, pássaros. Nós humanos, temos olhos deformados – não percebemos a beleza dos seres que são diferentes da gente. Mas todos eles, inclusive os besouros (que alguns chamam de “bisorros”), as rãs, os lagartos, as marias-fedidas, as taturanas, os urubus – todos eles querem viver, sofrem, fazem parte desse nosso mundo e são necessários à sua existência. Todos eles são nossos irmãos – porque todos nós teremos o mesmo fim. Um dia nós voltaremos à terra e, quem sabe, renasceremos como besouro ou galinha…

Aquilo que eu amo eu quero proteger. Proteger o cachorrinho, o muro de casa, a natureza… Às vezes, a gente quer algo anterior ao proteger: a gente crer criar. Você ainda não é pai. Não tem, portanto nenhum filho para proteger. Chegará um dia, entretanto, em que você desejará ter um filho que você ainda não tem. Para isso é preciso que você tenha os poderes de homem – para semear no ventre de uma mulher a semente do filho que você ama, mas ainda não tem. Você deseja ser (ainda não é) administrador de empresa, cozinheiro, médico ou flautista: você ama essas coisas; mas ainda não é. O amor sozinho, não faz milagres. Para ser qualquer dessas coisas você terá que, devargazinho, ir desenvolvendo poderes no seu corpo, poderes que tornarão a forma ou de conhecimentos ou de habilidades.

Quando você tem essas duas coisas juntas o amor e o poder, coisas muito bonitas acontecem. O poder torna possível a existência daquilo que a gente ama: gero um filho, planto um jardim, construo uma casa.

O poder, assim está a serviço da alegria. Pelo poder eu posso contribuir para que o mundo seja melhor. O poder e o amor juntos, estão a serviço da preservação da vida.

Acontece, entretanto que a vida anda devagar. Leva tempo para uma criança ser gerada. Leva tempo para uma árvore crescer. Por vezes, ao plantar uma árvore, a gente sabe que nunca se assentará à sua sombra.

Já a morte anda rápido. Mata-se numa fração de segundo. Basta puxar um gatilho. Ou pisar o bicho. Ou quebrar o ovo. Corta-se uma árvore que levou cem anos para crescer em poucos minutos: se for uma bananeira, basta um golpe de facão.

Você me perguntou sobre a maldade: a maldade é isso – quando as pessoas sentem prazer no ato de destruir, isto é quando as pessoas sentem prazer no exercício puro do poder, sem que esse poder tenha um objetivo de vida. Bondade é o poder usado para a vida. Maldade é o poder usado para a morte.

A adolescência é o momento da vida quando se descobrem as delícias do poder. Criança tem amor mas não tem poder. Ela quer sorvete mas não tem o dinheiro. A mãe segura, põe de castigo, dá palmada. A criança é impotente. Na adolescência o corpo se desenvolve. Fica maior que o corpo da mãe, o corpo do pai. Ganha força. Juntos, então os adolescentes se constituem num exército poderoso. É por isso que os adolescentes gostam de estar juntos: isso lhes dá um sentimento de poder. Há coisas que nunca fariam sozinhos. Mas, em grupo, tudo é permitido. As pessoas mais mansas podem se tornar monstruosas em grupo. No grupo a gente perde o senso da responsabilidade moral.

Como eu já disse, o poder, como fim em sim mesmo, sem um propósito de amor, dá prazer rápido. Quebrar, pichar, arrancar, bater, cortar esmagar, derrubar – todas essas são formas do poder-prazer a serviço da morte. É uma coisa demoníaca.

Por isso, meu amigo, adolescente, quero confessar uma coisa que nunca confessei: “Tenho medo de vocês”. O fascínio que vocês têm pelo poder me assusta. É isso que é maldade: poder sem amor.

Eu queria poder dar para vocês, como herança, o ovo onde moram os meus sonhos, na esperança de que vocês continuassem a chocá-lo, depois da minha partida. Sim, o mundo que eu amo se parece com um ovo: está cheio de vida mas é muito frágil. Dentro dele estão coisas delicadas, fáceis de serem destruídas: plantas, insetos, ninhos, aves, músicas, poemas, memórias, livros, peixes, muros brancos, crianças, velhos, jardins…

Mas eu tenho medo que vocês não resistam à tentação de quebrar o ovo onde eu e o meu mundo moramos. Como é fácil quebrar um ovo! Fácil e irreversível: nunca mais! Assim, por enquanto, o ovo onde moram meus sonhos fica sob a minha guarda. Até encontra os herdeiros que eu espero.

Rubem Alves, Correio Popular, (Campinas, 1996)

quarta-feira, julho 19

O verdadeiro baú de pirata

 


Nascimento

Do lugar em que Oliver Twist nasceu e das circunstâncias que ocorreram nessa ocasião.

Dentre os vários monumentos públicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome tenho a prudência de não dizer, e à qual não quero dar um nome imaginário, um existe comum à maior parte das cidades grandes ou pequenas: é o asilo da mendicidade.

Lá em certo dia, cuja data não é necessário indicar, tanto mais que nenhuma importância tem, nasceu o pequeno mortal que dá nome a este livro.


Muito tempo depois de ter o cirurgião dos pobres da paróquia introduzido o pequeno Oliver neste vale de lágrimas, ainda se duvidava se a pobre criança viveria ou não; se sucumbisse, é mais que provável que estas memórias nunca aparecessem, ou então ocupariam poucas páginas, e deste modo teriam o inapreciável mérito de ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum país em nenhuma época jamais produziu.

Ainda que eu não esteja disposto a sustentar que seja extraordinário favor da fortuna nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstâncias atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.

A razão é esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as funções respiratórias, exercício fatigante, mas necessário à nossa existência. Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colchão de lã grosseira, fazendo esforços para respirar, oscilando entre a vida e a morte e inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de avós solicitados, tias assustadas, amas experientes e médicos profundamente sábios, morreria infalivelmente. Mas como não havia ninguém, exceto uma pobre velha que havia bebido um trago demais e um médico pago por ano para esse trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.

O resultado foi que, após alguns esforços, Oliver respirou, espirrou e deu notícia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar à paróquia, soltando um grito tão agudo quanto se podia esperar de um varão que só desde três minutos e meio possuía este utilíssimo presente que se chama voz.

No momento em que Oliver dava essa primeira prova da força e da liberdade de seus pulmões, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se com dificuldade o rosto pálido de uma moça, e uma voz fraca articulou estas palavras:

— Quero ver meu filho antes de morrer!

O médico estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mãos. Ouvindo a voz da moça levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doçura do que se podia esperar do seu ofício:

— Oh! Não fale de morrer!

— Deus proteja a pobre mulher! — disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa cujo conteúdo provava nesse momento com evidente satisfação; quando ela tiver vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que só me restam dois aqui no asilo, então há de pensar de outra maneira. — Ora, vamos, pense na felicidade de ser mãe deste pequeno.

É provável que essa perspectiva consoladora da ventura maternal não produzisse grande efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabeça e estendeu as mãos para o filho.

O médico passou-lhe a criança aos braços; ela aplicou com ternura, na testa do pequeno, os lábios pálidos e frios; depois passou as mãos pelo próprio rosto, caiu na cama e morreu.

Esfregaram-lhe o peito, as mãos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre; falavam-lhe de esperança e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso que achou melhor expirar.

— Está acabado, Sra. Haingummy — disse o médico.

— Ah! Pobre moça, é verdade — disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde, que havia caído na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.

— É inútil mandar-me chamar se a criança berrar — disse o médico com resolução. — É provável que não fique sossegado. Nesse caso dê-lhe um pouco de mingau.

O médico pôs o chapéu na cabeça e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama e disse:

— Era bonita! De onde veio ela?

— Trouxeram-na ontem à noite — respondeu a velha — por ordem do inspetor; foi achada na rua; fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde vinha e para onde ia? Ninguém sabe dizer.

O médico inclinou-se para o corpo e, levantando a mão esquerda da defunta, disse abanando a cabeça:

— Sempre a mesma história; não tem anel de aliança... Não era casada... Boa noite!

O doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar à boca a garrafa, assentou-se numa cadeira junto à lareira e entrou a vestir o pequeno.

Que exemplo da influência da roupa ofereceu então o pequeno Oliver Twist!

Envolvido na coberta que até então fora sua única roupa, podia ser filho de um fidalgo ou mendigo; era impossível ao estranho mais presumido dizer qual era a sua classe na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido nesse uso, achou logo seu lugar; filho da paróquia, órfão do asilo de mendigos, vítima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos, à piedade de ninguém. Oliver berrava com quantas forças tinha. Se ele soubesse que era órfão, abandonado à terna compaixão dos bedéis e dos inspetores, talvez berrasse mais alto.
Charles Dickens, "Oliver Twist"

Os usos da Literatura

A literatura instrui-nos, dá-nos prazer, educa-nos, abre-nos portas inesperadas para o mundo e para dentro de nós, torna-nos inquiridores e aventureiros, escuda-nos contra os pestilentos ratos de esgoto, mostra-nos que há tragédia mas, também, momentos de alegria sublime, expõe-nos aos mais diversos rostos do amor, desde a Assia, de Turguenev, por mim descoberta, na adolescência, passando pela Natasha ou pela Karenina, de Tolstoi, pela pequena Jane Eyre, frágil, mas firme, declarando, tremendo, a um portentoso Rochester: “We are equal!”, assim pisando, pela primeira vez, um feminismo forte, destemido e não perverso, ou pela inesquecível Gise, da grande saga francesa, de Martin du Gard, sem esquecer as imortais protagonistas de Stendhal, Mme de Rênal e a esplendorosa Sanseverina (e a Vanina Vanini?).

A literatura torna-nos fortes, quando, mergulhando-nos nos mais fundos abismos da condição humana, verificamos que, após tal mergulho, afinal, prevalecemos. Quando, com catorze ou quinze anos, verifiquei, pela pena do grande O’Neill, que a América triunfal e poderosa, se tornara herdeira dos grandes trágicos gregos e de um dilacerado Strindberg, percebi que atravessar tudo aquilo e continuar vivo era um milagre de força. Senti que valia a pena viver. O mesmo se passou com os grandes romances e novelas de Dostoiewsky. Fiodor Sologub iniciou-me, sem me destruir, nos mundos da loucura, por via do seu protagonista do perturbante romance O demônio mesquinho (na tradução portuguesa, A loucura de Peredonov). Sally Salminen deu-me a vida inteira, num belo romance arrumado em ilhas escandinavas. Hemingway deu-nos heróis e heroínas inesquecíveis, os horrores da guerra e da guerra civil e a invencível fragilidade que se aninha nos peitos mais fortes. Mas tentou “salvar-nos”, com uma singular promessa: o homem pode ser destruído, mas não vencido.

Ler os trágicos gregos, a seguir à morte do meu irmão, purgou-me e salvou-me, em vez de me destruir. A tragédia lava e redime.

Os grandes cómicos, Molière ou Wodehouse, encheram-me de sol e de água fresca. O grande Pirandello fez-me rir, dilacerando-me e tornando-me desconfiado, isto é, prevenido.

Nesta altura do campeonato, estou a ouvir o sussurro de um qualquer rato de esgoto: “Este tipo quer-nos convencer de que leu tudo e mais alguma coisa.” Responderei, como respondeu D’Annunzio a Gide: sim, li tudo, na esperança de encontrar finalmente A OBRA-PRIMA.
Eugénio Lisboa

terça-feira, julho 18

Mesmo na prisão você será menos infeliz se gostar de ler

Samantha Jirón conseguiu ler ‘La Magdalena, o último tabu do cristianismo’, na prisão nicaraguense onde estava detida, talvez porque seus carcereiros acreditaram que se tratava apenas de um livro religioso e não também político

Há alguns dias, minha colega Lorena Arroyo, um dos pilares da edição americana deste jornal, teve a delicadeza de me enviar uma mensagem de voz de Samantha Jirón, 23 anos, a caçula dos presos políticos e já libertada pela ditadura nicaraguense regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo.

Samantha conta ao jornal La Prensa, em reportagem intitulada “Lendo para resistir na Esperança”, suas aventuras para conseguir que a deixassem ler um livro, única chance de aliviar sua angústia atrás das grades.


A jovem combatente contra a barbárie da ditadura agradece em sua mensagem de voz a oportunidade que teve de ler meu livro ‘La Magdalena, o último tabu do cristianismo’, da editora Aguilar, talvez porque seus carcereiros acreditaram que se tratava de um livro apenas religioso e não também político.

Enquanto ouvia a voz feliz de Samantha no meu celular, não sem certa emoção, as últimas palavras que meu pai disse a mim e a meus dois irmãos, ainda crianças, há 83 anos, me vieram à mente antes de morrer. O meu pai, tal como a minha mãe, eram professores na aldeia rural de Arcos de Valdeorras, na província galega de Orense. Vivíamos sob o horror da Guerra Civil e da ditadura de Franco, e você poderia ir para a cadeia ou levar um tiro por causa de suas ideias.

Na escola tínhamos um único livro eufemisticamente chamado Enciclopédia para toda a educação primária . Nem mais um livro.

Meu pai compensava a falta de livros com exemplos tirados da observação da natureza. Muitas aulas nos foram dadas no meio de um pomar ou à beira de um córrego. Com ele já sabíamos aos sete anos o que era uma “metamorfose”. Como? Ele trouxe para a aula uma caixa de sapatos com bichos-da-seda que acabavam virando borboletas. Ocorrera uma metamorfose, disse-nos ele. Já sabia distinguir à distância um pé de grão-de-bico de um pé de feijão. Tudo sem livros.

Quando meu pai estava para morrer, com apenas 43 anos, por falta de antibióticos na época, chamou os três irmãos para o quarto e nos deu alguns conselhos. Explicou-nos que quando fôssemos adultos já teríamos livros e que graças a eles “mesmo na cadeia seríamos menos infelizes”.

Essa frase me perseguiu, agridoce, por toda a minha vida e com certeza foi o que me impulsionou a dedicar meus já 91 anos a estudar para escrever. E hoje quero agradecer do Brasil à jovem e corajosa combatente nicaragüense Samantha Jirón por ter me confirmado que é verdade que mesmo na prisão mais dura e violenta, como dizia meu pai, pode-se ser menos infeliz se puder ler.

Há poucos dias, eu havia lido que o direitista e anticultura Jair Bolsonaro, quando ainda era presidente do Brasil, havia zombado do fato de que Lula, se ganhasse as eleições, “iria transformar clubes de tiro em bibliotecas.” Nesses lugares se aprende a matar e Bolsonaro permitiu que até menores treinassem, levado por sua mórbida obsessão por armas e violência.

Agora, Lula está de volta ao poder e poderá concretizar a zombaria de seu antecessor e transformar não só os clubes de tiro, mas todos os presídios, alguns dos mais lotados do mundo, com cerca de um milhão de presos, em bibliotecas e centros de cultura negros.

Lula, que sem ter podido estudar devido à sua origem na pobreza conseguiu a façanha de ser três vezes presidente do país, deve hoje realizar a profecia irônica de Bolsonaro e fazer do Brasil uma grande biblioteca, justamente quando os livros estão desaparecendo.

Lula pôde recuperar a brilhante ideia, durante a presidência do social-democrata Fernando Henrique Cardoso, de dar anualmente às famílias de crianças pobres uma coleção de livros para formar uma biblioteca em suas casas. Foi quando muitos dos mais velhos recuperaram o gosto pela leitura.

Ocorre-me que Lula, em sua frenética política externa, com suas inúmeras viagens para fora do Brasil, poderia ir ao encontro de seu amigo Daniel Ortega, na Nicarágua , não para discutir sua infeliz frase de que a democracia é algo “relativo”, mas para que ele entenda que colocar uma menina de 23 anos como Samantha na cadeia só por lutar contra uma ditadura é a melhor forma de dar armas a esse furacão da nova extrema direita que contagia e obscurece os ideais de quem sonha e luta por uma mundo onde, sim, clubes de tiro e prisões podem se tornar bibliotecas sorridentes e libertadoras.

A caçada

A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus anos embolorados e livros comidos de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou voo e foi chocar-se contra uma imagem de mãos decepadas.

— Bonita imagem — disse ele.

A velha tirou um grampo do coque, e limpou a unha do polegar. Tornou a enfiar o grampo no cabelo.

— É um São Francisco.

Ele então voltou-se lentamente para a tapeçaria que tomava toda a parede no fundo da loja. Aproximou-se mais. A velha aproximou-se também.

— Já vi que o senhor se interessa mesmo é por isso… Pena que esteja nesse estado.

O homem estendeu a mão até a tapeçaria, mas não chegou a tocá-la.

— Parece que hoje está mais nítida…

— Nítida? — repetiu a velha, pondo os óculos. Deslizou a mão pela superfície puída. — Nítida, como?

— As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela?

A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas. O homem estava tão pálido e perplexo quanto a imagem.

— Não passei nada, imagine… Por que o senhor pergunta?

— Notei uma diferença.

— Não, não passei nada, essa tapeçaria não aguenta a mais leve escova, o senhor não vê? Acho que é a poeira que está sustentando o tecido acrescentou, tirando novamente o grampo da cabeça. Rodou-o entre os dedos com ar pensativo. Teve um muxoxo: — Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro. Eu disse que o pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um comprador, mas ele insistiu tanto… Preguei aí na parede e aí ficou. Mas já faz anos isso. E o tal moço nunca mais me apareceu.

— Extraordinário…

A velha não sabia agora se o homem se referia à tapeçaria ou ao caso que acabara de lhe contar. Encolheu os ombros. Voltou a limpar as unhas com o grampo.

— Eu poderia vendê-la, mas quero ser franca, acho que não vale mesmo a pena. Na hora que se despregar, é capaz de cair em pedaços.

O homem acendeu um cigarro. Sua mão tremia. Em que tempo, meu Deus! em que tempo teria assistido a essa mesma cena. E onde? …

Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontando para uma touceira espessa. Num plano mais profundo, o segundo caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas esta era apenas uma vaga silhueta, cujo rosto se reduzira a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o primeiro caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos, à espera de que a caça levantasse para desferir lhe a seta.

O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor esverdeada de um céu de tempestade. Envenenando o tom verde-musgo do tecido, destacavam-se manchas de um negro-violáceo e que pareciam escorrer da folhagem, deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se no chão como um líquido maligno. A touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas e que tanto podiam fazer parte do desenho como ser simples efeito do tempo devorando o pano.

— Parece que hoje tudo está mais próximo — disse o homem em voz baixa. — É como se… Mas não está diferente?

A velha firmou mais o olhar. Tirou os óculos e voltou a pô-los.

— Não vejo diferença nenhuma.

— Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta…

— Que seta? O senhor está vendo alguma seta?

— Aquele pontinho ali no arco… A velha suspirou. — Não vejo diferença nenhuma.

— Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta…

— Que seta? O senhor está vendo alguma seta?

— Aquele pontinho ali no arco… A velha suspirou.

— Mas esse não é um buraco de traça? Olha aí, a parede já está aparecendo, essas traças dão cabo de tudo — lamentou, disfarçando um bocejo. Afastou-se sem ruído, com suas chinelas de lã. Esboçou um gesto distraído: — Fique aí à vontade, vou fazer meu chá.

O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarinho na sola do sapato. Apertou os maxilares numa contração dolorosa. Conhecia esse bosque, esse caçador, esse céu — conhecia tudo tão bem, mas tão bem! Quase sentia nas narinas o perfume dos eucaliptos, quase sentia morder-lhe a pele o frio úmido da madrugada, ah, essa madrugada! Quando? Percorrera aquela mesma vereda aspirara aquele mesmo vapor que baixava denso do céu verde… Ou subia do chão? O caçador de barba encaracolada parecia sorrir perversamente embuçado. Teria sido esse caçador? Ou o companheiro lá adiante, o homem sem cara espiando por entre as árvores? Uma personagem de tapeçaria. Mas qual? Fixou a touceira onde a caça estava escondida. Só folhas, só silêncio e folhas empastadas na sombra. Mas, detrás das folhas, através das manchas pressentia o vulto arquejante da caça. Compadeceu-se daquele ser em pânico, à espera de uma oportunidade para prosseguir fugindo. Tão próxima a morte! O mais leve movimento que fizesse, e a seta… A velha não a distinguira, ninguém poderia percebê-la, reduzida como estava a um pontinho carcomido, mais pálido do que um grão de pó em suspensão no arco.

Enxugando o suor das mãos, o homem recuou alguns passos. Vinha-lhe agora uma certa paz, agora que sabia ter feito parte da caçada. Mas essa era uma paz sem vida, impregnada dos mesmos coágulos traiçoeiros da folhagem. Cerrou os olhos. E se tivesse sido o pintor que fez o quadro? Quase todas as antigas tapeçarias eram reproduções de quadros, pois não eram? Pintara o quadro original e por isso podia reproduzir, de olhos fechados, toda a cena nas suas minúcias: o contorno das árvores, o céu sombrio, o caçador de barba esgrouvinhada, só músculos e nervos apontando para a touceira… “Mas se detesto caçadas! Por que tenho que estar aí dentro?”

Apertou o lenço contra a boca. A náusea. Ah, se pudesse explicar toda essa familiaridade medonha, se pudesse ao menos… E se fosse um simples espectador casual, desses que olham e passam? Não era uma hipótese? Podia ainda ter visto o quadro no original, a caçada não passava de uma ficção. “Antes do aproveitamento da tapeçaria…” — murmurou, enxugando os vãos dos dedos no lenço.

Atirou a cabeça para trás como se o puxassem pelos cabelos, não, não ficara do lado de fora, mas lá dentro, encravado no cenário! E por que tudo parecia mais nítido do que na véspera, por que as cores estavam mais fortes apesar da penumbra? Por que o fascínio que se desprendia da paisagem vinha agora assim vigoroso, rejuvenescido? …

Saiu de cabeça baixa, as mãos cerradas no fundo dos bolsos. Parou meio ofegante na esquina. Sentiu o corpo moído, as pálpebras pesadas. E se fosse dormir? Mas sabia que não poderia dormir, desde já sentia a insônia a segui-lo na mesma marcação da sua sombra. Levantou a gola do paletó. Era real esse frio? Ou a lembrança do frio da tapeçaria? “Que loucura! … E não estou louco”, concluiu num sorriso desamparado. Seria uma solução fácil. “Mas não estou louco.”.

Vagou pelas ruas, entrou num cinema, saiu em seguida e quando deu acordo de si, estava diante da loja de antiguidades, o nariz achatado na vitrina, tentando vislumbrar a tapeçaria lá no fundo.

Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos escancarados, fundidos na escuridão. A voz tremida da velha parecia vir de dentro do travesseiro, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: “Que seta? Não estou vendo nenhuma seta…” Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das traças em meio de risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçaram numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso, podia distinguir as serpentes enleadas num nó verde-negro. Apalpou o queixo. “Sou o caçador?” Mas ao invés da barba encontrou a viscosidade do sangue.

Acordou com o próprio grito que se estendeu dentro da madrugada. Enxugou o rosto molhado de suor. Ah, aquele calor e aquele frio! Enrolou-se nos lençóis. E se fosse o artesão que trabalhou na tapeçaria? Podia revê-la, tão nítida, tão próxima que, se estendesse a mão, despertaria a, folhagem. Fechou os punhos. Haveria de destruí-la, não era verdade que além daquele trapo detestável havia alguma coisa mais, tudo não passava de um retângulo de pano sustentado pela poeira. Bastava soprá-la, soprá-la!

Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica:

— Hoje o senhor madrugou.

— A senhora deve estar estranhando, mas…

— Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, pode entrar, o senhor conhece o caminho…

“Conheço o caminho” — murmurou, seguindo lívido por entre os móveis. Parou. Dilatou as narinas. E aquele cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele cheiro? E por que a loja foi ficando embaçada, lá longe? Imensa, real só a tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com suas manchas esverdinhadas. Quis retroceder, agarrou-se a um armário, cambaleou resistindo ainda e estendeu os braços até a coluna. Seus dedos afundaram por entre galhos e resvalaram pelo tronco de uma árvore, não era uma coluna, era uma árvore! Lançou em volta um olhar esgazeado: penetrara na tapeçaria, estava dentro do bosque, os pés pesados de lama, os cabelos empastados de orvalho. Em redor, tudo parado. Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Inclinou-se arquejante. Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não importava, sabia apenas que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou sendo caçado. Ou sendo caçado? … Comprimiu as palmas das mãos contra a cara esbraseada, enxugou no punho da camisa o suor que lhe escorria pelo pescoço. Vertia sangue o lábio gretado.

Abriu a boca. E lembrou-se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem, a dor!

“Não…” – gemeu, de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o coração.
Lygia Fagundes Telles

Extra! Extra! Abriram uma livraria!

Deveria ser notícia de primeira página, um repórter correndo à oficina para gritar “parem as máquinas!”, um pequeno jornaleiro berrando “extra! extra!”, mas vai aqui mesmo, modestamente, nesta janela que o jornal abre na última página para o leitor respirar alguma leveza. É o anúncio alvissareiro de que neste fim de semana foi inaugurada uma livraria no Rio de Janeiro.

Os telejornais que cuidam da cobertura da cidade apresentam diariamente a mesma pauta básica de um tiroteio pela manhã numa comunidade, uma bala disparada pela PM contra um inocente, uma fila em busca de atendimento nos hospitais, um ônibus do BRT trafegando sem as portas e um atraso de horas provocado pelo furto de cabos no leito dos trens. Mudam os repórteres e as delegacias, mas, como na música do Gil, as notícias que vejo, eu conheço, já sabia antes mesmo de ver. Elas passaram ontem, anteontem também. A cidade está doente.

Casa 11

Por isso seria necessário, no alto da página primeira, o registro de que um grupo de 54 médicos percebeu a carência de prateleiras com um remédio de alto poder curativo: livros. São pílulas de vida tão boas quanto as do jingle do Dr. Ross, podem curar o fígado e o que vai de triste na alma de todos nós. Desassossego? Tome Fernando Pessoa.

A Casa 11 fica em Laranjeiras, quase em frente ao Instituto Nacional de Cardiologia, onde trabalham alguns dos médicos-sócios-livreiros. Foi uma psicóloga quem teve a ideia depois de ver num muro o grafite “Menos drogaria, mais livraria”.

Se a palavra falada, como Freud sacou, ajudava a aliviar os sintomas de ansiedade e depressão, a psicóloga acredita em cura pela leitura. Contra os males do estresse urbano, dez sonetos de Drummond pela manhã; contra as dores da desesperança, use à noite os diários de Carolina Maria de Jesus.

Nenhum desses médicos tem qualquer objeção à penicilina, à morfina, ao corticoide e às vacinas, mas acham que é preciso um remédio contra a doença carioca da proliferação das drogarias. Fazer parte de uma sociedade dodói torna alguns insensíveis a fenômenos da patologia urbana, como o do quarteirão de Copacabana com cinco delas na mesma calçada. Será que não podiam abrir uma livraria para cada uma delas? Ninguém discute se Melhoral é melhor e não faz mal – mas que tal a maravilha terapêutica de um dia frio e um bom lugar para ler um livro?

Os médicos desse inesperado pronto-socorro receitam a medicina milenar da poesia, dos contos e dos romances. Acreditam estar ajudando, com cultura e os preços baratos de um sebo, na implantação de um tratamento, sem contraindicações, sem efeitos colaterais, para atacar as moléstias da cidade-paciente, sempre tão linda, mas, como mostram os telejornais, à beira de ser intubada numa UTI.

A inauguração da livraria Casa 11 é finalmente uma boa notícia em meio ao ciclone das drogarias, e seus médicos-livreiros estão prontos para aviar receituários de leitura. Para combater os sintomas da angústia e da solidão, aplique sem moderação, ao calor de um chá de hortelã, os versos de Ana Martins Marques. Se a vida em volta é só usura e alma seca, vá de Rubem Fonseca. Saúde é coisa séria. No lugar de gotas e comprimidos, páginas e mais páginas. Tudo vai mal? João Cabral.

 Joaquim Ferreira dos Santos