O livro ordinariamente não passa de jornal empalhado. Os jornais perecem no dia seguinte. O livro dura pouco mais e apodrece lentamente. Diferença é que a um mata a morte súbita, a outro a consumação lentaJoão Ribeiro
terça-feira, agosto 15
Consumação lenta
O Juca
O Juca era da categoria das chamadas pessoas sensíveis, dessas que tudo lhes toca e tange. Se a gente lhe perguntasse: “Como vais, Juca?”, ao que qualquer pessoas normal responderia: “Bem, obrigado!” – com o Juca a coisa não era bem assim tão simples. Primeiro fazia uma cara de indecisão, depois um sorriso triste contrabalançado por um olhar heroicamente exultante, até que esse exame de consciência era cortado pela voz do interlocutor, que começava a falar chãmamente em outras coisas, que a aliás o Juca não estava ouvindo… Porque as pessoas sensíveis são as criaturas mais egoístas, mais coriáceas, mais impenetráveis do reino animal. Pois meus amigos, da última vez que vi o Juca, o impasse continuava… E que impasse!
Estavam lhe ministrando a Extrema-Unção. E, quando o sacerdote lhe fez a tremenda pergunta, chamando-o pelo nome: “Juca, querer arrepender-te dos teus pecados?”, vi que, na sua face devastada pela erosão da morte, a Dúvida começava a redesenhar, reanimando-a, aqueles seus trejeitos e caretas, numa espécie de ridícula ressurreição. E a resposta não foi nem “sim” nem “não”; seria acaso um “talvez”, se o padre não fosse tão compreensivo. Ou apressado. Despachou-o num átimo e absolvido. Que fosse amolar os anjos lá no Céu!
E eu imagino o Juca a indagar, até hoje:
- Mas o senhor acha mesmo, sargento Gabriel, que ele poderia ter me absolvido?
Estavam lhe ministrando a Extrema-Unção. E, quando o sacerdote lhe fez a tremenda pergunta, chamando-o pelo nome: “Juca, querer arrepender-te dos teus pecados?”, vi que, na sua face devastada pela erosão da morte, a Dúvida começava a redesenhar, reanimando-a, aqueles seus trejeitos e caretas, numa espécie de ridícula ressurreição. E a resposta não foi nem “sim” nem “não”; seria acaso um “talvez”, se o padre não fosse tão compreensivo. Ou apressado. Despachou-o num átimo e absolvido. Que fosse amolar os anjos lá no Céu!
E eu imagino o Juca a indagar, até hoje:
- Mas o senhor acha mesmo, sargento Gabriel, que ele poderia ter me absolvido?
Mario Quintana
domingo, agosto 13
Velha Jucundina
Zefa resmungou as costumeiras palavras ininteligíveis e se dirigiu para os fundos da casa. O crepúsculo caia, demorado e triste, sobre os campos. O vulto do velho Jeronimo, tangendo a criação para o pequeno curral, desenhava-se contra o horizonte e uma sombra longa ondulava sobre o capim rasteiro. A vaca parou seu tardo caminhar para arrancar umas folhas da plantação de mandioca que já começava a crescer. Jeronimo soltou então seu grito de boiadeiro – recordação de um tempo distante quando conduzira grandes rebanhos para as feiras de gado – inútil grito porque os jumentos, as cabras e os porcos, sete cabeças ao todo, iam pacificamente para o seu destino noturno. E, quanto a vaca, era tao velha e mansa que mais parecia uma pessoa da família, de tal maneira se encontrava ligada aquelas existências. Mas Zefa estremeceu com o grito, era como se lhe recordasse uma obrigação indeclinável. Murmurou novas palavras, agitou-se, animaram-se seus olhos parados. A velha Jucundina, sem largar o menino, voltou toda a sua atenção para os movimentos de Zefa. Aquilo durava ha muitos anos, mas a velha não se acostumara ainda de todo, esperava sempre uma surpresa, qualquer coisa como um estranho milagre, um fato assombroso. Nascera naquelas bandas, ali crescera, casara, tivera filhos e netos, conhecia cada palmo de terra, tinha as mãos calosas do plantio e da colheita, vira as secas e os jagunços, o assassinato na casa-grande que provocara tanto rebuliço, mas nada se comparava com aquilo. Estava certa de que um espírito encostara no corpo de Zefa para cumprir ali sua sentença de sofrimento, pagando os malfeitos do tempo de vivo, e essa era uma opinião generalizada pela gente da fazenda, agregados e colonos. Quando chegava a hora das rezas, marcada pelo grito saudoso de Jeronimo tangendo a criação, a velha Jucundina ficava sempre na expectativa, pois poderia acontecer de repente. O que, ela mesma não sabia. Talvez o espírito se fosse, seu tempo de sentença tivesse terminado, e pudesse ele enfim retomar o caminho das regiões celestes onde não havia nem fome, nem doenças, nem lágrimas. E Zefa, que, algum dia, num passado esquecido, fora uma bonita moca, cobiçada pelos trabalhadores, de pernas grossas e cupidos olhos, talvez retornasse a razão e reconhecesse os seus parentes, seu irmão Jeronimo, sua cunhada Jucundina, seus sobrinhos e primos. Como iria acontecer, Jucundina não sabia. Apenas esperava que o fato se desse, e a cada crepúsculo, quando Zefa se agitava para o início das suas orações, a velha ficava a espreita, porque com certeza seria naquela hora solene do fim do dia, quando as sombras começavam a cair criando um clima de mistério, quando as velas se acendiam, os ruídos se modificavam, e a cor do mundo era outra, que o milagre sucederia. Esperava já sem susto e quase sem emoção. Mas esperava. Tanto podia ser hoje, como amanha ou no fim da semana, porém alguma vez seria e, quando acontecesse, a velha Jucundina ver-se-ia livre de um peso que estava de há muito sobre o seu coração.
– Num fica ninhum cum nóis, veia... Só nóis e que vai morrer nessa terra, cumo os bichos e os pé de pau...
Apontava Agostinho, criançola ainda:
– Um dia vai esse também...
Os anos tinham passado e nenhum dos três rapazes voltara. Essa era outra secreta esperança da velha Jucundina. Vê-los regressar para que ajudassem Jeronimo no trabalho da terra. E, apesar de que haviam partido em datas diversas, cada um por sua vez, cada um por um caminho, cada um para um destino, imaginava – eram poucos e pequenos quadros, formados no correr do tempo, que se sucediam inalteráveis na sua imaginação – que regressariam juntos, juntos atravessariam a cancela e juntos lhe diriam a benção. Onde se encontrariam nessa viagem de regresso, a velha não sabia e já refletira mesmo sobre o assunto algumas, vezes. Mas não conseguira marcar um lugar que aos três servisse e desistira pois lhe dava um cansaço na cabeça, e aumentava a tristeza, ja que assim tinha que pensar sobre o que poderia ser a vida atual de cada um dos meninos. Como marcar o umbuzeiro para o encontro se José não tinha pouso nem caminho certo, podia vir por qualquer estrada, sempre como um fugitivo amedrontado? E Jaó por onde chegaria, se a velha Jucundina não sabia direito a cidade onde ele estava destacado? Ao demais ela não queria pensar no presente dos rapazes, no que lhes estaria sucedendo naquele dia e naquela hora. Bom era vê-los chegando, no rastro de Jeronimo e dos animais, juntos os três, os sacos de viagem cheios de coisas de outras terras, de coisas ate da cidade, e a voz, áspera mas cálida, pedindo a benção. A voz que ela ouvia, mistura das três vozes, era a de Nenen, o menor dos três, o mais querido também. E como tudo podia acontecer – “Deus e grande” – num mesmo dia, quem sabe se, quando os meninos chegassem de regresso, não partisse para sempre o espirito que perturbava Zefa, que enchia sua boca de palavras diferentes e escabrosas, que tornava fixos e amedrontados os seus olhos, que derramava aquela tristeza pelo corpo antes alegre e robusto? Foi aos poucos, devagarinho, que a velha Jucundina juntou numa única data os dois acontecimentos. Antes pensava num ou noutro separadamente. “Pode que hoje o espirito vá embora, tenha cumprido sua pena.” “Pode que hoje cheguem os meninos de volta, tenham cumprido seu destino.” E os dias se passavam e os crepúsculos sucediam-se, repetia-se monótono o grito melancólico de Jeronimo, Zefa rezava suas orações sem nexo e a porteira não se abria ao passo dos fugitivos. E uma e outra esperança foram-se fundindo, se misturando no passar do tempo, e agora tudo ia suceder num só dia, numa única tarde, e então – pensava a velha Jucundina – ela poderia morrer descansada. Porque tudo que desejava nesse mundo, onde se esta para sofrer, teria sucedido, e não lhe restaria mais nada em que pensar, pois de ha muito aprendera que desejar a posse da terra que trabalhavam era um sonho impossível e irrealizável.
Jorge Amado, "Seara Vermelha"
Era um momento importante no dia trabalhoso da velha Jucundina, porque sempre sucedia que juntavam-se na sua memoria, ao grito do velho Jeronimo, os fatos referentes a Zefa, a expectativa dos acontecimentos milagrosos que poderiam suceder, e a recordação dos três meninos que haviam partido. Eram já rapazes quando se foram, cada um por seu caminho, cada um para uma vida diversa. Menos Nenén, cujo nome era Juvêncio, quase uma criança ainda quando fora assentar praça. Os outros dois já eram homens feitos, mas para Jucundina continuavam sendo os “meninos” e neles pensava todos os dias naquela mesma hora do fim da tarde, talvez porque tivesse sido ao cair do crepúsculo que deram por falta de Nenén (só tempos depois viriam a saber que ele assentara praça na polícia militar) e ate hoje a voz desencantada do velho Jeronimo ressoa aos ouvidos de Jucundina no amargo e único comentário do acontecido:
– Num fica ninhum cum nóis, veia... Só nóis e que vai morrer nessa terra, cumo os bichos e os pé de pau...
Apontava Agostinho, criançola ainda:
– Um dia vai esse também...
Os anos tinham passado e nenhum dos três rapazes voltara. Essa era outra secreta esperança da velha Jucundina. Vê-los regressar para que ajudassem Jeronimo no trabalho da terra. E, apesar de que haviam partido em datas diversas, cada um por sua vez, cada um por um caminho, cada um para um destino, imaginava – eram poucos e pequenos quadros, formados no correr do tempo, que se sucediam inalteráveis na sua imaginação – que regressariam juntos, juntos atravessariam a cancela e juntos lhe diriam a benção. Onde se encontrariam nessa viagem de regresso, a velha não sabia e já refletira mesmo sobre o assunto algumas, vezes. Mas não conseguira marcar um lugar que aos três servisse e desistira pois lhe dava um cansaço na cabeça, e aumentava a tristeza, ja que assim tinha que pensar sobre o que poderia ser a vida atual de cada um dos meninos. Como marcar o umbuzeiro para o encontro se José não tinha pouso nem caminho certo, podia vir por qualquer estrada, sempre como um fugitivo amedrontado? E Jaó por onde chegaria, se a velha Jucundina não sabia direito a cidade onde ele estava destacado? Ao demais ela não queria pensar no presente dos rapazes, no que lhes estaria sucedendo naquele dia e naquela hora. Bom era vê-los chegando, no rastro de Jeronimo e dos animais, juntos os três, os sacos de viagem cheios de coisas de outras terras, de coisas ate da cidade, e a voz, áspera mas cálida, pedindo a benção. A voz que ela ouvia, mistura das três vozes, era a de Nenen, o menor dos três, o mais querido também. E como tudo podia acontecer – “Deus e grande” – num mesmo dia, quem sabe se, quando os meninos chegassem de regresso, não partisse para sempre o espirito que perturbava Zefa, que enchia sua boca de palavras diferentes e escabrosas, que tornava fixos e amedrontados os seus olhos, que derramava aquela tristeza pelo corpo antes alegre e robusto? Foi aos poucos, devagarinho, que a velha Jucundina juntou numa única data os dois acontecimentos. Antes pensava num ou noutro separadamente. “Pode que hoje o espirito vá embora, tenha cumprido sua pena.” “Pode que hoje cheguem os meninos de volta, tenham cumprido seu destino.” E os dias se passavam e os crepúsculos sucediam-se, repetia-se monótono o grito melancólico de Jeronimo, Zefa rezava suas orações sem nexo e a porteira não se abria ao passo dos fugitivos. E uma e outra esperança foram-se fundindo, se misturando no passar do tempo, e agora tudo ia suceder num só dia, numa única tarde, e então – pensava a velha Jucundina – ela poderia morrer descansada. Porque tudo que desejava nesse mundo, onde se esta para sofrer, teria sucedido, e não lhe restaria mais nada em que pensar, pois de ha muito aprendera que desejar a posse da terra que trabalhavam era um sonho impossível e irrealizável.
Jorge Amado, "Seara Vermelha"
A paixão da leitura
Nesta época tardia da história do mundo, encontram-se livros por toda parte da casa – no quarto das crianças, na sala de estar, na sala de jantar, na cozinha. E, em algumas casas, eles aumentaram tanto que têm que ser acomodados num aposento exclusivo. Romances, poemas, histórias, memórias, livros caros em couro, livros baratos em brochura – detemo-nos diante deles e, num assombro passageiro, perguntamos: que prazer extraímos ou que proveito tiramos ao percorrer com os olhos essas inumeráveis linhas em letra de imprensa?
Ler é uma arte muito complexa – é o que nos revelará até mesmo o exame mais apressado de nossas sensações como leitores. E nossas obrigações como leitores são muitas e variadas. Mas talvez se possa dizer que nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo. E nossa primeira obrigação como leitores é tentar entender o que o escritor está fazendo, desde a primeira palavra com que compõe a primeira frase até a última com que termina o livro. Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa. Devemos deixar que Defoe seja Defoe e que Jane Austen seja Jane Austen tão livremente quanto deixamos que o tigre tenha seu pelo e a tartaruga sua carapaça. E isso é muito difícil. Pois uma das qualidades da grandeza consiste em deixar que o céu e a terra e a natureza se conformem à visão que lhes é própria.
Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.
Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.
Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, parti
Ler é uma arte muito complexa – é o que nos revelará até mesmo o exame mais apressado de nossas sensações como leitores. E nossas obrigações como leitores são muitas e variadas. Mas talvez se possa dizer que nossa primeira obrigação para com um livro é que devemos lê-lo pela primeira vez como se o tivéssemos escrevendo. Para começar, devemos nos sentar no banco dos réus e não na poltrona do juiz. Devemos, nesse ato de criação, não importa se bom ou ruim, ser cúmplices do escritor. Pois cada um desses livros, não importando o gênero ou a qualidade, representa um esforço para criar algo. E nossa primeira obrigação como leitores é tentar entender o que o escritor está fazendo, desde a primeira palavra com que compõe a primeira frase até a última com que termina o livro. Não devemos impor-lhe nosso plano, não devemos tentar fazer com que sua vontade se conforme à nossa. Devemos deixar que Defoe seja Defoe e que Jane Austen seja Jane Austen tão livremente quanto deixamos que o tigre tenha seu pelo e a tartaruga sua carapaça. E isso é muito difícil. Pois uma das qualidades da grandeza consiste em deixar que o céu e a terra e a natureza se conformem à visão que lhes é própria.
Os grandes escritores exigem, assim, que façamos frequentes e heroicos esforços para lê-los corretamente. Eles nos vergam, eles nos quebram. Ir de Defoe a Jane Austen, de Hardy a Peacock, de Trollope a Meredith, de Richardson a Rudyard Kipling é ser torcido e distorcido, é ser jogado violentamente para um lado e para o outro. E isso vale também para os escritores menores. Cada um deles é singular; cada um tem uma visão, uma experiência, uma característica própria que pode entrar em conflito com a nossa, mas que devemos permitir que se expresse plenamente se quisermos fazer-lhe justiça. E os escritores que mais têm para nos oferecer são, muitas vezes, os que mais violentam os nossos preconceitos, particularmente se são nossos contemporâneos, de maneira que precisamos de toda a imaginação e compreensão se quisermos tirar o máximo proveito daquilo que eles podem nos oferecer.
Mas ler, como sugerimos, é um ato complexo. Não consiste simplesmente em estar em sintonia e compreender. Consiste, também, em criticar e em julgar. O leitor deve deixar o banco dos réus e se acomodar na poltrona do juiz. Deve deixar de ser amigo; deve se tornar juiz. E este segundo processo, que podemos chamar de processo pós-leitura, pois é, frequentemente, realizado sem termos o livro à nossa frente, proporciona um prazer ainda mais sólido do que o obtido quando estamos virando as páginas. Durante a leitura, novas impressões estão sempre anulando ou completando as velhas. Deleite, raiva, enfado, riso se alternam, enquanto lemos sem parar. O julgamento fica em suspenso, pois não podemos saber o que está por vir. Mas agora o livro acabou. Tomou uma forma definitiva. E o livro como um todo é diferente do livro há pouco absorvido em variadas e diferentes partes. Ele tem uma forma, ele tem um ser. E essa forma, esse ser, pode ser retido na mente e comparado com a forma de outros livros e se lhe pode atribuir o seu próprio tamanho e insignificância em comparação com os deles.
Mas se esse processo de julgar e decidir está cheio de prazer, está também cheio de dificuldades. Não se pode esperar muita ajuda do exterior. Críticos e resenhas críticas abundam, mas ler as opiniões de outra mente não ajuda muito quando a nossa ainda está fervendo de um livro que acabamos de ler. É só depois que formamos nossa opinião que as opiniões dos outros se mostram mais esclarecedoras. É quando podemos defender nosso próprio julgamento que obtemos o máximo do julgamento dos grandes críticos – os Johnson, os Dryden e os Arnold. Para que possamos tomar nossa decisão, a melhor forma de ajudarmos a nós mesmos é, primeiro, compreender tão completa e exatamente quanto possível a impressão que o livro deixou e, depois, comparar essa impressão com as impressões que formulamos no passado. Elas estão ali, penduradas no armário da mente – as formas dos livros que já lemos, como roupas que tiramos e penduramos à espera da estação adequada. Assim, se acabamos de ler pela primeira vez, digamos, Clarissa Harlowe, nós o pegamos e deixamos que se mostre contra a forma que continua em nossa mente desde que lemos Ana Karenina. Colocamos os dois lado a lado e, imediatamente, as silhuetas dos dois livros aparecem recortadas uma contra a outra tal como o canto de uma casa (para mudar de figura) aparece recortado contra a plenitude da lua cheia. Contrastamos as características salientes de Richardson com as de Tolstói. Contrastamos a sua obliquidade e verbosidade com a brevidade e a falta de rodeios de Tolstói. Perguntamo-nos por que cada escritor escolheu um ângulo tão diferente de abordagem. Comparamos a emoção que sentimos em diferentes crises de seus livros. Especulamos sobre as diferenças entre o século dezoito na Inglaterra e o século dezenove na Rússia – mas as questões que se insinuam assim que juntamos os livros não têm fim. Assim, por etapas, fazendo perguntas e respondendo-as, descobrimos que decidimos que o livro que acabamos de ler é deste tipo ou do outro, que tem este ou aquele nível de mérito, toma o seu lugar neste ou naquele ponto na literatura como um todo. E se somos bons leitores julgamos, assim, não apenas os clássicos e as obras-primas dos mortos, mas prestamos aos escritores vivos o cumprimento de compará-los como devem ser comparados: com o padrão dos grandes livros do passado.
Assim, pois, quando os moralistas nos perguntam o que ganhamos quando nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer livros bons ao mundo e a tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente. Na verdade, o prazer é tão grande que não se pode ter dúvidas de que sem ele o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é. Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo. Quando o dia do juízo final chegar e todos os segredos forem revelados, não devemos ficar surpresos ao saber que a razão pela qual evoluímos do macaco ao homem, e deixamos nossas cavernas e depusemos nossos arcos e flechas e sentamos ao redor do fogo e conversamos e demos aos pobres e ajudamos os doentes, a razão pela qual construímos, parti
ndo da aridez do deserto e dos emaranhados da floresta, abrigos e sociedades, é simplesmente esta: nós desenvolvemos a paixão da leitura.
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"
Virginia Woolf, "O sol e o peixe"
Quem lê lê
Por não estar nas redes sociais, perco muitos dos debates que mobilizam o mundo digital —o que talvez não seja tão mau. Quando o assunto vale a pena, porém, ele costuma chegar às mídias tradicionais, que acompanho. Foi assim que, com semanas de atraso, tomei ciência da polêmica lançada pelo influenciador Felipe Neto, que se queixou do preço dos livros no Brasil. "Precisamos de uma população leitora, mas tá cada dia mais difícil. Livrarias fechando, preços disparando... Como esperar q o povo leia desse jeito? Livro não pode ser artigo de luxo", postou Neto.
A discussão sobre o preço dos livros é relevante. Não conheço o mercado bem o bastante para me meter nela, mas creio que há um problema na premissa do influenciador. É legal ter acesso aos lançamentos literários, mas não penso que a formação de um público leitor dependa do mercado editorial.
Desde o século 17, mas especialmente a partir do 19, com a popularização das bibliotecas públicas, tornou-se possível ler livros sem pagar por isso. Hoje, com a internet, onde encontramos gratuitamente várias obras que já caíram em domínio público, dá para passar a vida apenas usufruindo desse estoque de títulos, com a vantagem de que são clássicos, isto é, já passaram no teste do tempo.
Meu ponto é que o amor pela leitura resulta, como mostram vários estudos, de uma interação entre genes e ambiente. Há pré-requisitos ambientais básicos. É preciso aprender a ler e adquirir alguma proficiência nisso, mas, ao que parece, a facilidade com a qual uma criança lê, característica com fortes componentes genéticos, é que determinará se ela extrairá prazer da atividade e se tornará uma leitora habitual. Basicamente, quem lê lê.
Minha conta bancária é a primeira a advogar por livros mais baratos, mas, se precisamos escolher uma política para ampliar o público leitor, a prioridade é aperfeiçoar o processo de alfabetização nas escolas.
Desde o século 17, mas especialmente a partir do 19, com a popularização das bibliotecas públicas, tornou-se possível ler livros sem pagar por isso. Hoje, com a internet, onde encontramos gratuitamente várias obras que já caíram em domínio público, dá para passar a vida apenas usufruindo desse estoque de títulos, com a vantagem de que são clássicos, isto é, já passaram no teste do tempo.
Meu ponto é que o amor pela leitura resulta, como mostram vários estudos, de uma interação entre genes e ambiente. Há pré-requisitos ambientais básicos. É preciso aprender a ler e adquirir alguma proficiência nisso, mas, ao que parece, a facilidade com a qual uma criança lê, característica com fortes componentes genéticos, é que determinará se ela extrairá prazer da atividade e se tornará uma leitora habitual. Basicamente, quem lê lê.
Minha conta bancária é a primeira a advogar por livros mais baratos, mas, se precisamos escolher uma política para ampliar o público leitor, a prioridade é aperfeiçoar o processo de alfabetização nas escolas.
sexta-feira, agosto 11
A Leitura e o Dilema
Muito se fala sobre a questão do número “modesto” de leitores, em contraponto à volumosa quantidade de livros lançados a cada ano. Certa vez o repórter perguntou-me se há uma relação de causa e consequência. Como eu via essa questão. Verdade, escreve-se mais para o menos. Uma enxurrada de livros me é enviada para que eu dê uma opinião. Dá medo. De boa qualidade poucos vão ficar, a maioria o tempo leva para a poeira do vento.
Bom lembrar que a literatura não tinha antes a concorrência de outros meios, como o teatro, o cinema e a tecnologia de hoje, com a linguagem visual, abrangente e instantânea. O autor tinha mais prestígio. Nem por isso parece que o livro vá desaparecer em seu formato físico, onde existe o ser humano está o sonho, a questão e a incerteza, que a palavra escrita gera. Mudou o suporte. A ferramenta visual da internet, que tem lá seus vícios e virtudes, agora possibilita nova leitura da vida, às vezes a narrativa ganha muito mais leitores, não se pode negar isso, às vezes o que produz é deficiente, celebra besteiras, não vinga. Deixando fora esse tipo de competição massificada, vê-se que a linguagem da arte é sempre específica e exige um leitor íntimo dos problemas estéticos, que têm a ver com a criatividade em si e a recepção do assunto.
Como solucionar o grande enigma, o nó górdio da leitura no Brasil? É um problema do País, de educação, econômico e político. É preciso que haja uma postura séria que ataque as causas do problema. Cabe aos governantes, dirigentes e administradores fornecer os meios para o enfrentamento dessas causas, de natureza complexa. Não é impossível de ser pelo menos atenuado. Basta boa vontade e seriedade. Somos um país de iletrados, sem hábito de leitura, com um poder aquisitivo baixo pelas classes menos favorecidas. Nesse conjunto de omissões falta uma política institucional pública eficiente para fornecer instrumentos com os quais a editora que está nascendo tenha assim algum suporte, estímulo para sobreviver e crescer.
É preciso também uma legislação que obrigue as universidades e colégios estudarem o autor no vestibular e na sala de aula. É preciso criar novas estratégias nos programas de apoio ao livro e de sua circulação nos espaços de leitura. Como está vamos continuar na mesmice. Pior ainda com a concorrência do fácil proposto pela tevê e o vídeo.
Uma questão central da contemporaneidade é a literatura em tempos de Inteligência Artificial, quando máquinas “pensam” e produzem textos cada vez mais subjetivos. Qual seria o desafio dos escritores hoje?
A Inteligência Artificial não cria significado, só os humanos. É digital, desconhece as questões interiores e incertezas. O que sabe do amor? Do inexorável? De Deus? Vê nascer e vê morrer sem nada poder fazer? Se não tem a razão e a emoção como pretende enfrentar os atritos do enigma com o seu peso? Tem seus ganhos, utilidade, mas por enquanto vou ficando no meu canto, escrevendo o meu tanto, com espanto e encanto.
Cyro de Mattos
Bom lembrar que a literatura não tinha antes a concorrência de outros meios, como o teatro, o cinema e a tecnologia de hoje, com a linguagem visual, abrangente e instantânea. O autor tinha mais prestígio. Nem por isso parece que o livro vá desaparecer em seu formato físico, onde existe o ser humano está o sonho, a questão e a incerteza, que a palavra escrita gera. Mudou o suporte. A ferramenta visual da internet, que tem lá seus vícios e virtudes, agora possibilita nova leitura da vida, às vezes a narrativa ganha muito mais leitores, não se pode negar isso, às vezes o que produz é deficiente, celebra besteiras, não vinga. Deixando fora esse tipo de competição massificada, vê-se que a linguagem da arte é sempre específica e exige um leitor íntimo dos problemas estéticos, que têm a ver com a criatividade em si e a recepção do assunto.
Como solucionar o grande enigma, o nó górdio da leitura no Brasil? É um problema do País, de educação, econômico e político. É preciso que haja uma postura séria que ataque as causas do problema. Cabe aos governantes, dirigentes e administradores fornecer os meios para o enfrentamento dessas causas, de natureza complexa. Não é impossível de ser pelo menos atenuado. Basta boa vontade e seriedade. Somos um país de iletrados, sem hábito de leitura, com um poder aquisitivo baixo pelas classes menos favorecidas. Nesse conjunto de omissões falta uma política institucional pública eficiente para fornecer instrumentos com os quais a editora que está nascendo tenha assim algum suporte, estímulo para sobreviver e crescer.
É preciso também uma legislação que obrigue as universidades e colégios estudarem o autor no vestibular e na sala de aula. É preciso criar novas estratégias nos programas de apoio ao livro e de sua circulação nos espaços de leitura. Como está vamos continuar na mesmice. Pior ainda com a concorrência do fácil proposto pela tevê e o vídeo.
Uma questão central da contemporaneidade é a literatura em tempos de Inteligência Artificial, quando máquinas “pensam” e produzem textos cada vez mais subjetivos. Qual seria o desafio dos escritores hoje?
A Inteligência Artificial não cria significado, só os humanos. É digital, desconhece as questões interiores e incertezas. O que sabe do amor? Do inexorável? De Deus? Vê nascer e vê morrer sem nada poder fazer? Se não tem a razão e a emoção como pretende enfrentar os atritos do enigma com o seu peso? Tem seus ganhos, utilidade, mas por enquanto vou ficando no meu canto, escrevendo o meu tanto, com espanto e encanto.
Cyro de Mattos
Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és
Na literatura, como no amor, ficamos admirados
com as escolhas que os outros fazem
André Maurois
Temos sempre curiosidade de saber o que os outros, em especial, os nossos amigos ou simples conhecidos, andam a ler. Como se, a partir de aí, pudéssemos ficar a conhecê-los melhor. Ou por simples curiosidade, sem segundo sentido. Seja como for, temos frequentemente grandes surpresas. De algumas dessas escolhas, partilhamos, outras deixam-nos simplesmente perplexos.
Vejo constantemente, nos jornais, questionários dos mais variados formatos, nos quais acaba por aparecer a inevitável pergunta “quais os seis ou os dez livros que o marcaram” ou “quais os personagens de ficção que mais o impressionaram”. As respostas, na maioria dos casos, são, no mínimo, inquietantes, não pelo que indicam de leituras feitas, antes pelo que indiciam de leituras, mais do que provavelmente, não feitas. Outras vezes, as respostas – as menos
interessantes - revelam apenas um exibicionismo provinciano, como o caso do entrevistado que dá, como personagem de ficção que mais o marcou, o Bloom, do "Ulisses", de James Joyce! Como se alguém pudesse acreditar em tal tolice! Como se Joyce tivesse jamais pretendido ou conseguido criar qualquer verdadeiro personagem de ficção! Muito menos, um personagem minimamente atraente! Como se, de uma tão rica panóplia de gente ficcional propiciada pelas grandes literaturas de todos os tempos, alguém se pudesse lembrar de Bloom, como seu personagem preferido!
Mas o que verdadeiramente me surpreende e não pouco me inquieta são certas escolhas, não só por se referirem a obras mais do que insignificantes, como, sobretudo, por dizerem respeito apenas a obras publicadas nos nossos dias: como se o riquíssimo passado não existisse. Como se a literatura tivesse começado ontem ou anteontem. Quando se interroga toda uma coorte de notáveis da nossa praça, acerca de poetas preferidos, fica-se com a ideia perturbante de que a poesia portuguesa começou com a Sophia.: antes dela, nada houve a assinalar.
interessantes - revelam apenas um exibicionismo provinciano, como o caso do entrevistado que dá, como personagem de ficção que mais o marcou, o Bloom, do "Ulisses", de James Joyce! Como se alguém pudesse acreditar em tal tolice! Como se Joyce tivesse jamais pretendido ou conseguido criar qualquer verdadeiro personagem de ficção! Muito menos, um personagem minimamente atraente! Como se, de uma tão rica panóplia de gente ficcional propiciada pelas grandes literaturas de todos os tempos, alguém se pudesse lembrar de Bloom, como seu personagem preferido!
Mas o que verdadeiramente me surpreende e não pouco me inquieta são certas escolhas, não só por se referirem a obras mais do que insignificantes, como, sobretudo, por dizerem respeito apenas a obras publicadas nos nossos dias: como se o riquíssimo passado não existisse. Como se a literatura tivesse começado ontem ou anteontem. Quando se interroga toda uma coorte de notáveis da nossa praça, acerca de poetas preferidos, fica-se com a ideia perturbante de que a poesia portuguesa começou com a Sophia.: antes dela, nada houve a assinalar.
Eu tive e tenho ainda hoje um grande problema: tento acompanhar, o melhor que sei e posso, a literatura do meu tempo, mas sempre com a angústia de estar a ignorar uma obra-prima do passado, que ainda não tenha visitado. É talvez isto mesmo que se reflecte no atrevido aforismo do conhecido ensaísta e moralista francês, Joseph Joubert (Sec. XVIII/XIX), quando diz: “O pior que há nos livros novos é impedirem-nos de ler os velhos.” Não se diga que é reacionarismo, porque não é. Quantos nunca tiveram, por exemplo, o prazer de ler essa extraordinária obra-prima do romance psicológico e autobiográfico, que é o "Adolphe", de Benjamin Constant, ou essa perturbante descida aos abismos da condição humana, que é "A confissão de Stavroguine", de Dostoiewsky, por não quererem perder a última novidade, de que "se fala”. Quantos nunca leram o sábio, cândido e eternamente saboroso Montaigne, por causa da premência que faz um best-seller aparecido na semana passada. Eu sei que a tentação é grande, porque eu próprio a sinto. Mas há que encontrar um “equilíbrio delicado” entre as riquezas do passado e as do presente. A pólvora foi inventada pelos chineses, há muitos séculos, e não por qualquer moderno aprendiz de feiticeiro.
quinta-feira, agosto 10
A pirâmide visual da leitura
O Egito floresceu no século XI sob o domínio dos fatímidas, tirando sua riqueza do vale do Nilo e do comércio com seus vizinhos do Mediterrâneo, enquanto suas fronteiras arenosas eram protegidas por um exército recrutado no exterior - berberes, sudaneses e turcos. Esse arranjo heterogêneo de comércio internacional e mercenários deu ao Egito fatímida todas as vantagens e desígnios de um estado verdadeiramente cosmopolita. Em 1004, o califa al-Hakim (que assumira o poder aos onze anos de idade e desaparecera misteriosamente durante uma caminhada solitária 25 anos depois) fundou uma grande academia no Cairo - a Dar al-Ilm, ou Casa da Ciência - segundo o modelo de instituições pré-islâmicas, doando ao povo sua importante coleção de manuscritos e decretando que “todo mundo pode vir aqui para ler, transcrever e instruir-se”. As decisões excêntricas de al-Hakim - proibiu jogo de xadrez e a venda de peixes sem escamas - e sua notória sede de sangue foram temperadas, na imaginação popular, por seu sucesso administrativo. Seu objetivo era tornar o Cairo fatímida não apenas o centro simbólico do poder político, mas também a capital da busca artística e da pesquisa científica; com essa ambição, convidou para a corte muitos astrônomos e matemáticos famosos, entre eles al-Haytham. A missão oficial de al-Haytham era estudar um método que regulasse o fluxo do Nilo. Isso ele fez, sem êxito, mas também gastou seus dias preparando uma refutação das teorias astronômicas de Ptolomeu (que, segundo seus inimigos, “era menos uma refutação do que um novo conjunto de dúvidas”) e suas noites escrevendo o grosso volume sobre ótica que lhe asseguraria a fama.
Mas, de forma mais radical, al-Haytham fez uma distinção entre “sensação pura” e “percepção”, sendo a primeira inconsciente ou involuntária - ver a luz fora da minha janela e as formas cambiantes da tarde – e exigindo a segunda um ato voluntário de reconhecimento seguir um texto numa página. A importância do argumento de al-Haytham estava em identificar pela primeira vez, no ato de perceber, uma gradação da ação consciente que vai do ver ao decifrar ou ler.
Al-Haytham morreu no Cairo, em 1038. Dois séculos mais tarde, o erudito inglês Roger Bacon - tentando justificar o estudo da ótica ao papa Clemente IV numa época em que certas facções da Igreja Católica sustentavam violentamente que a pesquisa científica era contrária ao dogma cristão – ofereceu um resumo revisado da teoria al-Haytham.
Segundo al-Haytham (e, ao mesmo tempo, minimizando a importância da sabedoria islâmica), Bacon explicou a Sua Santidade a mecânica da teoria da intromissão.
Segundo Bacon, quando olhamos para um objeto (uma árvore ou as letras SOL), forma-se uma pirâmide visual que tem sua base no objeto e seu ápice no centro da curvatura da córnea. Nós “vemos” quando a pirâmide entra em nosso olho e seus raios são dispostos sobre a superfície do nosso globo ocular, refratados de tal forma que não se cruzam. Ver, para Bacon, era o processo ativo pelo qual uma imagem do objeto entrava no olho e era então apreendida pelos “poderes visuais” dele.
Mas como essa percepção se torna leitura? Como o ato de apreender letras relaciona-se com um processo que envolve não somente visão e percepção, mas inferência, julgamento, memória, reconhecimento, conhecimento, experiência, prática? Al-Haytham sabia (e Bacon certamente concordava) que todos esses elementos necessários para realizar o ato de ler conferiam-lhe uma complexidade impressionante, cujo desempenho satisfatório exigia a coordenação de centenas de habilidades diferentes. E não apenas essas habilidades, mas o momento, o lugar e a plaquinha, o rolo, a página ou a tela sobre a qual o ato é realizado afetam a leitura: para o pastor sumério anônimo, a aldeia perto de onde pastoreava suas cabras e a argila arredondada; para al-Haytham, a nova sala branca da academia do Cairo e o manuscrito de Ptolomeu lido desdenhosamente; para Bacon, a cela da prisão a que fora condenado por seus ensinamentos heterodoxos e seus preciosos volumes científicos; para Leonardo, a corte do rei Francisco I, onde passou seus últimos anos, e os cadernos de anotações que mantinha em código secreto, os quais só podem ser lidos diante de um espelho. Todos esses elementos desconcertantemente diversos unem-se naquele ato único; até aí, al-Haytham presumira.
Os estudos modernos de neurolinguística, a relação entre cérebro e linguagem, começaram quase oito séculos e meio depois de al-Haythan, em 1865. Naquele ano, dois cientistas franceses, Michel Dax e Paul Brocat sugeriram em estudos simultâneos, mas separados, que a grande maioria da humanidade, em consequência de um processo genético que começa na concepção, nasce com um hemisfério cerebral esquerdo que se tornará a parte dominante do cérebro para codificar e decodificar a linguagem; uma proporção muito menor, em sua maioria canhotos ou ambidestros, desenvolve essa função no hemisfério direito. Em uns poucos casos (pessoas predispostas geneticamente a um hemisfério esquerdo dominante), danos precoces ao hemisfério esquerdo resultam numa reprogramação cerebral e levam ao desenvolvimento da função da linguagem no hemisfério direito. Mas nenhum dos hemisférios atuará como codificador e decodificador enquanto a pessoa não for exposta efetivamente à linguagem.
Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à ideia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se seguindo um padrão semelhante. “Descobrimos” uma palavra porque o objeto ou ideia que ela representa já está em nossa mente, pronto para ser ligado à palavra. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem aos nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura.
Alberto Manguel, "Uma história da leitura"
De acordo com al-Haytham, todas as percepções do mundo externo envolvem uma certa influência deliberada que deriva da nossa faculdade de julgar. Para desenvolver essa teoria, al-Haytham seguiu o argumento básico da teoria da intromissão de Aristóteles - segundo a qual as qualidades do que vemos entram no olho por meio do ar - e fundamentou sua escolha com explicações físicas, matemáticas e fisiológicas precisas.
Mas, de forma mais radical, al-Haytham fez uma distinção entre “sensação pura” e “percepção”, sendo a primeira inconsciente ou involuntária - ver a luz fora da minha janela e as formas cambiantes da tarde – e exigindo a segunda um ato voluntário de reconhecimento seguir um texto numa página. A importância do argumento de al-Haytham estava em identificar pela primeira vez, no ato de perceber, uma gradação da ação consciente que vai do ver ao decifrar ou ler.
Al-Haytham morreu no Cairo, em 1038. Dois séculos mais tarde, o erudito inglês Roger Bacon - tentando justificar o estudo da ótica ao papa Clemente IV numa época em que certas facções da Igreja Católica sustentavam violentamente que a pesquisa científica era contrária ao dogma cristão – ofereceu um resumo revisado da teoria al-Haytham.
Segundo al-Haytham (e, ao mesmo tempo, minimizando a importância da sabedoria islâmica), Bacon explicou a Sua Santidade a mecânica da teoria da intromissão.
Segundo Bacon, quando olhamos para um objeto (uma árvore ou as letras SOL), forma-se uma pirâmide visual que tem sua base no objeto e seu ápice no centro da curvatura da córnea. Nós “vemos” quando a pirâmide entra em nosso olho e seus raios são dispostos sobre a superfície do nosso globo ocular, refratados de tal forma que não se cruzam. Ver, para Bacon, era o processo ativo pelo qual uma imagem do objeto entrava no olho e era então apreendida pelos “poderes visuais” dele.
Mas como essa percepção se torna leitura? Como o ato de apreender letras relaciona-se com um processo que envolve não somente visão e percepção, mas inferência, julgamento, memória, reconhecimento, conhecimento, experiência, prática? Al-Haytham sabia (e Bacon certamente concordava) que todos esses elementos necessários para realizar o ato de ler conferiam-lhe uma complexidade impressionante, cujo desempenho satisfatório exigia a coordenação de centenas de habilidades diferentes. E não apenas essas habilidades, mas o momento, o lugar e a plaquinha, o rolo, a página ou a tela sobre a qual o ato é realizado afetam a leitura: para o pastor sumério anônimo, a aldeia perto de onde pastoreava suas cabras e a argila arredondada; para al-Haytham, a nova sala branca da academia do Cairo e o manuscrito de Ptolomeu lido desdenhosamente; para Bacon, a cela da prisão a que fora condenado por seus ensinamentos heterodoxos e seus preciosos volumes científicos; para Leonardo, a corte do rei Francisco I, onde passou seus últimos anos, e os cadernos de anotações que mantinha em código secreto, os quais só podem ser lidos diante de um espelho. Todos esses elementos desconcertantemente diversos unem-se naquele ato único; até aí, al-Haytham presumira.
Mas o modo como tudo acontecia, que conexões intrincadas e fabulosas esses elementos estabeleciam entre eles, essa era uma questão que, para al-Haytham e seus leitores, permanecia sem resposta.
Os estudos modernos de neurolinguística, a relação entre cérebro e linguagem, começaram quase oito séculos e meio depois de al-Haythan, em 1865. Naquele ano, dois cientistas franceses, Michel Dax e Paul Brocat sugeriram em estudos simultâneos, mas separados, que a grande maioria da humanidade, em consequência de um processo genético que começa na concepção, nasce com um hemisfério cerebral esquerdo que se tornará a parte dominante do cérebro para codificar e decodificar a linguagem; uma proporção muito menor, em sua maioria canhotos ou ambidestros, desenvolve essa função no hemisfério direito. Em uns poucos casos (pessoas predispostas geneticamente a um hemisfério esquerdo dominante), danos precoces ao hemisfério esquerdo resultam numa reprogramação cerebral e levam ao desenvolvimento da função da linguagem no hemisfério direito. Mas nenhum dos hemisférios atuará como codificador e decodificador enquanto a pessoa não for exposta efetivamente à linguagem.
No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro.
Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à ideia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se seguindo um padrão semelhante. “Descobrimos” uma palavra porque o objeto ou ideia que ela representa já está em nossa mente, pronto para ser ligado à palavra. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem aos nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura.
Alberto Manguel, "Uma história da leitura"
Há dias
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
Eugénio de Andrade, " Os Lugares do Lume"
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-se comigo
quero eu dizer:
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
Eugénio de Andrade, " Os Lugares do Lume"
Gambiarras literárias
Trocar inteiramente livros didáticos físicos por produtos digitais nunca foi uma boa ideia. Ainda que a tecnologia possa tornar as aulas mais atraentes, incorporando rico material de apoio, há uma montanha de evidências empíricas mostrando que a leitura em papel é mais eficaz do que a em tela. No suporte tradicional, o leitor dedica mais atenção à atividade e retém melhor as informações aprendidas.
Não é um efeito muito forte, mas ele aparece de forma consistente na maior parte dos estudos. Os livros da neurocientista Maryanne Wolf sobre o assunto são uma excelente fonte de dados e interpretações.
Uma parte do problema é fácil de explicar. O sujeito que vai ler um livro no computador ou no celular facilmente se deixa distrair pelas múltiplas tentações da internet. A luz oscilante das telas também torna a tarefa mais cansativa.
Virar páginas e monitorar pelos olhos o avanço do processo ajudam o cérebro a montar os mapas mentais em que ele se apoia para realizar tarefas e memorizar informações. No caso da escrita, o vínculo entre a parte motora (desenhar as letras) e o aprendizado já está bem estabelecido.
Essas conexões inesperadas se tornam menos misteriosas se considerarmos que a leitura e a escrita, ao contrário da linguagem falada, são novidades em nossa história evolutiva. Ainda não desenvolvemos estruturas cerebrais especializadas para lidar com elas. O que fizemos foi cooptar outras estruturas. O reconhecimento de letras, por exemplo, se dá na mesma área que reconhece rostos. Desse amontoado de gambiarras e puxadinhos, aparecerão mesmo algumas surpresas.
Não é um efeito muito forte, mas ele aparece de forma consistente na maior parte dos estudos. Os livros da neurocientista Maryanne Wolf sobre o assunto são uma excelente fonte de dados e interpretações.
Uma parte do problema é fácil de explicar. O sujeito que vai ler um livro no computador ou no celular facilmente se deixa distrair pelas múltiplas tentações da internet. A luz oscilante das telas também torna a tarefa mais cansativa.
Quando passamos das telas para dispositivos de leitura como o Kindle, em que a internet não está tão disponível e que trocam a luz azul pela tecnologia do papel líquido, os efeitos adversos se reduzem, mas não desaparecem. Uma hipótese para explicar a persistência da diferença é que há fisicalidade na leitura.
Virar páginas e monitorar pelos olhos o avanço do processo ajudam o cérebro a montar os mapas mentais em que ele se apoia para realizar tarefas e memorizar informações. No caso da escrita, o vínculo entre a parte motora (desenhar as letras) e o aprendizado já está bem estabelecido.
Essas conexões inesperadas se tornam menos misteriosas se considerarmos que a leitura e a escrita, ao contrário da linguagem falada, são novidades em nossa história evolutiva. Ainda não desenvolvemos estruturas cerebrais especializadas para lidar com elas. O que fizemos foi cooptar outras estruturas. O reconhecimento de letras, por exemplo, se dá na mesma área que reconhece rostos. Desse amontoado de gambiarras e puxadinhos, aparecerão mesmo algumas surpresas.
‘Romeu e Julieta’ banido do distrito escolar da Flórida – devido a conteúdo sexual
"Portanto és tu Romeu?"
Definitivamente não em Hillsborough County, Flórida, onde o conselho escolar local anunciou na terça-feira que os alunos não terão mais permissão para ler muitas das peças de Shakespeare na íntegra – devido ao conteúdo sexual.
A decisão está de acordo com a Lei dos Direitos dos Pais na Educação de 2022, de acordo com o conselho.
A lei, recentemente sancionada pelo governador Ron DeSantis, proíbe qualquer discussão de natureza sexual na sala de aula, a menos que se refira a um padrão, como aulas de saúde.
“Também foi em consideração à lei”, disse Tanya Arja, porta-voz do distrito escolar. disse ao Tampa Bay Times.
O distrito declarou que, caso um professor não cumpra as novas diretrizes, ele poderá estar sujeito a uma reclamação dos pais ou a um processo disciplinar em sua escola.
Anteriormente, as aulas de inglês no distrito exigiam que os alunos lessem pelo menos dois romances ou peças ao longo do ano letivo.
Agora, os alunos lerão um romance e trechos de cinco a sete livros ou peças diferentes.
“Precisamos garantir que nossos alunos estejam preparados com material suficiente durante o ano para que estejam preparados para suas avaliações”, continuou Arja, acrescentando que, ao ficar com trechos, a escola pode evitar conteúdo picante ou sexual.
Ao lado de “Romeu e Julieta”, Hillsborough decidiu censurar partes de “Macbeth” e “Hamlet”.
De acordo com o distrito, nenhuma das peças do Bardo foi totalmente banida e, caso um aluno deseje ler a peça na íntegra, há certas maneiras de obter uma cópia dos clássicos do século XVII.
Vários membros do conselho escolar e professores relataram que desconheciam as mudanças até recentemente.
“Estou extremamente desapontado com o fato de que a maioria de nossos legisladores e o departamento de educação nomeado pelo governador não estão refletindo os ‘direitos dos pais’ e estão impondo leis/regras educacionais sem um feedback cuidadoso da comunidade”, criticou Jessica, membro do conselho escolar, em uma postagem no Facebook.
“Sem muita orientação de como implementar essas regras/leis sem afetar o desempenho dos alunos, sem muito feedback dos funcionários e quase sem clareza das penalidades associadas a essas novas leis, regras”, disse ela.
Vaughn também observou que o conselho foi igualmente pego de surpresa pela decisão do DOE da Flórida de parar de oferecer cursos de Psicologia de Colocação Avançada, depois que o College Board se recusou a omitir material sobre identidade de gênero e orientação sexual.
“Honestamente, parece que muito disso é intencional, a fim de causar o maior caos possível na educação pública, para que o colapso da educação pública seja rápido e a agenda de privatização da educação possa avançar com menos obstáculos”, opinou Vaughn .
Um professor do distrito chamou a mudança de “absurda”.
“Acho que o resto da nação – não, o mundo, está rindo de nós”, professor de leitura do ensino médio Joseph Cool disse a um repórter. “Tirar Shakespeare em sua totalidade porque o relacionamento entre Romeu e Julieta está de alguma forma explorando menores é simplesmente absurdo.”
De acordo com o educador, ensinar “Macbeth” para seus alunos do 10º ano deu a eles “uma sensação de conexão entre coisas que aconteceram no passado e coisas que não são necessariamente do passado”.
“As escolhas que fazemos, lutas pelo poder, ilusões de grandeza. É tão rico em conteúdo e coisas sobre as quais você pode ter discussões acadêmicas e acadêmicas”, disse Cool, acrescentando que ler a peça em trechos diminuiria a experiência.
Definitivamente não em Hillsborough County, Flórida, onde o conselho escolar local anunciou na terça-feira que os alunos não terão mais permissão para ler muitas das peças de Shakespeare na íntegra – devido ao conteúdo sexual.
A decisão está de acordo com a Lei dos Direitos dos Pais na Educação de 2022, de acordo com o conselho.
A lei, recentemente sancionada pelo governador Ron DeSantis, proíbe qualquer discussão de natureza sexual na sala de aula, a menos que se refira a um padrão, como aulas de saúde.
“Também foi em consideração à lei”, disse Tanya Arja, porta-voz do distrito escolar. disse ao Tampa Bay Times.
O distrito declarou que, caso um professor não cumpra as novas diretrizes, ele poderá estar sujeito a uma reclamação dos pais ou a um processo disciplinar em sua escola.
Anteriormente, as aulas de inglês no distrito exigiam que os alunos lessem pelo menos dois romances ou peças ao longo do ano letivo.
Agora, os alunos lerão um romance e trechos de cinco a sete livros ou peças diferentes.
“Precisamos garantir que nossos alunos estejam preparados com material suficiente durante o ano para que estejam preparados para suas avaliações”, continuou Arja, acrescentando que, ao ficar com trechos, a escola pode evitar conteúdo picante ou sexual.
Ao lado de “Romeu e Julieta”, Hillsborough decidiu censurar partes de “Macbeth” e “Hamlet”.
De acordo com o distrito, nenhuma das peças do Bardo foi totalmente banida e, caso um aluno deseje ler a peça na íntegra, há certas maneiras de obter uma cópia dos clássicos do século XVII.
Vários membros do conselho escolar e professores relataram que desconheciam as mudanças até recentemente.
“Estou extremamente desapontado com o fato de que a maioria de nossos legisladores e o departamento de educação nomeado pelo governador não estão refletindo os ‘direitos dos pais’ e estão impondo leis/regras educacionais sem um feedback cuidadoso da comunidade”, criticou Jessica, membro do conselho escolar, em uma postagem no Facebook.
“Sem muita orientação de como implementar essas regras/leis sem afetar o desempenho dos alunos, sem muito feedback dos funcionários e quase sem clareza das penalidades associadas a essas novas leis, regras”, disse ela.
Vaughn também observou que o conselho foi igualmente pego de surpresa pela decisão do DOE da Flórida de parar de oferecer cursos de Psicologia de Colocação Avançada, depois que o College Board se recusou a omitir material sobre identidade de gênero e orientação sexual.
“Honestamente, parece que muito disso é intencional, a fim de causar o maior caos possível na educação pública, para que o colapso da educação pública seja rápido e a agenda de privatização da educação possa avançar com menos obstáculos”, opinou Vaughn .
Um professor do distrito chamou a mudança de “absurda”.
“Acho que o resto da nação – não, o mundo, está rindo de nós”, professor de leitura do ensino médio Joseph Cool disse a um repórter. “Tirar Shakespeare em sua totalidade porque o relacionamento entre Romeu e Julieta está de alguma forma explorando menores é simplesmente absurdo.”
De acordo com o educador, ensinar “Macbeth” para seus alunos do 10º ano deu a eles “uma sensação de conexão entre coisas que aconteceram no passado e coisas que não são necessariamente do passado”.
“As escolhas que fazemos, lutas pelo poder, ilusões de grandeza. É tão rico em conteúdo e coisas sobre as quais você pode ter discussões acadêmicas e acadêmicas”, disse Cool, acrescentando que ler a peça em trechos diminuiria a experiência.
quarta-feira, agosto 9
O que sumiu e o que voltou
Começou há algumas semanas, quando me gabei de ter sido um grande chutador de tampinhas, daquelas de refrigerante, soltas nas calçadas. Dias depois, um leitor perguntou se eu era capaz de dar o piparote com o sapato na borda da tampinha, fazê-la subir e matá-la no peito do pé. Humilhado, tive de confessar que não. E, agora, outro leitor, para meu opróbrio supremo, escreve para dizer que no peito do pé era fácil ---ele queria ver era se o sujeito fazia, como ele, a tampinha pousar no lado do pé. Tudo isto porque observei que, por falta das próprias, ninguém mais chuta tampinhas pelas ruas.
Muita coisa deixou de existir por falta de matéria-prima. Por exemplo, ninguém mais escorrega em cascas de banana. Continua a chover, mas não se usam mais galochas. Ninguém mais cheira rapé ou sopra chicletes de bola. Ninguém mais usa boina, só boné, e, mesmo assim, ao contrário. Artigos de primeira necessidade como o pote de goma arábica, o mata-borrão e a espátula para abrir cartas deixaram de existir. Ninguém mais lambe selos para pregar no envelope. Eu próprio há anos não lambo um selo e não escrevo ou recebo uma carta.
Velhos hábitos desapareceram. Desaprendemos, por exemplo, a aplaudir sentados. Qualquer showzeco nota 3, se aplaudido, é hoje aplaudido de pé. Em breve, teremos de plantar bananeiras para premiar uma performance verdadeiramente genial. E perdeu-se de vez a arte de bater carteiras. Os atuais meliantes não se valem mais de dedos leves e hábeis para subtraí-las de nossos bolsos. Vão direto de trabuco no nariz, até porque, com o celular e o pix, já quase não se usam carteiras. .
Em compensação, coisas há muito dadas como extintas estão voltando espetacularmente. Uma delas é o bigodinho, fora de moda há uns 70 anos. Os garotos voltaram a jogar bafo com as figurinhas. E até o estrogonofe voltou.
Mas preocupante mesmo é a volta do nazismo.
Muita coisa deixou de existir por falta de matéria-prima. Por exemplo, ninguém mais escorrega em cascas de banana. Continua a chover, mas não se usam mais galochas. Ninguém mais cheira rapé ou sopra chicletes de bola. Ninguém mais usa boina, só boné, e, mesmo assim, ao contrário. Artigos de primeira necessidade como o pote de goma arábica, o mata-borrão e a espátula para abrir cartas deixaram de existir. Ninguém mais lambe selos para pregar no envelope. Eu próprio há anos não lambo um selo e não escrevo ou recebo uma carta.
Velhos hábitos desapareceram. Desaprendemos, por exemplo, a aplaudir sentados. Qualquer showzeco nota 3, se aplaudido, é hoje aplaudido de pé. Em breve, teremos de plantar bananeiras para premiar uma performance verdadeiramente genial. E perdeu-se de vez a arte de bater carteiras. Os atuais meliantes não se valem mais de dedos leves e hábeis para subtraí-las de nossos bolsos. Vão direto de trabuco no nariz, até porque, com o celular e o pix, já quase não se usam carteiras. .
Em compensação, coisas há muito dadas como extintas estão voltando espetacularmente. Uma delas é o bigodinho, fora de moda há uns 70 anos. Os garotos voltaram a jogar bafo com as figurinhas. E até o estrogonofe voltou.
Mas preocupante mesmo é a volta do nazismo.
Droenha
Amanhecendo o sol dava em desverde de rochedos e pedregulho, fazia soledade, de repente, silêncio. Ventava, porém. Era ali lugar para pasmos; estava-se também perto das nuvens. Ele é que não podia retroceder. Voavam gaviões. Jenzirico nunca imaginara ter de matar um homem e vir se esconder na Serra.
De noite Izidro ao topo escalvado o guiara, dizendo que lá em seguro viviam certos fugidos criminosos; surpreendia-o agora ser um deles. Muito fino respirava. Tinha de resguardar mochila e saco, para descanso, dormir mesmo pudesse; numa reentrância, quase gruta, se agasalhara do ar. Diante avistava penhasqueira, a pique, prateleiras de pedra. Só perigos o esperassem, repelia pensamentos, ninguém está a cobro da doideira de si e dos outros. Ali era um alpendre.
Precisava de conhecer o situado: o chão, em que permeio os burgaus rareava grama, o facheiro, cardos; tufos de barbacena e arnica cerrando o adro pedrento. De lá devia um pouco descer. Sobrestado, tardador, quis escolher qual rumo, mão em arma. Jenzirico... — ele súbito se advertiu, vez primeira atentava em seu nome, vasqueiro, demais despropositado. Se benzeu, sacou de ombros, tudo sucedia por modo de mentira.
Depassou volumes de rochas erguidas e lajes em empilho, pisava alecrins, o sassafrás-serrano, abeirava despenhadeiros. Ia topar de perto os outros definidos foragidos, se dizia que plantavam mandiocal, milhos, deparando com esses não havia de estranhar o acaso. De pau em-pé, só se notando ainda candeias, bolsas-de-pastor, alguma que uma tipuana. Pássaros cantavam feito sabiás, vai ver sabiás mesmos. Em mente de olhos ele aprendia o caminho, ali era já chão mole, catou para provar mangabas caidiças. Entanto estranhava o que avistava — não o feitio dos espaços, mas o jeito dele mesmo enxergar — afiado desenrolado. Até assim ramas e refolhagem verdeando com luz de astúcias. Agora, altas árvores.
Ninguém, nem. O ruído nenhum, rastro não se dando de achar. Correu, de través levantada a espingarda, rolou quase por pirambeira, chegou à meia-gruta frente ao mocozal. Caindo se sentou, com restos de tremer, sentia no oco da boca o tefe do coração. Só apalpou a cabeça: o chapéu, de toda aba, ele perdera.
Jenzirico mais nem pôde que assar em brasas carne-seca; faltava café, tomou cachaça.
Virava falseio, divago, a visão de antes: senão as brujajaras, as aves pintadas e listradas de amarelo ou branco, fracas no esvoaçar, rabos trescompridos. Apurado caçou e não achou o chapéu, pouca sorte. Devia já arrancar feixes de capim, para cama, enrolado em cobertor, noite por noite. Precavia-se ficando no limpo do pedregal, mesmo lá divisara cobra, por essas é que revinham a acauã e o enorme gavião-roxo: um perto dele pousou em penha, escuro, escancaradas as asas.
Salteado avançou derredor os vultos pedrouços, seguia o que não via, por trás de qualquer instante, inimigo o observava. O chão nenhuma calcadura marcava, aquele nem era chão, pedroenga, ondeonde os chatos cactos, dependuradas as vagens secas da tipuã, o jacarandá-de-espinho balançando douradas grandes flores. De novo o mocoal, pedreira cinzenta. — Cooó! cóoo... — escutando. Teria disposição de repetir morte? Matar era a burra ação, tão repentina e incerta, que fixe quase não se crê nem se vê, semelha confuso ato de espetáculo, procedido longe, por postiças mãos. Bateu-lhe o arrepio, doentemente, a sede, o sol; acabara a cachaça. Então, ele mesmo era quem tinha espirrado?
Veio, penoso se despiu, entrado na lagoazinha, água-de-grota. Em febre se esqueceu, desconheceu as horas, até outra calafriagem. Concebia um pressentir. Deu fé: roupa, espingarda, alpercatas — tudo desaparecido.
Jenzirico molhado se arrastou, doía de amedrontado, até a suas pedras moradias. Nu chorando ele fechava os olhos, com vergonha da solidão. Medo. Esperou o de vir, pavor, era como os transes. Ele remexia no podre dos pensamentos.
Tão então. — Matei, sim... — gritou, padecidamente, confessava: ter atirado no perverso Zèvasco, que na rua escura o agredira, sem eis nem pois; e fugido, imediato, mais de nada se certificando... Escutasse-o o ermo, ninguém? Clamou, assim mesmo alto e claro falou, repetia, o quanto de si mesmo o livrasse, provia algum perdão.
Porém, para repuxo e sobressalto. Viu, enfim, no sacudimento: aquele, o qual! Semelhante homem — trajado sabido, enchapelado — de suspapés, olhava-o, bugiava? O indivíduo — solerte vivo de curiosidades. Ia investir. Mas inesperado se afastou, com passos, expedido, campou no mundo. Virou o já acontecido.
Até que, a retorno do tempo, chamavam-lhe o nome. Izidro e Pedroandré, eram os dois, mesmo montando mulas: — Que há? Introduzido nos capins o achavam. E diziam o desassombro: Zèvasco não morrera, na ocasião. — Agora, sim... — morto estava. Sujeito sandeu aparecera, direto para o exterminar, a toda a lei. Semelhante antigo homem, um Jinjibirro, em engraçadas encurtadas roupas, chapelão; o que, de havia muitos anos, levara sumiço, desertor serrão, revel por intimado de crime, ainda que se sabendo, depois, que nem não era o exato assassino.
— Tòvasco vingou o irmão, à faca ainda pegou o estúrdio reaparecido, o derribou, porém se foi também, com muito barulho... De vez e revez, os terríveis estavam terminados.
Jenzirico pedia o de que se revestir, e voltar para o mundo sueto, ciente só de mais fortes fazêres, trouxesse um mocó, por estripar, trem único que aqueles dias caçara, num dali e dalém, coitado, alto, no meio da Serra, em pedra e brenha.
Guimarães Rosa, "Tutameia"
De noite Izidro ao topo escalvado o guiara, dizendo que lá em seguro viviam certos fugidos criminosos; surpreendia-o agora ser um deles. Muito fino respirava. Tinha de resguardar mochila e saco, para descanso, dormir mesmo pudesse; numa reentrância, quase gruta, se agasalhara do ar. Diante avistava penhasqueira, a pique, prateleiras de pedra. Só perigos o esperassem, repelia pensamentos, ninguém está a cobro da doideira de si e dos outros. Ali era um alpendre.
Das fendas do paredão, a intervalos, apareciam pequenos entes, à espreita, os mocós. Jenzirico preservava chapéu na cabeça. Dispunha apenas de espingarda e faca, o revólver botara fora, após o susto do ato. Izidro voltaria, certo, com mais coisas, conselhos, comida, pelo tempo que lhe cabia parar aqui. Mesmo a Serra estava nos arrabaldes do mundo. Seu ânimo se sombreou. Zèvasco, tranca-ruas, ele tivera de a tiro acabar, por própria justa defesa, é quando a gente se estraga. Viu que temia menos a lei que caso de desforra dos parentes; aprumou-se e andou. Os mocós assoviavam sumindo-se nas luras.
Precisava de conhecer o situado: o chão, em que permeio os burgaus rareava grama, o facheiro, cardos; tufos de barbacena e arnica cerrando o adro pedrento. De lá devia um pouco descer. Sobrestado, tardador, quis escolher qual rumo, mão em arma. Jenzirico... — ele súbito se advertiu, vez primeira atentava em seu nome, vasqueiro, demais despropositado. Se benzeu, sacou de ombros, tudo sucedia por modo de mentira.
Depassou volumes de rochas erguidas e lajes em empilho, pisava alecrins, o sassafrás-serrano, abeirava despenhadeiros. Ia topar de perto os outros definidos foragidos, se dizia que plantavam mandiocal, milhos, deparando com esses não havia de estranhar o acaso. De pau em-pé, só se notando ainda candeias, bolsas-de-pastor, alguma que uma tipuana. Pássaros cantavam feito sabiás, vai ver sabiás mesmos. Em mente de olhos ele aprendia o caminho, ali era já chão mole, catou para provar mangabas caidiças. Entanto estranhava o que avistava — não o feitio dos espaços, mas o jeito dele mesmo enxergar — afiado desenrolado. Até assim ramas e refolhagem verdeando com luz de astúcias. Agora, altas árvores.
Sustou-se por rumor, mas só de espavento: as brujajaras. Teve de querer rir simples. Desaprazível a Serra não era, piava o lindo-azul, jeojeou o bico-miúdo; embora convindo voltar: caçadores e seus cachorros frequentavam os campestres das vertentes. Entortado espiava. De temer a gente tinha de fazer costume.
Inda então andou mais. Deu com miriquilho de vala, ajoelhou-se, bebia água e sol. Mas — no relancear — viu! Desregulado enxergara, a sombra, assomo de espectro? Por trás de buranhém e banana-brava, um homem, nu, em pelo.
Inda então andou mais. Deu com miriquilho de vala, ajoelhou-se, bebia água e sol. Mas — no relancear — viu! Desregulado enxergara, a sombra, assomo de espectro? Por trás de buranhém e banana-brava, um homem, nu, em pelo.
Ninguém, nem. O ruído nenhum, rastro não se dando de achar. Correu, de través levantada a espingarda, rolou quase por pirambeira, chegou à meia-gruta frente ao mocozal. Caindo se sentou, com restos de tremer, sentia no oco da boca o tefe do coração. Só apalpou a cabeça: o chapéu, de toda aba, ele perdera.
Jenzirico mais nem pôde que assar em brasas carne-seca; faltava café, tomou cachaça.
Virava falseio, divago, a visão de antes: senão as brujajaras, as aves pintadas e listradas de amarelo ou branco, fracas no esvoaçar, rabos trescompridos. Apurado caçou e não achou o chapéu, pouca sorte. Devia já arrancar feixes de capim, para cama, enrolado em cobertor, noite por noite. Precavia-se ficando no limpo do pedregal, mesmo lá divisara cobra, por essas é que revinham a acauã e o enorme gavião-roxo: um perto dele pousou em penha, escuro, escancaradas as asas.
Dormitou. Desagrado eram os guinchos dos mocós, por igual agadanhados, no bico das águias aves. Tudo se despercebia. O mocó, bicho esquisito, que sai a meio de entre pedras: — Có, có, có... — sem defesa. Tonteava a velocidade das nuvens para oeste ou este. De fatos mal acontecidos, de jeito nenhum queria lembrar, com farinha também comeu dentada de rapadura. Trepou em árvore, deixando em baixo o paletó; desceu — ele ali mais não estava.
Houvesse aí reinadios macacos, esses qualquer trem surripiam! De tantas tramoias Izidro nem lhe dera esboço, a Serra avultava, esconderija, negando firmeza. As estrelas mesmas se aproximavam. De dia o calor, na regência do sol, as fragas amareladas alumiavam, montanhitância, só em madrugadas e tardes se sofria o enfrio e vento. Os homiziados outros prosperavam quilombo, em confim de macegal e matos, velhacoutos; tivesse um o ousio de aqueles ir procurar, por companhia? A gente tem de temer a gente. Jenzirico sempre receava acender o fogo, alguém se instruísse do lumaréu. Mas rebém as lavaredas de canela-de-ema e candeia o aquentavam, permanecido no esconso. Despertou — ouvindo espirro humano.
Salteado avançou derredor os vultos pedrouços, seguia o que não via, por trás de qualquer instante, inimigo o observava. O chão nenhuma calcadura marcava, aquele nem era chão, pedroenga, ondeonde os chatos cactos, dependuradas as vagens secas da tipuã, o jacarandá-de-espinho balançando douradas grandes flores. De novo o mocoal, pedreira cinzenta. — Cooó! cóoo... — escutando. Teria disposição de repetir morte? Matar era a burra ação, tão repentina e incerta, que fixe quase não se crê nem se vê, semelha confuso ato de espetáculo, procedido longe, por postiças mãos. Bateu-lhe o arrepio, doentemente, a sede, o sol; acabara a cachaça. Então, ele mesmo era quem tinha espirrado?
Veio, penoso se despiu, entrado na lagoazinha, água-de-grota. Em febre se esqueceu, desconheceu as horas, até outra calafriagem. Concebia um pressentir. Deu fé: roupa, espingarda, alpercatas — tudo desaparecido.
Jenzirico molhado se arrastou, doía de amedrontado, até a suas pedras moradias. Nu chorando ele fechava os olhos, com vergonha da solidão. Medo. Esperou o de vir, pavor, era como os transes. Ele remexia no podre dos pensamentos.
Tão então. — Matei, sim... — gritou, padecidamente, confessava: ter atirado no perverso Zèvasco, que na rua escura o agredira, sem eis nem pois; e fugido, imediato, mais de nada se certificando... Escutasse-o o ermo, ninguém? Clamou, assim mesmo alto e claro falou, repetia, o quanto de si mesmo o livrasse, provia algum perdão.
Porém, para repuxo e sobressalto. Viu, enfim, no sacudimento: aquele, o qual! Semelhante homem — trajado sabido, enchapelado — de suspapés, olhava-o, bugiava? O indivíduo — solerte vivo de curiosidades. Ia investir. Mas inesperado se afastou, com passos, expedido, campou no mundo. Virou o já acontecido.
Tornado a si, após, Jenzirico tiritou, variava de querer qualquer calhau pontudo ou um pau: pelos mocós, que à noitinha descem das frinchas pedredas para caminhar, os coelhos-ratos. Vai, o frio de grimpa fazia o tamanho do medo. Ventava por um canudo.
Até que, a retorno do tempo, chamavam-lhe o nome. Izidro e Pedroandré, eram os dois, mesmo montando mulas: — Que há? Introduzido nos capins o achavam. E diziam o desassombro: Zèvasco não morrera, na ocasião. — Agora, sim... — morto estava. Sujeito sandeu aparecera, direto para o exterminar, a toda a lei. Semelhante antigo homem, um Jinjibirro, em engraçadas encurtadas roupas, chapelão; o que, de havia muitos anos, levara sumiço, desertor serrão, revel por intimado de crime, ainda que se sabendo, depois, que nem não era o exato assassino.
— Tòvasco vingou o irmão, à faca ainda pegou o estúrdio reaparecido, o derribou, porém se foi também, com muito barulho... De vez e revez, os terríveis estavam terminados.
Jenzirico pedia o de que se revestir, e voltar para o mundo sueto, ciente só de mais fortes fazêres, trouxesse um mocó, por estripar, trem único que aqueles dias caçara, num dali e dalém, coitado, alto, no meio da Serra, em pedra e brenha.
Guimarães Rosa, "Tutameia"
A teoria cívivo-linguística da catedral
Foi em 2011, entrevistando o escritor israelense Amós Oz, que finalmente compreendi o tamanho do erro de ver na língua um ponto cego do pensamento — mais do que um equívoco típico da tradição anti-intelectual brasileira, o sintoma de uma deficiência mais grave. De uma falha cultural, quem sabe até cívica. Não creio que esteja exagerando.
Estávamos num salão vazio no segundo andar do belo hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e Oz discorria com paixão sobre o idioma hebraico:
— É um instrumento tremendo, ao mesmo tempo antigo e moderno. É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea. Deve-se ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral.
A princípio não entendi. Cuidado por quê? Qual era o perigo?
— Conjurar ecos monstruosos — explicou Oz. — Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soará grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.
O pé-direito alto do salão em que nos encontrávamos parecia ilustrar o elegante argumento. Me ocorreu então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebi como uma epifania: toda língua é uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó.
É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação — a altura do pé-direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.
Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, mas também a que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico — o que demarca o limite da metáfora oziana —, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.
Sérgio Rodrigues, "Viva a língua brasileira!"
Estávamos num salão vazio no segundo andar do belo hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, e Oz discorria com paixão sobre o idioma hebraico:
— É um instrumento tremendo, ao mesmo tempo antigo e moderno. É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea. Deve-se ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral.
A princípio não entendi. Cuidado por quê? Qual era o perigo?
— Conjurar ecos monstruosos — explicou Oz. — Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soará grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.
O pé-direito alto do salão em que nos encontrávamos parecia ilustrar o elegante argumento. Me ocorreu então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebi como uma epifania: toda língua é uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó.
É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação — a altura do pé-direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.
Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, mas também a que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico — o que demarca o limite da metáfora oziana —, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.
Sérgio Rodrigues, "Viva a língua brasileira!"
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