quinta-feira, abril 23
A longa estrada
“Não há talvez dia da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aquele que julgámos passar sem tê-lo vivido, aqueles que passámos com um livro preferido”
Marcel Proust, "O prazer da leitura"
“Pero aquello que vemos com los ojos de la memoria no es idéntico a aquello que vivimos: la vida es irrecuperable”
Octavio Paz, "Los pasos contados"
Nesse ano iniciático da minha longa aprendizagem, as aulas começaram em Outubro. Tinha acabado de fazer seis anos, em Agosto. As férias tinham terminado há poucos dias. A minha Mãe preparara a minha entrada para a Escola Primária.
Era uma Escola branca , igual a tantas outras deste nosso Portugal. Escolas que tinham sido edificadas segundo um projecto nacional preparado pelo Estado. A traça era a mesma de Norte a Sul. Aquele parque escolar tinha duas construções com as mesmas dimensões. Estavam ambas viradas para a estrada e resguardadas por muros da mesma cor branca . A entrada fazia-se por um portão de ferro forjado, com alguns arabescos burilados, e de uma renitente cor preta.
A minha escola era aquela que ficava do lado direito de quem entrava. A minha irmã mais velha estudava noutra sala. Tinha dois anos de avanço sobre mim. Frequentava a 3ª classe.
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| Ella Okstad |
Nesse dia, acordei muito cedo, sem que alguém me tivesse chamado. Foi o meu pai que nos levou à Escola num Citroën , que se designava por Citroën Arrastadeira. Era um carro grande e comprido, onde cabíamos todos.
O meu coração batia forte. Tinha o livro da Primeira Classe e um caderno com linhas. Era uma preciosidade que levava comigo. Além disso, estreara uma bata branquinha e um laçarote na cabeça a condizer. Tudo era novo .
O meu coração batia forte. Tinha o livro da Primeira Classe e um caderno com linhas. Era uma preciosidade que levava comigo. Além disso, estreara uma bata branquinha e um laçarote na cabeça a condizer. Tudo era novo .
A sala tinha quatro filas de carteiras. Cada uma era ocupada por dois alunos. Fiquei na fila junto à parede , do lado oposto da porta e na terceira carteira. A meu lado, sentou-se uma menina que não conhecia. Era mais alta do que eu. Loira e muito simpática. Quase igual à menina de caracóis loiros que compunha a capa do livro da 1ª classe. Tal como ela, tinha também um grande laçarote azul a prender-lhe os cabelos. Estava tão à vontade que pensei que ela já conhecia a escola. Afinal era tão caloira quanto eu. Tinha, isso sim, um grande poder de descontracção perante tudo o que não conhecia. Fui descobrindo essa peculiaridade ao longo do tempo. Chamava-se Maria Rosa. Foi sempre a minha colega de carteira, enquanto estudei naquela escola, ou seja, até acabar a terceira classe. Iniciámos nesse dia uma grande cumplicidade que nos manteve ligadas e amigas durante esses anos. ( Há tanta gente que se perde , que fica para trás sem que nada possamos fazer. A Maria Rosa desapareceu da minha vida quando mudei de escola e de local de residência. Como ela tantos outros bons amigos que preencheram a minha infância e juventude de momentos de grande generosidade, alegria e aventura. Um tempo que nunca mais se repetiu: o tempo da descoberta.)
A minha professora era a D. Isaura. Uma senhora doce e afável que nos saudou com uma voz que soava a música. Gostei dela desde que nos deu as boas vindas. Disse-o clara e assertivamente. Soube, nesse momento, que estava em terra firme e amiga. Tudo seria agradável com aquela professora. E se aprender a ler e a escrever era a primeira prioridade da escola, assim o pensava eu, seria, pois, uma tarefa que realizaria com gosto. Aliás, já o fazia nos livros que me liam. Apontava as frases como se as soubesse ler. Ficavam-me nos ouvidos de tanto as escutar e de tanto gostar de histórias. Os livros eram já um dos meus objectos de culto. Tratava-os com carinho . Afagava-os com imenso cuidado. Nunca estraguei um livro. Enamorei-me deles logo que me leram a primeira história. E havia muitos livros em nossa casa. Em “ Memória de Livros”, João Ubaldo Ribeiro refere uma situação muito similar:
Nada, porém, era como os livros .(…) A maior casa onde morámos ,mais ou menos a partir da época em que aprendi a ler, tinha uma sala reservada para a biblioteca e gabinete de meu pai,mas os livros não cabiam nela — na verdade,mal cabiam na casa.(…) A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia,a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e,na verdade,se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara.
Nesse tempo, as escolas não tinham livros. As bibliotecas escolares não existiam como agora, em 2017. No entanto, lia-se com prazer , folheando e sentindo o objecto precioso que é o livro.
Nesse primeiro dia, descobri que aprender seria um dos meus grandes assombros. Senti que ir à escola era quase tão bom como brincar. E não me senti intimidada por ficar sem os meus pais num lugar novo e desconhecido. A Escola era uma espécie de casa aberta às crianças , onde todos vinham aprender. Nessa altura , ainda não tinha a percepção das assimetrias sociais que existiam.
Para mim , a descoberta da escola foi um acontecimento maravilhoso. Havia tantos meninos e meninas de bata branca a chegar naquele primeiro dia, que não me senti diferente de qualquer um deles. A Escola era o lugar para onde iam as crianças a partir dos seis anos. Era lá que se iniciava o longo caminho da aprendizagem para qualquer um deles. Era esta a percepção que eu tinha nos meus poucos anos de vida : aprender a ler e a escrever eram os primeiros passos de uma grande e jamais acabada descoberta. E foram realmente. Esses primeiros anos marcar-me-iam para sempre. (...)"
Maria José Vieira de Sousa, "O livro que já escrevi"
quarta-feira, abril 22
Trechos, nada mais
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| Anders Zorn |
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Quando ferida pela gozosa espada do jovem amante, a prima-dona estilhaçou com seus gritos todos os cristais do hotel, do primeiro ao último andar.
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Se você diz a um chato que vá verificar se você está na esquina, ele faz o quê? Pede que você vá junto.
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Viver é um hábito com o qual nem todos se dão bem.
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Deve-se reconhecer uma virtude nos chatos: são todos perfeccionistas.
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Melhor ficar longe da literatura. Ela não anda resolvendo nem mais o problema das editoras.
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Presunção não me falta. Gabo-me de tudo meu, até da pressão alta.
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Ao completar oitenta anos, o poeta foi homenageado na praça principal, com discurso do prefeito, valsas tocadas pela banda municipal e uma revoada de sonetos.
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Fiel ao seu antirromantismo, o poema concretista desabou sem que um só de seus tijolos gemesse um ai.
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Acorda triste, ressentido, como se fosse um morto reprovado no exame final.
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Os chatos, se fossem livros, seriam aqueles com cem páginas de texto e noventa e nove de notas explicativas.
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Alguns poetas antigos andaram levantando bandeiras e quase chefiaram revoluções. Foram demovidos a tempo pelas flores e pelos pássaros.
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O coração de um poema concretista é ali onde o cimento pulsa com maior vigor.
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Que crueldade sua dizer que devagar se vai longe a uma dessas tartarugas de quintal.
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Como resistiríamos? De tanto ver triunfar nulidades, achamos que também podíamos.
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Materiais combustíveis, como o amor, só devem ser utilizados em poetas concretistas se obedecerem às normas de segurança.
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Todo provérbio se apresenta como uma espécie de amostra grátis da verdade.
Alice no país dos pasteis de Belém trancada em casa
No começo foi um caos. “A creche fechada”, lembra Zé María, “as aulas extraescolares também; os avós, proibidos, passaram de grupo de salvação para grupo de risco, Madalena e eu, no teletrabalho”. Mas tudo pode piorar“. De fato, Madalena teve uma amigdalite e fez quarentena.” Pior impossível, não? “Bom, não; alguns dias antes eu tinha ficado sem carteira de habilitação.”
No primeiro dia que Alice faltou à casa dos avós foi preciso explicar a ela sobre a covid-19. “Não sou muito criativo, me recusei a dizer que na rua tinha um monstro, como alguns pais fazem. Disse que tínhamos de ficar em casa”, lembra Zé Maria. “Disse que havia uns bichinhos por aí”, pondera Madalena. Alice passou alguns dias triste e chorosa, e pronto. “As crianças se acostumam rapidamente às novas situações”, diz o pai. Os adultos, nem tanto. “De dias sem vê-la passei a semanas de 24 horas juntos em um apartamento com uma janela.”
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| Estátua de Fernando Pessoa na rua Garrett, vazia, em Lisboa |
É o abril mais estranho desde a Revolução dos Cravos de 1974. No sábado, 25 de abril, pela primeira vez os manifestantes não descerão a avenida da Liberdade, agora sem carros, sem pessoas, sem fumaça ou barulho. Triste. Vazio de passageiros, nem o bonde 28 range ao atravessar o bairro da Alfama. O rio Tejo entra e sai de Lisboa sem nada a impedi-lo. Não há cargueiros que o rasguem, não há cruzeiros bem-vindos nem gente que lhe siga a corrente.
No Chiado, os vizinhos de Luis de Camões e Fernando Pessoa mantêm 30 metros de distanciamento social. Estão assombrados. Os pombos pararam de defecar aos pés do zarolho autor de Os Lusíadas; há semanas ninguém lhes joga migalhas de pão. Os turistas já não tocam o míope autor do Livro do Desassossego. A rua Garrett, sempre intransitável, está vazia, com as lojas fechadas, mas com fechamentos que se adivinham que não são de descanso semanal; o fechamento da igreja dos italianos o corrobora e o mítico café Brasileira o ratifica, assim como outras lanchonetes onde Pessoa fazia suas paradas, Nicola, Martinho de Arcada... Hoje seria impossível surpreender o poeta em “flagrante delito”.
Depois um mês de reclusão, Alice bate ovos, espreme limões, espalha mussarela, molho de tomate e cogumelos sobre a pizza. “Fazer o jantar acabou sendo nossa melhor experiência do dia, melhor do que a pintura ou a televisão”, reconhece Madalena, que trabalha a distância no setor do entretenimento. Zé María, dedicado ao software futebolístico, ficará sem ganhos variáveis, mas por enquanto com salário. Cerca de um milhão de trabalhadores, quase um terço da força de trabalho do país, teve suspensão temporária do emprego.
Na porta da casa, a avó Elena toca a campainha e deixa as compras do supermercado para o filho e a neta. Desta vez não incluiu os caprichos das festividades, pasteis de Belém, croquetes da Versalhes, arroz de pato do O Chef, ovos moles da Alcôa, rosbife do Gambrinus... De um mês para cá, reina a massa e o álcool gel.
Atrás da janela, Alice agita as mãozinhas e parece gritar oi e tchau à avó, que, sem ouvi-la, responde da mesma maneira, oi e tchau, da janela do carro. Fazendo beicinho, as duas se afastam até a próxima semana de emergência.
Lisboa está sofrendo. Não cheira à canela de suas confeitarias, não tem o gosto de coentro de suas tavernas, não há quem a abrace, mas tem um eco do mais puro Camané [conhecido fadista]: “Há um silêncio pesado, que não sei de onde vem, nem sei se lhe chamam fado, ou que outro nome é que tem”.
Javier Martín del Barrio
terça-feira, abril 21
Eu me lembro
Um jovem poeta desiludido tem a ideia de se isolar do mundo numa loja de departamentos —aquelas tipo Sears, que ocupavam um prédio inteiro e vendiam de tudo. O plano do rapaz é entrar, esperar que ela feche e passar a viver lá, escondendo-se durante o dia. Faz isso e, para sua surpresa, descobre que outros já tiveram essa ideia e formam uma pequena comunidade oculta. É um conto de 1940 do escritor inglês John Collier (1901-1980), “Evening Primrose”. Stephen Sondheim fez dele um musical em 1966, de que saiu a canção “I remember”.
E de que, depois de algum tempo, eles se lembram? Do céu, chuva, vento, ruas, árvores, folhas, dias —dos dias, que eram diferentes uns dos outros. É como muitos de nós estamos nos sentindo.
Mas eu me lembro também dos muitos tipos de confinamento de que o cinema tratou, desde o de uma cela de prisão, em “O Homem de Alcatraz” (1962), de John Frankenheimer, até o do túnel que se escava para fugir, no francês “A Um Passo da Liberdade” (1960), de Jacques Becker. Do confinamento espontâneo e doentio de “Repulsa ao Sexo” (1965), de Roman Polanski, ao imposto por um desabamento, em “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), de Billy Wilder, e ao infligido por alguém a uma vítima indefesa, como o de “O Colecionador” (1965), de William Wyler.
Lembro-me também de confinamentos coletivos, como o de “O Anjo Exterminador” (1962), de Luís Buñuel, em que grades imaginárias prendem um grupo que se destroça, e o de “A Comilança” (1973), de Marco Ferreri, em que amigos se prendem para comer até morrer. Sem falar no pior dos confinamentos, o de ser enterrado vivo, como em “Obsessão Macabra” (1962), de Roger Corman, baseado em Edgar Allan Poe.
No conto de John Collier, ninguém pode fugir da loja, para não denunciar os outros. Os que tentam são mortos, embalsamados e transformados em manequins da própria loja. Brrr? Calma, é só ficção.
E de que, depois de algum tempo, eles se lembram? Do céu, chuva, vento, ruas, árvores, folhas, dias —dos dias, que eram diferentes uns dos outros. É como muitos de nós estamos nos sentindo.
Mas eu me lembro também dos muitos tipos de confinamento de que o cinema tratou, desde o de uma cela de prisão, em “O Homem de Alcatraz” (1962), de John Frankenheimer, até o do túnel que se escava para fugir, no francês “A Um Passo da Liberdade” (1960), de Jacques Becker. Do confinamento espontâneo e doentio de “Repulsa ao Sexo” (1965), de Roman Polanski, ao imposto por um desabamento, em “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), de Billy Wilder, e ao infligido por alguém a uma vítima indefesa, como o de “O Colecionador” (1965), de William Wyler.
Lembro-me também de confinamentos coletivos, como o de “O Anjo Exterminador” (1962), de Luís Buñuel, em que grades imaginárias prendem um grupo que se destroça, e o de “A Comilança” (1973), de Marco Ferreri, em que amigos se prendem para comer até morrer. Sem falar no pior dos confinamentos, o de ser enterrado vivo, como em “Obsessão Macabra” (1962), de Roger Corman, baseado em Edgar Allan Poe.
No conto de John Collier, ninguém pode fugir da loja, para não denunciar os outros. Os que tentam são mortos, embalsamados e transformados em manequins da própria loja. Brrr? Calma, é só ficção.
Assim começa o livro...
Naquela manhã, Jim Sams, inteligente mas de forma alguma profundo, acordou de um sonho inquieto e se viu transformado numa criatura gigantesca. Permaneceu por bom tempo deitado de costas (não que fosse sua posição predileta) e contemplou, consternado, seus pés distantes, a escassez de membros. Apenas quatro, obviamente, e bastante rígidos. Suas perninhas marrons, das quais já sentia alguma nostalgia, estariam se agitando alegremente no ar, embora sem a menor utilidade. Ele permaneceu imóvel, decidido a não entrar em pânico. Um órgão, um pedaço de carne úmida e escorregadia, estava plantado em sua boca — repugnante, sobretudo quando se movia por conta própria a fim de explorar a vasta caverna de seu orifício bucal e, ele notou com mudo espanto, de deslizar por uma imensidão de dentes. Percorreu com os olhos toda a extensão de seu corpo. A coloração dele, dos ombros aos tornozelos, era de um azul pálido, com fios azuis mais escuros em volta do pescoço e dos pulsos, bem como botões brancos numa linha vertical ao longo do tórax não segmentado. Ele aceitou como sendo sua respiração a brisa leve que soprava de quando em quando, trazendo um odor agradável de comi da em decomposição e álcool de cereais. Sua visão tinha infelizmente se estreitado — ah, que saudade de um olho composto —, e tudo que via era opressivamente colorido. Começava a entender que, em virtude de uma grotesca inversão, sua pele vulnerável se encontrava do lado de fora do esqueleto, sendo agora, por tal razão, totalmente invisível para ele. Que alívio teria sido vislumbrar aquele marrom nacarado tão familiar!
Tudo isso era deveras preocupante, porém, à medida que foi ficando mais desperto, ele se lembrou de que estava engajado numa missão importante e solitária, embora no momento fosse incapaz de recordar qual era. Vou chegar atrasado, pensou, ao tentar erguer do travesseiro uma cabeça que devia pesar uns cinco quilos. É muito injusto, disse a si mesmo. Não mereço isso. Seus sonhos fragmentários tinham sido profundos e conturbados, repletos de vozes ásperas e ecoantes em constante divergência. Só agora, quando sua cabeça tombou de volta, ele começou a ver mais além do sono e trouxe à mente um mosaico de recordações, impressões e intenções que escapavam para todos os lados quando ele tentava apreendê‑las.
Sim, ele tinha ido embora do agradavelmente decadente Palácio de Westminster sem nem dizer adeus. Teve de ser assim. Discrição era tudo. Sabia disso sem que lhe ti‑ vessem dito. Mas quando exatamente se pusera a caminho? Sem dúvida depois de escurecer. Na noite anterior? Uma noite antes ainda?
Voar com livros
As viagens de avião estão praticamente proibidas; e não me parece que, terminado o período de confinamento, as pessoas tenham a mesma vontade de fazer planos de viajar de avião nas próximas férias. Afinal, a doença foi-se transmitindo de país para país por causa de haver tanta gente a viajar de um lado para o outro e, portanto, é bem possível que o turismo desacelere e as pessoas, enquanto se lembrarem da pandemia, fujam de ir para longe, até com medo de ficar retidas num lugar estranho. As companhias aéreas já estão de rastos, e os aviões estão estacionados nos aeroportos sem serventia. Quiçá mais tarde os transformem em algo menos poluente e mais bonito... Em Iztapalapa, no México, um avião abandonado foi transformado numa biblioteca digital infantil que as escolas visitam regularmente e cujo projecto se chama Voando para a Utopia. Os bancos foram removidos, dando lugar a espaços de leitura e pesquisa. Existem cerca de 25 computadores e estantes com obras impressas. As crianças podem ainda visitar a cabina do avião e experimentar um simulador de voo para ver como é andar de avião a sério. Uma ideia bonita da prefeitura da cidade. Vejam como tudo se pode transformar sempre noutra coisa. Mais bonita e interessante.
segunda-feira, abril 20
Máscaras

Algumas coisas, porém, a pandemia não conseguiu mudar. Nosso humor gaiato, por exemplo. A estátua de Pelé, que tem praça exclusiva, amanheceu usando máscara de proteção. Nas redes sociais, circulou o vídeo de uma moça que nos propõe diversão. Ela usa uma máscara com duas dobras, pintada com um largo sorriso feminino. Inesperadamente, ao esticar o tecido, o sorriso vira uma gargalhada, fazendo quem a veste e quem assiste rirem também.
Outra coisa que nos distingue é o oportunismo. Um grande assalto voltou a acontecer no Aeroporto Internacional de Guarulhos, confirmando que a segurança no setor de cargas de lá deixa a desejar. Desta vez, o alvo foram produtos de ocasião: cerca de 15 mil testes de diagnóstico da Covid-19, óculos de proteção, máscaras, luvas, álcool em gel. Estou esperando uma compra de 100 máscaras descartáveis importadas e suspeito que elas façam parte do carregamento levado pelos ladrões…
E por falar em oportunistas, o maior hospital da cidade, a Santa Casa de Misericórdia de Santos, colocou à venda testes rápidos para detectar o vírus em sistema drive thru (o interessado não precisa sair do carro para colher amostras), a R$250,00 cada. Detalhe: o teste não oferece exatidão nos resultados. Ou seja, a contaminação pode não ser detectada e o testado espalhar um pouco mais a doença por onde passar, mesmo que seu diagnóstico seja negativo. Só no primeiro dia, mais de 200 consumidores se apresentaram. A expectativa do hospital é arrecadar R$ 5 milhões, para equilibrar as finanças.
Falando nisso, os bancos, dizendo-se preocupados com a saúde dos clientes, fecharam várias agências. Antes da pandemia, corria o boato que a maioria deles pretendia eliminar o atendimento pessoal e manter apenas os caixas eletrônicos e serviços on line. Já estão ensaiando, e ninguém pode afirmar que voltarão a funcionar como antes… Pesadelo para os funcionários e correntistas.
Enquanto escrevo, ouço vários espirros pela vizinhança. Até agora, não recebi notícias de moradores infectados, mas penso nas maçanetas, corrimãos, caixa do correio, interfone e outros tantos riscos que compartilhamos. Acho que vou adquirir aquela máscara da risada, só pra não chorar.
Vou morrer
“Vou morrer", pensou Virgile. E repetiu a frase diversas vezes. O fim estava próximo, ele tinha certeza disso. Um calafrio atravessou-lhe o corpo, da cabeça aos pés. Ele tinha medo da morte, não porque ele não estaria mais por aqui — estava acostumado com o sentimento de ausência do mundo — , mas porque morrer significava tornar-se normal. Cadáveres não têm personalidade. Não era o instinto de sobrevivência, que não suportava a morte, mas um seu espírito de contradição.
Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild. A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos. Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.
Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcos as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microssulcos contendo seus monólogos e suas conversas.
Martin Page, "Talvez uma história de amor"
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| Salvador Perez Bassols |
Rebaixou a luz e sentou-se no sofá. Seus dedos brincavam pelas asperezas, pelas falhas, pelo desgaste do tecido a circunferência de uma queimadura de cigarro. Ávido por sensações e informações apalpou os objetos a seu redor como Hélène Keller lendo um livro em braile. Tinha vivido sete anos naquele apartamento. Tinha-o marcado assim como o pé transfere sua forma para o sapato. Será que se pode dizer a mesma coisa do mundo? Com nossa morte, será que a matéria do mundo guardará a nossa marca? Será que os átomos conservarão os contornos de nossos pensamentos? Pelo menos, pensava Virgile, o apartamento permaneceria, seus amigos continuaram vivos, seus livros e seus discos seriam adotados por outras pessoas.
Para o jantar, não se voltou para a despensa. Entrou no site do Bon Marché e pediu um verdadeiro banquete, com três garrafas de Mouton-Rotschild. A cesta lhe chegou em meia hora. A qualidade da refeição neutralizou um pouco as suas considerações sombrias. Ouviu seus vinis prediletos. Artistas do mundo inteiro de todas as épocas se sucediam na sala para um ótimo concerto em sua homenagem.
Com uma taça de vinho na mão caminhou pelo seu apartamento de dois cômodos com desejo de tocar em cada centímetro quadrado, para deixar marcada ali sua impressão digital. Os deltas, os cristais, os arcos as curvas e os turbilhões da polpa de seus dedos se fossilizariam. Nenhuma faxina, nenhuma demolição seria capaz de apagar as provas de sua existência. Sues traços se manteriam impressos na penumbra do infinitamente reduzido, à espera dos arqueólogos que um dia os descobririam. Tinha lido uma reportagem sobre as louças da Antiguidade, que ao serem moldadas em argila, girando, gravavam à sua revelia, como num disco, as palavras pronunciadas durante o trabalho. Seu apartamento guardava milhões de microssulcos contendo seus monólogos e suas conversas.
Martin Page, "Talvez uma história de amor"
domingo, abril 19
Insônia
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| Georges D’Espagnat |
sábado, abril 18
A volta dos sabiás da crônica
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| Vinicius de Morais (sentado), Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Fernando Sabino (ao centro, da esq. para a dir.) e Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, e Carlinhos Oliveira (ao fundo) na cobertura de Braga em Ipanema |
Nunca haverá um time de cronistas como esse. E não apenas pelo talento individual, mas também pela sintonia do conjunto: Stanislaw era o engraçado; Carlinhos, o melancólico; Vinicius, o bem relacionado; Sabino, o profissional; Mendes Campos, o lírico erudito; e Braga, o aglutinador, apesar da fama de retraído. Dava liga.
A fundação da Sabiá, que veio oficialmente à luz naquele dia, é o amadurecimento dessa relação que começara nos anos 1940. Duas décadas mais tarde, depois de se separarem da Editora do Autor, onde alguns membros do sexteto haviam publicado seus primeiros livros de crônica, Braga e Sabino resolveram criar uma casa editorial para publicar seus amigos — e também outras obras, como o best-seller "Cem anos de solidão". O nome da empresa veio da alcunha de Braga, o Sabiá da Crônica.
Com a morte de todos os integrantes do sexteto, a foto não poderia ser reproduzida hoje — e, mesmo que pudesse, esbarraria nas normas de distanciamento social. Mas alguns elementos ajudam a reconstituir aquele dia em nossa imaginação. Em um dos clichês, por exemplo, vê-se um binóculo pousado em uma mesinha. Provavelmente alguém o usou e o deixou em pé. Hoje com 89 anos, Paulo Garcez confirmou: era um bom dia para observar o mar ao longe — naquela época, ainda visível do alto da cobertura de Braga, em Ipanema.<
“A sintonia perfeita entre os Sabiás ia além das relações pessoais. O grupo conversava por meio de suas crônicas. ‘Quando um escrevia
uma crônica bárbara, o outro tentava superar’, disse Augusto Massi, organizador da obra”
O fotógrafo conhecia os autores das mesas do Antonio’s. Era especialmente amigo de Braga, que em certa crônica o descreveu como “um tanto moroso, tanto para bater a foto quanto para entregar a chapa”. Ele contou que começou a clicar no início da tarde, logo depois do almoço. Fez as fotos posadas de divulgação (como a da estátua) e depois ficou escondido, capturando momentos espontâneos e informais, onde o pessoal aparece com o nó da gravata solto e aquele ar relaxado. Nessas outras imagens, menos conhecidas, nota-se a presença de um jovem Chico Buarque, sempre perto de Vinicius. Seu nome aparecia constantemente nas crônicas do sexteto, e ele próprio lançaria o seu "Roda viva" pela Sabiá no ano seguinte. Uma nota da revista O Cruzeiro daquele novembro de 1967 relata que, ao ver Garcez apontar a câmera, Carlinhos Oliveira teria exclamado: “E vai sair o sabiá!”. Mas o fotógrafo, que em 1969 se tornaria editor de fotografia do Pasquim, negou a anedota. “De onde você tirou isso?”, irritou-se, em entrevista por telefone. “Pessoal inventa cada coisa.”
Ele também não confirmou que a estátua de Ceschiatti estava ali para “representar” João Cabral de Melo Neto, conforme brincou um anúncio da própria Sabiá na época. O pernambucano, que lançou uma segunda edição de "Morte e vida Severina" pela editora, estava em Barcelona e não pôde comparecer ao convescote. “Nunca colocaria uma estátua no lugar dele”, reagiu Garcez, que já conseguiu o feito de fotografar Cabral (“o homem que nunca ri”) sorrindo e é reconhecido como grande frasista. Uma de suas frases mais famosas é: “Quando a mulher tira a roupa no quarto, já está 1 a 0 para ela”.
Visível nas imagens de Garcez, a sintonia perfeita entre os sabiás ia além das relações pessoais. O organizador dos textos de "Os sabiás da crônica", Augusto Massi, observou que o grupo conversava “através de suas crônicas”. O professor de literatura da USP e ex-editor da Cosac Naify leu todas as crônicas do sexteto para o livro e se surpreendeu ao perceber o conjunto coeso que formam entre si. E não apenas porque os autores tratavam, quase sempre, dos mesmos temas. “Eles registram as mesmas transformações do país, como a mudança da casa para o apartamento ou a evolução da vida noturna”, disse Massi. “Cada um vai encontrando sua voz dentro disso, mas há ao mesmo tempo uma organicidade, uma coesão, uma linguagem interna muito forte. É curioso como mantinham uma concorrência amistosa e saudável. Quando um escrevia uma crônica bárbara, o outro tentava superar.”
Por mais que essas imagens tenham ficado em um outro Brasil e em um mundo pré-pandemia, Maria Amélia Mello garante que não há saudosismo em seu projeto. “É outra coisa. É a beleza de ver esses autores que sempre estiveram juntos na vida e que construíram uma produção cultural se baseando na própria amizade”, explicou.
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