sábado, março 20

Notas para um livro de memórias

Nota 1: Infância

Eu era um menino muito burro, muito magro, que sofria de impaludismo. Tinha medo de guerra, porque o meu pai era tenente-coronel da Guarda Nacional e eu achava que, havendo guerra, ele iria. Ninguém me disse nunca que tenente-coronel da Guarda Nacional não era nada; que não ia haver guerra e que, mesmo havendo, meu pai não teria nada que fazer lá. Respondiam às minhas perguntas com a mesma seriedade, o mesmo engano, com que eu perguntava. Só para que eu continuasse apreensivo.

Os grandes valem-se muito do medo dos meninos.

Eu perguntava, por exemplo, à minha mãe:

― Se tiver guerra, meu pai vai?

― Vai ― ... respondia minha mãe.

― E se ele se ferir, vai morrer?

― Não. Se ele se ferir, o médico botará iodo na ferida e ele ficará bom.

― Mas, vai arder, não vai?

Para os meninos do meu tempo, o iodo era muito mais importante do que, hoje, a penicilina. Era o milagre. Mas ardia muito e a gente, podendo esconder uma ferida, escondia, só para que não botassem iodo. Mas eu tinha esperança de que meu pai não fosse morrer na guerra, por causa do iodo.

 Huseyin Sonmezay
Diziam-me que eu, quando crescesse, ia ser padre. Eu não sabia nada de padre, a não ser o cheiro. Padre tinha um cheiro e a pessoa tinha outro. Sempre me disseram que pessoa podia (e devia) ser padre. Mas nunca me ensinam que padre também era pessoa. O gênero humano, para mim, era formado de pessoas, padres e soldados. As pessoas podiam ser: meninos, mulheres, homens, velhos, corcundas, anões e defuntos. Os meninos, as mulheres, os homens, os velhos, os soldados e os defuntos podiam ser pretos ou brancos. Os corcundas, os anões e os padres, não. Seriam sempre brancos. Nesta última classificação, continuo pensando tal qual pensava aos cinco anos. Porque, de lá para cá, não vi corcundas, anões ou padres pretos. Os anões, os corcundas e os padres são invariavelmente brancos, sendo que os anões, sem exceção, têm narizes arrebitados. Os corcundas usam costeletas e vendem bilhetes de loteria.

Devo repetir que, dos padres, eu nada sabia, a não ser do cheiro. Eu era um menino muito burro, mas muito olfativo. Posso enumerar quase todos os cheiros da minha meninice. Quero começar por minha mãe que, entre as coisas e pessoas, era a única que não tinha um cheiro só. Também as coisas que ela tocava ou que a tocavam, cada uma tinha cheiro, todos muito agradáveis. Os lençóis de sua cama, por exemplo, além de muito frescos, cheiravam mais a vegetal que a animal; mais a planta que a gente; mais a flor que a mãe.

Seguem-se outras lembranças olfativas que considero importantes: os estábulos, os jasmineiros, as gaiolas dos passarinhos, o cozimento do doce de goiaba, a refinação do açúcar em tachos, o galinheiro, as galinhas, a Benção do Santíssimo (os ofícios religiosos, todos), os percevejos do mato, o suor dos cavalos, os livros escolares, os lápis, as canetas, a edição ilustrada (grande) de Dom Quixote de La Mancha, o sabonete Dorly, as peças de madapolão e o charque (no armaém), os bonecos de celuloide (ao natural ou queimados), a calda podre da moagem da cana (derramada no rio), o iodofórmio das feridas dos pobres, as castanhas assando, os cajus, as mangas, o feijão no fogo, o cheiro conjunto das madrugadas. E o mais belo de todos os cheiros. O da terra, quando chovia de repente e breve, e o toque da chuva desprendia da terra, como do corpo de uma mulher, como da carne de uma mulher, sacudida e volatilizada pelo amor. O perfume feliz e essencial da vida.

Meu pai era um homem sério. Morreu aos 46 anos, quando eu tinha 7. Dele, só consegui saber que era muito sério. Se mais vivesse, eu iria julgá-lo e conheceria, não sei se para bem ou mal, sua gravidade e seu silêncio. Não me legou a menor influência. Tenho a impressão que, se mais vivesse, teria me ensinado a ser formal e a cuidar um pouco do dia de amanhã. Eu seria, certamente, perito contador e usaria bigode. Seria, vamos dizer, um João Dantas, mais discreto e menos triste.

Não sei o dia em que minha infância acabou. Nem sei, com certeza, se acabou. Por que não sei se ainda sou menino ou se sempre fui um velho.

___________________________________

N. do C. ― Dedico esta crônica a todos aqueles e aquelas que estudam a criança e, delas, tiram conclusões. Gostaria que me dissessem se sou um perverso, um anarquista, um sentimental ou um grandíssimo... sei lá. Também, a Di Cavalcanti, que várias vezes me tem pedido para abandonar tudo e me fechar, sozinho, numa casa, longe de todos, para escrever sobre Pernambuco, os engenhos e a meninice. Esta é a nota de n° 1, "Infância". Um dia, escreverei as de números 2, 3 e 4, que se chamarão, pela ordem, Adolescência, Maturidade e Morte.

Antônio Maria 

Nenhum comentário:

Postar um comentário