O serviçal Nikita, naquele dia o único trabalhador não embriagado de Vassili Andrêitch, correu para atrelar. Nikita, que era um beberrão, não estava intoxicado naquele dia porque, desde a vigília, quando perdeu na bebida seu casaco e suas botas de couro, fez promessa de não beber e já não o fazia há dois meses. Não bebera também agora, apesar da tentação do vinho consumido por toda parte nos primeiros dois dias do feriado.
Nikita era um mujique de cinquenta anos de idade, da aldeia vizinha, um “não-dono”, como diziam dele, que passara a maior parte da vida fora da sua própria casa, a serviço de terceiros. Era estimado por todos devido à sua operosidade, destreza e força no trabalho, mas principalmente pela índole bondosa e afável. Só que ele não parava em emprego algum, porque umas duas vezes por ano, às vezes até mais, caía na bebedeira, perdendo tudo o que tinha, até a roupa do corpo, e porque, ainda por cima, ficava turbulento e brigão. Vassili Andrêitch também já o enxotara várias vezes, mas voltava a recebê-lo, em apreço por sua honestidade, seu amor aos animais e, principalmente, por ele ser tão barato. Vassili Andrêitch pagava a Nikita não os oitenta rublos, que era o que valia um trabalhador como ele, mas apenas quarenta, que, sem fazer as contas, lhe entregava aos poucos e, mesmo assim, não em dinheiro, mas em mercadorias, aos preços altos do seu próprio armazém.
A mulher de Nikita, Marfa, que já fora uma campônia bonitona e esperta, labutava na aldeia, com o filho adolescente e duas filhinhas. Ela não chamava Nikita para voltar a morar em casa, em primeiro lugar porque vivia, já há uns vinte anos, com um toneleiro e, em segundo, porque, embora manejasse o marido como bem entendia quando ele se achava sóbrio, tinha-lhe medo quando embriagado. Certa vez, tendo se embebedado em casa, decerto para se vingar da mulher pela sua humildade quando sóbrio, Nikita arrombou a arca de Marfa, retirou as suas melhores roupas e, com um machado, reduziu a tiras, sobre um cepo, todos os vestidos e trajes festivos da mulher.
O ordenado ganho por Nikita ficava todo com ela, e Nikita não se opunha a isso. Também agora, dois dias antes da festa, Marfa procurou Vassili Andrêitch e levou do seu armazém farinha branca, chá, açúcar e meio garrafão de vinho, no valor de uns três rublos. E ainda pegou cinco rublos em dinheiro, agradecendo como se isso fosse uma concessão especial, quando de fato Vassili Andrêitch é quem lhe devia uns bons vinte rublos.
– Nós não fizemos trato nenhum, fizemos? – perguntava Vassili Andrêitch a Nikita. – Se precisas de alguma coisa, leva, acertaremos depois. Eu não sou como os outros: longas esperas, e contas, e multas. Conosco é na base da honra. Tu me serves e eu não te abandono.
E, dizendo isso, Vassili Andrêitch acreditava sinceramente que beneficiava Nikita: sabia falar de um modo tão convincente que as pessoas que dependiam do seu dinheiro, a começar por Nikita, concordavam e apoiavam-no na sua convicção de que ele não as enganava, mas lhes prestava benefícios.
– Mas eu compreendo, Vassili Andrêitch. Acho que eu me esforço, que te sirvo como ao próprio pai. Compreendo muito bem – respondia Nikita, percebendo perfeitamente que Vassili Andrêitch o enganava, mas sentindo ao mesmo tempo que não adiantava sequer tentar esclarecer as contas com o patrão, já que precisava viver e, enquanto não havia outro emprego, tinha de aceitar o que lhe davam.
Agora, ao receber do patrão a ordem de atrelar, Nikita, como sempre alegre e de boa vontade, saiu com o passo leve e animado dos seus pés pisando como patas de ganso e dirigiu-se ao galpão, onde tirou do prego um pesado bridão de couro com pingentes e, tilintando com as barbelas do freio, encaminhou-se para a estrebaria, onde estava o cavalo que Vassili Andrêitch mandara atrelar.
Leon Tolstoi
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