quarta-feira, março 8

Enquanto esse dia não chega

Um dia, você vai achar isso chato pra burro. Hoje, você corre, pula, faz brilho nos olhos e ri de iluminar a grama.

Daqui a alguns anos, vai prestar o serviço militar. Mas há pouco, fizemos um passeio de charrete, você atento ao som dos cascos do cavalo no asfalto. O condutor te deixou segurar as rédeas por um momento, mas você apreciou mesmo foi a flor de plástico presa à crina, que balançava no ritmo do trote. A carroça chacoalhando te deu sono, e você dormiu com a cabeça no colo da mãe.

Chegará o tempo de você sofrer por amor. Por enquanto, andamos de pedalinho no lago. Você queria participar, mas suas pernas não alcançavam os pedais; então, jogou farelo para os peixes e vibrou quando o nosso pedalinho ultrapassou o do jovem casal mais preocupado em se beijar do que em apostar corrida.

Amanhã, você terá de correr atrás de prazos e vencimentos. Hoje, há o tempo para uma água de coco. Tivemos que convencer a mãe de que uma pamonha não ia atrapalhar o almoço. A cada um que encontrava na praça, você mostrava com orgulho seu boné azul que, um pouco grande pra sua idade, afundava na cabeça.


Numa noite fria, você vai perder o sono por uma dívida qualquer. Mas neste dia faz sol, fomos à praça dar pão amanhecido aos patos. A diversão durou uma hora e meia, até que acabou, não por fastio, mas por falta de pão – se dependesse de você e dos bichos, a gente passaria o dia ali. Então, você descobriu que com os gansos é até mais divertido, o escarcéu é maior.

Haverá decepções na jornada. Talvez a primeira tenha sido o sorvete local de groselha quase roxo de tanto corante, que, à medida que você chupava, ia perdendo o gosto e a cor até ficar branco, só gelo, sem graça de tudo.

Muita coisa vai escapar pelos seus dedos nesta vida. Por ora, você ganhou duas bolas de gás no restaurante – uma vermelha, outra azul – amarradas ao pulso. Correu entre as mesas para mostrar às outras pessoas. Uma estourou e você ameaçou um choro. Mas logo se esqueceu desse pequeno desgosto e procurou outra coisa para se entreter.

Mais para frente, seu corpo inventará algumas traições. Mais para o fim do dia, jogamos um pouco de bola no gramado. Bola de plástico, leve e ovalada, dessas que o vento decide a direção mais que a força do chute, e que faz juntar criança. O goleiro era um cachorro de rua que saltava nas bolas, e era craque: defendia quase todas com o focinho. Você quase não conseguia chutar de tanto que se curvava para rir.

Vimos também um casal de tucanos numa palmeira roendo macaúva. Uma moto que passou, puxando um cavalo por uma corda. Uma cutia que se embrenhava pelas moitas, fugindo da molecada que a perseguia. Vi um sujeito sentado na praça de bigode e chapéu que me lembrou meu nonno, e pensei em como ele ia gostar de ver seu bisneto esbanjando vida e saúde.

Um dia, você vai achar tudo isso uma chatice sem fim. Vai morrer de tédio ou vergonha de andar de mãos dadas com o pai, sem se dar conta de que ele está no paraíso.

Tudo bem. Daqui a umas quatro décadas, o gosto pela coisa volta. Provavelmente, com os papéis trocados.
Cássio Zanatta

Do caderno


“Como não é possível, infelizmente, ver o futuro, não sabemos até que ponto — no mais profundo sentido — pertencemos ainda à Idade Média.” (Jung)

Escritor é aquele que aprende a todo momento de qualquer pessoa.

“Joguei o verso nobre aos cães negros da prosa.” (Victor Hugo)

O estranho, o imprevisível, é o próprio homem: que não é bom, está sozinho e espera.

Se A acredita em Deus, se B não acredita em Deus, se C não sabe se Deus existe, isso nada é para mim. A existência de Deus e a não existência de Deus estão fora do meu alcance; apenas emocionalmente, intuitivamente, irracionalmente, afetivamente, humanamente, posso adivinhar a esperança de Deus, do mesmo modo que emocionalmente, intuitivamente etc., posso, em contrapartida, adivinhar o desespero da ausência de Deus ou a orfandade cósmica ou o ser-em-nada. E a isso chamo esperança-desespero ou condição humana.

Do alpendre no 1 vejo a vaidade; do alpendre no2, o orgulho; do no 3, a vida depois da minha morte; do alpendre N vejo os séculos; do alpendre Y vejo a finitude do sistema solar… (O show só funciona na lucidez de certas madrugadas.)

Tenho uma única superstição e chega: viver dá azar.

Brasil Brésil Brazil Brasul Brasol Brasal Braçal Bachsil Barsil

Abrasil Brasalho Braúsa Brothsil Brasell Cabrasil Pobresil.

Aos 74 anos morre Morandi. Nunca desejou ir a Paris; achava que vender seus quadros por mais de duzentos dólares era furto. Seu amor: o entretom surdo; seu mundo: a copa e a cozinha à luz dos crepúsculos; sua arte: conseguiu pintar o silêncio.

De um poeta japonês: “Meu amor é como a relva oculta no recesso da montanha: embora se alastre, ninguém o sabe”.

Heine teve duas paixões na vida: as mulheres bonitas e a Revolução Francesa. Stendhal dizia ao fim da vida que só lhe restavam dois prazeres constantes: Saint-Simon e espinafre.

Os anjos, bons e maus, não são invisíveis; nossa vista é que é fraca.

O casamento é uma lenta intervenção cirúrgica que tem o poder de separar duas criaturas cruel e desesperadamente agarradas uma à outra.

Não sabemos nada de nada. Mas preste atenção: nem mesmo chegamos a saber que não sabemos nada de nada.

Todas as mulheres, fiéis ou não, aguardam em febre a volta de Ulisses.

Todos os homens percebem o todo: o artista percebe também, ou de preferência, os detalhes.

— Se a gente aos quarenta anos ficasse maduro de todo…

— Sim…

— Seria a plenitude, nem dor, nem prazer, a plenitude espiritual ou mental, como você quiser.

— E não é?

— Quase. Infelizmente, pelo menos no meu caso e no da maioria, há certas partes para sempre verdes e outras irremissivelmente passadas.

Estou pagando imposto de renda como um milionário, isto é, muito pouco.

Tinha dezessete ou dezoito anos quando o trem de Minas parou numa noite chuvosa na estação de Nova Iguaçu, e fiquei a ouvir um saxofone tocando um choro num clube popular ali perto, e, com uma súbita profundidade absurda, estúpida, adivinhei, esmagado, o resto de minha vida.
Paulo Mendes Campos, "De um caderno cinzento" 

terça-feira, março 7

Durma bem!

 


O rapaz sério e a lua

Ela se vira e se revira na cama, sozinha e saudosa. Não imaginava que o rapaz pudesse ser tão sério. Há três noites ela pediu que ele lhe trouxesse a lua embrulhadinha em papel de presente, e há três noites ela abre a janela e a lua continua lá em cima. Mas quem sabe amanhã ele volte, vitorioso. O amor tudo pode.

***

Toda crase é, por tradição, mal-intencionada.

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A primeira recomendação do coach literário a Susana Nepomuceno Spresz, candidata a romancista, foi: “A partir de hoje, então, você já sabe: é Suzannah, com z, dois ennes e h.

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Se digo que alguém não é poeta, acho que falo com conhecimento de causa. Eu também não sou.

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Se os dias frios estão e já sorrir-nos não querem, pensemos como serão os últimos, quando vierem.

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Compreendo a má vontade com que um coach literário costuma ser visto. Mas não é verdade que o de Suzannah Nepomuceno Spresz, candidata a romancista, lhe recomendou, como condição para se aventurar em obras de maior fôlego, tomar banhos gelados e fazer caminhadas diárias de pelo menos cinco quilômetros.

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Estando já naquela egrégia idade que dizem ser a da sabedoria, sem hesitar eu a trocaria por uma hora de tola mocidade.

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Quem há de dar-nos ouvidos, depois de nossos maus passos, depois de tantos fracassos e tantos jogos perdidos?

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Quem há, se não os vencidos, de acolher-nos nos braços, perdoar nossos erros crassos, iguais aos seus cometidos?

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Nos sonhos eu jamais rio. Nos sonhos sou um menino que cumpre amargo destino e morre de fome e frio.
Raul Drewnick

A Fantástica Fábrica de Neuróticos

Uma das características do identitarismo é o desprezo pela estética. Arte é bom, mas só se for limpinha e simpática. O que afeta nossa psiquê, já que a arte é o meio seguro para lidarmos com nossas emoções.

Na Inglaterra, os livros do escritor Roald Dahl, autor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate", foram editados para eliminar termos considerados ofensivos. Quais termos? "Feia" e "gordo", por exemplo. Não apenas soa infantil, é. O identitarismo está transformando jovens adultos em crianças amedrontadas.

Não à toa, o índice de ansiedade e depressão entre os millennials está em média 30% maior do que em gerações anteriores —segundo pesquisa citada no livro "Cancelando o Cancelamento", de Madeleine Lacsko.

Em vez de ajudarmos jovens e crianças a enfrentar microagressões cotidianas que sempre existirão, dado que o homo sapiens é uma espécie gregária e competitiva, queremos enclausurá-los em um mundo cor-de-rosa de empatia. Resultado? Adultos imaturos e sem autonomia.

A descrição de características físicas é um recurso usado na literatura para materializar personalidade e emoções dos personagens, ou para estabelecer relações com o contexto social no qual estão inseridos.

A personagem chamada "bola de sebo", no conto homônimo de Guy de Maupassant, é uma prostituta gorda que é vista com ojeriza por um grupo de aristocratas que está fugindo da invasão prussiana. Ela salva a elite que a despreza dormindo com um comandante do exército invasor, mas continua sendo maltratada.

O escritor francês aponta, assim, a hipocrisia da sociedade e quem são, de fato, aqueles que merecem asco. Mostra, ainda, que caráter não tem ligação com o aspecto físico menosprezado em determinada cultura.

Editores de Dahl disseram que os romances foram atualizados para atender ao público atual. Corrijo os editores: os romances foram censurados para atender a uma parcela do público que ignora arte e história. No limite, estamos apenas criando leitores neuróticos no futuro.

segunda-feira, março 6

Que não falte luz!

 


Envelhecer com graça


Ficou sentada, ouvindo o silêncio. Um pardal trilou.

Pensou: vou dar uma olhada naquele poema provençal de Pound; isso, afinal, não se pode chamar de trabalho.

Em cima da mesa havia pilhas de livros de referência, pastas de recortes e, de um dos lados, estantes que subiam até o teto. O livro estava aberto, ao lado do computador.

Envelhecer com graça… é só seguir os marcos do caminho. Pode-se dizer que as instruções estão contidas num roteiro invisível que pouco a pouco vai se tornando legível, à medida que a vida o vai expondo. Então, é só dizer as palavras adequadas. No fim das contas os velhos não se dão mal. O orgulho é uma grande coisa, e as atitudes e estoicismos necessários vêm fáceis, porque os jovens não sabem — isso lhes é ocultado — que a carne murcha em torno de um cerne imutável. Os velhos compartilham ironias próprias a fantasmas num festim, em que um enxerga o outro, invisíveis para os outros convidados, cujas posturas e expressões observam, sorrindo, recordando.


A maioria das pessoas em vias de envelhecimento assinaria embaixo desse conjunto de frases plácidas, cheias de autorrespeito, sentindo-se bem representada e até mesmo defendida por elas.

É, concordo com isso, pensou Sarah. Sarah Durham. Um nome bem sensato para uma mulher sensata.

O livro onde encontrou essas frases fora comprado na banca de uma feira ao ar livre, memórias de uma moça da sociedade antes famosa pela beleza, escrito em sua velhice e publicado quando a autora era quase centenária, vinte anos atrás. 
Estranho ter escolhido esse livro, pensou Sarah. Houve tempo em que nem abriria um livro escrito por um velho: nada a ver com ela, pensaria. Mas existe algo mais estranho do que o modo como os livros que refletem nossa condição ou estágio da vida acabam se insinuando em nossas mãos?

Afastou o livro, pensou que os versos de Pound podiam ficar para depois, e resolveu gozar uma noite em que nada se devia esperar de sua parte. Uma noite de abril, o céu ainda claro. Aquela sala era calma, geralmente calmante e, assim como os três outros cômodos do apartamento, guardava trinta anos de memórias. Salas onde se viveu muito tempo acabam parecendo praias sujas: difícil saber de onde veio este ou aquele caco.
Doris Lessing, "Amor, de novo"

Tentação

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor – a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um bassê lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um bassê ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passara? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O bassê ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

Clarice Lispector, "Todos os contos"

A palavra, segundo Ruy Castro

Uma das primeiras conquistas do homem, juntamente com o fogo e a roda, foi a palavra. Os três permitiram ao homem ultrapassar seus limites, graduar-se acima de sua irrelevância naquele cenário e avançar sobre as suas já duas pernas. A diferença é que o fogo e a roda deram ao homem apenas o domínio sobre um meio hostil. Foi a palavra que conferiu ao homem o que lhe faltava: o significado —o entendimento de sua presença no mundo.

Além disso, naqueles primórdios, o fogo e a roda se combinaram muitas vezes para destruir e matar. Já a palavra quase sempre trouxe a luz. Não quero dizer que a palavra fosse inocente —afinal, o primeiro instrumento da escrita pode ter sido um osso, não se sabe de quê ou de quem. A primeira tinta foi o sangue. E, como bem sabemos, nada como a palavra para disseminar o preconceito, a mentira e o ódio. Mas estamos falando de origens, não de fins.


Em pouco tempo, o fogo e a roda foram assimilados como se sempre tivessem existido. Mas a palavra, não. Ela continua a ser uma grande e permanente descoberta. Uma descoberta pessoal, exclusiva de quem está sendo ungido por ela, um Big Bang individual. Neste exato momento, em toda parte, há alguém descobrindo a palavra e a fórmula secreta de que ela se compõe —a soma do símbolo, do som e do significado.

E as palavras são muitas. A palavra dita, a palavra escrita, a palavra impressa. A palavra exata ou a palavra mágica. A palavra aos gritos ou sussurrada; a palavra só pensada, nunca pronunciada; ou a palavra à força silenciada. Tudo é a palavra e a palavra é tudo. Às vezes ouvimos que "uma imagem vale por mil palavras." Mas, como desafiou Millôr Fernandes, tente dizer isso sem palavras.

É um privilégio estar sendo aceito nesta instituição, cuja matéria-prima é a palavra.
Ruy Casttro, introdução do discurso de posse na Academia Brasileira de Letras

sexta-feira, março 3

Cosmogonia

San Juan de Ia Sierra (12 de maio) — Puxa, como passa depressa o tempo, e a gente dentro dele!

O peripatetismo, doutrina que abracei não só por causa do peri como sobretudo do patetismo, fez-me circular nestes últimos tempos pelas ruas as mais diversas e pelos caminhos mais ínvios, sempre acompanhado da minha sombra e do meu irmão dentro de mim, e tendo por única bússola a flor do meu umbigo, pobre mas exata. Esquecia-me do meu relógio, é verdade, mais meu do que nunca, e no qual eu vejo passar os segundos como poderia, se quisesse, ver passar os dias e os anos, desde que dispusesse de uma cadeira para sentar e de uma caderneta em que fosse anotando a evolução do tempo.

Devo adiantar, aliás, que o meu peripatetismo nada tem a ver com o Aristóteles grego ou com qualquer outro Aristóteles vivo ou morto que porventura tenha chegado ao meu conhecimento; sou orgulhoso demais para seguir a doutrina de quem quer que seja, e, se eu tivesse que seguir alguma doutrina algum dia, seria certamente uma doutrina criada inteiramente à minha imagem e semelhança, e que não admitiria mestres como tampouco admitiria discípulos, a não ser eu mesmo em meus diversos momentos históricos. Fiz-me peripatético porque a palavra se ajusta como uma luva ao meu temperamento proteico e sonambúlico — da mesma forma como me considero funâmbulo, clown, sacripanta, autóctone e outras palavras igualmente belas, cujo único defeito é o de figurarem nos dicionários. E para preservar minha própria autonomia, minha plena liberdade de espírito dentro da frágil carcaça do meu esqueleto, faço questão de ignorar até o meu próprio nome de batismo — pois em verdade nunca fui batizado, nem o serei jamais — chamando-me pelo primeiro nome que me ocorra à cabeça e sempre da forma a mais estapafúrdia possível, com espanto inclusive para mim mesmo. (Estapafúrdia, aliás, não é bem o termo, pois, sendo como sou uma legião de criaturas, como o louco do Evangelho, qualquer nome que eu me dê será sempre um nome adequado a um dos mil espectros que compõem o meu EU fabuloso — ou, para ser mais modesto, o meu pobre universo.)


Mas vamos aos fatos:

1 — Vítima de insidiosa moléstia, que os mais abalizados médicos do bairro não souberam identificar qual fosse (o atestado de óbito trazia apenas um muito bem desenhado (como deveria ocorrer aliás com todos os atestados de óbito honestos) padre Balbino morreu tranquilamente nos meus braços, não sem antes ter tentado confessar-se várias vezes, em seus momentos de maior aflição e arrependimento, sem que o permitisse porém minha vigilante filosofia. Ao morrer, aliás, padre Balbino já não era mais padre Balbino, mas apenas o modesto professor de latim Pelópidas Regina Coeli, em trânsito para Saragoça, e que aceitava aulas particulares para grupos de cinco a dez alunos, à razão de 150 florins por cabeça. Não chegou a aceitá-las, porém, por muito tempo, já que os desígnios da Providência, contra os quais nada pode a humana valia, decidiram convocá-lo para lecionar gratuitamente seu latim em plenos Campos Elísios, em proveito das almas recém-desencarnadas que necessitassem urgentemente aprender a língua oficial da Eternidade.

II — Privado do meu melhor amigo, vendi-lhe as preciosas relíquias a um judeu que antes já lhe havia comprado a batina e um par de sapatos imprestáveis — e apropriei-me, como de direito, dos 25 mil rublos que ele trazia sempre guardados dentro de um cofre e que tive a agradável surpresa de constatar que não eram 25 mil e sim 120 mil. Com esse dinheiro, dos mais honestos que tenho ganho até aqui, mudei-me para um hotel de melhor qualidade — o antigo chamava-se Hotel dos Aflitos, e de fato o era — onde me registrei com um nome tcheco-eslovaco que já nem sei mais como se escreve e que, por seu comprimento, me fez imediatamente respeitado de todos os meus vizinhos de mesa e sobretudo dos garçons e do maître-d’hotel, que me julgaram um príncipe europeu disfarçado de astro do cinema americano, ou vice-versa. Graças a esse nome quilométrico consegui, em pouco tempo, dormir (não dormindo) com uma dama da alta sociedade de Castelnuovo de Vilarino, condado de Brescia, que se achava hospedada no mesmo hotel em companhia do fóssil do seu marido (102 anos) e que uma noite errou de porta e veio cair justamente em cima da minha cama, assustando-me relativamente. Não sendo propriamente uma mulher bela — muito pelo contrário, dados os seus 75 anos bem vividos — acabei enamorando-me do seu charme de ex-mulher fatal e sobretudo de uma inconfundível distinção que se irradiava de todo o seu porte de alta dama, mesmo das partes menos nobres e ditas inconfessáveis.

III — Transferindo-me para Castelnuovo etc., a convite e em companhia da minha veneranda admiradora e do seu venerandíssimo marido, ali fui desde logo acolhido pela melhor sociedade do país, sempre com o meu nome quase impronunciável e esse ar de mistério que me descubro no fundo do espelho e que talvez seja mais do meu irmão do que meu. Falando o italiano divinamente, e escrevendo-o melhor ainda, acabei — por simples diletantismo, embora regiamente pago — por assinar, com o pseudônimo de Volpone, a coluna social do jornal mais importante da cidade, o qual teve em consequência sua tiragem decuplicada em menos de uma semana. Frequentador obrigatório dos salões mais aristocráticos e mais blasés, onde quem ostentava menos títulos ostentava no mínimo uma dúzia deles, tornei-me em pouco tempo, graças ao meu arquivo secreto e ao meu serviço de cartas anônimas executado em larga escala, um dos sujeitos mais bem informados (e, por isso mesmo, mais temidos) em todo o hemisfério ocidental, com consequentes vantagens monetárias, nobiliárquicas, políticas, etc., etc. Nenhuma mulher era suficientemente honesta ou elegante a menos que eu expressamente o declarasse em minha coluna de alto custo, redigida em puro argot aristocrático, ininteligível quase aos pobres leitores comuns que se abalançassem a ler-me pelo simples fato de terem comprado o jornal; e nenhum cavalheiro, fosse ele príncipe ou simples fabricante de doces em conserva, poderia ser considerado um gentleman e usar honestamente este título, a menos que eu expressamente assim o chamasse, duas, três, quatro vezes seguidas, sobretudo ao lado de seu retraio de casaca e gravata borboleta, os olhos opacos voltados para a objetiva.

Uma bela noite, porém, após ter passado toda a tarde em companhia de minha vetusta e ardente protetora, e como me houvesse excedido um pouco em minhas doses habituais de whisky e de champagne, deu-se o imprevisto e o inevitável: em pleno salão de Mme. Martínez y Viola, descendente direta da papisa Joana, quando declamava uns versos fesceninos e grandiloquentes o laureado poeta Silvano dal Monte, eu não me contive e bradei com todas as forças do meus pulmões algumas duras verdades que, mais cedo ou mais tarde, teria mesmo que lançar no rosto de toda aquela gente reunida em torno de mim e vivendo à custa de meus elogios diários ou hebdomadários. Algo assim neste estilo, se não me falha a memória: — “Nem parece que todos vós tendes intestinos e, na ponta desses intestinos, um lamentável eu, exatamente igual ao que têm vosso açougueiro, vosso chofer, vosso camareiro, vossos cachorros e vossos cavalos de raça. Vosso eu é a melhor arma que tendes para afugentar os maus pensamentos, que são aqueles que os afastam da simplicidade humana e da humana aceitação da vida — e é para o vosso eu que vos conclamo olheis diante do espelho, se preciso de joelhos e com uma vela na mão para enxergar melhor, toda vez que vos sentirdes possuídos de um orgulho oceânico e vos julgardes tão poderosos quanto vosso Deus, que pelo menos (que eu saiba) não tinha nenhum eu à vista.”

IV — Escorraçado da mais alta sociedade como elemento pernicioso e indesejável, e com ordem para abandonar o país emanada do próprio chefe de polícia — que, no entanto, devia ter seu próprio eu, tanto quanto os outros — comprei uma bicicleta e transpus a fronteira da Venezuela em menos de cinco horas, tendo como única bagagem meus milhões de liras honestamente ganhos no jornalismo e um velho papagaio poliglota, que fora o único a aceitar sem protesto minha veemente filosofia anorretal, de origem visivelmente freudiana. Em Caracas fiz-me fabricante de esquifes de luxo, com larga exportação para todos os países da América Latina, depois me envolvi numa complicada história de petróleo com os norte-americanos, que por pouco não me custou a vida e a miséria, e finalmente deixei-me cair de amores por uma porto-riquenha muito linda e muito pura, de nome Alzira, e em cujo ventre plantei a semente de uma frondosa árvore humana, de que certamente ainda terei notícia algum dia.

V — A minha velha dor de cabeça acompanhando-me em todos os passos, e sobretudo quando me ponho a caminhar deitado, com o auxílio da imaginação. Dir-se-ia que trago um feto dentro do cérebro, algo que eu deveria ter posto no mundo há muito tempo e cujo cadáver envenena-me as paredes do crânio e ameaça-me sair um dia pelas narinas e pelos ouvidos, como a lava de um vulcão.

VI — Morte inglória do meu papagaio. Suas últimas palavras: — Et, ubicumque fueris, extraneus es et peregrinas.
Campos de Carvalho, "A Lua Vem da Ásia"

Portal da magia

 

 Ana Bagayan.

'Ilha da salvação'


É uma biblio-terapia; alguém pega num livro, distrai-se, aprende algo novo. Algumas pessoas estudam. E agora todos os livros russos foram retirados das prateleiras. A literatura ucraniana está aqui para aprendermos a nossa história, a nossa arte, a nossa cultura, a nossa espiritualidade
Olena Tsyganenko, diretora da biblioteca de Irpin, na Ucrânia, restaurada depois do ataque russo

Foi assim

A minha filha mais velha nasceu quando eu andava na guerra, nas Terras do Fim do Mundo, cerca de seis meses depois de embarcar para lá. Lembro-me que tínhamos, à entrada do arame farpado, um letreiro que dizia Lisboa 10 000 km, Moscovo 13 000. Estávamos na fronteira da Zâmbia, a uma distância imensa de Luanda, vivendo os sobressaltos do primeiro ano de horrores. Nenhum de nós tinha trinta anos excepto o capitão e os sargentos e tudo aquilo era um pesadelo. Nisto veio uma mensagem em cifra

(porquê em cifra Santo Deus?)

a anunciar que me nascera uma menina. É difícil descrever o que senti. Lembro-me que me apeteceu matar os cabrões de Lisboa que me haviam mandado para ali. Matá-los mesmo, juro, matá-los mesmo. Fui sozinho para a beira do arame, o mais longe possível dos meus camaradas porque me apetecia chorar. E aí fiquei que tempos, voltado para a chama numa mistura de sentimentos que não sei descrever, embrulhado em lágrimas de alegria, desespero e ódio, repetindo

– Cabrões cabrões cabrões

e depois, à medida que o tempo corria, os abraços apertados e tristes
(tão apertados e tão tristes)

dos outros rapazes. Sem palavras: de que serviam as palavras? Andei para ali que tempos na areia, a cambalear como um tonto. Isto não perdoo. Não perdoarei nunca. Mas continuo a sentir a carne viva da amizade deles, que sempre foi tão importante para mim. Isto no Chiúme, no sítio pior do batalhão, era junho. Até um mês como junho pode ser tristíssimo. O meu camarada Eleutério, que sempre que ia para a mata regressava cadavérico, colocou-me a palma no ombro. E não podem imaginar o que uma palma ajuda, com os falcões por cima e as folhas das árvores a tremerem, tremerem, quase tanto como eu tremia. Depois nada, salvo eu sozinho sentado na cama, a olhar a G3 encostada à parede. O Eleutério olhou para mim e olhou para ela sem dizer nada, claro, para quê falar? Recordo-me de haver pensado

– E se eu não chego a vê-la?

Como aconteceu ao meu primo Quim Zé, e nisto eis-me outra vez na Vespa do Quim Zé, sempre com paciência para o miúdo que eu era, a passear-me em Benfica, agarrado às costas dele, todo vaidoso. Gostava de ti, primo, eras bom e paciente para mim, não te esqueci nunca, nunca te esquecerei, fui com os meus pais assistir à chegada do teu caixão, a pensar

– Oxalá a Ana Maria
(a irmã dele de que eu gostava tanto, ainda gosto)
a pensar

– Oxalá a Ana Maria saiba mexer na Vespa.

Demorei quase cinco meses a espreitar o meu bebé ao vir de licença a Lisboa, onde passei trinta dias quase sempre deitado na cama, mirando o tecto, a contar os dias que faltavam para regressar àquele inferno, com uma criança loira, de olhos claros, a dormir no meu quarto. A minha laranjinha, como eu lhe chamava, a minha laranjinha, eu sempre de olhos cheios de Angola, tão aflito, tão tenso de raiva. O Quim Zé morreu de um tiro só, pensava-se que do Pedro Afamado, o Mata-Alferes. Pode ser, pode não ser, o que importa? De qualquer maneira não foi o Pedro Afamado, foram os tais cabrões de Lisboa que o mataram, o Pedro Afamado fazia o que lhe mandavam, tal como nós, só que ele lutava pela sua terra, em relação à qual tinha mais direito do que eu. Pronto, foi assim. Mas para quê tanta violência, tanta injustiça, tanto sofrimento? Voltei ao fim de vinte e sete meses daquilo a que o meu camarada e amigo de coração Ernesto Melo Antunes chamava um erro formidável, um erro de uma maldade atroz. Meu Deus as lágrimas que apesar de tudo consegui congelar na parte de trás dos olhos. Lembro-me do capitão

– Matei um homem de costas, doutor, matei um homem de costas para nós
numa perplexidade e num sofrimento que se palpava. E eu a ouvi-lo engolindo-me a mim mesmo, porque era eu quem se atravessava na minha própria garganta. Passaram anos sobre isto tudo e de vez em quando estou lá, palavra de honra, de vez em quando estou lá. Não era apenas um erro formidável, Ernesto, era uma estupidez formidável. Porquê, porquê, porquê? E tudo isto no país mais bonito que visitei, sob estrelas que não conhecia, negros miseráveis perto dos brancos miseráveis que éramos, miúdos atirados para um espaço que não nos pertencia com a estação das chuvas a crescer, a crescer.

Agora eis-me aqui em Lisboa a escrever isto. Eis-me aqui em Lisboa mas nunca saí inteiramente de lá. Já não tenho camuflado, já não tenho arma, já não tenho cabelo loiro. O que tenho eu então? O que aconteceu à minha G3, o que me aconteceu a mim? Se contasse isto ao Quim Zé aposto que ele me respondia

– Senta-te aí atrás na Vespa

e me levava a passear por Benfica até as lágrimas me secarem todas no interior das pálpebras.
António Lobo Antunes

quinta-feira, março 2

Para navegação em mares poluídos

 


Carta de Guia de Casados

Queixei-me outro dia de não ter lido nunca inteira a Carta de Guia de Casados, de Francisco Manuel de Melo, autor da minha maior afeição. Pois um leitor generoso tinha o livro e dele me fez presente.

Cuidou talvez que eu estivesse para casar e dele carecesse com pressa.
Não é o caso, mas muito obrigado. Já não me caso mais, e nisso imito, ainda que tarde e mal, Dom Francisco, pois este não se casou nunca.

O livro é um livro austero, mas tem sua graça; a sabedoria do mestre era temperada de sal; ele não a teve apenas da lição dos clássicos, mas muito de sua própria vida, que foi rica de contrastes, pois andou em guerras, desterros, cadeias e embaixadas. Edgard Prestage diz que Dom Manuel “sabia comandar uma esquadra no mar ou um baile na Corte, argumentar sobre um ponto de teologia, ditar uma balada, explicar a derivação de uma palavra, compor música para uma ópera e penetrar os mistérios da Cabala”. Sabia muito; e o que mais sabia era escrever; ninguém o fazia melhor em português no século XVII; e ainda por cima é um grande clássico espanhol.

A Carta é endereçada a um “Senhor N.”, que se casava e lhe pedia conselhos. De conselhos ele diz: “Esta é uma das coisas que eu cuido que falta mais quem a peça, que quem as dê. Pois certo que aquele que deseja bons conselhos, já parece que deles não necessita; porque é também grande prudência pedir conselhos, que o homem que o sabe pedir crerei que nenhum lhe fará falta.” Uma coisa que ele aconselha ao marido cuja esposa se mostra demasiado agarrada aos pais e irmãos é “namorar a mulher”. E ensina: “O vestido quando se não pede, o brinco que se não espera, a saída em que se não cuida, um não sai de casa uma tarde, um recolher mais cedo uma noite (e, se disser um levantar mais tarde uma manhã, não mentirei)...”

Mas não pensem que Dom Manuel era todo bonzinho; ele discorre longamente pelos “vários gêneros de ruins qualidades que acontece haver nelas” (as mulheres), e os remédios que há, quando há.

A quem tem mulher brava, ele aconselha a se apartar das cortes e grandes lugares, pois “quem grita no despovoado é menos ouvido”.

Desconfia da mulher muito bonita; e diz da feia que “é pena ordinária, porém que muitas vezes ao dia se pode aliviar, tantas quantas seu marido sair de sua presença. Considere que mais vale viver seguro no coração que contente nos olhos; e desta segurança viva contente”.

Fala da mulher néscia (“coisa é pesada, mas não insofrível”), da doente, da impertinente, da ciumenta, da gastadora, da teimosa, da leviana (“este é o último de seus males”). Dá conselhos sobre criadas e pajens. Da mulher engraçada, que sabe cantar ou dançar, diz que essas prendas devem ser usadas em casa. Adverte contra o luxo e os perfumes, as amigas e comadres, os frades e as freiras; dá regulamento até para a prática (a conversa) da mulher casada, e não lhe parece bom que ela fale muito mal ou muito bem de outro homem. Não aprova nem mesmo cachorrinhos enfeitados, nem macacos, nem saguis. Nem mesmo um rouxinol. “Rouxinol de todo o ano, que canta de noite e dizem logo que faz saudades, de que serve? De que servem saudades estando o marido em casa?”

Também é contra negrinhos e negrinhas e livros de cavalaria; Dom Francisco não é brincadeira. Mas uma sua implicância principal é com mulher letrada; e como já vai grande a crônica vou acabar aqui com um caso contado por ele: “Confessava-se uma mulher honrada a um frade velho e rabugento; e como começasse a dizer em latim a confissão, perguntou-lhe o confessor: Sabeis latim? Disse-lhe: Padre, criei-me em mosteiro.

Tornou-lhe a perguntar: Que estado tendes? Respondeu-lhe: Casada. A que tornou: Onde está vosso marido? Na índia, meu Padre (disse ela).

Então com agudeza repetiu o velho: "Tende mão, filha: sabeis latim, criaste-vos em mosteiro, tendes marido na índia? Ora, ide-vos embora e vinde cá outro dia, que vos é força que vós tragais muito que me dizer e eu estou hoje muito depressa.”
Rubem Braga, "A traição das elegantes"

De olhos fechados

Há centenas de situações na vida, momentos de espera, uma viagem, uma sesta, enfim, vários em que, podendo fechar os olhos, não o fazemos. E entretanto é uma maravilha.

Aprendi por mim mesmo a ter dois comportamentos de olhos fechados. Um é o da meditação: deixo fluir o que me vem à mente, sem exercer qualquer controle racional ou pensamento dirigido. O que a mente fizer jorrar como uma fonte de água é aceito sem censura. Nada de dirigir o pensamento para algo, um problema, uma recordação. A mente, em seu fluir errático, é que comanda. Às vezes, o fluxo começa desordenado e caótico, mas com uns dez minutos tudo vai se ajeitando e a gente pode até entrar no sono fisiológico.

O descanso que se segue é inimaginável. No caso de dormir um pouco ou cochilar, basta um minuto de desligamento total para que um fluxo de energia nos invada, prazenteiro. Mas se não cochilar, tudo bem. O fato de os pensamentos dimanarem livremente tem um potencial enorme de descanso. E muitas vezes, sem que se tenha fechado os olhos com essa finalidade, aparece magicamente a solução para algo que inquietava ou espoca, sem esforço, uma boa idéia. É formidável.

O outro comportamento que aprendi por mim mesmo, de olhos fechados, é o do transporte e da sintonia. Aqui, em vez de deixar o pensamento fluir, venha como vier, eu faço um cenário imaginário, fixo-o bem na memória, com detalhes, e ali entram coisas, lugares e pessoas reais, vivas ou mortas. Ou então busco uma sintonia com o que me parece ser uma corrente de sintonia proveniente de espíritos de muita luz. E faço, sim, algum esforço de concentração para entrar em sintonia com aquela vida, atual ou remota.

Certa vez, entrei, numa suave manhã de outono em uma igreja pequena que existe numa ladeira de Santa Tereza. Ninguém lá. A paz era tanta que jamais me esqueci. Pois de olhos fechados, volta e meia retorno à igreja e lá coloco mentalmente quem desejo, rezamos juntos ou apreciamos a paz. Tento reter e ampliar a sensação.

Como nesta experiência, repito outras de minha vida. Por exemplo: amei, emocionado, a cidade de Bruges, na Bélgica. Pois para lá me transporto mentalmente, levo quem quero, vivo ou morto, e faço um certo esforço (relativo) de recordar ruas, aquele rio, árvores, converso com a pessoa que levei e ambos vibram em uníssono com um sentimento comum que é mais um assentimento que outra coisa. Terrível é quando chega alguém e interrompe tudo falando comigo ou soltando: “Isso não é hora de dormir”.

Outro campo maravilhoso para os olhos fechados é a música. Não duvidem. Ouvir música de olhos fechados, deixando o pensamento livre, é uma das maiores felicidades da vida.
Artur da Távola

quarta-feira, março 1

O ovo e a galinha

De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.

Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto um ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.

Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas veem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo, o ovo é óbvio.

O ovo não existe mais. Como a luz da estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.

Ao ovo dedico a nação chinesa.

O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.

O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se. – O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.

Ovo é a alma da galinha. A galinha desajeitada. O ovo certo. A galinha assustada. O ovo certo. Como um projétil parado. Pois ovo é ovo no espaço. Ovo sobre azul. – Eu te amo, ovo. Eu te amo como uma coisa nem sequer sabe que ama outra coisa. – Não toco nele. A aura de meus dedos é que vê o ovo. Não toco nele. – Mas dedicar-me à visão do ovo seria morrer para a vida mundana, e eu preciso da gema e da clara. – O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere. – O ovo nunca lutou. Ele é um dom. – O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.

Ovo é coisa que precisa tomar cuidado. Por isso a galinha é o disfarce do ovo. Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe. Mãe é para isso. – O ovo vive foragido por estar sempre adiantado demais para a sua época. – Ovo por enquanto será sempre revolucionário. – Ele vive dentro da galinha para que não o chamem de branco. O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam a ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida. Chamar de branco aquilo que é branco pode destruir a humanidade. Uma vez um homem foi acusado de ser o que ele era, e foi chamado de Aquele Homem. Não tinham mentido: Ele era. Mas até hoje ainda não nos recuperamos, uns após outros. A lei geral para continuarmos vivos: pode-se dizer “um rosto bonito”, mas quem disser “o rosto” morre; por ter esgotado o assunto.

Com o tempo, o ovo se tornou um ovo de galinha. Não o é. Mas, adotado, usa-lhe o sobrenome. – Deve-se dizer “o ovo da galinha”. Se se disser apenas “o ovo”, esgota-se o assunto, e o mundo fica nu. – Em relação ao ovo, o perigo é que se descubra o que se poderia chamar de beleza, isto é, sua veracidade. A veracidade do ovo não é verossímil. Se descobrirem, podem querer obrigá-lo a se tornar retangular. O perigo não é para o ovo, ele não se tornaria retangular. (Nossa garantia é que ele não pode: não pode é a grande força do ovo: sua grandiosidade vem da grandeza de não poder, que se irradia como um não querer.) Mas quem lutasse por torná-lo retangular estaria perdendo a própria vida. O ovo nos põe, portanto, em perigo. Nossa vantagem é que o ovo é invisível. E quanto aos iniciados, os iniciados disfarçam o ovo.

Quanto ao corpo da galinha, o corpo da galinha é a maior prova de que o ovo não existe. Basta olhar para a galinha para se tornar óbvio que o ovo é impossível de existir.

E a galinha? O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida. O ovo é o sonho inatingível da galinha. A galinha ama o ovo. Ela não sabe que existe o ovo. Se soubesse que tem em si mesma um ovo, ela se salvaria? Se soubesse que tem em si mesma o ovo, perderia o estado de galinha. Ser uma galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser uma galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido.

É necessário que a galinha não saiba que tem um ovo. Senão ela se salvaria como galinha, o que também não é garantido, mas perderia o ovo. Então ela não sabe. Para que o ovo use a galinha é que a galinha existe. Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. – Quanto a quem veio antes, foi o ovo que achou a galinha. A galinha não foi sequer chamada. A galinha é diretamente uma escolhida. – A galinha vive como em sonho. Não tem senso da realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido da galinha é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a sua vida, “não sei mais o que sinto” etc.

“Etc. etc. etc.” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que nós chamamos de “galinha”. A vida interior da galinha consiste em agir como se entendesse. Qualquer ameaça e ela grita em escândalo feito uma doida. Tudo isso para que o ovo não se quebre dentro dela. Ovo que se quebra dentro da galinha é como sangue.

A galinha olha o horizonte. Como se da linha do horizonte é que viesse vindo um ovo. Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada e míope. Como poderia a galinha se entender se ela é a contradição de um ovo? O ovo ainda é o mesmo que se originou na Macedônia. A galinha é sempre a tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa.

Dentro de si a galinha não reconhece o ovo, mas fora de si também não o reconhece. Quando a galinha vê o ovo pensa que está lidando com uma coisa impossível. E com o coração batendo, com o coração batendo tanto, ela não o reconhece.

De repente olho o ovo na cozinha e só vejo nele a comida. Não o reconheço, e meu coração bate. A metamorfose está se fazendo em mim: começo a não poder mais enxergar o ovo. Fora de cada ovo particular, fora de cada ovo que se come, o ovo não existe. Já não consigo mais crer num ovo. Estou cada vez mais sem força de acreditar, estou morrendo, adeus, olhei demais um ovo e ele foi me adormecendo.

A galinha que não queria sacrificar a sua vida. A que optou por querer ser “feliz”. A que não percebia que, se passasse a vida desenhando dentro de si como numa iluminura o ovo, ela estaria servindo. A que não sabia perder a si mesma. A que pensou que tinha penas de galinha para se cobrir por possuir pele preciosa, sem entender que as penas eram exclusivamente para suavizar a travessia ao carregar o ovo, porque o sofrimento intenso poderia prejudicar o ovo. A que pensou que o prazer lhe era um dom, sem perceber que era para que ela se distraísse totalmente enquanto o ovo se faria. A que não sabia que “eu” é apenas uma das palavras que se desenha enquanto se atende ao telefone, mera tentativa de buscar forma mais adequada. A que pensou que “eu” significa ter um si-mesmo. As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um “eu” sem trégua. Nelas o “eu” é tão constante que elas já não podem mais pronunciar a palavra “ovo”. Mas, quem sabe, era disso mesmo que o ovo precisava. Pois se elas não estivessem tão distraídas, se prestassem atenção à grande vida que se faz dentro delas, atrapalhariam o ovo.

Comecei a falar da galinha e há muito já não estou falando mais da galinha. Mas ainda estou falando do ovo.

E eis que não entendo o ovo. Só entendo ovo quebrado: quebro-o na frigideira. É deste modo indireto que me ofereço à existência do ovo: meu sacrifício é reduzir-me à minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é, para quem já viu o ovo, um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.

Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo. É absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída. Sou indispensavelmente um dos que renegam. Faço parte da maçonaria dos que viram uma vez o ovo e o renegam como forma de protegê-lo. Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem. Nós, agentes disfarçados e distribuídos pelas funções menos reveladoras, nós às vezes nos reconhecemos. A um certo modo de olhar, a um jeito de dar a mão, nós nos reconhecemos e a isto chamamos de amor. E então não é necessário o disfarce: embora não se fale, também não se mente, embora não se diga a verdade, também não é mais necessário dissimular. Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. E não é prêmio, por isso não envaidece, amor não é prêmio, é uma condição concedida exclusivamente para aqueles que, sem ele, corromperiam o ovo com a dor pessoal. Isso não faz do amor uma exceção honrosa; ele é exatamente concedido aos maus agentes, àqueles que atrapalhariam tudo se não lhes fosse permitido adivinhar vagamente.

A todos os agentes são dadas muitas vantagens para que o ovo se faça. Não é caso de se ter inveja pois, inclusive, algumas das condições, piores do que as dos outros, são apenas as condições ideais para o ovo. Quanto ao prazer dos agentes, eles também o recebem sem orgulho. Austeramente vivem todos os prazeres: inclusive é o nosso sacrifício para que o ovo se faça. Já nos foi imposta, inclusive, uma natureza toda adequada a muito prazer. O que facilita. Pelo menos torna menos penoso o prazer.

Há casos de agentes que se suicidam: acham insuficientes as pouquíssimas instruções recebidas, e se sentem sem apoio. Houve o caso do agente que revelou publicamente ser agente porque lhe foi intolerável não ser compreendido, e ele não suportava mais não ter o respeito alheio: morreu atropelado quando saía de um restaurante. Houve um outro que nem precisou ser eliminado: ele próprio se consumiu lentamente na revolta, sua revolta veio quando ele descobriu que as duas ou três instruções recebidas não incluíam nenhuma explicação. Houve outro, também eliminado, porque achava que “a verdade deve ser corajosamente dita”, e começou em primeiro lugar a procurá-la; dele se disse que morreu em nome da verdade, mas o fato é que ele estava apenas dificultando a verdade com sua inocência; sua aparente coragem era tolice, e era ingênuo o seu desejo de lealdade, ele não compreendera que ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto. Esses casos extremos de morte não são por crueldade. É que há um trabalho, digamos cósmico, a ser feito, e os casos individuais infelizmente não podem ser levados em consideração. Para os que sucumbem e se tornam individuais é que existem as instituições, a caridade, a compreensão que não discrimina motivos, a nossa vida humana enfim.

Os ovos estalam na frigideira, e mergulhada no sonho preparo o café da manhã. Sem nenhum senso da realidade, grito pelas crianças que brotam de várias camas, arrastam cadeiras e comem, e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir.

E me faz sorrir no meu mistério. O meu mistério é que eu ser apenas um meio, e não um fim, tem-me dado a mais maliciosa das liberdades: não sou boba e aproveito. Inclusive, faço um mal aos outros que, francamente. O falso emprego que me deram para disfarçar a minha verdadeira função, pois aproveito o falso emprego e dele faço o meu verdadeiro; inclusive o dinheiro que me dão como diária para facilitar minha vida de modo a que o ovo se faça, pois esse dinheiro eu tenho usado para outros fins, desvio de verba, ultimamente comprei ações da Brahma e estou rica. A isso tudo ainda chamo ter a necessária modéstia de viver. E também o tempo que me deram, e que nos dão apenas para que no ócio honrado o ovo se faça, pois tenho usado esse tempo para prazeres ilícitos e dores ilícitas, inteiramente esquecida do ovo. Esta é a minha simplicidade.

Ou é isso mesmo que eles querem que me aconteça, exatamente para que o ovo se cumpra? É liberdade ou estou sendo mandada? Pois venho notando que tudo o que é erro meu tem sido aproveitado. Minha revolta é que para eles eu não sou nada, eu sou apenas preciosa: eles cuidam de mim segundo por segundo, com a mais absoluta falta de amor; sou apenas preciosa. Com o dinheiro que me dão, ando ultimamente bebendo. Abuso de confiança? Mas é que ninguém sabe como se sente por dentro aquele cujo emprego consiste em fingir que está traindo, e que termina acreditando na própria traição. Cujo emprego consiste em diariamente esquecer. Aquele de quem é exigida a aparente desonra. Nem meu espelho reflete mais um rosto que seja meu. Ou sou um agente, ou é a traição mesmo.

Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma como um justo. Eles me querem ocupada e distraída, e não lhes importa como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me revela que talvez eu seja um agente é a ideia de que meu destino me ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar, eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria perdido para sempre a saúde. 

Desde então, desde essa malograda experiência, procuro raciocinar deste modo: que já me foi dado muito, que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que outros agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! com o coração batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! com o coração batendo de confiança, eu pelo menos não sei.

Mas e o ovo? Este é um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. “Falai, falai”, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras. Falai muito, é uma das instruções, estou tão cansada.

Por devoção ao ovo, eu o esqueci. Meu necessário esquecimento. Meu interesseiro esquecimento. Pois o ovo é um esquivo. Diante de minha adoração possessiva ele poderia retrair-se e nunca mais voltar. Mas se ele for esquecido. Se eu fizer o sacrifício de viver apenas a minha vida e de esquecê-lo. Se o ovo for impossível. Então – livre, delicado, sem mensagem alguma para mim – talvez uma vez ainda ele se locomova do espaço até esta janela que desde sempre deixei aberta. E de madrugada baixe no nosso edifício. Sereno até a cozinha. Iluminando-a de minha palidez.
Clarice Lispector, "Todos os contos"

Abduzido

 




O revoltado Robespierre

Todos os dias úteis às dez e meia toma o bonde no Largo de Santa Cecília encrencando com o motorneiro.

— Quando a gente levanta o guarda-chuva é para você parar essa joça! Ouviu, sua besta?

Gosta de todos aqueles olhares fixos nele. Tira o chapéu. Passa a mão pela cabeleira leonina. Enche as bochechas e dá um sopro comprido. Paga a passagem com dez mil-réis. Exige o troco imediatamente.

— Não quero saber de conversa, seu galego. Passe já o troco. E dinheiro limpo, entendeu? Bom.

Retém o condutor com um gesto e verifica sossegadamente o troco.

— O quê? Retrato de Artur Bernardes? Deus me livre e guarde! Arranje outra nota.

Levanta-se para dar um jeito na cinta, chupa o cigarro (Sudan Ovais por causa dos cheques), examina todos os bancos, vira-que-vira, começa:

— Isto até parece serviço do governo! Pausa. Sacudidela na cabeleira leonina. Conclui:

— O que vale é que os homens um dia voltam…

Primeiro sorriso aparentemente sibilino. Passeio da mão direita na barba escanhoada. Será espinha? Tira o espelhinho do bolso. É espinha sim. Porcaria. Segundo sorriso mais ou menos sibilino. Cara de nojo.

Não sei que raio de cheiro tem este Largo do Arouche, safa!

Vira a aliança no seu-vizinho. Essa operação deixa-o meditabundo por uns instantes. Finca o olhar de sobrancelhas unidas no cavalheiro da esquerda. Esperando. O cavalheiro afinal percebe a insistência. É agora:

— Perdão. O senhor leu a última tabela do Matadouro? Viu o preço da carne de leitão por exemplo? Cinco ou seis ou não sei quantos mil-réis o quilo!

Não espera resposta. Não precisa de resposta Berra no ouvido do velho da direita:

— É como estou lhe contando: o quilo!

Quase despenca do bonde para ver uma costureirinha na Rua do Arouche. As pernas magras encolhem-se assustadas.

— O cavalheiro queira ter a bondade de me desculpar. São os malditos solavancos desta geringonça. Um dia cai aos pedaços.

Dá um tabefe no queixo mas cadê mosca? Tira um palito do bolso, raspa o primeiro molar superior direito (se duvidarem muito é fibra de manga), olha a ponta do palito, chupa o dente com a ponta da língua (tó! tó!), um a um percorre os anúncios do bonde. Ritmando a leitura com a cabeça. Aplicadamente. Raio de italiano para falar alto. Falta de educação é coisa que a gente percebe logo. Não tem que ver. O do ODOL já leu. Estava começando o da CASA VENCEDORA. Isto de preço de custo só engana os trouxas.

— Oh estupidez! O senhor já reparou naquele anúncio ali? Bem em cima da mulher de chapéu verde. CONSERTA-SE MÁQUINAS DE ESCREVER. ConserTA-SE máquinassss! Fan-tás-tico! Eu não pretendo por duzentos réis condução e ainda por cima trechos seletos de Camilo ou outro qualquer autor de peso, é verdade… Mas enfim…

É preciso um fecho erudito e interessante ao mesmo tempo.

— Mas enfim…

A mão procura inutilmente no ar dando voltinhas.

— Mas enfim… Seu Serafim…

Fica nisso mesmo. Acerta o cebolão com o relógio do Largo do Municipal. Esfrega as mãos. O guarda-chuva cai. Ergue-o sem jeito. Enfia a cartolinha lutando com as melenas. Previne os vizinhos:

— Este viaduto é uma fábrica de constipações. De constipações só? De pneumonias mesmo. Duplas!

Silêncio. Mas eloquente. Palito de fósforo é bom para limpar o ouvido. Descobre-se diante da Igreja de Santo Antônio.

— Não está vendo, seu animal, que a mulher; não se sentou ainda? Aprenda a tratar melhor os passageiros! Tenha educação!

Cumprimenta rasgadamente o Doutor Indalécio Pilho, subinspetor das bombas de gasolina, que passa no seu Marmon oficial e não o vê. Depois anota apressadamente o número do automóvel no verso de uma cautela do Monte de Socorro do Estado.

— O povo que sue para pagar o luxo dos afilhados do governo! Aproveite, pessoal! Vá mamando no Tesouro enquanto o povo não se levanta e manda vocês todos… nada! Mas isto um dia acaba.

Terceiro sorriso nada sibilino. Passa para a ponta. Confirma para os escritórios da I.R.F. Matarazzo:

— Ora se acaba!

Outro cigarro. Apalpa todos os bolsos. Acende-o no do vizinho. E dá de limpar as unhas com o canivete de madrepérola. Na esquina da Rua Anchieta por pouco não arrebenta o cordão da campainha.

Estende a destra espalmada para o companheiro de viagem:

— Natanael Robespierre dos Anjos, um seu criado.

Desce no Largo do Tesouro. Faz a sua fézinha no CHALET PRESIDENCIAL (centenas invertidas). Atravessa de guarda-chuva feito espingarda o Largo do Palácio.

E todos os dias úteis às onze horas menos cinco minutos entra com o pé direito na Secretaria dos Negócios de Agricultura e Comércio onde há vinte e dois anos ajuda a administrar o Estado (essa nação dentro da nação) com as suas luzes de terceiro escriturário por concurso não falando na carta de um republicano histórico.
Antônio de Alcântara Machado

Esqueça um livro

No dia 2 de março, precisamos de voluntários para esquecer livros por ai, Brasil afora.

Deixe no restaurante, no ponto de ônibus, no metrô, num banco de jardim, da igreja ou nos de guardar dinheiro. Deixe num supermercado, num mercadinho, na sala de espera de um médico, um dentista, no cabelereiro, no táxi, no Uber.

Escolha um bom livro e deixe por aí.


A proposta chegou pelo Whatsapp – o ponto de encontros não marcados mais eficiente neste momento do mundo. Ninguém assinou a paternidade da, acho, ótima ideia. O que a deixa livre, leve e solta para ser compartilhada e desfrutada. Com carinho.

Na mensagem do Whatsapp há sugestão e modelo de bilhete explicando o projeto e o presente. A causa e o causo. Tipo assim: “Ei você que achou este livro. Ele agora é seu. A iniciativa é parte de um projeto de incentivo à leitura e ao compartilhamento de conhecimento”.

Cada esquecedor que pense seu recado. Importante é avisar que aquele livro foi ali esquecido justamente para ser achado e lido.

Se o achador for parte dos 52% de brasileiros que têm o habito de leitura, beleza. Que desfrute do livro. Se não estiver entre os amantes da leitura, quem sabe, estimulado pela surpresa do achado, resolva experimentar.

Pesquisas apontam que os brasileiros leitores costumam ler em média quatro livros por ano. Pouco. Os canadenses, por exemplo, a cada ano, em média, leem 12 livros.

Mundo afora, a concorrência das mídias eletrônicas tem sido mortal para os impressos – dos livros aos jornais diários. Livros digitais e audiolivros ainda estão longe de disputar espaço com as produções de TV ou com a compulsiva navegação pela seara das redes sociais.

Um dia marcado para esquecer um livro por ai pode ser apenas proposta micada de velhos amantes dos livros. Mas vai que cola?

Vai que entre uma zapeada, um Reels, uma Tiktokada, uma mensagem de voz, das longas, a gente esbarre num livro esquecido, que, contendo um bilhete quase de amor, conquiste novo leitor. Alguém que não vai mais acreditar nas News vindas das tias do Whatsapp, nem na terra plana ou no calendário dos Bozos. E, olho aberto, estende o braço pras vacinas.