sexta-feira, setembro 22

Passei por um sonho

Começou com um sonho. Afinal, é como começa quase tudo. Justo Santana, enfermeiro de profissão, sonhou um pássaro.

– Passei por um sonho – disse à mulher quando esta acordou –, e vi um pássaro.

A mulher quis saber que espécie de pássaro, mas Justo Santana não foi capaz de precisar. Era um pássaro grande, grave, branco como um ferro incandescente, e com umas asas ainda mais brilhosas, que o dito pássaro usava sempre abertas, de tal maneira que fazia lembrar Jesus Cristo pregado na cruz.

– Fui sonhado por ti – disse-lhe o pássaro – com o fim de esclarecer o espírito dos homens e de trazer a liberdade a este pobre país.

0 discurso do pássaro assustou o enfermeiro, homem simples, tímido, avesso a confrontos, e sem qualquer vocação para a política.

– Foi apenas um sonho – disse à mulher –, um sonho estúpido.

Na noite seguinte, porém, o pássaro voltou a aparecer-lhe. Estava ainda mais branco, mais trágico, e parecia aborrecido com o desinteresse do enfermeiro:

– Ordeno-te que vás por esse país fora e digas a todos os homens que se preparem para um mundo novo. Os brancos vão partir e os pretos ocuparão as casas, os palácios, as igrejas e os quartéis, e a liberdade há de reinar para sempre.

Dizendo isto sacudiu as asas e as suas penas espalharam-se pelo quarto:

– Com estas minhas penas hás de curar os enfermos – disse o pássaro –, e assim até os mais incrédulos acreditarão em ti e seguirão os teus passos.


Quando Justo Santana despertou, o quarto brilhava com o esplendor das penas. Na manhã desse mesmo dia o enfermeiro serviu-se de uma delas para curar um homem com elefantíase e à tardinha devolveu a vista a um cego. Passado apenas um mês a sua fama de santo e milagreiro já se espalhara muito para além das margens do Rio Zaire e à porta da sua casa ia crescendo uma multidão de padecentes. Alguns tinham vindo de muito longe, a pé, ou em improvisadas padiolas, e chegavam cobertos por uma idêntica poeira vermelha – bonecos de barro à espera de um sopro divino.

Justo Santana colocava na boca dos enfermes uma pena do pássaro, como se fosse uma hóstia, e estes imediatamente ganhavam renovado alento. Enquanto fazia isto o enfermeiro repetia os discursos do pássaro, incapaz de compreender a fúria daquelas palavras e o alcance delas. Todas as noites sonhava com a ave e todas as noites esta o forçava a decorar um discurso novo, após o que sacudia as asas, espalhando pelo ar morto do quarto as penas milagrosas.

– Se esse pássaro continuar assim tão generoso – disse Justo Santana à mulher – ainda o veremos transformado numa alma despenada.

Isto durou um ano. Então, numa manhã de cacimbo, apareceram quatro soldados à porta da casa, afastaram com rancor a multidão de desvalidos, e levaram Justo Santana. O infeliz foi acusado de fomentar o terrorismo e a sublevação, e desterrado para uma praia remota, em pleno deserto do Namibe, onde passou a exercer o ofício de faroleiro.

Quando o encontrei, muitos anos depois, em Luanda, ele falou-me desse desterro com nostalgia:

– Foi a melhor época da minha vida.

Encontrei-o doente, estendido numa larga cama de ferro, sob lençóis muito brancos. No quarto havia apenas a cama e um pequeno crucifixo preso à parede. Na sala ao lado os devotos rezavam murmurosas ladainhas. Aquela era a sede da Igreja do Divino Espírito. Não tinha sido nada fácil chegar até junto do enfermeiro: os seus seguidores guardavam-no corno a uma relíquia – na verdade mantinham-no preso ali, naquele quarto, quase isolado do mundo, desde 1975.

A melhor época da vida de Justo Santana terminou de forma trágica, numa noite de tempestade, quando um bando de aves migratórias caiu sobre o farol. Enlouquecidas pela luz, as avezinhas batiam contra o cristal até quebrarem as asas, sendo depois arrastadas pelo vento. Isto está sempre a acontecer. Milhares de aves migratórias morrem todos os anos traídas pelo fulgor dos faróis. Naquela noite, desrespeitando as normas, Justo Santana foi em socorro das aves e desligou o farol. Teve pouca sorte: um barco com tropas, de regresso à metrópole, perdeu-se na escuridão e encalhou na praia. Dessa vez o enfermeiro foi julgado, condenado a quinze anos de prisão, e enviado para o Tarrafal, em Cabo Verde. Foi solto com a Revolução de Abril e regressou a Angola.

Quando o visitei, antes de me ir embora, quis saber se o pássaro ainda lhe frequentava os sonhos. Ele olhou em redor para se certificar de que estávamos sozinhos:

– Estrangulei-o – segredou com um sorriso cúmplice –, mas enquanto eu for vivo não conte isto a ninguém.
José Eduardo Agualusa, "Contos Africanos dos países de língua portuguesa"

Diário poético

A hortênsia é uma couve-flor pintada de azul.
*
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
*
Qualquer ideia que te agrade, é tua. O autor nada mais fez que vestir a verdade que dentro de ti se achava nua...
*
Há noites em que não posso dormir de remorso por tudo o que deixei de cometer...
*
Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas!
*
Leon Tolstoi fugiu de casa aos 80 anos. Não são todos os que podem realizar os grandes sonhos da infância!
*
Às vezes o túnel do sono é iluminado apenas pelos olhos verdes dos fantasmas.
*
Tudo o que acontece é natural. Inclusive o sobrenatural...
*
Depois de cada ilusão perdida, que estraordinária sensação de alívio!
*
Durante as belas noites de tempestade os relâmpagos tiram radiografias da paisagem.
Mário Quintana

quinta-feira, setembro 21

Barca dos sonhos

 


Rua morta

Longa rua distante de subúrbio,
velha e comprida rua não violada pelos prefeitos,
passo sobre ti suavemente neste fim de tarde de domingo.
Sinto-te o coração pulsando oculto sob as areias.

O sangue circula na copa imensa dos flamboyants.
Tropeço nos passos perdidos há muito nestas areias,
onde as pedras não vieram ainda sepultá-los.
Passos de homens que jamais voltarão.

Ó velhos chalés de 1830, eterniza-se entre as paredes
o eco das vozes de invisíveis habitantes.
Mãos de sombras femininas abrem de leve janelas no oitão.

Há um cheiro de jasmins e resedás
que não vem dos jardins abandonados,
mas dos cabelos dos fantasmas das moças de outrora.

Mauro Mota

O homem que se endereçou

Apanhou o envelope e na sua letra cuidadosa subscritou a si mesmo:

Narciso, rua Treze, nº 21.

Passou cola nas bordas do papel, mergulhou no envelope e fechou-se. Horas mais tarde a empregada colocou-o no correio. Um dia depois sentiu-se na mala do carteiro. Diante de uma casa, percebeu que o funcionário tinha parado indeciso, consultara o envelope e prosseguira. Voltou ao DCT, foi colocado numa prateleira. Dias depois, um novo carteiro procurou seu endereço. Não achou, devia ter saído algo errado. A carta voltou à prateleira, no meio de muitas outras, amareladas, empoeiradas. Sentiu, então, com terror, que a carta se extraviara. E Narciso nunca mais encontrou a si mesmo.
 Ignácio de Loyola Brandão

O perfume

– Hoje vamos ao baile!

Justino assim se anunciou, estendendo em suas mãos um embrulho cor de presente. Glória, sua esposa, nem soube receber. Foi ele quem desatou os nós e fez despontar do papel colorido o vestido não menos colorido. A mulher, subvivente, somava tanta espera que já esquecera o que esperava. Justino guardava ferrovias, seu tempo se amalgava, fumo dos fumos, ponteiro encravado em seu coração. Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrara o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerrames. O amor, afinal, que utilidade tem?

De onde o espanto de Glória, deixando esparramejar o vestido sobre seu colo. Que esperava ela, por que não se arranjava? O marido, parecia ter ensaiado brincadeira. Que lhe acontecera? O homem sempre dela se ciumara, quase ela nem podia assomar à janela, quanto mais. Glória se levantou, ela e o vestido se arrastaram mutuamente para o quarto. Incrédula e sonambulenta, arrastou o pente pelo cabelo. Em vão. O desleixo se antecipara fazendo definitivas tranças. Lembrou as palavras de sua mãe: mulher preta livre é a que sabe o que fazer com o seu próprio cabelo. Mas eu, mãe: primeiro, sou mulata. Segundo, nunca soube o que é isso de liberdade. E riu-se: livre: Era palavra que parecia de outra língua. Só de a soletrar sentia vergonha, o mesmo embaraço que experimentava em vestir a roupa que o marido lhe trouxera. Abriu a gaveta, venceu a emperrada madeira. E segurou o frasco de perfume, antigo, ainda embalado. Estava leve, o líquido havia evaporado. Justino lhe havia dado o frasco, em inauguração do namoro, ainda ela meninava. Em toda a vida, aquele fora o único presente. Só agora se somava o vestido. Espremeu o vidro do cheiro, a ordenhar as últimas gotas. Perfumei o quê com isto, se perguntou lançando o frasco no vazio da janela.

– Nem sei o gosto de um cheiro.

Escutou o velho vidro se estilhaçar no passeio. Voltou à sala, vestido se desencontrando com o corpo. As bainhas do pano namoriscavam os sapatos. Temia o comentário do marido sempre lhe apontando ousadias. Desta vez, porém, ele lhe olhou de modo estranho, sem parecer crer. Puxou-a para si e lhe ajeitou as formas, arrebitando o pano, avespando-lhe a cintura. Depois, perguntou:

– Então não passa um arranjo no rosto?

– Um arranjo?

– Sim, uma cor, uma tinta.

Ela se assombrou. Virou as costas e entrou na casa de banho, embasbocada. Que doença súbita dera nele? Onde diabo parava esse bâton, havia anos que poeirava naquela prateleira? Encontrou-o, minúsculo, gasto nas brincadeiras dos miúdos. Passou o lápis sobre os lábios. Leve, uma penumbra de cor. Carregue mais, faça valer os vermelhos. Era o marido, no espelho. Ela ergueu o rosto, desconhecida.

– Vamos ao baile, sim. Você não costumava dançar, antes?

– E os meninos?

– Já organizei com o vizinho, não se preocupa.

E foram. Justino ainda teve que tchovar a carrinha. Ela, como sempre, desceu para ajudar. Mas o marido recusou. Desta vez, não. Ele sozinho empurrava, onde é que se vira?

Chegaram. Glória parecia não dar conta da realidade. Se deixou no assento da velha carrinha. Justino cavalheirou, mão pronta, gesto preso abrindo portas. O baile estava concorrido, cheio pelas costuras. A música transpirava pelo salão, em tonturas de casais. Os dois se sentaram numa mesa. Os olhos de Glória não exerciam. Apenas sombreavam pela mesa, pré-colegiais.

Então, se aproximou um homem, em boa postura, pedindo ao guarda-freio lhe desse licença de sua esposa para um passo respeitoso. Os olhos aterrados dela esperaram cair a tempestade. Mas não. Justino contemplou o moço e lhe fez amplo sinal de anuência. A esposa arguiu:

– Mas eu preferia dançar primeiro com meu marido.

– Você sabe que eu nunca danço…

E como ela ainda hesitasse ele lhe ordenou quase em sigilo de ternura: Vá, Glorinha, se divirta!

E ela foi, vagarosa, espantalhada. Enquanto rodava ela fixava o seu homem sentado na mesa. Olhou fundo os seus olhos e viu neles um abandono sem nome, como esse vapor que restara de seu perfume. Então, entendeu: o marido estava a oferecê-la ao mundo. O baile, aquele convite, eram uma despedida. Seu peito confirmou a suspeita quando viu o marido se levantar e aprontar a saída. Ela interrompeu a dança e correu para Justino.

– Onde vai, marido?

– Um amigo me chamou, lá fora. Já volto.

– Vou consigo, Justino.

– Aquilo lá fora não é lugar das mulheres. Fique, dance com o moço. Eu já venho.

Glória não voltou à dança. Sentada na reservada mesa, levantou o copo do marido e nele deixou a marca de seu bâton. E ficou a ver Justino se afastando entre a fumarada do salão, tudo se comportando longe. Vezes sem conta ela vira esse afastamento, o marido anonimado entre as neblinas dos comboios. Desta vez, porém, seu peito se agitou, em balanço de soluço. No limiar da porta, Justino ainda virou o rosto e demorou nela um último olhar. Com surpresa, ele viu a inédita lágrima, cintilando na face que ela ocultava. A lágrima é água e só a água lava tristeza. Justino sentiu o tropeço no peito, cinza virando brasa em seu coração. E fechou a noite, a porta decepando aquela breve desordem. Glória colheu a lágrima com dobra do próprio vestido. De quem, dentro dela mesma, ela se despedia?

Saiu do baile, foi de encontro às trevas. Ainda procurou a velha carrinha. Ansiou que ela anda ali estivesse, necessitada de empurro. Mas de Justino não restava vestígio. Voltou a casa, sob o crepitar dos grilos. A meio do carreiro se descalçou e seus pés receberam a carícia da areia quente. Olhou o estrelejo nos céus. As estrelas são os olhos de quem morreu de amor. Ficam nos contemplando de cima, a mostrar que só o amor concede eternidades.

Chegou a casa, cansada a ponto de nem sentir cansaços. Por instantes, pensou encontrar sinais de Justino. Mas o marido, se passara por ali, levara seu rastro. A Glória não lhe apeteceu a casa, magoava-lhe o lar como retrato de ente falecido. Adormeceu nos degraus da escada.

Acordou nas primeiras horas da manhã, tonteando entre sono e sonho. Porque, dentro dela, em olfatos só da alma, ela sentiu o perfume. Seria o quê? Eflúvios do velho frasco? Não, só podia ser um novo presente, dádiva da paixão que regressava.

– Justino?!

Em sobressalto, correu para dentro da casa. Foi quando pisou os vidros, estilhaçados no sopé de sua janela. Ainda hoje restam, indeléveis pegadas de quando Glória estreou o sangue de sua felicidade.
Mia Couto, "Estórias abensonhadas".

Inquilinos

Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada, e em torno do Sol de modo a garantir a correta sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico - e sem taxa de administração. Imagine se coubesse à humanidade, com sua conhecida tendência ao desleixo e à improvisação, manter a Terra na sua órbita e nos seus horários, ou se - coroando o mais delirante dos sonhos liberais - sua gerência fosse entregue a uma empresa privada, com poderes para remanejar os ventos e suprimir correntes marítimas, encurtar ou alongar dias e noites e até mudar de galáxia, conforme as conveniências de mercado, e ainda por cima sujeita a decisões catastróficas, fraudes e falência.

É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infraestrutura já estava pronta quando nós chegamos. Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento.

Podemos, isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino, inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o Juízo Final, por um cuidadoso inventário em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.

– Cadê a floresta que estava aqui? - perguntaria o Proprietário. - Valia uma fortuna.

– Este rio não está como eu deixei… E, depois de uma contagem minuciosa:

– Estão faltando cento e dezessete espécies.

A Humanidade poderia tentar negociar. Apontar as benfeitorias - monumentos, parques, áreas férteis onde outrora existiam desertos - para compensar a devastação. O Proprietário não se impressionaria.

– Para o que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.

– E a catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumentou o valor do terreno em…

– Fiquem com todas as suas catedrais, represas, cidades e shoppings. Quero o mundo como eu o entreguei.

Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de inquilinos. E do terror da indenização.
Luis Fernando Verissimo

quarta-feira, setembro 20

Quarto do leitor

 


Dono de quem?

O cão, que pensava ser dono de seu dono, que o via correr ao menor ganido (e afagá-lo a qualquer momento), teve, naquela tarde, uma surpresa: constatou, da maneira mais patética que um cão poderia fazê-lo, sofrendo como o cão mais desgraçado da quadra sofreria ante àquilo, que era preterido em função de uma garota. e não adiantaram apelos chantagistas, olhares tristes ou abanar de rabos, pois o olhar que o rapaz propôs à garota que entrava em seu quarto dizia tudo. O olhar tinha cheiro de paixão, e o cão bem sabia distinguir os cheiros. E havia o aroma que brotava daquele pescoço, um pescoço liso como a pele de uma relva, interrompido por uma fina corrente que mal separava a relva do início do rosto, da tez que era bronzeada mesmo no inverno mais rude, mesmo no vento mais cortante que arrancava folhas das árvores de nossa cidade. Naquela tarde, o cão soube quem era dono de quem, e então não teve escolha: aceitou a porta fechada em sua cara, desceu as escadas pata por pata, saiu ao pátio e ao vento nos pelos, e se pôs a roer, velho e gasto, o osso.

Cássio Grinberg

Grandes bibliotecários

Todas as pessoas que adoram livros ficam sideradas quando passam ao pé de caixotes de lixo na rua e veem pilhas de livros que alguém deitou fora como se fossem meras caixas de papel ou cartão. Pior ainda é quando se fala de guilhotinar livros das editoras porque o stock é enorme e as vendas foram fracas... É verdade que os custos de armazenagem são altíssimos, mas oferecer livros a instituições implica o pagamento do IVA correspondente, pelo que a dada altura a única solução é mesmo cortar aos bocados (ai!). Mas isto não se passa apenas em Portugal, e li no mural de uma bibliotecária portuguesa a história de um grupo de colegas suas estrangeiras que se arrepiaram quando souberam que cerca de 2000 livros que não tinham sido requisitados uma única vez ao longo do último ano na sua biblioteca iriam ser... destruídos. Chocadas com aquele procedimento, resolveram então tentar evitar a calamidade e inventaram uns quantos leitores-fantasmas, criando cartões de leitura falsos nos quais eram registadas as requisições de muitos desses livros condenados à guilhotina. Pelos vistos, salvaram uma data de volumes, que continuam lá para quem os queira ler um dia. Contrariedades que desenvolvem o engenho.

O melhor amigo de um garoto

– Onde está Jimmy, querida? – perguntou o Sr. Anderson.


– Lá fora, na cratera – disse a Sra. Anderson. – Ele está bem. Está junto com Robobo… Sabe se já chegou?

– Chegou. Está na estação de foguetes, fazendo os testes. Na realidade, eu mesmo mal posso esperar para vê-lo. Não vi nenhum de verdade desde que deixei a Terra, quinze anos atrás. Os que passaram nos filmes não contam.

– Jimmy nunca viu nenhum – disse a Sra. Anderson.

– Porque ele nasceu na Lua e não pode ir à Terra. E é por isso que estou trazendo um para cá. Acho que é o primeiro a aparecer na Lua.

– Custou bastante caro – disse a Sra. Anderson com um ligeiro suspiro.

– Manter Robobo também não é barato – disse o Sr. Anderson.

Jimmy estava lá fora, na cratera, como sua mãe tinha dito. Pelos padrões da Terra, ele era espigado, um tanto alto para os seus dez anos de idade. Seus braços e pernas eram compridos e ágeis. Parecia mais gordo e troncudo, vestido com o traje espacial, mas podia lidar com a gravidade lunar como nenhum ser humano, nascido na Terra, seria capaz. O pai não podia acompanhar-lhe os passos quando ele esticava as pernas e entrava no salto de Canguru.

A face exterior da cratera inclinava-se para o sul, e a Terra, que surgia baixa no céu meridional (onde sempre surgia, quando vista da Cidade Lunar) estava quase cheia, de modo que todo o declive da cratera ficava brilhantemente iluminado.

O declive era suave e mesmo o peso do traje espacial não impedia que Jimmy disparasse em cima dele num salto flutuante que fazia a gravidade parecer não existente.

– Venha, Robobo – ele gritou.

Robobo, que podia ouvi-lo pelo rádio, guinchou e pulou atrás.

Jimmy, embora fosse ágil, não podia correr mais depressa que Robobo, que não precisava de um traje espacial e tinha quatro pernas e tendões de aço. Robobo navegava sobre a cabeça de Jimmy, dando saltos imensos e aterrando quase sob os pés do garoto.

– Não precisa se exibir, Robobo – disse Jimmy – e não saia de vista.

Robobo guinchou outra vez o guincho especial que significava “Sim”.

– Eu não confio em você, seu enrolador – gritou Jimmy, subindo num último salto, que o conduziu sobre a curva da beira superior da parede da cratera, e o largou do outro lado, num declive interno.

A Terra mergulhou abaixo do topo da parede da cratera e, de imediato, ficou escuro como breu em volta de Jimmy. Uma escuridão amistosa e quente, que dissipava a diferença entre solo e céu, exceto pelo brilho das estrelas.

Na verdade, Jimmy não devia brincar no lado escuro da parede da cratera. Os adultos diziam que era perigoso, mas isso acontecia porque nunca estiveram ali. O chão era macio e ondulado, e Jimmy conhecia a localização exata de cada uma das poucas rochas.

Além disso, como podia ser perigoso correr no escuro se Robobo estava bem ali a seu lado, pulando em volta, guinchando e cintilando? Mesmo sem cintilar, Robobo podia dizer onde estava, e onde Jimmy estava, pelo radar. Jimmy não podia se machucar enquanto Robobo estivesse por perto, detendo-o quando ele se aproximava demais de uma rocha, ou pulando sobre ele para mostrar o quanto o amava, ou circulando em volta e guinchando baixo e assustado quando Jimmy se escondia atrás de uma rocha, embora nessas ocasiões Robobo soubesse todo o tempo, e suficientemente bem, onde ele estava. Certa vez, Jimmy se esticou imóvel no chão e fingiu estar ferido. Robobo acionou o rádio alarme e o pessoal da Cidade Lunar chegou ali às pressas. O pai de Jimmy disse-lhe poucas e boas sobre aquele pequeno embuste, e Jimmy nunca mais o repetiu.

Quando estava se lembrando disso, Jimmy ouviu a voz do pai no seu rádio individual de ondas longas.

– Jimmy, volte. Tenho uma coisa para lhe contar.

Jimmy tirou o traje espacial e se lavou. Você sempre precisa se lavar quando vem de fora. Mesmo Robobo tinha de ser borrifado, mas ele gostava disso. Ficava de gatinhas, o pequeno corpo, com menos de meio metro de comprimento, tremia e exibia uma minúscula cintilação. A cabecinha, sem boca, possuía dois grandes olhos vidrados e uma protuberância onde ficava o cérebro. Ele guinchou até ouvir a voz do Sr. Anderson:

– Quieto, Robobo!

O Sr. Anderson sorria.

– Temos uma coisa para você, Jimmy. Ainda está na estação de foguetes, mas estará conosco amanhã, depois de todos os testes terminarem. Achei que tinha de lhe contar isso agora.

– É da Terra, papai?

– Um cachorro da Terra, filho. Um cachorro de verdade. Um cãozinho “terrier” escocês. O primeiro cachorro na Lua. Não precisará mais de Robobo. Não podemos ficar com os dois, você sabe. Ele ficará com algum outro menino ou menina.

O Sr. Anderson pareceu esperar que Jimmy dissesse alguma coisa.

– Você sabe o que é um cachorro, Jimmy. É a coisa real. Robobo não passa de uma imitação mecânica, um robô boboca. Ê isso que seu nome significa.

Jimmy fez cara feia.

– Robobo não é uma imitação, papai. É o meu cachorro.

– Não um cachorro verdadeiro, Jimmy. Robobo é apenas aço, fiação e um simples cérebro positrônico. Não é um ser vivo.

– Ele faz tudo que eu quero que ele faça, papai. Ele me compreende. Sem dúvida, é um ser vivo.

– Não, filho. Robobo é só uma máquina. É apenas programado para se comportar do modo como se comporta. Um cachorro está vivo. Você não vai mais querer Robobo depois de ter o cachorro.

– O cachorro precisará de um traje espacial, não é?

– Sim, naturalmente. Mas será um dinheiro bem empregado e o cão se acostumará. E não precisará usá-lo na Cidade. Você vai ver a diferença quando ele estiver aqui.

Jimmy olhou para Robobo, que estava guinchando outra vez, um guincho lento, muito baixo, parecendo amedrontado. Jimmy estendeu os braços e Robobo deu um salto para eles.

– Qual será a diferença entre Robobo e o cachorro? – Jimmy perguntou.

– É difícil explicar – disse o Sr. Anderson – mas será fácil de perceber. O cachorro realmente gostará de você. Robobo está apenas ajustado para agir como se gostasse de você.

– Mas, papai, não sabemos o que há dentro de um cachorro ou quais são as suas sensações. Talvez seja também apenas um modo de agir.

O Sr. Anderson franziu a testa.

– Jimmy, você saberá a diferença quando experimentar o amor de uma coisa viva.

Jimmy segurou Robobo com força. Também estava franzindo a testa e o olhar desesperado em seu rosto significava que não estava disposto a mudar de ideia.

– Mas qual é a diferença no modo como eles agem? E quanto ao modo como eu sinto? Eu gosto de Robobo e isso é o que importa.

E o pequeno robô-boboca, que nunca fora abraçado com tanta força em toda a sua vida, guinchou rápidos e altos guinchos… guinchos felizes.
Isaac Asimov, "Os melhores contos de Isaac Asimov"

terça-feira, setembro 19

Sirva-se!

 


O Xá do Blá-blá-blá

Era uma vez, no país de Alefbey, uma triste cidade, a mais triste das cidades, uma cidade tão arrasadoramente triste que tinha esquecido até seu próprio nome. Ficava à margem de um mar sombrio, cheio de peixosos – peixes queixosos e pesarosos, tão horríveis de se comer que faziam as pessoas arrotarem de pura melancolia, mesmo quando o céu estava azul.


Ao norte dessa cidade triste havia poderosas fábricas nas quais a tristeza (assim me disseram) era literalmente fabricada, e depois embalada e enviada para o mundo inteiro, que parecia sempre querer mais. Das chaminés das fábricas de tristeza saía aos borbotões uma fumaça negra, que pairava sobre a cidade como uma má notícia.

E nas entranhas da cidade, atrás de uma velha zona de edifícios caindo aos pedaços, que mais pareciam corações partidos, vivia um garoto feliz, chamado Haroun, filho único de Rashid Khalifa, o contador de histórias, cuja alegria era famosa em toda aquela infeliz metrópole, e cujo fluxo interminável de histórias críveis e incríveis, entrelaçadas e serpenteantes, tinha lhe valido não só um apelido, mas dois. Para seus admiradores ele era Rashid, o Mar de Ideias, tão recheado de histórias gostosas como o mar era recheado de peixosos; mas, para seus invejosos rivais, ele era o Xá do Blá-blá-blá. Para sua mulher, Soraya, Rashid foi por muitos anos o marido mais amoroso que se poderia desejar, e durante todos esses anos Haroun foi criado numa casa onde, em vez de tristeza e rugas na testa, havia o riso fácil do seu pai e a voz doce da sua mãe cantando canções que voavam pelo ar.

Foi então que alguma coisa deu errado (quem sabe a tristeza da cidade acabou penetrando pelas janelas da casa?)

No dia em que Soraya parou de cantar no meio de um verso, como se alguém tivesse desligado uma chave, Haroun imaginou que alguma complicação estava começando. Mas ele nem desconfiava o quanto essa complicação era complicada.
Salman Rushdie, "Haroun e o Mar de Histórias"

É preciso restaurar o Homem

Quem vê nisso uma doutrina de fraco? O chefe é responsável por tudo. Ele diz: Fui vencido. Ele não diz: “Meus soldados foram vencidos”. O verdadeiro homem fala assim. Hochedé diria: Eu sou responsável.

Compreendo o sentido da humildade. Ela não é um aviltamento de si. É o próprio princípio da ação. Se, com o intuito de absolver-me, justifico meus infortúnios pela fatalidade, submeto-me à fatalidade. Se os justifico pela traição, submeto-me à traição. Mas se assumo o erro, reivindico meu poder de homem. Posso agir sobre aquilo que sou. Sou parte constituinte da comunidade dos homens.

Há, então, alguém em mim que combato para crescer. Foi necessária essa viagem difícil para que distinguisse em mim, de um jeito ou de outro, o indivíduo que eu combato do homem que amadurece. Não sei o que vale a imagem que me vem, mas penso: o indivíduo é apenas uma via. Só importa o Homem que a emprega.
Já não posso me satisfazer com verdades de polêmica. De nada serve acusar os indivíduos. Eles são apenas vias e passagens. Não posso mais justificar o enregelamento de minhas metralhadoras por negligências de funcionários, nem a ausência de povos amigos por seu egoísmo. A derrota, decerto, se exprime por falhas individuais. Mas uma civilização molda os homens. Se aquela a que julgo pertencer está ameaçada pela derrota dos indivíduos, tenho o direito de perguntar-me por que ela não os forjou diferentemente.

Uma civilização, assim como uma religião, acusa a si mesma se deplora a moleza dos fiéis. Cabe-lhe exaltá-los. O mesmo vale se deplora o ódio dos infiéis. Cabe-lhe convertê-los. Entretanto, a minha, que outrora passou suas provações, inflamou seus apóstolos, arrebentou os violentos, libertou povos escravos, não soube, hoje, nem exaltar nem converter. Se desejo arrancar a raiz das diversas causas de minha derrota, se tenho ambição de reviver, devo reencontrar primeiro o fermento que perdi.

Pois acontece numa civilização como para o trigo. O trigo nutre o homem, mas o homem, por sua vez, salva o trigo, cuja semente ele armazena. A reserva de grãos é respeitada, de geração de trigo para geração de trigo, como uma herança.
Não me basta saber qual trigo desejo para que ele germine. Se quero salvar um tipo de homem — e seu poder — devo salvar também os princípios que o fundam.
Todavia, se conservei a imagem da civilização que reivindico como minha, perdi as regras que a transportavam. Descubro esta noite que as palavras que usava não tocavam mais o essencial. Eu pregava assim a Democracia, sem suspeitar que enunciava, com isso, sobre as qualidades e a sorte do homem, não mais o conjunto de regras, mas um conjunto de aspirações. Desejava que os homens fossem fraternos, livres e felizes. Claro. Quem não concorda? Sabia expor “como” deve ser o homem. E não “quem” ele deve ser.

Falava, sem precisar as palavras, da comunidade dos homens. Como se o clima ao qual fazia alusão não fosse fruto de uma arquitetura particular. Parecia-me evocar uma evidência natural. Não há evidência natural. Uma tropa fascista, um mercado de escravos são, também, comunidades de homens.

Eu não habitava mais essa comunidade dos homens como arquiteto. Beneficiava-me de sua paz, sua tolerância, seu bem-estar. Não sabia nada a seu respeito, senão que estava instalado nela. Estava nela como sacristão ou como um papa-hóstias. Ou seja, parasita. Ou seja, vencido.

Assim são os passageiros de um navio. Usam o navio sem nada lhe dar. Ao abrigo dos salões, que eles tomam por cenário absoluto, prosseguem com seus jogos. Ignoram o trabalho das meias-naus sob o peso eterno do mar. Que direito reclamarão se a tempestade desmantelar seu navio?


Se os indivíduos se abastardaram, se fui vencido, do que vou reclamar?

Há um denominador comum com as qualidades que desejo aos homens de minha civilização. Há uma pedra angular na comunidade particular que eles devem fundar. Há um princípio de onde tudo saiu outrora, raízes, tronco, galhos e frutos. Qual é ele? Ele era grão potente no adubo dos homens. Só este me pode fazer vencedor.


Parece-me que compreendo muitas coisas na minha estranha noite de vila. O silêncio é de uma qualidade extraordinária. O mínimo ruído preenche o espaço inteiro, como um sino. Nada me é desconhecido. Nem esse lamento de gado, nem esse apelo longínquo, nem esse barulho de uma porta que se fecha. Tudo acontece como em mim mesmo. Não é preciso apressar-me em captar o sentido de um sentimento que pode esmaecer…

Eu penso: “É o tiro de Arras…”. O tiro rachou uma casca. Neste dia inteiro, eu certamente preparei em mim a morada. Eu era apenas um gerente resmungão. O indivíduo é isso. Mas o Homem surgiu. Ele se instalou em meu lugar, simplesmente. Olhou a multidão amontoada, e viu um povo. Seu povo. O Homem, denominador comum entre mim e esse povo. É por isso que, correndo para o Grupo, parecia-me correr a um grande fogo. O Homem olhava através dos meus olhos o homem denominador comum dos camaradas.


Seria um sinal? Estou a ponto de crer nos sinais… Tudo é, esta noite, entendimento tácito. Qualquer barulho me atinge como uma mensagem límpida e ao mesmo tempo obscura. Ouço um passo tranquilo preencher a noite:

— Ei, boa noite, Capitão…

— Boa noite!

Não o conheço. Foi entre nós como um “oi” de bateleiros, de uma barca a outra.
Ainda uma vez tive o sentimento de um miraculoso parentesco. O Homem que me habita esta noite não cessa de enumerar os seus. O Homem denominador comum dos povos e das raças…

Ele voltava, aquele ali, com sua provisão de preocupações, de pensamentos e de imagens. Com sua carga própria, encerrada dentro de si. Poderia tê-lo abordado e falado com ele. Na pureza de uma senda de vila, teríamos trocado algumas de nossas lembranças. Assim, os comerciantes trocam tesouros, caso se cruzem, retornando das ilhas.

Em minha civilização, aquele que difere de mim, longe de me lesar, enriquece-me. Nossa unidade, acima de nós, funda-se no Homem. Assim, nossas conversas à noite, no Grupo 2/33, longe de prejudicar nossa fraternidade, a apoiam, pois ninguém deseja ouvir seu próprio eco, nem olhar-se num espelho.

No Homem se encontram, também, os Franceses da França e os Noruegueses da Noruega. O Homem os liga em sua unidade, ao mesmo tempo que exalta, sem contradizer-se, seus costumes particulares. A árvore também se exprime, por galhos que não se parecem com as raízes. Se, então, lá, escrevem-se contos sobre a neve, se tulipas são cultivadas na Holanda, se flamencos se improvisam na Espanha, estamos todos enriquecidos no Homem. É talvez por isso que desejemos, nós do Grupo, combater pela Noruega…


E eis que me parece chegar ao termo de uma longa peregrinação. Não descubro nada, mas, como o despertar de um sono, revejo simplesmente o que eu não olhava mais.

Minha civilização repousa sobre o culto do Homem através dos indivíduos. Elaentou, por séculos, mostrar o Homem, como se tivesse ensinado a distinguir uma catedral através das pedras. Ela pregou esse Homem que dominava o indivíduo…

Pois o Homem de minha civilização não se define a partir dos homens. São os homens que se definem por ele. Há nele, como em todo Ser, alguma coisa que a matéria que o compõe não explica. Uma catedral é bem diferente de uma soma de pedras. É geometria e arquitetura. Não são as pedras que a definem, é ela que enriquece as pedras com seu próprio significado. Essas pedras são enobrecidas por serem pedras de uma catedral. As pedras mais diversas contribuem para sua unidade. A catedral absorve até as carrancas mais careteiras em seu cântico.

Mas, pouco a pouco, esqueci a minha verdade. Eu acreditei que o Homem resumia os homens, como a Pedra resume as pedras. Confundi a catedral e a soma de pedras e, pouco a pouco, a herança desvaneceu. É preciso restaurar o Homem. É ele a essência de minha cultura. É ele a chave de minha Comunidade. É ele o princípio da minha vitória.
Antoine de Saint-Exupéry, "Piloto de Guerra"

Cuidado com o livro

Sabem do que tenho mais saudades? Do livro aberto. Sim, isso mesmo, tenho saudade de ver um livro escancarado na mão de um leitor. Já não me lembro da última vez que vi um livro a ser devorado em público. Ler em público, ou até carregar um livro debaixo do braço, passou à história, é hoje praticamente figura de museu, alimento da nostalgia de poetas, romancistas e cronistas, para se empanturrarem até arrotarem os seus desvarios e estórias, que por vaidade ou capricho masoquista se dão ao trabalho de publicar em livros, que ficarão para sempre calados.

Nutrimos pelos livros o mesmo que sentimos por certos cães: medo. As casas comerciais, cada vez mais escassas, que carregam na fachada a palavra “Livraria” são encaradas com o mesmo respeitinho que nutrimos por aquelas habitações onde nos portões se lê “Cuidado com o cão”. As nossas bibliotecas estão para nós como os canis municipais: nunca pomos lá os pés. Ninguém quer ver, ninguém está para se comover com aquela quantidade de livros abandonados, engaiolados nas prateleiras numa agonia sem fim.

Quando kandengues, nossos pais, para incutir sentido de responsabilidade, nos davam de presente livros, e com eles as mesmas recomendações que forneciam quando nos ofereciam o nosso primeiro cachorrinho: “Cuida bem dele, leva-o a passear, é o teu melhor amigo”. Nós, na emoção inicial, brincávamos com eles envoltos naquela alegria infantil. Quando cresceram, ou melhor, quando nós crescemos, os abandonámos com a sua coleira/prateleira num canto qualquer, até morrerem de velhice.

O desaparecimento do livro do espaço público me leva de volta ao tempo em que em Luanda, anos 1980-90, se não me falha a memória, os cães que circulavam pela cidade desapareceram de forma repentina. Dizem as más-línguas que os responsáveis seriam um grupo de cooperantes filipinos cuja culinária, de tão vasta e exótica, incluía alguns quitutes e guisados confeccionados com carne de rafeiro. Um mito urbano que alimentou o nosso imaginário coletivo durante anos e, até hoje, repousa num anexo nos fundos da nossa memória.

Caros leitores, amigos da provocação e da conversa fiada, do largo da Maianga aos cafés da Restinga, de estímulo e afeto, românticos e nostálgicos, amantes da velha e quase extinta arte da leitura, permitam-me que vos dedique estas palavras, perdoem a vaidade deste vosso humilde cronista, tão pecador como qualquer outro, mas que vos tem na mais alta estima. A vocês, caros companheiros das manhãs aborrecidas de terça-feira, cuja utilidade, para além de ser mais um dia de labuta semanal, é apenas a de nos lembrar que o fim de semana ainda vem longe.

Se tencionam iniciar uma coleção de livros, estimados leitores, eis aqui algumas informações úteis que temos a obrigação de não respeitar:

• Logo a partir dos primeiros meses, todos os livros, sem exceção, devem ser vacinados anualmente contra a raiva;

• Os livros não devem ter livre acesso à rua;

• Ao sair com o livro, mantenha-o sob controlo, utilizando coleira e guia;

• Nunca provoque um livro;

• Não toque em livros estranhos, feridos ou que estejam se alimentando;

• Não separe lutas entre livros, nem mexa com escritores e as suas criações;

• E em caso de acidentes por mordedura: lavar o ferimento com água e sabão e procurar orientação médica; identificar o livro agressor e o seu proprietário; caso o livro seja conhecido, observar o objeto por dez dias.
Kalaf Epalanga, "Minha pátria é a língua portuguesa"

segunda-feira, setembro 18

Ivette

De saída do Café Riche1, Jean de Servigny disse para Léon Saval:

— Se quiseres, vamos a pé. O tempo está demasiado bom para apanharmos um fiacre. E o amigo respondeu:

— É mesmo o que me está a apetecer.

Jean prosseguiu:

— Ainda passa pouco das onze, iremos chegar muito antes da meia‑noite, portanto vamos com calma.

Uma multidão irrequieta fervilhava na alameda, aquela massa de gente que, nas noites de verão, se agita, bebe, murmura e flui como um rio, satisfeita e alegre. Aqui e ali, um café lançava um grande jorro de luz sobre o amontoado de bebedores, sentados no passeio diante de mesinhas cobertas de copos e garrafas, atrapalhando a passagem dos transeuntes apressados. E na calçada, fiacres de lanternas como olhos, vermelhas, azuis ou verdes, cruzavam de repente a claridade da fachada iluminada, revelando por um segundo a silhueta esguia e saltitante do cavalo, o perfil elevado do cocheiro e a carroçaria escura da carruagem. Os da L’Urbaine produziam manchas claras e rápidas, quando os seus painéis amarelos eram atingidos pela luz.

Os dois amigos caminhavam em passo lento, de charuto na boca e casaca, com o sobretudo no braço, flor na lapela e chapéu um pouco inclinado, como se põe às vezes, por negligência, quando se jantou bem e a brisa sopra morna.

Unia os dois uma afeição estreita, devotada e sólida, desde o tempo do colégio.
Jean de Servigny, baixo, esguio, um pouco calvo, com ar frágil, muito elegante, de bigode frisado nas pontas, olhos claros e lábios finos, era um desses homens da noite que parecem ter nascido e crescido na boémia. Incansável embora sempre com um ar extenuado, vigoroso embora pálido, era daqueles parisienses magros a quem o ginásio, a esgrima, os banhos e a sauna imprimiram uma força nervosa e artificial. Era tão conhecido pela sua estroinice como pela sua inteligência, a sua fortuna, as suas relações, e por aquela sociabilidade, aquela amabilidade e aquela galanteria mundana peculiares a certos homens.

Um verdadeiro parisiense, pois, fútil, cético, volúvel, cativante, enérgico e indeciso, capaz de tudo e de nada; egoísta por princípio e generoso por impulso, consumia os seus rendimentos com moderação e divertia‑se com higiene. Indiferente e apaixonado, deixava‑se levar e recuava constantemente, impelido por instintos antagónicos e cedendo a todos, para acabar a obedecer ao seu juízo de folgazão vivaço, cuja lógica de catavento consistia em deixar‑se ir com a corrente e tirar proveito das circunstâncias, sem se dar ao trabalho de as produzir.

O seu companheiro, Léon Saval, também rico, era um desses magníficos colossos que fazem as mulheres voltar a cabeça na rua para os mirarem. Parecia um monumento feito homem, um padrão da raça, à semelhança daqueles objetos que são enviados para exposições como modelos. Demasiado bonito, demasiado alto, demasiado largo, demasiado forte, pecava um pouco por excesso de tudo, por excesso de qualidades. Tinha provocado inúmeras paixões.

Chegados diante do Vaudeville2, perguntou:

— Preveniste a senhora de que me ias levar contigo?

Servigny desatou a rir.

— Prevenir a Marquesa Obardi! Acaso prevines o cocheiro de um fiacre de que vais apanhá‑lo à esquina da avenida?

Um pouco perplexo, Saval perguntou:

— Afinal, quem vem a ser essa pessoa?

O amigo respondeu:

— Uma arrivista, uma aventureira, uma cortesã encantadora; saída não se sabe de onde, apareceu um dia, não se sabe como, no mundo dos aventureiros, onde consegue fazer figura. O que não nos interessa para nada. Diz‑se que o seu verdadeiro nome, nome de solteira — pois permanece solteira a todos os títulos, exceto o da inocência —, é Octavie Bardin, daí o Obardi, afixando a primeira letra do nome próprio e suprimindo a última do apelido.


“À parte isso, é uma mulher amável, de quem vais inevitavelmente ser amante, pelo teu físico. Não se introduz Hércules na casa de Messalina sem que algo aconteça. Devo, no entanto, acrescentar que, por a entrada nesta morada ser livre, como nos bazares, não se é rigorosamente obrigado a comprar o que aí está à disposição. Temos amor e cartas para consumo, mas ninguém é obrigado nem a um nem às outras. A saída também é livre.

“Ela instalou‑se há três anos na Étoile, bairro duvidoso, e abriu os seus salões a essa escória dos continentes que vem a Paris exercer os seus diversos talentos, temíveis e criminosos.

“Fui dar à casa dela! Como? Já não me lembro. Apareci lá, como os demais, porque se joga, porque as mulheres são fáceis e os homens desonestos. Adoro esse mundo de embusteiros com insígnias variadas, todos estrangeiros, todos nobres, todos titulados e todos desconhecidos das respetivas embaixadas, com exceção dos espiões. Todos falam de honra a despropósito, citam antepassados a propósito de nada, contam histórias da sua vida a propósito de tudo; fanfarrões, mentirosos, trapaceiros, perigosos como os seus baralhos, falsos como os seus nomes, ousados por necessidade, como os assassinos que, para roubarem as pessoas, têm de pôr em risco a própria vida. Enfim, é a aristocracia do cárcere.
“Adoro‑os. São interessantes de entender, interessantes de conhecer, divertidos de ouvir, frequentemente espirituosos, nunca banais como os mangas de alpaca franceses.

“As mulheres são sempre bonitas, com um leve toque de malícia estrangeira e o mistério das suas existências anteriores, metade das quais eventualmente passadas nalguma casa de correção. Têm, de uma maneira geral, olhos magníficos e cabelos incomparáveis, a aparência certa para o ofício, uma graça inebriante, uma sedução que leva a loucuras, um encanto perverso e irresistível! São conquistadoras como os salteadores de estrada de outrora, vorazes, verdadeiras fêmeas de aves de rapina. Também as adoro.

“A Marquesa Obardi é uma dessas típicas cortesãs elegantes. Madura e  sempre bela, sedutora e felina, percebe‑se nela depravação até à medula. É grande a diversão em sua casa, joga‑se, dança‑se, come‑se… enfim, faz‑se tudo o que constitui os prazeres da vida mundana.”

Léon Saval perguntou:

— Foste ou és seu amante?

Servigny respondeu:

— Não fui, não sou e nunca serei. Vou lá sobretudo por causa da filha.

— Ah! Ela tem uma filha?

— Se tem uma filha! Uma maravilha, meu caro. É hoje a principal atração desse covil. Alta, magnífica, madura no ponto, dezoito anos, tão loira como a mãe é morena, sempre alegre, sempre pronta para a paródia, sempre a rir com gosto e a dançar com arrebatamento. Quem virá a possuí‑la? Ou quem já a possuiu? Não se sabe. Somos dez à espera, ansiosamente à espera.

“Uma rapariga assim, nas mãos de uma mulher como a Marquesa, representa uma fortuna. E elas fazem jogo duro, as duas libertinas. Não deixam perceber nada. Devem estar à espera de uma oportunidade… melhor… do que eu. Mas garanto‑te que a vou agarrar bem… a oportunidade, se a vir.

“Essa rapariga, a Yvette, deixa‑me absolutamente desconcertado. É um mistério. Se não é o monstro de astúcia e perversidade mais acabado que já conheci, é certamente o mais maravilhoso fenómeno de inocência que se pode encontrar. Vive naquele meio infame com um à‑vontade tranquilo e triunfante, como admirável celerada ou total ingénua.

“Rebento maravilhoso de aventureira, criada no meio do esterco daquele mundo, planta magnífica alimentada na podridão; talvez filha de um homem de alta linhagem, de algum grande artista ou de algum grande senhor, de algum príncipe ou de algum rei caído, certa noite, no leito da mãe — não se consegue perceber o que ela é, nem o que pensa. Mas vais vê‑la.”

Saval pôs‑se a rir e disse:

— Estás apaixonado por ela.

— Não. Sou parte interessada, o que não é a mesma coisa. Aliás, vou apresentar‑te os meus copretendentes mais sérios. Mas tenho boas hipóteses.
Disponho de vantagem, demonstram‑me alguma preferência.

Saval repetiu:

— Estás apaixonado.

— Não. Ela perturba‑me, seduz‑me e inquieta‑me, atrai‑me e assusta‑me. Desconfio dela como de uma armadilha e desejo‑a como se deseja um sorvete quando se tem sede. O seu encanto subjuga‑me e aproximo‑me sempre dela com a mesma apreensão que se tem em relação a um homem suspeito de ser um hábil ladrão. Perto dela, sinto uma atração irracional pela sua possível candura e uma desconfiança muito racional em relação à sua não menos provável astúcia. Sinto‑me em contacto com um ser anormal, fora das leis naturais, especial ou detestável. Não sei.

Saval pronunciou‑se pela terceira vez:

— Digo‑te que estás apaixonado. Falas dela com uma ênfase de poeta e um lirismo de trovador. Vá lá, olha para dentro, sonda o teu coração e confessa.

Servigny deu alguns passos sem falar, depois respondeu:

— É possível, de facto. De qualquer forma, ela preenche‑me muito o espírito. Sim, talvez esteja apaixonado. Cogito demasiado nela. Penso nela ao adormecer e também ao acordar… O caso está bastante grave.

Guy de Maupassant, 'Yvette'

Homenagem a Fernando Botero

 



Deus no cirquinho

No circo de periferia, com arquibancada completa, Deus já foi hoje equilibrista, trapezista e agora, de olhos vendados, no globo da morte persegue com sua motocicleta raivosa, diante dos espectadores eletrizados, outra motocicleta furiosa. Do lado de fora, com fome no estômago e desespero no coração, um homem deita-se na calçada que é seu colchão e pergunta-se por que Deus há tanto tempo não faz mais com os pães aquele número da multiplicação.

***

Há muito tempo que já não sei se vivo ou se morro, se estou aqui ou se lá, se peço enterro ou socorro.

***

É um poeta moderno. Se for preciso, venderá a mãe, mas jamais usará palavras como amor, sonho, flor e primavera.

***

É um poeta honesto. Não faz um verso fora de medida, não cobra adicional quando utiliza rimas ricas e nunca submete a jornadas duplas as rimas de seus sonetos.

***

Tu deves recordar-te ainda de como os dias luziam e as flores te recebiam no tempo em que eras bem-vinda.

***

Quando conheci a poesia, descobri que as lágrimas não eram a única maneira de exprimir minha tristeza.

***

Quantos por aí vivem mais felizes que eu, sem nunca terem sabido o que é um subjuntivo.

***

Hoje me peguei imaginando se Dante, Shakespeare e Cervantes não seriam meros heterônimos de Deus.

Os mais célebres 'Era uma vez'

Quando o Coelho Branco aparece diante do Rei Vermelho para dar seu depoimento no País das Maravilhas, diz que não sabe por onde começar. “Comece do começo”, lhe diz o Rei, “e continue até chegar ao final. Então pare”. Mas o que é esse começo? São João, pensando sem dúvida que dessa forma esclarecia o complexo dogma cristão, escreveu que no começo era o verbo. Séculos mais tarde, na primeira parte de Fausto, o desiludido médico procura nessa primeira palavra o entendimento que sente que lhe falta. Lutero teria traduzido esse verbo (logos) como wort, “palavra”, perdendo assim os outros sentidos implícitos no vocábulo grego, e Fausto se propõe a lê-los como “sinn”, “kraft” e “tat” – “intelecto”, “força” e “ação” –. Para Fausto, todas essas coisas estão no começo do livro sagrado.

As palavras iniciais de todo texto devem fazer pressentir as páginas seguintes. Pausada ou bruscamente, resumindo o argumento ou distraindo o leitor para que ele não adivinhe o desenlace, indicando o tom da narração que virá ou dando falsos indícios, se desculpando ou se vangloriando da aptidão do autor, as primeiras palavras são o gesto de reconhecimento e desafio lançados do ponto final de um livro ao leitor que inicia o percurso. Por motivos geralmente misteriosos, algumas dessas aberturas se tornam tão célebres que se transformam em lugares-comuns, enquanto outras são relegadas ao esquecimento como paixões fugazes.



Todo leitor reconhece o aterrador início de A Metamorfose, de Kafka: “Em uma manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregorio Samsa se encontrou em sua cama transformado em um monstruoso inseto”. Ninguém pode se esquecer do inapelável começo de O Contrato Social, de Rousseau: “O homem nasceu livre e por todos os lados se encontra acorrentado”. Por que lembramos do musical início de As Ruínas Circulares, de Borges (“Ninguém o viu desembarcar na unânime noite”), e não com igual facilidade “Gostávamos tanto da casa porque, além de ser espaçosa e antiga”, de A Casa Tomada de Cortázar? Talvez pelo poder do inaudito adjetivo “unânime”, bem mais memorável do que os banais, ainda que exatos, epítetos “espaçosa e antiga”. Isso sugere que talvez nos deixamos seduzir mais prontamente pelo tom dos começos do que por seus significados. “Fala-me, Musa, do varão de grande engenho” com que começa a Odisseia e “Canta, Deusa, a cólera de Aquiles” da Ilíada dependem, para que lembremos deles, e a menos que saibamos grego antigo, da tradução que escolhemos para lê-las.

Sem levar em consideração as páginas preliminares que Cervantes escreveu para seu Dom Quixote, mesmo os que não leram o romance sabem de cor as primeiras hoje célebres palavras do primeiro capítulo. Apesar, entretanto, dos inumeráveis comentários que apareceram desde a publicação do livro em 1605 (e ainda antes, quando circulavam cópias manuscritas do livro, como provam as respostas que dá Lope a Cervantes em El Peregrino en su Patria, publicado no ano anterior), não sabemos nada de como Dom Quixote foi composto. Não conservamos um manuscrito feito por Cervantes, não sabemos quais foram seus primeiros esboços, suas dúvidas, quais outras palavras iniciais foram imaginadas e descartadas, qual foi sua inspiração inicial.

O imprescindível Francisco Rico, comentando em 1996 uma edição crítica do Dom Quixote de Rodríguez Marín, observou que a longa nota sobre aquele “lugar da Mancha de cujo nome não quero me lembrar” demonstrava a influência de “um minguado romancezinho que nem o autor nem ninguém poderia ter em conta” e não dizia nada sobre a palavra lugar, que o leitor, segundo Rico, “interpreta indefectivelmente e equivocadamente como ‘local’, ‘paragem’ e não como povoadinho”. Rico acrescenta que a emoção que podem despertar no leitor as famosas palavras de Cervantes muitas vezes precisa dispensar todo o arcabouço crítico. As primeiras palavras de uma obra prima podem prescindir de facilitadores.

Goethe dizia que, antes de escrever um livro, era preciso tê-lo “todo na cabeça” porque “um livro não começa necessariamente pela primeira frase”. Provavelmente isso é verdade, mas há algo inefável nas palavras iniciais que para um leitor é o “Abre-te, Sésamo”, de um texto. “Arma virumque cano”, “Nel mezzo del cammin di nostra vita”, “Call me Ishmael”, “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz o é à sua maneira”, “Longtemps je me suis couché de bonne heure”, se transformaram, ao longo de nossas leituras, em uma espécie de catálogo abreviado da literatura universal canônica.

Passeio à infância

Primeiro vamos lá embaixo no córrego; pegaremos dois pequenos carás dourados. E como faz calor, veja, os lagostins saem da toca. Quer ir de batelão, na ilha, comer ingás? Ou vamos ficar bestando nessa areia onde o sol dourado atravessa a água rasa? Não; catemos pedrinhas redondas para a atiradeira, porque é urgente subir no morro; os sanhaços estão bicando os cajus maduros. É janeiro, grande mês de janeiro!

Podemos cortar folhas de pita, ir para o outro lado do morro e descer escorregando no capim até a beira do açude. Com dois paus de pita, faremos uma balsa, e, como o carnaval é no mês que vem, vamos apanhar tabatinga para fazer formas de máscaras. Ou então vamos jogar bola-preta: do outro lado do jardim tem um pé de saboneteira.

Se quiser, vamos. Converta-se, bela mulher estranha, numa simples menina de pernas magras e vamos passear nessa infância de uma terra longe. É verdade que jamais comeu angu de fundo de panela?

Bem pouca coisa eu sei: mas tudo que sei lhe ensino. Estaremos debaixo da goiabeira; eu cortarei uma forquilha com o canivete. Mas não consigo imaginá-la assim; talvez se na praia ainda houver pitangueiras… Havia pitangueiras na praia? Tenho uma ideia vaga de pitangueiras junto à praia.

Iremos catar conchas cor-de-rosa e búzios crespos, ou armar o alçapão junto do brejo para pegar papa-capim. Quer? Agora devem ser três horas da tarde, as galinhas lá fora estão cacarejando de sono, você gosta de fruta-pão assada com manteiga? Eu lhe dou aipim ainda quente com melado. Talvez você fosse como aquela menina rica, de fora, que achou horrível nosso pobre doce de abóbora e coco.

Mas eu a levarei para a beira do ribeirão, na sombra fria do bambual; ali pescarei piaus. Há rolinhas. Ou então ir descendo o rio numa canoa bem devagar e de repente dar um galope na correnteza, passando rente às pedras, como se a canoa fosse um cavalo solto. Ou nadar mar afora até não poder mais e depois virar e ficar olhando as nuvens brancas. Bem pouca coisa eu sei; os outros meninos riram de mim porque cortei uma iba de assa-peixe. Lembro-me que vi o ladrão morrer afogado com os soldados de canoa dando tiros, e havia uma mulher do outro lado do rio gritando.

Mas como eu poderia, mulher estranha, convertê-la em menina para subir comigo pela capoeira? Uma vez vi uma urutu junto de um tronco queimado; e me lembro de muitas meninas. Tinha uma que era para mim uma adoração. Ah, paixão da infância, paixão que não amarga. Assim eu queria gostar de você, mulher estranha que ora venho conhecer, homem maduro. Homem maduro, ido e vivido; mas quando a olhei, você estava distraída, meus olhos eram outra vez os encantados olhos daquele menino feio do segundo ano primário que quase não tinha coragem de olhar a menina um pouco mais alta da ponta direita do banco.

Adoração de infância. Ao menos você conhece um passarinho chamado saíra? É um passarinho miúdo. Imagine uma saíra grande que de súbito aparecesse a um menino que só tivesse visto coleiros e curiós, ou pobres cambaxirras. Imagine um arco-íris visto na mais remota infância, sobre os morros e o rio. O menino da roça que pela primeira vez vê as algas do mar se balançando sob a onda clara, junto da pedra.

Ardente da mais pura paixão de beleza é a adoração da infância. Na minha adolescência você seria uma tortura. Quero levá-la para a meninice. Bem pouca coisa eu sei; uma vez na fazenda riram: ele não sabe nem passar um barbicacho! Mas o que sei lhe ensino; são pequenas coisas do mato e da água, são humildes coisas, e você é tão bela e estranha! Inutilmente tento convertê-la em menina de pernas magras, o joelho ralado, um pouco de lama seca do brejo no meio dos dedos dos pés.

Linda como a areia que a onda ondeou. Saíra grande! Na adolescência me torturaria; mas sou um homem maduro. Ainda assim às vezes é como um bando de sanhaços bicando os cajus de meu cajueiro, um cardume de peixes dourados avançando, saltando ao sol, na piracema; um bambual com sombra fria, onde ouvi silvo de cobra, e eu quisera tanto dormir. Tanto dormir! Preciso de um sossego de beira de rio, com remanso, com cigarras. Mas você é como se houvesse demasiadas cigarras cantando numa pobre tarde de homem.
Rubem Braga